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quinta-feira, agosto 16, 2018

Os uritrottoirs que estão a fazer estalar a polémica em Paris.
E Avital e Nimrod, o gay e a queer que não se entenderam com as suas comunicações exuberantes e exageradas


Pois muito bem, sim senhores. Agora que já jantei um caldinho de se lhe tirar o chapéu e que já relatei a minha ida à praia, relato esse devidamente ornamentado com os cromos possíveis, passo para as notícias que se destacam na actualidade estivalense. Claro está que vou fazer descer o oblívio sobre temas mais sérios ou pungentes. Por exemplo, recuso-me a falar sobre a queda da ponte de Génova. Não apenas não percebo patavina de engenharia civil como presumo que possa lá ter passado não há muito tempo e, sobretudo, é das cidades que mais me impressionou quando a conheci.

Estamos a meio de Agosto, estou a precisar de férias e a minha vida agitou-se numa altura em que seria suposto navegar em águas paradas. Portanto, cansada, encalorada e levemente saturada, a minha capacidade para abarcar temas mais complexos anda na vizinhança da linha de água.

Deve, pois, ser por isso que, de entre tudo o que se passa pelo mundo, Portugal incluído, só duas notícias chamaram a minha atenção.

1ª - Uritrottoirs


Primeiro, a cena que inventaram para ver se as ruas de Paris deixam de ser um mictório a céu aberto. Talvez a moda pegue e venha a ser adoptada também por cá. Se até há algum tempo era raro ver-se algum homem a urinar em público e apenas víamos homens que, aflitos, procuravam um canto -- admitindo nós (eu, pelo menos, admitia) que fosse alguém com algum problema na próstata -- agora, volta e meia, vejo um qualquer descarado, na maior descontracção, a urinar num lugar que não lembra ao diabo, indiferente a quem passa. 

Mas volto à cidade luz. Não sei se por haver poucas casas de banho públicas ou porque grande parte de quem anda em Paris é gente a passeio e, portanto, que passa parte do dia na rua, a verdade é que Paris enfrenta o problema da falta de higiene, de falta de decoro, de falta de civismo. Pois bem. A ideia é daquelas em que, notoriamente, se não os vences, junta-te a eles. Inventaram urinóis no meio da rua. Têm um desenho moderno, têm flores em cima e, no interior, têm palha que, pelos vistos, absorve o pivete. A palha ensopada é misturada na terra que, assim enriquecida, fica adubada. Só ecologia. Mas também tecnologia: os urinóis estão sensorizados de modo a que, quando estão cheios, é enviado um alerta para que venham esvaziá-los.

Aparentemente uma ideia razoável. No entanto, a polémica estalou e, vendo bem, com montes de razão. Em primeiro lugar: só os homens é que são mijões? Então e solução para as mulheres? Em segundo: e quem garante que isto não é chamariz para exibicionistas?

Defendem-se os autores da ideia: o problema que sempre existiu era com homens, não é costume verem-se mulheres, acocoradas pelos cantos, a fazerem xixi. Sabido é que as mulheres são mais reservadas, preferem aliviar a consciência, a bexiga e tudo o mais com alguma privacidade. Dizem ainda que pode não ser uma ideia à prova de defeito mas que mais vale assim do que paredes e passeios sujos e mal cheirosos.

E eu, sobre isto, o que tenho a dizer é que me parece um despropósito. Ao menos que tivesse umas palas de lado porque ninguém tem que dar de caras com uma cena destas, um mijão em pleno acto. Mas, se isto ajuda os homens que não conseguem conter-se, então, olhem, paciência, que seja.

2ª Avital Ronell e Nimrod Reitman numa versão estapafúrdia do #MeToo


Aqui a coisa é toda ela amalucada ou, pelo menos, assim me parece. Transcrevo excertos do DN.

Avital Ronell é uma conhecida professora universitária, filósofa e feminista. Ensina Literatura Alemã Comparada e foi numa pós-graduação que teve como aluno Nimrod Reitman, o estudante que a acusou de assédio sexual. A Universidade de Nova Iorque (UNI) investigou e, ao fim de 11 meses, concluiu que ele tinha razão e suspendeu a docente.

Reitman, que tem agora 34 anos e é professor visitante em Harvard, diz que Ronell o assediou durante três anos, facto que o levou a apresentar queixa dois anos depois de se doutorar. Acrescenta que a docente o beijou e tocou repetidamente, dormiu na cama dele, exigiu que ele se deitasse na cama dela, mandou-lhe mensagens, e-mails e que lhe ligava insistentemente recusando-se a trabalhar com ele se as suas atenções não fossem retribuídas.

Ronell, de 66 anos, nega qualquer tipo de assédio. "As nossas comunicações, que Reitman agora diz terem sido assédio sexual, foram entre dois adultos, um homem gay e uma mulher queer, que partilham a origem israelita, assim como a inclinação para comunicações exuberantes e exageradas decorrentes de experiências e sensibilidades académicas comuns", respondeu ao NYT. Sublinha que as comunicações "foram correspondidas e incentivadas por ele ao longo de três anos". Etc, etc, etc (...)

Ou aqui, no Expresso:

É a hora do nosso beijo do meio-dia. 
A minha imagem durante a meditação: estamos no sofá, a tua cabeça no meu colo, a acariciar a tua testa, brincando suavemente como teu cabelo, acalmando-te, dor de cabeça acaba. Sim?". Se esta mensagem fosse enviada por um professor universitário a uma sua estudante 30 anos mais nova, muita gente não hesitaria em dizer que era um comportamento impróprio. Para mais se o professor tratasse a aluna com termos equivalentes aos que uma distinta professora na NYU, em Nova Iorque, dirigiu a um seu estudante: "Bebé fofinho", "meu adorado", "anjo bebé amor", um arriscado "gostava de te poder raptar" e um atrevido "cock-er spaniel" (um trocadilho que mistura uma alusão ao pénis, 'cock', com uma raça de cão"). (...)

A polémica desencadeada pelas feministas em defesa da bizarra Avistal não se fez esperar, com Nemrod a perguntar se o assédio só é para levar a sério se for ao contrário.

E eu, face a isto, o que me ocorre é que este caso deve dar um filme e dos cómicos. Só de imaginar as cenas em que a a Avital perseguiu o Nimrod, o beijou, se enfiou na cama dele e exigiu que ele se enfiasse na cama dela, tudo no maior forrobodó, tudo em exuberante... já me dá vontade de rir. Deve ter sido de gritos. E o facto de ela se vir justificar, dizendo que o que se passou foi o normal entre um gay e uma queer, parece-me ainda mais delicioso. Podia ter-lhes dado para pior, é o que eu tenho a dizer. E isto para não ficar calada.

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