quinta-feira, junho 06, 2013

Podia falar da entrevista de Nuno Crato à Revista Veja, ele todo prosa, metido a besta, dizendo coisas que vêm mesmo a propósito nesta altura do campeonato. Mas não me apetece. Vou antes falar da raça do velho leão e do menino copinho de leite. Ou seja: do Velho com espírito de jovem e do Jovem com espírito de velho. Ou seja: vou falar da grande diferença entre Mário Soares e António José Seguro. (D'après Pacheco Pereira in Abrupto)


No post abaixo falo de sexo, mentiras e vídeo. Há cenas de sexo explícitas, pelo menos na forma tentada (e nisto, sabemos, o que conta é, sobretudo, a intenção), pelo que tive o cuidado de colocar uma pequena bolinha no canto direito do título. 


Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Podia dizer que, de certa forma, ia continuar a falar de sexo, pois poderia começar este texto dizendo que estamos bem f... Mas isso não seria conversa de salão e, como é sabido, o Um Jeito Manso é um blogue de família.

Adiante.
¨¨¨¨

Poderia, ó se poderia, falar da conversa aparvalhada e metida a besta do ministro-do-mamar-doce-crato na revista Veja. Ó povo burroooo, gostam alguns brasileiros de dizer dos portugueses e, neste caso, depois de ver o que ele disse, todo prosa, fotografia de tardo-galã da Rede Bandeirantes, também tenho vontade de dizer isso. Mas não digo, não vá ele achar que eu estou a faltar-lhe ao respeito. Por isso, com muita ternurinha, digo antes assim: ó ministrinho mais monty python, ó cabecinha mais vaidosa, ó cobrinha mais venenosa.

Mas, sobre isto, tamanho é o nonsense, só vou dizer que, neste desGoverno, cada tiro cada melro, cada cavadela cada minhoca. O que admira é como, com tanto tiro que dão nos pés, ainda andam pelo próprio pé. 

Mas, pensando melhor, já não andam a pé coisa nenhuma: ou andam ao colo do Cavaco ou no bolso dos seguranças.

E, de resto, sobre a melíflua e maligna criatura, já falei aqui e, por agora, chega, não vá o veneno dele contaminar-me aqui o salão.

Mas adiante, que quero é falar de outra coisa.

¨¨¨¨

Aliás, eu se calhar não devia dizer o que vou dizer. Mas como sou pouco dada a actos de auto-censura e como gosto mais de fazer o que me apetece do que restringir-me ao que devo, adiante.

Não me apareceu do nada, a ideia sobre o que vou dizer. Ocorreu-me depois de ter lido um pequeno texto do Pacheco Pereira. Nesse texto, com a devida vénia a Soares, ele explica qual a diferença fundamental deste face a António José Seguro.

E isso deu-me vontade de dizer a minha opinião. Então cá vai.

O que penso do Seguro já aqui o disse várias vezes. Para estar à frente do PS eu preferiria, de entre os que até à data já se perfilaram, o António Costa. O ar de sobrinho de tia velha do Tozé não faz o meu género.




Gosto de gente com ‘pica’, com punch, gente espontânea, com nervo. Mesmo que sejam, por vezes, politicamente incorrectos, prefiro os que me parece moverem-se por convicções, por paixão, com inabalável energia, gente que sobe montanhas, que remove escolhos, e sempre com infatigável determinação.  E gente intuitiva. E que vai à luta por prazer.

Ora não é nada disto que vejo em António José Seguro. O que vejo é um tipo aplicadinho, arrumadinho, que deve pensar sempre muito bem antes de falar, que deve gostar de organizar-se para ter a casa toda muito arrumadinha, a secretária sem um papelinho a mais, os caminhos previamente desbravados. Deve odiar as surpresas, os desafios arriscados. Carisma: zero.

E depois, desde que o conheço, tem aquele ar de menino-velho, de bem comportadinho, de mosquinha morta, de pãozinho sem sal. 




E aquela pose de estadista tira-me do sério, como se, antes de o ser, já fosse um honorável senador.

Posso estar a ser injusta. Mas é que eu própria sou uma intuitiva. A minha impressão chega lá antes do meu raciocínio. Não tenho paciência para me pôr a estudar os seus registos biográficos, o que escreveu, o que disse: sei que deve ter sido tudo muito coerente, tudo sem uma gaffe. Mas a questão é que não é com isso que se fazem os verdadeiros líderes.

E depois, para além disto, há ainda os pormenores. E eu sei que pormenores são pormenores e eu até me chateio quando as pessoas se prendem com irrelevâncias, não prestando atenção ao todo. Mas também sei que o diabo está nos pormenores…




E um pormenor que me causa enjoo é vê-lo a chegar aos locais num bruto carro e ele sentado no banco de trás e haver ali uma corte à sua volta como se fosse a rainha de Inglaterra a deslocar-se e ele muito cheio de pressa, muito jet set, muitos sorrisinhos para a comunicação social, e sempre de boquinha fechada, sempre muito apertadinho.

Não sei. Não gosto. Mais: embirro...!

São pormenores, sei que são. Mas preferia vê-lo num carro mais utilitário, com menos ar de estadão. Não é pela diferença de valor que isso deve ser irrelevante mas é pelo ar. Acha-se importante e a mim irritam-me os tipos que se acham importantes, o que  é que eu hei-de fazer…?

E agora ali anda a fazer a ronda dos partidos a querer arranjar consensos ou lá o que é - e até acho que é normal e saudável que os partidos falem uns com os outros, e, muito em especial, numa altura destas, tudo certo - mas é o aparato, uma vez mais a comunicação social atrás a filmar o acontecimento, e tanta pose, tanta cagança, tanta encenação, a armar-se em primeiro-ministro, rodeado de acólitos. Parece que não se enxerga, credo.




Não tenho pachorra, senhores, não tenho mesmo. A coisa podia fazer-se discretamente, com sentido de dever, com empenhamento, sem aquele cortejo todo. Aquela mise-en-scène dá-me nervos, o que é que eu hei-de fazer?.

Agora lá vai, pela mão do Balsemão, ele mais o Portas, para o Bilderberg. Já em tempos escrevi aqui sobre isto. Esta escolha diz tudo: estão escolhidos os senhores que se seguem.

Nada que não se saiba. Faz um bocado de impressão constatar como é que estas coisas se passam, estes contactos, estas influências, mas, enfim, as coisas são o que são. Ou melhor, as coisas passam-se a um nível tal, que goste a gente ou não goste, elas se movem na penumbra e manipulam, fazem e desfazem. Não têm rosto. Nem moral.




Por isso, tirando o lado mais substantivo da questão, o que me incomodou mesmo, senhores, foi o arzinho de virgem imaculada do Tozé, de santinha do pau oco, quando lhe perguntaram o que achava do convite. Via-se que não lhe cabia um feijãozinho no rabo mas, todo apertadinho, a armar-se em superior, a fingir uma displicência que notoriamente não tem.

Mãezinha… que falta de paciência que tenho para estes parvónios.

Tempos como os que vivemos pedem líderes a sério, gente capaz de dar um murro na mesa, de ter uma visão e um instinto verdadeiramente disruptivos. Gente capaz de correr riscos, de dar o peito às balas.

Pacheco Pereira tem razão: Mário Soares, concorde-se ou não, goste-se ou não, é assim, chega-se à frente, expõe-se, separa as águas. Ele pressente as coisas, ele quer genuinamente derrubar o que está podre, não se importa de ir em frente mesmo não sabendo onde vai dar porque confia que, andando, com a sua vontade e intuição, acabará por desenhar o seu próprio caminho.




Mário Soares é um leão que ruge e, ao fazê-lo, enche o país com o seu rugido. Tem querer, tem raça. Tem-nos no sítio.

Agora este betinho do Seguro, senhores, tudo muito by the book, muito certinho…

....

Mas, enfim, agora que já despejei o saco, tenho que dizer: seja como for, entre o Tozé copinho de leite e o incompetente e perigoso Passos Coelho, não há dúvida: antes o Tozé. Que disso não restem dúvidas. O Tozé pode não ser rapaz para grandes rasgos, provavelmente outro Hollande, mas não fará a destruição, não fará a maldade, a ignomínia de destruir o país (esperemos é que as coisas não lhe cheguem às mãos já irreversivelmente destruídas).

A política, no actual regime, resume-se, essencialmente, a fazer a melhor escolha possível entre o que nos é dado escolher.

Sócrates não era extraordinário? Pois, se calhar extraordinário não seria. Mas, há dois anos atrás, a alternativa era melhor? Passos Coelho com o seu amigo Relvas eram melhores que Sócrates? Cruzes! Não! Estes são infinitamente piores. Por isso, a decisão de deitar abaixo o Sócrates para lá pôr o Passos e o Borges e outros que tais não foi uma decisão inteligente. O resultado está à vista.

O Seguro não é, nem de longe, alguém que eu, em escolha livre, escolheria? Ah pois não. Mas entre ele e o Passos+Portas+Borges+Gaspar+etc também não há dúvidas. Fecho os olhos e engulo o Seguro. Paciência. Melhores dias virão.


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Obtive as imagens manipuladas no blogue We Have Kaos in the Garden. 
Que fonte de imagens engraçadas - que inspiração a do autor deste blogue! 

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Bom. Para sexo, mentiras e vídeo, já sabem, é descerem até ao post seguinte. Isto se não forem primos do Tozé. Se forem apertadinhos como ele, é melhor não irem. Eu aviso... e uma vez mais explico porquê: nunca se sabe se o lombinha não está a ler o UJM (eu acho que está e, se quiserem, eu explico porque é que acho) e não quero que ele volte a ir ao engano a algum lugar que não seja da sua afeição.

Adiante.

Convido-vos ainda a irem até ao meu Ginjal e Lisboa. Hoje por lá, para além de um poema caliente de Camões e de uma despudorada contradança minha, há ainda um saboroso poema sobre Lisboa que uma Leitora me enviou e com o qual constituí um post autónomo. A música hoje, embora seja ainda Luciano Berio, parece-me mais atilada.

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E, por hoje, é isto. Tenham, meus caros Leitores, uma bela quinta feira. 
Nada de desistir. Nunca. Força. 
Para a frente é que é caminho.

quarta-feira, junho 05, 2013

Sexo, mentiras e vídeo º


Por vezes o sexo pode ser complicado, por vezes as circunstâncias não são as mais favoráveis. Outras vezes a realidade não é o que parece, por vezes nem sempre se pode acreditar no que se vê. E nem sempre o que se deseja é confessável.

E umas vezes dá vontade de chorar na altura e, passado algum tempo, dá vontade de rir. Ou vice-versa.

E tudo é verdade. Ou tudo é mentira. Depende dos pontos de vista. E todos são compreensíveis. Ou não.


NB: aquele ózinho pequenino (º)  lá em cima no título da mensagem é o melhor que arranjei para servir de bolinha no canto superior direito.




Girafas tentando acasalar. Nós rimo-nos. Elas devem ter chorado. Knuthenborg Park

*



Mulher é quase violada por um golfinho muito persistente. Não sei onde.

*



Alce tenta acasalar com uma estátua. Não deve ter sido mau de todo porque dizem que voltou no dia seguinte. Grand Lake, Colorado




 Sex, lies and videotape.
Realizador e argumentista: Steven Soderbergh
Actores: James Spader, Andie MacDowell, Peter Gallagher

*


Ainda cá volto. Provavelmente venho com um sujeito bem comportadinho pela mão para ver se ele me impede de me portar mal.

'Por vezes, tento dar vida a essas plantas que morreram, deito-lhes a água das lágrimas antigas. Mas elas morrem de novo.'. Tempos de cinza, estes.


No post abaixo conto como, ao ver Nuno Crato a ser entrevistado pelo Paulo Magalhães na TVI 24, me recordei da visão aterradora que tive um dia, ao assistir à dormência e antecipada rendição de um ratinho que se deixou devorar por uma cobra. Tomara que os professores não se portem como ratos. Ou melhor que não se deixem devorar, que lutem de pé, de frente, sem medo. 

Mas isso é a seguir. Agora, aqui, a conversa é outra.


Música, por favor, ouçamos o chubinho do mar




Podia falar-vos da estranheza que é para mim pensar que o Diário de Notícias ou a TSF, tão portuguesas, com uma história que se confunde com a de Portugal nos tempos mais recentes, vão passar a pertencer maioritariamente a um empresário angolano, Mosquito de seu nome, que, pelo que percebi está nisto como investidor e não pelo amor à Comunicação Social.

Podia falar-vos também da estranheza que é para mim pensar que os CTT, uma empresa lucrativa e tão enraizada na sociedade portuguesa, podem (se ninguém travar este desalmado governo) passar a ser propriedade de uma empresa de transportes e mudanças ou, então, propriedade da empresa de correios do Brasil, uma empresa estatal, mais uma empresa estatal de outro país a ficar com uma outra das nossas maiores empresas públicas, imagine-se.

Podia falar-vos da estranheza que ainda me causa saber da perfídia de quererem publicar a lista de pessoas assistidas, dos que recebem apoios sociais, habitação social. Podia falar-vos do espanto que ainda me causa perceber que a atracção pela desonra destes seres que nos governam não tem limites. Podia falar-vos disso. 

Podia falar-vos da revolta que vai alastrando na sociedade perante tantas e tantas coisas estranhas e inquietantes, da violência que vai crescendo, uma violência surda, uma raiva. Podia falar-vos da angústia que sinto quando leio os comentários tão desalentados, tão sofridos, tão cansados, que vocês, meus queridos leitores, escrevem aqui neste vosso espaço.

Mas hoje não o vou fazer mais. As coisas concretas começam a assustar-me. É tudo tão assustadoramente mau e o mal alastra a uma velocidade tal e de forma tão sorrateira que me assusto. Não quero, pois, falar de coisas concretas. 




                                              Por vezes, tento
                                              dar vida a essas plantas que morreram, deito-lhes
                                              a água das lágrimas antigas, despejo sobre as suas raízes
                                              o álcool dos copos bebidos até meio, e vejo-as
                                              animarem-se como o rosto cuja palidez ganhou
                                              um fulgor de sol no dia de névoa. Mas
                                              elas morrem de novo; e recomeça a viagem, para
                                              que o vento da memória me obrigue a fechar
                                              os mapas que me deram, para nunca saber o caminho.


Quero procurar a abstracção, perder-me no infinito abstracto, ignorar as muitas dimensões do espaço, deixar-me ir. Não quero ficar presa na mediocridade que alastra, não quero falar mais da leviandade impiedosa, da maldade gratuita (ou pensada - não sei). Juro que não quero. Hoje quero ir à toa, quero ser levada. Que passe por aqui um anjo ou um pássaro ou um sonho e que me levem por umas horas. 

Vou abrir a janela, esperar que um sopro me traga alguma serenidade ou me leve por caminhos que ignoro. Quero percorrer, na noite, os caminhos das palavras, quero que sigam o seu autónomo caminho, livres, leves.

Mas não é fácil. O peso dos dias prende-me o voo.




                                                              os jovens afastaram os velhos
                                                              e agora achincalham os velhos
                                                              Isto não fica esquecido
                                                              até a vossa juventude ser esquecida:
                                                              o que aos velhos fizerdes os vossos jovens vo-lo farão


Mas a incerteza que oculta a luz, os labirintos obscuros, os gemidos nas esquinas, o medo, o muito medo, tudo me prende o passo. 

                                                                                    O dinheiro nunca teve cor, mas agora
                                                                                    não tem mundo nem maneiras

A realidade é pesada. Teima em vir agarrar-se às minhas pernas, impede-me de abrir as asas. Tento afastá-la mas não consigo.

- Não. Isto não.

Não quero rostos de cinza, palavras velhas, lamentos sofridos, rugas e tristezas, esgares amargos, lágrimas - não quero.

Quero a largueza de um voo, a doçura de um sorriso, o calor de um corpo livre.

Mas não consigo.




Um abraço com risos, flores cheias de sol, esperança e bondade, inocência - quero tanto isso agora. 

Onde estão vocês, meus amigos, que não vêm agora até aqui para me levarem convosco por essa noite fora, pelos vastos céus, por caminhos limpos, por entre estrelas e palavras puras?

Onde estão vocês, meus amigos, que não entram por esta janela para me ensinarem a esquecer por momentos o negrume que cresce do chão?


*

Fico-me por aqui. Por mais que tente, hoje  não consigo escrever palavras alegres. Desisto.

As pinturas são de Ilda David. A música é composta e interpretada pelo talentoso Vasco Duarte Abranches e desejo que, de tão bela que é, tenha atenuado o negrume das palavras.

O primeiro poema é um excerto de 'Registo', de Nuno Júdice. O segundo é de Walther von der Vogelweide e é citado por Eugénio Lisboa. O último é um excerto de 'Os derrotados de Abril' de Luís Filipe Castro Mendes. Todos eles constam da última edição do JL.

*

Relembro, embora não seja agradável: para lerem sobre o mamar doce da cobra Crato é descerem até ao post seguinte.

Caso queiram aligeirar um pouco o ambiente, convido-vos a virem comigo até ao meu Ginjal e Lisboa, a love affair. Aí, pelas mãos do Poeta-Embaixador, escrevo sobre a noite de um certo Poeta. A música por lá é do mais desconcertante que há. Ou melhor, hoje nem é bem a música que é desconcertante: é a intérprete. Verão porquê.

*

E, portanto, não conseguindo animar-me e não vindo vocês aqui dançar comigo ou conversar e rir, vou-me deitar.

Tenham, meus Caros Leitores, uma boa quarta feira. Saúde e esperança é o que vos desejo.


terça-feira, junho 04, 2013

Nuno Crato na TVI 24 e o mamar doce da cobra antes de devorar a indefesa presa. Há no sorriso parado, na voz mansa e nas palavras pastosas do Ministro uma angustiante falta de respeito pelos professores mas há também falta de moral, cinismo, manipulação, desprezo pela população. Nem consigo ver: acho que aquele sorriso e aquelas palavras manhosas roçam a abjecção. Que os professores lhe saibam dar uma lição de inteireza e dignidade é o que eu desejo.


Uma vez assisti a uma cena tenebrosa. Estava in heaven e, num buraco fundo, vi uma cobra enorme e um ratinho. Fiquei aflita. Percebi que algo de mau ia acontecer. Queria salvar o ratinho mas não fui capaz de o tirar de lá. Como fazê-lo? Não me ia meter dentro do buraco... Bati palmas, fiz barulho, tentei que o rato fugisse, tentei distrair a cobra. Não resultou. Fui a correr buscar um pau, bati na cobra mas ela virou-se e fiquei com medo que subisse pelo pau e me mordesse. Larguei o pau, assustada. Continuei a bater palmas, a bater com os pés no chão. Não resultou. A cobra olhava fixamente o ratinho e o ratinho estava sem reacção, passivo. A cobra foi-se aproximando, eu horrorizada, atirei umas pedrinhas que estavam ali ao pé.  Nada, nem o ratinho se mexeu, nem a cobra.

Queria afastar-me mas não me afastei na esperança que o ratinho fugisse, que a cobra se distraísse e desistisse. A cobra cada vez mais próxima, o ratinho inerte. Podia ter fugido mas não fugiu. Depois a cobra abocanhou-o, devagar, devagar. 




Nessa altura o ratinho estrebuchou, o rabinho a dar a dar - mas já era tarde demais. A cobra continuou a engoli-lo, devagar, devagar. Eu também quase sem reacção, horrorizada, esvaída de aflição e pavor. Até que a cobra engoliu o completamente.

Lembrei-me disto enquanto vi agora um bocado da entrevista de Nuno Crato na TVI 24, com o Paulo Magalhães. 




Sempre aquele mamar doce, sempre aquele sorriso parado. Mente, manipula, prepara-se para aplicar mais um golpe fatal a uma classe tão mal tratada e sempre aquele sorriso cínico, sempre aquele olhar falso, sempre aquela voz suave, falsa, falsa. 

A ciência foi abandonada, a investigação passou para secundaríssimo plano, o ensino é o que for, os professores são carne para canhão nesta perseguição sem moral contra os funcionários públicos - e Nuno Crato sempre com aquele sorriso.

Não sei se os professores se vão deixar ficar inertes, inertes, sem reacção, deixando-se devorar sem um gemido.

Tomara que não.

Tomara que lutem, que se portem com dignidade, que mostrem que ainda são uma das profissões mais nobres da sociedade.

No mais carnal das nádegas as marcas das frescas cuecas. E, a despropósito, nos festejos dos 2 anos de sucessos desgovernativos, referem-se alguns dos muitos ensarilhanços causados pelos quase 5.000 burrocratas que parece terem tomado de assalto o Estado, transformando-o na Cuba da UE. Liberais, eles? Qual quê? Têm lá eles competência para isso....?


AVISO

Os puristas da coisa, os que gostam de curtir dores académicas, devem fugir daqui a sete pés, já, o quanto antes. 

[Gosto de avisar para que não vos aconteça como ao pato Lombinha que vai a sítios por engano.]

*
Entretanto, para quem prefira um outro registo, informo desde já que no post abaixo temos um momento poético especialmente dedicado a todos os hyper-sabujos que têm alma de corno e cara de cu. 

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é séria. 


Atenção, portanto. 



                                                                                                                                   d'après Issa

no mais carnal das nádegas
as marcas
das frescas cuecas

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No mais cubanizado dos países da União Europeia faltam medicamentos para crianças. Não faz mal. O ministro já decidiu: o exército fabricará. Não sei se quando faltar comida nos supermercados, o desGoverno abrirá lojas do povo, talvez reconvertendo quartéis. 

(São tão incompetentes que, querendo ser liberais, fazem tudo tão errado que lhes sai tudo ao contrário: acabam a estatizar tudo! São tão giros!)

E faltam medicamentos porquê? Porque o desGoverno não paga e os medicamentos são exportados. 




E quando faltar o papel higiénico? Fazem o quê? Põem os soldados a reciclar papel de jornal? Lindo.

Querem menos estado mas contratam gente aos milhares: em menos de dois anos já lá vão para cima de 4.400. Boys e girls para todo o gosto. 

Não me admiro. 

Incompetentes como são, precisam de se rodear de quem faça alguma coisa. Mas incompetente que é incompetente, é incompetente em tudo o que faz e, portanto, até a contratar é incompetente, ou seja, só contratam incompetentes que, depois, resolvem que o problema não é da incompetência em si mas da incompetência na comunicação e vai daí arregimentam uns quantos jornalistas e outros artistas para trabalharem na imagem dos incompetentes. Mas, como são todos uns incompetentes, a coisa não resulta e, então, resolvem que o melhor é encomendarem uns estudos a entidades externas. Mas como são incompetentes não percebem nada do que lá vem escrito e, vai daí, encomendam a seguir uns pareceres a uns consultores para avaliarem os outros pareceres. E depois, perdidos na sua incompetência, ensarilhados uns nos outros - que isto de ter 4.400 incompetentes mais os ministros incompetentes e mais os secretários de estado incompetentes tudo junto é um enfarilhanço que não vos digo nada - ficam a olhar uns para os outros, a ponta do nariz a ficar redonda e encarnada, e sem perceberem onde é que falharam. Será que há por lá polícias sinaleiros para impedir que aqueles milhares de incompetentes se engalfinhem todos uns nos outros, se estampem uns por cima dos outros? Se calhar são tão incompetentes que até se esqueceram de contratar um polícia sinaleiro.

Problema, isto?! Qual quê?

Dizem os inteligentes da maioria PSD/CDS: isto agora é que está bom. O País agora é outro. 

Então não está?

Isto está tão bom que a dívida já está tão insustentável que até o Ricardo Salgado já gagueja e diz que se calhar, bem vistas as coisas, a gente não a vai poder pagar e que os juros, bem, os juros também deviam ser renegociados. Transcrevo: Ricardo Salgado, que discursou hoje no último painel da 'Grande Conferência JN', de comemoração dos 125 anos do diário nortenho, considerou "muito difícil" responder "à grande questão": "será que a dívida portuguesa é sustentável e vamos poder viver sem uma reestruturação da dívida?".

"Mas esta é a grande questão que vai ter que ser respondida. E aqui há o problema dos juros, que quanto a mim poderia ser revisto, uma vez que as taxas de juro estão em queda e que a Europa deveria ter em consideração essa realidade", defendeu.




Mas alto aí, parem tudo! Já não percebo nada disto!

Isto não é o que a malta do reviralho - aquela malta que gosta é de protestar e consumir, em vez de estar caladinha a empobrecer, a ver o país a definhar, mas caladinha, bem educadinha, a dizer bem da austeridade - anda a dizer desde o início dos tempos e que o Passos e o Gaspar dizem que não, nem pensar? Reestruturação da dívida?! Renegociar juros?!?!?! Heresia!

Adiante.

Nada de contrariar o ideólogo Maduro, tadinho, nem o inteligente Lombinha, e outros fofos que por lá andam... O País está muita bom. A realidade é que é uma desmancha-prazeres, essa filha da mãe. É que, apesar de subirem os impostos até mais não poder, a queda das receitas mantém-se... Ó que surpresa tão desagradável...! E o segundo rectificativo já está todo esfrangalhado, ó que chatice.

E os sacanas dos empregados que não páram de ficar desempregados... Ó pá que chatos.

Mas tirando isso e mais umas quantas insignificâncias (insignificâncias a que o Dr. Catroga costuma chamar outra coisa que aqui, neste contexto, até ficava a matar) o País está uma maravilha. Uma maravilha mesmo maravilhosa. Mesmo incompetentemente maravilhosa. Claro está que os ministros e secretários de estado já não conseguem falar em público, o povo perdeu-lhes o respeito, riem, chamam-lhes gatunos, palhaços, mandam-nos demitirem-se, mas, enfim, pormenores, amendoins. O país agora é que está bom, tão bom que a malta até lambe os beiços, a querer mais.




                                            esquivar-se à sintaxe e abusar do mundo,
                                            oh como em pedra trançada ficou dito,
                                            ígnea pedra até ao fim de tudo e mais que tudo isso infundido,
                                            lá onde fresca e unânime a terra que respira:
                                            ferida funda
                                            - e sem nada a ver com tudo,
                                            os burrocratas indizíveis




                                          e ali em baixo com terra na boca e mãos atadas atrás das costas
                                          alors qu'on peut écouter de la musique avant tout chose
                                          sob a força devastadora da poesia
                                          os burrocratas os burrocratas



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Os poemas são de Herberto Helder e fazem parte do seu último livro, Servidões - e eu avisei que isto não era acepipe para puristas: misturar o Herberto Helder com a choldra não é coisa que se recomende, eu sei, eu sei...

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Com vossa licença, relembro aos que têm alma de corno ou aos que estão a pensar num certo cara de cu que deverão procurar o post a seguir a este (Fernando Pessoa dixit, ora essa). 

Gostaria ainda de vos convidar a visitarem o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje já sabem que não me recomendo pelo que não devem espantar-se com o que lá vão encontrar. O mote foi um outro poema de Herberto Helder que fala das dores académicas (...lá está porque é que, lá em cima, falei nelas). A música que, no Ginjal, vem a seguir é desconcertante - é o que tenho a dizer.

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E, antes que a coisa se desconjunte de vez, fico-me já por aqui. 
Mas desejo-vos uma bela terça feira. 
Divirtam-se, está bem? 
E, de caminho, partam a louça toda, virem a mesa, batam com a porta. Qualquer coisa.

segunda-feira, junho 03, 2013

Poema dedicado a todos os hyper-sabujos que têm alma de côrno e cara de cu


                                                 Alma de côrno - isto é, dura como isso;
                                                 cara que nem servia para rabo;
                                                 idéas e intenções taes que o diabo
                                                 as recusou a ter a seu serviço -

                                                 Ó lama feita vida! ó trampa em viço!
                                                 Se é p'ra ti todo o insulto cheira a gabo
                                                 - ó do Hindustão da sordidez nababo!
                                                 Universal e essencial enguiço!

                                                 De ti se suja a imaginação
                                                 ao querer descrever-te em verso. Tu
                                                 fazes dôr de barriga à inspiração.

                                                 Quér faças bem ou mal, hyper-sabujo,
                                                 tu fazes sempre mal. És como um cú,
                                                 que ainda que esteja limpo é sempre sujo!



['Alma de Côrno', soneto inédito atribuído a FP, Fernando Pessoa, datável de 1910, in Granta Portugal, nº 1] 


NB: Não escolhi nenhuma ilustração para que se adapte a quem o barrete couber.


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Mas, já agora, a propósito de cornudos...




e, a propósito dos que têm cara de cu,



Vou tentar voltar daqui a nada muito bem comportadinha. 
Me aguardem...


Reportagem fotográfica na Feira do Livro em Lisboa: jacarandás com escritores, em dias de muito calor


Desde o início da minha adolescência que frequento a feira do Livro. Comecei por ir com os meus pais. Andava de pavilhão em pavilhão, eles maçados e eu deliciada. assim me recordo: o meu pai impaciente, carregado com os livros que eu ia escolhendo, a minha mãe compreensiva e eu perdida, empolgada no meu mundo. Depois já ia sozinha, e nada se comparava a isso, horas para baixo e para cima, braços carregados de sacos. No primeiro dia, ia de barraquinha em barraquinha, pedindo os catálogos que depois estudava em casa e, quando voltava, para além dos livros do dia e de coisas inesperadas, ia aviando a lista que tinha feito em casa.

Depois passei a ir com um namorado que também amava as palavras. Mas ele, ao visitar a feira, tinha a sua própria agenda e isso atrapalhava-me os movimentos pois eu queria parar nuns e ele demorava muito noutros que não me diziam nada, coisas ligadas a estudos linguísticos, semiótica, e outras coisas do género. Eu queria seguir e ele de roda dos livros onde se explicava como se fazia a autópsia à língua portuguesa. Ou cirurgia, mais do que autópsia. Livros de anatomia e cirurgia da língua, e eu acho que isso destrói o amor na língua. Alguém, para gostar de uma outra pessoa, se põe a ver as suas análises médicas, radiografias, ecografias, alguém precisa de dissecar o outro para o compreender e amar melhor? Eu acho que não. Em contrapartida, se eu parava nos compêndios de Berkeley ou na Teoria da Relatividade ou na Mecânica Quântica ou na Origem das Espécies, matérias que, nessa altura (e ainda hoje) me mobilizavam grandemente, ele queria seguir. Um stress. Não era fácil de compatibilizar.

Tempos depois, a companhia passou a ser outra: a mesma de agora, a mesma de todos estes anos. Mais perspicaz que eu para ver coisas em que não reparo mas com vontade de despachar a feira em três tempos. De longe deita o olho, vê se interessa ou não, e segue, sem paciência para se debruçar à procura de um tesouro escondido. Fica de longe, de olho em mim, a ver se não me perco dele.

Pelo meio, fui também com os nossos filhos. Cheios de calor a quererem água e gelados, interessados em alguns  pavilhões mas o resto do tempo impacientes, queixando-se das secas. Ainda hoje referem os traumas que apanharam nessas alturas. Mas hoje são leitores assíduos, exigentes, e talvez devam um pouco disso ao amor aos livros com que sempre conviveram, desde que nasceram.

Desde que há a Fnac com 10% de desconto e promoções e desde que à hora de almoço vou quase todos os dias ver o que há de novo, a Feira perdeu um pouco daquela novidade. Mas, ainda assim, parece que todos os anos tenho que me manter fiel a este ritual.

No sábado fui de raspão ao fim da tarde. Vinha da Gulbenkian, das brincadeiras do Dia da Criança, já estava cansada. Dei uma volta, espreitei uns livros, vi alguns escritores mas de longe. 

Este domingo resolvi ir lá de tarde para ver se comprava alguns livros.

Almoçámos um brunch (passe a redundância) num restaurante muito agradável, boa comida, variada, à discrição. Não gosto muito de fazer publicidade a restaurantes mas de vez em quando abro uma excepção. Este merece destaque: a Rota das Sedas, na Rua da Escola Politécnica, em frente da Procuradoria-Geral. Ficámos no terraço.



Restaurante Rota das Sedas


Tirei a fotografia numa altura em que as pessoas de uma mesa se tinham levantado para ir buscar comida e apenas mais duas pessoas ao fundo e mais duas junto a nós lá estavam. A seguir, quando estávamos já de saída, a caminho das três horas, chegaram mais pessoas. Se calhar essa é a hora de maior afluência para os brunches. Lá dentro há umas salinhas pequenas, também simpáticas, mas o terraço é melhor. Não é barato mas o sítio é tão bonito e a comida tão agradável que, enfim, fecha-se os olhos, um dia não são dias, bla,bla, bla (21 euros por pessoa, mais as bebidas que são à parte).

Para quem possa, aqui deixo a recomendação.

Depois fomos para a Feira. Um calor abrasador. Embora goste de calor, custa-me andar na rua, ao sol, com temperaturas tão elevadas. Fico impaciente, a minha disponibilidade esvai-se.

Confesso que a configuração actual da Feira me é um pouco estranha. Há muitas esplanadas - o que até pode ser bom para que a mim, talvez por conservadorismo, me parece um pouco demais - e tudo aquilo me parece mais stands comerciais do que barraquinhas de livros. Muitos cartazes, muita cor, muito altifalante.

E depois há os autores. Sempre houve sessões de autógrafos e eu sempre as evitei. Não sei porquê. 

Tenho para mim que o que me importa é o que escrevem, não quem são, não a forma como assinam o nome. No entanto, uma ou outra vez, em todos estes anos, cedi à normalidade e fui pedir um autógrafo. Pedi um à Alice Vieira antes da minha filha nascer e pedi que a dedicatória lhe fosse dirigida. E talvez mais um ou outro. De resto, tenho um pudor, não sei explicar, acho que os escritores não deviam ser obrigados a sujeitarem-se àquela provação. Acho que deve ser horrível estarem ali sentados à espera que alguém os vá procurar. De vez em quando vejo uma mesa com um escritor sozinho e sem que ninguém lá pare. Acho que deve ser horrível, horrível. Passo e nem olho, finjo que nem reparo para que não se sinta que estou a testemunhar o abandono a que está a ser votado.

De alguns escritores gosto muito e gostaria de lhes dizer isso, que gosto deles, mas não quero fazer figuras ridículas, chegar ali e dizer banalidades, ah e tal, aprecio imenso a sua obra, imagino a complacência do escritor, ah muito obrigado, como se chama para eu escrever na dedicatória? Não. Não faz o meu género. 

Mas, enfim, gosto de os ver, de saber como são, e àqueles de que gosto e que não têm muita gente de roda, gostaria de lhes agradecer, de perguntar se querem companhia, de ficar ali sentada a conversar para que não se sintam mal amados, de perguntar se querem que lhes vá buscar uma água ou um gelado. Mas receio que me olhassem como se eu fosse maluca, e, até assustados, me dissessem que não, que me despachassem - não corro o risco de fazer essas figuras ridículas (nem o meu marido me deixaria...). Por isso, limito-me a fotografá-los discretamente.

Naturalmente comprei alguns livros mas não muitos, não tantos como há anos atrás. Tinha curiosidade de ver a Patrícia Reis, li o que ela escreveu ontem (já retirou o post) e estava curiosa de ver como é que ela lá estaria e talvez vencesse a minha resistência e fosse pedir-lhe um autógrafo. Mas ela só chegava às 5 e eu já não aguentava mais o calor. 

De resto, e desejando que os visados não levem a mal a inclusão de fotografias suas aqui, deixo a fotografia de alguns escritores que fotografei. Caso não o permitam, bastará que mo digam que eu as retirarei de imediato.

Começo com os jacarandás em flor que circundam a zona.



Jacarandás em flor no início da à Av. Joaquim Augusto Aguiar, ao Marquês


A seguir mostro a vista geral de Lisboa, do Tejo e da Margem Sul avistados da Feira, para os que não tem possibilidade de a visitar (e não posso esquecer que parte dos meus Leitores não é de Lisboa e, inclusivamente, um número significativo é do Brasil)



A Feira no Parque Eduardo VII, a estátua do Marquês de Pombal de frente para o Tejo, e Lisboa descendo até à beira do rio, a Serra de Palmela ou da Arrábida (ou as duas - não sei) do lado de lá


A relva é aproveitada para banhos de sol e que sol, que calor...



Relvado central do Parque


Estava muita gente quer no sábado quer no domingo. Não me pareceu que as compras fossem extraordinárias, mas talvez fosse impressão minha. Para o meu gosto a feira tem um pouco de animação a mais e isso e o calor desestabilizaram-me um pouco, pelo que talvez tenha ficado com uma impressão imprecisa. Pareceu-me que as pessoas andavam a passear mais do que a comprar.



As zonas de sombra são um alívio nestes dias de calor mas, como se vê, há muita gente na Feira


Não quero deixar de referir que, para além das Editoras mais conhecidas, há outras que desconheço e há outros pavilhões que não têm muito a ver com editoras ou então fui eu que não percebi. Por exemplo, neste aqui abaixo não consegui perceber bem o que se passava. Não sei se são góticos, se era algum escritor que atraía pessoas com esta forma de viver, não sei. Associei ao que J. Rentes de Carvalho escreveu sobre um par de góticos que passaram por ele.



Tenda onde se passava qualquer coisa - mas não percebi o quê,
só sei que estavam quase todos vestidos de uma forma especial


E, por falar em J. Rentes de Carvalho, lá estava ele. Hesitei. Ainda peguei no último livro, que ainda não tenho. Mas pareceu-me que ele estava cansado ou com calor ou saturado, não fui capaz de ir importuná-lo.



J. Rentes de Carvalho


Vi também um filósofo de quem recentemente li um livro bastante interessante, 'Portugal, hoje - o medo de existir'. Devia ter sido capaz de sintetizar em duas ou três frases alguma coisa de inteligente para ele perceber que eu tinha percebido alguma coisa do que li. Mas não me ocorreu nada e também não quis fazer uma figurinha triste como se fosse uma admiradora ocasional. Os escritores merecem-me um respeito que não me parece compatível com chegar ali ao pé deles a pedir um autógrafo como as miúdas que querem um autógrafo de um vip da televisão ou de um futebolista.



José Gil


Junto a ele estava uma das escritoras de quem muito gosto, uma mulher que sai das grutas para brincar com bonecas nos sótãos, ou que brinca à porta de casa com gatos ou que desce ao interior dos bosques para buscar palavras, ou que voa.

Falava com alguém e voava nos gestos, no olhar. Como chegar-me ali, interrompê-la, dizer uma banalidade qualquer? Impossível.



Hélia Correia.
Tirei mais duas fotografias em que toda ela está focada
mas prefiro esta pois aqui ela sorri como uma menina e as mãos voam como pássaros


E, por falar em poesia, na zona da Leya que é uma feira dentro da feira, eis que vejo, discreta, Maria do Rosário Pedreira. Estava ao lado de outras pessoas, talvez escritores, não os conheci. Não quis maçá-la. Mas uma pessoa abeirou-se dela, com carinho, e vi como ela sorriu, um sorriso muito bonito.



Maria do Rosário Pedreira, editora, poetisa


E, por falar em pessoas simpáticas, no sábado vi alguém a quem tinha vontade de me apresentar, de me explicar. Mas no sábado estava cansada, com vontade de ir para casa, sem disponibilidade para conversas. Fotografei-a e este domingo estava com esperança de a ver lá de novo, para, então, me aproximar. Mas já não a vi.



Helena Sacadura Cabral, a Bárbara Helena,
 a quem os jacarandás ofereceram as suas flores para que ficasse assim,
florida de lilás. E jovial e sorridente, como sempre


E já aqui falei desta outra, uma Senhora que escreveu muito para os meus filhos, em especial para a minha filha que a adorava e que eu admiro muito como Poetisa.



Alice Vieira.
A fotografia ficou desfocada pois estavam pessoas a passar à minha frente
 mas quero tê-la aqui pela ternura da sua imagem comendo um gelado, simpática, disponível


Não quero deixar de aqui mostrar um escritor que admiro e com quem me 'encontro' algumas vezes a comentar o Chapéu e Bengala.



Onésimo Teotónio Almeida


Depois havia as vedetas, as que faziam com que os leitores formassem filas. Neste caso aqui abaixo, de uma disponibilidade enorme, sempre pronto para estas sessões, não me teria custado muito... se eu fosse de me pôr em fila, numa tarde de calor abrasador. Não sou.



Luis Sepúlveda


E a vedeta maior, uma fila enorme: o escritor tatuado, da moda, dos clichés. Li os primeiros livros e gostei, li um livro de poesia e gostei mas, a partir daí, acho que se banalizou, que escreve por escrever, que escreve sem que as palavras lhe venham das entranhas, que escreve a metro, não sei bem dizer, parece que as palavras perderam a alma. Ou então sou eu que cada vez sou menos condescendente. Não sei. Talvez seja do excesso de mediatização. Tenho ideia que as luzes da ribalta desvendam as zonas de sombra necessárias aos escritores e, ao desvendá-las, secam-nas. Mas isto sou eu a dizer - e que sei eu disto?



José Luís Peixoto, o escritor que encanta sobretudo 'plateias' femininas


No sábado, já tinha visto uma outra vedeta mas não exactamente da literatura. De qualquer forma, como vedeta, tem virtudes inquestionáveis: é inteligente, é divertido, tem uma presença forte na televisão. Costumo ler às vezes as suas crónicas e ouvi-lo no Governo Sombra. Escreve bem e é acutilante, aquele humor inteligente que dá gosto. 



Ricardo Araújo Pereira, não sei que livros publicou, talvez os livros das crónicas da Visão - mas não sei.
O que sei é que, para além do mais, é um homem bonito


Junto a ele, na Tinta da China, Carlos Vaz Marques, editor e Primeiro-Ministro do Governo Sombra, observava o desempenho do seu irreverente ministro.



Carlos Vaz Marques - o talentoso, trabalhador, grande amante das palavras


E fico-me por aqui que a reportagem vai longa e a noite avançada.

Mas depois de ler o que a Patrícia Reis escreveu sobre aquilo por que um escritor passa nestes dias de Feira, fiquei na dúvida se esta minha atitude de passar, de não querer maçá-los, o meu receio de fazer figurinhas deprimentes, será a melhor atitude. Acho que vou reconsiderar. 

***

Caso sejam uns resistentes e ainda não estejam fartinhos de ler o que escrevo, muito gostaria ainda de vos ter lá pelo meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras vão até a um jardim muito especial e vão guiadas pela poesia de Armando Silva Carvalho, num livro que comprei, justamente, na Feira. A música é especial. Foi um desafio que um Leitor, a quem muito agradeço, me lançou. Levei algum tempo a ganhar coragem: trata-se da música do compositor Luciano Berio. Não é a minha praia como se costuma dizer mas, ainda assim, abre portas pelas quais não costumo passar.

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E, por hoje, já é até demais, não é...? Por isso, calo-me já mas não sem antes vos desejar uma bela semana a começar já por esta segunda feira.

sábado, junho 01, 2013

No Cinco para a Meia Noite, com José Pedro Vasconcelos, a maravilhosa voz de Jeremy Irons ao serviço de palavras que me sabem bem ouvir. A indignação sem fronteiras contra este nefasto capitalismo desregulado e sem rosto talvez um dia consiga reverter a desgraça em que nos atolamos cada vez mais. Pelo menos, assim o desejo.





E, já agora, pela lucidez desapaixonada, pela acutilância fundamentada, não deixem de ler as palavras de Pacheco Pereira no seu último post no Abrupto.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo!


Depois da Miss Prada na AR a falar de dissolução e de revolução e do Pedro Lomba a lançar o Miranda Calha para as autárquicas, uma coisa com interesse neste dia de verão: Sauvage. Belos, sensuais, hot, hot, tempo quente, praias, piscinas, um fotógrafo que dá gosto (Mario Sorrenti de seu nome) - é o 'making of' da Vogue de verão. Para adultos, dizem eles. Toda a nudez será perdoada, digo eu.


Para temas divertidos, como os da Miss Prada na Assembleia a usar palavras curiosas e como aquela 'cena' do inteligente Pedro Lomba no seio dos socialistas a lançar um autarca (por engano, diz ele), é seguir para os dois post abaixo.


Agora, aqui, e enquanto o youtube não vedar esta versão do filminho a menores de 18 (há algumas que já requerem a data de nascimento), aqui vos deixo o behind the scenes do sessão fotográfica do Mario Sorrenti com Andreea Diaconu e Anja Rubik nas praias de St Barths. Sauvage (chama-se a série). 

Uma inspiração. Pelo menos para mim, é.



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A Miss Prada está no post a seguir e o Lombinha debaixo dela.

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Como é Dia da Criança, quer no Ginjal quer nas Historinhas da Tá temos A Menina do Mar da Sophia, em versões diferentes.

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E é isto. Desejo-vos um bom Dia da Criança. 
Que sejam crianças toda a vida para serem capazes de ver a vida com olhos inocentes e cheios de esperança - é o que vos desejo, meus Caros Leitores.


Assunção Esteves, a Miss Prada da Assembleia da República, diz que as pessoas "não podem dissolver o funcionamento das instituições. Se não for assim, já não estamos na ordem democrática, estamos na revolução». E se a temível Miss Prada, a reformada Presidente da AR, o diz... Mas, pergunto eu: Dissolver...? Revolução...? Que ideias vão naquela cabecinha diabólica?


Sobre o P. Lomba (P de Patinho, claro) e o seu surpreendente apoio ao Miranda Calha para as autárquicas falo no post abaixo. Ai Patinho, Patinho que os teus enganos ainda te pregam alguma parida a sério...

Mas isso é no post a seguir. Agora, aqui, a conversa é outra.



Assunção Esteves, a Miss Prada do Parlamento,
vista pelo implacável autor do blogue We have Kaos in the Garden


Aqui há dias li que, na Assembleia da República, tratam Assunção Esteves por Miss Prada tal a forma como trata colaboradores e colegas: que é irascível, temível, intolerante, que atira as culpas para cima dos outros, que tem assessores a vigiar o que dizem dela na wikipedia só para não revelarem aspectos que não lhe agradam muito (como, por exemplo, que optou pela reforma em vez de optar pelo ordenado atribuído à função, que se reformou aos 42 anos, etc) e, em contrapartida, para lá escrever que foi boa aluna no liceu e outras irrelevâncias para quem lê mas que ao ego dela devem fazer bem.

E que, portanto, tem o culto da imagem, nomeadamente o da imagem física, que o penteado informal é cuidadosamente preparado, que se pela por grandes marcas e tal e coisa.

Mas, enfim, que é inteligente e tem uma conversa interessante; senão diriam que é a típica loura burra, de tal forma é birrenta e insuportável. E que não há colaborador que páre junte dela, afastam-se todos como se fugissem do diabo. E que até há quem tenha que emborcar uns calmantes para conseguir aguentá-la.

Enfim.

Mas não era isso que eu aqui ia falar.

A piada está nas palavras que referi em epígrafe e que usou quando nas galerias as pessoas fizeram barulho: devia estar a pensar que isto está mesmo a pedir é que dissolvam a AR e saíu-se com aquela. E devia estar a pensar que tomara que fizessem uma revolução para se ver livre deste desqualificado governo e saíu-se também com aquela. Lapsus liguae incómodos.

O diabo veste Prada, é coisa sabida.




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Se querem seguir para bingo, é descer até ao post seguinte.

Pedro Lomba vai ao lançamento de Miranda Calha, do PS, para as autárquicas... e só depois o percebe, faz beicinho e diz que foi por engano, fiu, fiu. Eu não disse que o rapaz Lomba é um erro de casting? De casting... e de tudo. Pode ter jeito para escrever mas daí até ter um mínimo de aptidões para ser governante vai um passo de gigante. Se se engana em coisas tão elementares, como será 'isto' a governar...? Oh valham-me todos os santinhos....


Eu já só me lembro que o coisinho Lomba (eu sei, eu sei... escusam os amigos de me vir dizer que ele é inteligente) é adjunto do adjunto maduro. Por isso não sei bem o que é suposto ele fazer. Se o que for, meter lidar com autarquias e outros locais onde imperam macacos de rabo pelado, imagino as praxadelas de que o coisinho Lomba vai ser alvo.



O patinho Lomba, cuá-cuá, foi a uma 'cena' do PS e agora vem dizer que foi ao engano
Todos os patinhos sabem bem nadar, cabeça para baixo, rabinho para o ar

Iria assim, de cabeça para baixo e rabinho para o ar... ?
Como é que não viu que estava a ir a um encontro do PS?
Ó menino pedrinho,
 veja se passa a estar com mais atenção para perceber os sítios onde vai...
Um dia destes ainda é apanhado no cabaret da coxa de calças na mão
e depois vem dizer que não é o que parece, que foi ao engano
Ui ui



Então vai a um encontro para lançar o Miranda Calha para as autárquicas e só depois é que percebe onde está...? Ai... que até me dói.