sábado, outubro 27, 2012

Galerias de arte, antiquários, alfarrabistas, escultura, pintura e muito, muito design. E ainda a droga (não, a resposta à pergunta 'por que andam todos tão felizes, não é: 'porque andam todos ganzados') e, ainda, o sexo e a prostituição no Red Light District. É Amesterdão, senhores e senhoras!


Música, por favor



Port of Amstredam, 
não por Jacques Brel (pois a incorporação nos blogues é interdita) 
mas pelos The Dresden Dolls

*

Em tempos falei-vos aqui de como o cérebro reage de forma muito parecida  quando se está apaixonado ou quando se está em contacto com arte. Como não encontro esse meu texto, deixo-vos aqui o link para o artigo da Ciência Hoje onde se fala nisso.

Pela parte que me toca, confirmo. O convívio com arte, seja pintura, escultura, literatura, música, fotografia, etc, deixa-me com aquela boa disposição esperançosa, empolgada e feliz tão própria de quando estamos apaixonados. 

Talvez seja, pois, também porque o sítio onde estive é tão pródigo em arte e a disponibiliza de forma tão franca que as pessoas tenham todas um ar tão feliz.

Há muitas galerias de arte, abertas, convidativas, há lojas de design que são, elas próprias, autênticas galerias, há museus fantásticos e, sobretudo, há em todo o lado um ambiente informal e descontraído que convida ao convívio e ao deleite. O leque de visitantes percorre todas as idades, desde as inúmeras crianças às muitas pessoas de idade e esta diversidade traduz-se em que se sente, nestes locais, o pulsar da vida. É frequente ver crianças pequenas sentadas a fazer desenhos olhando para um quadro ao lado de pessoas de muita idade, contemplando longamente a mesma obra.

Como agora só lá estive quatro dias, não consegui fazer todo o périplo que tinha em mente mas fica para outra vez. E o que vi é stock que dá para muito tempo de boas recordações.

Começo pelo design. Muita vezes temos que nos aproximar das peças para perceber o que são ou para que servem e, geralmente, quando o percebemos, ficamos fascinados. Que imaginação! Por vezes o design tem funções utilitárias, outras é meramente lúdico. Seja como for, em Amsterdão, o design é omnipresente e isso é bem o símbolo da criatividade exuberante que por aqui impera. Mas que não se pense que é uma exuberância espalhafatosa. Não, nada disso. Pelo contrário tem tudo um cariz prático, bem disposto. Outras vezes ressalta, sobretudo, a beleza e a vitalidade.

Falo-vos agora da Droog. Mostro esta em particular porque é muito completa e muito agradável (mas há muitas deste género). Para terem uma noção das peças e dos preços (eventualmente para encomendarem algumas), o site é este. Tem objectos vários desde pequenos utensílios para uso pessoal ou doméstico, peças de mobiliário, peças de jardim, vestuário.

Mostro-vos apenas algumas das peças, as que achei que vos poderiam dar ideias que vocês próprios possam pôr em prática.



Puff e banco forrados com rosetas de crochet e com bolas ou pompons de lã.



Candeeiro feito a partir de um molho de lâmpadas suspensas em fios
que estão presos em cima.
Se repararem bem, lá em cima, aquelas pecinhas que acho
que são caixinhas de derivação,
 estão à vista e parecem um enfeite, parecem florzinhas



Banheira que tem acoplada uma braseira.
À volta da braseira estão os tubos por onde passa a água
que circula dentro da banheira para manter a água sempre quente



Jardim com peças feitas artesanalmente
Um enorme cogumelo feito com pequenos troncos de lenha justapostos e revestido
por uma rede
A cobertura é lenha metida igualmente dentro de rede de capoeira pintada.

As flores cor de rosa são também feitas manualmente com rede de capoeira pintada,
presos a uma estaca  como se fosse o caule da flor


No último piso, tem uma deliciosa, muito acolhedora sala de chá.



As pessoas bebem um chá, um sumo, uma fatia de bolo caseiro, ou nada,
apenas conversam - e parece que estão em casa


Talvez porque o pé direito da sala é muito grande, apesar das pessoas falarem animadamente, quase não se ouve barulho.



Candeeiro artesanal e espelho colorido
Jarra branca com flores brancas
E duas amigas conversando tranquilamente



Eu optei por me sentar aqui, um sofá largo, confortável, aconchegante e macio


Mesmo muito agradável este espaço, vocês haviam de ver.



Depois as galerias. Há-as por todo o lado.



Eu devia ter podido estar em Amsterdam não 4 dias mas um mês inteiro para poder entrar, ver, mexer
E reparem na cor das árvores que se reflectem nas montras
(nas montras e nas águas mas, para os canais, terei que fazer um post autónomo, tanta a beleza)



Abertas no sentido de que convidam a que se entre, variadas, de todas as dimensões e características, as galerias são uma tentação.



'Carpe fucking Diem' e por aí vai, tudo louco e divertido


Há algumas que dá ideia que estão disponíveis para que, quem o queira, lá possa ir pintar e expor livremente (como a que se vê acima) e, claro, há outras mais clássicas, isto é, de aspecto mais normal.

E há as pequenas galerias no mercado de arte na rua.



Mulheres, bailarinas, animais -
Esculturinhas em papier mâché ou em barro pintado, pintura, cerâmica, etc



Écharpes ou lenços de seda estampada ou pintada - tudo maravilhoso
Se não fosse tão cara, teria trazido a écharpe do gato mas custava cento e tal euros


Mas vou agora mostrar-vos uma que me agradou sobremaneira. Se vivesse por perto acho que nunca de lá saía e estaria em permanente estado de tentação.



Pequenos objectos, pequenas esculturas, pintura -
 aqui há de tudo, mas quase todas peças de um colorido que me encantou


Que coisas tão ao meu gosto e a preços tão acessíveis.



Galeria vista de dentro, de um piso inferior
Como vêem, as pessoas entram, mexem - a dona está no piso de cima, disponível mas discreta


Encaixo aqui neste texto também uma referência aos antiquários e, sobretudo, às lojinhas de bric-a-brac, de velharias, e alfarrabistas.



Um dos inúmeros alfarrabistas de Amsterdam, que livros,
que maravilhosos objectos antigos ligados à escrita



Também que tentação, senhores, que tentação. E que belos preços!

Numa pequena rua, residencial, das muitas e muitas do centro, junto aos canais, encontrei uma que me encantou. Se pudesse tinha vindo carregada de coisas. Mas houve uma pequena peça a que não resisti. Como já vos contei gosto muito de galos (pelo colorido, pelo garbo). Pinto-os em tela e tenho muitas peças que os representam. Por isso, quando vi numa cesta no chão, junto com muitas outra pequenas peças, um pequeno quadro redondo de madeira, pesado como chumbo, com um galo pintado na própria madeira, peguei logo nele. Seis euros. Resolvi trazê-lo.

Quando estava a pagar, falando em inglês, claro (porque não pesco uma da língua autóctone), um senhor fisicamente muito parecido com o Jeremy Irons e que percebi que deveria ser o dono da loja disse-me num inglês carregado de sotaque dutch, invulgarmente muito pouco british (os holandeses falam todos um inglês perfeito), you are very happy for buying this piece. This is an happy piece. This is a portuguese piece.

Espantei-me, really? Que sim, que era uma antiga peça portuguesa. Disse-lhe, então, que eu era portuguesa. Ficou de olhos muito abertos a olhar para mim, acho que não acreditou. Eu insisti. Desatou-se, então, a rir, muito espantado ele também.

Ele há coisas….



Um galo português que foi passear até à Holanda e que agora, curiosamente, volta a Portugal


É esta peça que fotografei agora para vos mostrar. Se calhar amanhã, se me lembrar, fotografo-o de dia porque agora de noite ficou com um reflexo que também distorceu um pouco as cores.

Mostro-vos tudo isto pois pode ser que alguma destas coisas vos motive para fazerem algo igual ou parecido, e estou a pensar especialmente nos que gostam de se ocupar com este género de trabalhos manuais.

Quanto a escultura de rua, há também bastante, completamente integrada na paisagem, mas, porque isto já vai exageradamente longo, mostro-vos apenas esta que acho uma delícia, bem perto da Red Light Zone.



Reparem na expressão dela... a fazer-se cara


Já escrevi que me fartei e ainda nem comecei com os museus... Por isso, não me levem a mal mas vou deixá-los para amanhã; e hoje abro aqui um parêntesis para falar de um dos lados mais conhecidos de Amsterdão, o da droga e do sexo.

Quando lá estive há uma meia dúzia de anos, fez-me impressão ver tanta gente drogada estendida à porta das casas, no meio da rua. Fumavam e via-se que eram grandes as trips.

As coffee shops são conhecidas e lá estão (sobretudo naquela zona central, junto ao Red Light District) e, em grande parte delas, mesmo cá fora o cheiro a erva é intenso. Como é sabido, na Holanda o consumo é legal. Mas já não é permitida a venda a estrangeiros nem se vê já nada daquelas cenas na rua. Havia um turismo à volta disto e eram essencialmente os estrangeiros, que iam lá consumir até cair para o lado, que enchiam aquela zona. Isso agora já não se vê.

Quanto à prostituição, ela continua a ser uma actividade legal, praticada às claras, regulamentada, vigiada.



Adereços eróticos, divertidos, para todos os gostos

Para quem não sabe, há uma zona da cidade, justamente a da Luz Encarnada, muito conhecida e um grande foco de atracção turística. Nessa zona (porta sim, porta sim), as portas são largas e de vidro, ou as janelas são até ao chão, autênticas montras, e, aí sim, há cortinas. Em cada uma dessas divisões está uma prostituta em roupa interior, fio dental e under bra, à janela, encostada ao vidro, meneando-se, batendo na janela, ou sentada em poses eróticas, atraindo a atenção dos passantes. Quando está livre, no exterior, por cima da janela, a luz encarnada está acesa. Quando entra um cliente (e entram na maior das descontrações, à vista de toda a gente) a cortina é corrida e a luz apaga-se. Lá dentro está uma cama, um bidé, um lavatório, papel, gel de banho, um espelho, alguns pormenores decorativos. Lá dentro a luz é velada, geralmente também em tons vermelhos. As mulheres podem ser muito jovens, com corpos esculturais, bonitas, longos cabelos, ou podem ter um ar mais intelectual, com um penteado mais discreto e com óculos, ou podem ser mulheres já mais velhas, algumas muito gordas. Estão sempre sorridentes, com ar folgazão. Muitas usam lingerie fluorescente o que chama bastante a atenção naquele ambiente pouco iluminado. Estou a descrever o quadro durante a noite mas de dia é a mesma coisa. A diferença é que, de dia, há menos mulheres a trabalhar e as luzes no interior logicamente estão apagadas. Apenas a luz encarnada cá fora apaga ou acende consoante a ocupação. As ruas estão pejadas de gente, desde clientes a meros passeantes. Não há turista que não se desloque àquela zona.

Devo dizer que não fico chocada com isto. Claro que encaro a prostituição sempre como uma situação de último recurso e penso que poucas mulheres a praticarão de ânimo leve mas, admitindo que prostituição sempre houve e sempre haverá, acho que mais vale que seja assim, em ambiente vigiado, protegido, regulamentado, sujeito a normas de higiene e saúde pública onde não correrão tantos riscos como as que o praticam na rua, na beira da estrada.

Não vos mostro imagens porque elas não permitem fotografias e eu compreendo e respeito. Mas mostro uma imagem geral do local, desfocada. Como tirei as fotografias sem flash, enquanto andava, ficaram assim, abstractas. Neste prédio, como em tantos outros, a cada janela corresponde o compartimento individual e, em cada compartimento, uma prostituta.



Red Light District by night
(caso queiram ver imagens mais representativas, basta clicarem aqui, são imagens disponíveis na net)


E, curiosamente, na rua principal que ladeia um dos canais, há belos cisnes brancos que deslizam com langor e vagar ou que adormecem, alheios ao bulício nocturno.



Cisne branco dormindo na beira do canal, um símbolo de pureza numa noite
no Red Light District 



A ver se, então, amanhã me dedico aos museus, aos maravilhosos museus. Rembrandt, Vermeer, Van Gogh, Mondrian e muitos outros – e é verdade: saí de lá sentindo-me completamente apaixonada!

É amanhã! E depois dirão se depois de verem o que vos tenho estado a mostrar também não se sentem em estado de paixão...!

**

E é isto. Tenham meus Caros, um excelente fim de semana.

sexta-feira, outubro 26, 2012

Ok, já que adivinharam, tenho mesmo que confessar: a cidade onde as pessoas parecem andar sempre bem dispostas é Amsterdão. Bicicletas, ar livre, um local repleto de água, criatividade, arte, informalidade, descontracção: estes são alguns dos aspectos marcantes desta terra habitada por gente feliz.


Hoje estava mesmo a querer falar de arte, de galerias, de museus e, claro, preparava-me para continuar a manter o mistério. Mas o segredo foi desvendado e, portanto, falarei disso amanhã ou depois e, então, hoje aqui estou essencialmente para confirmar o local a que me venho referindo. 

Estive durante quatro maravilhosos dias em Amsterdão.

Embora a Holanda seja um país muito rico, com ordenados altos, os preços são muito equivalentes ao de Portugal. Podem fazer-se boas compras, os preços das peças em antiquários ou lojas de velharias são muito acessíveis, o preço da roupa é idêntico ao de cá e o preço nos restaurantes é mais ou menos o de cá. Claro que assim aquela gente só pode andar feliz, não é?

Por razões circunstanciais fui numa altura não muito aconselhável quando o objectivo é arranjar hotéis ou aviões a bons preços. 




Decorreu naquele fim de semana a Maratona de Amsterdão e essa foi uma das razões pelas quais os hotéis estavam repletos.

Quanto à Biblioteca é de facto a OBA, Openbare Bibliotheken Amsterdam. Quando escolhi fotografias tive o cuidado de não usar as que a identificam muito claramente, como, por exemplo, esta aqui abaixo.




Sugiro que vejam o filme que consta do site. Dá uma boa ideia do que é aquele maravilhoso local.

Não vos referi, no outro dia, um aspecto (que se vê no filme) que me encantou. 




Logo à entrada há um piano. Na fotografia está mais ou menos no centro. Quem quiser, senta-se e toca. A minha amiga, que sabe tocar, ainda tocou uns acordes. 

Nas fotografias que mostrei nos posts anteriores vi-me, pois, aflita para não evidenciar aspectos que identificam a cidade e que são omnipresentes naquela cidade: as bicicletas e os canais. 

Toda a cidade é atravessada por canais e por todo o lado há bicicletas, milhares e milhares de bicicletas.




Por exemplo, quando falei de chapéus apetecia-me mostrar esta mulher tão elegante mas, lá está, ela estava de bicicleta e eu não queria que vocês descobrissem logo à primeira.




E quando falei de moda e graça e informalidade, apeteceu-me mostra esta outra. Mas, uma vez mais, lá estava a bicicleta.




Toda a gente anda de bicicleta. Capacetes, nada.

Todas as ruas, mas todas, têm ciclovias.

Para quem não está muito habituado, e vai tranquilamente naqueles largos passeios, os sustos são frequentes. É que as bicicletas reinam. Não são apenas as estradas, são também os passeios. Os passeios têm a parte pedonal e têm também a ciclovia e, oh senhores, eles andam numa velocidade...

E andam novos, velhos, homens, mulheres, mulheres com crianças, crianças à frente, crianças atrás.




E ninguém, mas ninguém, senhores, usa capacete. A grande velocidade, lá vão eles, inclusivamente com crianças ali no meio da confusão.




Já pensaram no dinheiro que eles poupam: não pagam transportes públicos, não gastam dinheiro em gasolina?

As bicicletas frequentemente têm um cesto à frente ou atrás onde colocam as compras ou as pastas. E é frequente vê-los com uma mão no volante e a outra mão com uma sandes, um sumo, o telemóvel.




Passam pelo meio dos automóveis, dos autocarros, do metro de superfície, e sempre a grande velocidade, sem capacete. Nas fotografias que aqui mostro só se vêem as bicicletas nas ciclovias e não no meio do trânsito mas é que ali, no meio da confusão, não deu para estar parada a tirar fotografias. 

Depois, quando chegam ao destino, apeiam-se e prendem uma corrente com um cadeado.

Presumo que ali ninguém roube bicicletas. São aos milhares por todo o lado, para que haveria alguém de roubar uma em particular?




Por isso, se voltar à minha pergunta: porque andam todos tão felizes? presumo que uma justificação está também nisto, na vida saudável, no desporto útil que é isto. Pedalam, pedalam. E a cidade, nesta altura do ano, está linda. As árvores estão douradas e reflectem-se nas águas do rio e dos canais. E eles vão para o trabalho, vão às compras, ou seja, deslocam-se maioritariamente de bicicleta. É saudável para as pessoas e, também, para as finanças do país, pois há um muito menor consumo de combustíveis.

Até os táxis são maioritariamente bicicletas e aqui é uma área em que a criatividade pontifica. 




Cada um decora-os e arranja-os conforme a imaginação dita. São cobertos ou descobertos, pintados ou forrados, conduzidos por homens ou por mulheres.




E até os homens estátua usam o motivo da bicicleta para as suas composições, como este aqui em baixo que me impressionou pela expressão e pela posição.




Mas se, nos posts anteriores, tanto quanto possível, tentei esconder-vos as bicicletas, tive, no entanto, o cuidado de ir deixando algumas pistas...

A carteira amarela que trouxe tem uns girassóis em relevo, num dos cantos. Isso não vos faz soar uma campainha...?



Claro, os girassóis de Van Gogh. Comprei-a na loja do Museu Van Gogh. Aliás, para ser mais precisa, o Museu está fechado para obras e as obras estão num espaço cedido pelo Hermitage. Portanto, foi no Hermitage que vi a maravilhosa, maravilhosa, exposição de obras de Van Gogh.

Estão a ver as malas amarelas ao fundo, à direita da coluna? Foi uma dessas que eu trouxe. São da bela cor das searas e dos girassóis de Van Gogh.

E reparem nas cestas giríssimas que estão em primeiro plano, na coluna. São de vime pintado de um verde planície e têm, de cada lado, dois orifícios. Por esses orifícios passa uma écharpe que serve de fecho à cesta.

Também vos disse que a blusa era um Mondrian. Referia-me, claro, a Piet Mondrian, um pintor holandês.

Comparem o padrão da minha blusa com esta pintura original de Mondrian, tal como a fotografei no Stedelijk, o museu de arte moderna (e, já agora, reparem na atenção das crianças...).




Mas a presença da arte é tão marcante em Amsterdão que amanhã escreverei exclusivamente sobre isso. 

Hoje fico-me apenas pelo air du temps.

Estou quase a terminar o texto de hoje, que já vai tão longo que vocês já devem estar a espumar de impaciência. Mas ainda vos quero falar de um outro aspecto peculiar. Por aqui, as janelas não têm estores ou portadas. A luz deve entrar sem barreiras. Mas sem barreiras nem filtros - porque também são raras as cortinas. E, então, como podem imaginar vê-se tudo dentro das casas. Uma coisa...




Esta, por acaso, até tinha uns estores e era uma excepção mas o que se passa é isto: a gente vai a passar na rua e vê para dentro das casas. Eu não devia ter feito isto, fotografar para dentro da casa das pessoas mas achei esta imagem tão bonita, tão acolhedora, que não resisti.

Mas agora vejam esta outra. Quase parece uma cena da Red Light Zone, em que as meninas estão despidas à janela como numa montra. Este casal estava simplesmente em casa, tinham estado a olhar a rua, ele em tronco nu, tudo sempre na mais incrível das à vontades.




Uma vez que andávamos a passear à noite, o meu marido exclamou, acabei de ver umas pessoas a enfiarem-se na cama. E, claro, especulámos: como será nos momentos de intimidade?

Enfim, são costumes e este deixa bem antever a total descontracção e o total desprendimento desta gente, indiferente às pequenas opiniões alheias. Se não incomodam ninguém, porque haveria alguém de se sentir incomodado?

Amanhã, em princípio, falar-vos-ei das galerias, dos museus, das lojas. É arte e design por todo o lado, dá gosto uma coisa assim.

*

No meu Ginjal e Lisboa continuamos com Pergolesi e hoje as minhas palavras andam em volta de quem se passeia olhando as águas junto a um certo restaurante, tal como andam as palavras do intruso de José Alberto Oliveira. Gostava de vos ter também por lá. O texto é curto e o poema também (digo isto, porque imagino que já estejam fartos de tanta conversa; isto comigo é sempre assim, entusiasmo-me a contar-vos coisas, penso que alguns de vocês nunca lá poderão ir e que talvez gostem de saber como é, e esqueço-me que a vossa paciência tem limites).

*

E, portanto, sem mais: desejo-vos uma bela sexta-feira!

quinta-feira, outubro 25, 2012

Porque andam todos tão felizes...? Bem, talvez também porque as mulheres têm uma graça feita de criatividade, cor, jovialidade, elegância, à vontade. É a moda no feminino. E não dá isso tanta alegria?


Sobre o Gaspar, o Mota Soares e as indignidades, os atentados, a incompetência, o amadorismo e, também, sobre o ex, isto é, sobre o Francisco José Viegas, escrevi no post abaixo. Quem não quiser saber mais nada sobre a terra da gente feliz de que aqui agora falo pode deixar-se escorregar já até ao post abaixo. Caso contrário, deixe-se ficar aqui comigo - vamos de passeio, vamos ver mulheres felizes e bem vestidas está bem?

*

Mas se andam todos felizes, conversando, rindo, como se os problemas da vida morassem em longínquas paragens, as mulheres, então, já de si naturalmente detentoras de um sentido de graça, parece que sobressaem.

Se, por cá, nas grandes cidades, as mulheres já assimilaram aquele sentido cosmopolita que as faz terem à vontade e agirem segundo o seu temperamento, gosto e estado de espírito, já nas nossas pequenas localidades prevalece ainda muito o medo de dar nas vistas, o medo de despertar a censura alheia ou a rejeição.

Pois bem, ali, naquele lugar, as mulheres parecem duplamente felizes, primeiro porque não apenas as mulheres mas toda a gente parece estar de bem com a vida, e, segundo, porque ali tudo é permitido, aparentemente sem restrições. 

A moda feminina é, por estas bandas, um conceito abrangente, peculiar, particular mesmo, diria. A diversidade, o arrojo, a descontracção, a felicidade de ser contribuem para que tudo fique bem, digno de ser fotografado, exibido, louvado.

A maioria das mulheres não usa chapéu mas algumas usam e, nesse caso, que chapéus…!

Por exemplo, o chapéu que se segue chamou-me a atenção. No primeiro instante ainda pensei que pudesse ter alguma coisa a ver com algum casamento. Fotografei. Depois vi que não, era apenas um chapéu e as amigas agiam com a naturalidade própria das situações comuns, nem as amigas, nem quem passava, ninguém brincava com o chapéu.




E que bem que o chapéu lhe ficava, que graça que a jovem tinha.  

Num outro dia, de novo uma jovem e de novo um vestido divertido envergado com toda a naturalidade. 




Poderia parecer um fato de brincadeira ou de festa ou um disfarce. Mas não, a rapariga estava tranquilamente com os amigos, conversando, rindo, todos na maior das normalidades.

Curiosamente cruzei-me com alguns grupos, na maior parte rapazes, mascarados como se fosse carnaval. As fotografias têm fraca qualidade pois a situação era tão inesperada que eu não tinha tempo de focar. Mas acho que dá para captarem o espírito da coisa.




E, no entanto, não eram dias de festejo ou de feriado municipal.




Andavam por ali passeando como se fossem vestidos normalmente e ninguém parecia estranhar pois, tirando eu que os fotografei, ninguém se virava, sequer, para os olhar. Parecia ser coisa normal.

Mas se nas jovens se encontra frequentemente a irreverência ou o imprevisto, já nas mulheres  mais velhas o que se nota é a elegância, o improviso desprendido, o tremendo à vontade.




Aspectos dominantes? 

A cor. 

Casacos compridos, elegantes, geralmente cintados, muitos em patchwork usando tecidos como veludo, camurça, seda. (Reparem no pormenor do olho estampado nas costas deste aqui abaixo)




Meias opacas de cor:todas as cores, incluindo o azul petróleo, o azeitona, o fúcsia, o lilás.


Sapatos coloridos, frequentemente multicores.






Carteiras (ou malas, consoante se queira dizer) de cor: amarelas, rosa choque, encarnadas, verde claro. 

Escusado será dizer que é o género de moda com que me identifico bastante. No que se refere a meias opacas coloridas, até agora, nunca fui além do ameixa escuro (a nível de meias opacas, o usual em mim é o preto até porque tendo - ou, pelo menos, tendia - a vestir-me predominantemente toda de preto com um apontamento de cor como, por exemplo, uma blusa colorida no meio de um conjunto full black ou, então, o inverso, ou seja, por exemplo, toda de preto com um casaco de cor) mas, agora, vou ver se encontro assim de cor, fica lindamente. Carteiras coloridas já uso frequentemente. Até há poucos dias usei uma branca com aplicações ou uma grande, rectangular, encarnada ou, ainda, uma num material macio com texturas, em tom de coral suave. Agora, de lá, trouxe esta grande em amarelo torrado, em que a pele tem gravada em relevo, num canto, uns girassóis.




Nesta fotografia, coloquei-a ao pé duma blusinha de viscose encorpada que também trouxe de lá, um Mondrian com um sedoso cair pesado e macio.

Se em Paris fico com a ideia que a silhueta elegante feminina se veste maioritariamente de preto, le tout noir, aqui é, pois, o oposto, é a abundância de cor que, conjugada com o sorriso no rosto, enche o ambiente de graça.




Mas que não se pense que a jovialidade e a irreverência se restringem às jovens ou às tardo-balzaquianas. Não, nada disso. A elegância informal, a criatividade e o improviso atravessam esta sociedade.




As mulheres com mais idade usam frequentemente jeans ou calças justas de cor, botas ou sapatos baixos, geralmente também coloridos, parkas coloridas, écharpes ou cachecóis igualmente coloridos e, claro, sorriem e ostentam a sua extraordinária agilidade. 




Se alguém quiser ver uma fila de gente vestida tal como descrevo, jovial, sorridente, elegante, é observar as longas filas para os museus. Em Portugal os museus estão tristes e vazios. Por ali, por onde andei, os museus transbordam de vida. E, claro, para adquirir o bilhete de entrada, as filas dão voltas aos jardins (cujas árvores ostentam os belos coloridos de Outubro) ou aos edifícios. Mas são filas que andam rapidamente e, sobretudo, a boa disposição daquela gente contagia.

Mas sobre os museus, a arte, o design falarei outro dia. Hoje quis falar apenas de moda no feminino.




Espero que as minhas Leitoras encontrem aqui ideias para as suas toilettes e espero que os cavalheiros tenham igualmente apreciado o tema. Permito-me até sugerir aos Leitores que se inspirem e façam uma surpresa às vossas namoradas (por exemplo...? simples, vão até uma loja de meias e comprem-lhe umas meias coloridas e, se elas as acharem extravagantes, mostrem-lhe algumas das fotografias que aqui coloquei).

*

Se tiverem ainda paciência para darem mais um passeiozinho comigo, permitam que vos dê o braço. Vamos até ali, ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras relembram tempos idos, tempos em que o nome que se dizia correspondia a uma amor muito especial. A poesia escolhida é de Inês Fonseca Santos e o compositor é Giovanni Battista Pergolesi.

*

E, pronto, nada mais. 
Chove que Deus a dá e ainda bem. 
Que as águas da chuva vos lavem a alma e que esta quinta feira seja, para vós, um dia muito feliz!

O Vítor Gaspar diz que há um desvio enorme entre o que nós esperamos dele e o que ele nos pode dar. Nem tem a ver com o Estado Social, nem com os impostos, nem com nada disso. É mesmo apenas uma questão de gestão de expectativas. Nós queríamos que ele acertasse numa, numa que fosse, queríamos que diminuísse a dívida, que diminuísse o défice, queríamos que não destruísse a economia nem a vida presente e futura dos portugueses. Ele quer apenas brincar aos modelos a ver se algum dia consegue acertar em alguma coisa. O Mota Soares queria diminuir o subsídio de desemprego, depois veio dizer que estava só a atirar o barro à parede, para ver se distraía o pagode para aprovar outras mais discretas. Nós pensávamos que ele era do CDS ou pensávamos que o CDS era outra coisa. Mas acho que nós é que nos enganámos. E o Francisco José Viegas sai do Governo o que não interessa para nada já que não estava lá a fazer coisa alguma.


Hoje quando vinha no carro ouvi um palerma qualquer a dizer que era inevitável cortar-se nas prestações sociais, uns 320 milhões de humilhação que estávamos obrigados a infligir aos pobres coitados que tenham a infelicidade de precisar de apoios sociais.

E que, portanto, agora se pode recuar no corte dos subsídios mas que a algum lado é preciso ir buscá-los.

Palermas. Perigosos palermas.

Não passa pela cabeça destes indigentes intelectuais que a solução não passa forçosamente por tirar o pão da boca das pessoas. Não lhes ocorre que essa redução pode (e deve!) ser conseguida por reduzir o número de pessoas que estão em situação de necessidade.

Se em vez de atirar com as empresas para a falência, fosse dada a oportunidade de haver economia e trabalho, menos pessoas precisariam de subsídios e, aí está!, a redução operar-se-ia sem sofrimento para ninguém.

Mas com gente como a que enganou a população para, mal se apanhando com o seu voto se aboletar no Governo para dar cabo do País, que outra coisa seria de esperar?



Duas sinistras figuras deste fatídico Governo:
o Vai-estudar-ó-Relvas e o Gaspar-não-acerta-uma




Mota Soares e o Vai-estudar-ó-Relvas,
duas desgraças que não vão deixar saudades



O Vai-estudar-ó-Relvas e o Secretário de Estado da in(cultura),
o incompreensível Francisco José Viegas