sexta-feira, novembro 06, 2026

Um dia bom para o Montenegro

 

Adquiri o terrível hábito de, pouco depois de acordar e antes de ganhar balanço para me levantar, dar uma vista de olhos pelo que se passou durante o meu sono: pego no telemóvel, vejo mails, mensagens, notícias, instagram. Tudo pela rama porque não gosto de estar deitada na cama estando acordada. 

Esta quinta-feira, apareceu-me o Cristiano Ronaldo meio às escuras, pareceu-me que num canto da casa, meio dobrado, a ler um papel e a dizer que finalmente ia deslargar-se da Selecção. Pensei: 'Tá bem, abelha, como se eu fosse cair nessa, há de andar a cair da tripeça e a fazer beicinho para o deixarem jogar', e continuei sem prestar puto de atenção. Imaginei que, daí por um bocado, apareceria ele a rir-se: 'Gandas totós, acreditaram? Não viram que era a fake?', ou, mesmo, que aparecesse a inefável Kátia ou a mana-superior Elma a rirem-se de quem tinha caído na balela. 

Contudo, quando cheguei aos jornais, lá estava: afinal era mesmo verdade e eu é que já desconfio de tudo o que é improvável. E, sendo assim, pensei: o Montenegro já se safou, já ninguém vai querer saber das acampadas ou do Neves, vai ser uma overdose de CR7. 

Quando ouvi que um senhor, nem quero pensar no horror da situação, tendo dado entrada com dores abdominais horríveis, esteve doze horas na sala de espera sem que nenhum médico o tivesse visto, apesar dos apelos da mulher, e que acabou por morrer sentado, na cadeira, sozinho (a meio da noite disse à mulher que fosse para casa que ele suportava as dores), senti uma revolta imensa. Quantas vezes passei eu horas e horas e horas a fio à espera que atendessem os meus pais, sem que dessem informação, muitas vezes sem que os vissem. Sei bem o horror que isso é, a ansiedade, o desconforto, a impotência. Agora isto é demais: deixar uma pessoa morrer na sala de espera depois de doze horas parece crueldade, desumanidade. Cambada de incompetentes, cambada de estúpidos. Raios os partam. Não é admissível uma pouca vergonha destas.

E pensei: sorte a do Montenegro que isto tenha acontecido no dia em que o CR7 finalmente percebeu que já estava mais que na hora. 

E comentei: vai ser como se a diva Cris tivesse morrido -- as televisões já têm de certeza o epitáfio mais do que cozinhado. Documentário com ele desde pequenino até agora, os golos, os choros, os magníficos saltos, as glórias, tudo com o bruá-á dos estádios, músicas apoteóticas, a onda de aplausos que coroa os golos. Se já era herói agora, vai virar super herói e só não o mandam já, de penalti, para o Panteão porque, se a vida continuar a ser-lhe generosa, para isso ainda faltam uns longos anos. Mas o lugarzinho já há de estar mais do que cativo. E logo imaginei os canais todos pejados de comentadores, loas e mais loas, CR7 o maior, a estrela galáctica, o vip mais vip de todos os vips, o amigo do Trump e dos príncipes árabes (bem, se calhar no Trump e nos príncipes, se falarem, vai ser muito ao de leve, bem como aquela cena de ele beijar o cachecol da Arábia Saudita). E pensei que os mais críticos nem ousariam destoar da ladaínha generalizada.

Por isso, foi um bom dia para o Montenegro.

Nem na tenda da Renata e nas outras devem falar, sorte a dele.

De qualquer maneira, com a chuva, a malta do acampamento também deve desaderir. Provavelmente, para não darem o braço a torcer deixam lá ficar as tendas. No fim, ainda há de ser como os cartazes das eleições, já as eleições foram há dois anos e os cartazes ainda continuam nas rotundas. A Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, contou que foi a Madrid quando ainda lá estavam as tendas mas quem lá estava já não eram os bacanos dos campistas da conchinha, já só eram os sem-abrigo que aproveitaram terem ali uma tendinha à maneira.

Note-se: sou completamente a favor de manifestações e concordo que se há matéria sobre a qual é justo que haja protestos uma delas é seguramente a da escassez de casas para a classe média/baixa, para os pobres, para os que não têm alternativa senão viverem em quartos, viverem ao monte ou em bairros clandestinos. 

Mas não me parece razoável que os manifestantes ocupem espaço público para acamparem, de certeza conspurcando tudo aquilo (ou andam todos de fralda?). Imagino a bela porcaria que para ali deve ir. Enfim.

Pode dizer-se que eu me deixe de picuinhices, que o acampamento é simbólico e que chama a atenção. Certo. Mas poderiam manifestar-se todos os dias e à meia noite irem para casa. Também é certo que as televisões se fartariam porque seria todos os dias mais do mesmo. E, assim como assim, com confrontos com a polícia (mais uma inabilidade e incompetência do Montenegro, que não percebeu ainda como é que as coisas funcionam), as televisões estavam lá caídas e o tema deu canal durante dias e noites a fio. Só que tudo o que se repete cai no déjà vu e as audiências não se alimentam do que é igual ao dia anterior. Portanto, com chuva ou sem chuva, a coisa já deu o que tinha a dar. Com isso, o Montenegro já não tem muito mais com que se preocupar.

O Seguro e a malta do Conselho de Estado devem ter-lhe apertado qualquer coisa que o levou a fazer o favor de falar aos portugueses e a reunir-se com a oposição. 

E as reuniões já começaram, e eu só espero que se consiga chegar a algum consenso. É importante que eles percebam que, como políticos eleitos pelos cidadãos, estão lá para zelar pelos interesses do país e não para andarem a medir pilinhas.

Para já, do pouco que sei, o PS queria que o Governo esquecesse a lei do arrendamento já aprovada na generalidade e começasse tudo de novo, de preferência para aprovar uma lei concebida pelos socialistas. Está mal o PS, se foi isso que se passou. O Governo em funções foi eleito, deve governar. A lei foi aprovada. Pode, na especialidade, ser melhorada. E é nisso que o PS deve colaborar. Não pode exigir que o Governo rasgue a lei que concebeu e que viu aprovada. Se o PS se mantém obstinado, vai fazer papel de nhurro, e quem vai capitalizar o momento ainda vai ser o Chega que, no meio deste ensarilhamento, ainda vai aparecer como o adulto na sala. 

Mas, enfim, é o que temos. E o que temos por vezes cansa-me.

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