Neste grande escândalo Epstein muitas coisas me intrigam. Já falei nisto várias vezes antes. Tudo para mim é um mistério. É tudo tão improvável, tão inacreditável... Mais: muitas coisas quase me parecem materialmente inconcretizáveis. Custa crer que um só homem conseguisse ter relações sexuais com tantas mulheres (mais de mil), que tivesse tempo para isso e para milhares e milhares de mails e para viagens e mais viagens, várias de longo curso, para tantas farras e orgias, para tantas sessões de brainstorming com físicos e com biólogos, para reuniões com universidades para seleccionar projectos a financiar, para idas a galerias de arte e para escolher objectos decorativos atípicos... e sei lá que mais. E, nas fotografias, sempre como se tivesse tempo, com calma, com espaço para desfrutar das companhias, das brincadeiras, das velhacarias.
E depois há o cerne: qual o eixo central de toda esta história? A pedofilia e a proxenetismo, envolvendo crianças? A obtenção de material comprometedor para sacar dinheiro aos prevaricadores? Ou o material comprometedor destinava-se a ser cedido ou vendido a agências de informação como a Mossad ou a CIA ou o MI6 ou as derivadas do ex-KGB? Ou, para além disto, ainda mais qualquer outra coisa?
A máquina Epstein movia-se pelo prazer? Pelo dinheiro? Pelo poder? Por outra coisa?
Tenho lido coisas sinistras que envolvem a gravidez de muitas miúdas, o sacrifício de bebés para diferentes fins, manipulação de DNA, e muitas outras loucuras, cada uma mais desvairada que as anteriores, que, como sempre, mantenho na minha cabeça em stand by até que apareçam referidas por congressistas ou por jornalistas de referência.
Mas, isto para dizer que a leitura ad hoc, avulsa, analisada casuística e não sistemicamente, dificilmente conduzirá a conclusões sólidas.
Vi um vídeo em que um especialista em Data Analytics explicava como estava a desencantar fotografias e vídeos que se encontram encapsuladas em ficheiros pdf, como estão a tentar indexar e sistematizar a informação ou a tentar cruzar informação rasurada com a não rasurada para tentar detectar pontas soltas. Isto porque é tanto mail, tanto documento avulso, tanto power point, tanto documento encafuado dentro de outros documentos, e quase todos cheios de rasuras, que não é fácil identificar o fio da meada nem se é suposto que as coisas se organizem segundo uma lógica única (a da pedofilia, por exemplo), ou se faz sentido que, em simultâneo, multidimensionalmente, se organizem segundo lógicas diversas. E, note-se, aparentemente o que está publicado, e altamente rasurado, é uma pequena parte de todo o material que há.
Eu, se tivesse meios e tempo, não apenas faria aquilo que o especialista em Data Analýtics fez, como, de seguida, aplicaria aos datos devidamente limpos e sistematizados, a teoria dos grafos. Tenho para mim que será com um modelo que assente na teoria dos grafos que se conseguirá mapear todas aquelas conexões, perceber caminhos equivalentes, pontos de relevância, nós górdios e qual o (ou os) caminho/s crítico/s que movia/m esta pessoa (ou este esquema)?
Seria um bom tema para as universidades estudarem sob diversas perspectivas (a matemática com tratamento de dados e modelagem, a antropologia e a sociologia, a psicologia, as finanças -- porque afinal, que cash flow era aquele, de onde vinha e para onde ia o dinheiro? -- o direito e a investigação criminal, etc).
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Uma coisa que custa a encaixar em qualquer das partições que façamos para dar lógica a esta história: o que, por exemplo, levava Chomsky ou Stephen Hawking ou tantos outros a frequentar e fazer de tudo para agradar a Epstein?
Entretanto, li um artigo interessante da autoria de Emma Brookes no The Guardian. How did Epstein ensnare so many rich men? By knowing they were entitled and insecure. Como conseguiu Epstein enganar tantos homens ricos? Sabendo que eram privilegiados e inseguros.
Uma das coisas que tem intrigado frequentemente, à medida que os desenvolvimentos da história de Epstein continuam, é a forma como um jovem que abandonou a faculdade e achava cool cometer gralhas conseguiu persuadir os mais poderosos do mundo a entrar no seu covil. Qual era, precisamente, a natureza do seu "génio"? Era chantagem? Era o esquema de pirâmide social de usar um nome importante para atrair outro? Nada chegou perto de o explicar até que, com a mais recente leva de pormenores dos arquivos de Epstein, algo se tornou subitamente claro: não eram as raparigas e mulheres traficadas que Jeffrey Epstein aliciava. O verdadeiro talento do homem, se assim lhe podemos chamar, estava em aliciar o seu grupo de associados.
Isto não significa, naturalmente, que os homens e a ocasional mulher que se aliaram a um homem a quem nos devemos referir, com toda a seriedade, como "o pedófilo morto" não fossem culpados. No entanto, ao analisar a enorme quantidade de material relacionado com Epstein, desde a investigação profunda do New York Times sobre as suas finanças até ao vasto acervo de correspondência contido nos arquivos, emerge a imagem de um homem que causou danos aos seus pares de uma forma que normalmente se vê dirigida às vítimas. Embora múltiplos testemunhos de sobreviventes indiquem que Epstein considerava as raparigas e mulheres que traficava como de tão pouca importância que nem sequer tinha de se dar ao trabalho de as aliciar – segundo o relato de Virginia Giuffre, Epstein violou-a no primeiro encontro –, todos os seus recursos, através de diversas tácticas, foram direccionados para conquistar a lealdade de homens poderosos.
Analisemos Andrew Mountbatten-Windsor, que, após a sua detenção na semana passada, viu o seu público relaxar subitamente, deixando de se inibir em descrever o homem como ele realmente é. Talvez tenha visto o vídeo de 2022, agora amplamente divulgado, no qual o ex-oficial de segurança de Mountbatten-Windsor disse a um canal de notícias australiano que a alcunha que davam ao seu chefe real era "o filho da puta". Com um pouco mais de civilidade, o deputado trabalhista Chris Bryant chamou na terça-feira a Mountbatten-Windsor "rude, arrogante e prepotente", observações que podem ser úteis para explicar como Epstein conseguiu tamanha lealdade do oitavo na linha de sucessão ao trono. Em Mountbatten-Windsor, vemos um homem vaidoso, fraco e prepotente, a viver na sombra do irmão, e que Epstein pode ter atraído para uma amizade através de uma combinação de lisonja e demonstração de poder.
Crucial para esta abordagem é o facto de, a julgar pelos e-mails de Epstein, ele nunca ter sido subserviente, pelo menos não com Mountbatten-Windsor. O seu tom em relação ao ex-príncipe e à sua ex-mulher, Sarah Ferguson, muitas vezes roça a grosseria, dando-lhes ordens e impondo-lhes comandos numa espécie de paródia de um empresário ambicioso e dinâmico que está ali para oferecer ao casal uma hipótese de algo que nunca tiveram em toda a vida: relevância real e central. "Sarah, podes [sic] pedir a uma das tuas filhas para mostrar [censurado] Buckingham, por favor?", escreveu Epstein num e-mail de 2010 — dois anos após a sua primeira pena de prisão — no qual parece estar a pedir à antiga duquesa de York que mostre o Palácio de Buckingham a alguém. (A “Sarah” do e-mail respondeu no mesmo dia: “Claro”.)
Os professores do MIT provavelmente preocupam-se menos com a relevância do que dois ex-membros da realeza decadentes, mas podem, por outro lado, sentir inseguranças persistentes sobre o seu estatuto em relação às mulheres. Veja-se o caso de Marvin Minsky, o falecido professor do MIT que, segundo o livro de memórias de Giuffre, foi levado para a ilha de Epstein para ser vítima de tráfico sexual. Neste caso, o poder que Epstein exercia sobre homens como Minsky pode estar menos relacionado com o sexo do que com a auto-imagem. No livro de Giuffre, esta alega que, depois de um dia a andar de mota de água e a fazer atividades turísticas comuns, Minsky teve a ousadia de lhe pedir aquilo que Epstein anunciara como “uma das suas famosas massagens”. É uma passagem terrível, sobretudo porque, a acreditar no relato de Giuffre, Minsky está claramente muito constrangido com o que está a fazer. Dizem que Epstein ofereceu a este homem a oportunidade de viver uma versão fantasiosa de si mesmo que – pesquisem sobre ele no Google – está completamente fora da realidade, e, meu Deus, ele agarrou a oportunidade.
Foi aí que o falecido criminoso sexual se destacou: em extrair influência e proteção de pessoas poderosas, identificando e explorando as suas fraquezas. Como tal, compreendia algo melhor do que ninguém: que, por mais diferentes que fossem nos seus pormenores, estes homens, todos senhores do universo, ainda sentiam fundamentalmente que a vida os tinha prejudicado; que tinham direito a mais do que possuíam. Epstein podia ajudá-los com isso e, a julgar por como e com que risco continuavam a agradar-lhe, amavam-no por isso.
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2 comentários:
Vítimas?! Pedófilos abusadores, provavelmente chantageados por Epstein que ficaria com registos desses crimes sobre menores e pessoas em cativeiro? É suposto termos pena do pobre professor do MIT porque abusou mas foi timidamente?
Neste assunto não sei de nada. Estou muito curiosa, isso sim. E é tudo tão insólito e inexplicável que não será à luz dos meus conhecimentos anteriores que vou conseguir perceber tudo isto. Além disso, repare, entre o branco e o negro há mil tons de cinzento. A culpa que carregam, se é que a carregam, a vergonha, se a sentem, o arrependimento sem remissão, se o sentem, é peso que os punirá até ao resto dos seus dias. Por isso, não serão vítimas no sentido em que o foram as crianças e as mulheres abusadas e traficadas (algumas talvez assassinadas), mas, se vão viver com uma nódoa que alastrará na sua consciência, isso talvez faça deles, de certa forma, também vítimas de Epstein.
Esta é a hipótese da autora do artigo do Guardian. E acho que, a ter alguma veracidade, talvez ajude a explicar algumas coisas.
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