quinta-feira, março 05, 2026

Ah... aqueles que sabem sempre tudo...

 

No outro dia, um comentário -- que muito agradeço -- dizia: "E a proposito de desgraças e malvadez ou percepção delas, em linha com o comentário que deixei há uns minutos.." e deixava o link para o vídeo que aqui partilho.

Ao ouvir, lembrei-me também, de 'O escândalo do século'. Para quem não leu,  o conto, que não é bem um conto pois assenta numa situação real que Gabriel García Márquez relatou do princípio ao fim, quando ainda era “apenas” jornalista — mas já com o olhar agudo que viria a marcar toda a sua obra.

Tudo começa com a morte de uma jovem encontrada numa praia. Quase de imediato, a comunidade, a imprensa e a opinião pública começam a tecer teorias: suspeita-se do namorado, inventam-se motivos, surgem ligações a interesses obscuros, fala-se de política, de drogas, de conspirações. Em poucos dias, o caso deixa de ser uma tragédia pessoal para se tornar um escândalo nacional — com versões cada vez mais elaboradas, cada vez mais seguras de si mesmas, mas cada vez mais afastadas dos factos.

A investigação prolonga-se, desmontando lentamente as certezas precipitadas. O que se descobre, no fim, é muito mais simples — e muito menos sensacional — do que aquilo que todos tinham decidido acreditar. A morte não correspondia a nenhuma das histórias que tinham sido repetidas com tanta convicção.

O conto mostra como, antes mesmo de qualquer tribunal, já todos tinham julgado, condenado e explicado o caso. E expõe a facilidade com que a reputação de uma pessoa — viva ou morta — pode ser destruída pela soma de boatos, preconceitos e pela necessidade colectiva de encontrar culpados.

Mais do que um mistério, é uma reflexão sobre a sede de punição e sobre a ilusão de certeza que tantas vezes domina a opinião pública — como se a verdade pudesse ser substituída por versões repetidas com suficiente convicção.

O protagonista do vídeo que partilho é sobejamente conhecido e a história é recente. De qualquer forma relembro-a. 

Em 2017, o ator Kevin Spacey passou de um dos nomes mais respeitados de Hollywood a uma figura praticamente banida da indústria. Surgiram várias acusações de assédio e agressão sexual feitas por diferentes homens, muitas delas relativas a factos que alegadamente teriam ocorrido décadas antes, num contexto marcado pela vaga de denúncias associada ao movimento #MeToo.

Um dos casos mais mediáticos foi o do ator Anthony Rapp, que afirmou que Spacey o teria abordado de forma sexual em 1986, quando ele tinha 14 anos. O caso deu origem a um processo civil nos Estados Unidos. No Reino Unido, também surgiram várias acusações relacionadas com alegados incidentes entre 2001 e 2013, período em que Spacey dirigia o teatro Old Vic, em Londres.

Antes mesmo de qualquer decisão judicial, a reação pública e mediática foi imediata e avassaladora. Kevin Spacey foi afastado da série “House of Cards”, cortado de projetos em curso e substituído no filme “All the Money in the World”. Na prática, foi julgado e condenado na praça pública muito antes de qualquer tribunal se pronunciar. Durante anos, para grande parte da opinião pública, a culpa parecia já estar decidida.

Contudo, quando os casos chegaram efetivamente aos tribunais, os resultados foram diferentes. Em 2022, um júri em Nova Iorque decidiu que Kevin Spacey não era responsável pelas alegações apresentadas por Anthony Rapp. Em 2023, num tribunal de Londres, foi considerado inocente das nove acusações de agressão sexual que enfrentava.

Independentemente das opiniões pessoais sobre o ator, o caso suscitou uma questão importante sobre o poder da comunicação social e da opinião pública: até que ponto alguém pode ser social e profissionalmente condenado antes de existir um julgamento e uma decisão da justiça?

A presunção de inocência — o princípio de que, em caso de dúvida, não se deve condenar um inocente — é um dos pilares do Estado de direito. O caso de Kevin Spacey recorda como esse princípio pode tornar-se frágil quando o julgamento passa primeiro pela praça pública.

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O vídeo tem uma leitura interessante e um twist inesperado no final. Por isso, sugiro que o vejam na íntegra. 

De novo, relembro que, na rodinha dentada do vídeo, em baixo, podem escolher que tenha legendas e, depois, no auto-translate, seleccionar a língua portuguesa

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Vencedor por duas vezes de um Oscar, Kevin Spacey discursa na Oxford Union

Segundo se lê na apresentação da Oxford Union, trata-se da sociedade de debates mais prestigiada do mundo, com uma reputação inigualável por trazer convidados e oradores internacionais a Oxford. Desde 1823 que a Union promove o debate e a discussão não só na Universidade de Oxford, mas em todo o mundo.


Desejo-vos uma happy friday
[Quando trabalhava, o meu colega britânico, chegava ao fim da semana e, todo feliz da vida, ia espreitar ao meu gabinete para se despedir: TGIF! (thank god it´s friday)]

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