domingo, outubro 07, 2018

Flores, cristais e obras de arte que dá pena comer





Há uns meses fui a uma nutricionista. Fez-me um interrogatório que me obrigou a fazer uma regressão, não até eu ser outra, numa outra encarnação, mas até à saúde de pais e avós ou até a problemas de saúde de que já não tinha registo na memória activa. Viu-me as orelhas, a língua, os olhos, as unhas. Pesou-me, mediu-me. Depois mostrou-me esquemas científicos para me explicar algumas conclusões e, no fim, prescreveu o regime. Aconselhou-me que caminhasse mais, que dormisse mais, que abolisse açúcares e grande parte dos hidratos de carbono, produtos lácteos, pão de trigo, vinho, e que, por outro lado, introduzisse ou reforçasse um conjunto de alimentos tais como beterraba, alface e rúcula. E, é verdade!, para meu desgosto, que não comesse tanta fruta. E etc.

Levei à risca durante um ou dois meses. Perdi seis quilos e reduzi, creio eu, uns dez centímetros no perímetro abdominal. Fiquei toda feliz. Blusas e calças justinhas de volta, toda eu me senti recompensada.

Mas, hélas, não nasci para ser obediente, bem comportada, sofredora. Não gosto de resistir às tentações. Portanto, aos poucos, fui voltando a um ou outro bocadinho de pão (descobri o de espelta e matcha que é uma delícia), ao queijo (e cada vez gosto mais de queijo), ao vinho (ainda hoje, um Burmester branco geladinho a acompanhar a caldeirada), risotto, pizza, fruta em larga escala, etc, etc... e, também, uma ou outra sobremesa.

Mas não abuso. Não sou do estilo de 'enfardar'. Mas petisco. Só que petisco aqui, petisco ali... e os quilos já devem estar todos de volta e os centímetros idem. Não me tenho pesado para não ficar frustrada. Todos os dias penso que, no dia em que me encher de motivação, ponho de novo o travão às quatro rodas e volto à figurinha mais a preceito. Mas esse dia ainda não chegou. Talvez quando os figos se acabarem.

A verdade é que também não sou do género de, ao pequeno almoço comer croissant a transbordar de gordura,  a meio da manhã um paltel de nata e a meio da tarde uma bola de berlim.  Doces só à sobremesa e, mesmo assim, não gosto de doces muito açucarados, nem gosto de muito de cremes gordos e doces como o chantilly ou o creme pasteleiro. Gosto de laranja com casca caramelizada por cima, gosto de gelatina com frutas por dentro, gosto de tarte de limão merengada, gosto de clafoutis de maçã, gosto de ananás caramelizado com raspinhas de lima, gosto de pão de ló de Alfazeirão, gosto de sopa fria de papaia. Coisas assim. 

E também me deixo impressionar pela arte ao serviço da doçaria. Já aqui o referi: até não há muito, não se viam em Portugal bolos 'artísticos'. Quando noutros países, eu ficava encantada a ver as montras de algumas pastelarias. Obras de arte.

Agora por cá já começa a ver-se e, sobretudo, começaram a aparecer pessoas que os fazem em casa vendendo a amigos e conhecidos. Do que percebo, o facebook é o grande veículo para este tipo de actividade.

Contudo, não tenho conhecimento de que tenhamos por cá artistas como os que aqui, no blog, já tenho referido. E hoje refiro outra pasteleira cuja arte na confecção de bolos é extraordinária. Leslie Vigil inspira-se, sobretudo, em flores. E o resultado é fantástico. Claro que dará pena comer aquelas flores tão bonitas e, lá está, nem sei se não serão de massapão muito doce ou de creme de manteiga, coisa de fazer engordar uma tonelada, mas, enfim, só de ver já a gente fica feliz. E ser feliz é coisa apetitosa. 

Bon appétit.


Este até parece um bouquet de noiva.

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E, justamente, porque estou numa de 'eu é mais bolos', permitam que vos convide a espreitar os fantásticos outfits que a FLOTUS usou na visita a solo onde deixou todos de cara à banda.

Melania Trump, eleva a sua interpretação do dress code a um outro patamar.
A nossa Judite Sousa tem ainda muito a aprender


Durante algum tempo, os mais dados a teorias da conspiração diziam que a boa da Melania vestia-se assim ou assado para mandar recados ao Trump. Sugeriam que, furiosa com as macacadas do marido, desafiava-o publicamente com as mensagens subliminares que as suas toilettes enviavam. Nunca percebi tal coisa. Sempre me pareceu isso ficção fajuta em torno de uma realidade simples: volta e meia Melania desatina na escolha das toilettes. Para ela, isso do dress code é coisa complexa que, volta e meia, lhe sai ao lado. 

Enquanto escrevo, a espaços -- entre os zappings que o meu marido vai fazendo -- aparece-me a Judite Sousa. O meu marido comenta: 'Mas esta mulher não se vê ao espelho?'. De facto. Nada ali bate certo: a blusa, o casaco, as calças, tudo em azul de tons diferentes e em excesso; e, a desestabilizar ainda mais o conjunto, o cabelo. Pura falta de jeito. 

Penso que Melania padece do mesmo mal. 

Depois, ponhamos as coisas em perspectiva: mulher com os cinco alqueires bem medidos e com coluna vertebral em bom estado, não se casaria com um animal como Trump. Mesmo que tivesse ido ao engano, pouco depois estaria em condições de reparar o erro, mandando-o dar uma grande curva. Mas, enfim, este mundo está longe de ser perfeito e as coisas são o que são.

Enquanto primeira-dama, o que retemos dela é que é bonita, vistosa. Foi modelo, sabe posar. Sabe engolir sapos, sabe sorrir mesmo quando deve sentir vontade de vomitar os sapos que engoliu. Já discursou usando palavras plagiadas de Michelle Obama, já foi desfeiteada em público pelo marido, já cometeu gaffes, já viveu longe da Casa Branca, já aturou a preferência do marido pela filha e por outras mulheres, já tudo.

E se umas vezes aparece elegante, quase irrepreensível, outras vezes aparece ridícula. Não que as toilettes lhe fiquem mal. Não ficam: com a sua estatura, silhueta e beleza qualquer trapinho lhe fica bem. O que acontece é que frequentemente não fazem sentido naquele contexto. Ir visitar vítimas de um furacão ou ir plantar uma árvore com sapatos altíssimos, de salto de agulha, ou ir ver crianças separadas dos pais na fronteira e levar um casaco estampado nas costas com 'I don't care. Do u?' não revela bom senso. 

Agora fez a sua primeira visita a solo a África... e foi um fartote. Ao estilo colonialista ou a querer imitar Meryl Steerp em África Minha, ou, de novo, de saltinho agulha onde menos se esperaria, houve de tudo. 

Aqui uma excepção: simplesmente mal jeitosa, uma verdadeira maria-mijona

Se estes sapatos fazem aqui, neste contexto, algum sentido...

Um estilo colonial completamente descabido e que causou algum incómodo no Gana

Olhem para isto. Um puro nonsense

Finalmente uma toilette bonita.
Mas, lá está, um pouco too much na altura dos saltos e, para festim dos media, no desabotoamento da saia.

Mas, enfim, todos os males fossem esses. Isto é apenas o toque de humor que condimenta a coisa.

sábado, outubro 06, 2018

Num dia feliz, qual a lógica de falar de ataques de pânico?
[O exemplo de Gisele Bündchen]




Vim de véspera e passei o dia bem longe de celebrações, televisões ou informação de qualquer tipo. A casa esteve cheia de brincadeiras, conversas boas, sorrisos. Claro que, em off, esteve sempre a preocupação com o meu pai, constipado, debilitado, e com a minha mãe que está a sair de uma virose ou lá o que foi que a deitou um bocado abaixo. Ela não quer sair de perto dele, ele não sai da cama e isto, claro, custa-me bastante, e custa-me sempre e ainda mais quando não estão bem. Vou telefonando,  vou dando todo o apoio remoto, vou lá sempre que posso mas não há verdadeiramente muito mais que se possa fazer. Qualquer sugestão que lhe faça não lhe agrada, acaba por optar ficar em casa com ele. Portanto, sempre que consigo, tento abstrair-me e gozar o momento, especialmente quando estou com a minha querida descendência.

Gostam imenso de estar no campo. Vieram com bicicletas e pedalam com alegria pelos caminhos habitualmente habitados por animais silenciosos e por pássaros que cantam em liberdade e que, nestes dias, com os meninos, se enchem de risos, zangas, descobertas.

A menina arrelia-se com o irmão, mais novo, que é veloz na bicicleta e a ultrapassa fazendo manobras que a assustam e quase a fazem despistar. Depois, já é só o medo: quando o ouve a aproximar a grande velocidade já ela fica com medo, zanga-se, grita-lhe, amua, choraminga. E ele, malandreco, nega, diz que não está a fazer nada de mal, que ela é que tem medo mas que disso ele não tem culpa.


E eu revejo, na memória, momentos iguais, iguaizinhos, a minha filha a andar de bicicleta e o irmão, também mais novo, a fazer a mesma coisa, a arreliá-la, ela furiosa a gritar com ele e ele, feito inocente, a não lhe ligar patavina e a fazer outra vez e outra vez a mesma coisa.

Hoje chamei o menino. Falei-lhe na noção de fair play, no necessãrio respeito pelos companheiros de brincadeiras e de jogos, que quem se porta mal ou assusta os outros não tem fair play e deve ser desclassificado. Ouviu atentamente. A partir daí, quando passava a acelerar rente à irmã ia cantarolando 'eu tenho fair play e por isso não posso ser desclassificado'. Não vale a pena. Está-lhes na massa do sangue. Gostam de pregar partidas, de arreliar os outros. Têm coração de ouro. O meu filho nunca fez mal à irmã, só cenas destas, defendia-a quando eu me zangava com ela, na verdade sempre tentou protegê-la e, se sabe que ela tem algum problema, fica logo preocupado. Claro que agora que é adulto já não lhe azucrina o juízo, agora azucrina o dos filhos. Agora é o filho do meio que faz à irmã o mesmo que ele fazia. Portanto é sempre uma animação. E o bebé também é fresco. Voluntarioso, traquinas, destemido. Espertíssimo, divertidíssimo. Gozo com ele e ele faz um sorriso intencional, malandro. Outras vezes, não retém a ironia e desata a rir-se. 

Uma alegria, portanto.


Depois, à noite, fomos petiscar numa tasquinha à beira da estrada. O bebé a dormir, os manos mais crescidos sempre com aquele apetitezão. Comeram como gente grande. Melhor: como lobinhos esfaimados. No fim, quando estavam a levantar-se, perguntaram o que era o jantar. A mãe, surpreendida, respondeu que tinham acabado de o fazer. Protestaram, disseram que queriam jantar. Poços sem fundo. Comem que dá gosto. 

Depois seguiram para casa e nós dois regressámos aqui. Telefonei outra vez à minha mãe, o meu pai parece que estava melhor, ela mais descansada. Descansei também. Depois ligou a minha filha, estivemos na conversa, quis saber como tinha sido, o que tinham feito. Contei-lhe das travessuras e diabruras, contei-lhe das brincadeiras. A seguir, mudei de roupa, estendi-me no sofá e pimbas, tiro e queda. Apaguei. 


Agora acordei, retemperada. O meu marido, entretanto, já se foi deitar. Levantou-se muito cedo e esteve a cerrar madeira, em parte, ajudado pelo filho. Também estava cansado. 

E eu pus-me aqui a passar os olhos pelo YouTube. E fui dar ao vídeo que aqui partilho convosco. Fez-me muita impressão pois fala de um tema de que pouco se fala: os ataques de pânico.

Convivi de perto com uma pessoa que, numa fase mais difícil da sua vida, começou a ter ataques de pânico. Sentia-se mal, sentia um aperto no peito, ficava sem conseguir respirar. Achava que era uma coisa física e não emocional, assustava-se, receava estar a ter um problema de coração. Por vezes, ligava-me a chorar, com medo, aflita. Fez muitos exames médicos e não tinha nada. Tinha ansiedade e uma carga emocional pesada em cima dela. Não queria ter, queria estar bem e chorava também por isso. Começou a ter medo de conduzir ou de estar em reuniões com medo de ter crises daquelas. Eu dizia para ela respirar fundo, para beber água, para ir apanhar ar fresco, para descontrair. Mas não lhe era fácil. Felizmente ultrapassou essa fase e nunca mais teve tal coisa.


No outro dia, outra amiga minha, pessoa equilibradíssima, muito bem disposta, com um sentido de humor apuradíssimo, contou-me que, dias antes, lhe tinha acontecido uma coisa horrível. Estava no avião (e anda de avião duas ou três vezes por mês, sem qualquer problema) quando começou a sentir o coração a acelerar, depois ficou com falta de ar, como se tivesse asma, e com as mãos transpiradas. A seguir, diz que lhe aconteceu uma coisa ainda mais inesperada e disparatada: desatou a chorar. Não queria dar uma barraquinha daquelas mas não conseguiu impedi-lo. Quando chegou a casa, já tarde, voltou a desatar a chorar. O marido, preocupado, só lhe perguntava: 'Mas o que te aconteceu? A reunião correu mal? Alguém te tratou mal?' e ela dizia que não, que estava tudo bem, mas não conseguia parar de chorar. No dia seguinte foi ao médico. Ataque de pânico. Vida agitada, pouco descanso, muita pressão. Eu disse-lhe: 'Não vale a pena. Tudo se ultrapassa. Não podemos deixar que a vida nos esmague'. Ela disse: 'Pois é'. Mas não é fácil.

O peso das circunstâncias, o desatino que por vezes faz rodopiar o mundo em volta da vida das pessoas, tudo isso parece que, por vezes, causa um desequilíbrio no seu corpo, como se os fluidos entrassem em desestabilização e a energia que move o corpo também entrasse em tumulto.

Quando as pessoas se vêem assim, querem, sobretudo, ver-se livres dessa ansiedade, desse medo, da possibilidade de voltar a ter novas crises dessas, tão aterradoras.


Gisele Bündchen conta que passou por isso. Fumava muito, bebia, dormia pouco, trabalhava muito. E entrou em descompensação. Até que um dia a ideia de se atirar da janela assomou à sua mente. E, nessa altura, percebeu que tinha que abrandar. Parou, decidiu não se curar através de medicamentos mas de ioga e de meditação. No vídeo abaixo a bela Gisele emociona-se ao relembrar esses maus momentos.



E este mostra-a, serena, em comunhão com a natureza.



Dias felizes para vocês, meus Caros Leitores.

sexta-feira, outubro 05, 2018

CR7 - O início da descida aos infernos?


Nisto do Cristiano Ronaldo com Kathryn Mayorga há várias coisas que me incomodam, muitas, e nem vou aqui pôr-me a enumerá-las. Li os artigos do Der Spiegel e fiquei com uma ideia diferente da que tinha ao ouvir as notícias resumidas das televisões e as gordas dos jornais. Tenho agora a ideia de que pode vir por aí uma descida aos infernos para o melhor do mundo, o nosso CR7. 

O ter sido retirado da homepage de um reputado site, as preocupações manifestadas pela Nike e pela organização Save the Children são talvez o mote do que está para vir. 

O mundo do mediatismo (em especial, do mediatismo como fora de negócio) é perverso, pouco contemporizador, pouco paciente, muito ingrato. Facilmente se predispõem a pagar milhões e, com a mesma facilidade, de um dia para o outro, se determinam a retirá-los. Os contratos acautelam situações como as que Cristiano Ronaldo está a viver. Com sérias acusações de violação e pagamento pelo silêncio após a alegada vítima ter apresentado queixa na justiça, CR7 não apenas vê a sua imagem afectada por pesados danos reputacionais como a sua carreira profissional enfrenta sérios riscos. CR7 pode, muito rapidamente, deixar de ser um activo apetecível para se tornar um activo tóxico. A sua não integração na lista dos seleccionados para os próximos jogos da Selecção é a parte mais visível do que pode estar para vir. Se acontecer o pedido de extradição, Cristiano Ronaldo pode, até, não poder viajar para não correr o risco de ser preso e levado a um tribunal onde o crime de violação pode implicar, até, a pena de prisão perpétua. Ora a vida de um jogador de uma equipa como a Juventus é feita de viagens.

Mas não é só o risco de perder contratos publicitários milionaríssimos ou de ver a sua carreira futobolística sofrer um sério revés. Há riscos maiores. Não deve ter sido apenas Kathryn Mayorga que participou em farras com o jovem que se sentia dono do mundo, namorando com jovens modelos internacionais, frequentando o jetset, divertindo-se em bares, discotecas, iates, hotéis e deixando à solta o seu 1% em que não era um bom rapaz (vide artigo linkado). Imaginemos que pisou a linha vermelha mais vezes. Imaginemos que, se isso aconteceu, aparecem mais queixosas. Haver uma queixa ainda pode haver e quem (não tendo lido o artigo e admirando-o incondicionalmente, ponha as mãos no fogo por ele) ache que Kathryn é uma oportunista à procura de fama e de dinheiro fácil. Mas começar-se-á a vacilar se começarem a aparecer mais queixas. Aí a coisa pode tornar-se deveras mais complicada.

E nem vou imaginar o que as mulheres que deram à luz os três primeiros filhos de Ronaldo -- mulheres de quem nunca se ouviu nada -- podem lembrar-se de fazer. Nós não sabemos quem elas são mas acredito que elas saibam quem é o pai dos filhos e acompanhem o crescimento das crianças pelas revistas. Portanto, nunca se sabe o que lhes pode passar pela cabeça.

Tudo estará bem blindado, com clausulados à prova de bala. Cristiano Ronaldo paga bem a bons advogados que fazem bons contratos, tão bons que até acautelam tudo, até aos mais ínfimos pormenores, incluindo a forma como pagam o silêncio das alegadas vítimas para que as Autoridades Fiscais não desconfiem da entrada de grandes maquias de dinheiro e não resolvam ir atrás. Mas também o Lobo Xavier garantia que a justiça espanhola não tinha maneira de o apanhar na questão da fuga aos impostos e foi o que se viu. O CR 7 pagou e pagou bem e vamos ver o que ainda vem por aí.

Portanto, enquanto as revistas do coração e as redes sociais andavam entretidas com tricas domésticas que não passavam do azedume e o distanciamento entre a noivinha Georgina e a sogrona Dolores -- uma em Itália, poses de diva, e outra nos Açores, longe dos netos que ajudou a criar -- o que, na verdade, estava a acontecer era bem pior que isso.

Entretanto, apesar dos meus mixed feelings em relação a tudo isto 
(porque tenho a firme convicção de que quem viola uma mulher não tem perdão e quem usa o seu poder económico para silenciar as vítimas também não -- mas, por outro lado, não sei se as acusações são mesmo verdadeiras pois um multimionaríssimo CR7 é alvo fácil para gente oportunista e, parecendo Kathryn sincera e o parecendo o caso bem sustentado, a verdade é que não a conheço de lado nenhum e quem tem que ajuizar é a Justiça e não eu) 
vou ficar a fazer figas para que a minha intuição esteja completamente errada. 

No outro dia o meu marido comentou, em voz off, com o meu filho o que se está a passar. Pois o menino do meio, doido por futebol, ouviu e percebeu qualquer coisa e, acto contínuo, com ar aflito, pergunto: 'O Cristiano Ronaldo vai ser preso?'. E estava mesmo assustado. Desconversámos mas tanto insistiu que lá lhe disse que o CR7 tinha feito um disparate há uns anos e que uma pessoa tinha ficado zangada com ele. Ele ouviu, apreensivo. O meu filho disse: 'Vai ficar a pensar nisto'. E eu fiquei a pensar em todas as crianças para quem o CR7 é um ídolo e desejei que tudo isto fosse mentira.

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E hoje fico-me por aqui. Cheguei a casa tardíssimo, perto da meia-noite, e a verdade é que estou aqui só a cair para o lado, já completamente a dormir.

quinta-feira, outubro 04, 2018

#Philonomist.em.português.já!



Como agir quando somos a raposa no meio dos lobos? 
Num meio hostil deveremos recorrer a Maquiavel? 
O que fazer em relação ao efeito Matilde? 
As start-ups mantêm-nos na fase oral? 
O que é a destruição criativa?


Tudo magnas questões que o site Philonomist aborda, a bem de um funcionamento informado das empresas. 

Lançado no início deste mês a partir do Philomag, o Philosophie Magazine, o site visa levar a filosofia ao dia a dia das situações vividas nas empresas. Do que por lá veraneei, tenho a dizer que fiquei com pena de não ter a subscrição pois só se consegue ver uma parte de cada texto. O site é bilingue, em francês e inglês, e eu acho que deveriam acrescentar o português. Os temas parecem ser tão criativos, divertidos e oportunos que penso que o site em Portugal (e restantes países da lusofonia) teria imensa saída. É que a ideia parece-me mesmo inovadora, inesperada.

Quem não vive dentro de uma empresa pode não perceber a relevância de um site que discuta ou, pelo menos, aborde alguns temas numa perspectiva filosófica. Filosófica ou arraçada de filosófica. Para o meio empresarial vai dar ao mesmo. 

Não quero ser injusta, carregando na dose de ironia, pois o que não falta, imagino que, em especial nos grandes grupos, é gente informada, bem pensante e com sentido de humor. Isto para além dos figurões, caniches, zombies, apertadinhos, agarradinhos, divas, flausinas, faunos e demais fauna, claro. Só que, no decorrer dos dias, a mediania, o cinzentismo, os jogos palacianos e os pequenos poderes acabam por envolver com uma subtil capa tudo o que mexe. Portanto, não era mal pensado pôr a malta a reflectir. Nem que só um poucochinho.

É que ver gente a pensar é um grande acontecimento. 
Juro. Ia adorar assistir.


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Como não vou pôr-me, agora, a transcrever uma mescla de textos do dito site -- pois, em francês ou inglês, para quem não seja dado às bilínguas, a coisa pode ser maçadora -- fico-me por aqui. É tarde.

Mas, para que não venham pedir de volta o dinheiro do bilhete por acharem que assim não vale, que assim é coisa poucachinha, deixo-vos com um bailado que é de se lhe tirar o chapeau. Vejam, por favor.


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E queiram, por favor, descer para verem a beleza das mulheres embelezadas com a técnica do Kintsugi

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Kintsugi





Quando andei na faculdade tive um colega que tinha tido paralisia cerebral. Nunca antes tinha visto uma pessoa assim. Andava muito mal, controlava os movimentos com enorme dificuldade e quase não se percebia o que dizia. Era tão inteligente e bem disposto como todos os outros. Presumo que se sentisse um bocado diminuído mas, se se sentia, isso não transparecia. Custava-me um bocado falar com ele pois não queria mostrar que mal o percebia mas também não queria que ele percebesse que me inibia de lhe pedir para repetir. Contudo, quando vencia essa minha inibição, gostava imenso de conversar com ele.


Pouco depois, quando dei aulas no secundário e os meus alunos eram pouco mais novos que eu, deparei-me com outra situação complicada. Tinha uma aluna que sofria de epilepsia. Mas sofria muito. Era tão alta como eu mas mais forte que eu. Volta e meia começava a ficar estranha e depois caía, ficava a ter espasmos no chão. Eu, como professora, sentia que tinha que manter a calma na sala e que devia prestar-lhe assistência. Uma vez urinou-se toda. A mãe dela tinha-me ensinado a lidar com a situação. Mas a verdade é que eu, mesmo sem querer, estava sempre a vigiá-la com medo que a crise aparecesse. O que aquela miúda devia sofrer sabendo que, a toda a hora, lhe podia dar uma daquelas valentes macacoas em que ficava a estrebuchar no chão, a espumar, quase assustadora, descomposta... E todos os outros a encaravam como a colega estranha e ela também se sentia assim. Poucos amigos tinha. Notoriamente sentia-se diminuída face aos outros.

Num prédio perto do meu mora um casal com uma filha que também tem crises diabólicas. Já uma vez falei da senhora. A pena que sinto dela não sei exprimir em palavras. Nunca vi a senhora a falar com o marido ou com a filha. Tem um ar triste, consumido, como se qualquer vestígio de alegria tivesse desaparecido, por completo, da sua vida. A filha, que já deve andar pelos vinte anos, anda mal e parece mal controlar os movimentos do corpo. Nunca a ouvi falar. Mas o pior é quando tem crises na rua. Fica caída, a mãe a abrir-lhe a boca e a pôr-lhe uma coisa para lhe controlar a língua, a tentar segurar-lhe as pernas, a amparar-lhe a cabeça. Mas a rapariga não reage, é como se estivesse possuída. Numa das vezes perguntei à senhora se precisava de ajuda. Disse-me que não, que aquilo já passava. E pareceu que não queria que eu estivesse por perto. Respeitei. Afastei-me. Mas imagino o que é a vida daquela senhora ou, melhor, daquele casal.  A mãe tenta vesti-la com roupa bonita e a rapariga até é bonita. Mas, quando a vejo, é no problema que ali está que penso e não na sua beleza. Sem querer, ficamos formatados para só ver o que corre mal.


Nenhum dos casos de que falei será o caso das mulheres que aqui mostro. As mulheres que participam nesta campanha têm doenças raras, deficiências diversas, membros amputados, fundas cicatrizes. Mas porque haverão de se sentir diminuídas? O preconceito é que nos faz não ver a beleza  -- porque beleza, na verdade, não é sinónimo de simetria, de perfeição.

Usando a técnica Kintsugi, que consiste em tornar belos os defeitos físicos, não os disfarçando mas  salientando a sua beleza, um conjunto de mulheres foi fotografada e filmada por Murat Ozkasim para a campanha #EveryBodyBeautiful, idealizada por Zoe Proctor e Laura Johnson.


Quando uma bela mulher sente que o prazer de um grande amor já está fora do seu radar porque envelheceu ou quando, por algum motivo, se acha imperfeita ou pouco atraente o que se passa é que está também a ser preconceituosa. Até ao lavar dos cestos é vindima -- ou seja, todos, sejam homens ou mulheres, novos ou velhos, saudáveis ou doentes, perfeitos ou imperfeitos, esculturais ou defeituosos devem estar prontos para amar e ser amados, para festejar a vida, para partir à descoberta. 

Não há nada mais subjectivo do que a beleza. 

No outro dia, estávamos a passear e vimos uma mulher que me pareceu verdadeiramente feia, mas mesmo muito feia. Ia ao encontro de um homem que, a meus olhos, era igualmente um desastre. Pois se os vissem... caíram nos braços um do outro, um abraço contagiante, e ali mesmo, no meio da rua, beijaram-se na boca, apaixonados como há muito tempo não via ninguém. Certamente achavam-se belos. Ou não, mas a beleza ou a ausência dela, não era factor que interferisse naquele afecto tão intenso. Fiquei encantada. Voltei-me para trás com vontade de fotografar. O meu marido puxou-me pelo braço: 'Livra-te' e eu obedeci, não fotografei e segui em frente. Mas fiquei com pena pois era um daqueles instantes maravilhosos, de grande amor.


Mas mesmo que não haja outro ou que a falta de um outro não se faça pesar, há a auto-estima. E não há nada que torne uma pessoa mais insegura do que a falta de auto-estima. O amor próprio é fundamental. Veja-se o sorriso feliz destas mulheres. Que bonito é o seu sorriso e que bonitas elas são.


quarta-feira, outubro 03, 2018

Praxar e ser praxado


Quando as crianças voltam à escola, as ruas de Lisboa (e, provavelmente, de todas as cidades onde há universidades) enchem-se de adolescentes a fazerem figuras tristes. São rebanhos e rebanhos de carneiros um pouco por todo o lado. Rebanhos de caloiros. Podem ser visto sentados no chão, penico na cabeça, cumprindo ordens e dizendo baboseiras, desfilando pelas ruas, a toque de caixa, cantando asneiras, palavrões, auto-humilhando-se. Se calha cruzar-me com eles sinto-me envergonhada.

Quando estudei não havia praxes. Ao libertarem-se dos tempos e das práticas fascizantes, os estudantes aboliram as praxes. 

Se as houvesse, se me conheço bem e se bem recordo a minha irreverência sem freio, jamais eu me sujeitaria a macacadas destas. Vingassem-se como quisessem que porem-me a fazer figuras infelizes ou humilharem-me ou violentarem-me é que não fariam. Sempre tive bem vivo dentro de mim o orgulho na minha dignidade. Não vergava na altura tal como hoje não vergo. Mas não era só eu. Conheci o meu marido quando andava na faculdade, em cursos diferentes, e jamais eu imaginaria que ele se prestasse quer a armar-se em verdugo quem em cordeiro sacrificial. Mas eram outros os tempos.

Como renasceram estas práticas é coisa que não entendo. Que semente é esta que sobreviveu?

Porque se sujeitam estes jovens a isso, porque aceitam ser tratados com indignidade, porque gostam de se portar como criaturas acéfalas é coisa que jamais poderei perceber. Que adultos serão eles? E que pessoas são aquelas, os mais velhos, que humilham, violentam e desrespeitam os mais novos quando deveriam era acolher, orientar?

Todas estas praxes que se vêem pelas ruas são estúpidas, violentas, indefensáveis. Mas depois ainda há as que são piores: as que são feitas na calada da noite ou em lugares escusos. De vez em quando as coisas correm mal. Lembro-me do que aconteceu no Meco. Ou há denúncias. Agressões, humilhações sérias.

Agora ouve-se falar em seitas, em rituais iniciáticos. Há jovens universitários que se prestam a isto e eu fico preocupada. Os jovens são o futuro dos povos e nem quero imaginar um mundo em que as elites são constituídas ou por gente malvada ou por gente submissa e acéfala.. 

E custa a perceber como é que coisas destas perduram, como é que são abafadas. Quem pratica actos de violência ou que humilha outras pessoas deveria ver-se a braços com a Justiça. E as Universidades ou Institutos deveriam proibir liminarmente que alunos seus pratiquem actos desta índole, quer como praxados quer como praxantes (não sei se se diz praxante ou praxador). Podem dizer que são actos que decorrem no exterior da Escola e que, no exterior, a Escola já não tem autoridade. Não interessa.  Se não pode ser aplicada a Justiça, pode invocar-se a Moral, a Ética. São alunos que, nas imediações da Escola, podem ser vistos quer a fazer figuras tristíssimas, feitos carneiros, paus mandados, palermas, descerebrados, quer como pequenos ditadores, torturadores ou simplesmente prepotentes e, com base nisso, a Escola deveria agir.

E se nos casos mais ligeiros pode não haver lugar a denúncia criminal, a Escola pode e deve ter sempre uma acção pedagógica, mostrando que ser assim é a antítese do que se espera de um adulto livre, culto, bem formado, inteiro, justo, digno.

Que raio de descaminho está a levar isto com cada vez mais violência entre namorados, com um número assustador de jovens a abusarem do álcool ou das drogas, com esta adesão enorme a praxes, com um número crescente de jovens que não pega num livro, que acha que vale tudo e que a impunidade parece ser generalizada? 

Ou, caneco, serei eu que estou a ficar velha?!

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Para levantar o meu ânimo, permitam que mude de registo. Permitam que me deixe transportar nos maravilhoso braços de Sergei Polunin. Desce, meu anjo.


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Brexit, um desastre titânico


Quando os ingleses se interrogam sobre o que fizeram e já só querem saber como sair da porcaria em que se meteram e depois de vários dos artífices desta monumental barracada, quais vulgares ratos de porão, já terem saltado fora, eis que Boris Johnson, esse histriónico artista, resolve tirar, de vez, o tapete à desengonçada Theresa May. O discurso causou estrilho, não se fala noutra coisa e só veio pôr mais em evidência a trajectória que está traçada.

Os disparates têm-se sucedido, a desunião em torno deste projecto falhado é crescente e o que se avizinha parece não poder ser senão um de dois: ou uma humilhação nacional ou um desastre descontrolado.

Face a isso, tem valido o bom humor dos britânicos. 


terça-feira, outubro 02, 2018

Charles e Ulla, cinquenta anos de amor




Gostei de saber que Aznavour viveu um amor eterno. Sempre gostei muito das suas interpretações mas nada sabia da sua vida. Nem tinha que saber. A sua voz e a simpatia da sua presença era o que bastava. O conhecimento da vida concreta daqueles cuja obra admiramos pode distrair-nos do que importa. Tendemos a incomodar-nos com o lado humano dos que queremos quase divinos, perfeitos, isentos de pecado, de mácula. Exigimos demais daqueles a quem deveríamos amar sem condições. Por isso, não procuro conhecer as intimidades daqueles a quem admiro.


Mas agora, ao ler a notícia, fiquei a saber deste seu amor e gostei de saber. Chama-se Ulla e foi a sua terceira mulher. Dizia ele que quando conheceu a primeira era muito novo, quando conheceu a segunda era muito parvo mas que, quando conheceu a terceira, ela o pôs nos carris, o ensinou a ser tolerante e melhor pessoa. Com ela ficou até ao fim.

Era bem mais nova que ele, bem mais alta que ele, bem mais loura que ele. De outra cultura, de outro mundo. Mas a sua maneira de ser prendeu-o para sempre. Tiveram três filhos. Envelheceram juntos. Ver as suas fotografias emocionou-me. Eram jovens. Sorriam de amor. No fim, a idade tinha pousado sobre os seus corpos mas mantinham o mesmo sorriso gaiato e cúmplice de jovens apaixonados. 


Quando o amor é assim -- laço e vício, perdição e refúgio -- ele é terno e forte, resistente ao tempo, resistente aos embates e aos vendavais. Podem decorrer mil anos que sempre o vazio será preenchido pela memória e pela reinvenção de um amor que resistirá a tudo, a todos.

Ele dizia que, contra a vontade dela, não queria reformar-se. Deu uma entrevista uns dias antes de partir. Estava bem, irónico, sorrindo ao futuro. Certamente Ulla estaria à sua espera para, de braço dado, regressarem a casa. Assim são os amantes eternos. Sabem esperar um pelo outro, sabem aceitar as diferenças, sabem acolher os sonhos e os desejos do outro, amparam-se e defendem-se da morte .


Ulla Thorsell, a bela sueca, agora viúva, tem agora setenta e sete anos e, imagino, uma tristeza e uma solidão que não serão fáceis de ultrapassar. Sempre quis ter uma vida normal, longe dos holofotes. O seu galã, que ela já queria longe do palco, partiu para um espectáculo no outro lado do mundo.

Continuaremos a ouvi-lo. Felizmente há as gravações, os vídeos. Quantas vezes nada fica senão um sorriso numa memória que se vai desvanecendo? Uma carta quase rasgada de tantas vezes lida? Ou nem isso? Talvez apenas a recordação de um encontro distante num lugar tão improvável quanto miraculoso. E, no entanto, de um ténue fiapo de lembrança se pode alimentar toda uma vida.


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Los amantes rendidos se miran y se tocan
una vez más antes de oler el día.


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Entrevista de António Costa na TVI com a Judite Sousa e o Sérgio Figueiredo.
Os comentários que se impõem.


Sobre a entrevista que acabei de ver, primeiro na TVI e depois na TVI 24, tenho algumas coisas a dizer:


1 - O António Costa continua com má dicção e com roupa que parece sempre uns números abaixo. Apesar de tudo, notei que tentou não deglutir mais do que uma sílaba de cada vez e notei que desta vez era apenas um número abaixo (na fotografia acima até parece bem). Modestos mas, apesar de tudo, alguns progressos.


2 - O Sérgio Figueiredo está bronzeado de uma maneira tal que fiquei na dúvida sobre qual dos dois ali era o verdadeiro chamuça* (e isto, claro, carinhosamente dito até porque me pelo (do verbo pelar) por chamuças, especialmente quando quentinhas; e, com isto, que ninguém pense que estou com vontade de dar uma trinca em qualquer dos dois cavalheiros; não estou, especialmente porque duvido que sejam estaladiços)

[* Usei a metáfora das chamuças para as virgens ofendidas não me acusarem de racista caso tivesse dito monhé -- que isto uma pessoa já nem sabe como falar para não ofender ninguém. Na volta, mais valia ter dito 'marron glacé' que a corzinha estava lá mas sem o picante que condimenta a conversa]


3 - A Judite estava com um penteado e uma maquilhagem que, de cada vez que se punha a rir para o Costa, aqueles sorrisinhos cheios de subentendidos, só me fazia lembrar uma pomba lesa. Cabeleira loura de tipo oxigenado com ondulação tombando sobre os ombros e sobre a testa, maquilhagem acentuada. Uma cena... 


4 - Digna de registo também a toilette da dita loura. Com sapato de baile, perna ao léu, toda ela parecia uma madame nem eu digo de quê. Ou isso ou uma cantora pimba já na fase vintage. Ou mulher de futebolista, igualmente vintage. Aquela ali não atina com o visual. Ora vai de Dartacão, ora de Carochinha, ora de Majorette, ora de Gótica. Não sei se aquilo é obra dela ou se o que ali vemos não passa, afinal, de uma instalação da mediática Joana Vasconcelos, quiçá numa de produzir a entrevistadora mais kitsch das televisões de todo mundo, conseguindo mesmo superar a carismática senhora do robe cor-de-rosa da Coreia do Norte.

5 - Tirando isso, retive a observação do Costa a propósito da magna questão do possível apoio a Marcelo, caso ele se recandide. Depois de se esquivar, dando uma resposta de circunstância sobre os hábitos do PS, a Judite tentou a sorte de perto, apelando ao bom entendimento entre ambos -- e vai o Costa, macaco de rabo pelado, saíu-se com uma muito boa: que não é por as pessoas se darem bem que forçosamente votam umas nas outras; que ele, por exemplo, não dá por adquirido que o Marcelo vá votar nele nas próximas eleições. 

6 - Para finalizar: ou foi distração minha ou não vi um único pavão a espreitar à janela. Será que os pavões não se pavoneiam à noite? Ou será que receou ficar ofuscado pelo brilho da outra ave, a dita pomba lesa?

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E é isto. Nada mais tenho a dizer até porque, para dizer a verdade, só vi um bocado da entrevista. Só espero é que, um dia, algum maluco me contrate para comentadeira televisiva. Quando os outros começassem a dizer coisas inteligentes, eu só me saía com observações deste calibre. Mas ditas com ar superior. Uma pose, por exemplo, à Raquel Varela, misto de bué inteligente e de castigadora. Ou isso ou um ar sofredor de quem vislumbra borrasca no horizonte, como a Helena Garrido. Ou seja, ar de comentadora a sério mas só a dizer parvoíces. Oh pá, adorava.

segunda-feira, outubro 01, 2018

Três milhões de visitas.
3.000.000
A autora de Um Jeito Manso mostra-se em toda a sua nudez.
É a forma de agradecer aos seus Leitores.
Muito obrigada.






Já muitas vezes aqui celebrei os marcos que tenho vindo a atingir aqui no blog -- quando fiz um ano, quando cheguei às 100.000 visitas, depois, aos dois anos, ao primeiro milhão, ao segundo. Sempre surpreendida pelo percurso, sempre surpreendida e agradecida pela sorte de merecer o agrado dos Leitores. Quase sempre recordei que isto começou sem propósito, só mesmo para perceber como se fazia, que o título aconteceu por mero acaso (por nesse dia termos ouvido e andarmos em casa a cantar 'o meu amor',) contei que não conhecia ninguém na blogosfera, que não conhecia truques para me tornar visível, não conhecia nada nem tinha interesse nisso. Era uma descoberta, uma experiência. Não tinha objectivos.

Começou como um blogue anónimo e assim continua porque não existia e continua a não existir o intuito de me dar a conhecer -- queria simplesmente perceber se o que escrevia valia por si sem andar a reboque da pessoa que escrevia. Depois veio outro motivo: o querer falar em plena liberdade sem conotações com a pessoa que trabalha onde trabalho pois isso poderia, de alguma forma, constranger-me. E este tem que ser um espaço de total liberdade ou não terá motivo para existir.


Do zero, as visitas foram crescendo, crescendo, devagar, devagar, os Leitores foram chegando e ficando e, ao mesmo tempo, fui-me habituando a, diariamente, ao fim do dia, aqui vir dar nota das minhas andanças, das minhas opiniões, dos meus gostos. Talvez tão importante como o prazer de aqui escrever à noite tenha sido também o ir percebendo que, aí desse lado, estão pessoas concretas. Não estou a escrever para mim ou para o espaço: há quem me leia e, dessa forma, me acompanhe. Tive o privilégio de conhecer, através dos comentários e de mails, vários Leitores e, com o que me têm contado, sou hoje uma pessoa com um melhor conhecimento do que é vida. A confiança que depositam em mim comove-me e, muitas vezes, quando aqui chego ao fim do dia, cansada e com alguma dificuldade em manter-me desperta, penso nas pessoas que dizem que sou a companhia ou a família que não têm ou que lhes levo a serenidade que falta na sua vida. A importância que isso tem para mim não sei explicar ou transcrever em palavras pois é uma coisa cá muito minha; mas, acreditem, é muito relevante, passou a fazer parte da minha vida. Há, por vezes, um afecto genuíno, real. Por vezes, uma saudade verdadeira.


Sei que não sou muito previsível ou bem comportada e antevejo que, de vez em quando, surpreendo os meus Leitores e talvez nem sempre favoravelmente. Sou intrinsecamente livre e não está na minha natureza deixar de dizer o que me apetece para agradar a uns e outros. Não gosto de magoar gratuitamente quem quer que seja mas também não consigo ficar calada perante injustiças ou maldades. Pessoas cuja vida gira em torno da política e que, em vez de a honrarem exercendo-a com nobreza e em prol do bem do País e dos seus concidadãos, a exercem com egoísmo, arrogância, incompetência ou desprezo pelos outros, merecem-me repúdio e não me coibo de o dizer.

Também não consigo alinhar-me com as maiorias politicamente correctas que se formam ad hoc, ao sabor da espuma dos dias. Penso por mim e não me incomodo nada por fugir à norma ou ser uma voz dissonante no meio de vozes que falam em coro. Isso vale-me, por vezes, alguma censura alheia e, quando isso chega até mim, não a rejeito, penso duas vezes. Gosto de conhecer as opiniões alheias mesmo quando não coincidentes com as minhas e, não raramente, quando as considero honestas e inteligentes, sou levada a calibrar as minhas. Quanto mais avanço na idade mais me dou conta do muito que tenho a aprender -- e é com os outros que mais se aprende.


Mas é também na vivência na natureza, na comunhão com os elementos mais naturais -- a luz, as sombras, o silêncio, o canto dos pássaros, a beleza das flores, das árvores, das pedras, dos rios, o cheiro da terra e da maresia -- que mais me construo.

Vivendo intensa e motivadamente a minha actividade profissional -- que se desenrola em meios urbanos, cosmopolitas e, frequentemente, internacionais -- é no sossego do campo ou nas caminhadas junto ao rio que encontro a paz interior de que necessito para me sentir completa e livre.

E é também com a companhia dos livros que me completo. Tenho o prazer não apenas da leitura mas também o da posse dos livros. Não é racional a minha apetência por mais e mais livros sabendo que nem que vivesse várias vidas os conseguiria ler, calmamente, a todos. Mas é uma necessidade. A emoção que sinto ao ter um livro novo não é coisa que se consiga explicar recorrendo a uma argumentação lógica.

Lembro-me de que uma vez uma Leitora chamou a minha atenção para o preço dos livros que eu estava a mostrar e, a partir daí, quando tenho vontade de partilhar convosco os meus livros, tenho em atenção este facto verdadeiro: os livros são caros e nem todas as pessoas têm a sorte de os poder ter. Por isso, gostando de dar a conhecer livros de que gosto muito, não quero que isso possa parecer exibicionismo da minha parte ou que aumente a tristeza de quem gostaria de os ter mas não tem poder de compra para tal. Por isso, não sei se bem, se mal, tenho moderado esse aspecto.

E a arte em geral. Pintura, escultura, fotografia, dança, música. Preciso de me rodear do prazer livre da arte. Este blog disso vos tem dado conta. Aqui não há arte bem comportada, não há arte confinada a géneros, não há arte sujeita a modas: há aquilo de que gosto e que é coisa de amplo espectro. Os meus gostos não são canónicos. São os meus. E muito gostaria que aquilo de que gosto também vos agradasse.


Destaco a fotografia. Prazer maior na minha vida. Não consigo estar sem fotografar. Os meus olhos aprenderam a ver melhor o mundo através da lente. Se, como hoje, passeio junto ao rio ou ao mar ou, como ontem, in heaven, pisando a caruma nos caminhos ladeados de pinheiros, os pormenores requerem que eu os isole e registe no enquadramento em que se desenharam perante o meu olhar. Este meu blog está repleto de fotografias minhas. Tenho muitos milhares de fotografias que um dia talvez organize. Ou não. Adoro fazer (escrever, fotografar, ler) mas sou completamente displicente em relação a organizar o que faço. Tento convencer o meu marido a complementar-me aí mas a minha produção é sempre tão excessiva que ele se sente incapaz de acompanhar o meu ritmo produtivo e, perante a tarefa ciclópica, não ganha coragem para deitar mão a esse trabalho. Compreendo-o muito bem.

E, falando nele, tenho que aqui deixar nota de um dos aspectos mais importantes na minha vida: a minha família.


Quem por aqui me acompanha, sabe bem dos laços estreitos que me unem à minha família, a primeira última das minhas prioridades: os meus filhos tão, tão amados, amores absolutos e incondicionais, os meus netos queridíssimos, pimentinhas irrequietos, alegres e inteligentes, meus amores pequeninos mais lindos, os meus pais que felizmente ainda tenho a sorte de ter comigo, e, claro, o meu marido, companhia de uma vida, amor que entrou no meu mundo como um vendaval de paixão e que, tantos anos depois, ainda me olha com olhos de um amor que sempre senti como eterno enquanto dura mas que dura, com a mesma intensidade, até hoje.

São dele estas fotografias que aqui vos mostro. Enquanto ando em total liberdade, in heaven, gosta de me fotografar. É pois através do olhar dele que aqui hoje me desvendo. O meu olhar, no início, a minha pele a terminar.

Pensei em pedir a alguns Leitores que escrevessem umas palavras sobre este meu espaço, palavras não apologéticas mas verdadeiras. Mas depois inibi-me. Porque haveria eu de dar trabalho a quem me lê? E como saberia, depois, se eram sinceras e não apenas simpáticas as palavras que recebesse? Resolvi ficar-me por estas minhas fotografias. Se fosse ao vivo, ofereceria um lanche, cozinharia com esmero, poria flores nas mesas, música boa, desejaria que a conversa fluisse com alegria e tranquilidade. Assim, o que tenho para mostrar o meu agradecimento é pouco.


Se hoje sou quem sou, devo-o aos meus amores, à minha família e amigos e, também, aos meus Leitores que, aí desse lado, me incentivam com a sua companhia.

O Um Jeito Manso ultrapassou as três milhões de visualizações e eu espanto-me perante este número que, a todos os títulos, vai para além das minhas expectativas e da minha compreensão. Sinceramente penso que, mais do que mérito meu, é generosidade vossa. A todos, sentidamente, agradeço. 

Espero que possamos continuar juntos por muito e bom tempo. Bem hajam. Muito obrigada.