quarta-feira, fevereiro 09, 2022

O que tem a UJM a dizer sobre isto do Relvas já andar outra vez por aí a dar palpites sobre uma nova liderança para o PSD? E sobre os líderes serem como os melões?
E sobre as pegas entre o Cardeal Louçã e Pedro Frazão, vice-presidente do Chega?
E sobre o copinho de leite branco, caucasiano e datado, Pacheco de Amorim?
E sobre as baboseiradas do acéfalo* João Miguel Tavares?

Nada. Tenho mais que fazer.
Chorar por causa deles era o que faltava e, para me rir, prefiro este maluco aqui abaixo.

 


Não vou falar de pategos, palermas, gente encardida, totós, ocos da cabeça aos pés, racistas, chico-espertos, videirinhos, etc, mesmo que um deles já tenha merecido honras inauditas, inexplicáveis e absurdas sob qualquer ponto de vista e mesmo que a comunicação social ande com eles ao colo. Não quero saber de nada que venha dessa gente. A única coisa a fazer é ignorar e, se tentarem passar, bater-lhes com a porta na cara. Gente dessa laia não entra. Não passa. Não merece sentar-se à nossa mesa.

Portanto, segue o baile. 

O meu dia de hoje não teve muito que se lhe diga. Ando cansada e com sono. Estou precisada de umas doze horas de sono de seguida. Na primeira noite que o ursinho peludo passou no hospital mal dormi. E não deve ter sido apenas a falta de sono, deve ter sido também a angústia a consumir-me. A noite seguinte foi melhor mas, ainda assim, em défice. Um défice que se juntou ao défice anterior. E logo de seguida acabou o fim de semana. E a segunda-feira começou cedo de mais, com uma reunião mal o dia estava a romper. Começar a semana com uma reunião quase de madrugada desequilibra-me o biorritmo. E foram reuniões de seguida. E esta terça-feira não aliviou. 

Por isso, hoje estou sem pilhas. Off.

A pequena fera continua a dormir de gosto mas, à tarde, estava eu numa reunião, foi pôr-se ao pé de mim. Nada de mais. Só que eu estava num daqueles meus espaços, abertos, comunicantes (que é onde tenho melhor rede e melhor luz) e, de repente, o grande cão de guarda deve ter ouvido alguma coisa no exterior e, para provar que com ele ninguém faz farinha, desatou a ladrar. Mas a ladrar a bom ladrar. Ladrou, ladrou. Tirei o som ao microfone e mandei-o calar. Parou, olhou para mim e foi para a janela a ladrar ainda com mais força. Queria que eu fosse validar o alerta. Como estava sem som, chamei o meu marido. Felizmente estava em casa. Chamou-o e ele nada, só ladrar à janela. Eu a ter que falar e ele a ladrar à bruta. O meu marido disse para eu tirar a imagem. E, então, passou por trás de mim para o ir apanhar. Ele fugiu. Enfureci-me: 'Resolve isto, tira-o daqui'. O meu marido quase voou para o agarrar, praticamente caindo-lhe em cima. Saiu de lá com a fera cabeluda ao colo. Pedi-lhe: 'Vai para a rua com ele'. O meu marido protestou: 'Como se eu não tivesse que trabalhar!'. É que agora não queremos deixar a fera sozinha no jardim não vá voltar a haver algum problema com as lagartas peludas que, segundo todos me dizem, andam por aí aos montes, em procissão, afobadas com este calor antecipado.

Depois do trabalho, fomos fazer uma rápida caminhada e, a seguir, tratar de uns assuntos à cidade. Levámo-lo, claro. Resultado, chegámos a casa tarde. Quando aqui me sentei a ver o novo episódio da Gilded Age caí no sono. 

Quando acordei, fui espreitar as notícias. Tudo fantasias sem sentido. Não percebo porque há por aí tanta gente a gastar latim com tão fracas figuras.

Para eles só vejo um préstimo: podia fazer-se uma sitcom, na base do reality show, com eles todos juntos: o Vai-Estudar-Ó-Relvas, a galinha Rangélica, o Láparo Careca, o Cardeal Louçã, o destituído João Miguel Tavagues, o grande filósofo Pacheco de Amorim, o beato Ventura e, para arbitrar o forrobodó, the most important portuguese influencer, o famoso Self-Marcel. Nem precisavam de guião. Era metê-los na 'Casa' e deixar que a coisa acontecesse. 

Só acho que fazia falta ter ali umas mulheres. Talvez as manas Mortáguas. Devia ser giro. Talvez também a perene Lili Caneças. Acho que a Lili ligaria bem com as manas urubus (como a minha mãe lhes chama). E o José Castelo-Branco que transforma tudo num happening. Portanto, era metê-los na Casa e esperar que a coisa pegasse. Era vê-los a 'dar canal'. E uma ou duas vezes por semana havia gala com a esganiçada narcisista a fazer a festa, a atirar foguetes e a apanhar as canas. Havia de ser um festival. Ah, agora me lembrei: para a coisa ser ainda mais apimentada era de lá meter também o P. Gonçalo Portocarrero de Almada. 

E um aviso à navegação: se alguém da TVI usar esta minha brilhante ideia, V. são testemunhas que me são devidos direitos de autor.

Mas está a parecer-me que ainda faltam ali umas mulheres. Talvez a Clara Ferreira Alves. Acho que a CFA ficava ali a matar. 

Com a ex-arrumadinha Pipoca e a também perene Cinha a comentar as cenas, os casos de amor, o Relvas a seduzir uma das manas, a galinha careca a ensinar a outra galinha a fazer tricot, o Láparo e o Cardeal a conspirarem pelos cantos, o Castelo-Branco a rezar às escondidas debaixo da batina do P. E aviõezinhos a sobrevoar a Casa, a desejar um amor feliz ao Tavagues e ao seu amor seguegueto.

Bem. Não dou mais tácticas. Melhor: só mais uma. Acho que a Helena Matos também lá era bem metida. Só de imaginar já mal posso esperar. 

Mas, pronto, ainda tenho que ir ler umas coisas antes de ir para a cama. Mas, antes, deixo-vos com um que é muito cá de casa, um daqueles que me provoca gargalhada garantida, um que me faz bem à saúde. Um que é eterno, sempervirens. Leslie Nielsen.




* Escrevi que o João Miguel Tavares é acéfalo mas, calma, escrevi por escrever, na base do que parece, do que dizem por aí. De facto, de facto, não sei de fonte segura pois nunca vi nenhum RX que comprove que a cabeça dele é um daqueles melões de que o Relvas fala, daqueles que, por dentro não tem nada.
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Pinturas de Sang Ik Seo na companhia, lá em cima, de uns meninos que dançam: Jerusalema no Top Africana Best Dance Challenge 2021

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Desejo-vos um belo dia

Humor. Boa disposição. Saúde. Vontade de fazer coisas. Acreditar.

terça-feira, fevereiro 08, 2022

Como impedir que os desertos nos invadam?



Trabalho de sol a sol mas as pessoas com quem agora trabalho não têm propriamente muito a ver comigo. Tempos houve, desde tempos remotos até tempos mais presentes, em que alguns colegas eram amigos de verdade e em que aconteciam tantas coisas, tão diversas, que em volta de mim eu poderia assistir a mil filmes. 

E, nos intervalos, tinha com quem falar de política, de cinema, de literatura, de viagens. Agora apenas se fala de trabalho, de planos, de problemas. E, a nível profissional, não tenho por perto ninguém exuberante que me inspire ou faça rir. 

O último que me deixava estupefacta e que me fazia chegar a casa e contar as peripécias e desatar na risota afastou-se. E o pior é que as histórias que se passavam com ele envolviam uma mulher e, infelizmente, de forma inesperada, essa mulher morreu. Portanto, todos os dislates, todos os ruidosos e caricatos desentendimentos, todas aquelas discussões pelos motivos mais absurdos que eu, involuntariamente, ouvia no meu gabinete agora parecem-me tristes. De cada vez que recordo o que ouvi e me apetece imitar censuro-me a mim própria pois não vou pôr-me a rir de histórias em que um dos intervenientes se finou.

Aqueles temas que me preocupavam e sobre os quais gostava de dissertar e em cujas conversas aprendia sempre pois não apenas sentia amizade pelos meus interlocutores mas também admiração pela sua inteligência, cultura e sentido de humor agora ficam a ressoar sobretudo na minha cabeça.

Um deles é uma pessoa de uma inteligência e cultura superlativas. Só que é meio louco. Um outro dizia que ele era um savant. As conversas com ele seguiam rumos imprevisíveis. Começavam na política, passavam por temas da actualidade, derivavam para a geopolítica e iam desembocar na antiguidade, quiçá na cultura grega, havendo pelo meio as citações mais insólitas embora apropriadas. Cada conversa com ele, daquelas mais longas, dava uma história. 

E havia (e há) um outro de saberes enciclopédicos quer a nível de química quer a nível de música. Tem uma coleção extraordinárias de discos e cd's de música dita clássica. Mas de cada obra tem dezenas de exemplares, variando o maestro ou os intérpretes principais ou as gravações ao vivo. E sobre cada obra ele sabe tudo isso de cor e sabe de que versão mais gosta. Uma vez mostrou-me a base de dados com isso. Fiquei estupefacta. Uma loucura. E a forma como ele falava de algumas interpretações... 

Agora estou em reuniões e um pode sair-se com uns quaisqueres, outro pode dizer que póssamos... e em vez de ter do meu lado quem, como eu, fique indignado com tamanhos pontapés na gramática, tenho gente que, na volta, acha que eu é que não sei falar.

São os novos tempos. De tarde, ao usar o google no telemóvel, apareceram-me umas notícias sobre os temas mais mundanos e abstrusos: Cristina Ferreira, Big Brother e etc. E, ao ler uma delas, apareceu-me uma notícia em que se dizia que um qualquer tinha assumido que ele e uma qualquer 'tivemos apaixonados'. Tive que olhar duas vezes a ver se não era eu que que estava trocada.

Parece que, a (quase) todos os níveis, este é um mundo em regressão.

Onde existiram pessoas cultas e interessantes há cada vez mais gente bronca, mal formada, filhos da mãe, alarves, ignorantes. Mesmo na televisão. Os canais enchem-se de gente intelectualmente desonesta, gente mal educada, mal formada. Dizem de tudo um pouco -- e nada se aproveita.

Um deserto intelectual que vai alastrando.

Mas é um deserto a todos os níveis.

Onde existiram campos verdejantes há agora leitos de rio secos, há gado que não tem como se alimentar, há água que começa a ter que ser racionada, há estações do ano desreguladas, a primavera que chega em pleno inverno, o verão que se estende ao longo de meses, o ar seco e quente, as terras secas em risco de virarem pasto de labaredas. 

A conversa nas televisões não deveria ser sobre se a maioria absoluta é uma entrada no tempo das trevas, sobre os recadinhos de Marcelo, sobre o que o imprestável João Miguel Tavares diz da Edite Estrela -- tudo relambório de gente desocupada. 

Em vez disso deveria estar a debater-se como inverter a tendência decrescente da demografia em Portugal e em todo os lugares em que o caminho é suicidário, como começar a salvar o planeta, como evitar a evolução do deserto, como voltar a ter terras férteis e rios abundantes. Ou como salvar também o mundo da ignorância e da estupidez.

Mas não.

Por isso, volto-me uma vez mais para os vídeos que o Youtube tem para me mostrar. Ponho-me a ver e parece que reencontro aqueles meus amigos com quem se podia conversar sobre o que nos pareciam problemas de verdade e temas genuinamente interessantes.

Partilho, por exemplo, este aqui abaixo.

Can we stop the deserts from growing?

Earth's soils are degrading into deserts at an unprecedented rate, with catastrophic consequences. The good news is that humans can turn them into fertile land.


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Pinturas de Paul Gauguin ao som de Maldição na interpretação de Rodrigo Lourenço, vencedor do The Voice 2022.

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Muito obrigada pelos vossos comentários de ontem. O meu ursinho cabeludo continua a melhorar. Tem dormido bastante, muito mais que antes, mas a veterinária diz que é normal. 

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Desejo-vos um dia feliz
Cor. Luz. Coragem. Esperança. 

segunda-feira, fevereiro 07, 2022

Depois de um susto dos grandes, o nosso querido ursinho felpudo está de volta a casa

 


Na sexta-feira à tarde, depois do trabalho, fui sozinha comprar uns presentes: estamos na altura dos aquários e na mesma semana há dois. Portanto, lá fui. A pequena fera ficou em casa com o dono.

Quando cheguei, fez uma festa que só vista. Parecia ele que já não me via há décadas. Uma alegria: rodopiou, saltou, deitou-se no chão de barriga para cima pare eu lhe fazer festas, depois levantava-se rapidamente para quase dar meias-voltas no ar. Eu dizia: 'Pensava que a dona o tinha abandonado, era...? Não... a dona regressou... Coisinha mais fofa...' e ele numa euforia. 

Fui colocar os sacos no quarto do fundo, fui pôr-lhe comida e fui lá para fora para fazer os telefonemas do costume. Ele, entretanto, foi comer e depois foi ter comigo.

Primeiro à minha filha: e ele aos saltos na minha direcção, duas patinhas no ar, quase apoiado apenas em duas patas. Quase não me deixava falar, tamanho o entusiasmo dos saltos. Tenho lá uma estaca grande e fina e peguei nela para que ele, ao saltar na minha direcção, esbarrasse nela. Mas logo virou o jogo a seu favor, mordendo a ponta de baixo do pau, fazendo força para fugir com ela. E eu a dar-lhe luta e ele a brincar e eu a a dar-lhe atenção enquanto falava com a minha filha.

Na véspera, o meu marido tinha descoberto cogumelos brancos junto ao tronco do chorão. Parece que aparecem, já grandes, de um dia para o outro. Claro que era para lá que ele queria ir. O meu marido chamou-me para eu buscar a pá pequena enquanto ele, com o pé, tentava impedi-lo de lá chegar. Lá os conseguiu arrancar e deitar fora.

Também na sexta à hora de almoço, estava eu ao telefone com um colega enquanto ia andando para a frente e para trás no jardim, quando reparei que o pequeno urso felpudo que vinha ao meu lado, cheirando, apanhando toda a espécie de coisas para roer ou brincando comigo, de repente estava a prestar atenção a qualquer coisa no chão. Olhei. Quase parecia um monte de folhas mas reparei que se mexiam. Era um monte de lagartas do pinheiro. Chamei-o e fui a correr chamar o meu marido. Quando me vê a correr, ele costuma correr atrás de mim (refiro-me ao urso -- ou seja, claro, ao dog). O meu marido veio e tentou queimá-las mas a acendalha ou o papel que levou deviam estar húmidos e aquilo não ardeu. Fui, a correr, buscar um balde com água e detergente. Isto, claro, enquanto se impedia o cabeludo de se aproximar (e, por cabeludo, obviamente não me refiro ao meu marido).

Com a pá, pôs as lagartas dentro do balde. Dantes, tenho ideia ideia que se gozava com os pescadores à linha dizendo que estavam a dar banho à minhoca. Aqui foi mais dar banho às lagartas. Com um pau verifiquei que no sítio de onde se retiraram as lagartas, também umas cabeludas, havia um buraco onde umas outras se tinham enfiado. O meu marido tirou-as também.

Mas isto foi à hora de almoço. 

Portanto, estava eu a ligar à minha filha, depois da brincadeira dos saltos, do pau e dessas maluqueiras, o urso felpudo mesmo feliz, foi pôr-se a esgaravatar na terra de onde na véspera tínhamos retirado os cogumelos. Estava acesa a luz do terraço mas na relva pouco se vê. Eu ao telefone e ele a escavar, o focinho enfiado entre a folhagem. Com o pé, com a mão e com dificuldade lá o consegui puxar dali. Sabia lá se haveria restos de cogumelos ou alguns novos ainda subterrâneos. Continuava a falar com ela, quando dei com ele deitado no sítio de onde tínhamos tirado as bichas cabeludas, a investigar o local. Numa corrida, fui chamá-lo. Como sempre quando está entusiasmado a deslindar qualquer mistério, ofereceu resistência, não queria, protestou. Peguei numa pinha, corri, e ele lá veio a correr. Como estava naquelas alegrias, desatou a correr a grande velocidade. E, de repente, parou e desatou a vomitar. Vomitou o que tinha jantado. Pensei que as corridas lhe tinham parado a digestão. Mas manteve-se agoniado, com aqueles arranques de quem está cheio de vontade de vomitar. Não foi a primeira vez. Por vezes, engole ervas grandes que ficam inteiras pela garganta abaixo e só descansa quando expele a erva.

Só que se passava qualquer coisa de estranho, estava muito incomodado, a fazer barulhos estranhos. Despedi-me da minha filha e disse-lhe que ia chamar o pai para percebermos o que se passava.

O meu marido veio, contei-lhe e disse-lhe que era melhor vir apanhar o vomitado antes que ele o comesse, coisa não inédita, e que visse se ele tinha alguma erva presa na garganta.  Enquanto isso, porque já era tarde, liguei à minha mãe. 

Mas, entretanto, vimos que o ursinho peludo estava francamente incomodado, já não propriamente a vomitar mas a rebolar-se freneticamente na relva, com uma pata a mexer na cabeça, depois esfregando o focinho na terra. Desliguei a chamada, dizendo que tínhamos que ver o que se passava pois o little teddy bear estava estranho. Chamámo-lo para casa e ele rebolava-se no chão, descontrolado, fazia barulhos, com a pata tentava fazer qualquer coisa na boca. Pensei que estava engasgado. Fui buscar a taça da água. Disse: bebe aguinha, bebe. Tentou mas aparentemente não conseguiu. Ambos dissemos que era melhor irmos rapidamente às urgências no veterinário. Pedi ao meu marido que tentasse ver se ele tinha alguma coisa na boca. Ele não queria deixar mas o meu marido enfiou-lhe a mão na boca. Não sentiu nada mas eu pareceu-me ver que a língua não estava com a cor habitual. Pensei que se calhar era por não estar a luz do corredor acesa. 

Entretanto, começámos ambos a vestir-nos à pressa. Tive um mau pressentimento: não era engasgado, aquilo ou era dos cogumelos ou tinha descoberto alguma lagarta e tinha-a comido. A muito custo, o meu marido conseguiu pôr-lhe o arnês para o prender ao cinto de segurança. Pensei que, no estado de descontrolo em que ele estava, não conseguiria aguentá-lo no banco, se não estivesse preso ao cinto.

Saímos à pressa. O meu marido desatou a acelerar, os quatro piscas. Ele, no banco de trás, esticado como sempre faz, com a cabeça entre nós, ora encostando-se a um ou a outro. Mas estava incomodado, babava-se em fio, uma coisa inusitada, aquela parte do carro encharcada. Eu ia dizendo: aguenta-te, aguenta-te... E, ao mesmo marido, dizia para guiar com cuidado pois ele ia a abrir, à maluca.

Entretanto, eu disse: Não me pareceu que a língua dele estivesse normal. O meu marido disse: está escura, não está? Também achei a língua esquisita, pareceu-me maior.

Chegámos ao consultório para aí meia hora, quarenta minutos no máximo, depois do que o fez vomitar (vi pelas horas em que acabei a chamada com a minha filha). 

Ao chegarmos ao consultório, ele não quis entrar. Resiste sempre. O meu marido pegou-o ao colo e passou-o para o meu colo pois só pode entrar uma pessoa. Mas a empregada, vendo-o, tirou-mo do colo e foi a correr para o consultório. Fiquei na recepção. A outra empregada perguntou-me: ele esteve ao pé de pinheiros? Eu disse que sim. Estava um homem na sala de espera que, tendo visto o meu bichinho e tendo ouvido a pergunta, disse: foi a lagarta do pinheiro, elas já andam aí. A empregada fez que sim e disse: também acho... este ano estão a aparecer mais cedo...

Reparei que estavam ambos com ar consternado, de quem estava a testemunhar uma fatalidade. Disse: Ele também esteve a mexer num sítio onde há cogumelos. Ambos, abanaram a cabeça e disseram: parece a lagarta do pinheiro. Devem ter-lhe visto a língua, não sei. Perguntei: É grave? O homem fez um ar de quem não queria ser portador de más notícias. Ela disse: Depende das lesões... causa necroses...

Fiquei com o coração apertado, numa aflição.

Não o ouvi a ladrar, o que era muito estranho. Nunca mais vinha ninguém falar comigo e não o ouvia. Não consigo descrever a ansiedade em que estava. Ligou-me o meu filho e tenho ideia que mal consegui falar. 

Passada uma eternidade, apareceu a veterinária para me chamar. Vinha com ar de caso, muito triste, com ar de quem não tinha boas notícias para me dar.

Confirmou: foi com certeza a lagarta do pinheiro. Tem a língua rígida, muito inchada, muito escura. Tem que ficar internado. Nunca se sabe. Perguntei-lhe o que lhe iriam fazer e quais as perspectivas. Disse-me que nos últimos dias era o terceiro caso com lagarta do pinheiro. Um estava internado, muito mal, língua, focinho, nariz, vias internas, tudo ferido, necrosado, um caso muito grave. Eu já mal ouvia. Falou-me em cortisona, em injectar anticoagulante na língua, em sedá-lo para evitar as dores, disse que aquilo dava dores horríveis -- e não percebi se as dores seriam das injecções na língua ou se seriam da alergia ou dos tecidos a necrosarem. Mas não consegui perguntar. Ela disse-me que, quando isto acontece, o estado é sempre reservado. Tem que se ir avaliando momento a momento, ver como reagem aos tratamentos. Perguntei-lhe a que se referia quando falava em necrose. Explicou-me que os pêlos das lagartas têm um veneno de efeito retardado que causa necrose: os tecidos morrem. Perguntei o que poderia acontecer. Explicou que, na língua, poderiam cair bocados da língua. Mas que, se fosse a língua toda, teria que ser eutanasiado. 

Senti-me ainda mais aflita, verdadeiramente atordoada de aflição.

Depois apresentou o orçamento. Centenas de euros. Falou que, se não conseguisse alimentar-se, teriam que lhe pôr uma sonda gástrica. Não sei que mais disse. Só horrores que me partiam o coração.

Não sei descrever como estava, a ouvir o que ela dizia. Devastada. Em momentos assim, pouco falo. É como se me sentisse esmagada.

Num instante, o meu cachorrinho querido estava aos saltos, a brincar, feliz da vida e, no seguinte, estava a rebolar-se de aflição e agora estavam a dizer-me que poderia morrer.

Saí de lá a chorar, numa tristeza, numa dor.

O meu marido também estava arrasado. A minha filha tinha-me enviado uma mensagem a saber como estava o ursinho mas não consegui falar. Ligou-lhe o meu marido .

Regressámos a casa só os dois. Ele que sempre brinca e ocupa o espaço e a nossa atenção com a sua alegria não estava ali. E não sabíamos o que lhe iria acontecer.

Quando aqui me sentei à noite, não conseguia escrever, só tinha vontade de chorar. Mas fiz um esforço

Todas as noites, quando vou deitar-me, vou com cuidado para não fazer barulho para não o acordar. Mas nessa noite ele não estava em casa e a sua ausência pesava-me no peito. Pensava nele, tão chegado a nós, ali no hospital, certamente com dores e sem a nossa companhia.

Mal dormimos.

De manhã, bem cedo, o meu marido já tendo ir fazer o seu passeio matinal, sozinho, foi ter comigo ao quarto. Eu estava acordada a pensar como a sua caminhada deveria ter sido triste, sem a companhia do seu endiabrado amigo.

Pediu que eu ligasse para o veterinário. Pedi que ligasse ele. Estava uma pilha de nervos. Mas ele também estava. Pediu que fosse eu. Liguei, o coração apertado. Atendeu-me uma veterinária que me disse que ele estava a reagir bem, que a língua estava menos inchada, que já não estava tão escura. Fiquei feliz.

À hora da visita fomos vê-lo. A minha filha e os meninos também lá foram ter. A empregada da recepção disse que só podia ir uma pessoa e pedimos que um dos meninos fosse comigo. Então apareceu a veterinária e disse que estava lá dentro um caso muito grave e que como o nosso estava melhor, podíamos levá-lo à rua. E então apareceu ele, com um daqueles funis de plástico à volta da cabeça, enfiadinho, os pelos da cabeça molhados, mais magro, mas todo contente de nos ver, a cumprimentar cada um, feliz da vida. A língua já quase normal mas ainda um pouco arroxeada. Ficámos, nós também, todos felizes. Dali, com ele, todos, fomos até casa do meu filho pois estavam todos em casa com um dos meninos ainda com covid (não sei se contei mas, um a a um, foram todos ficando infectados). Eles do lado de dentro da casa, nós com o ursinho peludo, do lado de fora. Todos contentes por termos ali a nossa pequena fera, tão preocupados que tínhamos estado.

Fomos depois deixá-lo, de novo, no hospital.


À tarde, fomos todos outra vez visitá-lo e, uma vez mais, pudemos levá-lo a passeio. Bem disposto, a fazer festas a cada um de nós, a saltar, o nosso animalzinho maluco de volta embora a bater com o funil em todo o lado, um bocado desorientado.

A veterinária disse que a alergia tinha desaparecido, os inchaços também, nomeadamente os da língua, mas que havia algumas lesões embora aparentemente pequenas e não muito graves. Explicou-me que lhe tinham andado a fazer lavagens e a raspar os tecidos mortos e que estas lesões podem ir aparecendo ao longo de dias. Foi um balde de água fria. Eu disse que tinha estado a espreitar e que a língua ainda não estava na cor normal mas que não tinha visto feridas. Ela disse-me que a língua é comprida, que há uma parte que não se vê. Mas disse-me que ele estava a recuperar tão bem, que já comia, embora ainda apenas se lhe dessem à mão, que deixasse ver como estava a língua depois das lavagens da noite e da manhã.

De qualquer forma, embora ainda bastante preocupada, já não estava tão aflita como na véspera.

Este domingo de manhã, liguei. O veterinário falava a rir: Ah ele está muito bem, recuperou mesmo bem, vocês tiveram muita sorte, já não para quieto, está ali só a chamar-nos. E ria, enquanto me dizia isso. Perguntei: E será que já o podemos trazer? Ele disse: Ainda vamos fazer uma lavagem, ver como está a língua. Ligue ao fim da manhã.

Senti-me mesmo feliz, aliviada, aliviada, aliviada.

Ao fim da manhã, liguei. Confirmava-se.

Quando lá chegámos, ouvimo-lo logo. Aqueles latidos de quando quer chamar a atenção. Ao fim de um bocado, ladrava mais insistentemente e chorava. Pensei que me deveria ter pressentido.

Então apareceu, já sem o funil. Uma festa de me ver, uma alegria, a correr na minha direcção. Nem queria sair de lá, para estar ao pé de mim. O meu marido levou-o a dar uma volta e eu fiquei a falar com a veterinária.

Disse-me que a urgência com que o tínhamos levado tinha sido determinante, que a rapidez da intervenção é decisiva. Que a língua tinha descamado mas que não tinha chegado a necrosar. Mas que tinha que ser medicado em casa e que dentro de três dias tinha que lá voltar para ser observado.

Portanto, já cá está e a vida voltou ao normal e o meu coração voltou a serenar. 

O meu marido, que tem outra forma de se exprimir, disse-lhe: 'Então, ó cabrãozinho, lá nos pregaste mais um susto...'

A minha filha foi buscar a minha mãe e almoçaram cá. Mal as sentiu a chegar, foi a correr para o portão, de pé, a latir de alegria.

E cá estivemos, ele um bocado cansado, mais calmo, a dormir mais do que habitualmente, mas já a comer bem, a beber bem, a brincar com os paus, connosco. E nós sempre de olho nele. Agora todo o cuidado é pouco.

O meu marido já pôs uma fita adesiva própria para apanhar as bichas traiçoeiras à volta de um pinheiro. E a ver se amanhã se põe noutro e para um deles se calhar temos que pedir ajuda. E, entretanto, já colocou umas grades para ele agora ficar na parte da frente do jardim, numa zona em que não há pinheiros. 

E eu renasci. 


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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Boa disposição. Boa sorte.

domingo, fevereiro 06, 2022

O PCP diz que vai encher as ruas e apela às massas.
Catarina Martins diz que não se demite e, em conjunto com o Cardeal Louçã, insistem em provar ao povo que o povo não os percebeu bem.
Ou seja, continuam a ir por bom caminho, eles. Não sei se são burros ou se padecem de autismo severo. Coisa boa não é.

Vou mas é colher inspiração noutras bandas

 

Ia no carro, distraída, quando ouvi o meu marido a dizer: Eh pá, estes tipos não atinam. Até dá pena.

Concentrei-me. Era Jerónimo de Sousa que falava, naquele seu tom simpático embora paroquial. Dizia que iam ser menos no parlamento mas mais nas ruas e falava mal do PS e do grande capital. O meu marido, disse: Pararam no tempo, ainda estão quarenta anos atrás. E voltou a dizer que até dava pena.

Eu ia preocupada com outra coisa. Dei-lhe razão mas não acrescentei nada. De resto, acrescentar o quê? Ainda não perceberam que as pessoas querem uma vida tranquila, estável, e não confusão nas ruas. 

E massas? Grande capital? -- continuam com o mesmo e estafado léxico. Será que a malta mais nova sabe a que é que eles se referem quando falam das 'massas'? Até eu, que pertenço à malta mais velha, tenho dificuldade em saber...

Passado um bocado, era outro. Está em todo o lado: na televisão, nos jornais, na rádio. É daquelas ervas daninhas que aparece all over. Era Louçã que falava do alto da sua cátedra, explicando que tudo o que se tem andado a passar resulta de uma conspiração orquestrada por António Costa. Passando um atestado de estupidez aos portugueses que não votaram neles, Louça inventou parvoíces numa tentativa vã de desviar a atenção para a barracada que tem sido a estratégia do Bloco. O meu marido insurgiu-se: Mas ninguém lhe pergunta quem é ele para andar a dizer isto? Aí fui eu que disse: Por duas vezes, foram de braço dado com o PCP, juntar-se à direita, abrindo espaço para a direita populista e, por duas vezes, os portugueses lhes mostraram o que pensam disso. O tipo, que é um perdedor e uma nódoa a definir estratégias, por aí anda a ganhar dinheiro para se gabar das suas teorias.

O meu marido insistiu. O que é necessário é que, quando ele estiver com estas teorias, alguém se vire para ele e lhe pergunte quem é ele para falar assim.

Conclusão: fizemos zapping radiofónico e fomos fixar-nos na Antena 2. 

E, agora que escrevo isto, ocorre-me que as Direcções de Informação das televisões, rádios e jornais também devem estar cristalizadas no tempo: alguém em seu são juízo, atento aos tempos que correm e com dois dedos de testa continuaria a contratar os mesmos de sempre? Quem é que insiste em contratar esta gente que já não sabe o que dizer, viciada na maledicência, destituída de capacidade de raciocínio, habituada a mastigar o que outros já regurgitaram? Provavelmente outros que tais.

Há paciência para aturar isto?

Por estas e por outras é que, nos meus tempos livres, cada vez mais me entretenho a ver vídeos ou as Gilde Ages desta vida.

Ou isso ou a colher ideias para cenas. Por exemplo:

Biquinis para anafadas
INSTAGRAM @_YUMI_NU
 

Blusinha de tricot em fio primaveril
Francesca Michielin


Maquilhagem combinada para aparecer no emprego sem passar despercebida
Des'ree Msasi

Ou a ver dança que nasce na medula dos bailarinos:

Girl Gone Wild - Madonna / 
Fredy Kosman ft Koharu Sugawara Choreography / Urban Dance Camp


Ou a ouvir/ver nova gente da música:

Crystal Murray - Other Men


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Desejo-vos um belo dia de domingo
Boas notícias. Boa sorte. Tudo a correr pelo melhor. Saúde e alegria.

sábado, fevereiro 05, 2022

Os azulejos portugueses da cozinha de Gwyneth Paltrow

 



Quando eu era bem mais nova gostava das casas tradicionais, perto do estilo dito português suave. Varandas, varandins, terraços, telheiros e, por dentro, as divisões numa disposição tradicional.

Por essa altura, visitei pela primeira vez uma casa de arquitectura moderna. Um amigo convidou-me para ir conhecer a sua segunda casa, uma grande casa no Estoril. Falava dessa casa como sendo a casa de praia e a casa do golf. Tinha sido desenhada por um arquitecto amigo e decorada por uma vizinha italiana com quem tinha uma amizade colorida, segundo ele uma bela mulher que apanhava banhos de sol nua, apenas com um chapéu de palha de abas bem largas.

Era uma casa que parecia ser quase toda aberta, de linhas direitas, em que tudo o que dava para o jardim era de vidro. 

Quando entrei, olhei e não encontrei aqueles elementos que associava ao aconchego, ao conforto, os recantos onde se pode ter um cadeirão, um quadro por cima, um candeeiro de pé alto, uma mesinha de apoio. Ali quase não havia paredes. Também estava habituada a pinturas com belas molduras, por vezes um passe-partout, conjuntos de quadros. Ali, que me lembre, só vi um único quadro. Havia uma mesa comprida e, encostado à parede, um móvel muito comprido. Essa parede estava pintada cor de tijolo. Por cima do móvel, uma pintura moderna, abstracta, gigante, uma coisa insólita de tão gigante.

Havia um conjunto de sofás gigantes, claros, dispostos em U, virados para o grande pano de vidro que dava para o jardim. Não me lembro de lá ver almofadas que era uma coisa que me parecia, e ainda parece, essencial para que as pessoas se acolham e encostem e aninhem. Não me lembro de tapetes, não me lembro de móveis com bibelots. Lembro-me, sim, numa zona estreita de parede, junto a mais uma vidraça, um escultura de pedra. 

Ele orgulhoso da sua casa e eu apenas sentindo estranheza. Não vim de lá convencida. Mais ou menos por essa altura, talvez uns dois ou três anos depois, depois de muito procurarmos descobrimos a nossa casa in heaven, uma casa que nada tem a ver com o harmonioso e tradicional estilo Raul Lino. Esta casa era uma casa acrescentada em relação a um núcleo antigo, várias vezes centenário. Toda ela atípica. E, no entanto, foi atracção imediata de todos nós, os quatro. Um desafio para a mobilar mas tão única, tão especial, que a minha mente de imediato se abriu a novas ideias.

Esta casa em que agora vivo, perto da cidade, é um misto. Mais tradicional que moderna mas, ainda assim, com espaços amplos, abertos, comunicantes. Chegámos a hesitar sobre uma outra, moderníssima, escultural, uma obra de arte. Mas também quase sem paredes, certamente também uma aventura para mobilar e decorar. Felizmente, prevaleceu esta.

Quando passeamos pelas vizinhanças, um dos meninos, o meu pimentinha mais crescido, passa-se com as casas de linhas direitas, estilo minimalista, grandes planos lisos. Diz que é assim que gostará que seja a sua casa, um dia que tenha uma casa sua. Percebo-o. Imagino-o adulto, divertido, culto, sempre com ideias e vontade de as alcançar -- e numa casa assim. Não o imagino com moveizinhos, quadrinhos, almofadinhas. Não. Há-de viver numa casa sofisticada mas isenta de rodriguinhos. Claro que pode ter que fazer concessões à sua companheira mas, se bem o conheço, com a personalidade dominante que tem, há-de convencê-la a aceitar a simplicidade despojada e elegante que ele aprecia. 

Os outros meninos ainda não têm ideias definidas sobre isso, pelo menos que eu me tenha apercebido.

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Em dias complicados, e se o de hoje o foi, chego à noite à sala e só me apetece ver vídeos que não têm nada a ver, que não afloram problemas, nem ninguém fala de crises, depressões, fracassos ou antevisões negras para o futuro.

Não sou grande admiradora de Gwyneth Paltrow. Vi-a no Shakespeare in Love e gostei. -- mas não me lembro de mais. E agora deu em comerciante, por vezes de produtos e conceitos meio bizarros. Goop. As velas com cheiro a vagina e os artefactos sexuais curiosos e envoltos numa prosa meio filosófica são meros exemplos.

Mas hoje fui à boleia do algoritmo do youtube e aproveitei que ela mostrou a casa para a ver. Não acho extraordinária mas é interessante. E tem aqueles azulejos simples, bonitos, portugueses. E só por isso já acho que vale a pena partilhá-la convosco.

Inside Gwyneth Paltrow's Tranquil Family Home 

| Open Door | Architectural Digest


Já agora, também um cheirinho do Shakspeare in love


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Desejo-vos um sábado feliz
Saúde. Boas notícias. Boa sorte. Alegria.

sexta-feira, fevereiro 04, 2022

Qual é a pessoa qual é ela que anda sempre a surfar qualquer onda sem ter inteligência e habilidade para perceber a qualidade da onda?
Qual é a pessoa qual é ela que não acerta uma mas que erra com a cagança que costuma estar reservada aos que acertam sempre?
Qual é a pessoa qual é ela que tem a maior cara de pau, dizendo uma coisa e o seu contrário sempre com a petulância dos seres superiores?
Qual é a pessoa qual é ela que, mediante a dimensão dos seus juízos errados e dos seus raciocínios avariados, em vez de se demitir e nunca mais nos aparecer à frente, aparece sempre como se não fosse nada?
Quem é a pessoa qual é ela que não apenas tem cabecinha de alfinete como, pelos vistos, a tem vazia?

 

Penso que mais do que adivinhas, estas são perguntas retóricas. Branco é, galinha o põe. 

Mas, a quem tenha dúvidas, aconselho a rever o Eixo do Mal desta quinta-feira e o compare com o da semana passada. 

E, para quem não aguente (o que se percebe porque, na realidade, não se aguenta!), aconselho vivamente a leitura atenta do Completely SICk. Lê-se e não se acredita. 

Só mesmo a Clara Ferreira Alves para falhar tanto, falhar tão grosseiramente, falhar tão ridiculamente.

Transcrevo uma parte do que o Valupi transcreveu:

«António Costa escreveu o manual "Como não fazer campanha eleitoral - Erros a não cometer". Conseguiu cometê-los todos. Ele pode estar a milímetros de acabar ingloriamente a sua carreira política. Não há cargos europeus para quem perde eleições neste cenário.»

«António Costa partiu com aquela soberba que lhe é peculiar e acabou a fazer uma espécie de discurso de caixeiro-viajante à porta a vender escovas e sabões.»

«António Costa foi errático e isto dá uma aparência de desonestidade intelectual. E isso é muito grave.»

«Ele não é capaz de negociar consigo mesmo. Lá naquela bazófia, ele está visivelmente nervoso e sua de pânico porque sabe que pode estar a muito pouco de perder, e de perder tudo. E de rematar uma longuíssima carreira da pior maneira. Rui Rio está contente, evidentemente.»

Clara Ferreira Alves – 27 de Janeiro de 2022

Clara Ferreira Alves, a maior perdedora nas eleições legislativas 2022: 

mostrou à saciedade que não acerta uma, que não é intelectualmente honesta, que não é perspicaz, que não sabe ler a sociedade, que é uma catatua papagueante, que é uma cabeça vazia, que não tem vergonha na cara


Agora, já com António Costa vencedor, o PS com uma maioria absoluta, é vê-la, sem vergonha, armada em esperta, a louvar o Costa, a explicar porque é que o Costa ganhou, a cair sarcasticamente e a pés juntos em cima do Rui Rio. 

É isto o que a SIC tem para nos servir? Acha a SIC que somos parvos? Acha que temos paciência para isto?

Não percebo, mas não percebo mesmo, porque é que a SIC continua a contratá-la. Claro que o Luís Pedro Nunes também não dá uma para a caixa, um misto de candidato a parodiante histriónico e de aluno cábula. Também não se percebe em que qualidade é contratado. Dos outros dois, Daniel Oliveira e Pedro Marques Lopes, agora não digo nada, já dou de barato. No meio de tanta mediocridade, a gente já dá o desconto aos que conseguem ter uma conversa mais estruturada. Podem, com alguma frequência, dar alguns pontapés na lógica, na gramática, na história, na verdade dos factos, etc, mas, pelo menos não são tão desmiolados, descarados, despudorados, impreparados, desrespeitadores da inteligência de quem os ouve, etc, como os outros dois.

Entre Luís Pedro Nunes e Clara Ferreira Alves, esta ainda é pior. Poderia parecer difícil mas não: Clara Ferreira Alves é mesmo do piorzinho que por aí há. Parece que o Balsemão gosta de ter por lá coisas assim, gentinha sempre pronta para fazer o frete. E, quanto mais acéfala é, mais prestimosa essa gente se mostra. Escrúpulos não têm, vergonha também não. Por isso é vê-los. 

Quanto a CFA ser pior que o LPN: é que Luís Pedro Nunes se apresenta como um comediante, está ali só mesmo para largar umas larachas. Ela não, ela apresenta-se como se soubesse o que diz. Pior, apresenta-se como se só ela é que soubesse o que diz. E uma arrogância sem razão de ser é simplesmente manifestação de falta de inteligência.

Depois da barracada do que disse às vésperas das eleições, se eu fosse ela, obviamente demitia-me. Mas não. Já está noutra. Quem a ouça parece que sempre disse o contrário do que disse. Quem não faz ideia do que diz nem sabe do que fala, quem se exprime cavalgando ondas sem sequer perceber se são ondas a sério ou ondas fake e, pelos vistos, sem sequer saber o que é uma onda, está ali, na televisão, a fazer o quê? A vender banha da cobra? Mas... a vender a quem? Há compradores para banha da cobra?

Não há pachorra. Não há mesmo.

quinta-feira, fevereiro 03, 2022

A atração pelos transportes públicos, o apelo da liberdade. E o exemplo dos pinguins.

 



De vez em quando apodera-se de mim uma vontade de férias e de passeio e de me meter em novas aventuras que nem sei. 

Hoje, enquanto jantávamos, vimos nas notícias que vão avançar as obras para ligar o Rato ao Cais do Sodré. Fiquei toda contente. Disse ao meu marido: até que enfim...!. Ele ficou admirado, olhou para mim sem perceber o meu entusiasmo. Expliquei: quando me reformar vou tirar um daqueles passes que dão para todos os transportes, se calhar até têm com desconto para reformados, e saio de manhã, de mochila às costas e vou à minha vida. O meu marido respondeu: não te esqueças que quiseste ter um cão. Claro que vacilei. Mas disse: e então? fica no jardim. E ele: fica? durante quanto tempo? E eu: Durante o dia. Até chegarmos. Mas depois, perante tantas dificuldades, disse-lhe: ou ficas cá com ele e eu vou sozinha. Aí já não disse mais nada. Cá para mim tem esperança que, até lá, eu amanse.

A verdade é que começo a ir pensando nisso com uma expectativa fantástica. 

Comecei a trabalhar aos 20, enquanto estudava. Daí para cá tem sido uma sobreocupação permanente, sem tempo para mim. Desabituei-me, até, de pensar no que verdadeiramente queria fazer pois sabia que nunca tinha oportunidade de o pôr em prática. Primeiro as férias são curtas e tínhamos que nos encaixar em função dos miúdos, depois deles se autonomizaram começaram os problemas com os mais velhos: havia sempre uma avó ou o avô doentes que me impediam de ir para muito longe. E as férias continuaram curtas. Depois dos avós, foram os graves problemas de saúde dos meus sogros, depois o avc do meu pai. Pelo meio vieram os netos e as férias continuaram curtas. E a ocupação profissional sempre exagerada.

Portanto, a bem dizer nunca consegui ter actividades complementares para além dos hobbies que podia praticar em casa, fora de horas.

Uma colega que se reformou, uma vez apareceu no escritório para nos vir cumprimentar. Vinha toda gira, com muito bom ar. Quando lhe perguntaram se não se enfadava sem nada que fazer, desatou a rir e disse: às vezes penso que ainda bem que os que trabalham não sabem que é tão bom não trabalhar, senão viviam frustrados.

Uma prima diz a mesma coisa: vai a concertos, a exposições, vai a outros países, vai ao ginásio, ao instituto para massagens. Dizem os filhos que não podem contar com ela para tomar conta dos netos porque nunca tem tempo e pouco pára em casa (isto antes da covid, claro).

A mim, associada à ideia da liberdade, vem esta ideia que a outros pode parecer abstrusa: imagino-me a andar em transportes públicos. Eu que desde há séculos só me desloco em carro... Mas deve ser por isso. Deve ser bom sair de casa a pé, ir para a paragem esperar o autocarro, depois andar de metro, mudar de linha, sempre na boa sem ter que me preocupar com estacionamentos nem com trânsito. Como quando se está em Paris, em Frankfurt, em Barcelona -- em turismo, a palmilhar as cidades, à descoberta, a fotografar.

E imagino-me a andar a saber de actividades de voluntariado e ir ver se é coisa que me agrade (penso frequentemente no apoio à integração de refugiados), a frequentar cursos de jardinagem ou a ir fazer viagens de conhecimento de locais em que a natureza é exuberante ou a aprender a esculpir a madeira. Coisas assim. O que calhar. 

E escrever. E tenho que ter atenção, não posso arranjar tanta coisa que depois volte ao mesmo, a não ter tempo para escrever.

Só espero é poder mesmo ter esta liberdade e esta vontade quando lá chegar. E saúde. E sorte.

A essa minha colega, que tanto desejou a liberdade da reforma e que tão feliz estava, aconteceu o pior : ficou viúva. Ficou por terra. Quando uma pessoa se habitua ao longo de muitos anos a viver em estreita equipa com outra pessoa, parece que perde a capacidade de fazer e executar planos sozinha. Mas, enfim, a tudo toda a gente se habitua. E não são todas as pessoas que sofrem dissabores quando alcançam a liberdade de movimentos pelo que também não vale a pena pensar nisso.

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Voltei a ter um dia complicado. Noto que a impaciência continua a ganhar terreno dentro de mim. Estou a deixar de tentar ser condescendente e a deixar de ter pruridos em mostrar a minha falta de pachorra. Há pessoas que fazem do exercício da lábia o seu modo de vida. Outras são burrinhas todos os dias mas convencidas que são o máximo. Gente assim infecta as organizações. E por delicadeza ou resignação vamos deixando que seja assim. Mas não tem que ser. Não queremos magoá-los. Mas, para não os magoarmos, desmotivamos e prejudicamos muitos outros. E isso é bem pior.

Em tempos trabalhei com um administrador que era bruto como as casas. Quando tinha alguma coisa a dizer, dizia-a onde calhava e da maneira que lhe apetecia. Era mais temido que amado. Respeitado mas temido. Sempre me dei muito bem com ele mas, quando o via assim, fora de si, quase a esmagar quem ele achava que era um estorvo e um atraso de vida, até ficava enervada, com receio do que iria seguir-se. E, no entanto, quase toda a gente o admirava: não perdia tempo com o que não valia a pena, atalhava caminho.

E eu, por vezes, olhando-me de fora, penso que, se calhar, os outros também me vêem assim. E não sei se isso é bom se não.

O pior é que trabalho até bastante tarde e chego aqui, a esta hora, já com a cabeça em água. E depois penso que ainda tenho que fazer isto e aquilo, que não posso esquecer-me de pagar isto e aquilo e de encomendar isto e aquilo e de ainda ir verificar isto e aquilo. 

O meu marido queixa-se do mesmo, que há sempre mais qualquer coisa para fazer, que passa um dia e outro e outro e há sempre coisas para tratar, coisas que não podem atrasar-se. 

Enfim. 

Um dia haveremos de acordar quando acordarmos, sem horários, haveremos de fazer o que nos apetecer, haveremos de nos sentir livres, haveremos de sair de mochila às costas e ir por aí.

Até lá, pensando bem, é só ir levando na melhor.

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Quando aqui chego, espreito as notícias. Geralmente nada de muito empolgante. Então vou colocar-me nas mãos do meu amigo algoritmo e ver o que o Youtube tem para me mostrar. Hoje, dois vídeos maravilhosos. Um exemplo. Instinto de sobrevivência, inteligência, coragem, resiliência, espírito de grupo, altruísmo, determinação. Há aqui de tudo. Uma verdadeira maravilha.



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As pinturas são da autoria do nigeriano Ayoola Gbolahan e vêm, uma vez mais, na companhia de Ludovico Einaudi com Luminous

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Desejo-vos um bom dia
Ar puro. Vida nova. Liberdade. Coragem.

quarta-feira, fevereiro 02, 2022

Do mais fashion que há: usar meias a condizer com a cor do céu

 



No fim da jornada, fomos passear para a beira mar. Apetecia-me algo -- e perdoem-me mas não vou explicar porquê. Aliás, teria desejado estar despachada mais cedo mas a reunião da tarde alongou-se. Por isso, quando ambos pudemos (porque não fui só eu a não me despachar mais cedo), fomos.  

Entardecia. 

Pessoas correndo no paredão, pessoas andando de skate, pessoas de bicicleta, pessoas passeando devagar, pessoas simplesmente olhando o mar ou olhando o céu a enlouquecer, tanta a cor.

Com o animal peludo a puxar desvairadamente, a ir de pedra em pedra, a cheirar tudo, um entusiasmo, todo um mundo por descobrir, era-me quase impossível fotografar.

Pelo caminho tinha falado com a minha mãe e com a minha filha. Já a chegar, ligou o meu filho. Por isso, ia falando com ele enquanto aproveitava as delirantes cores do sol já posto para fotografar. 

O pequeno urso ia pela mão do dono, de vez em quando abeirando-se de mim, pelo meio olhando para um lado, para outro, para trás, correndo em frente, parando, cheirando, saltando, verificando se estava tudo sob controlo enquanto tentava assimilar tantos novos estímulos.

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E, ao começar a escrever isto, passei pela 2 e estava a dar um documentário sobre Robert Mapplethorpe -- um grande documentário. 

Tenho um grande livro de fotografia dele, daqueles que sempre tentei que os meus filhos não vissem. Há imagens que tenho que confessar que me chocam pelo que ali se vê. Receava a reacção deles, receava que pensassem que algumas daquelas coisas eram normais -- ou que me colocassem perguntas às quais teria dificuldade em responder. Tenho um outro sobre ele e a sua fotografia, menos provocador. Mas sempre de uma grande beleza. O seu próprio percurso é fascinante. Focado, ambicioso, excessivo. Sou sua grande admiradora.  A estética, a pureza, a perfeição da composição, a depuração superam a estranheza que eu, por vezes, sinto. Muitas vezes, neste meu canto, aqui o tenho tido e certamente muitas mais terei. 

Deixei-me ficar a ver e, por isso, agora já são duas da manhã, continuo com o sono ainda não recuperado, esta quarta feira tenho que madrugar... e ainda não comecei a falar do que tinha em mente. Já nem vou conseguir falar.

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E estive a falar de um grande fotógrafo e, em vez de aqui ter a sua obra, estou a plantar fotografias feitas por mim. É o que tenho à mão. 

Não consegui fazer muitas, rapidamente caiu a noite e, sem concentração e com um urso peludo que, no meio da alegria, ainda se lembrou de fazer cocó ao pé de um casal de namorados e de fazer chichi ao pé dos bancos por onde passava (agora está a querer ficar um cão-machão: sempre que vê um poste, um candeeiro e, hoje, um banco, encosta-se e começa a querer levantar a perna), poucas mais fiz do que estas que aqui estou a pôr.

Como já era de noite e vi que, por não conseguir estar sossegada e porque as pessoas também não paravam quietas, as fotografias estavam a ficar desfocadas e como se as pessoas estivessem a ser agraciadas por uma chuva de estrelas, decidi parar e dedicar-me apenas à caminhada.

Fomos andando, conversando, aspirando a maresia. Há muito tempo que não íamos para ali. Fomos também buscar comida ao restaurantezinho onde, durante anos, íamos frequentemente à sexta à noite. 

Soube-nos muito bem. Logicamente chegámos tarde a casa. Depois o meu marido ainda teve que acabar um trabalho e sei lá mais o quê. Só aterrei aqui já bem tarde e, se não fosse o Robert Mapplethorpe, certamente teria adormecido.

Sei que é aborrecido fazer um post e pôr-me a falar de meu sono mas é o meu ponto fraco. Tanto que preciso de dormir bem e, no entanto, tanta necessidade que tenho de fazer esticar os dias.

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Vou-me e vai ser mais um dia em que não consigo responder a comentários nem a um mail interessantíssimo sobre casas (e sobre o lado humano das casas). Já não consigo.

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Desejo-vos uma quarta-feira feliz

Boas notícias. Boa sorte. Tudo a correr bem.

terça-feira, fevereiro 01, 2022

O passeio de domingo, a reconstituição da vida do Pina.
E os homens que vivem em barcos.

 



De domingo para segunda deitei-me tardíssimo para acompanhar os resultados, as reacções e os exercícios acrobáticos dos jornalistas de stand up e dos avençados a metro. Ainda por cima acordei muito mais cedo do que tinha previsto com o urso a atirar-se à maluca contra a porta do quarto. 

De manhã -- ou melhor, praticamente de madrugada -- o meu marido vai dar uma volta com ele. Mal entra em casa, o meu marido diz que ele corre e tenta abrir a porta do quarto. Deve querer saber se lá estou dentro. A porta fica encostada e, como o chão, que é de madeira, faz atrito, só com força se consegue empurrar. A porta não pode ficar aberta senão ele entra e, num salto, vai para cima da cama. Vindo da rua, não se pode dizer que venha com as patas muito limpas. Portanto, fica a porta encostada. Não fica fechada pois faz-me impressão, receio não ouvir alguma coisa que deva ser ouvida. Mas a verdade é que acordo sobressaltada com os encontrões que dá na porta. 

De manhã pensei que, com sorte, talvez pudesse passar pelas brasas logo a seguir ao almoço. Estava mesmo a precisar. Afinal apeteceu-me tentar recompor o livro que, no outro dia, a fera tentou devorar. Dezenas de bocadinhos de folhas. Com uma paciência chinesa pus-me a tentar encontrar, nas folhas esburacadas, o espaço para cada bocadinho. Por bizarro que possa parecer, gosto de fazer coisas assim. É tal e qual como fazer um puzzle. E eu não tenho paciência para fazer puzzles pois não tenho paciência para fazer coisas que não servem para nada. Neste caso, como o objectivo não era lúdico mas muito objectivo, tentar conseguir ler as folhas despedaçadas, tive paciência. 

Tenho esta coisa muito arreigada em mim: não desperdiçar tempo com coisas que não servem para nada. Claro que escrever aqui, a bem dizer, também não serve para nada. Mas, enfim, tenho esperança que sirva para fazer companhia a quem me lê, enquanto me lê. Enfim, não interessa. Gosto de escrever, seja ou não útil. Acho que é a única excepção. Isso ou fotografar. 

Bem, mas pus-me a tentar reconstituir as folhas. E quase consegui. Subsistiram alguns buracos em algumas páginas. Concluí que não apenas o pequeno monstro felpudo rasgou várias folhas como deve ter comido parte delas. É que apanhei cada bocadinho que encontrei na relva, não sobrou nada. Portanto, deve ter devorado, literalmente, parte da biografia do Pina.

O que é curioso é que, enquanto estive nesta actividade, ele esteve deitado ao meu lado, com o queixo em terra, como quando está expectante ou a fazer-se de morto a ver se passa despercebido. Ora costuma andar de roda de mim, pôr as patas em cima da mesa para ver o que estou a fazer, a tentar mexer naquilo em que estou a mexer. Desta vez nem pó. Cá para mim, lembrou-se que aquele livro já foi motivo de desentendimento sério entre nós e nem se arriscou a puxar assunto...

Portanto, como de seguida tive que me ir aprimorar para uma reunião, não consegui descansar. Resultado: agora estou que não posso. Daqui a nada tenho que ir dormir.

Ontem não contei como foi o dia mas posso contar agora. Em casa do meu filho, um após outro, foram todos ficando com covid. Os cinco. Sintomas variáveis mas, felizmente, pouco graves. Estão confinados há para aí umas duas semanas. Por isso, no domingo, depois de termos ido votar, só estivemos com o bando da minha filha. Almoçámos no jardim e depois fomos passear. Ela andava há algum tempo a querer ir passear para ali -- o que teve que ser muito regateado com os filhos, em especial com o mais velho que queria treinar defesas na praia.

A tarde estava boa, amena, uma luz suave, um ambiente muito agradável. É muito bom passear com o tempo assim, o mar tão bonito, a vista tão longa e delicada, todos tranquilos. O ursinho felpudo fica feliz com a família, salta e brinca e corre e derrete-se com eles. 

Faz tanta falta a chuva. Assustam-me as secas. Nem quero pensar que vamos ter falta de água antes de se ter descoberto como dessalinizar as águas do mar em larga escala e a baixo custo ou como forçar a formação de nuvens. Mas, se me abstrair dessa preocupação, é tão bom o tempo assim...

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E, nesta dança de dia após dia, o primeiro mês do ano já se foi. Anda rápido, o tempo. De manhã, quando estava a tomar o pequeno almoço, abri a porta e abeirei-me do jardim. Estava uma rola a passear na relva. Tentei manter o silêncio mas não devo ter conseguido pois ela deu uma corridinha, depois bateu as asas com força e voou. São bonitas, um platinado quase branco. Mas ariscas. Nunca me deixam chegar perto, muito menos tocar-lhes.

Quando estava a ter a reunião da tarde, tentando resolver uns problemas recorrentes e tentando anular a hostilidade de alguns contra uns outros, reparei que, lá fora, de entre a ramagem da trepadeira ao pé da janela, estava a soltar-se uma outra rola. Fiquei com pena de não a ter visto senão quando voou. 

Há um lado transitório e efémero em tudo isto, na passagem do tempo, no voo de um pássaro, nas brincadeiras de um cachorro que, não tarde, será adulto, na ternura dos meninos que, não tarda, estão grandes e independentes, em mim que talvez perca a vontade de aqui escrever fora de horas. Ainda se ao menos estivesse a escrever num caderno, em papel, se estivesse a compor um livro. Um livro sempre tenta contrariar a efemeridade disto tudo. Agora assim, a soltar palavras ao vento, palavras mais ariscas que as rolas do jardim, fico com o quê? 

Vou mas é dormir que esta conversa já não está com nada.


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Mas, antes de me mandarem bugiar, não querem ver este vídeo que aqui tenho?

É interessante e, de certa forma, tocante. Fala de quem prefere viver à margem da sociedade, abdicando de conforto e segurança, para poder sentir todos os dias o gosto da liberdade. São pessoas que vivem em barquinhos mas sabem que um dia alguém não tolerará a perturbação na harmonia do status quo e acabará com a sua forma de viver.

Living Rent-Free Next to Millionaires

For decades, the “anchor-outs” have enjoyed living in rent-free boat homes in the Bay Area. Their boats, anchored just north of the Golden Gate Bridge, float illegally in the sightline of one of the country’s wealthiest zip codes. But now, as enforcement ramps up, their way of life could be coming to an end.


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Peço muita desculpa mas não vou conseguir responder aos vossos comentários. 
Estou já mais para lá do que para cá.
Sorry.

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As fotografias foram feitas neste domingo e estão aqui na companhia de Yo-Yo Ma - Bach: Cello Suite No. 3 in C Major, Bourrée I and II

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Desejo-vos um dia feliz e luminoso.
Boa sorte. Bola para a frente. Para a frente é que é caminho.