terça-feira, abril 14, 2026

Um medicamento extraordinário contra o cancro que é tão caro que ou o SNS se afunda ou milhares de pessoas ficam sem tratamento...? É isto....?

 

Desde que comecei a votar que o meu sentido é o mesmo. Identifico-me com as sociais democracias, em especial com as do norte da Europa, estáveis, tranquilas, assentes no bem de toda a população, no desenvolvimento, na felicidade.

Nunca me identifiquei com o comunismo nem nunca me identifiquei com as chamadas doutrinas sociais da igreja, conservadoras e reaccionárias, muito menos com os movimentos de direita e, mais recentemente, com os populismos.

Nunca diabolizei a iniciativa privada nem nunca defendi que, mesmo em alguns serviços que entendo que devem ser disponibilizados gratuitamente à população, a gestão tem forçosamente que ser desempenhada pela Administração Pública.

Trabalhei para empresas do Estado, nacionalizadas, trabalhei para empresas estatais mas geridas como se fossem privadas e trabalhei para empresas privadas. Conheço bem as regras de umas e outras. Como sou avessa a generalizações não vou catalogar umas e outras quanto à qualidade da gestão. 

Tenho para mim que a saúde, a educação, a segurança pública, por exemplo devem ser públicas, de acesso universal. Mas, no caso da Saúde, em que se movimentam muitos milhões e em que a componente da gestão é fulcral, não tenho dúvidas em dizer que os problemas são de gestão, que quem gere a maioria das unidades não faz ideia do que está a fazer e que a incompetência começa na ministra. Não digo que a gestão da Saúde deve ser privada mas afirmo, sem margem para dúvida, que deve ser gerida com a mentalidade de um gestor profissional. Ao contrário do que muito ignorante pensa, a gestão privada não visa apenas o lucro. O lucro em si tem perna curta. Tem que haver qualidade, apreço por parte de todos os que se movimentam dentro e em redor (o que, em linguagem de gestão, se designa por stakeholders). Se houver apreço por parte de todos, cria-se a fidelização, desenvolve-se a motivação, estimula-se a criatividade que é o motor para se encontrarem boas soluções. O lucro será a consequência de tudo o resto, perifericamente, funcionar bem.

Sei bem o que eu faria e sei que, se eu pudesse pôr em práticas as medidas que vejo como críticas e prioritárias, em três ou quatro anos, o SNS estaria disponível a muito mais gente, em muito mais valências, com índices de qualidade muito acima dos actuais, com filas de espera mínimas, com tempos de atendimento decentes, e com um gasto geral no mínimo inferior em 10 a 20% ao actual. Se fosse o caso, isto é, se eu fosse convidada para isso e aceitasse -- o que obviamente duplamente não acontecerá -- eu própria definiria estes objectivos e eu própria definiria que, se não os atingisse, seria liminarmente despedida.

Estou certa que, tal como eu, se o mesmo desígnio fosse proposto a qualquer outro profissional experiente e competente e tivesse a cobertura de um pacto de regime que permitisse actuar a sério, se revolucionaria verdadeiramente a forma como hoje se trabalha. E quando falo em revolucionar, garanto que revolução seria a palavra certa. Poderes e poderzinhos, compras descentralizadas, negociações descentralizadas, corporativismos de toda a espécie, centralizações absurdas sem qualquer benefício -- tudo isso acabaria. E acabaria num abrir e fechar de olhos. Nestas coisas não sou adepta de ir devagarinho, sou mais na base do one time shot. Como sei o que faço não haveria risco de me atirar para fora de pé pois sei que sei nadar.

Dito isto, e continuando no domínio da Saúde, falo agora de uma notícia que verdadeiramente me perturbou e que me fez questionar se não deveríamos, enquanto sociedade, repensar algumas abordagens, deixarmos de ser tão passivos ou tão individualistas como somos.

A notícia diz o seguinte: "Merck transformou medicamento contra o cancro num êxito de vendas, mas é tão caro que poucos o podem pagar"

Pensei: o capitalismo no seu máximo expoente. Mesmo quando está em causa a vida de tantas pessoas, prevalece o endeusamento do lucro de algumas empresas. Eu bem sei que o valor das patentes financia a investigação e etc e tal. Mas quando se trata de produtos vitais à sobrevivência ou à qualidade e dignidade da vida humana, há que equacionar prioridades e abordagens. Que sentido faz, vender uma embalagem por milhares de euros quando há tantas pessoas que beneficiariam brutalmente desse medicamento? E como pode o SNS providenciar esse tratamento quando o valor é insustentável?

Fui informar-me: enquanto em Portugal os preços altos são mantidos por longos períodos devido à proteção de patente na UE, na China, o Estado exerce um controlo mais direto sobre o preço final e incentiva a produção de alternativas locais mais baratas (ou superiores) para substituir o medicamento de marca, limitando a margem de lucro dos originais.

E nos países nórdicos? Informei-me. Ao contrário de Portugal, que negoceia individualmente através do Infarmed, os países nórdicos uniram forças para aumentar o seu poder de mercado. Dinamarca, Noruega e Islândia realizam concursos públicos conjuntos para medicamentos hospitalares, forçando as farmacêuticas a oferecer descontos maiores para garantir o mercado de três países de uma só vez.

Claro que me parece que a abordagem chinesa é a que melhor defende os interesses da população e não tenho dúvidas que é o caminho certo. Mas a China tem uma dimensão que permite uma força que não está ao alcance de todos. Além disso estão formatados (e bem) para o pensamento estratégico e para a persistência. Estamos, infelizmente, um bocado longe disso. (Não vou aqui falar da liberdade de expressão, dos direitos humanos, etc. -- isso são outras vertentes que não são objecto do que aqui estou a escrever)

A Europa deveria agir desta forma, ser como a China, juntar os países nas grandes negociações. Se o fez para as vacinas Covid, deveria fazê-lo para todos os medicamentos inovadores e de grande interesse público. Esse é o caminho. Mas, enquanto isso ainda não é possível, Portugal deveria juntar-se pelo menos com Espanha e, desejavelmente, com mais uns quantos países e enveredar por esta via. Não apenas se poupariam largos milhões ao erário público como se traria maior esperança de vida a milhares de pessoas.

E quem diz isto, diz agir desta mesma forma a muitos outros níveis. 

Não podemos é continuar a pensar pequeninamente, a desbaratar milhões e milhões e a não conseguir entregar os cuidados e os serviços de que a população necessita. 

Não sou contra o capitalismo (quando é regulado e decente), sou é contra a falta de visão, a falta de ambição e de energia, a falta de definição de prioridades.


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