quarta-feira, julho 06, 2016

Do branco e do silêncio aos ruidosos contrastes




Havia um branco muito puro que continha todas as cores do mundo mas em que todas se fundiam de forma tão harmoniosa e límpida que o ruído era sugado para o antes da origem dos tempos. Desse branco resta apenas, aos nossos inocentes olhos, a fugaz serenidade da beleza essencial oriunda desse tempo primordial em que o nada tinha a dimensão tremenda do grande infinito, em que as cores não tinham ainda aprendido a separar-se e as descontinuidades do universo ainda não tinham sido experimentadas. Tudo o que existia, então, talvez não fosse senão uma pequena gota de um sonho totalmente branco.

Assim o silêncio que rodearia essa original pequena gota branca. Silêncio. Silêncio. O absoluto nada.

Até que uma luz vinda de uma fenda, longínqua e acidental, terá quebrado esse sublime equilíbrio e feito estilhaçar o branco e o silêncio. Aos poucos terão começado a surgir imprevisíveis cores, acordes, manchas luminosas, cânticos divinos.

E depois, uma vez perdido o equilíbrio original, tudo começou a acelerar a caminho da desintegração, salpicando de inexplicáveis contradições o vasto vazio onde, mais tarde, pequenos seres começaram a surgir.

À superficie de uma certa pequena esfera suspensa no meio de uma láctea atmosfera, existem agora cavalos, cavalos velozes, negros, resfolegantes, que correm nas vastas terras geladas, desafiando os indómitos homens que, com gritos e uivos, os querem conduzir,


e existem também, mais além, recolhidos homens que, entre reflexos, orações, arrependimentos, a coberto de tempestades e outras inclemências, cruzam pátios onde claustros e lagos guardam segredos, suplícios, promessas, inconfessáveis pecados, 


e existem também, mais longe, montanhas geladas, alvuras que remanescem de antes dos tempos, e longas, longas, distâncias e o que parece ser ainda todo o espaço do mundo. E há tempo, muito tempo, um tempo sem tempo, e partilha desse tempo em liberdade. E os casais podem cruzar horizontes e correr e brincar e, quando estão os dois juntos, descobrindo seduções e galanteios, são só eles no mundo, só eles, inseparáveis, para todo o sempre,


e existem também antros, tugúrios, misérias, lugares de tórrido calor, espaços exíguos que quase não são casas, onde as paredes estão gastas, espaços sem tectos, sem privacidade, lugares de pobreza e dificuldade, lugares em que, quem lá sobrevive, ignora, dos mares, o jorro vibrante de espuma e de vida e, das montanhas, a frescura e a imensidão da liberdade,
e existem ainda lugares em que os seres se devoram uns aos outros, onde não há piedade, não há perdão nem castigo porque, na verdade, não há outra lei que não a da sobrevivência, nem outra urgência que não a da fome e a do poder,


e existem também lugares em que insignificantes seres vivem em pequenas gaiolas, jaulas das quais já não tentam fugir porque não saberiam escolher para onde ir já que, desde cedo, se habituaram a viver confinados, iguais uns aos outros, formatados, cópias perfeitas, cerceados, circunscritos aos mesmos hábitos, desconhecedores das gélidas e misteriosas serranias, do frémito dos gloriosos galopes, desconhecedores do branco original, do silêncio límpido, da beleza infinita, da indescritível liberdade.


__________ Esta é a terra em que nos foi dado viver __________

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As fotografias acima foram premiadas no The National Geographic travel photography contest 2016.


A fotografia grande vencedora é a primeira. É da autoria de Anthony Lau, de Hong Kong, e foi feita na Mongólia.


Em primeiro lugar na categoria Cidades, ficou a fotografia que no texto aparece em segundo lugar, da autoria de Takashi Nakagawa feita em Marraquexe, Marrocos.

Em primeiro lugar na categoria Natureza, a fotografia que, acima, aparece em terceiro lugar, da autoria de Hiroki Inoue feita em Hokkaido no Japão.

Os autores das restantes bem como outras fotografias podem ser vistos em The Winners Of The 2016 National Geographic Traveler Photo Contest no Bored Panda.

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E aceitem o meu convite e desçam até ao post seguinte onde poderão ver dois vídeos que contêm surpresas, música, dança, afectos, liberdade. Muito bonitos, vos digo eu.


Surpreende-me também



Tocam nas ruas, nos indiferentes corredores sem nome pelos quais passa gente apressada que não lhes presta atenção e que nem sequer os vê, como se o que se ouve fosse mera música de fundo que de alguma coluna de som se evolasse. Deve ser difícil sobreviver assim, anonimamente, entre gente desatenta que apenas de vez em quando se detém e, talvez por comiseração, deixa uma moeda no pequeno prato que, tantas vezes, pousam envergonhadamente à sua frente.

Pois bem. Há quem tenha ideias que enternecem de tão generosas e suspreendentes que são. É o caso desta de que aqui hoje dou conta.

Os bailarinos Dot Move lembraram-se de surpreender os tocadores de música do metro de Paris (e se são intermináveis os tentaculares corredores de Paris), começando a dançar de improviso à sua frente e surpreendendo também as apressadas pessoas que por lá passavam. O resultado é comovente.


 
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Foram também bailarinos Dot Move que, em pleno inverno parisiense, homenagearam a cidade do amor, dançando de lábios colados, e, nalguns casos, com que empatia e química entre eles. Pretendiam, desta forma, homenagear a liberdade e o afecto numa cidade que, pouco tempo antes, tinha sido sangrentamente manchada pelo medo.

Paris is kissing




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No vídeo da dança junto aos músicos do metro de Paris, os bailarinos são: Victoria Dauberville, Alexandre Fournier e Melle Lee Za. E os músicos são: Oley Yugan, La’hcene e Vanupié 

No vídeo da dança dos beijos, Tiwayo interpreta « Dans Tes Yeux » que originalmente era de Anis. Os pares de bailarinos são:

Manon Dubourdeaux – Jesse Lyon
Cécile Magdeleine – Roman Bonaton
Anna Guillermin – Souren Nazarian
Melle Lee Za – Alexandre Fournier
Clio Arvaniti – Regi Hybride
Justine Christin – Knuckles
Alex - Dédé

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A ver se amanhã arranjo estômago para falar da chungaria que grassa na Comissão Europeia e nas filiais instaladas por todo o lado, nomeadamente no PSD do intelectualmente indigente Láparo e da descarada Pinókia. 


A ver se consigo, também, falar dos ratos ingleses, esses pequenos patifes, biltres copofónicos, que conduziram o Reino Unido para a situação de vexame em que agora se encontra tendo, acto contínuo, abandonado o navio. Agora, sem ninguém ao comando e sem saberem o que querem fazer, para aí andam sujeitos à chacota geral. 

E é com governantes desta linhagem que a Europa vai andando.

Mas não é hoje, que hoje não me apetece maçar-me.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira. 

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terça-feira, julho 05, 2016

Depois de andar a tentar há vários anos, eis que, finalmente, a Lady Gaga conseguiu tirar a carta de condução!
Uma esperança para todos os que padecem do mesmo mal.
Há sempre uma luz ao fundo do túnel
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- Que o diga a minha cunhada....



As notícias correm mundo e quase ganham mais destaque do que as que ocupam as mentes pouco brilhantes da  intelligentsia europeia -- os ratos ingleses a abandonarem o navio, os cães alemães a abeirarem-se do redil onde se acoitam os silent lambs, etc.

Transcrevo:
What a milestone! Lady Gaga finally has a drivers license at age 30, after years of learning how to drive. The Oscar nominated singer announced the achievement on her Instagram.
“Thelma and Puhleaaaze (And yes I FINALLY got my license after years of driving w an adult present and a learners permit),” she captioned her photo. “I’M FREE. Rollin w the homies.”


Presumo que já falei dela. Tenho uma cunhada que é uma despachada. Tem solução para tudo, nada a atrapalha. Exuberante, descontraída, nunca ligou muito aos estudos e ainda menos ao trabalho. Vive para viver e isso chega-lhe e sobra-lhe. Ginásios, massagens, modas - dela se pode, verdadeiramente, dizer que pratica a arte de bem viver. Conhece meio mundo, sabe coisas de cuja existência nem suspeito e tem o raciocínio rápido e prático das mulheres do povo.

Em complemento, tem algumas outras característivas: por exemplo, fala muito alto e, pior, é completamente desbocada. A ela ouvi uma vez dizer, alto e bom som, num restaurante em que umas crianças faziam um insuportável barulho, que se devia fazer com as crianças o que se faz com os cães: deixá-los do lado de fora dos restaurantes. O marido logo a mandou falar mais baixo, coisa que nela produziu pouco efeito. Frequentemente inconveniente, tal o despropósito dos seus àpartes, a ela nada afecta. Outra vez, quando morreu um tio nosso e ninguém descobria onde estavam os cartões (da segurança social, e outros), virou-se para o meu sogro (que morreria pouco depois), cunhado do defunto, e, como se dissesse a coisa mais natural, disse: olhe veja lá se tem os seus cartões em ordem para quando morrer a gente não passar por isto.  Uma pessoa ouve estas coisas e nem quer acreditar. Mas ela prossegue como se nada de especial tivesse sido dito.

Tem ascendentes da Beira Alta, tias e primas alegres e ruidosas. Mas, que eu saiba, os beirões não são dados ao palavrão do pesado. Ela a isso é mais do que dada. Dir-se-ia uma mulher do norte quando, em família ou em sociedade, pragueja como um carroceiro de gema. A mãe zanga-se, que aquilo não são modos. Mas é mais forte que ela: nada a fazer.

Menina bem das avenidas, toda uma vida vivida na Avenida de Roma e arredores, circulando entre 'tias', nem os irmãos falam assim. Filha mais velha, tem a seguir a ela vários irmãos rapazes, todos altos, esbeltos, bonitos como modelos fotográficos. Muito simpáticos e educados, a eles não tenho ideia de ouvir dizer um único palavrão.

De cada vez que nasceram os meus sobrinhos, gritava tão alto as mais grosseiras obscenidades que toda a equipa médica tinha que a isolar para, cá fora, a distinta frequência da clínica não ficar varada com o que dali vinha. Depois, referia-se ela a esses momentos dizendo: 'berrei como uma capada'. Tal e qual.

Ora bem. Outra das suas características era não conseguir tirar a carta de condução.

Gente abastada, toda a gente com carros e ela naquilo, sem conduzir. Quem a veja, aquele tipo de mulher elegante e descontraída habituada a conviver, não desconfia que, em certas circunstâncias, o sistema nervoso lhe prega partidas e a bloqueia de forma inultrapassável.

De cada vez que ia fazer exame de código, chumbava. Dizia que já ia em estado de puro descontrolo. Se a pergunta requeria uma resposta relativa às prioridades numa rotunda, ela respondia como se a pergunta versasse o atravessamento de uma passagem de comboio sem guarda.

Vinha de lá possessa, praguejava como uma varina do Bolhão. Palavrão que até fervia. Contava que entrava para uma sala cheia de gente 'analfabeta' -- ao fazer o relato insultava todos, em especial as respectivas mães, palavrão, palavrão do pior -- que as caras não enganavam (mas não dizia cara, dizia tromba ou focinho), e que, no fim, para sua suprema humilhação, passavam todos menos ela.

Por fim, já nem dizia a ninguém que ia fazer exame, tal a vergonha de, no fim, ter que assumir que tinha chumbado outra vez. Chegou a considerar subornar a administração pública de uma ponta a outra ou ir tirar a carta a uma qualquer república das bananas -- qualquer coisa menos passar pelo permanente vexame de não conseguir fazer o exame de código.

Até que um dia, sem ter avisado ninguém, apareceu com o exame feito. Não sei se o conseguiu por métodos legais. Admito que sim. Depois lá fez o resto.

Quando se apanhou com a carta, comprou um descapotável amarelo, uma coisa completamente berrante. Convidou-me para ir dar uma volta com ela. Eu ia cheia de medo. Imaginava que ela não atinaria com os sinais de trânsito, com as mais elementares regras da condução. Lá fomos, as duas de cabelo ao vento, apesar de tudo menos espampanantes que o espampanante descapotável amarelo garrido. Para minha surpresa correu bem, tirando ter andado em sentido proibido e ter feito uma inversão de marcha completamente tresloucada.

Mas, como seria até expectável, desenrascada como é, conduz bem, frequentemente, e verdadeiramente nunca se percebeu porque é que tinha aquela incapacidade de atinar com as perguntas mais elementares do exame de código.

Lembrei-me agora disto ao ver a notícia lá de cima, de que, ao fim de várias tentativas, também a Lady Gaga ultrapassou a mesma barreira psicológica e finalmente tem a carta de condução. Boa.

Aí vai ela -- Lady Gaga ao volante!
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Todas as fotografias mostram a Lady Gaga, não a minha cunhada.

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[Vim para aqui animada dos mais elevados propósitos, com um livro fantástico na mão, para dele escolher uns excertos. Mas, ao sentar-me no meu canto do sofá para escolher essas passagens, adormeci profundamente. Só há pouco é que acordei. Diz-me o meu marido: Bela hora para dormires a sesta.... De facto. Mas ando assim, um disparate. A custo lá consegui escrever isto que acabaram de ler. A ver se não volto a adormecer e se ainda consigo fazer o post que tinha em mente. Bolas, com que sono ando.]

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Não consigo: nem fazer outro post nem responder a mails ou comentários. Peço desculpa. Adormeço antes ainda de começar. Com esforço, apenas um cheirinho do livro que dorme ao meu lado, um que, mais para lá do que para cá, me parece que pode encaixar aqui.

Deus espera que o homem, na sua sabedoria, volte a ser criança.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.


segunda-feira, julho 04, 2016

Nesta noite tão quente






Noite quente, quente. Ao meu lado a janela aberta traz uma leve aragem mas não arrefece a casa. Há pouco ouvi um ribombar ao longe. Esqueci-me de espreitar. Devem ser fogos de artifício do lado de lá do rio, longe.

Gosto de, de vez em quando, ir espreitando o rio, as luzes que piscam no meio das negras águas e no casario que contorna as margens. E gosto de tentar distinguir os sons que chegam. São sons esbatidos, diluídos pela frescura escura da noite. Por vezes, um cão ladra ao de leve, talvez assustado pelo deslizar silencioso de algum gato.


Uma vez não, não foram sons esbatidos: uma vez ouvi acelerar na rua, depois bruscas travagens. Espreitei. Luzes azuis. Carros da polícia, polícias que saíam a correr rua abaixo, uma grande agitação, gritos. Depois veio um rapaz com as mãos no ar e os outros polícias cercaram-no. Eu à janela a ver uma cena que parecia de filme. Olhei as janelas em volta e ninguém. Quando os carros da polícia se foram embora fiquei a pensar que, se calhar, tinha sonhado já que, pelos vistos, mais ninguém tinha testemunhado o que se tinha ali passado.

Há bocado, enquanto dava o jogo de futebol na televisão e as janelas estavam abertas de par em par, entrou um cheiro a comida caseira, um guisado talvez. De vez em quando agora chega-nos um cheiro assim. Deve haver vizinhos novos no prédio, alguém que cozinha bem. Não consigo conhecer os vizinhos. Apenas conheço uns dois ou três e mesmo assim nunca sei em que andar moram. Gosto. Gosto da sensação de me sentir estrangeira. Tenho a sensação de morar numa torre que se ergue sobre o rio, desligada da vida normal. Da janela vejo castelos, grandes navios, veleiros, vejo igrejas, serras, pontes, horizontes. Sempre gostei de morar em sítios with a view. Desde sempre me lembro de morar em casas em que ia à varanda ver como estava o rio ou espreitar se o céu estava carregado do lado da serra ou ver o fogo de artifício do lado do castelo. 

Parece que preciso que o meu olhar não alcance limites. Mas fico a pensar no que se esconde por debaixo do que a lonjura oculta. Eu aqui, numa casa adormecida, numa torre no meio do rio a escrever à noite e, em milhares de outras casas por todo o mundo, outras pessoas a escreverem, outras a lerem, outras a conversarem umas com as outras, desenhando laços, estendendo invisíveis pontes. O mundo é um lugar misterioso, cheio de intangibilidades, transparências, habitado por invisíveis seres. 

Provavelmente alguém, algures, talvez alguém não igual a nós, não sei onde, esteja a ver-nos. Acredito que sim. Acredito que pareçamos pequenos e tontos pequenos bichos, de efémera e tantas vezes inútil vida, afadigando-se em estéreis tarefas. Mas desejo que, de nós, esses invisíveis e talvez longínquos seres recebam os sons da nossa música, as toadas da nossa poesia, as cores e a luz do nosso mundo. E que, de nós, aprendam também o riso e os afectos, sem os quais, para além de pouco inteligentes, seríamos apenas, a olhos estrangeiros, uns pobres bichos indiferenciados. 

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As fotografias foram feitas a um muro graffitado do Parque da Paz.

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Permitam que vos convide, Caros Leitores, a visitarem o post abaixo onde falo em sonhos, paixões, destinos.

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Não siga a sua paixão
ou
Toda a gente morre mas nem toda a gente vive
?
Faites vos jeux




Pode pensar-se que todas as pessoas têm um sonho e que esse sonho é qualquer coisa de notável, de invejável. Contudo, a maior parte das pessoas que conheço não tem grandes sonhos. Eu própria não os tenho. Nunca desejei muito alcançar uma coisa pela qual tenha tido que lutar. Não. O meu sonho sempre foi pouco mais de que a minha curta passagem pela terra seja feliz para mim e para os que comigo convivem. Tenho também o pequeno sonho de deixar algumas provas de que por cá passei. Talvez daí os blogues, os tapetes de arraiolos, os muitos milhares de fotografias, os quadros, as árvores plantadas, o jardim desenhado. Mas nada disto tem sido difícil de alcançar pelo que não há sacrifício mas apenas prazer no acto de fazer aquilo de que gosto.

[Não incluo na lista dos sonhos o de ter filhos porque ser mãe é algo que está muito para lá do que aqui falo. Em mim, ser mãe sempre foi uma necessidade, uma coisa física, essencial, não um sonho.]

No trabalho nunca desejei ocupar este ou aquele lugar. Têm é aparecido situações para as quais sou requerida e que tenho aceitado. Mas já rejeitei outras que, a outros olhos, poderiam parecer irrecusáveis. Por exemplo, já aqui o devo ter contado, convidaram-me para ir para uma empresa para fazer o que quisesse nas condições que quisesse. Não quis. Pareceu-me fartura a mais, achei que, de certa forma, quase ficaria em dívida e se há coisa que odeio é sentir-me em dívida.

Quando me perguntam se eu não gostaria de ocupar algum lugar de muito maior responsabilidade do que os que agora ocupo digo que não: já me bastam as chatices que tenho. Passo bem sem grandes poderes mas não passo bem sem liberdade de movimentos ou tempo para a minha vida pessoal.

Também já me surpreendi ao convidar para alguns lugares pessoas que eu achava que fariam o lugar às mil maravilhas e pelos quais iriam receber melhores ordenados e maiores regalias e essas pessoas recusarem por acharem que iam ter muitas maçadas a chefiar outras pessoas ou a terem que assumir responsabilidades que lhes iriam causar preocupações. Compreendi.


Em contrapartida, tenho conhecido pessoas que orientam as suas vidas para trepar, trepar de qualquer maneira, para vir a ocupar algum lugar que fisgaram como se esse lugar fosse o grande sonho da sua vida. São, regra geral, pessoas ansiosas, impacientes e, frequentemente, más colegas, à volta de quem se gera um ambiente muitas vezes de cortar à faca. Tenho uma certa pena dessas pessoas pois nunca estão verdadeiramente felizes. Tudo, para elas, são obstáculos que arreliadoramente vão aparecendo no seu caminho e a vida transforma-se numa sucessão de revezes ou numa luta constante.

Conheço também outras que se acham ungidas de alguma superioridade e isso leva-as a nunca estarem bem, a acharem-se sempre deslocadas ou injustiçadas. Nunca nada as satisfaz: nem trabalho, nem amigos, nem amores. Nem se chega a perceber se têm algum sonho. Aparentemente não, são apenas descontentes militantes.

No extremo oposto outras há que, com pequenos nadas, se sentem as maiores. Tenho grande simpatia por pessoas assim. Uma, por exemplo, conta-me com orgulho a forma rápida como faz empadas que lhe saem sempre bem. Como reconhece o meu apreço, a seguir envia-me receitas. Outras vezes, conta-me que compra pratos de barro em bruto e que depois os pinta e leva a cozer num forno não sei onde. E mostra-me fotografias desses pratos onde pinta patos, flores, céus estrelados. O júbilo que eu vejo nela quando fala nisto é tocante.

Um outro tem uma colecção imensa de discos (antes eram discos e cd's, não sei se se mantém nessa onda ou se já se mudou para outras tecnologias) de música dita erudita e desencanta edições e edições sobre a mesma peça de música: diferentes maestros, diferentes intérpretes, ao vivo aqui, ali e acolá. E, ao mesmo tempo que tem essa imensa colecção, tem a equivalente base de dados - e um conhecimento brutal sobre a matéria. E tem, sobretudo, um prazer incrível em fazê-lo e em falar sobre isso. É o sonho da sua vida e, com tranquilidade, o sonho materializa-se a cada dia que passa.


Mas, claro, refiro-me a pessoas ditas 'normais'. Há, é certo, os que se destacam da normalidade: os que têm dons raros e esses, num mundo vasto e competitivo, é natural que tenham que lutar para singrar até alcançarem o reconhecimento geral. No entanto, alguns, pela sua natureza, conseguem atingir feitos notáveis com a mesma serenidade com que, em casa, praticam culinária.

Estive há pouco a ler a entrevista a Elvira Fortunato, a cientista que diz que fazer transístores é como fazer bolos em casa. Diz que sempre gostou de trabalhos manuais, bordar, pintar, e que até ainda tem por acabar um tapete de Arraiolos.

Na entrevista ela refere coisas como estas:
Brincava muito com bonecas, com a Nancy. Brincava muito com tachinhos e tinha uma cozinha. Aquilo até era um bocado chato, porque era de folha metálica que às vezes cortava os dedos. Mas era uma cozinha com muitas panelas e tachos e essas coisas todas.
(Também eu passava horas a brincar aos cozinhados com tachinhos de alumínio que os meus pais e avós, sabendo desse meu gosto, me compravam na feira.)
Gosto muito de estar em casa. Fiz obras recentemente, tenho quase uma casa nova, e apetece-me estar muito mais tempo em casa. E gosto imenso de cozinhar. Gosto de ir à praia. Gosto de ir ao cinema, mas reconheço que ultimamente tenho ido pouco, porque o meu tempo, especialmente este ano, é pouco.
Elvira Fortunato diz ainda que isto da investigação, que faz de gosto, é coisa que foi acontecendo de forma natural -- e tudo o que diz revela que é uma pessoa de bem com a vida, que vai experimentando, fazendo, andando em frente.

Há pouco tempo, vi-a com o marido, filhos e creio que com o namorado da filha. Estavam no mesmo restaurante que nós, uma espécie de tasca onde o peixe impera. Vestidos com uma simplicidade extrema, bem dispostos, ela completamente na desportiva, sem maquilhagem, quem não a conhecesse dificilmente adivinharia que estava ali uma investigadora premiada, uma pessoa de mérito internacionalmente reconhecido.


Por tudo isto, eu não tenho ideias feitas sobre isto de 'seguir os sonhos', de lutar por ideais sacrificando a vida. Penso que importante mesmo é a pessoa estar bem, estar bem todos os dias, não chegar ao fim do dia sentindo que desperdiçou mais uma parcela da sua vida. Se a pessoa se sente infeliz, acho que deve lutar para ser feliz mas deve saber avaliar se nessa luta não vai exaurir-se, não conseguindo usufruir da alegria de estar vivo. Acho que bom é a pessoa saber equilibrar as suas expectativas e a capacidade de as superar. No entanto, admito que este meu raciocínio é bem capaz de ser coisa de quem, como eu, não tem grandes ambições.

A propósito, lembrei-me que, no outro dia, Leitor a quem agradeço me deixou o link para um vídeo onde o orador, Mike Rowe, diz que vai dizer algumas verdades sujas sobre isto de lutar apaixonadamente por sonhos, muitas vezes inviáveis. Partilho-o convosco.

Don't Follow Your Passion


Should you follow your passion, wherever it may take you? Should you do only what you love...or learn to love what you do? How can you identify which path to take? How about which paths to avoid? 


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No reverso, encontrei hoje um vídeo que se vê com bastante agrado e em que, de forma envolvente, Prince Ea puxa pela motivação de quem o ouve, incentivando a que se lute pelos sonhos. Partilho-o também.


EVERYBODY DIES, BUT NOT EVERYBODY LIVES


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Moral da história

Cabe a cada um escolher os seus caminhos e a forma como atravessa a vida que recebeu de presente.

(O que é o mesmo que dizer que cada um sabe de si -- e o resto é conversa)

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As fotografias foram feitas no Parque da Paz para onde hoje fui caminhar, procurando a sombra, já que estava impossível de se chegar à praia.

Lá em cima Hélène Grimaud interpreta Chaconne in D minor BWV 1004 - Bach, Busoni

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, julho 03, 2016

Porque não falo da Maria Luís Albuquerque, essa descarada, ou do Durão Barroso, esse naco de inutilidade, ou do Schäuble, esse cão sem dono, ou de vários outros assuntos da nossa pequena actualidade




Acabei o livro do outro dia. O Lobo das Estepes. Sem surpresa assisti à reaprendizagem, à descoberta, ao delírio, ao efeito de estilhaço que o calor tem sobre o gelo. Os lobos transportam o mistério das noites, os enigmas da loucura, as indiziveis falhas que se abrem nas ruas escusas. Quando levados para a luz do dia, podem, num primeiro momento, parecer dóceis cães dispostos a todas as aprendizagens mas logo, logo, um uivo se soltará do seu coração e o apelo do negrume lhes toldará a visão.

Tenho agora aqui à minha volta alguns outros. Hesito.

O calor arrasta-me para a indolência mas o cansaço traz-me impaciência. Parece que só a escrita muito rara me prende a atenção. Falem-me da sensação de passar devagar a mão pela madeira para sentir o seu veio, falem-me de sonhos ou de memórias, falem-me com o coração nas mãos e elegância nos gestos, falem-me com a simplicidade das pessoas boas e aí talvez eu me deixe ficar, feliz, a ler, sossegada, com vontade de mais. Ou poemas com palavras normais, despidos de afectação. Tragam-me poemas que me soem como subtis melodias, toadas que me lembrem os mares do sul ou os gritos das gaivotas, abraços tristes ou sombras desenhadas, paisagens desconhecidas, lamentos, cantares de amor. Poemas assim eu quero.


Da actualidade nacional agora dei em fugir. Causa-me uma insuportável náusea tudo o que vem da gente do anterior governo -- o Passos Coelho, o Moedas, o ex-doutor Relvas, todos esses. Causa-me, por exemplo, uma grande náusea o que aquela mulherzinha diz (refiro-me à maria luís albuquerque, tudo escrito com letra pequena), sempre pouco séria, pouco digna, sempre sem um pingo de vergonha. Causa-me também um desconforto muito grande a história daquele Diogo Gaspar que era director do Museu da Presidência, que foi condecorado duas vezes e de quem se suspeitam coisas terríveis. Leio essas notícias e fico agastada, tenho vontade de me manter higienicamente ao largo.

Depois as notícias de Bruxelas, aquilo do défice, as ameaças feitas por senhorzecos. Dá vontade de os mandar dar banho ao cão, pentear macacos. Quem é essa gente para se dar ares desta abusadora maneira, senhores?

E aquele rafeiro do Schäuble, sempre a ladrar? Não há pachorra. Só com desprezo. Não acho que se lhe deva dar palco. Gente assim deve ser ignorada, mancha os dias, mancha o nosso sossego.

Não tenho paciência, francamente não tenho.

Por isso fotografo flores, veleiros, gatos, leio romances ou poesia, faço testes de personalidade que de científico pouco ou nada têm mas que me descansam o espírito, escrevo sobre devaneios, invento histórias, passeio pela beira do rio, pela rebentação das ondas, ouço música. Por vezes recebo mails em que me pedem para falar sobre isto ou aquilo, política, crises bancárias, coisas assim. Gostaria de conseguir mas não consigo. 

Enquanto este calor ou esta canseira não me passarem, devo continuar neste registo. Nada a fazer. Na volta já entrei foi na silly season.


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A primeira fotografia mostra veleiros no Tejo vistos através de umas espigas e as duas últimas mostram a praia, maravilhosa, nestes dias de calor.

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E, portanto, a quem entrou agora, aconselho que se deixe deslizar até ao post seguinte onde há mais um teste de personalidade, este com base científica e à base de cores. Como habitualmente, a bem da total transparência, revelo o resultado do meu teste.


E há ainda texto novo no meu Ginjal. Ide que é coisa cada vez mais rara.


O fogo, a ardência, o sangue, o vinho bem tinto, a carne viva, o vermelho, carmim, encarnado, rouge, red.
Estas são as minhas cores preferidas
Faça também o teste baseado na teoria Lüscher da cor e descubra os traços dominantes da sua personalidade


O meu Barnett e eu



Se vejo o mar em azul-sedutor ou em azul quase verde-atraente ou mesmo em azul quase chumbo, sombra e suspeita -- eu gosto.

Se o céu está azul e limpo, ou luminoso e tranquilo -- eu gosto. Ou, ao anoitecer, quando se transforma em azul quase submarino -- eu gosto.

Mas, se tenho que escolher uma cor, não é o azul que tantas vezes procuro que escolho. Eu escolho o fogo, a ardência, o sangue, o vinho bem tinto, a carne viva, o vermelho, carmim, encarnado, rouge, red.

Há pouco estive a ver o rio envolto em dourado, o casario suavíssimo, as serras banhadas pela luz do ocaso. A janela estava cheia de céu e rio. Lindíssimo. Entrava uma aragem fresca, que condizia com a brandura desta paz dulcíssima que se sente na minha sala. E, no entanto, se tivesse que escolher a cor desse instante, sem pensar, eu escolheria o fogo que se escondia por detrás do horizonte.

Antes, in heaven, eu tinha estado entre as portadas da sala a espreitar o calor ardente da tarde, aspirando o ar quente e docemente perfumado das flores do loendro.



Macias as pétalas, quase húmidas de doçura, um rosa forte que é encarnado temperado com pingos de branco, talvez um leve pingo de azul sentimental.
(Que saudades sinto de pintar, se temperar as cores, de misturar brilhos, caprichos)
Desta flor olorosa se desprende um perfume que atrai os pássaros, que prende os corações, que inspira poetas. A luz pousa nas flores, enche-as de reflexos luminosos e eu, na sombra da sala, entre os cortinados, espreito a luz e o calor e, quando reparo, é sobre os vermelhos que o meu olhar também pousa.

Quando começa a entardecer, como uma gata encalorada, vagueio pelo exterior, junto à sombra, procurando a frescura que transpira das grossas paredes.

A buganvília está florida. Não é de vermelho-puro: é fúcsia, as pétalas quase de papel, discreta não fora a cor coquette. Trepa pela parede, toda ela tão feminina, vestida de folhas verde e amarelo, pétalas chamativas.

[Tantas flores que vi e, no entanto, ao fotografar foram estes os tons que predominantemente escolhi. E se por lá há arbustos cobertos de flores brancas... Porquê?]


Já de manhã, na praia, tinha andado em busca dos pólens que, quais pós das estrelas, salpicam as pétalas que são sedas suaves das flores que tingem de cores vibrantes as dunas. Magentas, fúcsias, pinks. As dunas ardendo ao sol e brilhando em tons gritantemente coloridos.


Enquanto escrevo, olho à minha volta. Esta sala é grande. Um dia achei que a parede do fundo, onde estão os sofás em cor quente, precisava de estar pintada de cor de sangue. O assunto foi polémico. Deu muita luta. Mas aqui está ela, uma parede em cor de sangue bem forte. Linda. Sobre ela um quadro que pintei, todo ele cores de fogo, chamas petulantes, céus de perdição, um corpo nu de mulher atravessando uma noite quente.

Gosto de ver casas claras, de móveis claros, sofás claros. E, no entanto, onde vivo não há neutralidade. As cores impõem a sua presença. Há vibração, intensidade, calor. Confesso: não suportaria viver numa casa escura, preciso de viver entre cores quentes.

O encarnado e todas as suas derivações, a chama, a intensidade, a vibração plena de vida -- essas são as cores que correm dentro de mim.

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E vem esta conversa a propósito de um teste que mão amiga, sabendo da minha gulodice por testes de toda a espécie e feitio, me fez chegar.

This Scientific Color Test Will Reveal Your True Personality Traits


Reza assim: Este teste é inspirado pela conhecida teoria Lüscher da cor, que teoriza acerca de os traços de personalidade de uma pessoa poderem ser identificados a partir das suas escolhas de cores


Fiz o teste, claro está. O resultado não me espantou.

Red

Based on this test, you were mostly drawn to the color red. Like a fire, you burn with passion and desire. 

Your dominant personality trait is your ardency. You are dynamic, powerful, strong, sexy, and exciting. 

Because you're so intense, you can be very aggressive. 

You are a determined and highly competitive person who invests 100% in everything you do.

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Roll the Dice de Charles Bukowski

(lido por Tom O'Bedlam)

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Lá em cima, uma vez mais a Habanera da Carmen de Bizet 
numa fantástica interpretação de Anna Caterina Antonacci (The Royal Opera)



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Convido-vos, agora, a irem de visita até ao meu outro blog, o Ginjal e Lisboa onde hoje vou pela mão de Fernando Pinto Amaral.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.


sábado, julho 02, 2016

António Guerreiro e os jornalistas




A verdade é que deixei de comprar jornais. Onde trabalho há jornais em papel que também não leio. Jornais, agora, só online e, ainda assim, são percorridos em diagonal, apenas para perceber a quantas ando. Mas logo constato que, se não os lesse, não perdia muito pois, a julgar pelo que leio, não saímos do mesmo sítio. E, também, quem escreve fá-lo, em geral, sem alma ou arte.

Penso que não é nostalgia o que sinto quando me lembro da era antes da internet, quando esperava com gostosa expectativa os jornais em papel, quando os folheava procurando as crónicas de determinado jornalista, as entrevistas, as reportagens, as opiniões. Se calhar sou já vcc (= velha como o caraças) mas eu procurava, por entre as páginas dos jornais, os jornalistas.


Agora não. Os jornalistas foram saindo dos jornais. Tirando o Fernando Alves, senhor tão inteiro que mais parece uma abstração, tirando um bravo e quixotesco António Guerreiro e mais uns quantos outros, talvez aqueles a quem a reforma já dá o conforto necessário à liberdade de escrita, aquilo a que se assiste é ao produto da actividade de entretenimento ou a outra coisa qualquer, que jornalismo não é. A questão é que as redações devem estar rarefeitas com a saída de tantos jornalistas de verdade. Foram ficando os outros. Parece haver agora, sobretudo, agendas escondidas (ou, mesmo, mal escondidas), fretes, repetições frouxas do que os spin doctors debitam para as redacções. E depois textos banais, fraquinhos, cópias quase integrais de notícias de um para outro jornal online.

Talvez seja a juventude dos jornalistas, e quase só ficam os jovens porque baratos (que os mais velhos, os mais caros, esses já foram encostados às boxes), talvez seja o medo que a precariedade traz e que condiciona a criatividade e a liberdade. Não sei. Mas é pena. O jornalismo perdeu o seu lado nobre, vertical, romântico, aventureiro. Parece já quase não haver lugar aos textos burilados, feitos com dedicação e paixão que se encontravam no bom jornalismo.

Estou a ser injusta para os que ainda resistem, eu sei. Mas a questão é que uma pessoa toma a decisão de abandonar um jornal porque a linha geral desilude e, portanto, acabam por ser injustamente castigados os que ainda conseguem manter a integridade.


Vem isto a propósito de mais um honesto texto de António Guerreiro no Público. Transcrevo apenas uns excertos mas aconselho que sigam o link para poderem ler o texto na íntegra.

 A jornalização em curso (2ª parte)


Em 1853, o escritor alemão Gustav Freytag, que nunca ocupou nenhum lugar de destaque na história literária, publicou uma comédia chamada Os Jornalistas que tem uma personagem exemplar, pela qual a peça continua a ser citada. Chama-se Schmock, essa personagem, e a sua réplica mais famosa, a que melhor serve para a caracterizar como um jornalista que se molda a todo os ambientes porque não se sente condicionado por convicções nem princípios, é aquela em que proclama: “Aprendi [...] a escrever para todas as tendências. Escrevi à esquerda e depois à direita. Sei escrever de acordo com qualquer tendência”. A actualidade de Schmock está bem visível na dança frenética de directores, sub-directores, editores, colunistas e outros membros da oligarquia que domina hoje os órgãos de comunicação social: de jornal para jornal, da televisão para o jornal, do jornal para a rádio e vice-versa e em todos as direcções. (...) 
Eles só existem e prosperam no seio de uma cultura decorativa, onde se pode escrever ou programar à esquerda ou à direita, de acordo com a tendência de ocasião. E todo o seu trabalho é dirigido a uma massa informe, em que também os leitores e os espectadores são vistos como receptores acríticos. Eles cumprem uma função que só se pode desenvolver sobre as cinzas do jornalismo e de todo o projecto cultural. Como Lacan dizia do amor, também eles poderiam dizer dos jornais, rádios e canais de televisão que dirigem, por turnos: a nossa missão consiste em dar o que não temos a alguém que não o quer. Sem projecto, sem tendência que não seja a dos ventos da estação, os media ficam ao serviço desta sociedade implosivo-mafiosa: este é o panorama com que estamos confrontados.

(...) Mas os Schmock do nosso tempo – e são muitos – dão a ver também outra coisa: que os órgãos de comunicação social não estão nas mãos dos jornalistas e de quem neles escreve ou produz “conteúdos” (como se diz hoje), mas nas mãos de decisores gestionários. Abaixo desta estrutura gestionária está a massa dos jornalistas proletarizados, sem qualquer autonomia, mesmo que continuem a assinar com o nome próprio: o jornalismo deixou de se conformar às exigências do trabalho intelectual. Foi esta verificação que dois jornalistas franceses fizeram há poucos anos, num livro que tinha um título deprimente:
Notre métier a mal tourné. Isto é: a nossa profissão correu mal. 

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As fotografias que usei são da autoria de Oliver Curtis. Condolence é interpretada por Benjamin Clementine.

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E agora, caso estejam para aí virados, queiram descer e aceitar o conselho sobre alguns dos Livros para morrer antes de ler.
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Livros para morrer antes de ler





Tem graça que ainda no outro dia aqui confessei que aquilo da Guerra dos Tronos para mim é chinês. Parece que todo o mundo sabe o nome dos personagens e que a história é conhecida do género humano em geral desde o início dos tempos - e eu a zeros.

E há mais, oh se há. Mato. De resto, tenho isto (e já mil vezes aqui o falei): recomendem-me muito um livro ou mostrem-me que é um êxito e eu imediata e definitivamente me colocarei ao largo. Mas se isso é desculpável em relação à nova 'literatura', em especial aos best sellers de cordel, mais difícil é ser socialmente aceite se a minha ignorância se estender aos clássicos. Aí, então, nada a fazer. Estampo-me a cada um que me atirem à cara.

Ulisses. Pois. Caraças, uma vergonha. Não li. Não tenciono ler. Gigante e, sempre que o folheio, parece-me maçador até à quinta casa.

E quem diz o Ulisses diz outros. Folheio, cheira-me a coisa de gente maçadora e está bem, está. 

Vários do Saramago: chatos, chatos... No entanto, calma aí, O Ensaio sobre a Cegueira é para mim dos livros mais marcantes que me passaram pelas mãos, pelos olhos, pelo coração, pelas vísceras.

Do Lobo Antunes: com excepção dos primeiros e dos livros de Crónicas, é para esquecer. Ele pode gostar muito. Eu não. Não tenho paciência para andar às voltas sem sair do mesmo sítio.

Sou devoradora de escrita e papo quase tudo, incluindo capas de revistas de proveniência mais do que duvidosa  mas não me peçam para gastar o precioso e curto tempo da minha existência com intermináveis maçadas.

E vem isto a propósito do leio na Revista Bula:


Transcrevo a apresentação:
A existência humana é um paradoxo. É longa suficiente para ouvir várias vezes as dezoito horas de música magistral do ciclo operístico “O Anel de Nibelungos”, de Wagner, mas curta demais para ler inteira a série de livros “Guerra dos Tronos”. Portanto, para te ajudar a não desperdiçar sua existência, a Revista Bula apresenta uma lista de obras literárias para morrer antes de ler. Afinal, a vida e a paciência são curtas.
E começam então a enumeração dos 20 entediantes livros. 

E começam logo pelo dito:

Guerra dos Tronos (desde 1996), de George R. R. Martin
Antes dos senhores acenderem suas tochas e pegaram seus ancinhos relaxem um minuto para uma declaração. Eu sei que o nome da saga é “Crônicas de Gelo e Fogo”. Só escrevi “Guerra dos Tronos” para quem não participa da seita entender do que estamos tratando. Agora, vejamos: cada livro deve ter umas 15 mil páginas; todos os 50 volumes somam aproximadamente 95 mil páginas ao quadrado. Resultado, funil de vida por funil de vida, melhor assistir a série.

Segue-se outro de que também não cheguei perto:

Finnegans Wake (1939), de James Joyce
Joyce sugeriu que usemos toda nossa pobre vidinha mortal na tentativa de entender “Ulisses” em sua completude. O mestre Otto Maria Carpeaux achou melhor só gastar alguns meses e usar o resto do tempo para fazer outras coisas. Boa sugestão.Mas não há garantias de que esse “resto do tempo” seja suficiente para entender — ou mesmo arranhar a superfície de — “Finnegans Wake”. A leitura desse romance rizoma será sempre um “trabalho em progresso”. Só para os fortes e monges reclusos.

Não vou aqui transcrever todos, que isso poderão ver no artigo completo. Salto já para um do Saramago que tem graça como ideia, a metáfora pegou mas que, como livro, com as minhas desculpas, de facto, um bom pincel.

Jangada de Pedra (1986), de José Saramago
Alguns cínicos defendem que o mestre Saramago só escreveu livros ruins depois que ganhou o Prêmio Nobel. Isso é uma grande mentira. “Jangada de Pedra” prova que ele já escrevia livros ruins antes do Nobel. 
Temos aqui um exemplo lamentável de uma ótima ideia em uma péssima execução. Esse romance é mais perdido do que a Península Ibérica em sua mirabolante navegação pelo Oceano Atlântico.
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Podia juntar, de minha lavra, mais uns quantos quilos de maçadorias, uns de autores clássicos mais mortos que mortos e de outros, supostamente clássicos apesar de bem vivos. Mas a verdade é que, de tão chatos, a minha memória os varreu. 

Além disso, estou tão a dormir que, de cada vez que escrevo uma frase, caio a dormir até que o meu despertador interno me acorda, minutos depois. Mas, se fizerem questão, meto-me debaixo de um chuveiro de água fria e volto aqui para debitar mais uns quantos.

E agora que venham daí os meus Leitores mauzões para me fustigarem, Ignorante! Ignorante! Não leu os clássicos?! Chato... o Joyce?! É pá, ganda burra!

Querem bulha? Ok. À vontade. Podem vir.

Quantos são!? Quantos são!?
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Lá em cima “Folding” de Shen Wei Dance Arts

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.


sexta-feira, julho 01, 2016

Embrace





[O mal de uma pessoa andar nisto já vai quase em seis anos é que se torna repetitiva. Mas, também, não se pode, todos os dias, dizer coisas nunca vistas, não é...? E a verdade dos factos é o que é, não vou estar a inventar para ser original, não acham?

Portanto, com vossa licença, vamos lá.]

Até aos meus vinte e tais pesava cerca de 50 kg. Vestia o 36. Depois de ter os meus filhos e de os ter longamente amamentado, apesar de me desdobrar em mil, de trabalhar imenso e de, apesar disso, conseguir ter tempo para os ir levar e buscar à escola e de, à noite, estar disponível para eles (e para mim), não emagreci. Pelo contrário. Passei a vestir o 38. E o 38 foi o meu número durante anos e anos. Andaria, então, pelos 54 ou 55 kg.

Contudo, à medida que os anos avançaram, o meu corpo parece ter adquirido o hábito de transformar em peso a mais pequena insignificância que ingira, mesmo que se trate de uma gota de água ou de uma folha de alface. Não tenho explicação para isto. É da idade, disse-me um dia um médico junto de quem me pus a carpir. Pimba. Já levaste. E é capaz de ser mesmo isso. Posso esfalfar-me a trabalhar, à noite ainda caminhar em ruas íngremes durante quase uma hora, posso alimentar-me ajuizadamente, que não perco peso.
Quer dizer: se conseguir, durante uns meses de seguida, comer sempre no intervalo das principais refeições, se me privar de hidratos de carbono, etc, etc, talvez perca uns quilitos. Mas não só nem sempre tenho oportunidade para comer uma coiseca a meio da manhã ou da tarde como, com tanta gente a fazer anos ou com tantas situações em que até pareceria mal se não provasse a sobremesa, as transgressões, ainda que moderadas, são relativamente frequentes.
Não sei dizer quanto peso: evito aborrecer-me e já sei que se olhasse para a balança me sentiria maçada. Por isso, faço de conta que não tenho balança em casa. Para me alienar da realidade não há como eu. Visto agora o 42 (ou o L) e, confesso, tremo de pensar que já me instalei comodamente acima dos 60 kg.

Não visto já aquelas blusas bem justinhas que antes vestia com despreocupação. Adquiri volume e se isso, aos olhos de quem gosta do género, não será mau de todo, a mim condiciona-me um bocado. Evito roupa que me faça parecer provocante ou que me iniba pois nada me inibe mais do que usar peças de vestuário que pareçam desajustadas para o meu corpo.

No entanto, se me comparar com tantas mulheres, (acho que) estou longe de ser uma gorda badocha. E, devo dizer, faz-me uma certa impressão ver como tantas jovens adquiriram já tantos quilos a mais, tanta celulite. Mas faz-me impressão, sobretudo, porque acho que não é saudável nem confortável. Andar à pressa ou subir escadas deve ser muito cansativo para pessoas cujo corpo está revestido de muitos quilos de banha e encontrar roupa confortável e feminina para números tão grandes deve ser um calvário. 

Agora, dito isto, acho um perfeito disparate que, por um idiota desejo de emulação em relação a mulheres esculpidas à faca ou a photoshop, algumas se privem do prazer de comer capazmente, passem o dia a falar de dietas ou de receitas saudáveis, andem no ginásio a estafarem-se até quase caírem para o lado-se e falem do PT (Personal Trainer) como se fosse um insubstituível guru espiritual.

Se a pessoa não tem um corpo estrelicadinho e umas medidas de top model, paciência. A pessoa sentir-se bem e segura no seu corpo (e segura também em relação à sua maneira de ser) é imprescindível para uma vida feliz. Por isso, se tenho três ou quatro ou cinco quilos a mais, vou continuar a tentar perdê-los mas não vou sacrificar nada a troco disso, muito menos vou chorar ou sentir-me infeliz. Era o que me faltava.

Mas há quem o faça, sofra, chore, faça toda a espécie de sacrifícios.

O vídeo abaixo mostra a consciencialização que é necessária para que as mulheres aceitem o corpo que têm. O documentário Embrace da autoria da fotógrafa e realizadora australiana Taryn Brumfitt fala disso. Mostrando corpos de mulheres normais, faz com que outras mulheres normais vejam que não são mal jeitosas, não senhora, e, portanto, não são indignas de que o seu corpo seja amado. Não. Somos mulheres normais. Felizmente imperfeitas.


« Pourquoi est-ce que tant de femmes détestent leur corps ? » Taryn Brumfitt, mère de trois enfants, est partie à la rencontre de femmes à travers le monde pour leur poser cette unique question. Parmi les personnes interviewées : une femme à barbe, un mannequin australien, une présentatrice de télévision ou une championne sportive dont le corps a été brûlé à 60%... (ler o artigo completo)

Embrace

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As fotografias que usei no texto fazem parte de uma edição da Vogue Itália dedicada à sensualidade e graça de mulheres big size (XL ou mais)

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E desçam, por favor, até ao post abaixo caso queiram conhecer o meu comentário desportivo em relação à nossa vitória sobre a Polónia. Então, com meio Portugal transformado em comentador, eu ia ficar de fora...? É o ias!

(E adianto já a minha opinião: Até os comemos, carago! 
- pardon my french)

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Viva Portugal!
Renato Sanches duas vezes, Ronaldo, João Moutinho, Nani, Quaresma e Rui Patrício - parabéns!


Estamos nas meias-finais. Ainda não foi desta que Fernando Santos pôs a jogar o Bruno Alves mas, enfim, tenho que me abstrair disso e fazer o que é devido: festejar!

Pela primeira vez vi Renato Sanches em acção e aqui publicamente retiro aquilo da falta de testosterona: que raça tem o puto, raça de guerreiro! Que raça! Que raça! E que graça! E que fantástica energia!


E o Ricardo Quaresma. Com que frieza e segurança avançou para a vitória. Um felino pronto a atirar-se à jugular do adversário.

E Rui Patrício. Que nervos de aço. 
Escuso de dizer que me levantei da minha posição reclinada e, com muita convicção, disse: 'Defende Patrício' - e ele defendeu. E juro que estou a falar verdade. Aliás, há testemunhas. Mas, pronto, coincidência. Melhor: mérito, mérito dele.
E os outros. E o beijo na bola de Cristiano Ronaldo. Gostei. Tal como gostei de vê-lo a espreitar a marcação do colega. Muita emotividade nestes gestos.

E, com a minha quase nula sabedoria na matéria e apesar de não ter visto grande parte do jogo, ouso eleger como reis deste jogo Portugal-Polónia justamente Renato Sanches e Rui Patrício. Penso que a vitória se deve sobretudo a eles: ao primeiro porque marcou dois golos e ao Rui Patrício porque defendeu um penalti.



PS: De qualquer forma, contem comigo para os momentos decisivos na meia final. Cá estarei para, da minha bancada doméstica, enviar uma energia suplementar a quem sentir que dela estiver a precisar. Claro que isto é uma etapa de cada vez. Se passarem, não desgrudarei da frente do ecrã antes de eles ganharem. Mas sobre isso falaremos depois do próximo jogo. Vale?

PS2: Diz o meu marido: com excepção do Renato Sanches, todos os que marcaram penaltis bem como o Rui Patrício jogaram no Sporting (e, está ele em crer, aí foram formados). 


Mas, pronto, não é hora de falar em clubes mas na selecção - digo eu. Mas percebo o orgulho dele, sportinguista de gema.

PS3: Recebi agora um sms do meu filho que acaba com um viva a Portugal. E eu também acabo este post da mesma maneira como o comecei: viva Portugal!


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma fantástica sexa-feira, com tudo a que V. têm direito.

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