sábado, maio 22, 2021

A Serva-Mor e o seu pequeno servo

 

Numa praça, um grupo de pessoas comenta o assalto a uma loja. Uns dizem que a loja não estava bem fechada e que a culpa foi do dono. Outros dizem que a culpa é dos polícias que passavam por ali e nada fizeram nem para alertar o dono nem para evitar que os ladrões se servissem. Outros dizem que se calhar quem roubou foram alguns clientes que bem conheciam os cantos à casa e as fraquezas do dono. Outros dizem que a culpa foi do presidente da Junta que nada faz para prevenir casos destes. Outros dizem que podem ter sido alguns fornecedores que observaram como se faziam negócios ali, sem grande rigor. Outros, ainda, dizem que a culpa é também do jornal da terra que conhecendo tudo o que ali se passava, em vez de denunciar as vulnerabilidades da loja, só para conseguir que o lojista pagasse um anúncio, não fazia outra coisa senão enaltecê-lo.

Quem ouça aquele grupo de vizinhos dirá que, afinal, todos anteviam que o roubo iria acontecer. Mas se todos sabiam e nada fizeram não são, também eles, responsáveis pelo que aconteceu?

Até que os mais ilustres resolveram criar uma comissão e fazer um inquérito. Aplauso geral. Boa! Um inquérito é que é.

Para conduzir o inquérito escolheram a mais inflamada e sentenciadora das vizinhas, a Serva-Mor do clube religioso das Servas da Moral, conhecida por gostar de chicotear e espezinhar os pecadores.

Durante meses, os vizinhos sentaram-se no largo a presenciar o interrogatório a que a Serva-Mor sujeitava os suspeitos.

Quanto mais ele acusava e insultava mais a populaça salivava e aplaudia. O jornalista da terra ia noticiando. Um folhetim. 

Pelo pelourinho passaram quase todos os que se conheciam. 

Todos eram suspeitos: o dono, a família e amigos do dono, os clientes, os fornecedores, os polícias, até os próprios vizinhos. Todos. 

A todos ela insistia que enumerassem os pertences que tinham em casa, os presentes que tinham dado aos filhos, aos pais, aos netos e avós, as contas do banco, o dinehiro escondido no colchão. Queria pormenores: quantas notas, quantas moedas. De cada vez que alguém se esquecia de alguma coisa a Serva fazia esgares de desconfiança e todos os que assistiam faziam iguais esgares. Parecia que todos tinham algo a esconder. Os próprios, quando confrontados com a sua falta de memória, assustados e enervados, suavam de aflição. Mas, mal passavam para a audiência e outro ocupava o pelourinho, debaixo do fogo cerrado de ódio e malvadez da Serva-Mor, logo ululavam de gozo por verem os outros a sofrer. 'Ladrões! Ladrões!' gritava em surdina a turbamulta. Aos olhos de cada um os outros eram todos uns vendidos, uns ladrões. Aos olhos de cada um todos os outros mereciam arder no fogo dos infernos.

Duraram meses as inquirições. Meses e meses, senão anos.

Produziram-se centenas de artigos, centenas de vídeos. Cada relatório tinha centenas de volumes. 

Se alguns duvidavam da utilidade daquilo, logo outros saltavam em defesa da Serva, dizendo que sim, que fazia todo o sentido, todos tinham o direito a saber o que se passava, que todos tinham o direito a ouvir as explicações, que a Serva fazia bem em pôr a nu os podres da sociedade. 

A Serva-Mor não dava tréguas nem mostras de querer abrandar. Pelo contrário: aos poucos as orelhas foram-se afilando, os olhos entortando, os dedos curvando-se em garras, os caninos sobressaindo, os ares de justiceira implacável acentuando-se. 

A seu lado um servo redigia afanosamente os relatórios. Enquanto a Serva insultava os inquiridos, ele ia rosnando entredentes e o mínimo que se lhe ouvia era 'malfeitores incompetentes' mas, na maior parte das vezes, era um chorrilho: 'tratantes, escroques, patifes, vígaros''. Se detectava algum desagrado por parte de alguma pessoa na assistência, logo ele disparava: 'ultrajante e inqualificável!' e, pouco subtilmente, segredava ao ouvido da Serva, a sua sinistra musa inspiradora: 'Olha aquela, até sinto náuseas. Lamentável e inqualificável atitude a atitude dela'

Meses e meses nisto. Anos nisto.

Enquanto isso, as outras lojas iam sendo bem ou mal geridas como sempre foram e sempre serão, algumas delas sendo de vez em quando assaltadas, como sempre foram e sempre serão (em especial quando a malta está distraída a brincar aos justiceiros e aos inquisidores), alguns clientes iam tirando partido da distração do dono, alguns fornecedores aproveitando para fazer das suas, os polícias iam fazendo as suas rondas, nem sempre muito atentas, o jornalista ia fazendo inflamados artigos para vender mais e... tudo continuou exactamente igual ao que era antes.

Contudo, com o tempo, a malta foi percebendo que aquilo não era nada, que dali não nascia nada de útil, que tudo continuava na mesma, que aqueles interrogatórios eram apenas uma forma da Serva-Mor tirar um mórbido prazer em chicotear as suas vítimas e uma forma de cada um, à vez, se sentir melhor que os outros mas que esse prazer era efémero, espúrio e, sobretudo, inútil.

Por fim, na praça, restava apenas a Serva-Mor e o seu leal pequeno e inútil servo. Quem por ali passava já nem reparava: a Serva bofeteava e pontapeava o servo e este, em sangue, implorava perdão. Mas ninguém queria saber.

E, como sempre acontece com o que é irrelevante, tudo isto passou à história. Já ninguém guarda memória nem do que esteve na origem de tudo, nem do que por ali se passou, nem da sinistra Serva, muito menos da pequena figura que tanto a bajulou.


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As pinturas são de Rothko.
No texto, qualquer semelhança com a realidade não é aparência nem coincidência, 
é apenas um momento de diversão (ou outra coisa qualquer).

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E tenham um belo sábado

sexta-feira, maio 21, 2021

Quem é que a Mariana Mortágua acha que é para se pôr naquela posição de inquisidora-mor...?
Pergunto.

 

Já várias vezes aqui exprimi a minha dúvida: para que servem as comissões de inquérito da Assembleia da República?

Ou bem que há suspeita de crime e aí a investigação deve correr por outras vias, nomeadamente pelas da justiça, ou há curiosidade pública e aí a comunicação social pode dar uma ajuda. Na Assembleia da República só se houver uma questão política, digo eu. Mas se há questões políticas, as comissões devem decorrer com urbanidade, com um mínimo de elevação, com a inteligência própria dos que compreendem o que é a política.

Agora o que vejo nestas comissões é uma mesa cheia de deputados geralmente enfadados ou entretidos com o telemóvel e alguém a ser inquirido persecutoriamente pela sinistra Mortágua e, em consequência disso, a ser trucidado, humilhado, violentado.

Poderia até ser o maior bandido a ser inquirido que eu acharia na mesma que aquilo que ali se passa, da forma como se passa, é insuportável -- e deveria ser inadmissível.

Se algumas pessoas que por ali têm passado (alguns dos deslustrados amigos do Cavaco, o inútil, cego, surdo e mudo Carlos Costa, espertalhaços encartados como o Berardo, alguns ex-yuppies e golden boys hoje todos caídos em desgraça, etc, etc) são pessoas a quem se conhece um historial pouco abonatório, a verdade é que, em relação a qualquer delas, eu pergunto: quem é a Mortágua para lhe ser permitido fazer o que faz às pessoas que têm a pouca sorte de a ter pela frente? Ela acusa, ela ofende, ela martiriza, ela tortura a pessoa que inquire. 

Pasmo como ninguém se insurge. E sinto-me envergonhada quando vejo um banana como o Negrão, banana, banana, mil vezes banana, a não ser capaz de introduzir ali um mínimo de decência democrática e republicana, permitindo que uma deputada trate daquela forma um cidadão que foi chamado a prestar declarações.

E repito: pode o cidadão ser o Nuno Vasconcellos (pessoa com quem nunca simpatizei especialmente), pode ser o especialista em desviar armas e fazê-las aparecer, pode ser a Madame Grilo ou um vulgar 'carteiras' do 28. Tanto faz. Ninguém tem que aturar a prepotência e perfídia da Mortágua. Que eu saiba ela não é a justiceira do regime, alguém ungido com todos os saberes e poderes para que esteja acima de tudo e de todos. De uma penada, ela julga a gestão das empresas e ela julga os clientes das empresas. Ela julga e, acto contínuo, ela condena, ela decreta sentenças. Passa por cima dos órgãos de gestão das empresas, dos conselhos fiscais, das assembleias gerais, dos revisores de contas, dos auditores. Como um carro triturante, ela posiciona-se acima de tudo e de todos e, sem hesitações, aplica a sua moral para trucidar na praça pública quem ali exposto (e, na prática, indefeso) mal consegue abrir a boca sem que ela faça esgares de desprezo, imponha a sua moral, censure, ataque, esmague.

E, no fundo, se nos dermos ao trabalho de espremer tudo aquilo, o que sai de todo aquele sinistro espectáculo? Relatórios? E aqueles relatórios servem para quê? Sim, em termos objectivos, aquilo serve para quê? Para que quem assiste, o povo, se ponha do lado dos que acusam cegamente os 'poderosos' como se fosse tudo farinha do mesmo saco? Para escancarar as portas ao populismo? Que outra coisa fazem as populistas manas Mortáguas e a Catarina senão estenderem a passadeira a tudo o que é populista?

O Bloco de Esquerda tenderá para zero, e cada vez mais rapidamente, enquanto estiver nas mãos de duas sinistras criaturas como as Mortáguas e de uma populista como a Catarina. Os portugueses podem às vezes fazer-se de parvos ou de distraídos mas, no fundo, são espertos como um alho e chega o dia em que se fartam de criaturas que começam de mansinho, fazendo-se de especiais e diferentes, mas que, ao fim de algum tempo se desmascaram e se mostram como são: impróprias para consumo.

Mas que o Bloco de Esquerda se extinga às mãos deste trio estou-me bem nas tintas. Agora que a Assembleia da República se preste a ter salinhas de inquisição e tortura já me chateia. Caraças, chateia-me mesmo. Não será mais do que altura de Ferro Rodrigues dar um murro na mesa e dizer que já chega? 

quinta-feira, maio 20, 2021

Nesta vida, o que é que faz sentido?

 



Os hábitos mudam. Dantes, não assim há tanto tempo, ia uma meia dúzia de vezes por ano a Madrid. Eu gostava muito de Madrid e chegava a dizer que não me importava de lá viver. Estudava as exposições, avaliava as que valiam a pena, estudava a melhor altura para as visitar. E antecipava o prazer de andar no Retiro no meio daquela tremenda diversidade dos domingos de manhã. Vinha de lá carregada de fotografias. Tudo me agradava: a arte, os jardins, a alegria das pessoas, as lojas, os restaurantes. 

Até que, por isto ou por aquilo, as viagens foram ficando mais esparsas. Agora, se penso em Madrid, não sei bem o que lá me atrairia. 

Os museus de Paris ou de Amesterdão também são daqueles aos quais haverá sempre mil razões para lá voltar. E, no entanto, se pensar em ir passear, não me ocorre ir para lá.

É estranho, isto. 

Apetece-me passear mas, se pensar onde quero ir, só me ocorrem lugares por aqui mesmo, por perto. Ir até à Gulbenkian, por exemplo. Ir descobrir parques, ir a pequenos museus, coisas assim.


Se calhar é outro dos efeitos colaterais do confinamento. Vi que, no dia em que abriram a cancela aos turistas, aviões carregados de ingleses aterraram no Algarve. Ainda bem mas, numa altura destas, não consigo perceber esta atracção pela fuga.

Hoje falaram-me numa pessoa ainda jovem que, supostamente, terá apenas cerca de três meses de vida. Não sei como se vivem esses três meses. Não sei se será possível racionalizar, desdramatizar, programar, com a qualidade possível, o que falta para viver na plena posse das faculdades.

Nunca me hei-de esquecer da cunhada de uma amiga que, sabendo que estava às portas da morte, deu largas à sua vontade de cantar. Surpreendeu toda a gente: parecia a Janis Joplin. Fazendo anos a poucos dias do que sabia ser o seu fim, já de cama, muito mal, pediu de presente um blusão de cabedal. Eu ouvi isto com a perplexidade de quem ainda não sabia nada da vida. 


Nessa altura eu achava que as coisas deviam fazer sentido. Hoje sei que não. Hoje sei que mais de metade do que fazemos não faz qualquer sentido. Pode é fazer-nos sentir bem e isso é bom. Não devemos abrir mão do que nos faz sentir bem.

O que se faz quando se percebe, com todas as letras, aquilo que passamos a vida a ignorar, que a vida é finita? Como nos despedimos dos filhos, da sua inocência e amor, do companheiro e amado, das flores, do céu, da vista que temos da janela, dos passos que damos na nossa casa, do sol que entra pelas janelas?

Recordo-me de novo do momento em que, numa descida a caminho de uma movimentada rotunda, o meu carro perdeu os travões e, desgovernado, avançou a grande velocidade contra o que encontrasse pela frente e de como pensei, naquela breve fração de segundos, que se calhar estava a viver os meus últimos momentos e que nem tinha tempo de pensar em cada um dos meus amores. E penso como vivi esse momento sem pânico, apenas com essa prosaica constatação. E, depois do embate, lembro-me bem de, com o carro amachucado, meio no ar, meio de lado, a fumegar, abrir a porta, perceber como sair de lá e, já cá fora, ficar um bocado atónita a pensar que estava viva e sem perceber se estava ou não magoada, inteira. Apenas perplexa. As pessoas vieram a correr ter comigo, vinham aflitas, largaram os seus carros de qualquer maneira, e eu estranhamente calma, tentando perceber se nada em mim se tinha quebrado ou partido. Mas calma. O carro estava de tal maneira que foi declarado perda total. E eu apenas intrigada com a sorte que tinha tido. Aliás, sem perceber como era possível que estivesse ali, viva, a poder dar testemunho do que tinha acontecido. Chegou um carro da polícia, saltaram de lá os polícias, queriam que eu fosse para o hospital. E eu, como que anestesiada, sem precisar de nada. Liguei a um colega e pedi que me levasse. Ele espantado. Cheguei, sentei-me à secretária e comecei a trabalhar como se nada se tivesse passado. Aliás, do que me lembro, nem quis mais saber do carro. 

Tudo muito estranho.

Talvez que, quando a despedida é breve, seja assim, irreflectida e indolor. Quando tem prazo não imagino como seja.

Mas nem é bom pensar nisso. Nem sei porque falei nisto. Não vinha nada a propósito. 


Respectivamente, pinturas de Dali, Magritte, Krøyer e Montferrier, obras em exposição em Paris na companhia de Khatia Buniatishvili a interpretar o Liebestraum No. 3 de Liszt

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Saúde e alegria, seja qual for o tempo que estiver pela frente.
Enjoy 

quarta-feira, maio 19, 2021

Sobre a entrevista do Tony Carreira com o Goucha. Sobre o resto da televisão portuguesa.
E sobre as minhas rosinhas.

 


Desando de canal em canal e só consigo parar longe dos canais mais mediáticos. Hoje o que vi foi uma reportagem sobre trenós na Lapónia. Neve, cães, um senhor sorridente: bem bom. Não vi do princípio, não sei a que propósito vinha mas gostei.

Ontem, para meu espanto, passámos por uma entrevista do Goucha ao Tony Carreira. Não conseguimos ver. O meu marido, tal como Mestre Plúvio, também perguntou: 'Mas o que o leva a dar esta entrevista?  Não se percebe. Aceita dar uma entrevista para falar da filha que morreu?'. Não encontrei resposta. Achei que aquilo tinha tudo para ser indecoroso. Desandei. Passado um bocado, intrigada com a situação, disse: Deixa lá ver, se calhar não é o que estamos a pensar. Admiti que se calhar estava a ser preconceituosa: um pai que perde uma filha não tem vontade de dar entrevistas. Digo eu. E lá fui espreitar. Nem um minuto me aguentei. Qualquer coisa ali me pareceu uma perversa e macabra forma de exibicionismo.

Não tenho dúvidas que o entrevistado, como qualquer pai normal que perde um filho, deve estar devastado. Mas o que leva um pai devastado a dar uma entrevista na qual o entrevistador apela ao sentimento, à dor, à lágrima? Sujeitar-se àquilo porquê? Foi o Goucha mas podia ter sido a Cristina Ferreira. A obscenidade por ali não tem limites.

E já não sei se foi ontem ou hoje, nem sei a que horas foi, estava a fazer zapping, passei por um canal em que estava aquele que não sei se já foi inspector da judite ou o quê. Hernâni Carvalho. Sempre que passo por ele, está com ar incrédulo a perguntar o que leva um filho a matar o pai, a mulher a matar o marido, a namorada o namorado, a Segurança Social a não pagar a reforma, o tio a violar o sobrinho. Sempre indignado, sempre com ar de ingénuo surpreendido. Não sei a que horas ou em que canal. Aliás, acho que sei. Acho que na SIC mas não sei em que canal da SIC. Nunca consegui ver mais do que dois ou três minutos. Desencanta crimes, histórias tenebrosas, quanto mais escabrosas melhor, e por ali fica a foçar. Passo e fujo ou, outras vezes, ouço uns segundos a ver se tem melhoras. Não tem. Só lhe falta desenterrar mortos.

Está agora a faltar-me o nome para esta gente: aqueles bichos que comem animais mortos. Necrófagos, acho. Capaz de ser isso. Necrófagos.

As televisões portuguesas andam de desgraça em desgraça. Os que perderam tudo, os que  estão metidos em toda a espécie de trabalhos, os que padecem de doenças incuráveis, os que perderam uma perna, os que se auto-mutilam, os que passam e usam droga nas cadeias, os que ficaram perdidos nos labirintos da mente. Sei pelas apresentações ou de passar por lá. Não consigo deter-me em nada disto. Tenho saudades dos programas sobre jardins. Se apanho a Paula Moura Pinheiro também fico a ver. De resto vejo o House. Sou viciada nele. E na música da banda sonora. 

A programação das televisões portuguesas, pelo menos nos canais principais e pelo menos nos horários que costumo querer frequentar, é uma lástima.

Anos e anos a fio a destilar veneno, a visitar desgraças, a ouvir denúncias e queixumes, a dizer mal de todos e de tudo só pode causar uma deformação na personalidade colectiva do pessoal que assiste -- para além de abrir a porta aos populistas desta vida. Uma verdadeira lástima.

Tirando isso, posso dizer que a minha roseira descarada, depois de dar rosas escandalosas de tão cor-de-rosa, amarelas, cor-de-salmão e brancas, está agora transformada numa bem comportada roseira que dá cachos de rosinhas encarnadas. Das anteriores encarnações nem vestígios. Se não tivesse fotografado eu própria duvidaria. Chocante. A outra, a que sempre só deu rosinhas encarnadas, agora não apenas está cheia delas, rosinhas, encarnadas, como tem algumas que não são bem rosas muito menos encarnadas.

Não sei explicar isto. Aliás, começo a pensar que o que é inexplicável mas belo é melhor que assim permaneça. As coisas são mais belas se permanecerem inexplicáveis. 

E, de relevante, acho que hoje não fiz nada a não ser transplantar uma espécie de bonsai do vasinho em que estava para um vaso maior, um que o meu marido teimou em não trazer dizendo que não tinha nada a ver com os outros mas que eu insisti pois acreditei que ele só estava a dizer aquilo para não estar na fila para pagar. Acho que ficou bonito. A ver se amanhã fotografo para vos mostrar.

De resto foram reuniões pegadas, tantas, tão prolongadas e tantos telefonemas que acabei a ter que despachar as coisas aqui até às quinhentas. E não é que goste de reuniões longas...(bem tenho lido os comentários) mas não sou a única e há sempre quem tenha muito que dizer. Nem sou viciada em trabalho (embora possa parecer). Simplesmente parece que não consigo sacudir de cima de mim o que parece que teima em chover-me em cima. Uma coisa do meu destino, só pode ser.

Enfim. 


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Dance for me Wallis

Abel Korzeniowski


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Um dia feliz

terça-feira, maio 18, 2021

Os malefícios colaterais do coiseca

 



Leio por aí que os divórcios e separações estão prestes a rebentar. Pudera. Só quem nasceu um para o outro tolera o outro por perto a toda a hora. Mesmo esses é bom que tenham uma distância higiénica: não sempre por perto, não sempre a toda a hora. Agora para quem tem as suas diferenças e só as suporta quando devidamente espaçadas, condimentadas com situações que distraiam a atenção, imagine-se a pressão que vai crescendo dentro da panela. Não imagino sequer o que seria para mim a tortura se tivesse em casa não o homem da minha vida mas uma amélia, um zé cueca, alguém que, só de existir, estaria a pôr-se a jeito para me levar ao desespero. Ao contrário do que parece ser a tendência, em que o pessoal aguenta até que isto desconfine, acho que comigo a coisa acabaria mal muito antes disso. Não apenas faria o célebre número das malas à porta como não prescindiria também de lhe atirar as cuecas pela janela. E, antes que ele percebesse o que lhe estava a acontecer, já lá estariam os senhores das chaves a mudar a fechadura. E, se o encontrasse na rua, de certeza que já nem o reconheceria. Mas, se calhar, isto seria eu -- eu que sou impaciente. Parece que os pacientes conseguiram respirar fundo, dar um tempo, esperar que o corona dê tréguas. E agora, com a malta a ficar progressivamente mais vacinada e com o bom tempo a convidar à alegria, com cada um a regressar aos poucos à sua vidinha, com o intolerável 'novo normal' a cair em desuso, é que vai ser o adeus oh vai-te embora, bye-bye e chega pr'a lá, oh melga.

Mas, claro, estas provações têm consequências: li que nunca nasceram tão poucas crianças como agora. É que uma coisa é conseguirem tolerar-se, um em cada ponta da casa. Outra, bem diferente, é conseguir passar por cima da raiva contida e, numa de ser só sexo, bora lá, truca-truca. 

E isso, pelo que os números indiciam, é que nem pouco mais ou menos. A malta parece ter abrandado fortemente na coisa: não se suportam, não se desejam. Ou então não é isso, é simplesmente que, fartos de ter as crianças a bombar por perto todo o santo dia, nem pensar em deitar mais uma ao mundo. 

Mas isso já não sei. Que o pipeline está cheio de malta em vias de se separar e que quase não têm nascido crianças é um facto. O que vai no subconsciente, no consciente e no inconsciente de cada um isso já não posso dizer.

Mas estou curiosa.

Como estarão as estatísticas de anticoncepcionais? Alguém me diz? Camisinhas? Como será? Pelas ruas da amargura? Já eram? Pírulas, com a malta toda a dizer que causam mais enfarilhamentos que a astra-zeneca, imagino eu que também estejam em contagem decrescente. 

Sobra o quê? Já nem sei bem o que agora se usa.

Ah... espera aí. Copos menstruais... não é? 

Caraças. Sou muito ignorante. Li no outro dia que uma ex-PAN quer que os haja gratuitos nos centros de saúde e também em escolas, universidades e institutos politécnicos. E eu só pensei: olha a sorte que tenho de estar na menopausa, assim nem tenho que ir ver como é que os ditos funcionam. Bolas. Só de pensar. Serão de que tamanho? Enfiam-se assim sem mais, à papo-seco? E puxa-se e vem cheio? E não há o risco de se entornarem...? Caraças. 

Adiante. 


Mas, então, dizia eu que parece que a malta que, antes, já de si, não se gramava de alma e coração anda a evitar-se. Claro: foi dose, tantos meses de convívio forçado é para quem pode (com p e com ph).

Ora bem. Não sei se, justamente por isso ou por outra coisa qualquer, há outra: parece que nunca se consumiram tantos ansiolíticos e anti-depressivos. A malta anda pelos cabelos. Uns trepam às paredes, outros batem com a cabeça nas paredes. Tudo em ponto de rebuçado.

Percebe-se. 

A minha mãe contou-me que num daqueles programas que vê, creio que disse que era com a Tânia, foi uma médica dizer que há ainda outra: osteoporoses e que tais é a dar com um pau. Pudera. Sem exercício e sem sol, quem é que pode andar escorreitinho e com a ossada em bom estado?

Quem pense que o corona é bicho para só se acolitar nas ventas e por aí abaixo que tire o cavalinho da chuva: aquilo é bicho que vai de A a Z.

E, cá para mim, a coisa não fica pelo abecedário. Aliás, no outro dia, vi um anúncio na televisão de que a malta, com isto do confinamento, já nem anda a pôr a dentadura e, por isso, quando as forem pôr estão largas. Ou apertadas...? Não sei, não prestei muita atenção, só registei que o corona também dá cabo das dentaduras.

Portanto, já sabem.

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Fotografias de Anna Devís e Daniel Rueda na companhia de OK Go Sandbox - Art Together Now

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E o que eu estimo é o que eu desejo.

Tudo de bom. 

Saúde. 

Paz e Amor.

segunda-feira, maio 17, 2021

Não liguem ao que eu digo mas ao que eu, aqui, hoje, partilho convosco

 

Dia bom. Começámos por varrer as folhas do jardim. A árvore que eu tanto tenho querido preservar dizendo que é icónica, a adoração dos meninos que gostam de lhe andar em cima, dá-nos conta do juízo. As folhas caem, caem. Também nascem. Uma produção de que não se dá conta. Desesperamos: ou deixamos que o jardim fique submerso ou não temos descanso. Começa a formar-se na minha cabeça a ideia de que não pode ser.

No outro dia, o meu menino mais crescido dizia que se amarrava à árvore se me passasse pela cabeça cortá-la. E eu, só de ele dizer isso, fiquei logo com vontade de tudo desculpar à estouvada que tanto trabalho nos dá. Mas os sacos que se enchem com as suas folhas puxam noutro sentido.

O arbusto dos escovilhões está bem florido mas os filamentos encarnados vão caindo. Por baixo, o chão está coberto de uma camada que parece de veludo. Isso não varri, acho uma beleza.

Depois chegou o meu filho e a sua turminha para virem andar de bicicleta. Não estiveram muito tempo mas deu para os abraçar e para me encantar.

Depois, fizemos a nossa caminhada. Para o almoço fiz maruca cozida com batata, batata doce, cebola, cenoura, feijão verde e ovo.

A seguir, fomos buscar a minha mãe e fomos passear com ela. Mas estava um céu abafado e cinzento, o tempo ventoso, quase frio, não estava agradável para andar a cirandar na rua. Pelo menos, a minha mãe foi ver uma vila onde já não ia há muito tempo e que já mal reconheceu e um lugar bonito onde nunca tinha ido. 

Depois de a deixarmos em casa, fomos ao supermercado. E, depois das coisas arrumadas, fiz sopa. 

Estava a sentir-me um bocado cansada, a pensar que precisava de dormir nem que fosse por uns dez minutos. Mas não deu: tinha ainda muita coisa para fazer desde regar os vasos, arrumar roupa, tratar de uma papelada, etc.

E, por estúpido que possa parecer, ainda quero ir fazer umas coisas e já passa da uma da manhã. Portanto, o dia foi bom mas o meu marido tem razão quando se queixa: um gajo não consegue descansar. É mesmo.

Mas se o que tenho a dizer sobre o meu dia é mais do mesmo, não se poderá dizer o mesmo do que aqui abaixo partilho convosco. Momentos de beleza, de assombro, de reflexão, de pura genialidade. Espero que gostem.


The Making of
Rodin review – the sculptor in a ghostly new light

The Making of Rodin is a show almost entirely composed of plaster casts: fragile and small, delicate or solid, heavyweight, lifesize or gargantuan. It is thronged with figure groups, solo statues, trays of hands and feet in glass cases. Smooth, chipped, marked up in pencil for rearrangement or enlargement, provisional studies or final casts – they are all uniformly, overpoweringly white.



Ikebana -- Arte floral japonesa



Stuff everywhere! Bags, clothes, cars, iPads. We love our stuff. And over time, we’ve come to believe that this 'stuff' is what defines who we are. But our possessions will never fully satisfy the inmost desires of our soul. They never have. And they are not about to start. In fact, most of the time, it distract us from the very things that bring meaning to our lives.
Instead, our lives are defined by the choices we make.  It is these choices that define our character, our authentic self.  So choose wisely.  Do not miss out by placing importance on things instead of people.  Pursue beauty, hope, love and kindness. Pursue opportunity to improve this world for somebody else.  Let’s be simply beautiful. 


Jorja Smith – Home


Derek Paravicini e Adam Ockelford: In the key of genius
Born three and a half months prematurely, Derek Paravicini is blind and has severe autism. But with perfect pitch, innate talent and a lot of practice, he became an acclaimed concert pianist by the age of 10. Here, his longtime piano teacher, Adam Ockelford, explains his student's unique relationship to music, while Paravicini shows how he has ripped up the "Chopsticks" rule book. 

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Desejo-vos uma boa semana
Saúde. Alegria. Afecto.

domingo, maio 16, 2021

Vasinhos azuis et al.

 



Por obra e graça de um dos big brothers que reinam sobre os humanos, neste caso aquele que dá pelo nome de google, reapareceu o post que na noite de sexta para sábado se tinha evaporado. Sem explicação dada sobre o sucedido ei, pois, que voltou a materializar-se. 

Com vossa licença, repesco-o, pois, para aqui. 

Conseguimos sair a horas razoáveis. Queríamos ir a uma loja longe de nós. Pusemos o gps e lá fomos. Nunca tinha andado por aquelas bandas e, como sempre, estava espantada não apenas com a paisagem como com o que para ali havia de pequena indústria, de armazéns, de comércio de revenda.

Cheirava bem por ali. Tínhamos prevenido que iríamos pelo que, se não chegássemos a tempo, teríamos quem nos atendesse. Mas chegámos a horas. O meu marido falou no aroma. Era uma torrefacção de café lá perto. Curioso. Pelos vistos, tal como há cerveja artesanal, feita fora das grandes fábricas, a mesma coisa acontece com o café. Lotes especiais. Negócio de nicho. Um cheirinho bom no ar.

A loja funciona numa moradia. Quando entrei vi umas suculentas num canteiro. Quando nos despachámos, perguntei ao senhor: 'Posso tirar um pé de uma daquelas plantas?'. O senhor sorriu, disse que sim. O meu marido não disse nada mas é o tipo de coisas que não faz exactamente o género Dele. Vi há pouco que não sou a única. Sorri ao ler.

Vínhamos com gps a sair de lá, passámos por uma grande loja, com grande parte ao ar livre: um recinto com vasos de toda a espécie e feitio. Pedi para irmos ver. Era do outro lado da estrada. Não queria, disse que não podia virar. Pedi. Lá me fez a vontade. Tantos vasos, de tantos materiais, de tantos tamanhos. Só que eu estava aflita para fazer chichi. Ainda pensei que talvez houvesse uma casa de banho. Mas não vi nenhuma. Estava já um bocado de frio, vento. Aquilo enorme. Eu aflita. Pensei que nem conseguia cirandar à vontade. Fiz-lhe a vontade: disse que era melhor irmos andando. Disse-me: pareces uma criança pequena. 

(Não sei se tem a ver com ser criança ou com esta coisa horrível de nunca haver casas de banho públicas quando a gente precisa delas.)

Gosto de vasos mas têm que ser bonitos e estar agrupados. Ou, então, se o espaço não pede ajuntamento de vasinhos, têm que estar em locais especiais e ser apenas um aqui, um ali, onde sejam um focal point.

Gosto muito dos de terracota escura, artesanal, com alguma imperfeição. Mas no outro dia vi no Leroy uns parecidos em plástico. Não trouxe. Mas nem parecem de plástico. Tenho andado a pensar que, se calhar, fiz mal. Agora, ao ver um dos vídeos da Linda Vater, concluí que, de facto, bem integrados, de permeio com genuínos, nem se tem aquela sensação de que são fake. E têm uma grande vantagem: são muito mais leves. Os de barro, pedra ou terracota são um pesadelo. Se quero mudá-los de sítio lá tenho que pedir ajuda o que nem sempre é fácil de obter. 

E é isto que aqui podem ver: quanto mais cheia de trabalho ando, mais me apetece plantar flores, arranjar vasos, pintar a casa, pintar móveis, rejuvenescer tudo à minha volta. 

Na horta há uma desconjuntada estufa de painéis plásticos. Está abandonada. Tenho vontade de lá pôr vasos e imagino-os pintados de azuis: azul alfazema, azul céu, azul chumbo, azul suavidade, azul água. Acho que um conjunto de vasinhos em diferentes de azul deve ser uma graça.

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E agora conversa já de hoje:

Entretanto, este sábado estivemos in heaven e fartámo-nos de trabalhar. Com bibelots, quadros, molduras e grande parte dos espelhos retirados, com alguns móveis afastados das paredes, com tapetes dobrados num canto, a casa ficou com a necessidade de limpeza à vista. O meu marido achou disparate: com a casa quase a entrar em pinturas, acha que não vale a pena. Eu acho que vale. E a casa limpa por dentro, fui para a rua varrer folhas, areia e terra que se junta. Pelo meio, comi uma mão cheia de nêsperas. Love, love nêsperas. Começou por ser uma nespereira. Agora já há mais quatro. Fico feliz da vida com este milagre da multiplicação. No outro dia, o vizinho da ponta da rua, ao vê-las disse, com admiração: nascem na pedra e medram. De facto. 

Viemos tarde e ainda andei em arrumações aqui e a tratar da lavagem da roupa. Trabalho que me farto e o bizarro é que parece que assim é que estou bem. Não nasci para dondoca. E, se me ponho a pensar, não me dá para me imaginar de férias, de papo para o ar mas, sim, a fazer coisas: a plantar flores, a pintar vasos, a pintar móveis, a tratar das mil coisas que me ocorrem.

E agora vou ficar-me por aqui porque quero ir à procura de florzinhas azuis ou em lilás para plantar em vasinhos azuis. Não deve ficar lindo? Se calhar, flores cor-de-rosa em vasinhos azuis também fica bonito. Vou à procura. Com licença.


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E este é o vídeo da Linda Vater que acima referi e no qual ela fala de vasos



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Fotografias de Elena Shichko (e foi pena ter usado as fotografias em tons azuis no post anterior mas, paciência, já está, já está). E estive a ouvir Ain’t no sunshine por Mel Semé

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Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, maio 15, 2021

O que é que aconteceu ontem à noite?

 


Ontem à noite, escrevi um post descrevendo umas certas peripécias  pelas quais tinha passado durante o dia e, quando ia inserir fotografias, não me deixou, disse que havia um problema de segurança. Por via das dúvidas, guardei o que tinha escrito e fui tentar perceber o que se passava. Por cada passo que dava aparecia-me um ecrã encarnado a dizer que o site era fraudulento. Pensei: o caraças é que é. Fui e publiquei o que tinha escrito. Tinha visto uns comentários a que queria mesmo responder mas também não conseguia: dizia para só prosseguir  se estivesse ciente dos riscos que ia correr. Ao tentar ver o próprio blog na versão pública (e não no editor) não consegui. 

Fui ao Explorer da Microsoft e nada de avisos encarnados, tudo normal. Mas do que tinha publicado nem vestígios. Voltei ao mundo google, chrome e o escambau e fui verificar outros blogs: tudo a encarnado, tudo com aviso de atacantes, fraudes e roubo de tudo e mais alguma coisa. Um por um, fui vendo todos os blogs (blogspot) de que me lembrava. Tudo na mesma: tudo interditado. Entretanto, uma mensagem da minha filha, outra noctívaga. Se eu já tinha visto como estava o blog. Expliquei: nada a fazer. Não consigo sequer entrar ou fazer o que quer que seja. 

Fui dormir. Talvez a coisa se recompusesse durante a noite.

Hoje, de manhã, tudo normal, desapareceram as fobias, os drama, os alertas de perigo ao rubro. Das fraudes de ontem à noite nada sobrou. Só o meu post nocturno é que desapareceu.

Portanto, ou o blogger (para quem não saiba, o editor de blogs da Google) esteve com uma valente travadinha ou foi ele próprio atacado. 

Cada vez mais dependentes de tecnologias que não dominamos nem sobre as quais temos o mínimo de controlo, é isto: acontece uma e nada podemos fazer. Neste caso foi apenas não se conseguir aceder a blogs. Mas poderia ter sido coisa coisa pior.

Se isto é grave? Não digo que forçosamente o seja. Mas poderia sê-lo se, por exemplo, fosse o gmail e houvesse correspondência relevante a que não se conseguisse chegar. Ou outras situações de quem nem vale agora falar. O que digo é que temos que ter a consciência de que isto pode acontecer e que, apesar disso, não temos que ser psicologicamente dependentes daquilo a que estamos cada vez mais habituados. Se um dia acordar e o blog tiver desaparecido (horas e horas da minha vida aqui vertidas) não será o fim do mundo. Temos é que, por via das dúvidas, pelo sim, pelo não, ir guardando alguma documentação relevante em suporte analógico, vulgo papel. We never know.

Mas, seja como for, uma coisa é certa: pode haver casos de phishing, bugs, cortes de redes ou outras situações que afectem as plataformas onde hoje depositamos a nossa vida que continuará a haver flores, pássaros, sorrisos e, espero que em breve, abraços.


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Fotografias de Elena Shichko

[Hoje já consigo colocar fotografias!]

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Um sábado feliz

sexta-feira, maio 14, 2021

Tempus fugit. Vita brevis.

 


Não tenho nada de interessante para contar. Tenho muito trabalho e o meu tempo útil é praticamente absorvido por essa insana actividade. Ao telefone, eu disse-lhe: esta empresa esgota-me. Do outro lado nada. Pensei que talvez não tivesse percebido o sentido do que eu tinha dito. Expliquei: parece um mar que passa por cima de mim. Nada. Expliquei melhor: esta empresa é ingerível. Do outro lado, uma gargalhada. Disse: não estou a brincar, estou a falar a sério. Ele disse: havemos de conseguir dar-lhe a volta. Depois reconheceu: é mais difícil do que pensávamos mas haveremos de conseguir. Respondi: acredito que sim. Mas com que esforço? Quanto tempo vai ser necessário?

Depois fomos elencando os nomes em que nos poderíamos apoiar e aqueles que só atrapalham. E aí eu: mas como é que a gente se livra dos que minam tudo, que desestabilizam? E ele: havemos de arranjar maneira.

Queremos aproveitar todos, mesmo os casos perdidos. Mas os casos perdidos são os que mais desestabilizam. Não acrescentam um cêntimo de valor, só destroem. Mas, em cima disso, infectam, inquinam, espalham confusão.

Ao fim do dia liguei para saber como tinha corrido uma reunião da qual tive que sair mais cedo. Contou e, no fim, comentou um mail que ambos tínhamos recebido mas que eu ainda não tinha tido tempo de ver. Ao querer contar-me, desatou a rir, mal conseguia falar, gargalhando de gosto. Quando conseguiu falar, foi a minha vez de desatar a rir. Sabemos que quem o fez trabalhou afanosamente reunindo trabalhos de outros que devem ter igualmente trabalhado com afã. Mas o resultado era uma coisa tão absurda, tão inexplicavelmente descabelada que não parávamos de rir. Como se descalçam botas assim sem ferir susceptibilidades? Fazendo nós o trabalho deles sem que eles se apercebam que o que fizeram foi direitinho para o lixo?

No fim, concluímos: Enfim...

É que nada mais havia a dizer.

Agora, aqui, já vi mails de trabalho e estou a controlar-me para não continuar a responder e despachar trabalho. Este excesso anda a causar em mim um efeito colateral: todos os meus assuntos pessoais vão sendo protelados. Não tenho tempo, durante o dia, para tratar de coisas minhas. E isto traz-me sempre com uma nuvem de apreensão em cima de mim: o receio de deixar passar prazos, de não fazer o que tinha que fazer. Olho o calendário e está preenchido o suficiente para perceber que nem tão cedo vou ter tempo livre. Uma situação overwhelming.

Praticamente não consegui almoçar. A última reunião da manhã acabou tarde, tinha outra logo a seguir e, pelo meio, tinha que ler uma pasta zipada de documentos complicados, rebuscados e, ainda por cima, em inglês. Ainda estava a mastigar e já a pentear-me, depois a encher um copo de água para a próxima. 

E, estando nessa, outra tourada, vi no whatsapp da família que as meninas crescidas estavam tristes, a  comentar a morte da Maria João Abreu. Fiquei francamente abalada. Mas tive que deixar a emoção dentro de mim e, por fora, continuar igual ao que estava antes de ver as mensagens. 

Vita brevis, tempus fugit. Há qualquer coisa de apelo à lucidez numa morte assim, um apelo para que percebamos quanto somos efémeros e como são absurdos todos os momentos em que desaproveitamos o privilégio de viver.

Nos poucos tempos que tenho livres -- agora só ao fim do dia, quase à noite -- enquanto, andando lá fora, falo com a minha mãe e com a minha filha (o meu filho liga-me mais tarde), vou espreitando as flores. Agora vou ver os vasos que suspendi no gradeamento do terraço da cozinha. Estou desejando de ver se as flores se desenvolvem. Também vou espreitar o 'cágado'. Tenho a impressão que está um pouco mais gordo. Mas deve ser impressão. Fui pôr-me também em bicos de pés, a puxar as folhas da nespereira a ver se baixava a pernada para conseguir apanhar nêsperas. E apanhei uma meia dúzia que comi enquanto falava com a minha filha. A árvore, gigante, carregada delas. Mas tão lá em cima que só de helicóptero. Estão quase boas. As que vejo lá em cima, expostas ao sol, estão mais douradas. 

Há cada vez mais pássaros, maiores, mais próximos de nós. Ainda não consegui ir comprar alpista ou milho ou o que for. A gaiola continua de porta aberta mas, como não há lá nada que se coma, nenhum pássaro lá vai dar-me o prazer de se banquetear e, depois, trinar só para mim e, após uma vénia de agradecimento, sair de cena, voando, dançando pelos ares.

Tenho agora aqui à minha frente, na estante que agora tem a televisão em cima, duas fotografias de quando os meus filhos eram pequenos. Não foi assim há tanto tempo. A minha filha manteve muitas das suas feições. O meu filho mudou mais. Talvez seja da barba. Não sei explicar. Olho para eles e lembro-me do que têm vestido, apesar de não se ver na fotografia da minha filha e mal se ver no caso do meu filho. Não sei como passaram tão rapidamente os anos que os números confirmam que passaram. Sorriem para mim. Gosto de estar aqui com eles a sorrirem para mim. 

No parapeito do pequeno hall à saída do quarto estão as molduras com as fotografias dos mais pequenos. Passo por lá e olho para cada um. Já cresceram muito desde que as tirei. Mas são tão lindos, tão alegres. E são tão amigos uns dos outros. E isso é o que mais me enleva. Amores do meu coração.

E é isto. Ando sem assunto. Nada tenho a dizer senão estes pequenos nadas que a quem me lê nada devem dizer. Sorry.


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Pinturas de Jon Ching ao som de Lua interpretada por Jacob Collier e MARO

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Só não vos digo Carpe Diem porque é coisa fora de moda. 
Mas digo-vos que vos desejo um dia feliz

quinta-feira, maio 13, 2021

Festejar o Sporting, celebrar Fátima.
E o segredo do homem mais feliz do mundo

 



A verdade é que há pessoas que precisam da companhia de multidões para celebrarem o que têm de mais íntimo. A vitória do campeonato ou o aniversário da pretensa aparição. A equipa de quem se gosta ou um santo da sua devoção. Creio que é o mesmo impulso: estar com os outros, celebrar em conjunto.

Ir para o Marquês, ir a Fátima. Gritar, chorar, rir, sentir o êxtase, constatar como os outros exultam da mesma maneira, sentir-se um de muitos.

Não é o meu caso. Não sinto o apelo da partilha colectiva de emoções. Devo dizer que sou, até, um pouco avessa a isso. Tenho o meu lado de bicho do mato. 

Mas não critico quem é diferente de mim. A vida é curta e cada um age como está talhada (ou calhada) para agir. 

Quem alguma vez passou pela nacional que leva a Fátima já terá visto aqueles grupos de peregrinos que caminham em grupo. Por vezes cantam e vão em grande animação. Outras vezes vão em esforço. Há qualquer coisa na componente religiosa disto que me custa a atingir. Mas eles já sabem. No futebol a mesma coisa. Estar na rua a gritar, a saltar, a beber é, para mim, a mesma coisa -- uma manifestação de emoções que escapa à minha racionalidade. 

Não consigo é culpar quem quer que seja por permitir que as pessoas se manifestem. Como proibi-lo: pôr um polícia à porta de cada casa? Ao fim de cada rua? Impedir, uma a uma, cada pessoa de ir para onde quer? Chegar às ruas onde as pessoas estão juntas e atirar-lhes com jactos de água para cima? Não sei. 

Há coisas que se conseguem quando há poucas pessoas. Agora quando, um pouco por todo o país, as pessoas saem de casa e se fazem à estrada para se manifestarem... o que fazer? Decretar recolher obrigatório? Sirenes a tocar para mandar recolher...?

Acho que não, que não é caso para isso. Claro que há o risco de saúde pública. Digo eu. Mas ao ar livre e com muita gente já imunizada talvez não seja dramático. Mas nem é isso. Se há pessoas que têm o irreprimível impulso de ir para a rua e juntar-se a outras... e se são muitas e muitas pessoas... como impedi-lo?

Mas que sei eu?

Tenho tido uns dias de cão. Tenho sido acordada com telefonemas cheios de crises. Detesto acordar e ter que começar a falar sobre problemas que me atiram para cima. Vou para a casa de banho e ouço o telefone a tocar. Estou a tomar o pequeno almoço e ouço o telefone. Todo o santo dia. E reuniões e telefonemas até às tantas. 

Por isso, chego a esta hora e estou condescendente. Zen. 

Aqui na sala, para me distrair um pouco, pus-me a ver vídeos e todos os vídeos interessantes eram de mais de uma hora. Não dá. Até que vi este aqui abaixo de um senhor de 101 anos que diz que é a pessoa mais feliz à superfície da terra. Pessoas que não duvidam nem se envergonham da própria felicidade enchem-me de curiosidade. Quero saber qual o segredo. Mas, geralmente, quem é assim não faz segredo disso. 

Diz ele que não odeia ninguém. E eu, ouvindo-o, pensei: Também eu não odeio ninguém. Puxo pela cabeça e não me ocorre alguém que odeie. Acho que nunca odiei. Depois ele acrescentou: Mas desprezo. E eu senti-me a rir e pensei: Também eu.

Ainda no outro dia alguém me perguntou, a propósito de uma outra pessoas: Mas alguma vez te fez mal? A conversa mudou e não respondi mas fiquei com a resposta entalada. Devia ter dito: Não, mal -- a mim -- não fez. Mas é parvo. E eu não tenho pachorra para gente parva. Aliás, sendo mais precisa: desprezo gente intrinsecamente parva. Não consigo disfarçar o tremendo incómodo que o convívio forçado com gente parva me causa  Apenas consigo fazer de tudo para não ter pessoas assim por perto. Causam-me brotoeja. Fico fisicamente incomodada. Uma repulsa que não tem cura nem atenuante. Gente parva para mim é gente que não consigo ter por perto, mexem com o meu sistema nervoso. 

Por isso, não odiando eu ninguém e fugindo a sete pés de gente que desprezo, estou sempre bem. Se estiver junto de pessoas que admiro, que respeito ou, melhor ainda, que amo, estou feliz. E é bom a gente sentir-se feliz. Se estiver sozinha e entretida a fazer coisas de que gosto também não estou mal. Mas sozinha, sozinha, também não aprecio.

Por exemplo, ontem acabei de trabalhar às sete e tal. Como o jantar era arroz de corvina, coisa que se faz rapidamente, pensei: tenho ainda tempo para tratar dos vasinhos de pendurar que tinha comprado no outro dia. Podia ter tratado de tudo sozinha. Podia... mas não seria a mesma coisa. Por isso, falei ao meu marido. E fomos os dois buscar terra. Mas ele estava ansioso por causa do futebol e, a seguir, entrou em casa para ver televisão. E eu fiquei a envasar as bromélias e as sardinheiras. Estava sozinha mas com ele por perto. Mexer na terra, mexer nas raízes das flores, regar... tudo coisas que me agradam de verdade. Estou nas minhas sete quintas. Feliz da vida.

Claro que vão surgindo coisas que me preocupam, que me maçam. Mas sobre o que não controlo e que me é exterior eu tiro do meu radar: se não posso fazer nada, mais vale nem pensar nisso. O que posso resolver, ataco de frente. E o resto, olhem, vou levando. Fazer o quê? Atafulhar-me em ralações? Ná, não é para mim. De invejas, ciúmes, desconfianças e coisas dessas que corroem também não padeço. 

Por isso, acho que também não tenho de que me queixar.

Mas o homem mais feliz do mundo tem outra bagagem. Estive a falar de mim apenas por facilidade. É que falar dele requer cuidado. A felicidade dele tem um peso e uma marca que não têm nada a ver com as minhas ligeirezas. A felicidade dele nasceu de uma história que lhe ficou impressa a ferros na mente e no coração. Tem a marca disso tatuada no braço. Já as sofreu na pele. E, no entanto, sorri e fala de felicidade. E isso é bom para ele e para quem o escuta e vê.


Eddie Jaku, o sobrevivente de Auschwitz que, aos 101 anos, se sente o homem mais feliz do mundo



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As fotografias são de Flora Borsi e estão na companhia de Billie Eilish que interpreta Your Power

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Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, maio 12, 2021

Verde que te quero verde

 

Aqui em casa gritou-se a plenos pulmões Spoooooooooorttiiiiinnnnng....!!!!. Sendo contido como sempre é, quando toca ao seu Sporting, a efusividade do meu compagnon de route é total. 

De casa da minha filha, mal a coisa se confirmou, veio a alegria dos meninos. Um deles vestido a preceito, o outro mais contido, todos contentes, o meu marido de cachecol ao peito para festejar com os netos, uma videochamada de alegria partilhada.

O pai dos meninos, também sportinguista, já lhes prometeu que, no fim de semana, também vão festejar para o Marquês (de carro). Ora bem. Quem pensava que o Marquês era encarnado, que encaixe lá esta.

De casa do meu filho, encarnado convicto, veio, para o grupo da família, um desportivo 'Parabéns aos Sportinguistas'.

Quanto ao ajuntamento e à molhada que as televisões têm mostrado, uma onda verde e feliz a inundar as ruas de Lisboa (e, se calhar, do País inteiro), o que posso dizer é que hoje até o corona se vestiu de verde. 

Corona versão campeão

[E, se é certo e sabido que os sportinguistas são gente fina, só espero que o corona, certamente also in green dress code, também esteja a portar-se bem, educadamente, e que, numa de ser polite, esteja a bater as asinhas e a encolher os totós para não se enfiar na boquinha dos patuscos que, no meio da confusão, se esqueceram de usar máscara]

E viva o Sporting! E vivam os verdes de Portugal!


Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.

[Excerto de poema de Federico García Lorca]