Não foram só as casas americanas que, na outra noite, ficaram em suspenso a assistir à evolução dos resultados das eleições intercalares. Creio que, um pouco por todo o mundo, se quis saber para que lado iria pender a balança. Seriam os americanos tão estúpidos a ponto de não darem um valente chega para lá a Trump e ao seu exército de acéfalos do boné encarnado ou poderia voltar a haver esperança de que o mundo voltasse a respirar ares mais sãos?
E, na realidade, aconteceu. Aos poucos toda a gente normal foi sentindo que uma gigante onda azul se estava a formar. O Congresso e o Senado saíram das mãos cobardes dos que se auto-silenciaram a mando do velhaco corrupto e vão passar a estar nas mãos de gente mais civilizada, mais decente. Talvez os oligarcas passem a ter a vida menos facilitada, talvez as inteligências artificiais deixem de andar tão à solta, talvez Putin volte a sentir que não tem completamente os Estados Unidos no bolso, talvez o porco Netanyahu deixe de ter total poder sobre a classe política e militar americana, talvez os mais pobres voltem a ter quem se preocupe com eles, talvez os imigrantes deixem de ser perseguidos como se tivessem lepra, talvez volte a haver apoio à investigação científica, talvez volte a haver alguma racionalidade nas políticas públicas de Saúde e da Educação, etc, etc. Mas vamos com calma... Tudo está infecto demais para que se possa resolver rápida e facilmente. Além disso, Trump ainda tem pela frente cerca de dois meses em que estará à tripa forra, livre para tentar sacar o máximo que puder.
Entretanto, como é normal com animais deste tipo, a rataria começa a abandonar o navio, não sem antes se cusarem uns aos outros do final humilhante de toda a fantochada a que assistimos nos últimos tempos.
Não me iludo acreditando que a fada dos dentinhos, o coelhinho da Páscoa e o Pai Natal chegaram ao mesmo tempo, na mesma noite (como, de forma tão engraçada, Scaramucci refere aqui abaixo, no vídeo), mas, forçosamente, muita da mais absurda e surreal estupidificação colectiva vai ser refreada.
Trup já começou a reagir e acredito que vamos assistir a demonstrações descabeladas e aberrantes. Mas, a partir do ano que vem, talvez a sua energia destruidora comece a esvair-se. Trump vive de ocupar espaço, de se sentir no centro das atenções e de usar o poder a seu favor, sem medir consequências para os outros, mesmo que os outros seja uma grande parte do mundo. Quando começar a sentir-se cercado e, na prática, bastante apeado, talvez a pica que o tem mantido à tona apesar da crescente demência comece a apagar-se. Veremos.
Contudo, se por aí talvez os tempos se tornem mais salubres, já não sei se a outros níveis poderemos voltar a ter algum sossego.
Aquilo que eu sempre temi e a que aqui me referia por indirectas palavras, sempre com receio que alguém, algum dia, pudesse dizer que há coisas que não deveriam ser explicitadas em público, está a acontecer.
No outro dia foram dezenas de supermercados com as redes de refrigeração hackeadas, comida estragada, um pesadelo. Agora voltaram a atacar os frigoríficos do Intermarché. E, talvez ainda pior, os frigoríficos dos bancos de sangue.
Tenho quase a certeza que grande parte das pessoas não está ao corrente do risco brutal que pode vir das intrusões nas redes a que estão ligadas 'coisas' e não apenas computadores normais. A chamada internet das coisas é uma realidade fabulosa que tem contribuído para que a globalização seja uma realidade, para que a eficência seja garantida e para que as pessoas possam trabalhar a partir de casa, da praia, de um escritório do outro lado do mundo, podendo controlar à distância se as máquinas (seja do que for) estão a funcionar bem, se as válvulas ou disjuntores de equipamentos (seja de elevadores, seja de compressores, seja de controladores, seja de torres de refrigeração, seja de radares, seja do que for) estão a abrir e fechar quando é suposto, se as temperaturas ou as pressões estão dentro dos parâmetros normais, etc. E podem fazê-lo para garantir o seu bom funcionamento, controlando ou reparando remotamente,... ou, entrando ilegalmente nas redes e nos sistemas, podem fazê-lo para causar danos materiais, actos terroristas, o que for.
E isto acontece porque não há redes ou sistemas invioláveis. Não há. Ponto. Mesmo as organizações mais sofisticadas deixam sempre algum ponto de vulnerabilidade ao alcance de quem faz vida de descobrir como entrar onde não deve.
Mas, sobretudo, muitas empresas/hospitais/organizações em geral ainda não perceberam que tão importante como ter os sistemas mais sofisticados do mundo é tê-los bem protegidos. Já o disse e vou voltar a dizer: se os informáticos, nas grandes organizações, já estão razoavelmente sensibilizados para os riscos, já o mesmo não se pode dizer da gente do chamado shop floor, da malta das engenharias, dos técnicos de produção ou manutenção. Para muitos desses não lhes passa pela cabeça que os piratas informáticos (muitos a mando de países com intuitos de prejudicar economicamente a concorrência ou de minar a confiança dos consumidores ou de grupos terroristas ou de de espionagem que quer roubar tecnologia ou informações sensíveis) lhes entram facilmente 'em casa' porque muitas dessas coisas foram ligadas nas redes sem obedecer aos protocolos de segurança que deveriam ser rigorosíssimos.
Com as inteligências artificiais tem-se percebido que os agentes de IA não precisam de ser como a água em pedra dura: basta que se lhes dê a ordem: 'entra nos sistemas de refrigeração dos supermercados, custe o que custar, e aumenta-lhes a temperatura', que eles aí vão, furando, fuçando, esburacando até conseguirem. E conseguem. Portanto se os roubos de criptomoedas ou de limpeza de contas de bancos começam a acontecer com frequência, espero que as entidades que regulam a cibersegurança nos países estejam atentas, vigilantes, lancem programas de formação, lancem alertas consistentes, previnam a população para o que pode estar para vir a nível da intrusão noutras 'coisas'.
Não sou catastrofista, acreditem. Sou realista. Sou atenta.
Os governos e os parlamentos de todos os países deveriam ser formados por gente muito experiente, muito competente, gente que conseguisse, a cada momento, identificar as grandes ameaças e, rapidamente, mobilizar esforços para as neutralizar.
Infelizmente o que se vê é que, por exemplo por cá, temos um parlamento em que uns nunca abrem a boca e outros nunca a fecham, e temos um governo em que a maioria não sabe a quantas anda.
Temos que ser mais exigentes. Temos que ser representados pelos nossos melhores -- e não pelos mais medíocres.
A vitória dos democratas nos EUA, em especial de alguns que mostraram ser bem corajosos, dá-me alguma esperança. Espero que esta onda que tem estado a varrer os países mostrando que a malta parece estar, de novo, a valorizar a democracia e a ética, engrosse e que o saber, a consciência, a verdade, o bem e a justiça voltem a ser valores pelos quais a maioria das pessoas se levanta.
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Tsunami Azul: A Era MAGA Acabou? Com Anthony Scaramucci | Christiane Amanpour apresenta
O que significam os resultados das eleições intercalares para Donald Trump, e será que a era MAGA está finalmente a chegar ao fim? Christiane e Tina Brown recebem Anthony Scaramucci, antigo diretor de comunicação da Casa Branca, para comentar uma noite histórica para os democratas. Juntos, examinam os resultados surpreendentes em todo o país, a grande vitória democrata no Texas e uma série de conquistas inéditas na política norte-americana.
Discutem o que afastou os eleitores de Trump, desde o custo de vida e a guerra com o Irão à corrupção. Anthony explica porque acredita que o trumpismo foi rejeitado, porque é que os democratas devem ter cuidado para não desperdiçar a sua oportunidade e se os republicanos podem ficar sem poder no Congresso durante muitos anos.
A Fúria de Trump com o Desastre Eleitoral com Joanna Coles e Michael Wolff
As eleições intercalares trouxeram uma onda azul tão grande que nem Trump consegue contestar os resultados. Joanna Coles e Michael Wolff regressam para analisar a vitória dos democratas e o que os próximos dois anos podem reservar para os Estados Unidos.
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