quinta-feira, março 24, 2022

Christiane Amanpour versus Dmitry Peskov --
Uma mulher que tem tudo no sítio: cabeça, coração e o mais que importa quando se confronta um farsante com as suas mentiras e cumplicidades com um assassino em série.

 

Noutros tempos talvez eu falasse da composição do novo governo ou do meu agrado por ver mais mulheres que homens, por ver nomes de grande competência, por ver nomes que surpreendem. Mas estes são tempos estranhos e, por isso, digo apenas que acredito que vai correr bem. Apenas uma reserva: não sou grande simpatizante de Fernando Medina; mas as razões para isso talvez sejam de somenos face ao que se lhe exige. Tirando isso, há lá grandes nomes, a começar pela Mariana Vieira da Silva e a acabar em Elvira Fortunado. Portanto, boa sorte à nova equipa e bora lá para a frente, bora lá a tornar Portugal ainda melhor.

De resto, tenho a dizer que hoje estive a conversar com um jovem muito ligado à igreja e, familiarmente, com proximidade a um membro de um governo africano com ligações à Rússia. 

Bodies are buried in a mass grave on the outskirts of Mariupol, Ukraine. Photograph: Evgeniy Maloletka/AP

Nunca tinha falado com ele sobre política. É um jovem com trinta e poucos que gosta de música, que pratica desporto e muito activo na igreja, trabalhando com grupos de outros jovens. Pois bem: ao conversarmos sobre o que está a passar-se na Ucrânia, não consegui ouvir-lhe uma palavra de condenação em relação a Putin, uma única. De cada vez que eu mostrava a minha revolta pela chacina, ele vinha com a conversa típica dos que, acima do repúdio pelo assassínio em massa que os russos estão a levar a cabo, têm uma grande aversão à Nato. E, se queremos saber de que acusam a Nato, não sabem exactamente e enrolam-se em conversas abstractas e acusações pretéritas -- dizendo qualquer coisa que desvie a atenção da destruição feroz que Putin está a levar a cabo. Fiquei muito admirada. Conclui que os vínculos familiares e as afinidades com governantes de um país apoiante da Rússia estavam a falar mais alto mas fiquei chocada pois parece que isso era mais relevante do que a sua ligação à Igreja. Julgava eu que alguém tão ligado à prática religiosa ficaria chocado, esmagado, revoltado com tanto sofrimento. Mas não. Nem uma palavra sobre isso.

Fiquei perturbada com a conversa. Parece que ainda não estou refeita.

Agora, enquanto escrevo, estou a ver na RTP 3 uma interessante entrevista do Vítor Gonçalves ao Vítor Cotovio, psiquiatra. Mesmo muito interessante. A quem não viu, recomendo que, se possível, a veja. Caracteriza muito bem quer Putin quer Zelenskyy.

Entretanto, estive a ver os vídeos das últimas 24 horas. E, como sempre, a Amanpour, essa mulher de armas. Directa, sem dar abébias, sem meias palavras, atenta ao que os outros dizem, sempre com a observação ou a pergunta certa. Uma profissional de mão cheia.

No vídeo abaixo, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, cuja filha se demarcou publicamente da guerra, repete a propaganda putinesca. Mas, apesar de manter afivelado aquele sorriso meio apalermado que o caracteriza e se limitar a papaguear uma conversa que pode colher dentro de uma Rússia informativamente às escuras mas que, no mundo normal, é incompreensível e absurda, tenho para mim que estava francamente atrapalhado e envergonhado. Christiane Amanpour não o poupou mas o palerma também não desarmou. É gente presa pela barriga, habituaram-se ao luxo. Mas, não fora isso, e talvez Dmitry fosse o próximo Anatoly Chubais.

Partilho o vídeo pois não apenas é um documento interessante como me parece um exemplo a seguir pelos nossos jornalistas.

CNN's Christiane Amanpour presses Russian spokesman Dmitry Peskov on the Russian invasion and whether they are achieving their objectives in Ukraine


Para esclarecer Dmitry, o pateta sorridente:

CNN military analyst: 'This is just war criminality'

CNN Pentagon correspondent Barbara Starr reports the US government is currently assembling evidence to potentially present a war crimes case in an international court. CNN military analyst Maj. Gen. James "Spider" Marks (Ret.) breaks down the current strategy of the Russian armed forces, arguing it can only be described as "war criminality."

Saúde. Boa sorte. Afecto.
PAZ

quarta-feira, março 23, 2022

Masha conta a conversa que teve com o pai, o actor e realizador Vladimir Mashkov, público apoiante de Putin.
E eu, aqui na minha santa vidinha, conto parte do meu dia.

 



Sou uma pessoa com sorte. Ali tão perto há cidades desfeitas e gente morta e milhões de pessoas que deixaram ou perderam a família e a casa e os bens de uma vida. Eu, pelo contrário, consigo continuar a viver a minha vidinha de sempre. Não ouço sirenes, não vivo num abrigo subterrâneo nem estou a caminho sabe-se lá de onde, nem vivo numa casa desconhecida num país desconhecido onde se fala uma língua desconhecida. Tenho sorte e sei que a tenho e, por isso, por valorizar esta sorte, sinto-me agradecida. 

À hora de almoço fui, numa corrida, às compras. A seguir ao almoço tinha uma reunião e, por isso, não poderia alargar-me. Estou agora tão desabituada de incumbências variadas que, ainda por cima, pressionada pelo tempo, com medo de me esquecer de alguma coisa, escrevi uma mensagem a mim própria com as coisas de que não poderia esquecer-me: bananas, meias para o meu marido, um presente para a minha mãe, uma coleira para o ursinho, produto para a humidade, talvez já alguma coisa para o pequeno carneiro que, não tarda, fará anos (em vez de 'pequeno carneiro' talvez devesse, antes, dizer 'borreguinho mais fofo').

Quando estacionei no centro comercial, com receio de me despistar e, depois, não dar com o carro, mandei outra mensagem, desta vez ao meu marido, com o piso, o lugar e a cor em que estava.

Claro que tive vontade de ir espreitar os perfumes novos tal como tive vontade de ir espreitar livros novos. E entrei na Natura e vi um casaquinho fino que não era um casaquinho mas uma rede finíssima em forma de quase casaquinho, quase transparente, naquele tom de verde dourado que tanto me cativa. Mas controlei-me. 'Não preciso'. Segui. Ando minimalista e sinto-me bem assim. Tal como quando deixei de fumar me senti orgulhosa por ter deixado vício tão estúpido também agora me sinto feliz por ter deixado de ser consumista. Portanto, de loja em loja, focada exclusivamente naquilo de que precisava, consegui despachar tudo. Para lá e para cá fui na companhia da antena 2. Abri a janela, pus o som bem alto. Boa música, uma injecção de ânimo para a minha alma que tem andado a tender para o meio-apagado.

Nunca falei aqui mas acho que nem precisaria: obviamente acho a maior parvoíce banirem-se artistas, compositores, autores russos (ou de qualquer outra nacionalidade). Espero que quem se vingou de Putin banindo a arte russa rapidamente perceba o disparate e reverta a decisão. A arte está acima da guerra, acima das conjunturas, acima da estupidez humana. A arte é intemporal, é eterna, é a manifestação suprema da liberdade. Banir a arte é não perceber nada da vida. 

E depois almocei muito à pressa, fui para a minha reunião, depois fui caminhar, depois fomos comprar uma pizza. E depois regressei a este meu poiso e partilhei um interessante vídeo sobre os cenários possíveis para o fim da guerra.

E agora aqui estou, jogando conversa fora antes de partilhar um vídeo que me impressionou bastante. Masha, uma bela actriz russa, conta a conversa -- estranha, desagradável, perturbadora -- que teve com o pai que apoia Putin e que não acredita que haja uma guerra. Pelo contrário, acha que a filha, ao criticar Putin, pode ser acusada de traição e aconselha-a a regressar à Rússia. Imagino o medo, a tristeza e a preocupação de uma filha cujo pai apoia um ditador criminoso, num país em que se vive sob o signo do medo e da repressão.

Russian actress Masha Mashkova is speaking out against Russia's war in Ukraine after her father, Russian actor Vladimir Mashkov, spoke at Vladimir Putin's rally in support of the war


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As fotografias do Lago dos Cisnes são da autoria de Alex Axon

A música é da autoria de Tchaikovsky - Concerto Pour Piano No.1 Allegro Non Troppo, Opp.23

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Saúde. Sorte. Paz.

Como pode acabar a guerra na Ucrânia?

 

No meio dos meus afazeres profissionais e domésticos, num dia escuro e acabrunhado, com tudo molhado e a pequena fera a vir para casa patinhar-me o chão, vou tentando saber quais os avanços e retrocessos nesta destruição cega e selvática. Sobretudo tenho sempre esperança de descobrir indícios de que há uma luz ao fundo de um imenso túnel.

Mas não descubro. 

Continuo a acreditar que as coisas se resolverão no seio da própria Rússia. Perante a estratégia falhada a nível militar, Putin vai sacrificando mais vítimas. Cada vez está mais brutal e ameaça escalar ainda mais o nível de destruição. Mas isso há-de ter um limite. Tenho esperança que haja algum daqueles trogloditas que o rodeiam que, perante a chacina diariamente imposta para disfarçar o fracasso, um dia diga 'basta'. E que mais vozes se lhe juntem. E que actuem.

Provavelmente terão que ser heróis pois sabem, melhor que ninguém, que, ao enfrentarem o cão raivoso, é a própria vida que estão a arriscar. Mas entre morrerem dignamente, salvando a Ucrânia e a Rússia, ou morrerem mais tarde por suicídio por não conseguirem viver com o peso de tanta destruição na sua consciência, talvez alguns optem por morrer dignamente.

Tenho esperança que não falte muito pois acredito que perante o público fracasso desta invasão criminosa, Putin acuse cada mais mais ofensivamente os militares com quem trata destes assuntos. Fala-se que já mandou prender uns quantos. Vimos como humilhou publicamente o responsável pelos Serviços Secretos. As ameaças e vergonhas a que diariamente devem estar a ser sujeitos podem ser o gatilho que vai espoletar a solução para este drama.

Entretanto, como disse, vou tentando ouvir opiniões. Partilho convosco uma interessante análise da Sky News.

Ukraine war: How might it end?

There are multiple possible scenarios, from outright victory for either side, to a new world war where everyone loses.


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A fotografia é de Vivian Rongitsch

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Em princípio ainda cá volto hoje pois tenho aqui uma outra coisa para partilhar. Portanto, até já.

terça-feira, março 22, 2022

De que conversamos quando conversamos sobre isto?

 


Hoje falei com uma pessoa com quem não falava há mais de um mês. Quem nos diria a nós que quando, naquela tarde, conversámos pondo calmamente a conversa em dia, falando de tantos assuntos distintos, estávamos prestes a testemunhar algo de impensável. Se, nesse dia, nos tivessem perguntado se imaginaríamos o que viria a acontecer teríamos dito que nem pensar, que o mundo tem aprendido com os erros, não os iria repetir, teríamos dito que o mundo quer paz e ir em frente, que agora a malta quer é ser feliz. 

Comentamos muitas vezes, enquanto sorrimos: a malta quer é ser feliz. Brincamos um bocado com isto e com o que nos parece curioso de, nas entrevistas de emprego, os jovens, quando se lhes pergunta se têm dúvidas ou se querem mais informações, perguntarem logo quando poderão ter férias. E, quando se lhes pergunta qual o seu objectivo de vida ou coisa do género, quase invariavelmente o que aparece é que querem ser felizes, querem conseguir gerir harmoniosamente a vida profissional e a vida familiar. E, nas empresas, estudamos a melhor forma de ir de encontro a esta tendência que nos parece tão saudável. Portanto, animados com este espírito de peace and love, como imaginar que, dias depois, um cão raivoso mandaria invadir um país, arrasá-lo e exterminar a sua população. Como poderíamos...? Impensável!

Hoje, ao conversarmos, ele estava outro: abatido, transtornado, preocupado. Estou a falar de uma pessoa com uma passagem por um dos ramos mais interventivos (digamos assim) das Forças Armadas e com profundos conhecimentos quer de História quer da actualidade. As conversas com ele nunca são conversas banais. E é conversador, vibra com os seus argumentos, com as ligações que faz. Hoje não, hoje faltava-lhe o brilho, a veia, o entusiasmo. Estava cansado, desistente. Tudo o que disse revelava grande preocupação.

Enquanto ele falava ou ficava em silêncio, ocorreu-me que uma das muitas coisas que me causa mais impressão (e há tantas) é isto de os russos terem mandado para a guerra tantos miúdos impreparados e desinformados, mal alimentados, mal comandados e que, quando fatalmente atacados, ficam caídos pelas estradas e pelos campos, jovens antes cheios de sonhos e, de repente, transformados em 'corpos'. E ninguém vem resgatar os corpos russos. Do lado de lá, da Rússia de Putin, dizem que não precisam dos corpos para nada. E ali ficam, jazentes, como se fossem coisa nenhuma. 

Vi um vídeo em que se viam várias carrinhas em andamento, em fila, numa estrada. Diziam que eram carrinhas ucranianas carregadas de jovens russos, mortos, que iam entregá-los. Como será que as mães destes jovens ficam sem saberem deles, sem saberem se estão vivos ou mortos? Nem consigo sequer imaginar o sofrimento maior se um dia vierem a saber que os seus meninos ficaram mortos, por terra, sem que ninguém quisesse saber deles.

Hoje vi que os russos têm carros crematórios onde queimam os soldados mortos para não terem que levá-los de volta para casa. Há neste desprezo pela vida uma desumanidade que me deixa arrepiada. Todas as guerras são imperdoáveis, todas as mortes em guerra são vidas estupidamente desperdiçadas, todo o pânico vivido em cenário de guerra é insuportável. É certo. Que ninguém duvide disso. Mas mesmo as guerras mais ferozes costumam obedecer a algumas regras. Mas não as guerras em que participa Putin. Penitencio-me mil vezes por antes não estar tão desperta para a forma demoníaca e raivosa como Putin arrasa tudo por onde passa, como exibe um total desprezo pela vida, pelo património, pela cultura. 

É também certo que, nas guerras, a contrainformação é uma arma poderosa. Acontece que nesta guerra, que terá também a sua contrainformação, as coisas passam-se em tempo real, à vista de todos, escrutinadas por órgãos de comunicação social idóneos, com presença efectiva no terreno, com transmissão 'live'. Os filmes que se vêem não são vídeos editados a posteriori, com manipulação de imagens. São apontamentos captados e transmitidos em directo. Portanto, não nos deixemos tolher com medo de estarmos a ser manipulados nem, por delicadeza ou receio de falhar nos nossos juízos, nos deixemos matar ou deixemos que matem toda uma população.

Não sei como vai esta tragédia acabar mas, se cá ficarmos para recordar, espero que nunca esqueçamos o horror que temos presenciado e a dor a que tantos milhões de pessoas têm estado sujeitas. Espero que os nossos corações não abandonem as nossas cabeças pois se não há tanques ou mísseis que intimidem a crença e a vontade de quem se quer livre, a verdade é que o medo por vezes verga as nossas vontades e a indiferença adormece as nossas consciências e impede a nossa compaixão e solidariedade -- e isso não pode acontecer.

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Ukraine War: Chaotic shelling as Russia accused of refusing to repatriate dead soldiers

Война на Украине: хаотичные обстрелы, поскольку Россию обвиняют в отказе репатриировать погибших солдат


Ukraine War: 'People were barefoot and running over dead bodies'

Война на Украине: «Люди ходили босиком и бегали по трупам»


Chilling footage shows mobile crematorium which could be used for Russia soldiers

Ужасающие кадры показывают мобильный крематорий, который мог быть использован для российских солдат


Mas partilhemos a esperança que anima os corajosos Ucranianos

Zelensky: Yes, Ukraine WAS beautiful, but now it will become GREAT -- "Great Ukraine"

Зеленский: Да, Украина БЫЛА красивой, но теперь она станет ВЕЛИКОЙ -- "Великая Украина"


          Transcrevo do Youtube:
This is a compelling video. And it highlights 3 fundamental truths that Putin cannot change:

-Ukrainians are not Russians
-Ukraine is not part of Russia
-Ukraine will never be part of Russia

Putin has already lost. Our goal is to make him realize that sooner rather than later.
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As fotografias que usei acima são algumas das que os frequentadores do Bored Panda estão a enviar com as cores da Ucrânia.

Lá em cima Amelia Anisovycha menina ucraniana que antes tinha cantado ‘Let It Go’ enquanto se escondia num abrigo contra bombardeamentos, canta agora o hino nacional ucraniano um concerto de beneficiência no Atlas Arena em Lodz perante milhares de pessoas.

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Saúde. Esperança. Paz. 

segunda-feira, março 21, 2022

Crónica de um dia normal em tempos muito pouco normais

 


Tenho muita vontade de que aconteça alguma coisa que nos volte a colocar no trilho da normalidade. Sofro pelo que acontece e, de cada vez que, na televisão, vejo um prédio esventrado, uma pessoa a chorar mostra a sua casa toda destruída, abrigos cheios de gente amontoada, comboios ou camionetas cheias de gente que olha pela janela com o olhar perdido, crianças que deixam a sua vida cheia de futuro para ir rumo ao desconhecido, sinto compaixão, revolta, incompreensão, espanto, admiração, medo. 

Tento não pensar apenas nisto, não quero ficar obcecada, mas, de cada vez que não penso, quase sinto que estou a trair a solidariedade que aquelas pessoas tanto merecem. 

De manhã fui passear à beira-mar com a minha mãe. Estava cinzento e a ameaçar chover mas, mesmo assim, arriscámos. O urso felpudo fica numa alegria, salta, salta, abraça-a. Lá em casa, corre pela casa toda e, num ápice, vê o que pode apanhar para fazer avaria: uma almofada, um trabalho em crochet com novelo e agulha agarrada. Ela zanga-se mas vê-se que lhe acha muita graça. 

Vi também o meu tio e uma das minhas primas. Ela não conhecia ainda este franjinhas, espantou-se por ele ter os olhos tapados por pelo, e, com ternura, falou dos seus dois, um já idoso e outro mais novo. Ao contrário de outra das minhas primas que é relativamente parecida comigo na maneira de ser, esta sempre foi muito diferente. Sempre se portou bem, sempre estudou muito, sempre fez tudo o que se considera certo. E continua a ser assim. É muito pragmática, muito directa mas, ao mesmo tempo, sempre com o comportamento exemplar que os pais desejavam. Eu era aquela por quem os meus pais receavam pelo que os vizinhos ou familiares poderiam dizer, sempre muito independente e sempre completamente nas tintas para o que dissessem ou deixassem de dizer. Pela minha prima nunca houve esses receios. Muitas vezes a minha mãe confrontava-me com o exemplo da minha prima. Nunca tal me incomodou pois a mim fazia-me confusão ela ser sempre tão bem comportada, nada reivindicativa, nada problemática, sempre tão estudiosa e sempre tão bem arranjada. Por isso, sempre senti admiração pela sua maneira de ser embora sempre tenha sentido uma certa dúvida sobre se ela é absolutamente assim ou se há nela, nalgum recanto secreto, alguma vontade de inconformismo ou alguma saturação pela vida de trabalho, esforço e bom comportamento que sempre teve. 


De tarde fomos até a um viveiro de plantas. Uma das trepadeiras que está junto a uma das janelas do meu quarto parece que está morta. Não há a certeza do óbito mas, pelo menos, adormecida está. O meu marido não tinha vontade, apetecia-lhe estar em casa sem nada que fazer. Além disso, o tempo estava desagradável. Mas fomos pois durante a semana nunca conseguimos e agora, com a chuva, é capaz de ser boa altura para esta operação. Tinha chovido e tudo, lá no viveiro, estava molhado mas, talvez por isso, ainda mais bonito. Mais parece um jardim botânico do que um viveiro. Sempre gostei de viveiros, daquele ambiente verde, das plantas que nascem e se desenvolvem, do conhecimento íntimo que os jardineiros têm de cada pormenor do seu desenvolvimento. Descrevi o que queria e a jovem jardineira foi-me mostrando as que davam flores mais bonitas, as que precisavam de mais sol, as de crescimento mais rápido. Escolhi uma que dará flores em cor de rosa clarinho. Trouxe uma já crescidinha. Infelizmente esqueci-me do nome para poder ler alguma coisa sobre ela. 

Já a transplantámos. Como não quis arrancar o tronco da que está adormecida, quiçá num sono duradouro, e como está encostada à casa, junto ao caminho empedrado, não havia margem para fazer um buraco grande. E como o vaso era grande, a situação estava complicada. Fez-se o que se pôde. Espere que resulte bem. Uma trepadeira florida é uma coisa bonita. Dá vontade de regressar a uma casa que tem trepadeiras floridas.

Enquanto jardinávamos, o urso felpudo brincava, tentava disputar-nos a pá, rebolava-se na terra e bebia a água dos pratos dos vasos. Para ele isto deve ser a felicidade.

Andei a fotografar as flores. O jasmim florido e perfumado, a glícínia, a outras trepadeiras. Agora, de vez em quando, já consigo descobrir os passarinhos que se escondem por entre os ramos das árvores. Fico feliz quando vejo um.

Quando fizemos uma caminhada ao fim do dia, começou a querer chover mas felizmente pouco. Encontrámos uma senhora que procurava o cão perdido há uma semana. Continua a procurá-lo. Num estado de ansiedade, quase a chorar. Percebo-a bem. Quando se perde um animal que é da família, não se sabe se está bem, se anda perdido, se alguém ficou com ele, se sofre. Claro que ao vê-la tão ansiosa e agora ao escrever penso como é tudo tão relativo. Lá ao longe mas aqui tão perto caem mísseis, ouvem-se explosões, fica-se sem casa, perdem-se familiares, não se sabe o que vai ser da vida -- e, no entanto, as pessoas sobrevivem e lutam pela liberdade. E esta senhora angustiada pelo seu amigo perdido. E a angústia é também grande, bem o vi pelas suas lágrimas e pela voz presa ao descrevê-lo, meigo, bom companheiro.

Entretanto, leio notícias. Leio blogs. Leio sobre perdas. Emociono-me. Todos vamos sofrendo perdas ao longo da nossa vida. Algumas perdas doem-nos mais. Umas são irreversíveis, outras pode ser que não. Que não se perca a esperança. Algumas são incompreensíveis e, talvez por isso, muito dolorosas: perdemo-nos sem sabermos porque nos perdemos, porque, na realidade, não queríamos perder-nos. A vida é feita também de labirintos. E de abismos. 

Há pouco, ao estar aqui, passei pela 2 e estava a acabar uma entrevista à Ana Cássia Rebelo. Pus para trás e vi do início. Desconcertante e divertida. Não tenho o seu Babilónia. Não sei se quero ler. Tenho que folhear para perceber.

Agora chove. Ouço a chuva lá fora. Aqui ao pé de mim a pequena fera está deitada de barriga para cima, cabeça de lado, pernas abertas. Mexeu-se e soltou um suspiro, depois ajeitou-se. Vive em paz e está junto aos donos que o protegem e acarinham.

E eu, a cada momento, penso que era bom que acontecesse um milagre, que o mal fosse varrido da superfície da terra, que a vida voltasse ao normal, que quem se perdeu se reencontre. Tenho esperança.


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Saúde. Paz. Reencontros.

domingo, março 20, 2022

No meio das mil sombras de grey é bem visível uma linha muito vermelha, tingida de sangue

 


Aprendemos, quando estudámos História, que há sempre gente que se põe do lado do invasor. Desde tempos imemoriais. Enquanto uns querem manter a nacionalidade com que nasceram e defendem a sua terra como se defendessem a sua casa e o seu coração e querem a independência da sua terra e do seu espírito e a liberdade para escolher o que querem, há sempre os que se baldeiam para o lado de lá, defendendo os agressores. Sempre assim foi. Corre-lhes nas veias o sangue de Miguel de Vasconcelos. Vêem vantagens em alinhar com os invasores, criticam os que lhes fazem frente. 

Claro que lutar pela liberdade custa muito. Por vezes custa a liberdade. Por vezes custa a vida. Mas há os que antes livres, embora em risco, do que ajoelhados e servis.

Não vale a pena eu tentar imaginar o que faria se fosse ucraniana e quisesse continuar ucraniana e quisesse viver civilizadamente, livremente, junto dos outros europeus livres e, ao mesmo tempo, tivesse medo da ameaça do ditador assassino. Se calhar lutava com todas as minhas forças a favor da Ucrânia livre, quereria que a Ucrânia aderisse à UE e, provavelmente, com medo de que neutralidade significasse ficar indefesa, quereria que a Ucrânia pertencesse à Nato. Se calhar.

Há por aí muito fala-barato a pregar que a Ucrânia não apenas deveria estar caladinha para não afrontar o violador Putin como que nunca deveria ter dito que gostaria de estar dentro da Nato. 

Mas o que se vê é no que deu a neutralidade em que a Ucrânia está. Neutral e indefesa -- sem que a Nato se arrisque a defendê-la não vá o criminoso carregar em mais botões, nomeadamente os nucleares, e não apenas abrir uma cratera invernal onde andes havia um país como espalhar a guerra por todo o mundo. Se a Ucrânia pertencesse à Nato certamente o cão raivoso teria pensado duas vezes. Assim está à vontade: destrói, esventra, dizima, extermina. E nós, os civilizados, os livres, nada podemos fazer para travar o criminoso porque, como a Ucrânia não pertence à Nato, estamos de pés e mãos atados. Bela neutralidade a da Ucrânia... muito conveniente para a Rússia. 

E, perante estes crimes tenebrosos, ainda há quem venha criticar a Ucrânia ou lembrar guerras pretéritas. Não sei como funciona a cabeça desta gente que, num momento em que o que há a fazer é exigir o fim da guerra e o fim da invasão e afirmar o total repúdio pela actuação de Putin, aparecem a invocar outras guerras e nem todas com mão de Putin. Claro que nem todas as guerras à superfície da terra têm mão de Putin. E daí? 

Vamos continuar a matar-nos uns aos outros até que não sobre vivalma porque antes houve uma guerra e antes de essa uma outra e antes uma outra e antes uma outra e antes uma outra? Vamos ser burros a esse ponto?

O mundo não é linear nem a história é a preto e branco. Sei que há muitas sombras, muitos cinzentos, mil sombras de cinza. Mas no meio de tudo há uma linha vermelha, traçada a sangue. E aí a compreensão dos factos simplifica-se: há os que estão de um lado dessa linha e os que estão de outro.

Eu estou do lado da liberdade, da democracia, do direito à livre escolha dos cidadãos, eu estou do lado da paz. Nem tudo é perfeito neste lado. Mas, ainda assim, é o lado que prefiro. Do outro lado há os que defendem regimes autocratas, ditatoriais, intimidatórios, os que não querem saber de liberdades e direitos individuais, os que não respeitam a dignidade ou a vida humana.

E há ainda a corte dos agressores, violadores, assassinos: gente que os desculpabiliza, que acusa as vítimas, que invoca os 'mas' que sempre há para invocar. Do lado desses, bem como do lado dos cobardes, vendidos e influenciáveis claro que não espero mais do que aquilo de que são capazes: intriga, ameaças, manipulação, maledicência, conversa fiada.

Mas dos corajosos eu espero que não se calem. 

É importante que muitas vozes consigam chegar até à Rússia. É importante que comece a formar-se na opinião pública russa o sentimento de revolta e de consciência da insustentabilidade daquele regime corrupto, podre, diabólico, malévolo. É importante que rapidamente apeiem o criminoso. Putin tem que ser impedido de continuar a fazer mal, tem que ser impossibilitado, seja de que forma for, de continuar a espalhar o mal e a envenenar o ar que se respira.


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Fotografias, uma vez mais, do Guardian

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E a vida continua. Este sábado foi um dia muito feliz para nós, cá em casa. Estivemos todos juntos, em família, estivemos bem e em paz. Excepto eu e o meu marido, todos os outros, graúdos e miúdos jogaram ténis, brincaram. E comemos à volta da mesma mesa, conversámos. Um dia sereno.

Como eu desejo que todos, todos, possam estar bem, de boa saúde, apaziguados, tranquilos, sem inimigos, fazendo planos para o futuro... 

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Saúde. Paz.

sábado, março 19, 2022

Depois de um pôr-de-sol vivido em plena paz, alguns apontamentos:
uma condessa fala do maníaco, um homem é resgatado dos escombros, uma repórter de guerra fala do que viu e uma menina emocionada recebe flores do Presidente de quem as amigas tanto falam no TikTok

 




Hoje de tarde a reunião correu bem. Uma reunião tranquila com opiniões convergentes e sem atritos numa sexta-feira à tarde só pode resultar de um alinhamento astral virtuoso.

A seguir, troquei umas mensagens com um dos participantes, depois vi e enviei uns mails e ainda consegui sentar-me cá fora a apanhar um pouco de sol. Comigo, a pequena fera. 


Tentei penteá-lo e quase consegui. O pêlo está cada vez mais farto e comprido e ele cada vez maior e mais forte. Ele gosta de ser penteado mas não consegue estar sossegado: rebola-se, tenta morder a escova, torce-se, tenta apanhar a minha mão. Tudo a brincar, sem magoar... mas a obrigar a algum cuidado pois com aquela bestinha nunca se sabe.

A patinha da frente que foi rapada quando esteve internado (por causa da lagarta do pinheiro) já está outra vez a ficar peluda. 

Depois de escovadinho ficou ainda mais fofo.

A professora diz que ele é um mimado, que não deveríamos dar mimo gratuito: só deveríamos mimá-lo quando ele obedece a ordens, mesmo que tenhamos que dar-lhe ordens gratuitas, só mesmo para que ele obedeça. Mas esqueço-me. Dou por mim a dar-lhe mimo só por dar, só porque ele merece e merece só porque existe e é inocente.

Agora, enquanto escrevo aqui na sala, está deitado no chão, a cabeça encostada a uma almofada que tomou como sua. Um grande tufo de pêlo, respirando na maior paz. Cãozinho sortudo. Não sabe o que são maus tratos, sustos, maldades.


Entretanto reparei que a glicínia está florida. Não sei como, não dei pela evolução. Às vezes não reparamos nas coisas importantes e belas que estão mesmo ao pé de nós. Damo-las por adquiridas, já nem lhes prestamos atenção. E, no entanto, como as pessoas que estão debaixo de guerra deveriam gostar de ter disponibilidade para reparar nas flores que despontam pela primavera. Talvez até as flores por lá tenham sido arrasadas. Será que ainda há flores nas cidades bombardeadas e esventradas da Ucrânia?

Só hoje reparei como já está em flor, lilás, delicada, primaveril. Fotografei, encantada. Que bom.

Dali resolvemos ir passear para a praia. Nestas sextas-feiras assim sinto-me como se estivesse a entrar em férias. Não estou, é só um fim de semana. Mas, para mim, sabe-me a férias.


Estava uma temperatura amena, um ambiente agradável, umas cores fabulosas. Muita gente, muitos jovens, muitas crianças. A paz é isto. Podermos passear descontraidamente à beira da água, desfrutar a tranquilidade de uma tarde em que o sol se dilui no mar, em que as pessoas fazem ginástica, as crianças andam de skate ou de bicicleta, um homem toca trompete, outros passeiam o cão, conversam, correm -- fazem o que querem, em liberdade, sem medo, alheados de preocupações. Paz.

Fui fotografando, sentindo aquela felicidade que sabe melhor por se sentir que é frágil, que pode ser efémera. Fui captando momentos, tentando registar a beleza da luz, a ternura de um abraço, a cumplicidade de um amor.

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Entretanto, à noite, de regresso a casa, voltei às notícias. Voltei a procurar sinais, explicações, sinais de esperança, testemunhos na primeira pessoa, gestos imprevistos. Partilho-os.

Alexandra Tolstoy Shares How Life Is Inside Putin's Inner Circle | Lorraine

With the Ukraine war entering another week, and horrific images and reports continuing to dominate the news - we're turning our attention to the man who is behind the invasion - Vladimir Putin.

Alexandra Tolstoy is a former partner of Russian oligarch Sergei Pugachev, who was a one-time close ally of Vladimir Putin, even acting as his personal banker, and Alexandra has been in close quarters with Putin and his confidantes.

She tells us what he was like, what she thinks about the rumours about his health, and how she feared for her life when her ex-partner was cast out from Putin's inner sanctum

She also shares her fears for Russia, and whether she thinks the sanctions will have any impact - and revealing the truth about the rumours behind Putin's motives, and the many questions about his health.



Ukraine War: Rescue workers locate a survivor under rubble after phoned for help

Rescue workers were alerted of a survivor under the rubble of a destroyed building in Kharkiv by a phone call for help.

Using saw, shovels and their bare hand in the freezing cold - the emergency workers found and freed the man.


War Photographer Lynsey Addario: “They Were Killed Before Our Eyes” | Amanpour and Company

New York Times Pulitzer Prize-winning photojournalist Lynsey Addario has covered every major conflict and humanitarian crisis of her generation. In Ukraine, she captured an image that shocked the world and became one of the defining images of this war: a mother, her two children, and a friend, all killed by Russian mortar fire when fleeing Irpin, a village on the outskirts of Kyiv. In a week that saw four journalists killed while covering the war, she speaks with Hari Sreenivasan about what it means to witness history.


Hospitalised teen becomes emotional meeting Ukrainian president Volodymyr Zelenskiy

A teenager was overwhelmed when Ukrainian president Volodymyr Zelenskiy shook her hand and gave her flowers during a visit to people wounded by Russian attacks at a Kyiv hospital on Thursday. 
Sixteen year-old Katya Vlasenko, who was wounded when the car her family was travelling in came under fire, told the president he was a hero on social media platform TikTok, to which Zelenskiy responded: 'Oh yes? So we have occupied TikTok?' 

Katya's family was trying to escape fighting in the area north-west of the capital Kyiv when their car came under fire near Hostomel 

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Desejo-vos um bom fim de semana
Paz

sexta-feira, março 18, 2022

Informação a quem me envia comentários ou mails com propaganda a favor de Putin

 

Desde que esta guerra infame começou que venho recebendo mails ou comentários com conversas contra a Europa ou contra a Nato, a pôr as culpas da invasão na própria Ucrânia e, directa ou indirectamente, a desculpar a criminosa actuação de Putin ou, imagine-se, a ameaçar-me.

Obviamente não publico esses comentários, por muitas vezes que mos enviem nem respondo aos mails por insistentes ou desagradáveis que sejam. Não vale a pena estarem a perder o vosso tempo.

Embora já o tenha dito em algumas observações que coloquei na caixa de comentários, repito-o aqui para que não restem dúvidas: o Um Jeito Manso não é a casa da mãe Joana onde entra quem quer. Não. Aqui quem manda sou eu e só cá entra quem eu quero. Escrevo o que quero e publico os comentários que quero. E não sou isenta. Se gosto de uma coisa é dessa coisa que digo bem. Se não gosto, digo que não gosto. Tanto quanto possível, tento ser directa, inequívoca. Não procuro a equidistância. Procuro a clareza, a franqueza, a rectidão.

Podem mandar-me comentários cheios de maiúsculas ou com 14.000 almas (em alguns textos as almas são 15.000, noutros são 13.000), com árvores derrubadas, com os bebés do Saddam, com o que a Nato fez há uns anos aqui ou ali... ou com o que quiserem. Não publico.

N' Um Jeito Manso não verão propaganda a favor de criminosos, de bandidos, de assassinos nem verão conversa fiada a acusar as vítimas.

Para que não restam dúvidas: não gosto de ditadores, não gosto de tiranos, não gosto de gente que atenta contra a liberdade de expressão ou de opção, não gosto de quem manda envenenar opositores, não gosto de mitómanos poderosos que, para se sentirem os maiores, não se importam de humilhar ou matar os outros mesmo que esses outros sejam inocentes, crianças, doentes, velhos.

Por isso, não percam tempo. Aqui, neste blog, verão sempre uma intransigente defesa da justiça, da liberdade, da democracia, do direito ao respeito e à dignidade, do humanismo, da paz.

E penso pela minha cabeça, não pela dos outros. Podem mil leitores, mil comentadores, mil entrevistados na rua, mil vizinhas andar a dizer, a repetir, a papaguear uma coisa que eu, se não acreditar, não a papo.

Portanto, uma vez mais: não percam tempo.

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Luba and Volodymyr Skrypnuk lay their son Ivan to rest in Lviv, Ukraine. 
Photograph
: Alex Kent/REX/Shutterstock


Já agora, esqueçam todas as tretas que me enviam e reflictam no que a imprensa credível e internacional, em uníssono, vem reportando.

Veteran photojournalist Heidi Levine in Kyiv describes moment that gave her nightmares


Serhiy Perebyinis describes to CNN's Erin Burnett the moment he found out that his wife and two children had been killed after recognizing them in a graphic photo on Twitter.


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Paz

quinta-feira, março 17, 2022

Alô, alô, Papa Francisco!
Não seria uma boa ideia que, durante uns dias, V. circulasse entre Mariupol, Odessa, Kyiv e todos os outros locais que estão a ser martirizados às mãos de Putin?

Здравствуй, здравствуй, Папа Франциск!
Не было бы хорошей идеей для вас поездить на несколько дней между Мариуполем, Одессой, Киевом и всеми другими местами, которые терпят мученическую смерть от рук Путина?

 



A Nato não pode entrar em território não-Nato para o defender. Percebo. Com um maluco do outro lado, é melhor não correr o risco desta chacina se estender a todo o mundo.

Os capacetes azuis existem para defender a paz, não para entrarem em palcos de guerra -- bem mo recordam aqui em casa quando me insurjo por não avançarem tropas independentes para tentar salvar aquele país.

Além do mais, há decisões internacionais que, por meritórias que sejam, basta um membro integrante procrastiná-la ou vetá-la para a coisa não ir adiante. Parece-me, pois, ajuizado expulsar agora a Rússia de todos os Conselhos em que possa exercer direito de veto (apesar de todos os danos colaterais que isso tenha). Sabe-se que isso é provisório, durará apenas até que o criminoso seja apeado e que a Rússia volte a ser governada por gente de bem mas nada disto é imediato e, enquanto produz e não produz efeito, o cão raivoso vai continuando a destruir hospitais, escolas, igrejas, teatros, vai continuando a dizimar a população e o património ucranianos.

Por isso, até que o bandido seja neutralizado, há que tentar, por todos os meios, evitar a devastação e o extermínio.

Da mesma forma que os corajosos primeiros-ministro da República Checa, da Polónia e da Eslovénia foram até Kyiv (certamente fazendo o criminoso em série parar os bombardeamentos nos locais por onde passaram), penso que seria relevante e certamente ainda mais impactante que Francisco circulasse entre os locais mais afectados e mais sacrificados.

A minha voz, bem o sei, é débil, não chega onde eu gostava que chegasse. Mas não me interessa. Faço o que posso: é como se gritasse a plenos pulmões a ver se alguém me ouve. Nos últimos 7 dias, aqui no Um Jeito Manso, houve centenas de visualizações a partir da Rússia. E vários milhares dos Estados Unidos e de França. E centenas da Alemanha, do Canadá. 

Por isso, na esperança de que alguns dos meus Leitores consigam passar a palavra para que ela chegue ao Papa Francisco, aqui fica o meu apelo: 

Para que, pelo menos durante uns dias, com a sua presença, 

  • parem os ataques e se consiga alimentar, abastecer, tratar e/ou retirar as populações em risco bem como enterrar os seus mortos, 
  • para que se desgaste a moral e desmobilize ainda mais a força de guerra russa 
  • e, não menos importante, para ver se a população russa acorda para os hediondos crimes de guerra que Putin, o cobarde e mitómano ditador que os governa, está a levar a cabo, 

apelo a que Francisco vá à Ucrânia, ande pelos locais mais críticos, tente salvar este sacrificado País, tente salvar os que ainda tentam resistir, honre todos os que deram a sua vida pelo direito a serem um País livre.


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-- Lá em cima, a fotografia  mostra "A firefighter works at a site of a fire in Kharkiv, as Russia's invasion of Ukraine continues -- Photograph: Reuters e provém do Guardian

--  O vídeo lá em cima mostra: Iryna Manyukina, an Ukrainian Pianist Plays A Final Rendition Of Chopin In The Ruins Of Her House

A Ukrainian pianist has been filmed playing a final rendition of Chopin in the ruins of her house after it was badly damaged by Russian shelling. In a video recorded by her daughter, Iryna Manyukina is seen playing the piano in their home in Bila Tserkva, some 80 kilometers from Kyiv.

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E também para memória futura:

Dancers Fled Russia - March 2022 - Olga Smirnova, Xander Parish, Tissi, Soares, Caixeta, etc.

Many famous ballet dancers left Russia in March 2022, including Olga Smirnova, Xander Parish, Jacopo Tissi, David Motta Soares, Victor Caixeta & Bruna Gaglianone

Andrew Forest on Investing in Russia: "Get Out Now. It is Blood Money." | Amanpour and Company

Putin’s war has already produced multiple unintended consequences. It has reframed the conversation on climate change, showing it to be a matter of equal urgency for global security as for the health of the environment. Australian mining titan Andrew Forrest says the time to stop buying Russian oil and gas is now. He’s also pulled back from his renewable energy interests in the country, saying any profits to be made there would be blood money. 


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Paz

quarta-feira, março 16, 2022

Raquel Varela é uma putinnete a sair do armário?
Num outro planeta, a humanidade do povo ucraniano e o seu amor pelos animais.
E algumas informações sobre o que se passa pela Ucrânia mártir, sobre como Putin se enredou numa armadilha e como parece difícil desalojá-lo.
E um momento ímpar de coragem e solidariedade que honra a União Europeia

 

No outro dia calhou passar pelo 'O último apaga a luz'. Discutia-se a invasão da Ucrânia pela Rússia e estava a Inês Pedrosa transtornada com o que a Raquel Varela tinha dito. Fiquei admirada. Esperei que a Raquel dissesse qualquer coisa para perceber o que se passava ali. E percebi. A Raquel Varela estava com um discurso a la Putin, na prática culpando os ucranianos pelo que estava a acontecer ou insinuando que tudo não passava de uma cabala ucraniana para desacreditar a Rússia. A Inês Pedrosa ouvia isto em estado de estupor catatónico, quase descomposta tal o descarado desconchavo da outra e eu, do lado de cá, estava igualmente estupefacta.

Nunca nutri simpatia pela dita Raquel, sempre arrogante, sempre naquele deselegante plano de quem se acha acima dos outros. Mas nunca me tinha apercebido da sua costela putineira. Também, confesso, não a acompanho com regularidade até porque, geralmente, quando o tom começa a ferir a minha paciência, mudo de canal. Mas, desta vez, fiquei surpreendida, muito desagradavelmente surpreendida. Uma pessoa inteligente não pensa o que ela pensa. Portanto, ou não é inteligente ou tem o raciocínio perversamente formatado ou está a fazer algum frete (mas, se é isto, um frete a quem? em concreto, a quem?)

Não vou aqui referir a conversa que não há muito tive com alguém com funções relevantes no SIS mas posso dizer que há situações que são tão bizarras que nos deveriam levar a pensar. 

E, pensando, acabamos por colocar as coisas em perspectiva. 

Por exemplo -- e não me refiro agora em concreto à Raquel Varela mas a qualquer situação que, de repente, nos aparece como dificilmente compreensível -- é quase impossível não pensarmos: Há quanto tempo esta pessoa anda a defender, ainda que sub-repticiamente, esses interesses? A troco de quê? O que é que já conseguiu? E a relação é unívoca ou biunívoca: ou seja, limita-se a defender os interesses do Estado X ou da empresa Y (ou o que for) ou passa-lhe também informações?

O que sei, e creio que qualquer pessoa que tenha visto a intervenção de Raquel Varela a favor de Putin o saberá também, é que é muito estranho que alguém em seu pleno juízo assista ao que diariamente assistimos e não sinta compaixão pelo pungente drama dos ucranianos e admiração pela sua sobre-humana coragem -- e que, pelo contrário, se empenhe tão acirradamente a papaguear a narrativa do Kremlin.

Fiz zapping, claro, enojada com o que ali estava a passar-se.

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Nos antípodas, o comovente êxodo dos ucranianos deixando toda a sua vida para trás e que, no meio do medo e das incomensuráveis dificuldades, trazem os seus animais de estimação, poupando-os ao abandono e mais do que certa morte.

Penso que uma pessoa que foge daquela guerra dizimadora tem que ter um grande coração para, apesar do pânico, do desgosto, da preocupação, de um esforço esmagador e do risco de vida, ainda arranjar forças para transportar consigo o cão, o gato, o passarinho. Acho tocante. Aliás, tudo nos ucranianos me espanta e emociona. Deveriam entrar já para a União Europeia, mesmo que apenas a título simbólico (pois sei que o processo tem os seus trâmites). Mas deveriam entrar já pois demonstram, uma vez mais, que são europeus de primeira água: defendem o direito à democracia e à liberdade com unhas e dentes, com a própria vida. 

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A young Ukrainian girl talks to her pet bird as she waits at Kraków train station. Charities and human rights groups say they have seen cases of children going missing in the chaos at border crossings.

Photograph: Miloš Bičanski/We Animals Media


A man holds his small dog on his lap at the reception centre in Medyka. He arrived cold and hungry after fleeing his home with only what he could carry.

Photograph: Miloš Bičanski/We Animals Media


A frightened cat looks up from a camp bed at Kraków train station, where a Ukrainian family has stopped for a much-needed rest after fleeing their home.

Photograph: Miloš Bičanski/We Animals Media


A Ukrainian girl from Kyiv carries her cat through a temporary refugee shelter in Przemyśl, Poland. The shelter was hastily set up in a former shopping centre to provide food and a place to sleep for the thousands of Ukrainian refugees arriving in nearby Medyka.

Photograph: Miloš Bičanski/We Animals Media


Anastasia, a Ukrainian refugee, sits with her dog in Medyka. She fled from an area of Kyiv devastated by Russian bombing and left her mother and brother in Lviv. From there, she travelled to the border with only her dog, and plans to continue on to Germany.

Photograph: Miloš Bičanski/We Animals Media

[Mais imagens no Guardian]

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E pro memoria alguns vídeos que, em minha opinião, são relevantes

Ukrainians in Lviv standing strong against growing Russian aggression - BBC News


Putin Has Fallen Into The 'Dictator Trap', Says Professor Brian Klaas


E, aqui, uma resposta (muito pouco animadora) às minhas dúvidas:

Putin being removed from power is ‘impossible’

Sky News host Chris Smith says the way to stop the Russia-Ukraine war is if the “evil megalomaniac” Vladimir Putin loses power.   

“The hope of justice at this time, involving Putin being removed - either internally or externally - looks as impossible as it ever has been,” Mr Smith said.


E, finalmente, um momento único nesta nossa Europa que parece estar a despertar para o que foram os seus princípios fundadores

'You are not alone': Three EU country leaders meet Zelenskiy in Kyiv

The prime ministers of the Czech Republic, Poland and Slovenia arrived in Kyiv in a show of high-level backing for Ukrainian president Volodymyr Zelenskiy, who briefed them on the war with Russia. Polish prime minister Mateusz Morawiecki and deputy prime minister Jarosław Kaczyński, their Czech counterpart Petr Fiala and Slovenia's Janez Janša all spoke after the meeting. Poland's Kaczyński called for a peacekeeping mission in Ukraine. The EU leaders thanked the Ukrainians for defending 'fundamental European values' and sent a message of reassurance, with Fiala saying: 'You are not alone. Our countries stand with you. Europe stands with your country' 
Ukraine will not join Nato, says Zelenskiy, as shelling of Kyiv continues 

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E é isso, querida Susana, desejemos todos muito a Paz, unamo-nos a favor da Paz, não deixemos que a maculem, que a firam, que a matem. Defendamos a Paz.