sexta-feira, agosto 21, 2020

Estantes, maminhas, marteladas e etc.




Acordei com uma dor numa perna. Tantos esforços tenho feito, tantos pesos tenho carregado, tão abaixo e acima tenho andado, debruçando-me nas caixas, esticando-me para arrumar os livros, alguns em prateleiras bem altas, livros e o demais,  que algum músculo se esticou para além da conta. Em simultâneo o trabalho, as reuniões, os telefonemas, e sempre a correr, sempre a pensar no que falta fazer. E, portanto, o corpo deu de si. Em mim, volta e meia, o muito esforço manifesta-se assim. Posso carregar caixas como um estivador que até eu fico espantada com a minha força, posso trabalhar dias a fio, horas a fio, e toda a gente acha de mais e me pede que abrande e eu só percebo que estou cansada quando aqui, à noite, caio instantaneamente a dormir. A energia e a resistência física não me faltam. Mas a ligação dos músculos aos ossos não deve ser das mais famosas. Acho que é aí, em cima, na zona de uma das virilhas, que me dói. Já tomei um ben-u-ron pois fomos ver se comprávamos candeeiros (e uma broca e buchas e extensões) e fiz mais uma máquina e tive uma reunião complicada e fomos ao supermercado. E, como estava com aquela dor e toda coxa, não tive outro remédio senão tomar um comprimido. Mas não arrumei livros nem deu para me esforçar muito, seria impossível.

De manhã, o meu filho veio com os meninos buscar as bicicletas para irem pedalar. Depois vieram largá-las e foram à vida deles. Mas estava em reunião nem consegui estar com eles. Ao fim da tarde vieram para fazer o favor de colocar as portas nas sacanas das estantes cor de rato quando foge. Desisti de me meter em trabalhos. Não era isto que eu queria mas a verdade é que, vendo bem as coisas, sendo benevolente e ceguinha, a coisa até é capaz de ficar com uma certa pinta. Uma parede toda em clarinho e outra, em perpendicular, toda em platinado foncé. Quando lá tiver os livros dentro logo faço a minha avaliação final. Como não gosto de me martirizar, quando acho que não vale a pena o desgosto, marimbo-me para as reticências e faço por descobrir vantagens. Na volta é a isto que se chama optimismo. 

A minha menininha mais linda queria ir trabalhar, ajudar-me, queria arrumar livros. Como eu estava impossibilitada, tal a dor, fomos sentar-nos na chaise longue que fica entalada entre a dita estante e a janela. Os parapeitos aqui são baixos e, por isso, ficamos a ver a rua, o jardim. Ela encostada à parede, entre a estante e a janela, eu reclinada no encosto. Ali estivemos a conversar. Adora estar cá. Disse-me que já escolheu a cama. Diz que o irmão a seguir fica na outra. A mãe perguntou onde fica o bebé. Ela disse que fica ou com ela e com o mano. Depois acrescentou: tu e o pai dormem no outro quarto. A mãe riu: ah, nós também dormimos cá? Ela sorriu, fez que sim. A mãe respondeu-lhe: 'Não... eu e o pai vamos mas é passar a noite a um hotel...'. Ela disse: 'Está bem'. E sorriu, toda contente. 

O mais pequeno queria ir à viva força para a cave, queria que eu fosse abrir-lhe a porta. Não fui. Expliquei que não havia ninguém para ir com ele. Disse que não fazia mal. Depois disse que podia ir o avô. Expliquei que o avô estava a acabar uma coisa, que tinha mesmo que acabar, não podia falhar. Depois perguntei-lhe: Mas queres ir lá para baixo fazer o quê? Respondeu: Para ir descobrir coisas. De facto, esta casa é uma verdadeira arcazinha do tesouro. Entre os recantos (e o que eu gosto de recantos...) e o que os anteriores donos cá deixaram, há sempre, de facto, coisas para descobrir. De vez em quando, a senhora, quando andava nas suas mudanças, perguntava-me se podia deixar algumas coisas. Eram coisas difíceis de retirar ou transportar, que não lhe serviam na casa nova. Tenho ideia que disse que sim a tudo. Vasos muito grandes, alguns candeeiros, prateleiras, arcas de madeira, uma mesa metálica que pesa toneladas e que, aproveitando os possantes homens das mudanças, veio para debaixo do telheiro. Portanto, de vez em quando, em especial na cave e garagem, vejo coisas que não sei bem para que servem. Por exemplo, uns módulos de gavetinhas. O meu marido perguntava no outro dia: 'Para que é que os gajos quereriam isto?'. Não faço ideia. 'Para guardar facturas, coisas assi...'. O meu marido achou que não: 'Só tu é que ias pensar numa coisa dessas'. Pois bem. Ontem, para minha surpresa, vi que já ocupou um módulo. Buchas, pregos, parafusos. Só o vi usar uma gaveta mas, na volta, vai organizar as suas ferramentas e afins por gavetinhas.

Mas o bebé não sabe disso. Se soubesse, então, ficaria curiosíssimo. Gosta de montar coisas. O pai até lhe ofereceu um martelo a sério. Quando o vejo de martelo em punho fico em pânico, a temer que me destrua a casa. Mas, até ver, ainda não.

O mano do meio é de outro calibre. Estava a ver televisão e, de repente, deixei de vê-lo. Chamei, chamei. Nada. Fui em busca, de divisão em divisão, e nada. Depois vi a luz da casa de banho acesa e pensei, ora, coitado, já não pode ir à casa de banho em paz. Passado um bocado a irmã veio dizer-me: o mano não está na casa de banho: ele é muito esperto, acendeu a luz e fechou a porta para nos enganar. Chamei por ele e ouvi a voz a vir da sala. Perguntei-lhe: 'Onde estavas?' Respondeu-me, com ar lampeiro: 'Estava aqui...'. e eu: 'Não estavas nada. Diz lá.' Detectei-lhe um arzinho de quem queria disfarçar a matreirice. E aí tive um lampejo: 'Não me digas que foste outra vez a procura daquele livro...'. Desmanchou-se: 'Descobri outro também com mulheres nuas...' e fez um ar malandro. Só me ocorreu dizer: 'Não posso crer. És maluco'. Não disse mas pensei: sai ao pai que, era quase bebé e já todo ele se entusiasmava com maminhas. Tudo o entusiasmava: fotografias, estátuas, manequins em montras. Pois quem sai aos seus não degenera e cá está o mano do meio, oito anos acabados de fazer, sempre empolgado com seios femininos.

E depois, uma vez montadas as portas das estantes, lá foi o casal fazer uma corrida e, uma vez regressados, lá se foram os cinco.

E eu fui trabalhar e o meu marido lá continuou. Depois fiz os meus telefonemas. Depois fui fazer o jantar. Jantámos às dez e meia da noite. 

Uma vez aqui chegada ao sofá, ainda circulei pelos jornais a ver se alguma coisa puxava por mim. Pode andar por aí meio mundo às turras, os médicos e o Costa, o Rio e o Albuquerque armados em não sei o quê ou pode o Marcelo andar feito nadador-salvador, pode a imprensa e as redes sociais andarem com o André Populista ao colo ou pode o Chiquinho-bebé andar a brincar aos partidos... que eu, Caro Anónimo, não sei se é das canseiras, se é da falta de pachorra para coisas assim, a verdade é que nada disto me dá pica para escrever sobre.

O que me interessa é seguir o conselho do Amofinado sobre o reencaminhamento do correio, o da Gata Aurélio sobre a forma de fixar quadros sem furar paredes (já cá cantam, já os trouxe do Leroy), a solidariedade do Francisco quanto à corzinha arratada da estante, a empatia da querida Sol Nascente e a todos que, em comentário ou mail, me deixam palavras sempre tão simpáticas e a quem aqui deixo os meus agradecimentos.

_________________________________________________________

E usei aqui pinturas de Wassily Kandinsky ao som de Max Richter: Never Goodbye.

________________________________________________

Entretanto, adivinhando que ando à volta das minhas estantes, o meu amigo algoritmo tinha estes vídeos aqui abaixo para me sugerir. Não é a primeira vez mas é o género de vídeo que posso ver várias vezes pois descubro sempre alguma palavra nova.

______________________________________

A estante do Pedro Mexia


__________________________________

A estante de Clara Ferreira Alves

_____________________________________________

A estante de Rui Cardoso Martins


________________________________________

A estante de Teolinda Gersão


___________________________________

E uma bela e feliz sexta-feira

quinta-feira, agosto 20, 2020

O dia foi bom. A casa começa a mostrar-se uma casa feliz.
Pior mesmo só o que se relaciona com o IKEA. Muito mau.




Já estou quase a sentir-me a dona do pedaço. Fiz duas máquinas, estendi a roupa no estendal que há logo ao sair da porta da cozinha. E fiz peixe cozido para o almoço com feijão verde, batata, cenoura, ovo. Quase como se estivesse a viver normalmente em minha casa. Esta começa a ser a minha casa e não a casa nova. Pelo meio, arrumei mais uma porção de sacos e caixas. Uma delas, bem grande, tinha material que me deixou passada: montes de livros 'estrangeiros'. Agora que eu tinha concluído a empreitada.

A sala ainda está um caos: falta arrumar os ensaios, os clássicos, as entrevistas, os diários, as correspondências. Não sei por que ordem arrumar nem sei em que estantes pois, no local para onde estavam destinados, parece que o espaço já escasseia. E as caixas de artes: cheias E as arquitecturas: tantas, todas cheias. Em grande parte, livros grandes, altos, de dimensões irregulares. Mas a ficção estrangeira, que eu pensava que estava esfolada, aparece-me agora ainda com aquilo tudo para encaixar. E isto já para não falar dos 'livros não livros' (como o rapaz das mudanças leu os 'livros não lidos') que ainda não sei como fazer. 

Mas o dia teve um momento menos bom: aconteceu uma coisa que me deixou deveras descoroçoada. Estava há tanto tempo a imaginar uma salinha toda com portugueses, só com portugueses. Tinha aquela dúvida que, por fim, ultrapassei decidindo que seria toda a língua portuguesa. E não só a prosa mas também a poesia. A estante dos portugueses da outra casa era do ikea em branco acinzentado metalizado e eu idealizei complementar com mais uns módulos, iguais, para ficar tudo em clarinho. Só que, para não ir lá, porque nem tenho tempo, encomendei online. O cinza do site causou-me alguma dúvida, não fiquei certa de que não seria mais cinza do que o meu branco acinzentado. Mas não havendo nada mais para além do branco-branco, admiti que fosse distorção cromática da fotografia. Hoje, como previsto e dando cumprimento ao meu 'cravanço', o meu filho veio montar as ditas cujas. Contou com a prestimosa colaboração da mulher que, surpreendentemente, tem um jeitão para aquilo que me deixa espantada e, confesso, com uma certa invejinha (mas invejinha das brancas, inocentes) já que eu não me acerto nada com aquilo. 

Depois de a semana passada não terem aparecido e de ter suado as estopinhas para saber o que se tinha passado e para conseguir reagendar -- coisa que só com a ajuda da minha filha consegui pois só lá foi via chat e facebook já que, por telefone, está quieto -- ficou para esta quarta-feira. Das 9 às 13:00. Eram quase duas da tarde e nada. Pensei que ia ser um déjà-vu. Mas não. Apareceram. Sem máscara, com má cara, sem uma explicação para o atraso, sem um pedido de desculpa, um deles só a tossir. Perante tão desconfortável panorama, pedi que deixassem as big caixas à porta, não os quis dentro de casa. 

Quando o meu filho e a minha nora chegaram expliquei porque é que aqueles pesadelos não estavam no sítio. Ele disse logo: 'Já percebi, as caixas estão cheias de covid' e, portanto, desembalaram tudo, deitou-se o cartão fora, desinfectaram as mãos. Não me senti nada confiante com aquela dupla mal amanhada de entregadores, nada como ter todos os cuidados. 

Mas o pior foi a má notícia que o meu filho e a minha nora me deram quando viram a cor daquilo. Cinza rato. Fiquei para morrer. Nada, nada a ver com o branco platinado da outra. O meu filho chama-lhe cinzento urbano mas eu, desconcertada, só me apetecia era chamar-lhe cinzento de m.... Aquilo diz cinza metalizado e, na fotografia, parece cinza bem claro. Nada a ver com o que recebi. A minha vontade é dizer que venham buscar. Só que, para isso, teria que gastar horas e horas e horas a ouvir música sem que ninguém me atendesse, haveria  de passar por chatices e mais chatices, haveriam de dizer que agora não dá para trocar porque já se deitou fora tudo o que é embalagem. Ficámos ali a olhar para aquilo, sem saber o que fazer. Cansada do ikea e do péssimo serviço com as entregas e do péssimo (ou, melhor, do inexistente) atendimento, resolvi que se montasse. Isto na esperança que, quando montadas, a apanhar a luz, a cor se mostrasse aclarada. Mas aclarada uma ova. O meu filho diz: agora que foi montada já não dá para devolver. Uma chatice. A minha filha diz que não lhe parece mal, que, como tem portas de vidro e como vai estar cheia de livros, não vai ficar mal. O meu marido, por seu lado, quando lhe pergunto o que acha, diz que não acha nada. O meu filho e a minha nora dizem que eu troque as portas por portas brancas. E, por isso, não montaram as que vieram. Mas não sei. Fundo cinza com portas brancas ao lado de uma em branco acinzentado capaz de parecer uma coisa que nem é carne nem é peixe. Que raiva. É o inconveniente de fazer compras online. Nada como ver ao vivo.

Enfim. Adiante.

E puseram-se mais uns quantos quadros, sempre debaixo da embirração do meu marido, porque, depois de posto, se percebe que ficou mais acima ou abaixo do que devia e ele não quer arrancar e fazer outro furo, porque diz que nas paredes onde queremos (eu e a minha filha) é betão e não se consegue furar, porque fura e não cobre o que está por baixo e, ainda por cima, fica zangado quando me zango com ele. Desde que me lembro que pôr quadros na parede é esta cena.

E a minha filha andou nas decorações, em parte em conjunto com a sobrinha. Está a ficar muito bonita, a minha casa. Clara, ampla, luminosa.

Os miúdos organizam-se, correm, brincam. Uma festa. Penso que sentem que é também já a casa deles. 

Tirando isso, trabalhei. Ainda não estou de férias. Portanto, não foi fácil. Telefonemas, mails. Como muita gente está de férias, tenho conseguido ter uma vida um pouco mais facilitada. Mas esta quinta-feira já vou estar com reuniões e, portanto, o equilíbrio tem que ser mais esforçado. E à noite tratei do que não consegui fazer durante o dia. Nunca sobra trabalho para o dia seguinte, isso é ponto de honra. Tenho é muita coisa para tratar a nível pessoal como, por exemplo, mudar a morada em tudo o que é sítio. Devia ter uma semana sem mais nada que fazer, só para pôr estes assuntos em ordem. Mas nunca disponho desse tempo.

E a ver se sossego e se tenho tempo para ler notícias e ver televisão para, ao menos, ter assunto.  E já nem falo em não cair a dormir mal aqui me sento. A querer despachar trabalho e só a sentir-me adormecer. Senhores.

Mas calo-me já. Imagino como deve ser fastidioso ler estes longos relatos sobre temas que, sendo importantes para mim, a vocês nada vos devem dizer. Sorry.

Amanhã a ver se vou às compras que há alguns dias que nem daqui saio. Tenho o frigorífico quase vazio. Tenho a casa cheia e, chegados à hora de jantar, cada um vai à sua vida pois nada tenho para lhes oferecer. Uma coisa que, em mim, é contranatura. 

__________________________________________


As imagens pré e com sorriso são uma graça, não são? Obtive-as através do Panda Chateado (Pics Of People Before And After They Were Asked To Smile).

Acompanha-nos a bela Nè men con l'ombre d'infedeltà de Handel na interpretação de Sophie Junker

_________________________________________

E votos de um dia feliz. Saúde a esperança em dias melhores. 

[E a quem está mal de amores o que digo é que há mais marés que marinheiros. Se o actual marinheiro é fraco e aparentemente não é capaz de levar o barco a bom porto, então pouco há a perder. E isto, obviamente, é válido para marinheiros e marinheiras. A vida não deve ser desperdiçada com quem não sabe ser a companhia que desejaríamos. A vida é para ser vivida em amor. E, se ainda não o encontrou, então é de ir à procura dele. Amores à espera de serem encontrados é o que não falta]

quarta-feira, agosto 19, 2020

Ah, é verdade: e já cozinhei pela primeira vez na casa nova.
Que bom sentir o cheirinho de uma canjinha. Senti-me verdadeiramente em casa.




A casa começa a ganhar jeito. Parafraseando o Francisco, talvez seja eu que vou dando o meu jeito à casa. Tenho trabalhado horas a fio. Ao contrário do que a minha mãe teima, não acho que um processo destes seja para ser conduzido com calma. O meu marido apoia-se na opinião da sogra para me criticar: diz que uma mudança destas é coisa para se fazer ao longo de duas semanas e não tudo de atacado, numa semana. Mas não estou de acordo. Primeiro, a casa ainda não está completamente arrumada. Segundo, ainda deixámos roupa e tralha para trás e ainda temos que ganhar energia para lá voltar as vezes necessárias até seleccionar o que é para trazer e aquilo de que devemos desfazer-nos. E desfazer-nos também não é isento de trabalho pois tem que se dar solução para tudo, mesmo para aquilo que não se quer.

Depois não se pode contabilizar apenas o tempo depois de aqui estarmos, há que contar com os dias em que, na outra casa, andámos a deitar fora coisas, a embalar em plástico de bolhinhas, a meter em caixas, a meter em sacos e a trazer para cá.

Portanto, nesta fase aquilo que quero é acabar com isto, acabar rapidamente, arrumar tudo, ter a casa organizada, não ter cenas para desembalar -- e ter tempo para me sentar, descansada, para regar, para podar arbustos, para varrer o jardim, para me estender numa espreguiçadeira a ler.

Mas hoje estou contente com o que vejo: já não falta muito. Tivemos mais uma leva de mudanças. Desta vez vieram os dois móveis mais complexos, verdadeiras pièces de résistance: pesados, grandes. Tiveram que ser todos desmanchados, as peças numeradas e depois, cá, qual puzzle, tudo montado. Não sei como conseguiram a proeza de desmontar aos bocadinhos dois móveis daquele tamanho, um com dois metros e sessenta e cinco de comprimento e outro com dois metros e quarenta, um às ondas, ambos com portas de vidro. Madeira maciça, tratada, móveis de uma outra era. Tudo intacto, tudo perfeito. E ainda pregaram quatro espelhos enormes e pesadíssimos e desligaram lá e ligaram cá quatro candeeiros de tecto. Fazem tudo e deixam tudo limpo, tudo a funcionar bem. Também já tinham feito a ligação das máquinas. Estou francamente impressionada com a força, destreza, habilidade, disponibilidade e simpatia da equipa. Todos brasileiros. Quem tem preconceito contra brasileiros deveria assistir ao trabalho destes homens. E sempre com um sorriso, sempre de uma gentileza que não é frequente entre nós, portugueses. 

A minha filha esteve cá de tarde e não apenas ela e os miúdos se ocuparam da rega dos bocados onde a rega automática não está a chegar e dos vasos como andou a escolher o quadro certo para o lugar certo.
Ainda não estão todos pois essa parte dos quadros foi com o meu marido que, cansado e com fome, já nos deitava por todos os poros, furibundo, acusando-me de abusar, recusando-se a fazer mais. Ainda por cima tinha que preparar informação para uma reunião à primeira desta manhã e já só queria era que o deixássemos em paz. 
Mas foi uma ajuda preciosíssima. Ela é mais minimalista que eu, tem um gosto mais próximo do sentido estético do pai. E eu também gosto; só que, se for eu a fazer, a minha natureza exuberante puxa-me para a cor, para um certo excesso. Assim, com o crivo depurativo dela, fica tudo mais leve, mais claro. E a ver se agora se ocupa dos bibelots. Coloquei-os todos expostos num móvel da cave para que se possam escolher livremente. E a ver se à tarde, depois do trabalho, apanho o meu marido de feição para se ocupar do resto dos quadros. 

Se amanhã os do ikea não falharem de novo, entregarão as estantes em falta. Como encomendei pela net e não descobri onde encomendar a montagem, pedi ajuda ao meu filho. Se tudo correr como previsto, ao fim da tarde poderei arrumar as caixas em falta nesta secção.

Ficará a faltar aqueles que me põem um bocado a cabeça em água: ensaios sobre temas muito variados, entrevistas, testemunhos sobre os mais variados temas. Depois aqueles que o meu marido colocou na mesma caixa na qual escreveu Clássicos: Odisseia, Peregrinação, Bíblia, coisas assim. Será que os deveria manter assim, unidos na mesma estante? Aliás, estava também o D. Quixote e eu fiquei na dúvida. Nos clássicos ou nos de língua espanhola? E os ensaios sobre a luz, sobre a cor, sobre o auto-retrato? Devem estar junto dos livros de arte ou dos ensaios? Estas dúvidas fazem-me hesitar, não desenvolver trabalho ao ritmo que devia. 

Ah, outra coisa: na cave estava uma coisa que eu não identificava. Mas com tanto que fazer e descobrir nem cheguei a verbalizar a dúvida. Afinal é um suporte para as bicicletas. No outro dia já cá ficaram algumas. Hoje de manhã o meu filho, que está de férias, e os miúdos vieram buscá-las para irem andar nelas. Os meninos da minha filha também já cá deixaram as deles. E eu começo a pensar se também não deveria ter uma para mim. Deve ser bom ir com eles dar passeios de bicicleta. Sempre gostei tanto de andar de bicicleta. Só me chateia pensar que depois tenho que usar capacete. Quando eu andava não se pensava nisso e eu gostava de sentir o vento a dar-me no cabelo. Tenho a sensação de que o capacete me deixará meio ridícula e essa contrariedade estética refreia-me um bocado a vontade de partir em belos circuitos pedalísticos em família.

Ah... e mais outra: a ideia de voltarmos a ter um cão vai fazendo o seu caminho. De facto, numa casa com jardim em volta dá a sensação de que com um cão estaríamos mais seguros. Mas penso que o que faz sentido é adoptarmos um. Só que, na minha cabeça, deveria ser um cachorrinho e não ser feio e, ao crescer, não ser um caniche irritante nem um boi, gigante, nem ser irrequieto demais nem agressivo nem ter muito pelo... e, com tanta exigência (sobretudo minha), não está a aparecer aquele serzinho que nos faria cair de amores por ele. Estava tão habituada à nossa boxer ou aos pastores alemães dos primos ou ao labrador de amigos que, vendo os rafeiros para adopção, fico meio desconcertada, sem perceber bem como serão quando adultos. O meu marido limita-se a dizer que deve ser um cão de guarda de porte médio. Também diz que deveria ser de poucos meses para mais facilmente se adaptar a nós e aos nossos hábitos. Mas como também não pode ser já, já, temos tempo para amadurecer a ideia. Imagino a alegria dos meninos se tivermos um caozinho. E só essa perspectiva já me deixa com vontade de lhes dar mais esse motivo de felicidade.

Mas, enfim, são tempos bons apesar de (muito) cansativos, são passos neste caminho novo, são tempos em que tudo está por descobrir. Hoje ligou-me uma ex-colega dizendo-me que vai reformar-se e que eu a tratei sempre com tanto carinho que queria despedir-se de mim, agradecer-me, desejar-me felicidades. Agradeci-lhe e disse-lhe que ela ia começar uma vida nova, que isso era bom. Mas notei nela uma nostalgia e, mesmo, uma tristeza que eu acho que não sentirei um dia que chegue a minha hora de parar de trabalhar. Acabar uma etapa não é chegar ao fim do caminho: é estar livre para escolher novos caminhos. E isso é daqueles privilégios que deve ser agarrado com as duas mãos, com duas mãos agradecidas.

_______________________________________________

E como temo que já estejam fartos desta conversa sobre a casa nova, partilho um pequeno vídeo que o YouTube hoje tinha para me sugerir. É meio coisinho, reconheço, mas, pensando melhor, não é totalmente desprovido de sentido. De facto, a vida é feita de acasos, a maior parte dos quais desconhecemos. Quando calha coincidir a oportunidade, a sorte, o senso e a sensibilidade e a disponibilidade para aceitar o momento, estamos perante uma daquelas raridades que deve ser agarrada e festejada. Quantos novos caminhos não chegam a ser percorridos porque algum daqueles factores falha?


___________________________________________________

As fotografias que usei fazem parte de The 2020 Macro Art Photography

O Play it, Sam está aqui não sei explicar porquê. Talvez seja aquilo de que o coração tem razões que a razão desconhece.

_________________________________________________________

Um dia feliz. Saúde e boa disposição.

terça-feira, agosto 18, 2020

Dias de esforço pré-desfrute





Bem. Na noite passada pouco mais do que três horas dormi. E trabalhei até vir a mulher da fava rica. Uma vez mais, tantas as solicitações inside que não consegui pôr o pé outside. A ficção estrangeira is done. Mas o sacana do D continuou a jogar às escondidas comigo até ao fim. Quando lá ia, do D.H.Lawrence só me apareceu A Virgem e o Cigano. Fiquei intrigadíssima mas pensei que, na volta, há uns anos teria levado o conjunto a apanhar ares do campo. Pois bem. Ia no Truman Capote, várias estantes à frente, abro uma caixa que dizia Virginia Wolf e Pack. Não percebi. E não é que o pack era um conjunto grande de livros do D H. Lawrence? Lembrei-me: como, na outra casa, a estante já não dava para as encomendas, peguei naquele conjunto de livres e, para libertar espaço, pu-lo numa outra estante. 

Portanto, ali estava aquele big conjunto...Como é bom de ver, tive que 'revisitar' tudo daí para a frente. Uma violência. 

E hoje à hora de almoço veio cá um habilidoso fazer um trabalho e, a cada passo, ia à rua fumar e empatou-me a tarde toda. Estive a trabalhar, a receber telefonemas, a receber e a enviar maisl e, in between, a responder a solicitações do cavalheiro que, se bem percebo, deixou o trabalho mal feito  e amanhã deve estar cá outra vez caído. Um pesadelo, isto.

Almocei uma sandes, de pé, na cozinha. Fiz, à pressa, uma com pão de beterraba e sementes, um resto de carne, tomate às rodelas, alface, orégãos e azeite. E tão bem que me teria sabido poder acompanhar com um sumo fresquinho de laranja. Mas zero. Portanto, água fresca e foi uma sorte.

A meio da tarde estava deserta de fome. Fui comer cajus e arandos e um pêssego. E foi o que houve até perto das onze da noite.

Amanhã mais uma dose de mudança. No outro dia deixaram para trás dois móveis grandes, daqueles que dão uma trabalheira a desmontar, a transportar e a montar de novo, candeeiros, espelhos e quadros. Portanto, vai ser outra devassa. Andam por todo o lado, mexem em todo o lado. Supostamente sempre de máscara. Mas, quando saem, mais uma daquelas secas: puxadores, interruptores, etc, tudo desinfectado, chão lavado. Trabalheiras em cima de trabalheiras.

Mas a casa começa a ganhar jeito. Já tenho alguns galos e galinhas na cozinha, já tenho os meus lindos ímans na lateral do frigorífico que tão bem foram embrulhados em plásticos às bolhinhas que não apareciam nem por mais uma. Até cheguei a pensar que o meu marido os tinha deitado fora. Vontade não lhe deve faltar. Mas não, estavam caídos no porta bagagens.

Ainda há bocado, enquanto eu tomava banho, o meu marido esteve a desmanchar caixas. Dezenas e dezenas de caixas que vão ficando vazias, umas para serem reaproveitadas para a última fase, aquela tralha e roupa remanescente para cuja escolha tenho que desencantar uma pachorra que neste momento não existe. Outras caixas são para colocar para reciclar. 

A minha mãe quase implora que eu não trabalhe tanto, receia que me aconteça alguma, diz que o stress não faz bem. Mas não me sinto stressada, enervada. Sinto-me é com pica para despachar serviço e ver se vejo a casa organizada. O meu marido diz que, com qualquer pessoa normal, uma casa como a nossa levaria quinze dias a ser arrumada. Não sei. Sei é que não suportaria o stress de ter a casa a cheirar a cartão e de não saber do paradeiro das coisas durante quinze dias.

E outra coisa de que agora me lembrei: no outro dia, um dos rapazes das mudanças, lendo a legenda da caixa para que eu lhe dissesse para onde devia ir, exclamou: 'Livros não livros'. Respondi: 'Não pode ser'. Ele releu a letra do meu marido e confirmou: 'Livros não livros'. Fui ver e ele, em peso, mostrou-me a caixa para que eu conferisse, de perto. Percebi, então: 'Ah, livros não lidos'. Lá está aquela permanente dúvida. E afinal não é apenas uma caixa, e das maiores: são muitos livros que não sei se por falta de tempo ou de quê ainda não foram ainda lidos e, por isso mesmo, se têm mantido à distância dos demais. E agora não sei se os ponha também segregados, confinados, ou se vá salpicá-los pelas estantes, perdidos no meio dos outros. Não sei, amanhã resolverei. 

E agora vou parar por aqui, estou só a adormecer.

Claro que, no meio desta azáfama, sinto falta de algumas coisas. Ando tão focada e absorvida nisto que pouco tempo me sobra. Mas há tempo para tudo e amanhã já cá devo ter a minha filha e miúdos, embora ainda apenas limitados ao jardim já que a casa vai continuar a devassa que se sabe. Já lhes pedi que regassem e apanhassem folhas secas. E para quarta feira já cravei o meu filho, para vir ajudar a montar as estantes que o ikea, se não voltar a falhar, entregará. Portanto, aos poucos tudo se acalmará e voltarei a ter tempo para os meus amores.

E é isto, vou dormir. Já mal consigo manter-me acordada e é o que se sabe: um vício, uma necessidade de um bocadinho meu, um gosto por escrever. Não sei. A ver se um dia destes arranjo um bocadinho para fazer uma ou outra foto para vos mostrar.

_______________________________________________________________

Fotografias de Nick Knight na companhia de Ry Cooder com Canción Mixteca
que nada têma  ver com nada
_____________________________________________________________

Dias felizes!

segunda-feira, agosto 17, 2020

Quando sentimos que encontrámos a casa pela qual aguardámos. Ou que descobrimos uma casa que nos aguardava.




Passei o sábado inteiro a desencaixar e A arrumar. Só nós dois. Há trabalhos que não podem ser delegados. Só nós -- e, em alguns casos, eu -- sabemos onde é para pôr isto e aquilo. 

Almoçámos à hora do lanche e jantámos à hora da ceia. A comida foi sempre a mesma: borrego assado no forno com batatinhas que, em boa hora, tinha cozinhado na véspera de manhã e que veio para cá ainda a ferver, o tabuleiro embrulhado em papel de alumínio e depois numa toalha de praia, dentro de uma sacalhão. Já seria perto da meia noite quando me sentei para descansar um pouco. Mas, mal aterrei, aqui neste sofá, o mesmo em que antes me sentava mas agora numa saleta diferente, adormeci. O meu marido foi para a cama, convencido que o meu sono seria de uns minutos, mas acabei por acordar só depois das duas. Incapaz do que quer que fosse a não ser procurar o caminho para o quarto, acabei por nem conseguir vir aqui descansar a cabeça, escrever qualquer coisa. A minha mãe diz que eu sou de exageros, que quero fazer tudo em pouco tempo. O meu marido há pouco disse-me que eu imprimo um tal ritmo ao que faço que, às tantas, se não descanso, fico esgotada. Ele próprio anda estafado. Talvez tenham razão. Mas a verdade é que me apetece estar descansada sem olhar à volta e ver mil coisas para fazer. A mim o que mais me cansa é ver coisas para fazer (ou, aliás, corrijo: talvez ainda pior seja não ter nada para fazer, razão pela qual, quando não tenho o que fazer, invento e, às tantas, já estou, de novo, a deitar por fora; enfim...).

Este domingo acordei, bem dormida, já eram quase dez da manhã. Abri os estores do quarto, da sala. Não dei pelo marido. Circulei pela casa à sua procura. Fui ao jardim chamar por ele. Nada. Liguei-lhe: tinha ido à cidade buscar coisas à casa antiga.  Temos que esvaziá-la mas falta-nos tempo. Como madruga, resolveu ir buscar mais um carregamento. Entretanto, olhei para o lado e vi as janelas da outra casa com as portadas abertas. Fui à pressa vestir-me. O meu marido está farto de me avisar que uma coisa é morar num apartamento, no último piso, sem vizinhos em frente ou no campo em que, não tendo nós lá outras pessoas, de vivalma só os passarinhos, lagartixas, gatos e etc, e outra, bem diferente, é morar numa casa com vizinhos dos lados ou em frente. Há jardim de permeio mas nada que não se veja. Aliás, no outro dia, creio que talvez na véspera da mudança, quando a casa estava a ser pintada e o pessoal e o pessoalzinho se limitavam ao jardim, estava eu de calçaozito e túnica, olho para a casa do lado e vejo uma senhora a olhar para mim. Quando viu que eu a vi, fez-me um aceno e eu, muito surpreendida, retribuí. A minha filha ficou muito admirada e, sabendo-me míope, duvidou que a senhora me tivesse mesmo acenado. Mas eu acho que sim, juraria que até sorriu. O meu marido também viu a senhora, quando vinha a chegar. Presumo que seja a mãe da dona da casa e que, enquanto a filha trabalha, vem tomar conta dos netos. O meu marido a única observação que teve a fazer-me foi, outra vez: 'tens que ter cuidado com a forma como te vestes'. Se calhar, tenho. 

Ontem, quando estávamos a jantar, eu estava, como quase sempre que ando atarefada, apenas de cuecas, aliás com as únicas que tinham aparecido, ou seja, umas que ele, ao prudentemente preparar um saco com uma muda de roupa, encontrou antes de sair de casa. Umas um bocado fora de contexto. É que eu já tinha guardado as cuecas que entendi serem de trazer. Do resto, das que ficaram para trás, logo hei-de fazer uma escolha. Só que não consegui descobrir o saco com as que eu trouxe e, portanto, dei graças por ele ter tido a brilhante ideia de me trazer aquelas. Mas, dizia eu, estava naquela bela figura, a jantar a lindas horas, as luzes acesas e os estores levantados. E nisto ocorreu-me que se os vizinhos fossem à janela teriam uma insólita visão. Claro que me levantei de súbito para baixar os estores. 

Enfim, todos uns novos hábitos que tenho que adquirir.

Também tenho a dizer que a estante grande que era para ter chegado antes da mudança se atrasou, supostamente chegará com uma semana de atraso. Portanto, parte das caixas de livros não pode ser ainda arrumada: as dos lusófonos não portugueses e as de poesia.

Os portugueses, ficção, estão quase. Fiquei surpreendida com tantos livros que tenho de alguns autores. De alguns não estranho, já mais do que sabia: Eça, Camilo, Aquilino, Agustina, Ferreira de Castro, José Rodrigues Miguéis, Fernando Namora, Saramago, Miguel Torga, por exemplo. Sem espanto. Outros gostei de rever: Abelaira, por exemplo. Mas Pedro Paixão - tantos livros. É tão controverso, ele. Mas a verdade é incontornável: é autor com quem simpatizo, é pessoa de quem gosto. Pode ser meio louco (ou doido varrido, sei lá [deve ser malapata do nome]) mas a verdade é esta: simpatizo com ele. Ao ver a fiada de Pedros Paixão espantei-me. É que uma coisa é a gente ir comprando e ir encavalitando e outra é tirá-los, de seguida, da caixa. Aí a gente vê a extensão do apreço.

Tenho também a dizer que dos 'estrangeiros' a coisa ainda deve ir nos vinte por cento. Uma dificuldade... não há explicação. Caixas empilhadas e encostadas umas às outras. Para descobrir onde anda a caixa que se percebe que falta tem que se andar por cima da pilha, tem que se arrastar caixas ou pegar nelas em peso. Naquelas que foi o meu filho que embalou, pediu à filha para escrever o que se fez para todas, o nome do primeiro e último autor da caixa. Só que a minha menina mais linda escreveu isso, numa bela letrinha, mas em ponto pequeno e na lateral da caixa. Com elas coladas umas às outras, em pilha, tive que me armar em hércules para conseguir levantar e torcer as caixas para conseguir ver que autores nelas se escondem. E as de poesia foram lá parar, não sei como, só mesmo para atrapalhar. Mas para verem a complicação: já ia no Erich Maria Remarque, no Ernest Hemingway, no Ernst Jünger e por aí adiante quando dei com uma caixa que tinha o David Lodge. Lá tive que mudar uma prateleira inteira para encaixar os D's que faltavam antes dos E's. Passado um bocado, quando ia retomar, nova caixa: Doris Lessing e por aí vai. Fiquei parva com a quantidade de Ds que por aí têm andado a escrever livros.   

Enquanto eu andava nisto, andava o meu marido a prender as estantes umas às outras e à parede e a calçá-las. São grandes e vão ficar pesadas, assim é mais seguro.

Estou é ainda em dúvida com as estantes para os livros de arquitectura, que são muitos, ou de arte. A ideia era colocá-las nas estantes que cá estavam, na parte esconsa desta sala onde estão os estrangeiros. Mas só agora vi que parece que as prateleiras são baixas e fundas. Não sei, tenho que experimentar. Hoje, de cada vez que ia tentar avaliar, dava cabeçadas no tecto. Ainda não me habituei a andar numa zona inclinada. O meu marido, então, é num candeeiro que eles cá deixaram, um muito bonito. Não tinham onde pô-lo, perguntaram se eu me importava. Claro que não, fica ali tão bem. Como não sou extraordinariamente alta, é problema que não tenho. Mas já se percebeu que vai ter que ser levantado senão ele e o meu filho vão andar sempre naquilo, sempre à cabeçada.

No outro dia, o Leitor Amofinado estranhava a opção por uma casa construída por outras pessoas. Percebo-o. Mas nunca me senti atraída por uma casa feita de propósito para nós. Apenas uma vez esteve para acontecer, projecto praticamente prata da casa, mas, como contei, não aconteceu. E não me importei, apesar da casa me parecer um espanto. Parece que não me atraem casas novas. Tal como em tudo, sei que não vou descobrir a pólvora, que será estultíce da minha parte pretender que farei melhor que os outros. Porque é que a casa que eu e alguém a meu lado engendrássemos haveria de ser melhor do que outra casa que alguém pensou antes de mim? Acho que há tanta, tanta casa, que me parece absurdo estar a consumir mais recursos a construir uma casa nova. E não é só isso: é que uma casa usada incorpora boas ideias alheias, coisas que outros pensaram e que eu, humildemente, vou poder aproveitar. 

Temos é que saber encontrar a casa que está à nossa espera. É que a escolha de uma casa, como referi, tem que ser como com um qualquer outro amor. A gente tem que gostar logo, tem que gostar de tudo, tem que sentir orgulho nela e em tudo o que a rodeia, tem que querer estar sempre lá, juntinhos, tem que sentir que aquele é o ninho que nos vai acolher forever. Com esta casa foi assim: a minha nora enviou o link, todos pensámos que valia a pena ver, a minha filha disse que achava que aquela, sim, era especial. Vimos, gostámos, eu gostei de tudo, tudo o que via me parecia a meu gosto, nem mais nem menos. O meu marido e o meu filho, com o seu olhar técnico e avaliador, aprovaram, gostaram. Quando saímos da visita, tomámos, de imediato, a decisão: era aquela. Esta. Resolvemos fazer uma oferta em baixa, um bom bocado em baixa. Passado pouco tempo veio a resposta: tinham aceitado. E depois foi o tempo necessário para se tratar de tudo. E, agora que aqui estou, depois das pinturas, depois de feita a parte principal da mudança, o que posso dizer é que adoro andar a surpreender-me com as boas ideias que os anteriores donos tiveram. 

As minhas coisas encaixam aqui às mil maravilhas. Claro que, para que a mudança fosse ainda mais radical, eu ter-me-ia desfeito de móveis e demais tralha e compraria móveis novos, brancos, neutros, simples. Mas, lá está, isso seria daqueles esbanjamentos para os quais não me sinto atraída. Assim, mantive (quase) tudo mas tudo disposto de uma maneira totalmente diferente. De repente, tudo ganhou novo sentido, tudo bate certo, parece um puzzle cujas peças se juntam de maneira virtuosa, parece que, por um qualquer misterioso desígnio, tudo o que adquiri antes se destinasse a poder vir para aqui. A alegria que isso me dá não sei explicar. Parece um renascimento, As coisas renascem e eu renasço com elas.

Claro que há ainda o jardim. Sim, bem sei: amor exigente, requerendo atenção e carinhos. Nestes dias ainda nem tive tempo de sair a desfrutá-lo. Mas, sim, é também uma belezura. Eu não o teria concebido melhor. Pelo contrário, há aqui aperfeiçoamento ao longo de anos. Enterneço-me pensando no carinho com que o conceberam e viram crescer. Logo em frente da porta da cozinha, há um pequeno canteiro onde está uma roseira. A ver se ela gosta de mim. E há um terraço que está coberto por uma buganvília em flor. E sobre o portão, há como que uma trepadeira com coberta de pequeníssimas rosas encarnadas.

Traz-me felicidade, isto.

E é verdade: nesta casa, vou ter um lugar onde escrever. Tomara ter tempo e que as palavras desçam e venham ao meu encontro.

E os meus filhos gostam muito da casa e os meninos, os meninos, então, adoram. Quiseram logo saber onde seria o seu quarto. E eu, vendo a alegria deles, senti que também, de imediato, reconheceram a casa como o lugar de família onde nos encontraremos, onde adorarão estar. Ainda não trouxe cá a minha mãe: ainda não há condições, muita confusão, desarrumação, muita falta de tempo. Mas, no fim de semana, cá a terei. Creio que também vai gostar. Quando viu as fotografias que estavam no site preocupou-se com o chão, diz que eu deveria ter-me informado com a dona anterior sobre o produto que usava para ter um chão tão bonito, receia que não vá eu usar um produto que o estrague. Coisas dela, gosta de se preocupar com problemas que podem acontecer. Nisso é o meu oposto. Também fez duas almofadas para pôr nas cadeiras lá de fora. Ainda não as vi mas vi o tecido. Devem ter ficado bem bonitas. Fico contente. Há sempre muito dela e do meu pai nos lugares que habito e esta casa não vai ser excepção. Aqui ao meu lado, está um pequeno móvel de madeira, com portinhas de vidro, que ele me fez. E é assim que gosto de viver: em casas com vida, rodeada de coisas que têm memórias minhas e dos meus e que, no seu silencioso íntimo, guardam memórias alheias, casas onde gosto que aqueles de quem gosto se sintam bem.

____________________________________________________________

As flores que iluminam este post foram pintadas por Clementine Hunter e vêm ao som de Motherland na voz de Natalie Merchant

____________________________________________

E eu desejo-vos muita saúde e muita sorte. 
E agradeço as palavras simpáticas de parabéns e bons votos que, por falta de energia, não consigo agradecer individualmente.

sábado, agosto 15, 2020

Casa nova, vida nova




É verdade, Francisco: mudei de casa. Não foi para a tal, foi para esta. Não é uma casa invulgar, de uma arquitectura espectacular. É apenas uma casa bonita, ampla, luminosa, com um jardim à volta. A outra era uma casa de revista. Esta é uma casa de família. Agora, quando a casa se enche, para estarmos à vontade, não temos que ir para o campo. No apartamento, quando toda a miudagem se juntava, estando confinados, gerava-se ali uma tal turbulenta energia que os adultos ficavam todos com a cabeça em água. Ou íamos todos para o campo, que, ainda assim, não é ao virar da esquina ou tínhamos que nos preparar para a confusão.

O confinamento provou-nos também que, para estarmos mais circunscritos a casa, não nos sentíamos bem estando 'presos' muitos metros acima da terra, sem um bocado de chão onde pôr os pés, sem verde por perto. Por sorte, temos a possibilidade de ter para onde ir quando queremos evadirmos da cidade mas a verdade é que viver em permanência numa casa com jardim sempre foi a minha vontade. 

Desde que nasci até sair de casa dos meus pais, a casa em que vivíamos era assim. E sempre foi de uma casa assim que andávamos à procura. Mas primeiro casámos ainda miúdos, fomos para onde calhou. Depois nasceu a minha filha e queríamos era estar perto da escola dela e dos acessos para o nosso trabalho. Depois já eram dois e era mais prático estar ao pé das escolas. Depois era mais prático que pudessem ir e vir a pé para casa. Depois já tinham querer e recusavam-se a sair de perto dos seus amigos. E depois recusavam-se ir para um sítio para onde fosse complicado ir quando saíssem à noite. E depois, quando saíram e já não tínhamos a 'imposição' deles a forçar-nos à cidade, habituámo-nos, ficámos preguiçosos. Os meus filhos diziam que nos mudássemos, que já não havia razão para vivermos no meio da cidade, que seria melhor para todos se fossemos para uma casa com jardim (... e com um cão). 
De facto, esta do cão sempre foi um tema. Eles cresceram com a nossa doce boxer. Sempre tiveram muita vontade que voltássemos a ter um cão. Mas uma coisa era ter um cão quando eles viviam connosco e, durante o dia, iam à rua passeá-la, e outra, muito diferente, é sermos só nós dois numa torre e, quando vamos trabalhar, deixar o pobre do animal sozinho em casa todo o dia. E eles: mudem de casa. 
Há uns anos, fizemos uma tentativa nesse sentido. Tínhamos uma casa em perspectiva, projecto de arquitectura e engenharia prontos. Mas a empresa em que eu trabalhava mudou de sítio, não faria sentido ficarmos a morar mais longe.

Agora, comigo a querer mudar de tudo, com a família a apoiar, incluindo a minha mãe, uns por umas razões, outros por outras -- mas tudo se conjugando -- foi desta. 

Mas mudar de casa é obra. Era coisa que eu, quando os meus filhos nos tentavam convencer, sempre dizia: nem pensar em metermo-nos na trabalheira de uma mudança. Olhava para tanto livro, tanto bibelot, tanta coisa, e achava impossível. Muito sinceramente, não me via com energia para encaixotar uma vida inteira e voltar a recomeçar numa outra casa. Mas, sei lá porquê, nesta minha disposição de mudança, arranjei energias para me abalançar a tão hercúlea tarefa. Claro que o trabalho mais pesado não é o meu. Livros foi coisa para o meu marido. Não sei como conseguiu. Mas conseguiu. Eu fiquei com o trbalho mais leve mas, em minha opinião, mais melindroso. Copos, louças, bibelots, tudo embrulhadinho em plásticos de bolhinhas. 

Pode contratar-se serviços de embalamento, mas não quisemos isso. Não me imaginava, durante uma a duas semanas (que foi o tempo que as empresas de mudanças estimaram), a ter uns quantos camaradas lá em casa, a mexer nas minhas coisas. Ainda por cima, em tempos de covid. Portanto, tudo feito por nós. Tudo para fora de gavetas e prateleiras. Tudo arrumado em caixas. E, à medida que íamos arrumando em caixas, ia limpando móveis por dentro, íamos deitando coisas fora. Uma canseira mas, ao mesmo tempo, um consolo.

E, nos dois últimos dias, entraram os homens. Hércules. Homens com força de touros. Estes, Paulo, eram mesmo touros. Quais bois? Não, touros. Possantes. Eu não conseguia sequer arrastar uns centímetros no chão cada caixa. Eles pegam nelas, põem-nas ao ombro e aí vão eles. Ou pegam em móveis brutais e aí iam eles escada abaixo. Uma força do além.

Agora cá estou. Caixas e caixas e caixas. Uma tarefa brutal para os próximos dias. 

Teria mil peripécias para contar, incluindo coisas do Marinho ou do Dudu, mas já é tarde para além da conta e, portanto, vou dormir numa caminha nova, num quarto novo, numa casa nova. E amanhã (que já é hoje) é um novo dia.

___________________________________________

Há mais Monas & Lisas aqui

____________________________________

Desejo-vos um belo sábado

sexta-feira, agosto 14, 2020

Quando não tem que ser





Pois é. No primeiro dia que fomos ver a casa, fomos com o senhor da agência. Quando entrámos, o meu marido apontou para as espreguiçadeiras e disse: 'está gente em casa'. Havia roupa nas costas das cadeiras. O da agência fez um ar admirado e disse: 'Disseram-me que não'. Quando abriu a porta, ficámos parados à porta. Da porta via-se toda a sala, tudo amplo, o chão em madeira, as paredes brancas, as paredes em vidro -- e via-se uns sofás amplos, em cinza claro, com um portátil aberto na mesa, uns óculos de aros de tartaruga, uma camisa de linho ao lado. O da agência estacou: 'Mau... Não me sinto nada confortável com isto... Informei que vinha cá. Não percebo.'. O meu marido, que não é dado a grandes estados de alma, limitou-se a perguntar: 'Que é que fazemos? Entramos ou não entramos?'. O da agência, atrapalhado, sem saber mesmo o que fazer: 'Pois... não sei... dá ideia que está cá gente...'. O meu marido procurou a campainha. Não encontrou. Perguntou, alto: 'Está alguém?'. Eu bati palmas. O da agência pôs-se ao telefone, ar aborrecido. Ouvi-o a dizer: 'Pá, computador aberto, óculos, lá fora roupa nas espreguiçadeiras, pá, eu avisei, disseram que sim'. Perguntei: 'Mas a casa ainda está habitada? Tinha percebido que não...?'. O da agência, desconcertado, que não, desabitada. Entretanto, eu, cusca, fui avançando. O meu marido também. Todos de máscara, bem entendido. O meu marido, avisou-me: 'Não mexas em nada'. Isto do covid mexe com ele. Espreitei para uma divisão mais do que ampla, com recortes de vidro na parede. Uma cama muito larga. Se calhar, uns dois metros de largura. A roupa de cama, tudo em branco, toda revolta, uma peça de roupa, branca, caída ao lago da cama. O da agência, incomodado, ao ver a cama toda mexida, voltou a dizer: 'Mau'. 


Mas a verdade é que fizemos a visita. Pé ante pé, a medo. Em especial quando espreitámos a casa de banho desse grande quarto, íamos um pouco atrapalhados. Convenci-me que podia estar a caminho de dar com alguém nu, no banho. Melhor: de pregar o susto da vida a alguém. Mas não, ninguém. Aliás ontem fiz confusão. A primeira vez que lá fomos foi assim. Na segunda vez é que fomos com o meu filho e família. Na primeira passou-se esta cena misteriosa. 

Dias depois de lá termos ido, de novo, o meu filho, que estava maravilhado pela casa, voltou a passar por lá. Carros à porta, vozes e animação vindas do jardim. Perguntei ao da agência: 'Afinal o que se passa? Parece que está mesmo gente por lá...'. Ele confirmou: 'Já lá passei várias vezes e vejo sempre carros e ouço vozes, risos.'. Perguntei: 'Mas terão a casa alugada?'. Ele disse: 'Dizem-me que não, que apenas, às vezes, emprestam a casa a amigos.'. Mas a verdade é que deixaram de responder à proposta que voltámos a fazer para nos aproximarmos do que eles queriam. Insistimos. O da agência, constrangido: 'Pois, não sei o que vos diga. Dá ideia que perderam o interesse em vender, não respondem. E, é verdade, está sempre gente por lá.' Perguntei: 'Mas não serão eles? Os donos? Se calhar estão na sua própria casa'. Explicou que não. 'Não, não. Os donos vivem fora. Nós falamos é com o procurador deles.'.


Durante algum tempo ainda alimentámos a expectativa de que o mistério se resolvesse e que os donos dessem o ok que faltava para se avançar para a formalização. Mas, ao mesmo tempo, eu não estava a ver como aproveitar alguma coisa dos meus tarecos numa casa daquele género. O meu filho, então, desenhou, de cabeça, as plantas e alçados e etc da casa, estimou medidas e tentou demonstrar como a casa ficaria em harmonia com o seu projecto inicial mesmo que aproveitando alguns dos meu móveis.

Mas o meu sexto sentido dizia-me que se calhar não, que o meu caminho não se faria por ali. 

Nas casas, como nos amores, a coisa tem que ser fuida, sem escolhos, sem mas-mas, sem pulguinha atrás da orelha, sem reserva, sem desconfiança. Não se ama verdadeiramente uma pessoa e, ao mesmo tempo que se quer que seja amor total, em segredo se pensa que o diabo é aquela voz de gaitinha, aquele perfume incomodativo, aquele hábito de fazer aquilo que, no fundo, não tem nada a ver connosco. Isso não é amor, isso é uma ficção. Amor que é amor vai com tudo, de cabeça: gosta-se de tudo, é tudo bom, a voz, o cheiro, a forma de beijar, a maneira de ser, a forma de dizer, a forma de andar, a forma de estar em grupo ou em privado connosco. Numa casa é a mesma coisa: casa que nos vai fazer felizes tem que ser assim, amor total, gostar-se de tudo. Mais: tem que se sentir que a retribuição é total. Tal como no amor, o investimento deve ser equivalente, sobretudo o investimento emocional. A entrega deve ser na mesma medida. A casa também. Temos que nos sentir virtuosamente acolhidos por ela. Não pode haver funfuns e gaitinhas, ai tanta janela, ai que quase nem tem paredes, ai onde é que vou pendurar os meus quadros?


Pensei: não tem que ser. E falei com o meu marido: vamos esquecer. Ele disse: 'Também acho.' Aliás, quando eu dizia que os outros não respondiam, que parecia que afinal já não queriam vender, ele dizia que devíamos era mandá-los a um certo sítio. 

Portanto, embora percebendo o desgosto dos três manos e respectivos progenitores, fiz write off da casa de sonho. Já era. Bye bye. Quando se percebe que não tem que ser, que não tem a ver connosco, o melhor é dar as costas, mandar à fava, esquecer, não pensar mais nisso. E sou assim mesmo: quando desisto, vejo defeito que antes parece que não via, vejo mil razões para tirar daí o sentido. Fecho a porta. Não existiu.

E, portanto, no que à casa diz respeito, depois dessa expectativa gorada voltei à estaca zero.

____________________________________________________

Pinturas de Rudi Patterson 
a acompanhar Jorge Palma (aqui com Sérgio Godinho): 'Quem és tu, de novo?'

________________________________________________________

E sejam felizes, está bem?

quinta-feira, agosto 13, 2020

A nossa casa




Quando o vendaval começou a rodopiar em minha volta, só me apeteceu levantar os pés do chão, cortar raízes, mudar completamente a minha vida. E mudei.

E, às tantas, ao mesmo tempo que me preparava para mudar de emprego, de local de trabalho, de tudo, e não sendo capaz de despir a pele e aparecer com uma nova, apeteceu-me também mudar de casa. Durante meses, à noite, andava a ver sites de casas. Era disso que eu falava. O rival do blog, o que retinha a minha atenção, era isso: pesquisar casas. Mil casas. Depois também a minha filha. Mandava-me listas de links. Entusiasmavamo-nos, achávamos que uma tinha potencial, outra tinha graça. O meu marido nestas coisas põe-se à margem. Acha que são maluquices. Coisas tuas e da tua filha, dizia. Quando não adere às iniciativas demarca-se tanto que até parece que a filha é só minha. Nós duas fazíamos short lists, telefonávamos para as agências, pedíamos informações, visitas virtuais. Ele nem aí. A minha filha via a coisa a progredir e perguntava: 'E o pai? O que é que o pai diz?' e eu respondia com a verdade: 'nada'. Ela própria inquiria o pai. Não conseguiu mais do que eu: 'Vocês são malucas' ou 'Não tenho nada a ver com isso' ou 'Isso são coisas da tua mãe'.


Querendo saber a opinião do meu filho, eu mandava-lhe links. Também não ligava, achava que não havia qualquer racionalidade no processo, dizia que não se percebia a lógica por detrás daquelas opções, que nada naquelas escolhas fazia sentido, dizia 'tu e a mana embarcam as duas num entusiasmo que não tem qualquer racionalidade' ou 'exactamente, qual a ideia?' e, a maior parte das vezes, nem respondia aos mails que eu lhe mandava.

Fomos ver algumas ao vivo. O meu marido contrariado. Antes de ir e de vê-las já tinha decidido que eram 'uma porcaria'. Em todas eu via um lado bom: se fizer obras, se modificar, imaginava eu as possíveis virtudes. O meu marido, contrariado: 'só perder tempo'. Achava as casas uma porcaria, os locais uma porcaria, a ideia descabelada.

Foi neste processo que constatei como há tanta casa tão feia, tanta casa esquisita, tanta gente com mau gosto, tanto ambiente depressivo, piroso, estranhíssimo. 

Até que um dia reequacionámos tudo, pusemos tudo em perspectiva. E se a decisão fosse ainda mais radical? E se olhássemos para outro tipo de casas, para outros lugares?

Aí, o meu marido e o meu filho começaram a prestar atenção. A minha filha apoiou a mais do que cem por cento.


Um dia, estava eu a espreitar sites, descobri uma casa extraordinária, daqueles projectos de arquitectura arrojada, uma casa feita para existir quase vazia, só a casa e o espaço. E a luz...? Liguei para a agência, perguntei ao meu marido se lá poderíamos ir ao fim do dia. Nem lhe mostrei a casa. Sabia que ele ia adorar. Mandei o link aos meus filhos. A minha filha não ficou entusiasmada, o meu filho amou. Como foi muito em cima da hora, ela não conseguiu ir. Ele sim, ele, a mulher, os filhos.

Lá chegados, toda a gente ficou encantada. Coisa para além de. Parecia que estávamos num outro lugar, a viver num outro comprimento de onda. O meu marido olhou para mim, surpreendido. Vi que seria com agrado que lá viveria. A minha menininha chamou-me de lado e disse-me: 'Eu vivia aqui na boa'. Corriam pela casa, contentes, escolhendo quartos. Na divisão grande, esconsa, decretaram que dormiriam eles e os primos.

A mim surgiam-me dúvidas: lavar tanta janela, tantos painéis de vidro, tão grande clarabóia. Diziam: terá que se contratar uma empresa. Mas logo todos diziam: tanta luz, à noite a ver-se o céu do sofá. E era, tanta luz, tanta amplitude, aquele terraço largo, as divisões comunicando-se, quase sem paredes. A cozinha cheia de cor e luz, aberta, ampla. 

Hesitei. Eles queriam. A minha filha na dúvida, dizia que a arquitectura mais lhe parecia de hotel que uma casa. Eu pensava na decoração: teria que me desapossar de grande parte da minha mobília, bibelots nem pensar. Mesmo quadros seria difícil, tudo tão amplo e aberto, tanto vidro e portas e janelas, quase nenhumas paredes boas para pregar quadro. Mas como, justamente, estava mesmo nessa, de me desfazer de tudo o que fosse passado e presente, não seria por aí. É que havia também o preço: um bocado acima do orçamento. Partimos, pois, para a negociação. Fizemos uma proposta agressiva e, para nossa surpresa, do lado de lá, em vez de nos mandarem passear, veio uma proposta a meio caminho.


__________________________________

Hoje fico-me por aqui, estou cansada demais (e talvez percebam agora melhor que arrumações radicais são estas em que ando metida e porque é que chego a esta hora com os bofes de fora).

As pinturas são de Georgia O'Keeffe e quem a acompanha é Maria Bethânia com 'A nossa casa'

__________________________________

Desejo-vos uma bela quinta-feira.
Saúde. Sorte. Alegria.