domingo, setembro 17, 2023

Simplicidade, tranquilidade

 

As terras que estavam há poucos dias cobertas por ervas e arbustos ressequidos foram todas limpas. Todas. Ficou a terra à vista. No entanto, não completamente: à medida que o mato era cortado, as máquinas trituravam-no e ficava no sítio, sem se dar por ele. 

Os pinheiros foram desbastados até grande altura. Os ramos grossos foram retirados e cortados mas as ramagens e os ramos mais finos foram também despedaçados em pequenos bocados que ficaram também nos locais. Sobre aquela madeira estilhaçada, disse-nos o chefe da brigada desmatadora que, com a chuva, aquilo apodreceria e tornaria a terra mais fértil.

A verdade é que, poucos dias volvidos, após estas primeiras chuvitas, a terra está a cobrir-se de líquenes e de musgos. Em muitos sítios o que se vê, de longe, já é uma mancha suave em verde subtil ou em branco-água.

Alguns troncos, como o da azinheira grande, está em parte coberto de macio musgo bem verde.

A alegria que tudo isto me dá é difícil de descrever.

Tenho estado embrenhada na minha recente actividade mas o meu marido tem trabalhado bastante no exterior. Contudo, este sábado pouco rendeu.

De madrugada trovejou bastante e choveu muito. Até depois de almoço o tempo esteve incerto.

Tentei andar de fato de banho e ir caminhar assim mas tive que voltar a casa para vestir um vestido por cima pois a temperatura estava mais baixa.

A comida tem sido simples. A ver se é desta que me decido a fazer dieta. Não sei se já perdi um ou dois quilos. Digo isto pela aparência. Se conseguisse mais um ou dois, seria bom.

De tarde andámos os dois às uvas. São doces.

No canteirinho ao pé da porta rebentaram duas orquídeas selvagens. Mas não sei se são orquídeas ou se são lírios. São cor de rosa muito clarinho, lindas. Fiz fotografias mas estou com preguiça de ir buscá-las.

Por terem sido dias muitos absorventes, agora tenho estado com muito sono.

Há pouco adormeci muito profundamente. Agora estou um pouco sem muita energia. Antes tinha estado a ver o vídeo abaixo. Gostei bastante. A beleza da simplicidade, as palavras breves e sinceras. 

Está legendada em português.

Seguir em frente, tranquilamente

The real treasures in life are not found in the attic or contained in any physical thing.  Our hearts know that real treasures are simply moments, memories and people. 

Yet our thoughts cloud what our hearts see so clearly. Our mind tells us to hold on so that we don’t lose something or miss out on anything - that if we let it go, we won’t have enough - and that if we don’t have enough, we won’t be enough.

But no matter how much money you make or how much you have, you’ll never be more content, healthy, happy or loved. Nothing you own will bring someone back into your life or make someone in your life love you more.

If you want a joyful life that is filled with love and happiness, align your actions with your heart.  When you finally let go, your heart will embrace your real treasures.

Happiness is letting go of what you think your life is supposed to look like and enjoying it for everything that it is.

Filmed in Cape Town, South Africa.

Featuring Gina Niederhumer - https://www.ginaniederhumer.com

Desejo-vos um belo dia de domingo

Saúde. Coisas boas. Paz.

sábado, setembro 16, 2023

Diário de um dia de (muito) trabalho

 

Hoje transcendi-me. Devo ter estado mais de catorze horas de seguida agarrada à minha mais recente empreitada. De seguida, é como quem diz. Interrompi para almoçar e jantar e para fazer uma caminhadazita. Mas foi duro. Agora são três da manhã.

Mas acabei. Trabalhinho completo, organizado, revisto. Agora está pronto para ser visto pelo marido. Mas já começou a furtar-se, que tem muito que fazer, rebentos ladrões por cortar, ervas para apanhar. Além do mais não tem cá o computador e parece que só gosta de ler as coisas no computador dele.

Portanto, não sei.

Foi difícil ultrapassar o bojador que inventei para mim própria. Até hoje, foi das coisas mais difíceis de fazer. Como disse no outro dia, penso que foi pior por estar a escrever na primeira pessoa. Coloquei-me em maus lençóis e fiquei sem saber como sair dali. E isto pode parecer estúpido pois, se não estava a conseguir, dava a volta e ia por outro lado. Mas isto há mistérios: o caminho vai por ali e ninguém o tira.

Mas pronto, calo-me.

Posso acrescentar que o meu marido esteve a queimar, dentro de um bidão, ramos secos e outras coisas assim. O cheirinho agradou-me. Estava aqui a dar no duro e aquele fumo trazia-me um cheirinho a campo.

Apanhei uvas. Estão doces. Dos figos já nem se fala: quase nenhuns, e os sobreviventes estão minúsculos, desengraçados.

Posso ainda referir que vi um ninho numa pequena árvore. Uma alegria.

E, para terminar, a minha apreensão: não sei se os esquilos se foram embora. Tanta máquina, tanta devastação, tanto barulho. Temo que se tenham assustado e debandado. Só vi umas duas pinhas roídas e não sei se são antigas. Deu-me pena. Gostava de ter visto o chão pejado delas.

E agora vou dormir. Tomara que chova, de preferência durante a noite.

A ver se este sábado descanso das palavras, caraças. Se não chover, vou varrer. 

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Um bom sábado

Saúde. Alegria. Paz.

sexta-feira, setembro 15, 2023

Passarinhos (uns esvoaçantes e outros cagões), uma arvorezinha despistada, e eu sem saber como, dentro de água, me manter direita como um fuso enquanto bato pernas e braços

 



Uma amiga disse que tinha uma árvore e mostrou-a de bonita que era. Pelo nome, antevi que cheirasse muito bem. Ofereceu-se para me arranjar uma. Agradeci.

Quando a recebi, linda, não percebi a razão do nome que tinha. Pelo que dizia no vaso, o ilustre nome em latim, percebi que ela estava equivocada. Não era o que ela dizia, era outra, porventura não tão carismática mas mais mimosa, mais bonita.

Está plantada no meu jardim e já deu florzinhas desde que ali está. Tomara que vingue e se faça linda. Para sempre ficará como a ilustração de como é essa minha amiga, generosa, alegre... e um tudo-nada um bocadinho despistada.

Há bocado, ao fim da tarde, fui ver se um mini-sistema de rega estava ligado. Ao aproximar-me, levantaram-se do chão dezenas de passarinhos. Ao vê-los a elevarem-se e, depois, a voarem, pareceu um bando. Fiquei contente por estarem ali no meu jardim. Fico feliz quando vejo que os animais, sejam quais forem, gostam de estar no espaço que habito, admito que seja porque reconhecem que aqui há um respeito absoluto pela natureza.

No entanto, há um mas. Todos os dias de manhã, no terraço, debaixo do alpendre, sempre no mesmo sítio, aparece um grande cocó de pássaro.  Não percebemos onde está o pássaro quando ali vai fazer as suas necessidades. O ninho fica longe, não há onde se apoie e, digo eu, não é provável que faça cocó suspenso no ar, sempre no mesmo sítio. O meu marido fica furioso.

E, por falar em estar suspenso, creio que já referi que optei por outra modalidade de ginástica na piscina, agora em suspenso, sem pé. É mais puxado, cansa um bocado. Mas tal como tive grandes dificuldades quando comecei na outra, dificuldades ao nível da coordenação, agora estou a enfrentar outra complexidade. Ao passo que os meus colegas estão direitinhos como um fuso, na vertical, fazendo todos os exercícios sem sair do mesmo lugar, comigo é uma festa. Passeio pela piscina. Por exemplo, se o exercício for fazer movimentos de abrir e fechar as pernas, isto na vertical e sem pé, relembro, e ao mesmo tempo, com os braços abertos, fazer movimentos circulares de levantar a água, para fortalecer os músculos dos braços, faço tudo mas os movimentos que faço levam-se a deslocar-me. Por vezes vou parar à ponta da piscina. Enquanto os outros estão a fazer um exercício, estou eu a nadar para me reposicionar. Outras vezes tenho que parar para não atropelar os outros que ali estão, verticais e aprumados. Já perguntei a vários deles, incluindo ao professor, qual o truque para não andar de um lado para o outro. Não sabem dizer. Descansam-me, dizem que com o tempo vou conseguir, que é intuitivo. Ora isto é desconhecer que isto é física pura, estamos perante uma questão vectorial, de forças e impulsos. Presumo que tenha que me inclinar um pouco para trás ou para a frente ou fazer qualquer outra coisa. Mas ainda não percebi o quê.

Tirando isso, posso ainda contar que ao jogar ao disco com a minha neta, com receio de atirar para longe, atirava curto demais. 

Ela ficava sempre admirada: 'Mas o que foi isso...? Daqui a nada vou dar-te uma aula de musculação...'. E eu disse que sim, estava curiosa. Mas, afinal, esquecemo-nos. Não faz mal, fica para a próxima.

Resumindo: foi um dia bom.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Alegria e simplicidade. Paz.

quinta-feira, setembro 14, 2023

Não é fácil fazer de conta que eu não sou eu

[Já para não falar que quanto mais me escondo mais me avisto]

 


Vou contar uma coisa. 

Não deve ter interesse para ninguém mas, como tenho passado os últimos dias com este assunto em mente, parece que, agora à noite, tenho que desabafar um pouco.

Meti na cabeça escrever uma coisa num prazo muito curto. Resolvi escrever sobre uma situação muito concreta em que, de certa forma, tenho sido espectadora.

Como é uma situação real, sei o que se passou até aqui mas não sei o que vai acontecer doravante. 

Claro que poderia prosseguir a narrativa inventando.

Mas, às tantas, pareceu-me que, mesmo inventando, o assunto esgotar-se-ia sem grande graça.

Só que, nestas coisas da ficção, mesmo quando se está a relatar uma situação real, a imaginação intromete-se. E se há coisa que de há muito sei é que a imaginação tem vontade própria. A gente não sabe quais os caminhos que vai percorrer e para onde vai levar a narrativa.

Foi o que aconteceu. 

Sem que eu tivesse premeditado, do nada apareceu um personagem. E esse personagem trouxe outro. E, sem que eu pudesse interferir, às tantas tomaram conta da história.

Agora, aqui chegada, aconteceu uma outra coisa. Estando eu, de início, a relatar acontecimentos reais, fi-lo na primeira pessoa. Ou seja, eu na história sou eu na realidade. O meu marido na história é o meu marido de verdade.

Ora os novos personagens viraram a história de pernas para o ar e, se fossem de verdade, viravam a minha vida também de pernas para o ar.

E, nesta altura da escrita, vejo-me bloqueada. 

Eu faria isto? 

Eu aceitaria que o meu marido fizesse aquilo? 

E por mais que me auto-convencesse que é uma ficção, a verdade é que os dias passavam, as páginas avançavam e eu era incapaz de escrever aquilo que a narrativa exigia. 

Portanto, andei a pisar ovos, a esforçar-me por ser capaz de me convencer que o eu da história já não era eu de verdade.

Até que hoje, não sei como nem porquê, consegui desbloquear este imbróglio.

Já escrevi a cena em que consigo emancipar-me de mim. Foi uma sensação boa, uma libertação.

Agora estou desejando de dar continuidade à história embora tenha para mim que o fim deve ficar em aberto.

Agora uma coisa vos garanto. Raramente, muito raramente, me dói a cabeça. E hoje dói. Dá ideia que, com esta brincadeira, dei uma tareia aos neurónios.

Já bebi um chá, já me pus aqui de olhos fechados, mas continua a doer-me. E, sobretudo, estou mortinha por acabar de vos contar isto para me atirar de novo à luta.

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E, por hoje, nada mais que isto. A não ser a homenagem que à data de 13 de Setembro deste ano da graça de 2023 se fez por ocasião dos 100 anos que nasceu Natália Correia.

De Amor Nada Mais Resta Que Um Outubro | Poema de Natália Correia 

com narração de Mundo Dos Poemas

Poesia e poema de autor português. Natália de Oliveira Correia (1923 — 1993) nasceu na Fajã de Baixo, São Miguel, Açores, a 13 de setembro de 1923. Poetisa, ficcionista, contista, dramaturga, ensaísta, editora, jornalista, cooperativista, deputada à Assembleia da República (primeiro pelo PSD, depois como independente pelo PRD), foi uma das vozes mais proeminentes da literatura e da cultura portuguesas na segunda metade do século xx, tendo resistido energicamente ao Estado Novo e aos radicalismos do pós-25 de Abril. Ecuménica e eclética, filantropa e idealista, anteviu um novo tempo, que garantisse a paz, a dignidade humana, a justiça social e o direito à diferença como raízes indeléveis da democracia. Morreu em Lisboa, a 16 de março de 1993.


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As fotografias são da autoria de Nick Knight
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Desejo-vos uma boa quinta-feira
Saúde. Motivação. Paz.

quarta-feira, setembro 13, 2023

Lee e Kate

 

Quando se pensa na falta de abertura que o mundo reservava às mulheres há cem anos pensamos, e bem, que que tomara que isso tivesse acabado. E, no entanto, por racionalmente estranho que possa parecer, ainda não acabou. Não apenas há países retrógrados como, mesmo nas sociedades mais avançadas, ainda há resquícios dessa mentalidade.

E, como se fossem os únicos, não vale a pena pensarmos de imediato em países árabes ou africanos em que a cultura assenta em regimes pouco ou nada democráticos, regimes misóginos, trogloditas. Não é preciso ir tão longe. Claro que por lá é a regra e por cá felizmente já serão ilhas -- mas basta passearmos pelas terras do interior para vermos como é frequente os cafés estarem cheios de homens e como as mulheres ainda têm medo de ser faladas se ousarem sair sozinhas, ir para uma esplanada, andarem a fumar em público ou se concorrerem a trabalhos tipicamente masculinos.

Contudo, foi no século passado, daqui a nada há cem anos, que a bela Lee Miller passou de modelo da Vogue e musa de fotógrafos a fotógrafa de moda e, depois, a corajosa fotógrafa de guerra. A sua vida é extraordinária. 

Afortunadamente, no meio das ortodoxias há sempre quem não se aquiete, quem queira ser o dono do seu destino, do seu corpo -- digam o que disserem.

Lee Miller era linda mas era sobretudo uma inspiração pela sua força, pelo seu querer, pela sua entrega ao prazer do que fazia por gosto.

Capturing Lee Miller (2020) I Official Clip I MetFilm Sales

Vogue model, artist’s muse, fearless war photographer: Lee Miller had many lives. Built on images of Lee and by Lee, CAPTURING LEE MILLER explores a pioneering female artist who broke taboos and defied expectations.

E está prestes a estrear o filme produzido e interpretado por Kate Winslet (a talentosa actriz que recusa o papel de estrela, de diva, de eternamente jovem): Lee. 

É das melhores actrizes da actualidade e, apesar disso, a sua simplicidade é fantástica.

A entrevista que concede à Vogue e que abaixo partilho mostra bem quem é Kate Winslet.

[Nota: Quem não se entenda com a língua inglesa, poderá colocar na opção da autotradução de inglês -> português. Não será um português escorreito mas sempre poderá ser uma ajuda.]

Kate Winslet Talks Ice Baths, Raising Chickens, and Her New Film | Vogue

Lee Miller’s photographs “are amongst some of the most significant historical images ever taken, and people don’t really know that,” says Kate Winslet of the inspiring subject of her forthcoming film, “Lee.” The October Vogue cover star also discusses ice baths, antique tables, and acting in some of the toughest scenes she's ever filmed.


terça-feira, setembro 12, 2023

Techno Mechanicus, Exa Dark Sideræl, X AE A-XII -- o que é que isto diz sobre o pai que tal nome deu a três dos seus muitos filhos?

 

Que o sujeito não é lá muito bom da cabeça isso é relativamente consensual. Mas é também consensual que é inteligentíssimo, ousado, visionário. O que ele tem conseguido é incomum, de âmbito mais do que diversificado e de uma escala brutal.

Claro que, apesar disto (ou por causa disto), arrasta atrás de si um imenso historial de maluquices de toda a espécie e feitio.

E se a nível profissional os seus feitos dão para compêndios, a nível político a sua história também vai somando factos controversos como é o caso agora da decisão que tomou inviabilizando um ataque ucraniano e a nível pessoal os feitos também não são de somenos.

Os relacionamentos que já teve e a polémica que tem rodeado alguns são também dignos de uma série bem completa e divertida, em vários episódios. 

E não menos emblemáticos do que é a sua mente aberta e meio tresloucada são os nomes de alguns dos seus filhos (ainda não percebi quantos são; já li que são 10 mas também que são 11).

O mais recente rebento dá pelo nome de Techno Mechanicus e quase parece normal quando comparado com o de alguns dos seus manos mais velhos como é o caso dos dois outros que escrevi no título desta mensagem.

O vídeo abaixo é bastante interessante. Nele Walter Isaacson, que escreveu a biografia de Elon Musk, fala um pouco sobre ele.

Walter Isaacson on the volatile Elon Musk

The bestselling biographer of such inventive personalities as Benjamin Franklin, Albert Einstein and Steve Jobs has written a new book about Elon Musk, the volatile billionaire who has built electric cars, launched rockets, and thrown wrenches into the war between Russia and Ukraine. Walter Isaacson talks with correspondent David Pogue about the ways in which Musk's companies are reshaping history, as well as the celebrity CEO's dramatic personality and his propensity to "go dark."

@SpaceX @tesla


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segunda-feira, setembro 11, 2023

Pena tiranna

 

Coloco-me objectivos impossíveis. Tinha-me atribuído uma pausa, tinha pensado que ia aproveitar o hiato para organizar coisas. Mas odeio compilações, arquivos, listas. Sou mais dada a criar do que a arrumar.

Portanto, andava a autoconvencer-me que estava a fazer uma coisa muito útil mas a minha natureza estava danadinha para me tirar o tapete. Temo isto. Sei que ela fica de tocaia, à espera que alguém lhe dê o pretexto. Posso até ser eu, incauta.

E foi o que aconteceu. 

Lembrei-me de ir ver: deixa cá ver se há por aí alguma coisa... 

Já antes tinha visto e, toda eu racionalidade, tinha desvalorizado. Coisa para pardais. Not for me.

Mas está bem, está. O milho ficou a germinar dentro de mim. 

Até que no outro dia, às minhas escondidas, fui conferir. Fui só por ir (faço de conta que me estou a deixar enganar). E, ao lá chegar e ver, voltei a pensar: não faz sentido e, além disso, já não há tempo.

Mas, quando a coisa assume contornos de missão impossível, o meu lado amalucado entra em acção. Felizmente nunca me deu para ser moça-forcada. Pego-os de frente, pelos cornos mas só de forem metaforizados. Sou maluca mas não sou parva...

E então atirei-me ao bicho. Mas uma coisa é querer, outra, bem diferente, é ser capaz de. 

Andei uns dias a capinar sentada. Dei no duro mas não acontecia nada. Mas é aquela coisa: não desistir, estar a postos para quando a coisa se der. 

E deu. 

Só que, se já era apertado, agora ainda mais. Ou seja, neste momento não sei se vou conseguir. Não sou uma máquina em que se possa carregar um botão e as palavras desatem a aparecer. Precisava de mais tempo para que a maturação pudesse acontecer nos seus tempos naturais. Mas, por algum motivo que alguém -- que não eu -- talvez consiga esclarecer, parece que gosto de funcionar sob pressão, estando até às vésperas sem saber se vou ser capaz. Mas confiante de que, querendo muito ser capaz, haverei de sê-lo.

Se calhar não percebem de que é que estou a falar. Mas não posso dizer. Ou melhor, não quero. Não sou supersticiosa mas não gosto de falar nas coisas antes de as coisas serem.

Portanto, deixemo-nos de flaflus e deslizemos para lugares brancos em que o talento é inquestionável.

Jakub Józef Orliński – Händel: "Pena tiranna" (Amadigi di Gaula)

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Boas vibes. Paz.

domingo, setembro 10, 2023

Quando paramos, encontramos a paz

 

Penso no protesto de alguns leitores que, de vez em quando, me escrevem, indignados, dizendo que só gosto de escrever sobre momentos felizes. É um facto. Quem queira ler sobre desgraças ou choradinhos pode ter a sorte de me ter acontecido alguma que me deixe tão arrasada que tenha mesmo que aqui desabafar. Mas o mais aconselhável para quem queira, de certeza, encontrar desgraças e dramas é ir até ao site do Correio da Manhã. Aí é um fartote. Tudo o que de tenebroso e cabeludo acontece no mundo está ali descrito. Não escapa nada. 

Aqui é o que se sabe. Se estou aborrecida, apetece-me espantar o aborrecimento, desanuviar, falar de coisas boas. E, se estou bem disposta, nem pensar em falar de coisas que me entristecem.

Claro que, de vez em quando, tenho que ir a terreiro espadeirar contra os maraus que gostam de poluir o espaço comum, sejam eles escorpiões que picam (ou tentam picar) com o seu veneno aqueles que mais temem, seja jokers apalermados que falam sem saber do que falam, sejam despudorados vendedores de banha da cobra, sejam maledicentes papagaios avençados que não sei como não morrem envenenados todos os dias tanto o veneno que destilam. Mas, conseguindo, fujo deles.

Cada vez mais sinto necessidade de me afastar da toxidade de quem não tem coluna vertebral, honestidade e inteligência e de me deslocar até locais de serenidade e paz.

Nem sempre a solução será a evasão física, total. Quem ainda trabalha e tem responsabilidades a assumir, pode ter que se sujeitar a situações complicadas em que haja sofrimento e dor ou, mesmo, humilhação. Nesses casos, há que ter a resistência para aguentar e a esperança de que seja por pouco tempo. Não há mal que sempre dure.

Mas quem possa ter a liberdade de escolher uma vida de tranquilidade, rodeado de generosidade, de alegria e de paz é, sem dúvida, alguém bafejado pela sorte.

O meu dia hoje foi muito bom. Dia de desporto. Só eu não o pratiquei pois o desporto do dia tem muitas regras. Gosto de bater bolas mas acho que não iria conseguir decorar quem faz o serviço, se é em diagonal, se é este ou aquele, se é assim ou assado. Não dá. Além disso, não me fio muito nos meus joelhos quando sujeitos a tratos de polé.

Depois juntámo-nos aqui e a tarde estava uma maravilha e foi uma alegria. Para mim felicidade é isto. Não sonho com idas às Caraíbas, com carros topo de gama, com restaurantes de luxo, com liftings ou tratamentos ultra rejuvenescedores ou com roupas griffe. Nada disso. A gente que habita o meu coração à volta da mesma mesa, uma conversa boa, sorrisos -- é aquilo de que preciso para me sentir feliz.

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Running from pain - And when we stop, we find peace.

We are adept at the avoidance of pain and suffering - we push it away, we pretend it’s not there.  And we keep ourselves busy so that we don’t have time to sit and reflect - when bored, we surf social media - when we feel down, we go shopping or watch TV.  But running keeps us stuck in spiraling patterns of despair and hopelessness.

And while we may not be responsible for causing the pain, we can be responsible for ending it.  And to admit to that and own up to that is a humbling thing to do. You create an opportunity for growth and expansion in your life by taking accountability. You let go of your ego’s dominance over your actions and decisions, and start listening more carefully to that intuitive voice inside.

To run from pain is to run from life itself.  Because by embracing difficulty and the challenges it presents, is how we grow and improve as humans.  So let’s learn to accept it as a part of life.  It's this that will make us whole again.

Filmed in McGregor, South Africa. 

Featuring Sung-Yee (Sy) Tchao.


Desejo-vos um belo dia de domingo
Saúde. Felicidade, Paz.

sábado, setembro 09, 2023

Born in the wild.
Selvagem

 

Há um perfume de homem que sempre me levará nas asas da memória até um longínquo verão em Angola. 

À medida que o tempo mais passa mais eu vou percebendo como foi de charneira na minha vida a minha viagem a Angola, um mês de total liberdade, quase vinte e quatro horas por dia junto de jovens da minha idade, grande parte deles até então meus desconhecidos.

Não havia telemóveis e, porque andávamos de um lado para outro, praticamente nem telefones dos outros. Não Tínhamos, portante, que telefonar nem esperar por telefonemas. Andávamos à solta, num outro continente. Portanto, foi quase como se tivéssemos cortado o cordão umbilical à família, ao mundo onde antes vivíamos.

A magnífica largueza de horizontes daquelas paisagens, o clima que convidava ao quase desnudamento, os dias longos, quentes, os maravilhosos pores de sol, aquelas praias em que apetecia estar até ser bem tarde, a descontração de toda a gente, a boa comida, a boa companhia, tudo, tudo eram mil maravilhas que eu avistava e desfrutava através daquela porta aberta que eu podia transpor sem ter que pedir autorização, sem ter que me justificar.

As amizades que nasceram, o afecto que se ia fortalecendo dia após dia, a alegria que uma certa pessoa que aparecia de manhã, cabelos molhados, sorridente, brincalhão, desafiador, e perfumado com Eau Sauvage, me trazia (e, creio, trazia a todos) não se esquecem. 

O tempo passa, passa muito rapidamente, mas há coisas que a erosão não leva.

A Dior escolheu, e bem, Johnny Depp para dar corpo ao espírito da Eau Sauvage. Leio que:

Sauvage Eau de Parfum smells citrusy, musky, and spicy giving the wearer a feeling of being fresh after the shower. The main notes are ambroxan, bergamot, and Sichuan Pepper with a lasting power of 8 – 10 hours with a very good projection.

Johnny Depp for Dior sauvage 2023



sexta-feira, setembro 08, 2023

Serei um dia pescadora?
[E conversas com António Lobo Antunes e Arturo Pérez-Reverte]


À beira mar havia uma névoa leve, branca, quase transparente. Caminhávamos dentro de um tule húmido quase sem darmos por isso. 

Não estava frio nem havia vento. 

Muita gente a passear e muitas línguas diferentes, muita gente a fazer surf, muita gente a fazer skate, a correr, alguns de bicicleta. O mar muito bonito, quase tranquilo de lindo que estava. 

Há sempre homens à pesca. Duvido que consigam pescar alguma coisa mas eles não desistem.

Às vezes penso que um dia gostaria de voltar a pegar numa cana, de voltar a sentir o peixe a picar, de voltar a puxar a linha, de voltar a tirar o anzol da boca do peixe. Se eu soubesse que conseguia descobrir um sítio onde fosse certo que conseguiria ser bem sucedida, arriscaria. Pensando bem, deve ser bom estar à beira da água, quieta, ouvindo apenas as ondas, à espera que um peixe ceda à tentação. E depois amanhar esse peixe com as minhas mãos, e depois cozinhá-lo e comê-lo. Deve ser bom.

Mas depois há aquilo de a maior parte do tempo não vir peixe nenhum... e isso deve ser frustrante.

E já estou a fazer aquela ginástica aquática feita com os pés no ar, coisa que tem dado uma luta... O professor diz que é mesmo assim, às primeiras custa a manter o equilíbrio enquanto se está naquele folguedo de pernas para a frente, pernas para um lado, braços para o outro. Diz que trabalha os abdominais e tomara que sim. 

E tenho conversado muito com amigos improváveis. E a minha empreitada agora anda meio interrompida pois deitei mãos a outra coisa. Não muito convictamente, diga-se. Uma coisa é ficcionar à mão livre. Outra é escrever sobre o que está a passar-se sobretudo porque não sei qual o day after.

E depois há isto. Alguma marosca há pois abro o youtube e aparecem-me escritores falando do seu ofício. Adivinha-me os pensamentos. António Lobo Antunes a ser o António Lobo Antunes e Arturo Pérez-Reverte com uma outra atitude. São estilos, não interessa. Cada um é como cada qual. 

Entrevista exclusiva a António Lobo Antunes

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Entrevista a Arturo Pérez-Reverte

Arturo Pérez-Reverte considera-se um marinheiro-leitor que acidentalmente escreve romances. Até agora, foram 34. Traduzidos em cerca de 40 idiomas, chegaram a mais de 20 milhões de leitores em todo o mundo e vários deles foram adaptados ao cinema e à televisão. 
Pérez-Reverte possui um olhar de uma lucidez extraordinária sobre o ser humano, que deve aos 21 anos em que foi repórter de guerra – aí, nas trincheiras, todos são iguais e nem sempre é claro qual é o lado bom ou o lado mau. Escreveu Linha da Frente, o romance sobre a Guerra Civil Espanhola que acaba de lançar em Portugal, como consequência da situação política em Espanha, esperando contribuir para a reconciliação nacional. E está a consegui-lo.
Quando vem a Portugal, vem à sua pátria. Defende que uma Ibéria unida seria uma grande potência frente e esta Europa que olha para o sul com desprezo. Crítico da desvalorização da História, avisa que estão a criar-se gerações de órfãos de memória, facilmente manipuláveis, excedentes em sentimentos e carentes de razão. 
Está convicto de que, no dia em que deixar de escrever romances, será esquecido, e não vê mal nenhum nisso.  Sente-se realizado, porque é lido em vida, e grato aos seus leitores, porque lhes deve a sua liberdade.


Desejo-vos uma feliz sexta-feira
Saúde. Serenidade. Paz.

quinta-feira, setembro 07, 2023

Relato de um dia todo ele coisas simples. Para compensar, sou forçada a trazer aqui a 'Equação de Deus'...

 

O meu marido quis arrancar a hera que tinha trepado por duas paredes e que eu adorava ver. Tentou convencer-me, mostrando que é uma bicha invasiva (ele não disse isto assim, claro), alegando que vai para os algerozes, que atrai animais. Com o coração já sentindo o peso das decisões fatais, observei com atenção e acabei por concordar. Ele cortou mas ela continuou agarrada, teve que ser puxada. Tem patinhas com ventosas. Agarra-se à vida com vigor. Tive muita pena. Gosto de ver as paredes cobertas por hera. Aliás gosto de ver a natureza em toda a sua pujança.

Mas reconheço que a natureza, quando não impedida, absorve, devora, tudo. Há que tentar manê-la controlada. 

Também foram cortados viçosos e ousados rebentos ladrões das buganvílias. 

E é certo: há ratos a devorarem as romãs. De longe parecem inteiras, penduradas, a criar açúcar nos ramos. De perto, pode ver-se que algum animal lhes abriu um buraco e se banqueteou com os sumarentos bagos. Sinto-me revoltada. Não é tanto pensar que anda por ali um ou mais ratos pois até li que é um animal limpo, inteligente e que dão óptimos animais de estimação, é mais por pensar que, a continuar a este ritmo, não terei romãs para comer.

Não queremos pôr veneno e custa-me pensar em ratoeiras pois gostava era de os afugentar sem ter que lhes fazer mal. Mas não sabemos como fazer isso.

A árvore das limas, que se chama limeira mas que, por algum motivo que desconheço, não me dá jeito chamar assim, está tão carregada que vergou uma pernada. No outro dia, ao chegarmos a casa nem percebemos bem, parecia que a árvore estava caída no chão. Depois é que percebemos que era apenas uma pernada, a maior. O meu marido foi à horta buscar um tronco com um V na ponta e os dois conseguimos levantar o grande ramo carregado e ampará-lo por aquele tronco.

E fiz sopa de legumes, que já não fazia desde antes do verão. Soube-me mesmo bem. 

Fiz ainda outras coisas mas não vou estar para aqui a maçar-vos mais com estas minudências.

Por isso, vou antes partilhar um vídeo de que gostei. Espero que também gostem.

Physics’ greatest mystery: Michio Kaku explains the God Equation | Big Think

"It's no exaggeration to say that the greatest minds of the entire human race have made proposals for this grand final theory of everything," says theoretical physicist Michio Kaku. 

This theory, also known as the God Equation, would unify all the basic concepts of physics into one. According to Kaku, the best, most "mathematically consistent" candidate so far is string theory, but there are objections.
"The biggest objection is you can't test it," Kaku explains, "but we're getting closer and closer."

[ Dr. Michio Kaku is the co-founder of string field theory, and is one of the most widely recognized scientists in the world today.]


Desejo-vos um belo dia
Saúde. Alegria. Paz.

quarta-feira, setembro 06, 2023

Ginástica em suspensão aquática, seguros de saúde marados, horóscopo de Setembro. E, imaginse-se, ainda um excerto da última entrevista de Clarice Lispector

 

E, portanto, estando-se já neste período que se apresenta equipado de rentrée, todo neblinas em grey, todo temperaturas mais baixas, achei que era tempo de voltar às aulas. Ou seja, retomei as aulas de hidroginástica. Não é bem hidroginástica, é mais puxado que isso e tem, até, outro nome mas agora não me lembro de qual é. Mas vi que têm lá uma coisa ainda mais hard, uma coisa toda feita em suspensão, que não só trabalha o que a outra trabalha mas puxa mais pelos abdominais, coisa de que estou precisada. Vou tentar. É preciso fazer testes para verem se os pretensos praticantes têm preparação física para isso mas fá-los-ei e tenho esperança de que cumprirei com os mínimos.

Tirando isso, trabalhei qb e, ao fim do dia, fomos passear à beira mar, no meio de um fog muito british. Para complementar o ramalhete, trouxemos sushi e escolhi daquele que tem algas e limos e ovas em cima do belo peixe cru e macio. Antes comi alface e, depois, uvas.

Poderei ainda dizer que, estando fora das regalias da empresa em que trabalhava, tive que tratar de um seguro de saúde. E este 'tive' deveria vir enfeitado de muitas aspas pois, claro, não é forçoso. Mas temos sempre aquele receio de necessitarmos de alguns cuidados relativamente aos quais as filas de espera no SNS sejam gravosas. Fiz o seguro. Mas, logo depois, a seguradora, unilateral e prepotentemente, alterou, uma a uma, todas as condições acordadas. Um comportamento inaceitável. Tive que me arreliar. Espero que as coisas se resolvam a bem para não ter que avançar com queixas para o Regulador, para o Portal da Queixa e para a Deco.

Para terminar, posso ainda acrescentar que, vá lá saber porquê, sinto uma impaciência miudinha, aquela vontade de mudança, de coisas novas, de virar a mesa, de desbravar. Se estivesse a trabalhar, a malta que trabalhava comigo devia estar a suar as estopinhas com as minhas ideias avançadas, os meus desafios, o meu gosto em saltar sem rede. Assim, a la maison, tenho que ver em que é que isso de pode traduzir.

Lembrei-me até de ir ver uma coisa de que já nem me lembrava: o horóscopo -- imagine-se.

Fui ver o que me reserva o mês de Setembro.

Aqui está (traduzido -- às 3 pancadas -- via google):

Forma

As suas articulações estão muito estressadas, assim como as suas costas. Tenha cuidado para não superestimar a sua força carregando cargas muito pesadas. Preste atenção também na sua postura, proteja-se. Não hesite em pedir ajuda às pessoas ao seu redor para cuidar de si mesmo. Qualquer ajuda será bem vinda. Mantenha-se positivo, essas dores são apenas temporárias e seu corpo está enviando sinais para você descansar. Ouça-os e tudo deverá voltar gradualmente ao normal. Vá com calma, mesmo que isso realmente te irrite.

Trabalhar

Este mês está colocado sob o signo da evolução e da avaliação. Antes de pensar num futuro diferente, você terá que demonstrar as suas habilidades. Aproxima-se um período exigente, em que você tem grandes esperanças, com vista a poder negociar. Transferência, reciclagem, oportunidades estarão presentes e você as observa com atenção. Concentre-se nas questões: mostre o seu know-how e as suas qualidades antes de perguntar qualquer coisa.

Ora bem.

E não vale a pena estarem para aí a ranger os dentes ou a arfar de desdém. Não sou só eu, está bem?

Ora confiram aqui este pedacinho da última entrevista da Clarice Lispector. Quando lhe perguntaram de onde tinha vindo a ideia para a história que, na altura, estava a escrever:

Onde você foi buscar a inspiração, dentro de si mesma?

Eu morei no Recife, me criei no Nordeste. E depois, no Rio de Janeiro tem uma feira de nordestinos no Campo de São Cristóvão e uma vez eu fui lá. E peguei o ar meio perdido do nordestino no Rio de Janeiro. Daí começou a nascer a ideia. Depois eu fui a uma cartomante e ela disse várias coisas boas que iam acontecer e imaginei, quando tomei o táxi de volta, que seria muito engraçado se um táxi me atropelasse e eu morresse depois de ter ouvido todas aquelas coisas boas. Então a partir daí foi nascendo também a trama da história.

Não sou tão fatalista quanto a Clarice Lispector, nem tão inspirada, nem tão coisa assim -- nada. Mas ainda assim. Portanto, não vou a cartomantes mas, de vez em quando (e a última vez já deve ter sido há mais de um ou dois ou três anos), espreito o horóscopo. Este, desta fonte. Tem palpite quente. 

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Nota: Não tenho respondido aos comentários pois continuo com o hábito de apenas pegar no blog às quinhentas da noite, depois de puxadas empreitadas, e canalizo toda a energia para o que escrevo aqui. Leio e aprecio-os (e sobre o orgasmo, os comentários são talentosos -- e recomendo-os) -- mas já vai para tarde, estou a caminho de cair KO e ainda quero ir fazer uma coisa. Não levem a mal. 

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Boa sorte. Paz. 

terça-feira, setembro 05, 2023

Método científico para melhorar os orgasmos

 

Sob influência deste outono, influência esta condimentada com a doçura própria de um sweet september, estou como se estivesse de regresso às aulas ou, vá, ao trabalho. Ora, rentrée que é rentrée, tem que ter o seu quinhão de inesperado, de picante e de abertura às novidades e à ciência.

Portanto, estando antes aqui tentada a debruçar-me sobre o nosso ultra-ubíquo Marcelo que, qual mega-mago, a toda a hora tira pombinhas, écharpes e cartas da manga, ou, quiçá, até falar sobre o previsível e descartável Montenegro ou sobre a virulência de algumas figuras do so called mundo vip (ou jet set ou whatever) nas redes sociais ou, até, divagar sobre as nobres e pacíficas intenções do grande amigo do PCP, o grande democrata Kim Jong-Un, que vai visitar o não menos amigo e não menos democrata e pacifista Putin, eis que, numa reviravolta mental, me apetece mudar a agulha. 

E, assim sendo, uma vez que as nossas televisões e social media inerentes não se preocupam com a intensidade e duração dos orgasmos, eis-me aqui a pensar em todos os que me lêem e a divulgar úteis ensinamentos. 

Está tudo bem explicadinho. 

Os vídeos estão traduzidos para português pelo que não há desculpa, não venham cá dizer que têm o inglês enferrujado. 

[Não digo que não tenham nada enferrujado, digo é que não é a língua (a inglesa, leia-se). Ou melhor, o ouvido].

How to have "real" orgasms | Emily Nagoski

The best orgasms come when you learn how to unlock a sexual “flow state.” Emily Nagoski, a sex educator, shares a meditation to help you get started. 

When you see an orgasm depicted in TV, film, or even porn, you can be virtually certain it was faked. This can feed misconceptions about there being a “correct” way to orgasm. In reality, orgasms are complex phenomena that can result from a wide range of stimuli, and they are orchestrated primarily by the brain, not only the genitals. 

Sex educator Emily Nagoski emphasizes the importance of familiarizing yourself with the full spectrum of pleasurable and arousing experiences, not just orgasms. Shifting focus from orgasms to overall pleasure can alleviate pressure, potentially leading to improved sexual experiences and, paradoxically, better orgasms.

E, para que não se pense que a Emily não passa de uma qualquer castiça que resolve vir para aqui dar palpites, informo que:´

About Emily Nagoski: 

Emily Nagoski is the award-winning author of the New York Times bestselling Come As You Are and The Come As You Are Workbook, and coauthor, with her sister, Amelia, of New York Times bestseller Burnout: The Secret to Unlocking the Stress Cycle. She earned an M.S. in counseling and a Ph.D. in health behavior, both from Indiana University, with clinical and research training at the Kinsey Institute. Now she combines sex education and stress education to teach women to live with confidence and joy inside their bodies. She lives in Massachusetts with two dogs, a cat, and a cartoonist.


segunda-feira, setembro 04, 2023

Vidas simples, zonas azuis

 

Ontem cheguei à noite com uma certa dor no colo do fémur. Na cama, não foi fácil encontrar uma posição inócua. Felizmente não me impediu de dormir. Mas, de quando em quando, tinha que me reposicionar.

Ao queixar-me, o meu marido zangou-se, diz que parece que não aprendo.

A questão é que, de dia, tinha andado a apanhar caruma, pinhas roídas, folhas secas, terra. Puxo com ancinho ou varro, faço montes e depois, se o local de destino está perto, apanho à mão e ponho lá. Se não, coloco dentro de um cilindro de ráfia e transporto-o até onde o possa despejar. 

Como sempre acontece, não me custa, não me canso, não me dói nada. O meu marido avisa-me que tenha cuidado. Ele andava a fazer o mesmo e a cortar ramos de carrasco e de aroeira. Pensei que estava a ser cautelosa, que não estava a fazer nada de extraordinariamente pesado. Mas o meu corpo, depois de tanto que trabalhou, parece que se tomou de melindres e, agora, a cada trabalho mais árduo, ressente-se. A idade tem isto, creio que desgasta um bocado as articulações. Não sei.

[Não sei se já contei que há uns meses fiz uma osteodensiometria. Numa outra, feita algum tempo antes, tinha sido assinalado que tinha baixa densidade óssea, não osteoporose mas a caminho disso.  Então, ao ver o relatório e ao ver que lá estava escrito que havia uma significativa alteração, fiquei assarapantada, julgando que tinha piorado. Afinal, foi ao contrário, estava bem melhor. Caminhadas, ar livre e sol produziram bons resultados.]

Felizmente, acordei melhor. O sono tem um poderoso efeito reparador.

Ontem tinha ido visitar a minha mãe e depois fomos ficar com uns dos meninos até os pais chegarem. 

Este domingo foi tranquilo. Estava na dúvida sobre a minha capacidade para fazer uma caminhada mas fui. Fizemos um belo passeio por um agradável pinhal. Estava muito mais fresco do que nos dias anteriores, a prometer chuva, mas, afinal, o que veio pouco mais foi que uns envergonhados pingos. 

Para o almoço fiz maruca cozida com batata normal, batata doce, feijão verde, cebola e ovo. De sobremesa, uvas das nossas.

Ao fim do dia, novo passeio. 

Não será por falta de me mexer que emperrarei, nem será por comer comida pouco saudável que me entupirei. 

(A minha filha diz que, nisto da comida, o meu problema são as quantidades, diz que deveria comer menos. Não digo que não. Mas tenho sempre apetite. Gosto de comer.)

Entretanto, hoje estive também na conversa com amigos reencontrados e com outros com quem, em tempos, partilhei os mesmos espaços sem o saber. A vida é uma coisa extraordinária. Surpreendo-me a cada dia que passa. Penso que as pessoas que se fecham sobre si próprias acabam por não colher das surpresas da vida nem a metade.

Agora, à noite, estive a ouvir música e a ver mais um daqueles vídeos sobre as Blue Zones, aquelas zonas do planeta em que as pessoas vivem, saudáveis, até mais tarde. 

É o que se sabe: vida activa, ar livre, trabalhar, caminhar, comida simples (vegetais, frutos secos, feijão...). Partilho convosco pois pode ser-vos útil.

The secret to longer life may be in where you live, not exercise or supplements

ABC News’ Phil Lipof spoke with Dan Buettner, National Geographic Explorer and author of “Blue Zones: Secrets for Living Longer,” about how certain lifestyles can be reverse engineered for long life.


Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Harmonia. Paz.

domingo, setembro 03, 2023

Ainda é bom ser rei...?

 

Não me interpretem mal. Não suporto machistas, azeiteiros, parvalhões. Já nem falo em assediadores, muito menos em violadores, caso em que falamos de crime e já nem tanto de costumes.

Mas não me acho uma zinha, sem voz própria, incapaz de me defender nem acho que as mulheres devam ser todas vistas como umas pobre coitadas, indefesas, necessitadas de um coro de virgens de cada vez que algum homem ponha o pé em ramo verde.

Uma coisa são situações de franca inferioridade, seja profissional, social ou, mesmo, mental, em que um chefão malandreco ponha e disponha senão a pobre coitada vai suar as estopinhas. Aí algum apoio será requerido para que a pobre mulher consiga defender-se. 

Mas outra coisa é quando um qualquer macho alfa, extrovertida ou impensadamente, faz um gesto um bocado para além do que os cânones estão dispostos a aceitar. Aí, caraças, acha-se que a mulher não sabe defender-se? Ou que é uma qualquer beijoca ou piada brejeira ou olhar malandro que vai ferir os sentimentos das mulheres? Molestá-las? Traumatizá-las? Caraças.

Qualquer dia os homens ganham medo e, por via das dúvidas, fazem-se eunucos. Que mundo mais sem graça queremos para nós? Está tudo maluco ou quê...?

Que venha, por favor, o Mel Brooks e atire uma pedrada para o charco.






Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Bom humor. Paz.

sábado, setembro 02, 2023

Um cedro com pescoço alto e cabeça careca e uma Ameca que já tem muito que se lhe diga

 

Eram sete e picos da manhã acordei com a fera a ladrar desenfreadamente. Estava naquele ponto de ebulição em que se mistura o ladrar com saltos e ataques de fúria. Percebemos que havia coisa. Estávamos a tentar acordar e discernir o que se passava quando começámos a ouvir vozes que nos pareciam ser junto à porta da sala.

Para quem trabalha, sete e picos serão horas de estar a pé. Para nós, idosos e pensionistas, são horas de ainda estar na cama. Claro que, muitas vezes, a esta hora já o meu marido está acordado. Mas anda cansado, desta vez estava ainda a dormir. Eu, excepto se tiver alguma obrigação, às sete, claro, costumo estar a dormir.

Levantámo-nos para ver o que se passava mas percebemos logo que só poderiam ser os artistas que têm andado a desbastar árvores e a cortar mato. Nos outros dias, costumavam começar às oito e pouco, o meu marido saía da cama, ia passear com a fera (à trela) e deixava-me a dormir um pouco mais 

Fomos saber o que se passava para estarem a começar tão cedo. É gente com pouco apetência pela expressão verbal e um deles já estava lá em cima, encarrapitado na copa do pinheiro que está em frente da sala e o outro estava a segurar a escada. Um outro andava lá por baixo com uma máquina a picar lenha e mato. Lá percebi que esperavam que se pusesse calor e tinham resolvido antecipar-se. Percebi que esperavam acabar o trabalho à hora de almoço, antes que a tarde estivesse quente. Não antevi como, dado o volume de trabalho ainda em curso. Mas não se consegue conversar com eles, muito menos planear alguma coisa.

(Como se sabe, o tempo não aqueceu. Como estava previsto, a temperatura desceu).

Com eles, este trabalho foi quase uma aventura: combina-se uma coisa com um mas, depois, quem aparece para fazer o que se combinou é outro, que desconhece a combinação. Isto ao longo dos vários dias.

Uma outra característica: em caso de dúvida, fazem como lhes parece, sem perguntarem.

Como resultado, hoje um cedro gigante apareceu descaracterizado, parecendo agora um gigantesco peru careca. O chefe diz que disse a um deles que fosse lá acima e cortasse o ramo que estava a prender o cabo de telefone que passa ali, no ar, entre postes. Com a péssima dicção de todos e o desalinhamento mental que também me pareceu generalizada, o outro foi lá a cima e, percebendo que a ordem era do ramo que prendia o cabo para baixo, desbastou o cedro até chegar cá ao chão. O chefe, quando viu o resultado final, ia-o esfolando vivo. Não apenas tinha estragado irremediavelmente um cedro majestoso (não se terá expressado assim, presumo) como tinha arranjado trabalho para mais uma data de tempo pois, com aquilo, tinha depositado aos pés da árvore ultrajada uma massa imensa de ramagens que havia que retirar e triturar. O outro, levando tal desanda, ficou ofendido, revoltado, vigantivo.

Eu, pela parte que me toca, ao ver aquele lindo serviço, ia-me dando uma coisa. Podem imaginar, não é? Nem consegui perceber o que tinha acontecido ou qual a justificação para tamanho atentado. O autor da proeza não disse nada, estava roxo de raiva, furibundo, talvez envergonhado, não sei, limitou-se a dizer para eu falar com o chefe, que ele, pelos vistos, não sabia nada. O chefe, por sua vez, disse que estava enervado com o burro que tinha feito aquilo e que já quase nem conseguia falar.

A seguir a este episódio, o clima entre eles ficou de cortar à faca e já nenhum queria fazer nada, certamente cada um culpando o outro pelo sucedido.

Só saíram depois das seis e faltou limparem parte do lixo feito ao cortarem ramos mas não apenas eles, entre eles, estavam em ponto de rebuçado como nós já só desejávamos vê-los pelas costas. 

Quando se foram embora, fomos nós dois de ancinho, vassouras e pás limpar o possível aqui mais perto de casa. 

Se quisermos limpar tudo (e parte não era coisa que eles devessem ter feito), teremos trabalho para não sei quanto tempo e, para dizer a verdade, é um trabalho infindável pois mal acabarmos um lugar já outro estará cheio de caruma e folhas secas. Mas, enfim, pelo menos a maior deve sempre ser limpo e a ver se não descuramos como antes fizemos.

De qualquer maneira, os dois pinheiros e os dois cedros que estavam secos, já não existem. As copas de todos os pinheiros estão lá em cima comme il fault. O mato foi todo à vida (leia-se alecrim, tojo, silvas, rosmaninho, etc. -- tudo). Mas estava tudo tão ressequido, tão infeliz, que não fazia sentido estar a querer conservar. Pode ser que, em chovendo, rebente tudo com vigor. E, portanto, as diferenças entre o antes e o depois são significativas e, vendo os caminhos todos, as pedras em volta das árvores, gosto. Não está o meu belo bosque selvagem mas dá para passear sob a copa das árvores e não se corre o risco de ficar com as pernas arranhadas. 

Só espero é que venha mesmo a chuva pois a natureza não foi feita para viver sem água. Estou, eu própria, sequiosa de um cheirinho a outono, de odor a terra molhada. Tomara que comecem a aparecer os audaciosos cogumelos e que da terra comecem a brotar os musgos, as ervinhas, a vida.

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Tirando isso, o que posso dizer é que estou nisto, alienada dos grandes temas do mundo, sejam eles os irreverentes genitais do Rubiales ou o ladino Marques Mendes (e isto não desfazendo, pois sei bem que há outros grandes problemas), enquanto o tempo acelera a favor do desenvolvimento da Inteligência Artificial. O ritmo da progressão e o sentido que as coisas levam são altamente preocupantes. Não quero ser alarmista pois ainda tenho esperança que, colectivamente, saibamos encontrar maneira de sobreviver à dinâmica de 'seres' muitas vezes mais inteligentes que nós (aceleradamente cada mais inteligentes que nós). 

De qualquer maneira, por via das dúvidas, arredo-me de preocupações e opto por varrer a caruma (ou, vá, escrever).

Sugiro que vejam os vídeos aqui abaixo e que ajuízem.

Sky News Australia interviews 'free-thinking' artificial intelligence

Sky News Investigations Reporter Jonathan Lea sits down to talk with a “free-thinking” and “opinionated” artificial intelligence, Ameca Desktop.

“Ameca is driven by the same artificial intelligence behind Chat-GPT,” Mr Lea said.



‘We messed up badly’: Former Google X boss warns of AI threat


The era of humans being the most intelligent species on the planet is over, according to the former boss of Google's advanced innovation team.  

Mo Gawdat says AI is serving our obsession with greed, consumerism, and weapons of war, which is creating what he calls a prisoner's dilemma.


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Desejo-vos um bom sábado
Saúde. Chuva. Paz.

sexta-feira, setembro 01, 2023

A beleza da Arte Xávega. E as Lolitas e outras dúvidas.

 

Hoje foi um dia bom e até à praia consegui ir. Água fria, os meninos apenas mergulhos rápidos, os adultos nem aí. Presenciámos a bela arte xávega, espectáculo belíssimo. Junto duas das fotografias que fiz.


Tudo bom. Bom tempo, melhor companhia. Mas, claro, foi dia apenas de lazer. Trabalho: zero.

Entretanto, à noite estive a ver, na 2, um interessante programa sobre o Lolita de Nabokov. Já antes o tinha visto. Levanta um tema que a mim me perturba um pouco. O facto de um autor tecer a personalidade de um personagem e o pôr a agir em conformidade pode ser interpretado como sendo uma extensão das ideias do autor?

Se eu escrever sobre uma assassina ou sobre pessoas racistas ou, de forma geral, sobre pessoas pouco recomendáveis pode o público ou a crítica entender que o autor pretendeu fazer a apologia de comportamentos inapropriados ou desviantes ou que essa é também a sua maneira de pensar ou agir?

Claro que a pedofilia é daqueles crimes que incomoda muito, que deita sal nas feridas mesmo que inexistentes. Mas, sabendo disso, não deve um autor mergulhar na mente e nas vísceras de um pedófilo e imaginar o que pensa e faz perante uma vítima? 

É um tema que me suscita muita curiosidade e muita dúvida pois com alguma frequência sinto-me tentada a aventurar-me por territórios interditos.

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E, por hoje, fico-me por aqui. Quero acabar a minha empreitada para ficar com a mente livre para novos voos. Tenho trabalho ainda para umas duas ou três semanas, imagino. Isto se trabalhar no duro, o que nem sempre consigo. Não é grave pois, como disse há dias, é um tempo de que a minha cabeça precisa para se orientar e iluminar. Como disse uma Leitora, o tempo da dúvida é o tempo da espera. De vez em quando, a meio da noite, acordo e ocorrem-me caminhos para o que tenho aqui em germinação. Em caso de hesitação, há quem escreva pistas, quem alinhave opções. Eu não. Fica tudo aqui a fervilhar dentro de mim. E eu, do exterior, a aguardar. 

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Desejo-vos um bom dia

Saúde. Boas ondas. Paz.

quinta-feira, agosto 31, 2023

De penalti ou devagarinho?
[E, sobre os potenciais candidatos a Presidente da República, nada]

 

Sabe-me muito bem estar de férias sabendo que não vão acabar. Os meus colegas acreditavam que ia custar-me muito deixar de trabalhar. Diziam que não conseguiam ver-me 'aposentada', que isso era coisa que não encaixava na minha maneira de ser.

Pelo contrário, sempre me vi muito bem sem ter que aturar aquela pressão diária, sem ter reuniões, deslocações, visitas, apresentações, problemas para resolver, sem ter que andar a toque de caixa, com a agenda saturada, com telefonemas em contínuo, com mails a chover em permanência.

É muito bom ter pela frente uma página em branco e poder preenchê-la com o que me apetecer. Trabalhei ininterruptamente desde os vinte acabados de fazer até há poucos meses. Interrompi apenas quando tive os meus filhos, tendo trabalhado até às vésperas dos partos, e quando fiz a artroscopia aos joelhos e não podia andar. De resto, nunca estive de baixa. Férias, desde há muito que não conseguia gozá-las todas. Trabalhei de gosto, com empenho, com energia, com tudo o que tinha. Dei-me por inteiro e de livre vontade. Mas fi-lo sabendo que, quando chegasse a hora, fecharia a porta e fechada ficaria.

Animava-me a vontade de começar uma vida nova. O meu dia a dia continua a ser de trabalho e faço-o com a mesma vontade e energia, motivação e crença, com que, quando trabalhava, me entregava a novos projectos. 

Estive a ouvir, com muito interesse, a entrevista na RTP 3 a João Luís Barreto Guimarães. Quando ouço pessoas assim, que sabem usar a palavra para construir poesia ou prosa, fico sempre um pouco espantada. Passado bastante tempo sabem o que escreveram, sabem porque usaram uma ou outra palavra, dizem que releram, refizeram, recompuseram. São aplicados, estudiosos da sua obra, têm explicação para o que fizeram. Quase todos são assim. E são bem sucedidos.

Se calhar, por ser o oposto, nunca serei bem sucedida.

Ao ler a biografia de Nelson Rodrigues, fantástico livro de Ruy Castro, leio que ele escreveu uma das suas peças mais conhecidas, elogiadas e bem sucedidas em poucos dias. Sentava-se a escrever e era de rajada. Sem revisão. De penalti.

E partia para outra.

Senti-me um pouco animada pois eu a escrever sou assim. Escrevo de seguida, muito rapidamente. Por acaso, depois, no fim, revejo e revejo umas três ou quatro ou cinco vezes, mas é na lógica das gralhas ou do acerto da pontuação. E, uma vez escrito, está feito, não leio mais. É assunto arrumado.

Não sou de escrever poesia. Não é o meu registo. No entanto, há para aí uns dois meses, deu-me para isso. Escrevi. De seguida. Não sei a que ritmo. Não sei se foi um ou dois poemas por dia ou mais. Uma coisa muito estranha. Não sei explicar.

Agora, ou ouvir o João Luís Barreto Guimarães falar da sua poesia e de como lima, apara, cose, tritura, borda, penteia, escova, corta e etc., os seus poemas, resolvi abrir o ficheiro com esses meus poemas. É que fiquei curiosa. Iria encontrar erros, falhas, aberrações? Li três poemas e não consegui ler mais. É como se me atingissem em cheio. Senti-me comovida, quase como se me atirassem contra uma parede, quase sem espaço para respirar. Não sei porquê. Para já é como se não tivesse sido eu a escrever. Já não me lembrava mas, lendo, relembrei-me. As palavras são minhas, sim, recordo tê-las escrito. Mas é como se não tivesse sido exactamente eu a escrever. Se alguém que saiba ler poesia os lesse talvez eu ficasse com vontade de chorar. 

É muito estranho, bem sei.

Claro que, face a esta minha reacção, não me ocorreu reparar se estavam harmoniosos, limpos, devidamente aperaltados para verem a luz do dia. Fechei o ficheiro e não li mais. 

Escrevo estas coisas com absoluta franqueza e temo que me achem um pouco louca. Se calhar sou. Se calhar não um pouco... mas completamente. Mas sou eu e eu sou assim. 

E, por hoje, é isto. Não vou comentar sobre os putativos candidatos a PR que por aí andam a bandear-se contra um cenário pintado de cor de laranja. Não me assiste. Deu-lhes a coisa antes de tempo. Além disso, nenhum faz o meu género. Portanto, passo.

Espero é que se pense no que importa e não em tretas que só servem para encher as agendas mediáticas.

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Desejo-vos um dia feliz

Saúde. Boa sorte. Paz.

quarta-feira, agosto 30, 2023

Um heaven quase civilizado, uma caldeirada de cabeça de safio e, como quem não quer a coisa, conversa/conselhos de escritores

 

Nunca antes tínhamos procedido a tamanha devastação. Décadas a lutar contra isto. Dei o peito às balas por cada pé de alecrim, de rosmaninho, de orégãos. E agora cedi.

Os caminhos quase tinham desaparecido sob a espessa camada de caruma e folhagem seca que já tinha fixado terra. Os arbustos, com esta seca, estavam ressequidos, quase sem vida. E, embora o meu marido já tivesse subido muitas copas, com as árvores a desenvolverem-se, já se tornavam baixas e compactas demais.

Acresce que este homem que ele desencantou e que vem com mais dois é gente que vive de limpar terrenos. Têm máquinas e experiência. E zero contemplações perante as minhas fantasias. Avançam a direito, deixando atrás de si uma camada de resíduos triturados, que mal se notam.

E depois, como já referi, ao ver, não desgostei de todo. 

Este lugar é agora outra coisa. Nunca tinha visto a terra assim. Antes era só mato rasteiro e pedras. Depois árvores pequenas. Depois árvores maiorzinhas e os arbustos autóctones a desenvolverem-se. Agora, depois desta operação (ainda em curso), é diferente: árvores grandes e quase zero arbustos. Vão rebentar com força na Primavera, asseguram-me. Espero bem que sim.

Hoje um pinheiro que estava seco já foi abaixo. Amanhã deve ir um gigante e dois cedros mortos. Uma tristeza. Mas tão ou mais triste é ver as árvores mortas e de pé.

E vários pinheiros já têm a copa lá em cima. E vários caminhos reapareceram.

A entrada da gruta foi limpa. Parece maior.

Já não ando, aflita, atrás deles. Coração ao largo.

Enquanto este trabalho decorria no exterior, trabalhei de sol a sol, na minha labuta. Hoje o meu marido sugeriu-me uma outra colectânea. Nunca nisso tinha pensado e é capaz de ser boa ideia.

Hoje para o almoço fiz uma caldeirada que ficou muito saborosa. Não deveria chamar-se caldeirada pois só tinha um peixe mas, como fiz da mesma maneira, chamo-a assim à mesma. Andava a apetecer-me caldeirada mas, no outro dia, só conseguimos ir ao supermercado por volta das oito da noite. Por isso, já apanhámos pouca coisa a nível de peixe. Tinham peixe para caldeirada mas não gostei, pareceu-me uma indigência, umas postazinhas com aspecto vintage, mal encaradas. Mas tinham lá cabeça de safio. Trouxe duas e pedi para as abrirem ao meio. O sabor do safio é muito bom e a cabeça tem as espinhas próprias das cabeças de peixe mas não misturadas como é o caso das postas do rabo. Ou seja, para quem goste de dissecar cabeças de peixe (como é o meu caso), é muito bom.

Fiz assim:

Num tacho largo coloquei cebolas grandes em rodelas grossas. Depois tomate maduro aos bocados, uma boa camada dele. Depois bocados de pimento e um bom ramo de salsa aos bocados. Por cima, batatas às rodelas grossas. Por cima as quatro metades das cabeças de safio. Por cima um pouco de sal. Depois mais uma camada de tomate aos bocados, outra cebola gigante às rodelas, o resto da salsa, um pouco mais de pimento. Depois uns dentes de alho, umas folhas de louro e um pouco de alecrim. Reguei com azeite. 

Foi ao lume, no máximo, com o tacho tapado. Quando ferveu, coloquei no mínimo e deixei cozinhar, sempre tapado, até que as batatas ficaram macias.

Ficou bem saboroso. E deu para o almoço e para o jantar. 

O meu marido torrou umas fatias de pão e pusemo-las no fundo do prato.

Sobrou caldo e com ele poderia ter feito uma massinha. Não fiz porque me deu preguiça.

Entretanto, ao espreitar o youtube, alguns vídeos que vi de gosto. Interessantes. Não sei se para vocês também terá interesse mas, se encarar que isto aqui é também, de algum modo, uma espécie de diário, vou aqui colocá-los.

Salman Rushdie: The One Thing You Can't Teach about Writing

"Every exceptional writer has some very personal relationship with the English language." Salman Rushdie talks to Charlie Rose about what can -- and can't -- be taught about writing.


Salman Rushdie on Writing as a Process of Discovery

University Distinguished Professor Salman Rushdie participated in a class discussion of "The Moor's Last Sigh" led by Associate Professor of English Deepika Bahri with undergraduate students at Emory University on March 7, 2012. Here he discusses writing as partly a process of learning about the characters and allowing the book to shift and take on a life of its own.

Advice for aspiring writers | Ian McEwan

Ian McEwan gives three pieces of advice for developing writers


Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Alegria. Paz.

terça-feira, agosto 29, 2023

Rubiales: os seus genitais e o beijo a Hermoso (consentido ou sem sentido)
- Assédio ou não assédio, eis a questão -
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Continuo entregue a tarefas comezinhas tais como fazer máquinas de roupa, estendê-la ao sol e ao vento, apanhar brinquedo aqui, coisa acolá. E também a tentar organizar minimamente os meus escritos e isto é, para mim, o pior. Gosto de criar e detesto 'manter' (catalogar, etc).

Dentro do possível, o dia foi, pois, tranquilo. Tenho sempre muito que fazer e quando é criar a partir do nada é um empolgamento; quando é inventariar e arrumar é uma missão que executo com algum sacrifício. De qualquer forma, sou geneticamente esforçada e, por isso, se meto na cabeça fazer uma coisa, eu faço, goste ou não goste. E, além disso, ocupa-me enquanto a minha mente não se ilumina para me guiar no caminho certo.

Com estas ocupações, não sei como, o meu dia esteve sempre preenchido. 

Felizmente dormi como uma santa. Dormia mais. Acordei porque fui acordada e também já não eram horas para voltar a cair no sono. A seguir ao almoço e depois de mais uma leva de roupa estendida, deu-me uma pancada de sono mas se caí no limbo da sonolência por uns dez minutos foi muito.

Ainda aqui não disse nada sobre o beijo do Rubiales na jogadora Jeni Hermoso e não disse pois tenho alguns mixed feelings. 

Ao ver o beijo, não me senti chocada. Pareceu-me não apenas haver euforia da parte dele como uma grande cumplicidade entre ambos. Que pessoas que se dão muito bem (como ela, depois, disse que davam), num explosivo momento de alegria exuberante e de consagração daquilo que muito desejavam, se beijem momentaneamente na boca não me choca. O vídeo completo mostra um apertado abraço, ele com os pés no ar, ela também exuberante, naturalmente bastante feliz da vida.

Coisa diferente seria se eu tivesse percebido surpresa ou desagrado da parte dela ou se, a seguir, em vez de tê-la ouvido desculpá-lo, tivesse ouvido que não tinha percebido, aceitado ou desculpado aquele beijo. Mas não. Não apenas me pareceu, num momento de grande euforia, o corolário de uma amizade e cumplicidade anterior como, no momento, não a vi minimamente incomodada ou surpreendida com o que se tinha passado.

Já me chocou, confesso, uma imagem que mostraram em que ele, no palco, está na maior explosão de alegria, aos saltos, aos gritos, de braços no ar e, às tantas,  tanta a adrenalina, agarra os próprios genitais. Parece coisa de excesso de testosterona, de pico orgástico -- mas, convenhamos, bastante despropositado em público. Aí diria que me parece inaceitável que uma pessoa com a responsabilidade dele tenha uma tão inusitada falta de maneiras. Mas este é um segundo tema e, que eu saiba, não é o que tem estado em causa.

Isto do assédio e do consentimento tem que se lhe diga e tem que ser avaliado por quem tenha os pés no chão, os neurónios a funcionar e um módico de bom senso.

Claro que se houver casos em que comprovadamente ele molestou, moral ou sexualmente, jogadoras ou outras mulheres, ou se fez depender o trabalho delas de cederem aos seus apetites ou caprichos, se foi inconveniente e desagradável causando-lhes incómodo ou pressão, aí as coisas, em minha opinião, mudam de figura.

Agora se foi só aquilo do beijo penso que antes de o crucificarem, queimarem vivo e apedrejarem, deveriam voltar a ouvir a jogadora. Se ela mantiver que são amigos, cúmplices de sonho e ambição, se têm grande confiança e à vontade e que não há nada a dizer sobre o beijo, então, o beijo não me parece caso para o que está a acontecer. 

Num caso destes não se põe a questão do consentimento pois não se proporciona parar e pedir: 'Posso dar um beijo?'. É um pico de euforia e ou bem que ambos têm cumplicidade para que isso aconteça ou não. 

Quanto à forma como publicamente agarrou os fogosos genitais parece-me, essa sim, muito incomodativa. Não sei se é caso para o sacrificarem publicamente ou se é caso de lesa-majestade mas acho que é, isso sim, caso para severa admoestação.

Quanto a ele, independentemente de tudo, ao ver o sururu que estava a ser criado, e ao ver-se a agarrar os genitais, o que penso que teria sido inteligente teria sido demitir-se. Simplesmente. Pedir desculpa se, com a sua exuberância emocional, tinha incomodado alguém e demitir-se. Tinha evitado muito exagero, muito moralismo, muita falta de bom senso. Tinha evitado ser esmagado, devorado, desonrosamente derretido  na praça pública.

PS - Volto a dizer: digo isto apenas pelo que vi pois não o conheço nem faço ideia de como se comporta social, profissional ou sexualmente.