domingo, abril 10, 2022

Se deixares de ter medo, tornas-te um perdedor. O medo é um dom de um deus. Temos que saber como usá-lo. Ele motiva-nos incrivelmente, torna-nos mais rápidos, mais espertos, melhores.

 

Quando vejo testemunhos de ucranianos -- sejam os que perderam entes queridos, sejam os que viram amigos ou familiares a serem torturados e assassinados a sangue frio pelos soldados russos e que depois os viram a começar a ser comidos pelos cães, sejam os que têm familiares mortos dentro de casa e não têm como retirá-los dali e enterrá-los, sejam os que se aguentam em casa enquanto soam as sirenes e à volta tudo arde, sejam os que pegam nos filhos pequenos e vão, com quase nada, para o desconhecido, sejam os idosos que querem é morrer em paz -- não apenas fico com lágrimas nos olhos e com o coração apertado como me espanto. 

Que coragem têm... Como conseguem força para tamanha capacidade de resistência?

Ao ver a entrevista aos irmãos Klitschko feita já há 18 anos, penso que percebi um pouco melhor a coragem ucraniana. 

A par do amor que têm à liberdade e ao seu país, têm medo de vir a ficar sob o jugo putinista e, certamente, medo do que a guerra está a fazer às suas casas, às suas famílias, às suas vidas. E o medo move-os. Motiva-os. Torna-os mais ágeis, mais argutos, mais fortes.

Vitali Klitschko, agora Presidente da Câmara de Kyiv, tem 50 anos, mede, 2,01m, 3 filhos e, quando praticava box, era conhecido por Dr. Ironfist (Dr. Punho de Ferro)

Wladimir Klitschko tem 46 anos, mede 1,98m, tem 1 filho e, quando praticava box, era conhecido por Dr. Steelhammer (Dr. Martelo de Aço)

The Klitschko Brothers: The 2004 60 Minutes Interview

Former world heavyweight champions Vitali and Wladimir Klitschko have taken up arms against the Russian invasion of their native Ukraine, where Vitali is the mayor of Kyiv. In 2004, while still fighting in the squared circle, the brothers spoke with Dan Rather about their lives.

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Os cães estavam a começar a comê-los

 


“Tivemos que implorar aos russos que nos deixassem enterrá-los. Eles disseram que ainda estava frio, pelo que não importava, poderiam lá continuar no chão. Mas os cães estavam a começar a comê-los. Finalmente, convencemo-los de que era uma questão sanitária e lá nos deixaram cavar a sepultura na igreja do Apóstolo André já que era perto do local em que estavam, da morgue e do hospital”.

in "With bloodied gloves, forensic teams uncover gruesome secrets of Bucha in Ukraine" de Bethan McKernan, no The Guardian

Sobre a fotografia, transcrevo a legenda: Natalia Lukyanenko observa as autoridades escavarem uma vala comum nos terrenos da Igreja de André, o Santo Apóstolo, em Bucha. Fotografia: Anastasia Taylor-Lind/The Observer

sábado, abril 09, 2022

Comprar livros a eito, aos 400 de uma vez, para decorar estantes

 

Uma casa sem livros é uma casa sem vida. Escusaria de dizer mas, ainda assim, digo: com isto, refiro-me, claro, a quem tem a sorte de ter casa e a quem tem a sorte de poder ter livros.

Quando estou numa casa, mesmo que involuntariamente, reparo nos livros, na quantidade e no género de livros. Uma pessoa que lê, transporta, em si, muitos mundos e os livros que escolhe falam alto sobre si.

Claro que se a pessoa mal tem dinheiro para pagar a casa, a roupa dos filhos e a comida para pôr na mesa, o mais natural é que não tenha disponibilidade para comprar muitos livros. Mas se a pessoa tem dinheiro para ricas casas, grandes carros, brutas férias e altas comezainas, se quase não tem livros em casa é porque, simplesmente, não gosta de ler. Nada contra, é o que é.

Agora o que nunca me tinha ocorrido é que a alguém passasse pela cabeça comprar de atacado 400 livros apenas para parecer bem numa sessão fotográfica. Mas passa. E ao ler sobre a insólita situação dico a saber que não é caso inédito. 

A quem tenha curiosidade, aconselho a ler:

Shelf-promotion: the art of furnishing rooms with books you haven’t read

Ashley Tisdale admitted she’d bought all her books for a photoshoot – and as Adele and Gwyneth Paltrow will attest, her hankering for a brainy backdrop is anything but novel

(...) “These bookshelves, I have to be honest, actually did not have books in [them] a couple of days ago,” Tisdale said. “I had my husband go to a bookstore, like, ‘You need to get 400 books.’” (Her husband’s alternative plan, of “collecting books over time, and putting them in the shelves”, Tisdale promptly dismissed.)

(...) According to MailOnline, Adele spent more than £1,000 in a spree at Daunt Books before the pandemic, “pulling books off the shelves without even looking at the spines or reading the blurbs”.

At least Adele bought them herself, points out Miles de Lange, an interior designer at Potterton Books, a specialist book supplier. He says interior designers are often charged with supplying books for clients. “They are props, just like you buy a little objet.”

(...) If you do have the budget to splash around on books you won’t read, there are dedicated bookshelf curators such as Thatcher Wine, whom Gwyneth Paltrow hired on finding herself some 600 books short after a home renovation.

Gwyneth Paltrow’s home library in L.A., curated by Thatcher Wine.
COURTESY JUNIPER BOOKS

Inside Ashley Tisdale's Self-Designed Family Home | Open Door | Architectural Digest

Today Architectural Digest is welcomed to Los Angeles by Ashley Tisdale for an inside look at the stunning new home she designed for her family. Tisdale and her composer husband Christopher French moved into their current home when she was around seven months pregnant, at which point the High School Musical alum dove headfirst into decorating. The talented Tisdale was well prepared for the undertaking, considering she launched her design passion project, Frenshe Interiors, last year. “I went with the mentality of falling in love with every piece,” she says. “I fully love this house. I love every piece of everything I’ve done here, and I’m really proud of myself.”


Mas a casa é bonita, lá isso é.

sexta-feira, abril 08, 2022

Estar do lado errado da História -- o que não é forçosamente o mesmo que ser gauche na vida*




Por motivos que mal compreendo, o facto de me sentir indignada com a invasão da Ucrânia por parte da Rússia e chocada e revoltada com a barbárie a que temos assistido, uma destruição e uma chacina impensáveis, tem desencadeado em algumas pessoas que por aqui me lêem reacções verdadeiramente violentas contra mim. Alguns comentários (que não publico) são abjectos, ordinários, violentos e, alguns, ameaçadores. Isto foi exponenciado pelo que escrevi ontem, espantada e incomodada que tenho andado com as reacções do PCP que, envolvendo as suas opiniões em algodão doce, na prática está ao lado de um psicopata assassino, autocrata e cabecilha de um regime de oligarcas, de seu nome Putin. Publiquei dois desses comentários mas não publiquei todos, alguns porque são excessivos e violentos e outros por não usarem linguagem compaginável com este blog.


Contudo, como bem devem saber, sou osso duro de roer. Por isso, de novo aqui o digo e repito: há qualquer coisa de triste na forma como os comunistas portugueses ficarão para a história, colados a um déspota, a um psicopata, a um assassino que ousou invadir um país, que ousou tentar a sua destruição, que violou todas as regras do direito internacional, que é responsável por toda a espécie de crimes de guerra em larga escala. 

Poderia acrescentar aqui o lado caricatural de tudo isto: a tareia que uma superpotência como a Rússia está a levar da Ucrânia que, apesar de ferida na carne e na alma, está a resistir e a obrigar a Rússia a bater em retirada de Kyiv e de muitos outras cidades e a sofrer pesadas perdas. Mas isso, neste momento, não é para aqui chamado, isso poderá esperar para quando ficar claro que, se a Ucrânia está arrasada, a Rússia não o ficará menos. E Putin será responsabilizado por isso. Portanto, o PCP ficará colado a um bandido assassino que ficará para a história como um segundo Hitler, um desgraçado que destruiu tudo em que tocou antes de acabar ingloriamente derrotado.

Entretanto, a par dos putinistas, dos comunistas, aparem também os negacionistas. Sempre que há qualquer tema mais relevante, cá aparecem eles. São os que se acham mais inteligentes, vendo o que todos os outros não vêem. São os que negam a existência da covid, os que sabem sempre o que o resto do mundo não sabe, são os sabem, de fonte segura, que a terra é plana. 


Psicologicamente deve haver explicação para isto: o que leva a que, perante todas as evidências, imagens, testemunhos, validação de informação por fontes isentas e diversas, algumas pessoas se agarrem a narrativas ficcionadas, inverosímeis, ridículas?

Aquando dos picos covid, fomos sabendo de negacionistas que, às portas da morte, se arrependiam das suas campanhas anti-vacinas, pedindo desculpa pelo absurdo do seu comportamento. 

Não sei se alguns dos que por aí andam, defendendo Putin* e atacando a Ucrânia ou lançando suspeições ou insultos virão a público reconhecer que se enganaram e pedir desculpa. Se calhar não. Se não conseguiram, até agora, reconhecer o assassino que foi Estaline e o rasto de pavor que espalhou, como irão agora ter a humildade de reconhecer que, uma vez mais, se puseram do lado errado da história ao apoiarem Putin?

[* E não vale a pena dizer que não estão a apoiar Putin. Estão. Ao não serem capazes de condenar inequivocamente Putin, estão a pôr-se do seu lado. )


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De novo, partilho alguns vídeos de quem, no terreno, testemunha o horror e a evidência do que têm sido as práticas das tropas russas. A crueldade humana pode ser excessiva. Em tempos de guerra, mesmo os inocentes perdem a inocência. Parece haver provas de que a violência não terá sido apenas fruto do álcool, do stress causado pelo medo misturado com a adrenalina, mas de algo premeditado para intimidar e fazer vergar a resistência ucraniana. Seja como for, é uma tragédia ilimitada.

Ukrainians say Russian soldiers used them as human shields - BBC News

Clear evidence of Russian troops rounding up Ukrainian civilians and using them as human shields has been found by the BBC.

In multiple interviews, villagers from Obukhovychi, north of Kyiv, have said they were taken from their homes at gunpoint and held in a school gym by Russians trying to stop advancing Ukrainian forces.

Local people also gave accounts of Russian troops shooting civilians and holding others captive in and around neighbouring town Ivankiv.

The BBC’s Jeremy Bowen reports from Ivankiv.

Ukrainian girl vlogs siege of Mariupol: 'My nerves collapsed'

When the Russian invasion reached Mariupol in Ukraine at the end of February, Alena Zagreba, 15, went from filming vlogs with her friends to chronicling the destruction of her home city. While most people hid in bunkers and cellars, Alena and her parents stayed above ground, and her videos are a rare insight into the intense attacks by Russian forces. Alena melted snow for water while her parents cooked on makeshift fire pits outside. The family survived by moving from house to house as shelling made their home and other shelters uninhabitable. Alena said at one point in the diary that her nerves had been 'destroyed' by the constant bombardment. After fleeing to the Ukrainian-controlled city of Zaporizhzhia, Alena and her mother moved to Luxembourg, where the teenager has resumed school – while her father is still in Ukraine as men aged 18-60 have been ordered by the government to remain in the country

The Horrors Russia Left Behind | Russia-Ukraine War

After weeks of heavy fighting in Kyiv’s suburbs, residents who had been in hiding returned to the streets to find damage and carnage — land mines, bullet holes and corpses.

On April 4 and 5, video journalists from The New York Times entered the towns of Bucha, Borodianka and Hostomel to talk with witnesses and document the aftermath of the Russian occupation.
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Ao mesmo tempo, há qualquer coisa de rudimentar e de incompreensivelmente impreparado na forma como toda esta operação militar russa se tem desenrolado. Numa perspectiva muito diferente, o que abaixo se vê é também de bradar aos céus. Os soldados russos que ocuparam a central nuclear de Chernobyl andaram a cavar trincheiras em solo radioactivo, andaram por ali como se nada fosse. Devem estar carregados de radioactividade. E o que parece é que com a mesma leviandade com que ocuparam a central, também se expuseram, eles próprios, ao risco como se totalmente ignorantes estivessem do que ali se passava.

E tão estupidamente a ocuparam como desocuparam. Não se percebe qual o planeamento e a lógica de muito do que se passa, parecendo evidenciar que não há liderança nas hostes russas, apenas desvario.

Ukraine officials survey Russian dug trenches in Chernobyl exclusion zone's radioactivity levels

'It’s already squeaking showing excess' says a Ukrainian official surveying the trenches dug by Russian forces in the Red Forest exclusion zone surrounding the Chernobyl nuclear plant.

The footage shows members of the State Agency of Ukraine for Exclusion Zone Management walking through former tank positions and trenches.

At one point one of the men can be seen measuring the radioactivity of the area. “It’s already squeaking showing excess,” he’s quoted as saying.

The International Atomic Energy Agency was investigating reports that forces had been impacted by radiation poisoning, but said on March 31 it was unable to confirm and was seeking further information.

The footage was released by Ukrainian Witness on Thursday. Russian troops took control of the plant on February 24 and withdrew weeks later on March 31.

Vladimir Putin’s troops occupied site of the world’s worst nuclear disaster, after they captured it in the early days of their Ukraine invasion.

Dozens of Russian soldiers are said to have been struck down with acute radiation sickness and were taken in seven busses back across the border in nearby Belarus.

The site of the 1986 nuclear tragedy in northern Ukraine was captured in the opening days of the war, sparking fears of a major radioactive disaster as a result of heavy fighting around the plant.

Russian troops dug trenches in the highly toxic Red Forest zone, just a few miles west of the plant, but have now retreated as part of a pull-out from around the capital Kyiv.

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* a propósito de se ser gauche na vida:

Poema de Sete Faces (Carlos Drummond de Andrade) por Paulo Autran


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As fotografias foram feitas aqui em casa e transbordam de primavera 
e vêm ao som de Music for Peace in the Ukraine 🇺🇦 Schindler’s List com Edmond Fokker no violino

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Esperança. Paz.

quinta-feira, abril 07, 2022

À atenção do PCP, à atenção de todos os que não conseguem condenar inequivocamente a invasão da Ucrânia pela Rússia, à atenção dos que não conseguem acusar Putin de uma chacina e de uma barbárie indesculpável, à atenção dos que conseguem achar que a culpa das atrocidades a que assistimos (a que o mundo inteiro assiste em directo) é da Ucrânia, da Nato ou dos Estados Unidos, à atenção dos que não ficam chocados perante a tortura, o massacre dos Ucranianos à mão dos russos

 

Não consigo perceber como é que ainda há gente que questione a veracidade do que toda a gente vê: todos os órgãos de comunicação social de todo o mundo testemunham em directo, filmam, entrevistam, validam. Já não vivemos no mundo em que era possível forjar narrativas, em que não havia comunicação ubíqua, em tempo real, transmitida do cenário de guerra para a opinião pública. Não, já não vivemos nesse mundo, o mundo de há uns anos. Agora há reportagens directas, online, imagens aéreas, sequenciais, há cruzamento de imagens de diferentes proveniências, geolocalizadas, datadas -- agora é impossível enganar toda a gente.

Contudo, perante todas as evidências a máquina putinista nega-as e constrói uma narrativa paralela, inverosímil e absurda. Mas, mesmo quando as mentiras difundidas pela hipócrita contra-informação de Putin são desmontadas, palavra por palavra, pixel por pixel, os mesmos putinistas, os mesmos comunistas, os mesmos negacionistas continuam colados à narrativa dos criminosos.

Porque é que os comunistas se colam a um regime corrupto, oligarca, imperialista e criminoso, isso eu não compreendo. E fico tão espantada, tão agoniada com a atitude do PCP que mal consigo falar nisto. Acho revoltante. Desonram o seu passado ou, pelo menos, desonram os ideais pelos quais dizem lutar. Parece-me uma atitude gravíssima, a do PCP.

Para mim, o direito à liberdade -- liberdade a todos os títulos, liberdade de escolher como se quer viver, liberdade de expressão, liberdade de opção, liberdade em geral -- é inalienável, indiscutível. E o direito à autoderminaçao dos povos também. E o direito à vida e o direito à paz são sagrados. Inalienáveis, indiscutíveis, inegociáveis.

Não consigo encontrar atenuantes ou desculpas para um país invadir outro, destrui-lo, matar a sua população. Não encontro. Não encontro porque não existem, não existem desculpas ou atenuantes.

Se um país, um estado soberano, quer manter a sua independência, se quer ser europeu, se quer aderir à União Europeia, se quer estar defendido pela Nato, não há justificação para que um outro país se intrometa nessas decisões e, da forma mais brutal e atroz, invada esse país.

Poderíamos ser nós. Somos e queremos ser portugueses, queremos ser europeus, queremos pertencer à União Europeia, sentimo-nos seguros com a protecção da Nato -- e era o que faltava que alguém achasse bem que a Rússia nos invadisse, arrasasse as nossas casas, bombardeasse as nossas ruas, os nossos hospitais, teatros, escolas, cidades inteiras, nos torturasse, violasse e matasse ou obrigasse a fugir deixando para trás uma vida, nos esmagasse até que os poucos sobreviventes aceitassem ceder parte do território e aceitassem ser governados pelos russos. 

Contudo, o PCP acha isto bem. Pode não dizê-lo por estas exactas palavras. Mas a hipocrisia dos seus argumentos é ainda mais constrangedora. Sinto vergonha por eles.

O PCP está agonizante e vai acabar mal, sem honra, colado a um psicopata, a um criminoso bárbaro.

Sergey Lagovskiv, 26, mourns over the body of his friend Igor Lytvynenko, who according to residents was killed by Russian Soldiers, after they found him beside a building's basement in Bucha, Ukraine April 5, 2022. REUTERS/Zohra Bensemra

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A todos aqueles a quem apelei lá em cima, peço que vejam o vídeo abaixo. Uma vez mais, não tem legendas. Mas as imagens falam por si. Vejam-no, por favor. A mim esta tragédia faz-me chorar, não apenas pela dor destas pessoas mas também pela impotência que sinto ao ver como isto acontece debaixo dos nossos olhos sem que consigamos impedir tamanha desgraça.

Ukraine War: 84-year-old woman tells Sky News 'I just want to die in peace'


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As fotografias podem ser vistas em Ukraine's civilians caught in the crossfire of war, no site da Reuters

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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível
Saúde. Paz.

quarta-feira, abril 06, 2022

Tenho muita, muita, infinita pena que os ucranianos tenham que pagar com tanta dor, sangue e lágrimas, tantos com a própria vida, para que consigamos ver com clareza o que antes parece que não víamos

 


Tantas vezes aqui em casa me insurjo: caraças, será mesmo possível que não haja uma força internacional, isenta, que possa ir para o terreno impedir esta guerra, esta barbárie, travar os assassinos, abater aviões ou navios que estejam a disparar mísseis ou bombas sobre cidades e populações? Não há mesmo maneira de travar a insanidade criminosa de uns quantos, talvez até, sobretudo, de um único homem?
 

O meu marido é mais legalista, invoca os princípios e regulamentos, explica que uma coisa é ser uma força de paz, que existe justamente para defender uma situação de paz e outra, muito diferente, é ser parte de uma guerra. 

Até pode ser essa a razão -- mas não concordo. A Ucrânia estava em paz antes de ser invadida. Por isso, acho que faria todo o sentido que um país que é militarmente invadido por um outro país seja ajudado a defender a paz a que tem direito.

A mortandade, a sanha destruidora, a loucura encarniçada que as tropas russas têm demonstrado desde o primeiro momento em que iniciaram uma guerra injustificável e inqualificável tem que poder ser travada.

Se não vai lá com sanções, se não vai com tentativas de negociação, então que as estradas, as ruas e as praças da Ucrânia sejam ocupadas por capacetes azuis prontos para defender a paz da Ucrânia.

E, mais uma vez o digo, parece-me essencial que o Papa Francisco passe uns dias na Ucrânia, em especial nas zonas mais críticas e mais atacadas. E era bom que mais líderes religiosos se lhe juntassem.

Tal como primeiros-ministros de três outros países, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, e, parece que dentro de dias, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deixam bem claro o apoio à Ucrânia, é ainda mais relevante do ponto de vista da opinião pública que os principais líderes religiosos mostrem ao mundo e à Rússia em especial, um total repúdio perante os bárbaros, atrozes crimes de guerra de Putin. 

Sei que a ida do Papa à Ucrânia está, finalmente, em cima da mesa. Mas devia ir já e demorar-se o tempo suficiente para que Putin seja forçado a fazer uma pausa. E uma pausa, em situação de guerra, é relevante a todos os níveis.

Bem sei que ainda há quem encontre explicações para que um regime criminoso invada um país e o destrua e massacre e tente exterminar o seu povo e bem sei que há quem invoque interesses geo-estratégicos para não condenar inequivocamente o brutal crime em massa que está em curso. Contudo, perante o que está a passar-se, não há explicações nem atenuantes possíveis. O que está a acontecer é imperdoável, injustificável, inaceitável.

Neste caso não tem muito que saber. Há uma linha vermelha, desenhada a sangue, e de um lado está Putin e os que o apoiam ou desculpam e do outro os que não aceitam a guerra, a violação de fronteiras, os massacres, a bárbara destruição.

Como chegámos aqui, como permitimos que isto esteja a acontecer, como não percebemos o que estava por vir (apesar de todas as evidências), como não arranjámos mecanismos para nos protegermos destes crimes de guerra, destes insanos delírios imperialistas, como -- perante crimes tão atrozes -- ainda há quem não os condene sem adversativas ou meias palavras, é um mistério para mim. 

Que, ao menos para nos fazer abrir os olhos e nos fazer as escolhas certas, sirva o sacrifício dos infelizes ucranianos.

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A Ukranian grandmother trapped at home as her quiet street became a war zone

Valentyna Omelchuk spent a month hiding out in her basement in Makariv, Ukraine, west of Kyiv, as shells landed in her yard and bullets shattered her windows. She is still trying to get in touch with her daughter and grandchildren in Kyiv

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Surviving Russian atrocities in a destroyed Ukrainian village

Russian troops withdrew from the village of Andriivka, west of Kyiv, after a month of waging war and terrorizing residents, leaving a trail of dead civilians and spent munitions in their wake. Similar scenes are being discovered across Ukraine, as experts gather evidence of possible Russian war crimes.
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Russia wants to turn Ukrainians into 'silent slaves', Zelenskiy tells UN
Volodymyr Zelenskiy has urged the UN to act and reform its system which gives Russia, a permanent member of the security council, a veto, saying everything must be done to ensure the international body works effectively.

In a passionate address on Tuesday, the Ukrainian president questioned the value of the 15-member security council, which has been unable to take any action over Russia's invasion of Ukraine because of Moscow's veto power

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Tanya Nedashkivska reacts as she recounts how her husband Vasyl Ivanovych, who served in the navy, was killed by Russian soldiers, as she stands near their residential building, amid Russia's invasion on Ukraine, in Bucha, Ukraine April 3, 2022. Vasyl was arrested by Russian soldiers. Tanya looked for him for days and found him in a building's basement where two bodies were lying, she recognized him by his sneakers, his trousers. "He looked mutilated, his body was cold. They turned him over a little. He had been shot in the head, mutilated, tortured" Tanya said. REUTERS/Zohra Bensemra
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As imagens (bem como a legenda da fotografia acima) podem ser originalmente vistas no artigo: 

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E, sobre as linhas vermelhas, permito-me transcrever na íntegra um texto que muito vivamente recomendo: trata-se do que Rui Bebiano publicou no seu blog A Terceira Noite (o que está a bold é de minha responsabilidade):

Desde 1968, o ano em que, com Paris e Praga, despertei para a necessidade de ter uma opinião política própria e de a exprimir, habituei-me – mesmo naqueles anos, entre 1971 e 1976, em que fui bastante inflexível – a tomar o lado esquerdo do futuro e da vida coletiva como necessariamente plural. Capaz de conter, a par de uma vontade transversal e profunda de justiça social e de fraternidade, uma grande diversidade nas formas de as conceber, de as conquistar e de as defender. Estas diferenças notam-se sobretudo quando olhamos os programas, as linguagens, as formas de organização e a base social, mas de uma forma muito particular quando se confrontam os valores da liberdade, da equidade e dos direitos humanos.  
Foi nestes domínios que cedo fui deparando com homens e mulheres para quem estes três fatores são, de facto, de uma importância relativa, sobretudo se o caminho que vislumbram para alcançar e conservar o poder político, o seu ou o dos seus aliados, requerer a sua relativização e a sua passagem para segundo ou terceiro plano, quando não a sua omissão. São pessoas que mantêm palavras sobre justiça, igualdade, paz, liberdade e democracia na ponta da língua, mas que as assumem, verdadeiramente, apenas dentro do seu próprio quadro de explicações e interesses, jamais como valores absolutos e inegociáveis, associados a uma humanidade plena e ao convívio na diferença das escolhas e opiniões. Consideram tais valores, na realidade, como luxos dispensáveis, e nos momentos críticos isso torna-se evidente.

É neste quadro que se torna possível compreender que não questionem os dois maiores sistemas concentracionários e tirânicos do século XX, a União Soviética de Estaline e a China de Mao, apenas contestando aquele outro, o da Alemanha de Hitler, que em número de vítimas – mortos, presos, torturados, deslocados, empurrados para campos de trabalho ou extermínio – de facto se encontra em terceiro lugar na negra contabilidade. Têm também defendido regimes tirânicos e de partido único desde que estes se apoiem numa verborreia «socializante» ou antiamericana, enquanto em outros momentos e lugares declaram defender os valores da esquerda democrática. Embora sabendo dessa ambiguidade, pois não sou ingénuo e conheço razoavelmente a história, fui convivendo politicamente com essas pessoas, sempre em nome de objetivos prioritários pelos quais poderíamos desfilar debaixo da mesma bandeira.

Existem, todavia, momentos em que esta contradição entre o que se prega e aquilo que se faz ultrapassa os limites, revelando, em quem a pratica, um fundo moral perante o qual é honestamente inevitável uma profunda desilusão. Se tivesse vivido o Pacto Germano-Soviético de 1939, talvez tivesse há muito experimentado algo desta natureza, como tantos comunistas e outras pessoas progressistas na época experimentaram com grande desilusão e uma amargura que nunca se extinguiu, mas admito que, em situação vivida na primeira pessoa, seja realmente agora a primeira vez que chego a um tal limite.

A guerra de invasão da Ucrânia e as chocantes posições de conciliação diante do espetáculo da morte e da destruição de um país e de um povo da parte dessas pessoas, a forma como pactuam com a mentira e até com teorias da conspiração, falando ocasionalmente de paz sem apontar o dedo aos agressores diretos, estão a fazer com que as transfira agora, provavelmente em definitivo, para o lado de lá barricada do combate pela minha noção de democracia, de justiça e também de honestidade pessoal. Não mais desfilarei ao lado de quem, como os fascistas ou os criminosos, contemporiza com a morte, a tortura e a devastação, aceitando recorrer à mentira ou à deturpação, ou desculpando-se com contextualizações ocas e contemporizadoras, não menos assassinas que as proclamações abertamente agressivas. Em questões desta natureza traço no chão linhas vermelho-vivo.
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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível.
Saúde. Ânimo. Paz.

terça-feira, abril 05, 2022

Entre o brilho do sucesso e o negrume da luta pela vida.
Jon Batiste e Suleika Jaouad: entre os 5 Grammy e a batalha contra o cancro

 

Mudança, jogo de turnos, rotação. Assim a vida. De um lado a inspiração, o reconhecimento, o êxito, os festejos, o brilho das luzes que sempre procuram o sucesso. Do outro, as más notícias, o desalento, o medo, o sofrimento, a solidão. 

Jon Batiste é daqueles que é sempre muito bem vindo a esta casa. Tem aquela alegria que tantas vezes acompanha a inocência dos grandes talentos. A música nasce-lhe das mãos, da voz, do corpo, do sorriso.

Suleika, a sua companheira, agora sua mulher, pensava ter ultrapassado a leucemia. Escrevia e falava sobre isso, dizia que tinha visto a morte de perto, falava de como é importante valorizar cada momento da vida. Mas o bicho traiçoeiro voltou. Soube disso ao mesmo tempo que Jon tinha razões para sorrir. Quando se soube das 11 nomeações de Jon, estava ela a ter a sua primeira sessão de quimioterapia. 

Mas, mesmo antes, aquando do transplante de medula, quando ela tinha que estar isolada, Jon estava com ela através da música que diariamente compunha para a sua bem amada.

Temos um tempo limitado, diz Jon. A morte é a maior lição. Acolhamos a imperfeição.

Agora, no vídeo abaixo, falam desta nova fase das sias vidas com sorrisos, sem fatalismos, como se soubessem que não será esta rasteira que os fará tombar. Ambos sorriem. Estão juntos e isso faz toda a diferença. São os dois lados da vida. Melhor: são dois dos muitos lados da vida.

Jon Batiste and Suleika Jaouad sharing life beyond cancer

The same day the "Late Show with Stephen Colbert" bandleader received 11 Grammy nominations – the most by any artist this year – the love of his life was beginning chemotherapy treatments for her second battle with cancer. Jon Batiste and bestselling author Suleika Jaouad ("Between Two Kingdoms") talk with correspondent Jim Axelrod about how their world was turned upside-down, and how they met adversity with an act of defiance.


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E, para quem não esteja a ver bem a dimensão do talento do fabuloso Jon Batiste, aqui está ele, uma vez mais


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E, numa outra dimensão, o inferno na terra

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Saúde. Esperança. Paz

Um quase silêncio

 

As imagens estão em todo o lado e são incompreensíveis. Holocausto? Uma louca chacina perpetrada por demónios à solta? Uma vaga de um mal maior vinda directamente do inferno? O desesperado destino de uns infelizes filhos de um deus menor? Não sei. Não encontro explicação.

Se fosse um filme, eu não quereria ver. Se fosse obrigada a ver, acharia uma ficção tão exagerada que teria perdido qualquer vestígio de credibilidade. Não há palavras que descrevam. Nem terror nem horror nem sequer fim do mundo. Não há palavras. 

Só mesmo o silêncio. 

segunda-feira, abril 04, 2022

Dia em família

 


Tenho estado aqui a ver se arranjo energia para começar a escrever. O dia foi muito bom mas começou cedo e acabou tarde e veio na sequência de uns tempos bastante atarefados. Talvez por isso, agora me sinta sem pilhas.

Festejámos mais um aniversário. Não foi hoje o dia dos anos mas foi o dia da festa da família. 

Entre caminhada matinal, compras no supermercado, ir buscar a minha mãe, almoço, preparar as coisas, ténis em grupo, lanche e brincadeiras e, no fim, ir levar a minha mãe, foi muito bom mas, quando chegámos, estávamos os dois com vontade que não viesse aí uma segunda-feira mas um domingo. A minha mãe dizia, no carro: "Vocês deviam era ir uma semana para um hotel para dormirem até tarde, para dormirem a sesta, para descansarem. Vocês não descansam.". Ao ouvi-la pensei que isso deveria acontecer no primeiro dia, dormirmos bastante, mas que, ao segundo, já não deveríamos aguentar-nos sem nada que fazer.

Os meninos estão crescidos, bonitos, amigos uns dos outros, sempre bem dispostos. Desta vez quem fez anos foi o menino que, durante algum tempo, aqui tratei por bebé e a quem, pouco depois, passei a chamar ex-bebé. Chorava que se fartava, em especial de noite, quando era bebé. Não se percebia o que se passava mas a verdade é que não deixava a mãe dormir. O pai, nessa altura, estava a trabalhar longe e ela, sozinha com dois pequenos, um dos quais a chorar toda a noite, passou um mau bocado. Quando resolvi tentar eu, até para dar lhe dar tréguas a ela, não consegui fazer nada dele. Chorava, fazia birras, não se cansava. O meu marido perguntava-me, espantado: 'Mas que é que o puto tem? Alguma coisa deve ter para berrar desta maneira...'. Mas, que se soubesse, não tinha nada a não ser o não dormir nem deixar dormir. Noites em branco. Quando se deixou disso, virou um menino tranquilo, meigo, muito boa pessoa. Como sempre foi muito dado ao desporto e a tudo o que sejam actividades físicas, acabámos por ficar surpreendidos por ser tão bom aluno e por, afinal, ser também dado a gostar de história (imagine-se...) e ser sensível, mesmo sentimental. Nunca se zanga com ninguém, nunca arranja problemas, ajuda os outros, tenta ir de encontro ao que os outros gostam e, claro, toda a gente gosta dele.

É o padrinho da pequena fera. Tanto queria um cão, tanto pediu e tanto logo se afeiçoou, mais que qualquer dos outros meninos, que só poderia ser ele o padrinho.

Nestes dias, a pequena fera anda de um para outro, todos brincam com ele e o enchem de festas e de mimo. 

Quando estão juntos, os meninos falam muito, têm sempre imenso a conversar. Dois deles, dois homónimos, os que sabem muito de futebol, tentam apanhar o outro em falso. O mais novo desses dois, o que hoje foi repórter e é um bacano bem disposto e cheio de marotice, bem tenta desarmar o primo mas o primo, o mais velho dos cinco, é enciclopédico no que se refere a jogadores, nacionalidade e clubes, treinadores e sei lá que mais. Não faço ideia onde se adquire este género de conhecimento mas a verdade é que nada o finta. 

Têm um apetite de dar gosto. Quando chegam ao pé de mim perguntam logo o que há para comer. Desta vez, dois deles perguntaram se era um lanche ajantarado. Talvez. Mas com o apetite que têm e com a energia que gastam, por muito que comam, acho que, pouco depois, estão capazes de se sentarem de novo à mesa e jantar e cear. Numa das fotografias que a minha filha mandou há bocado estão os cinco sozinhos à mesa, comendo e conversando. Uma graça. Fico feliz ao vê-los assim. Tomara que, ao longo da vida, seja qual o for o rumo que sigam, se mantenham sempre amigos. 

Hoje são amigos e quer os filhos do meu filho adoram a tia quer os dela adoram o tio. Aliás, quando cá estão, quaisquer deles perguntam logo se os tios não vêm ou quando é que os primos chegam. E o meu coração enche-se de alegria. Não há cansaço que se sobreponha ao contentamento por vê-los juntos e amigos uns dos outros.

A minha mãe gosta de estar no meio da confusão, admira-se por vê-los cada vez maiores. Diverte-se com a voz aguda da bisneta e com o seu sentido de organização. Ainda hoje, ao entrar no carro da tia começou logo a perguntar que bolas eram aquelas no chão, três bolas de futebol!, e a querer começar a fazer arrumações. E espanta-se com o vocabulário e a desenvoltura do mais novo, que sabe tudo. Ainda hoje, quis pôr uma raquete nas costas, presa entre o corpo e a tshirt. Dizia que era como se fosse uma espada. Depois puxava-a e apontava-a. E eu perguntei-lhe: 'Sabes o que se diz, nessa situação? En garde'. E ele, como que corrigindo-me, pronunciando o r arranhado, mesmo à francesa: 'En garrrde. Como na esgrima'. Não sei porquê, hoje esteve parte da tarde, depois de lanchar, de máscara. Nem sei que máscara é aquela. Trouxe-a lá de baixo, quando o aniversariante esteve com o tio, o seu grande amigo, a jogar ping pong. Se calhar é uma máscara de paintball.

Já sei que amanhã, quando perguntar à minha mãe se dormiu bem, me vai dizer ora!, que nem uma pedra, que adormeceu mal se sentou no sofá ou que caiu na cama e que dormiu muitas horas de seguida. O movimento acelerado e ruidoso destas tardes em grupo são para ela uma verdadeira terapia de choque em termos de sono e de boa disposição.

A vida é uma caminhada, na verdade. E que a façamos juntos, em harmonia, em paz -- isso é o que é preciso.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Afecto. Paz.

domingo, abril 03, 2022

Num sábado in heaven, depois de um certo susto à chegada, aparece-me agora o Putin e o fantasma dos Romanov...?

 



Quando chegámos, antes de abrirmos a porta de casa, o meu marido foi abrir o portão que dá para o lado de trás. E aí disse: 'Acho que temos aqui um pequeno problema...' e a voz não augurava nada de bom. Fui ver. As portadas da cozinha estavam abertas de par em par. Mau... E as janelas estavam abertas, basculantes. Ficámos os dois a olhar para aquilo. Somos cuidadosos ao sair. O meu marido, em especial, verifica sempre tudo antes de sairmos. Naquele momento pensei que nos dois últimos meses não tínhamos lá ido. Entre a última vez e este sábado aconteceu aquele episódio da lagarta do pinheiro que ia causando a morte do nosso ursinho felpudo. Não foi in heaven mas in heaven há imensos pinheiros e, em alguns, há daqueles ninhos delas e é normal, pela primavera, vermos procissões delas. Como não temos zonas delimitadas onde possamos reter a fera, resolvemos não arriscar. Até agora.

Fomos dar uma volta por fora da casa e constatámos que não estava mais nenhuma janela ou portada aberta. Menos mal. O meu marido inspeccionou a janela da cozinha por fora e não viu sinais de arrombamento. 

Ainda assim, abrimos a porta um pouco a medo. O meu marido foi inspeccionar a casa por dentro. Tudo bem.

Já mais tranquilos, constatámos: 'O alarme não disparou... E, além disso, como é que se põe uma janela a bascular pelo lado de fora...?'. E dentro de casa parecia que ninguém tinha entrado.

O meu marido, então, disse: 'Sabes uma coisa? Isto não abona nada a nosso favor...'. E eu pensei a mesma coisa: se calhar fomos mesmo nós que deixámos as janelas abertas...

Mas depois arranjei uma desculpa: a última vez tinha sido um dia dos diabos. Eu e o meu marido estávamos com reuniões. Pelo meio, foi lá o senhor que, tempos antes, tinha arranjado a salamandra e a tinha deixado no meio da casa porque, quando perguntou ao meu marido qual o lugar exacto onde ficava, ele tinha respondido que 'no mesmo sítio'. Isto foi num dia em que eu não fui. Ora, nesse dia, a salamandra estava praticamente no meio da sala pois tínhamo-la afastado para pintar a parede por trás. Portanto, o senhor, bem mandado, instalou-a ali mesmo. Quando lá cheguei fiquei passada. O meu marido, como sempre, disse que não achava que estivesse mal. Mesmo que estivesse pendurada no tecto de pernas para baixo ele diria a mesma coisa... Claro que liguei a pedir que fossem pô-la encostada à parede. Portanto, nesse dia, início de Fevereiro, o senhor voltou lá. Desinstalou-a. Mas, ao voltar a instalá-la, para a encostar à parede ou se achatava o tubo -- e não o recomendava -- ou tinha que se fazer outro buraco no tecto. Resultado: completamente desconsolada, pedi que a instalasse de novo onde estava, quase no meio da sala... Fazer o quê? Obras outra vez? Buracos no tecto...? Ná, nem pensar. Claro que o meu marido encarou isto como uma vitória... Mas, pronto, paciência.

Entretanto, nesse mesmo dia, chegou o técnico que ia instalar a nova central de alarme, com video-sensores, tendo que andar pela casa. 

Como se isso não fosse pouco, tivemos um problema maior: a pequena fera, cão de guarda de corpo e alma, ladrava freneticamente, querendo atirar-se aos estranhos. E, por isso, se era eu que estava com os senhores, o meu marido tinha que estar com ele, pela trela, noutro sítio. Ou vice-versa. Um desatino.

Pior: o técnico não atinava com a programação da central. Era tarde, de noite, estávamos com fome, o cão não parava de ladrar e o homem não se despachava.

Portanto, acredito que, no meio daquilo, já de noite, nem reparámos que a janela da cozinha estava aberta...

Com tantos roubos que volta e meia há lá pelos campos, tivemos sorte.

A verdade é que dois meses com as janelas da cozinha abertas foram boas para o ambiente interno da casa: não estava fria nem húmida nem cheirava a casa fechada. Estava mesmo agradável.

Agradável mas a precisar de limpeza. Andei a aspirar, a sacudir, a limpar. Estava um solzinho bom e a casa agora, com as portas, janelas, rodapés e tudo branquinho e com a decoração também toda em clarinho, fica ainda mais acolhedora, luminosa. Gosto tanto.

E o campo... lindo, florzinhas, cores delicadas, tudo tão bonito, tão sereno, tão bom. A natureza renasce a cada dia, haja o que houver. Lá andei, como sempre, a fotografar, a respirar o ar limpo, a passear devagar, a ouvir os passarinhos.

De regresso, fizemos o desvio do costume para eu matar saudades dos melhores gelados à superfície da terra: um cone com duas bolonas, uma de rum com passas e outra de chocolate com laranja. Tão bom. 

Ao regressar, depois do banho e do jantar, ainda estive a tratar de umas cenas. Depois pus a box para trás para ver o Tabu. Já disse que tenho gostado imenso de todos os episódios do programa? É uma aposta arriscada mas que o Bruno Nogueira está a superar com talento. Humor inteligente. Isso e a dignidade e carinho com que trata os convidados são a receita que garante o sucesso.

E agora estive a ver as notícias sobre as quais hoje não vou falar. Mas vou partilhar um vídeo muito interessante. Ele há coisas...

Putin's Russia and the ghost of the Romanovs | The Economist

Tsar Nicholas II of Russia and his family, the Romanovs, were murdered 100 years ago today by Marxist revolutionaries. What does this anniversary mean for Vladmir Putin?

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Desejo-vos um belo dia de domingo

Ânimo. Tolerância. Afecto. Paz.

sábado, abril 02, 2022

A doença rara de Marcelo
[E, en passant, um hino para os tempos que correm: Olhar sempre para o lado luminoso da vida -- versão para malucos]

 

No meio de tudo, há sempre extremos que se tocam. Por exemplo, no meio desta crise toda que atravessamos -- com uma guerra devastadora, escassez de algumas matérias primas críticas, inflação a fugir ao controlo, a covid ainda não atirada ao tapete, etc. --, acho divertidas, patuscas mesmo, as tropelias que o nosso inefável Marcelo por aí anda a fazer. Esta da maioria absoluta parece que anda a instabilizá-lo. Deve recear a falta de protagonismo, coisa que, para ele, é pior que ter calos a roerem-lhe os pés, uma dor de alma que não tem atenuante, coisa que deveras o descompensa. Vai daí, deve pôr os neurónios em acção a ver o que pode fazer para puxar os holofotes para si e, ao mesmo tempo, para dar bicadas no Costa que, manganão, lhe furou o esquema. Queria era poder andar com o Rangel ao colo (metaforicamente falando, claro) e, afinal, saiu-lhe tudo ao contrário. Não aguenta.

Agora, ao dar posse ao governo, resolveu ofuscar o momento com uma chalaça, a de que ia estar com o Costa preso por um atilho ao pé da sua mesa. 

E a malta toda nas televisões põe a guerra em background e desata a chamar-se uma à outra para comentar a graçola marcelina. Como se o Costa, se um dia resolver partir para outra, se for prender por causa do atilho do ficcionista Marcelo. E como se os lugares da Europa só pudessem ser ocupados por malta desempregada, que não abandone nada para ir para lá. 

Conversa parola e fútil esta. Se há alguém que está refém de alguma coisa é o imparável Marcelo que está cada vez mais refém da sua hiperactiva e hipercarente maneira de ser e daquela rara de que padece, a de lhe correr vichyssoise no sangue.

Ou seja, esta de o Costa, daqui por uns anos, ir para aqui ou para ali não é tema. Pelo menos, por agora. Pode ser que um dia seja e, nessa altura, logo se atiram foguetes ou apanham as canas. Ou pode ser que nunca seja. Se fosse eu, bem lhes digo como era: mal me visse livre do governo pirava-me era para o campo, para o desfrute do justo descanso, livre das self-macacadas do Marcelo e de outros que tais.

Tirando estas cenas, também achei graça ao Ângelo Correia há bocado na televisão a dizer que, se os ucranianos atacaram os russos, fizeram muito bem deixando a entrevistadora sem saber o que contrapôr. E ele, anafado -- e agora, que está com o cabelo mais branco, incluindo as sobrancelhas, com um ar mais respeitável -- a sorrir com ar matreiro. E eu, ao vê-lo, lembrei-me daqueles gloriosos tempos em que o seu afilhado por aí andou a fazer disparates atrás de disparates, mostrando que, como aluno, não tinha aprendido nada, nem do padrinho nem do amigo, o estudioso relvas. E tão desgraçados foram esses tempos que, depois do láparo, ele próprio uma anedota, só anedotas.

E agora, enquanto escrevo, sem saber o que ver na televisão, voltei a passar na 3 justamente quando a Varela se revela mais putinette do que alguns dos putinettes generais e majores-generais que andam pelas televisões. É tão intragável que a Inês Pedrosa, em frente, está encolhida, encolhidinha, de consternação. O Joaquim Vieira está a tentar introduzir alguma racionalidade na conversa mas a dita Varela mostra-se desvairadamente colada ao major-general que defende Putin e parece estar eufórica com os argumentos czaristas e imperialistas de Putin. Aliás, citou Putin que, explicitamente anunciou as suas intenções. O Joaquim Vieira conclui: 'Estás a dar-me razão' mas ela está desorbitada e, aparentemente, não percebe o que está a dizer.

E, por uma vez, estou a concordar com o Moita de Deus que está a gozar com os majores-generais que dizem patetices [sic] e com a dita Varela que fala, exorbitadamente, com ar de quem comeu um rei mas não conhece sequer alguns dos conceitos básicos que regurgita, feita inteligente. 

Só chalaças. 

E, portanto, no seguimento do fantástico vídeo que ontem partilhei e que é do mais real que há, agora sigo o exemplo do guru Ronaldo que apelou a que a malta cantasse, à uma e à capela, o hino e daqui lanço um apelo: bora lá cantar o Always look on the bright side of life e dele fazer um hino. E quem conseguir levantar a perninha e fazer gracinhas, que acompanhe a cantoria com uma destas preciosas coreografias. 

Always Look on the Bright Side of Life - North Korean Edition

E um bom sábado

sexta-feira, abril 01, 2022

Viver a guerra e ser capaz de falar sobre ela, ser capaz de falar da disponibilidade para matar

 


Conheço algumas pessoas que, no tempo da outra senhora, estiveram na guerra em África. Nunca querem falar nisso. Um deles é muito extrovertido, meio amalucado, por vezes quase inconveniente. Fala de tudo e mais alguma coisa -- menos dos seus tempos na guerra.

Sendo casado e com um filho adulto, apaixonou-se perdidamente por outra mulher. Enquanto ele estava de corpo e alma nessa louca paixão, a outra, divorciada, andava a ver que peixe vinha à rede. Tinha casos atrás de casos e em nenhum estava inteira. Mas era ousada, atrevida, disposta a todas as aventuras. Ele andava maluco com tanto arrojo. Sendo casado em casamento de longo curso, este romance trazia-lhe o sopro de juventude que sempre sabe tão bem e, tanto o fogo que o consumia, que andava fora de si. Mudou a maneira de se vestir, a maneira de trabalhar e, quase, a maneira de ser. Andava eufórico como um teenager a descobrir o amor.

E falava disto com naturalidade. Até que ela, vendo que ele estava capaz de tudo, se retraiu. Ele estava pronto para largar o casamento e viver exclusivamente para a sua namorada. E ela, pura e simplesmente, queria escolher a melhor opção. E, um dia, de forma directa, acabou por lhe dizer que podiam continuar, sim, mas como amigos e amantes. Ou seja, ele que não alimentasse ilusões.

Teve um desgosto enorme, ele. Já tinha comunicado à mulher que queria separa-se. Disse-me: Saltei do comboio em andamento, caí, magoei-me e, quando me levantei, estava sozinho. 

A partir daí a coisa descambou: ele zangou-se, ela arrependeu-se de o ter descartado e, não sei como, aquilo acabou com ela a ligar a meio da noite para casa dele, a mulher a desconfiar que afinal o amor do marido era alguém que ela bem conhecia, depois a ter mesmo a certeza disso, ele furioso com a ex-namorada, ela a vingar-se dele (já não me lembro porquê) e, por fim, já havia suspeitas de intrusão informática, ameaças de denúncia na polícia. E sei lá que mais. Tudo tão excessivo e incompreensível que já nem me lembro de tudo.

Mas isto para dizer que ele, sempre tão extrovertido, tão franco, tão conversador, falava de todos estes dramas e, no entanto, nunca conseguiu falar dos seus tempos de guerra. 

Um colega dessa altura disse-me uma vez que ele esteve na zona mais difícil da guerra, que sofreu muito, muito, muito,, que esteve dias numa vala com amigos mortos ao lado, que, até que o fossem salvar, viveu uma situação limite de fome, sede, medo e muito ansiedade. Uma vez, perguntei-lhe se o que se dizia sobre o que ele tinha passado era verdade e se queria falar sobre isso e ele imediatamente ficou com o semblante fechado e disse apenas: 'Não'. 

Um outro, mais aberto e que dizia que nunca se deve perguntar a alguém que esteve na guerra se matou alguém, também nunca quis falar. 


Talvez por isso, me impressionou o vídeo abaixo. Talvez porque Volodymyr Demchenko está a falar do que está a viver, em cima do acontecimento, sem distanciamento, ou talvez porque, enquanto combate, está também a registar o que vive e o que vê, consegue dissociar-se o suficiente das suas emoções para conseguir falar do que sente. 

Tenho pena, claro, que não haja legendas em português mas, ainda assim, não posso deixar de partilhar.

‘Terrifying’: Soldier describes encounter with Russian fighters

CNN's Erin Burnett talks with Volodymyr Demchenko, a Ukrainian filmmaker and soldier, about what he is seeing on the ground amid Russia's claims of scaling back forces. 

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Fotografias da destruição ucraniana às mãos do assassino Putin provenientes do The Guardian ao som do Hino da Ucrânia em que se vêem os gémeos Klitschko, presenças tão corajosas na defesa da sua cidade e do seu país, um dos quais agora presidente da câmara de Kyiv

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E queiram descer um pouco mais caso queiram ver um vídeo do mais maluco que há

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Desejo-vos um dia bom
Esperança em melhores dias. Saúde. Força. Paz.

O que sei é que há por aí muito maluco com acesso a botões que deveriam estar reservados a quem tivesse os alqueires bem medidos

 

Se não fosse a chancela The Guardian diria que é fake. Fake o vídeo, fake os personagens, fake as situações. Tudo fake. Uma coisa para o gozo. Tudo ali é surreal. Aliás, não, surreal não. Parvo. Tudo ali é parvo. Parvo, infantil, piroso.

E, no entanto, é uma parvoíce que não é destituída de risco. Olha-se e, admitindo que não é fake, não se crê. Pensa-se que é coisa para dar vontade de rir. Mas não nos rimos. Sabemos que não é caso para rir.

E, mais uma vez, uma pessoa pensa: como é possível? Como é possível que os anos passem e este maluco continue rodeado de malucos a fazerem maluquices? Ninguém consegue deter os malucos de alto calibre? Um país inteiro pode ficar refém de um maluco? Ou é um país de malucos? E quem nos garante que um dia a maluquice não dá para o torto e não acordamos com um bocado do mundo a menos?

Kim Jong-un stars in film of missile launch on North Korean TV

North Korean state television has broadcast a Hollywood-style film that purports to show Kim Jong-un and military officials overseeing the launch of the Hwasong-17 intercontinental ballistic missile. The launch drew international condemnation.


E até já.