quinta-feira, junho 10, 2021

A casa invisível e outros breves apontamentos

 



Os dias estão grandes de dar gosto. Jantamos habitualmente por volta das nove e agora, a essa hora, ainda há luz do dia. 

De tarde, estive no jardim como se estivesse numa concha longe do mundo: protegida, em paz. 

As rolas atravessam o ar e vêm pousar nas árvores e uns passarinhos pequenos vêm pousar e debicar o chão muito perto de mim. Estava a apanhar sol e a ler, em silêncio, e eles ali como se eu não existisse.

No outro dia aconteceu uma coisa que me perturbou um pouco. No terraço, debaixo do telheiro aqui junto à sala, vi um montinho fervilhante de formigas. De longe, um montinho escuro. Fiquei a apurar a visão a tentar perceber o que seria. O meu marido vinha a passar e pedi que visse. Não me aproximei eu pois temi que fosse qualquer coisa estranha. Ele foi buscar uma pá, apanhou e foi atirar para longe. Era um pássaro, disse-me. Grande?, perguntei. Que não, pequeno, que devia ter caído do ninho. Fez-me muita impressão. E fez-me impressão que, em pouco tempo, deveria acabar devorado por formigas. A vida, qualquer forma de vida, sempre tão irremediavelmente efémera.

Mas é a natureza a funcionar: nada se perde, tudo se transforma.

De manhã, fui à horta pôr os restos dos legumes da preparação da sopa e as cascas da fruta no recipiente de compostagem. Vi, ao fundo, grandes flores amarelas. Não percebi o que seria, àquela altura. Não as flores do chorão que o chorão é rastejante e as suas flores são mais contidas. Fui ver e nem queria acreditar: é a piteira. Não sabia que dava flores. Vim a casa buscar a máquina para as fotografar. Que surpresa boa para começar bem o dia. 

Quando estava a voltar a casa, num outro lugar mais à frente, uma outra cor, mais alaranjada, quase transparente. Era outra flor, numa outra piteira. É a que está lá em cima. Lindíssima. Uma maravilha extraordinária, insólita de tão delicada naquele grande cacto cheio de picos. 

Depois, ao lado, um cachinho delas, estas aqui abaixo. A natureza é uma arca de tesouros -- mas uma arca sem fundo, cheia de infinitas preciosidades.

O chão por baixo da ameixeira pejado de ameixas verdes. A ver se não são como as do campo, in heaven, que, num dia, ainda estão verdes, nos dias seguintes começam a aparecer debicadas pelos pássaros e, na semana seguinte, as que restam estão no chão. 

Espero bem que não porque, se escaparem, está ali uma bela tequinha delas.

Os vasinhos que pendurei no gradeamento estão a ficar muito bonitos. Querem é muita água, já percebi. Como não têm pratinho em baixo e como está calor, se não levam água, entristecem logo.

As suculentas estão a medrar a olhos vistos. O canteiro das flores está uma formosura. Andei a regar mas tenho que ir e ver várias vezes. Como o regador dos dez litros acaba por ficar pesado (é fazer as contas, como dizia o outro), uso o regadorzinho mais pequeno. Mas não rende. Começo a verificar que deveria haver uma torneira perto do terraço das suculentas e do canteiro e outra do lado de fora do gradeamento do terraço da cozinha. Claro que, quando o verbalizei, o meu marido se agastou. Devo ter começado a frase com 'Penso que...' pois, quando acabei o meu pensamento, limitou-se a dizer: 'o teu problema é pensares demais'.

Mas não é. O meu problema é que há coisas a que o meu pensamento já não chega. Por exemplo: o que fazer para as refeições? Já não sei e, pior, já me falta a paciência.

Ontem para o jantar descongelei um bocado de vitela cortada para jardineira e umas fatias de entremeada. Depois fiquei a pensar o que fazer com aquilo. 

Quando descongelou, num tacho coloquei azeite, duas cebolas grandes, dois dentes de alho, duas folhinhas de louro. Depois juntei a carne. Coloquei um pouco de sal, um bocado de alecrim, salsa, cobri com vinho branco. Quando ferveu, deixei estar ali a ganhar sabor. Depois juntei dois copos grandes de água. Deixei que fervesse e depois baixei. Ficou ali a cozinhar durante mais de uma hora, para a carne ficar bem macia. Quando vi que estava a chegar ao ponto, juntei meio pacote de legumes para saltear e uma mão cheia de feijões verdes aos bocados. Quando os legumes estavam com ar de estar quase, juntei um copo de arroz basmati. Quando estava quase sequinho, desliguei. Ficou a cozer, tapado, enquanto apurava. Ficou bom.

Hoje ao almoço, comemos sopa e, cada um, um pãozinho com sardinhas em conserva, com alface e tomate. E fruta. E hoje, ao jantar, o resto do almoço de ontem com salada. Depois queijo e nêsperas.

Para amanhã já não sei o que fazer. Sugeri que comprássemos robalo e que ele o grelhasse. Diz que não, que dá muito trabalho atear o fogareiro e depois lavar a grelha. Se calhar, asso no forno. Não há pachorra. 

A ver se vamos é descobrir algum restaurante com comida de jeito para ver se lá vamos comprar. É que nem sei o que me apetece de tal forma estou saturada de puxar pela cabeça a pensar o que hei-de fazer. 

Mas, enfim, é o que é.

Tirando estas desinspirações, é o que se sabe quando aqui chego: não consigo ver notícias nem comentários. Muita coisa acanhada, mesquinha, desinteressante. Quero cá saber do que o pobre coitado do Rio ou o infante Medina ou sei lá o quê? Não quero. É espuma sem pitada de graça. 

Agora estou a fazer tempo para o House. É sempre um prazer. E uma banda sonora, no fim, que me agrada. Tudo bem feito e com graça. Agora a política nacional....? Bahhhh. E a internacional a mesma coisa.

Portanto, aos costumes digo nada.


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Enquanto isso, estou a ver vídeos de arquitectura ou decoração. Casas inseridas na paisagem, casas cheias de luz, casas onde o espaço flui, casas onde a natureza se funde com a alma. Esta que aqui partilho convosco é linda. Espero que gostem.

The Invisible Home | Grand Designs: House of the Year


Kevin McCloud visits a home built into the landscape of the Forest of Dean. This epic camouflage wonder is home to 3 bedrooms and two bespoke artist studios for its creative owners, Michael and Jean

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E muito sinceramente vos digo que espero que estejam bem, de boa saúde, bem dispostos.

Desejo-vos um dia bom, descansado.

Saúde. Alegria. Paz de espírito.

quarta-feira, junho 09, 2021

De que se alimentam os que quase ultrapassam as leis da vida?
-- A dieta nas Blue Zones --

(E outros breves apontamentos e desapontamentos)

 


Os meus dias andam verdadeiramente atípicos. Não fossem as circunstâncias e até poderia dizer que têm sido uns bons dias.

Tenho trabalhado mas a um ritmo mais tranquilo e tenho conseguido estar no jardim durante o dia. Voltei a ler as revistas e vou descobrindo aspectos em que não tinha reparado na primeira vez. 

Em vez de fazermos a caminhada à hora de almoço, como estava muito calor, preferimos ir ao fim da tarde. Mas como recebi uma chamada de trabalho, longa, acabei por nem desfrutar bem o passeio.

De manhã tinha estado numa sala onde estavam outras pessoas. Um casal de idade, miudinhos, quase iguais, ela mais despachada e atenciosa, ele talvez já um bocado saturado de tanta atenção. Às tantas a senhora levantou-se e desapareceu da nossa vista. Passado um bocado, veio com uma máscara na mão. Com ar firme, disse ao marido: 'bebe água e, depois de beberes, troca a máscara por esta'. O marido ficou como se nem tivesse ouvido. Ela insistiu. Ele, então, disse: 'não mudo nada, esta é nova'. Ela insistiu: 'já a deves ter molhado'. Ele negou: 'não molhei nada'. Ela, já impaciente: 'então para que é que fui buscar a máscara?'. Ele ficou como se não estivesse nem aí. Ela ficou a olhar para a máscara que tinha na mão.

Do outro lado, uma supé-tia, talvez pela minha idade, e a sua mãe. Mal se instalaram, pegou no telemóvel e com a voz assertiva e possante das supé-tias, disse: 'Oi Mafalda, tá boa? E, olhe lá, o dia tá a ser bom?' Riu. 'Olhe, querida, é para lhe desejar um dia muito bom e p'a dar os parabéns'. A outra disse qualquer coisa e ela disse: 'Amanhã passo por aí. Se quiser, vamos almoçar'. A outra lá deve ter dito mais qualquer coisa. E ela: 'Olhe, Mafalda, a minha mãe está aqui a mandar-lhe um grande beijinho e os parabéns'. A mãe estava à procura de qualquer coisa na carteira, nem levantou a cabeça. Quando percebeu que a filha tinha terminado, perguntou-lhe: 'A Mafalda faz anos, é?'. A filha já estava a mandar uma mensagem, nem respondeu.

E eu ali, observando, transparente. Gostava de andar com a máquina fotográfica e ter coragem para chegar ao pé das pessoas e pedir-lhes que me deixem fotografá-las, dizendo que vou escrever sobre elas. Mas não tenho coragem. Imagino que ficariam desconfiadas.

Agora aqui, mais descansada do que é habitual, querendo deitar-me mais cedo que o costume, espreito as notícias. 

Uma esmagou-me. The short life and long journey of Artin, found dead on Norway beach. Nem consegui ler tudo. A vida interrompida de Artin cujos pais sonharam com uma vida melhor. Vi as fotografias e fiquei com os olhos cheios de lágrimas. Muita, muita tristeza. Só um mundo virado do avesso, de costas para a vida, poderia permitir dramas assim. Deveria ser um mundo sem fronteiras, todos focados em preservar o planeta e a vida humana em tudo o que a justifica, incluindo o direito à dignidade e à esperança e, em vez disso, é um lugar perigoso, mau, desumano, absurdo. Mas fiquei tão triste e esmagada que acho que tudo o que diga ficará muito aquém do que deveria ser.

Também li sobre Mona Arshi, poetisa que usa a voz dos pássaros. Do Norfolk birds speak Punjabi? Mona Arshi, the poet transcribing bird calls. Estive a ver mas tenho que ver melhor. Parece-me muito interessante.

Quando conhecer melhor, talvez aqui fale. Há coisas que são diferentes, especiais. Não devem ser vulgarizadas por quem não fale delas, honrando-as. Portanto, por ora nada digo.

Rendo-me a uma coisa mais à minha medida: alimentação. Mas não uma alimentação qualquer. A dieta de quem vive mais do que o comum dos mortais, os habitantes das chamadas Blue Zones. Comida de que gosto. Comida simples. Sopas, legumes, frutas, frutos secos, petiscos. E, certamente, uma vida simples, ao ar livre. Na volta não é preciso muito mais para se ter uma vida longa e saudável. Talvez também amor e alegria na dança dos dias.

The foods that people living to 100+ — in Sardinia, Italy; Okinawa, Japan; Nicoya, Costa Rica; Ikaria, Greece and Loma Linda, CA. (aka Blue Zones) — eat.



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Fotografias de Lung-Tsai Wang,  Guido Villani, Fran Rubia,  Angel Fitor, Sarang Naik

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Um dia feliz

terça-feira, junho 08, 2021

Dez sinais de que outra pessoa está atraída por si

 


Não há coisa melhor do que a gente se sentir atraída por outra ou sentir que alguém que nos é especial está atraído por nós.

E, ao escrever isto, hesito: não há coisa melhor? não haverá mesmo...?

Bem, talvez haja. A gente ter saúde é fantástico. A gente ter os nossos também de boa saúde e felizes da vida é ainda melhor. A gente sentir-se realizada e motivada para fazer mais e chegar mais além é também do melhor que há. Ou seja, aquilo ali em cima de não haver coisa melhor não deve ser tomado à letra. Quero apenas dizer que é uma coisa boa. Quentinha de boa. Saborosa. Saborosinha.

Depois de um tranquilo -- e sem televisão -- não tenho notícias para comentar e nem acontecimentos meus para relatar. Ao fim da tarde, no jardim, estive a ver, rever e contemplar as decorações da revista que a minha filha me trouxe e, vendo aqueles ambientes claros luminosos, fiquei a fervilhar de ideias. E ando com aquela atravessada: arranjar uma lata de tinta em spray para me pôr a pintar móveis. 

Abri o youtube para me pôr a ver casas e jardins e eis que me apareceu outra vez a Jamila Musayeva. Pensei: o que será desta vez? como entrar na água do mar sem se arrebitar aos saltinhos aflitos? como pintar flamingos nas nails dos pés mantendo a compostura? Mas não. Para minha surpresa, o tema não tinha nada a ver. Dez sinais na expressão corporal de que outra pessoa está atraída por si. Fiquei curiosa. Pensei: a Jamila sabe estar à mesa e sabe dessas coisas das etiquetas mas... atracção... está bem, está... Mas, cusca como sou, por via das dúvidas, fui conferir. 

E, estranhamente, concordei com tudo o que ela para ali foi desfiando. 

Digo-o agora por minhas palavras a ver se consigo ser tão convincente como ela.

Olha-se para duas pessoas e sabe-se logo se estão atraídas uma pela outra. Ou olha-se alguém e sabe-se, ah sabe-se..., se essa pessoa está afim de nós. Não tem que enganar. 

Sei que há muitas pessoas que têm dúvidas e, portanto, receando estar equivocadas, retraem-se. E o outro, vendo a pessoa retraída, retrai-se também. E o momento passa.

Mas não tem que enganar. 

Pessoas que se atraem estabelecem contacto visual de uma forma íntima, uma pessoa tem vontade de ver o outro por dentro. Têm vontade de estar fisicamente perto. Olha-se e percebe-se que há um braço que se aproxima do outro, uma perna que tem vontade de sentir o calor da perna do outro, qualquer oportunidade é boa para tentar tocar a mão do outro. E as pessoas sorriem abertamente na direcção uma da outra. A felicidade de estar perto do outro faz com que o sorriso se abra só de o olhar. Quem se sente atraído pelo outro sorri e o sorriso é inevitável, é um sorriso que encerra cumplicidades e recorda ou promete malícias, contém insinuações, sugestões, e percebe-se que quer estar fisicamente perto e não consegue deixar de olhar os olhos do outro. E não dispensa a gargalhada. Quem se sente atraído por outra pessoa acha-a divertida. Não há relação que se aguente sem bom humor de permeio. Quem quer atrair o outro, sabe como fazê-lo rir e ri-se com ele. O riso partilhado é essencial, é vitamina, é combustível, é oxigénio, é elixir.

A Jamila fala ainda no rubor, fala no brilho nos olhos, fala no corpo aberto na direcção do outro, sem braços ou pernas cruzadas a marcar a distância, fala nos pés na direcção do outro e não na direcção de quem tem vontade de fugir. E eu concordo. Tudo sinais que há coisa. Que há fumo e há fogo. Que há little birds e butterflies, que há promessas no ar, que há desejo de festejar.

Quando a gente sente atracção por outra pessoa não quer cá proteger-se de coisa alguma, a gente quer é que qualquer barreira seja derrubada, a gente quer é que os pés se aproximem, a gente brilha, os olhos brilham, os lábios abrem-se, todos nós nos predispomos ao prazer da sedução mútua.

E se é fácil a quem está de fora perceber o que rola ou pinta entre dois que se atraem, para os próprios isso deve ser ainda mais evidente.

E qualquer relação só vale a pena se isto se mantiver vivo. Se esta chama se esvai, então adeus minhas encomendas.

Haverá quem dê explicações sobre como ressuscitar atracções extintas mas eu sou um bocado céptica em relação a fenómenos de ressurreições. Talvez haja quem diga que não há paixão nem amor nem coisa nenhuma dessas que requer ingredientes tais como sal, pimenta ou açúcar mas há amizade e que amizade é do melhor que há. Pois, sem dúvida. Mas amizade é amizade, não é amor, nem paixão, nem tem a graça das relações onde há o fogo da atracção, o prazer da sedução, o picante e a doçura do lado jubiloso da vida, não há a beleza e o mistério e o risco de um vulcão.

Mas que entre a Jamila Musayeva, que é mais contida que eu e que, além disso, já publicou dois livros.

Signs of attraction: 10 Body Language Signs That Someone Is Attracted To You


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Maria Zagorskaya, Santiago Rusiñol, Dan Dailey, Gustave Klimt, Marc Chagall mostram como é ao som de Norah Jones com Turn me on

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Um dia feliz

Saúde. Alegria. Vontade de festejar.

segunda-feira, junho 07, 2021

Um domingo feliz com História e outras histórias dentro

 


O dia hoje foi perfeito. A tarde maravilhosa e nós envoltos em verde e harmonia. A minha filha trouxe merendinhas, um bolo de noz e revistas para eu me sentir em férias. Toda a vida, quando íamos de férias para algum lado, em especial para o Algarve, eu comprava uma revista, podia até ser a Caras, a Hola. Parecia que as férias tinham que ser uma disrupção, um corte com a rotina. Estar em férias, sem ralações, sempre me pareceu que pedia uma daquelas revistas que eu jamais compraria. Portanto, comprava. E gostava de ver aquelas coisas surpreendentes.

Então, trouxe-me revistas. E eu fiquei comovida com aquilo de que ela foi lembrar-se. O meu marido também. Tenho-me comovido bastante nestes últimos dias. E o meu marido também.

Um dia talvez conte.

O meu filho trouxe croissants, cada um com seu recheio. Bons, bons, bons. Acho que são de uma cadeia de pastelarias muito conhecida. Como geralmente ando por fora das novidades, desconhecia. Adorei. Brie com compota de frutos vermelhos. Requeijão e nozes. Maçã e canela. Claro que, de cada, só um pouquinho. O que sobrou, guardámos e, ao jantar, comi mais um bocadinho. Uma delícia.

Como geralmente acontece, a minha filha maquilhou a sobrinha e a sobrinha maquilhou a tia. Depois a minha menina mais querida maquilhou-me também a mim e também me pintou as unhas. Está cada vez mais linda, mais coquette. Uma menina linda, adorável. No outro dia, enviou-me uma mensagem que me deixou de lágrimas nos olhos.

A mãe pintou as suas próprias unhas e foi avisada que, da minha parte, não vai ter aquilo que me disse que talvez gostasse de ter pelos anos. Riu-se e disse: 'Está bem'. Uma vez mais ousei e, uma vez mais, faço figas para que goste do que, daqui por pouco tempo, vai receber. 

E conversámos. Conversa de mulheres, enquanto os rapazes andavam nos seus desportos de eleição. Levámos as cadeiras para o que ainda havia de sol, e estivemos à conversa. Falámos de nós, falámos de outras pessoas e outras situações. Conversar é uma coisa boa.

Este fim de semana não deu para ir buscar a minha mãe mas a minha filha enviou-lhe fotografias e depois ligou-lhe e ouvi que ela também ligou para o neto, qualquer coisa a ver com senhas de recuperação, dúvidas lá das andanças dela pelas netes.

O mais pequeno, menino mais querido, andou a brincar com os seus carrinhos, a pôr e transportar terra. Depois andou a regar as flores e as árvores. Não resisti e abracei-o e beijei-o no pescoço. Avisou-me: olha que estou sem máscara... Tranquilizei-o: Mas por isso é que te abraço pelas costas e dou beijinho na parte de trás do pescoço.

Quando estava a ir-se embora, fui dar-lhe a mão, chegar-me a ele. O meu filho avisou: olha que ele está cheio de covides. Anda no colégio, naquela idade ninguém usa máscara na escola, portanto é daquelas que ninguém sabe. Ele acrescentou: E ainda não levei a vacina... Menino mais inteligente, sabe tudo como se fosse um rapaz crescido.

Os outros rapazes estiveram a jogar rugby com o tio. Ou futebol, nem sei. Ou as duas coisas. Jogam afincadamente, caem, fintam-se, transpiram, sujam-se. Mas vê-se a alegria que aquilo é para eles. Tirei-lhes fotografias, feliz por vê-los tão felizes.

Enquanto lanchávamos, os dois meninos do meio, o menino que fez dez anos e a menina que vai fazer onze, começaram ao despique com coisas de História. Depois desataram a fazer perguntas a mim e ao avô. Falhámos várias. Sabem imenso daquilo. Fiquei surpreendida. O meu filho confessou que foi coisa que não lhe entrou, história. Também sempre foi dos meus pontos mais fracos. Tive maus professores de história e com a aversão que sempre tive a decorar coisas, acabei por me desinteressar. Por isso, é com espanto, agrado e orgulho que constato como estes dois sabem e gostam tanto.

Os outros dois rapazes, o mais velho, o que não tarda terá treze e a quem já se nota o buço, e o mano do meio do grupo de três, o que tem oito, têm outra especialidade: o futebol. Sabem tudo o que há para saber, nomeadamente o nome de todos os jogadores e respectivas posições, seja de onde for. Saint Germain, Lyon. Sei lá. Estava parva a ouvi-los. Não faço ideia de como sabem tudo aquilo. Começam: à baliza...E vão por ali fora, desfiando posições e nomes. O meu filho gozou: useless knowledge. Mas a verdade é que eles vibram com aquela informação. O mais velho disse que também está sempre a ver o site das contratações. Fiquei estupefacta. Site de contratações? Mas há um site sobre contratações? Há assim tanta matéria...? E porque é que ele gosta de acompanhar isso? Não faço ideia. O mundo é um belo exemplo daquele espaço topológico que dá pelo nome de bola aberta. Uma realidade infinita, de formas indefinidas, variáveis.

Depois o grupo do meu filho foi para casa, o meu marido quis ir ver o futebol e a minha filha ainda me deu uma boleia para um breve passeio até à praia, o mais velho a ouvir o relato pelo telemóvel. E, então, o mais novo, o menino mais desportivo, aquele que sempre vimos como o mais physical mas que sempre se sai com coisas surpreendentes, começou a fazer perguntas sobre Pablo Picasso. E sobre da Vinci. Disse que gostaria de ver a Mona Lisa ao vivo. E depois sobre Van Gogh. A mãe admirada: mas onde é que ouviste falar nele? Encolheu os ombros. E eu, então, ainda mais admirada. Depois falou de uma pintura com uma noite com muitas estrelas. A mãe boquiaberta. Mas como é que tu sabes disso? Ele não explicou. Mostrei-lhe no telemóvel se era aquela. Era mesmo. Então lembrei-me de lhes dar a conhecer o Vincent (Starry, starry night). Ficaram a ouvir, ambos zen, no banco de trás, pareciam hipnotizados a ver o vídeo em que iam passando imagens das pinturas de Van Gogh. A minha filha disse que, por pouco, eu não os tinha adormecido. E sugeriu que hoje aqui pusesse esta música. 

Gostava de me meter no carro e ir com eles visitar museus, mostrar-lhes, ao vivo, todas estas pinturas. Holanda, Paris, Madrid. Acho que iriam adorar. 


E, pronto, foi este o meu dia de domingo. A realidade do dia anterior já longínqua, improvável. E eu a pensar que por cada dia feliz que alguém vive há uns quantos dias infelizes para outros alguéns. A vida devora a vida. Tendemos a querer esquecer o que não são boas recordações. 

Quando, no outro dia, eu e o meu filho estávamos lá à porta, enquanto o meu marido não chegava com o carro para me levar, nós íamos falando e, ao pé de nós, uma jovem mulher falava ao telefone, chorando, inconsolável. Falava e chorava e a sua voz denunciava aflição, angústia, medo. Afastámo-nos um pouco, o meu filho querendo proteger-me da dureza que é a constatação, a cru, das mais dolorosas emoções. Mas poderemos alguma vez proteger-nos disso? Conseguiremos aprender que tudo faz parte da vida? 

Alguém pinta a luz e o ouro que banha os campos e as flores e a vida: uma jarra de girassóis, um campo de lírios, uma árvore em flor, uma planície ensolarada. E, do outro lado, uma pessoa angustiada, deprimida, automutilando-se -- a mesma pessoa. Os dois lados da vida. As múltiplas faces da vida. As nossas múltiplas faces.


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Desejo-vos uma boa semana 

domingo, junho 06, 2021

Do outro lado do espelho

[A vida da gente não sai nos jornais]





Se não estou em erro, ontem foi a segunda vez, desde que comecei o blog, que não publiquei nada; e foi pela mesma razão que na primeira.

Não gosto de falar de assuntos desta natureza estando ainda a viver as situações pelo que omito a razão de fundo e sigo o conselho que recebi do meu filho, por mensagem, perto da meia noite, que me disse para me focar no ângulo antropológico para depois relatar no blog. Mas não posso seguir integralmente pois é tudo muito recente e excessivo. Talvez apenas algumas pinceladas, um primeiro esboço do retrato.

Direi apenas que penso que, verdadeiramente, jamais se poderá ter a noção da dimensão frágil e precária da natureza humana sem se estar dentro de um cenário daqueles.

A mulher que, deitada de lado, falava baixo, como se estivesse a conversar com alguém, uma conversa infindável, com pouco nexo, em que falava de ter cuidado em descer escadas, pendurar roupa ao sol, pedir que a 'outra pessoa' lhe ajeitasse a almofada, saber como estavam outras pessoas, o não sei quantos que andava coxo, ah não sabes? sim, sim, e os filhos vão lá levar as coisas, sacos do supermercado, e a não sei quantas, habilidosa na costura, ah não sabias...?, sim, faz batas para a fábrica, ah não sabias...?, não me digas, há tanto tempo que ela faz as batas.... Horas de conversa em voz baixa, uma voz frágil e monocórdica. E, no meio, para meu espanto, esta: ele diz: queres pelo cu ou pela frente. Apurei o ouvido para tentar perceber o contexto mas só ouvi, olha o galão... E logo voltou a falar como se conversasse com uma vizinha sobre outras vizinhas. De vez em quando alguém, muito alto, 'Schiu!' e ela, 'temos que falar mais baixo', e continuava naquela lengalenga infinita.

Ou o senhor, esquelético, com feridas, que agradecia amavelmente a toda a gente, em voz baixa, e perguntava o nome a toda a gente, uma simpatia, mas que, quando a sua vizinha do lado gritava -- ora como uma ave ferida ou como um animal a ser abatido a sangue frio -- elevava e engrossava a voz e gritava: 'Cala-te!' e dizia um nome de mulher. Pensei que seria a sua mulher. Contudo, na mudança de turno, tudo dito à frente de toda a gente, ouvi um outro nome. Provavelmente, gritava-lhe como antes gritava com a mulher.

Ou o rapaz que durante horas falou ao telefone, não sei se com alguém de verdade, se com um amigo imaginário, e sempre num tom furioso, agressivo: 'Não me digas para me calar porque não me calo. F...! Estou farto disto. Se não saio imediatamente, mando um par de bofatadas naquela p... ali, não me escapa, posso ficar aqui mas deixo-a estendida. E não me mandes calar! Não tenho medo nenhum. Quero lá saber que chamem a polícia. Eu quero é que estas gajas vão todos para o c.....!' Às tantas mandavam-no calar, outras chamavam-lhe malcriado. E ele continuava ao telefone: 'Não me calo nada. Era o que faltava que eu desse ouvido a estas cabras que me estão a mandar calar. Umas velhas que para aqui estão, todas umas p... de m.... Quero lá saber. Não tenho medo nenhum!'. E, volta e meia, levantava-se, aos gritos, sempre ao telefone: 'Vou-lhes aos cornos! Vais ver se não! Então julgam que isto fica assim? Que é que eu estou aqui a fazer? Pr'ó c...!' 

Ou a senhora que chorava, chorava, soluçava virando a cara de lado, um papel tapando-lhe a boca, e vomitava devagarinho, envergonhada de vomitar. Na passagem de turno, ouvi que está viúva há um mês e que desde então está sempre doente, desidratada, sem força.

Ou a senhora muito frágil, encolhida, ar amedrontado e envergonhado, que ouvi que é vítima de violência doméstica por parte do filho, que até há uma providência cautelar para que o filho não se aproxime dela, mas que não tem para onde ir, que não sabe o que fazer. De vez em quando, ouvia-a perguntar: 'Conseguiram falar com o meu filho?'. Que não, que ainda não tinha atendido o telefone. E ela encolhida, triste, envergonhada.

Ou a jovem suicida que durante horas chorou, gritou, ameaçou, insultou. Queria ir-se embora, dizia que estava a passar-se, que a deixassem sair. Depois era amarrada e gritava, chorava, insultava, soltava palavrões misturados com gritos cheios de lágrimas. A seu lado, uma voz segura, tratava-a pelo nome e dizia: 'não insistas, não é negociável, não sais daqui' e ela furiosa, chorando. Do outro lado, a mulher que várias vezes me fez rir, gritava: 'deixem a criança em paz'. E logo alguém a mandava calar. Entre choro, a jovem insistia. 'a sério, meu, deixem-me sair, a sério que não me vou matar...' A voz dizia-lhe: 'descansa, dorme, tens que te acalmar, fica calada, tenta descansar, não vais sair daqui às três da manhã' e logo a outra gritava do outro lado ´Três da manhã? Mau! Mas não eram três da tarde? Vocês são é umas grandes mentirosas' E logo alguém a mandava calar. Ela protestava: 'Toda a gente grita e chora e só a mim é que mandam calar...'. A jovem continuava o seu pranto: 'Vocês não têm o direito de me manterem aqui presa, deixem-me sair, a sério, meu, eu não me quis matar' A voz dizia: 'Ah não? Já viste como tens os braços? O que foi isso?'. A jovem entre choro, em voz muito alta: 'Há muito tempo que me corto, só que às vezes corre mal, meu, que mal é que tem?'. A voz: 'E achas isso normal? Porque é que te cortas?' E logo a mulher do lado de lá 'Para chamar a atenção' e a voz, fora do sério, tratando-a pelo nome: 'Cale-se, deixe-me falar com ela'. E a mulher: 'Mas a perguntar isso para quê? Deixe a criança em paz'.  E logo um outro homem, um que gemia e uivava baixinho: 'calem-se, porra, não deixam ninguém descansar'.

Ou o senhor, que tossia, escarrava, engasgava-se, gemia, chamava, que quando alguém lhe perguntava como estava dizia: 'perguntem à minha mulher, ela é que sabe explicar bem o que é que eu tenho' e mesmo quando lhe diziam: 'não senhor, o senhor é que está aqui, o senhor é que tem que nos dizer', ele, lamurioso, infeliz: 'falem com ela, vão chamá-la, digam para ela ficar aqui ao pé de mim...'

Ou a senhora que dizia, infeliz, chorando: 'meninas, meninas, preciso de ajuda, estou toda mijada' e depois, baixinho, a chorar: 'toda mijada, até o cabelo está mijado...'

Um dia talvez volte a algumas destas pessoas. Será uma forma de não me esquecer ou de deixar ficar o registo de quem não tem voz. Talvez tente o relato que o meu filho sugeriu, o relato de situações anónimas, sem história, momentos que, quem os vive, prefere esquecer. 

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Visões de  Hieronymus Bosch ao som de Antony and the Johnsons a interpretar "Epilepsy Is Dancing"

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

sexta-feira, junho 04, 2021

O segredo das rosas

 


Dia feriado e, só por isso, bom. Os meus dias já não são exactamente o que eram. Agora com qualquer coisa já acho que está bem assim. De manhã fomos ao supermercado. Dantes odiava. Agora gosto. Para além das utilidades, sucumbi às flores. Três. Duas cristas-de-galo, uma em fúcsia intenso e outra em amarelo, e uma begónia. Escuso dizer que o meu marido tenta impedir-me, diz que não temos onde pô-las. Nem respondo. Como não temos? Claro que temos. É como para mais um sorriso ou um bombom de chocolate: há sempre lugar. A minha mãe diria: o coração das mulheres é muito grande, há sempre lugar para mais um. Neste caso, uma.

Vim para casa feliz da vida.

De tarde, fomos ao Leroy. O tema era puxadores de porta. Mas trouxe três vasinhos brancos para as flores novas e uns suportes. A ideia de ter vasos suspensos anda a agradar-me muito. Queria um que lá estava que tem uma pega para pendurar mas estava numa prateleira a que não chegávamos. Tirei senha para pedir a um empregado mas nunca mais chegava a minha vez. Tanta gente... Vi lá uma outra flor linda mas sem o vasinho com a pega fiquei sem saber bem onde a poria. O meu marido fica em transe quando vê muita gente e me vê a querer trazer coisas que ele acha inúteis. 

Fui também ver de uma coisa da qual andava atrás há algum tempo: uma escarificadora manual. Têm estado esgotadas. Ainda não descobri uma como aquela máquina que aqui me foi recomendada em tempos, de nos montarmos em cima dela, ideal para os meninos fazerem exercício. Esta é das simples,. Quando vi uma fiquei toda contente. Mas a alegria não foi consensual. Por pouco, ele não acabou ali mesmo com o casamento. Que eu não pensasse que ele ia andar com aquilo. Eu disse que eu é que ia andar. Não acredita, diz que não tenho disciplina nem paciência para aquilo, que quero é que ele faça as coisas mas que tire isso da cabeça. Tive que lhe dizer que estava em público, que controlasse o mau feitio. Como não consegui ver o preço, disse que ia levar até à caixa e, se fosse cara, não trazíamos. Trouxemos. Estou desejando de ter tempo e de estar melhor do joelho (já marquei consulta) para me ir pôr a escarificar a relva. Não sei se o conceito se aplica à relva ou à terra mas, seja a escarificar a planta ou o leito em que se deita, tanto faz. Hei-de escarificar tudo. Só o verbo já é interessante e, quer-me a mim parecer, há-de prestar-se a boas metáforas. . 

Quando chegámos a casa, estive a transplantar as florzinhas novas para os vasos. O meu marido no outro dia trouxe uma ponta para a mangueira que tem várias posições. Gosto muito de usar a posição de chuveiro para regar os vasinhos que estão pendurados no gradeamento que separa o terraço da cozinha do jardim. A água escorre de uns para outros. Está tudo viçoso e quando rego ao pôr-do-sol, em contraluz, fica tudo muito bonito.

As taças de suculentas no pequeno terraço junto à outra porta estão a ficar muito bonitas. Estão ao pé daquela maravilhosa Brugmansia suaveolens que afinal tem tanto de tóxico quanto de bonita. 

Quem diria que uma planta com aquela beleza pode ser tão perigosa? E a magana que, pela tarde, se perfuma como uma tentadora allumeuse...? Um perfume... Só visto (e cheirado). É o perigo das sedutoras: mais vale que os incautos se mantenham longe. Caso contrário, os que se se afoitam demais logo caem nos seus encantos e ficam fatalmente agarrados.

As nêsperas também estão uma tentação: carnudas de boas. Como-as imoderadamente e, pior, sem sentimento de culpa. É o que dá não ter ligado muito à catequese. Peco sem querer saber se estar a pecar, ignorando a culpa.

Tenho ainda a dizer que ontem li um artigo que me deixou alegre e vitoriosa. Fiz até questão de o ler em voz alta ao meu marido. Aquilo pelo qual tanto tenho batalhado afinal ali, em letra de forma, no Guardian: The brilliance of brown lawns: why your grass shouldn’t always be greener. Ainda no outro dia o meu filho dizia que a relva não estava grande coisa. Eu achava que estava óptima. O meu marido cantou de galo, sentindo apoio na sua luta. Em algumas zonas a relva estava maior e eu gostava de a ver assim. Não tem que estar rapada. E se houver uma ou outra zona em que está mais seca, acho que é uma questão de escarificar e ir regando.  Não gosto de ver o jardim como se fosse uma coisinha muito bem comportada. O meu marido e o meu filho acham que relva, por definição, é relva aparada e regular. Neste particular não nos entendemos, portanto.

Pois bem. Relvas pipis, aqui sentenciado e sacramentado pelo Guardian, são relvas que anulam a biodiversidade. Deixá-la crescer um pouco, deixar que algumas florzinhas se aventurem, tudo isso me parece saudável e bonito -- e é. Atrai insectos, atrai pássaros, estimula a reprodução selvagem (e afins). Ou seja, aquilo pelo qual tenho sido tão contestada, afinal, não apenas não é ideia assim tão disparatada como é o melhor para a natureza. Pimbas.

Hoje, quando íamos a sair para o supermercado, ele apontou para o chão e disse: olha um malmequer. Fiquei contente. A reacção dele já foi resultado da leitura de ontem. Senão teria dito: é no que as tuas teorias dão, até já flores nascem no meio da relva, se não se trata rapidamente, não tarda isto está uma m...

Debrucei-me. Era mesmo. Uma florzinha linda, pequenina e atrevida. Talvez uma mini-margarida. Não a arrancámos, como é óbvio. O que leio no artigo é que há florzinhas que se podem aparar como a relva, que não morrem. O meu marido não convive bem com esta minha abertura de espírito, tenta restabelecer a ordem. Diz: não lhe podes é chamar relva, é outra coisa.

Esteve cá a anterior dona da casa. É sempre uma lufada de boa disposição. Olha em volta, vê as flores. Ficou espantada com a abundância de rosas. Cachos de rosinhas encarnadas. Mostrei-lhe aquelas que, ainda há pouco, eram grandes, amarelas, cor-de-salmão, brancas e disse: veja, estão outra vez pequeninas, encarnadas. Ela fez um ar desconcertado. Sempre foram assim como estão agora, pequeninas, encarnadas. Nunca tive rosas amarelas... Pois, que é misterioso é. Por isso ainda mais gosto delas, mutantes, inexplicáveis.

Apanhei um pequeno cacho e coloquei na jarrinha pequenina que coloquei no parapeito da janela que está junto à mesa onde tomamos as refeições.

E andei a fotografá-las. Little red roses. Tão, tão bonitas, tão, tão difíceis de justificar. 

Não sei se, aí onde estão, sentem a vibração da sua cor e a beleza do seu perfume. Gostava que sim.


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Andei à procura de uma canção com rosas vermelhas, sem desgostos ou frescuras. Não encontrei. Optei pela La vie en rose na voz da Melody Gardot, e optei apenas porque sim. Depois, para compensar, apeteceu-me ter rosas em palavras ditas. Mas também não tive paciência para grandes pesquisas. Partilho convosco: A red red rose por Robert Burns (lido por Tom O'Bedlam) e o Soneto 130 de Shakespeare (lido por Alan Rickman)
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Desejo-vos um dia feliz

quinta-feira, junho 03, 2021

Só espero não me apaixonar por ti

 


Não se nasce ensinado mas pode aprender-se. Tanto faz ser gramática, ortografia, aritmética, asseio, boas maneiras à mesa ou etiqueta em reuniões por videochamada. Não é preciso ter nascido em berço de ouro para, tendo chegado à idade adulta, saber que não é de bom tom meter os dedos no nariz, enfiar a faca na boca ou aparecer de câmara desligada numa reunião em que todos os outros estão à vista.

As funcionalidades para as as reuniões pelas vias que hoje são tão banais já existiam antes do corona dar as caras mas, quando não há a necessidade, é difícil romper velhos hábitos. Mas o merdinhas apareceu e, de um dia para o outro, milhões de pessoas desataram a fazer reuniões por Zoom, Meet ou Teams. Hoje já é normal o que há um ano era ainda uma proeza para muita gente.

Não sei quantificar o número de reuniões que já tive por estas vias nos últimos catorze meses mas não errarei se disser muitas, largas centenas.

E ao longo destas muitas ocasiões tenho constatado como há pessoas que, ao fim de tanto tempo, parece que ainda não atinaram.

Por exemplo, no outro dia estive para aí uma hora com um cavalheiro do qual só via a testa e o cabelo. Ao princípio, ainda lhe disse: estou a vê-lo mal. E dava-lhe pistas. Mexia-se e, durante uns segundos, conseguia ver-lhe a cara mas, instantes depois, estava na mesma. Não sei para onde estava a olhar pois não lhe via os olhos mas para o ecrã não era, senão ele próprio perceberia que era como se, ao vivo, estivesse debaixo da mesa, a gente só a ver-lhe a tampa craniana. 

Outra que me chateia é a gente perceber que a outra pessoa está o tempo todo a ler ou a escrever mails em vez de estar a participar na reunião. Acho de uma tremenda falta de respeito. Não que ao vivo isso não aconteça. Uma vez estava numa reunião com o que na altura era o presidente da empresa. Estávamos várias pessoas em volta daquela grande e bela mesa e reparei que ele estava a olhar atentamente para o tablet. Tentei abstrair-me para continuar a falar com propósito quando sabia que era dele a palavra final. Até que não aguentei, parei e disse: 'Não sei que quer que eu pare...'. Ele reagiu com surpresa: 'Porquê?'. E eu: 'Se calhar tem que estar aí concentrado e eu estou para aqui a falar...'. Atrapalhado, disse: 'Não, não, continue, peço desculpa. Estava aqui a ver uma coisa que chegou... ' 

Mas agora já não estou para isso. No outro dia, a pessoa que convocou a reunião esteve notoriamente distraída a ver outras coisas no seu computador enquanto um seu colaborador partilhava uma apresentação. Noutros tempos, ter-lhe-ia dito: 'peço desculpa mas estou aqui por seu convite. O mínimo que se espera é que preste atenção àquilo que quis que eu visse'. Mas não disse nada. Limitei-me a pôr-lhe uma cruz em cima, metaforicamente falando. Em casa do meu filho pratica-se a modalidade da bolinha preta. Quem se porta mal recebe uma bolinha preta e, por consequência, um castigo. Mentalmente faço cada vez mais isso. Faz porcaria -> bola preta. 

Também aconteceu uma coisa desagradável uns dias antes. Uma pessoa convidou várias outras. Quando lá chegámos (virtualmente falando, claro), ele não estava, tinha-se feito representar por um colaborador.  E foi esse colaborador que nos comunicou que o chefe tinha tido outro compromisso. Os demais olharam uns para os outro certamente todos pensando que deveriam acabar com a reunião logo ali. Mas a deferência de uns para com os outros impediu que o gesto mais óbvio fosse praticado.

E outra coisa que volta e meia acontece. A reunião está marcada com um certa duração, por exemplo uma hora, e um dos participantes, gostando de se ouvir, fala, fala, fala, e a gente vê o tempo a passar e constata que a coisa promete pois ainda mais ninguém falou. São reuniões que se atrasam, se sobrepõem às seguintes, impedem que uma pessoa sequer tenha tempo de intervalo e consiga levantar-se, ir à casa de banho, ir encher o copo de água, às tantas já uma pessoa enervada, atrasada e em falta para com as pessoas que estão noutra reunião à nossa espera. Chateia-me imenso isso, tenho que fazer um ginástica para parecer que estou totalmente focada quando, ao mesmo tempo, estou a enviar uma mensagem aos seguintes a desculpar-me e a apontar para nova hora.

Aqui. como em tudo, há aspectos que são de aprendizagem intuitiva, não é preciso ter nascido em berço de ouro ou ter tido aulas de etiqueta. Basta perceber a natureza das coisas e ter cuidado em respeitar os outros.

O meu amigo algoritmo, vendo que, no outro dia, achei graça à elegância e serenidade de Jamila Musayeva e talvez adivinhando a minha agarração à cegadas das reuniões a toda a hora, resolveu sugerir-me outro vídeo, agora sobre etiqueta zoom. Se eu estivesse no meu estado normal, ao ver como Jamila se apresenta (Hello there! I am Jamila Musayeva, a certified international etiquette consultant, an author, a teacher, an entrepreneur and a mom of two), faria um flic flac à rectaguarda e fugiria aos pinotes para bem longe. Agora não. Agora deixo-me estar meio a dormir a ouvir o que ela tem para dizer. Ainda por cima, não diz disparates. Pode dizer coisas óbvias mas, lá está, não devem ser tão óbvias assim pois todos os dias constato que grande parte das pessoas as não cumprem. E não cumprem porque não lhes ocorre ou porque se estão nas tintas.

Portanto, que entre a Sra Dona Jamila: Zoom Etiquette: How To Prepare For a Zoom Meeting.


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E claro que não era sobre isto que eu vinha falar. Como creio que alguns saberão, gosto muito de arquitectura e, portanto, enquanto dormia, estive a ver alguns vídeos com espaços que são muito a minha presente onda: peace and love, natureza, quietude

Gostei muito deste. 

Serene Architectural Masterpiece in Carmel, California | Sotheby's International Realty


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As composições são obra de Ertan Atay e são o que são, falam por si.

Tom Waits, que é sempre aqui muito bem vindo, interpreta I Hope That I Don't Fall In Love With You e eu, como ando sem inspiração, peguei outra vez no nome da canção e fiz dele o título desta coisa a que se convencionou chamar post. Outra vez um título que não tem nada a ver com nada?, perguntarão. É verdade. Assim anda também, em parte, a minha vida, cheia de imprevistos e inexplicações.. 

Nota: Não tenho conseguido responder a comentários pois, para o fazer, deverei estar acordada e, por estes dias, a esta hora, tenho andado basicamente a dormir. Se o texto for sem qualquer etiqueta, despenteado, desvirgulado, queiram por favor relevar ou avisar-me, ok? 
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Desejo-vos um santo feriado.
(Santo=podre de bom)

quarta-feira, junho 02, 2021

Um lugar seguro

 


A espionagem vem da Rússia. As gripes vêm da China. Outras espionagens também vêm dos States (mas este é um mundo em que não há virgens). Os ventos vêm do deserto. A vergonha vem do Brasil. Outro tipo de vergonha vem do que se vai sabendo do Vaticano e suas sucursais. Os homens e as mulheres que querem casar com agricultores vêm da sic. 

E isto é o que concluo do que vou espreitando por aí. E isso, em boa verdade, pouco contribui para a minha felicidade. 

Em contrapartida, é com grande curiosidade e em estado de encantamento que, enquanto me reúno para tratar de assuntos nem sempre fáceis, observo um passarinho redondinho e bonito debicando as flores no canteiro ao pé da janela. Está no alinhamento do monitor e penso que, do outro lado, não perceberão que não olho para a apresentação mas para a gulodice do passarinho.

Ao fim da tarde, estava a escrever um mail, pousou no parapeito um outro passarinho. Olhou para dentro de casa mas não quis saber. Saltitou e logo dali partiu em voo tranquilo.

Quando os últimos raios de sol douravam a folhagem, consegui sair de casa e fui fazer um último  telefonema de trabalho para o terraço do lado, o terraço das suculentas. Há ali uma trepadeira que dá aqueles belos cálices cor-de-rosa. Não sei se são essas flores se são outras que transmitem um perfume que é muito bom. Estar ali a sentir o ambiente dourado e tranquilo de fim de tarde e respirar aquele ar oloroso transmite-me paz e felicidade.

Há algum tempo, quando contei a um amigo que agora morávamos aqui, ele ficou curioso. E disse: eu, se penso em morar numa casa assim, penso também logo: e se um de nós morre? o outro fica sozinho numa casa assim? 

Eu disse: a mim nunca me passa tal pela cabeça. Mas, se passar, penso que, aconteça o que acontecer, sempre abençoarei os dias felizes que aqui tenho vivido. O que vivi já ninguém mo tira.

Não sou uma pessoa complicada. Não padeço de preocupações por antecipação. Também não padeço de alguns outros males incapacitantes. Por exemplo, não padeço de ciúmes. Não padeço de inveja. Não padeço de ressentimentos. Esses males corroem a alma de quem deles padece. Tenho a sorte de deixar a minha alma e a minha mente livres para se irem deleitando com as pequenas coisas.

Tenho preocupações concretas e maleitas bem reais como provavelmente toda a gente tem mas não dramatizo: relativizo. E como sou emocionalmente primária e mentalmente despistada, mal me distraio das preocupações ou maleitas logo as esqueço. Se passados dois dias me perguntam por elas, já tenho que esforçar-me para não parecer anormal pois a verdade é que já mal sei do que estão a falar.

Portanto, é assim que o tempo vai passando.

Noto que os meus cabelos vão aparecendo brancos junto às frontes laterais. Cada vez os noto mais. Até não há muito eu pensava que iria chegar aos cem quase sem cabelos brancos. Agora já não penso isso e, ao ver-me ao espelho, eu percebo que o tempo passa, sim. E vai deixando o seu rasto. Mas também isso não me afecta.

Quando falo com a minha mãe, por vezes queixa-se. Não gosto dessas queixas, digo-lhe que não tem razão para se queixar. Fica sentida com o meu desprendimento: não tenho razão como? Desde que o teu pai morreu, tudo me acontece.

Fico aborrecida: tudo, como? o que é que lhe aconteceu? está de boa saúde, devia era dar graças.

Contrariada, desfia os seus males: volta e meia uma dor na perna, a espécie de alergia que a máscara lhe provoca, a inflamação no ouvido que teve no outro dia.

Indigno-me: o que é isso? nada!

Ouço-a suspirar, incompreendida, mas continuo: mas achava que podia chegar quase aos noventa sem um dorzinha de nada de vez em quando, sem sequer uma inflamação de nada no ouvido?

Suspira, indignada, ela, com a minha incompreensão: De nada... Sim, sim... eu é que sei.

Depois mudo de conversa, digo-lhe que deve aproveitar e sentir-se agradecida pela sorte que tem. Não protesta, penso que para não me ouvir mais com a mesma conversa. 

Mas penso mesmo isso. Passaremos melhor por esta vida se, em vez de andarmos sempre a reclamar contra a nossa sorte, agradecermos a que temos, vivermos a bênção que é habitarmos um planeta que tem, em si, tantas belezas, tantos perfumes, tantas palavras tão belas, tantos voos, tantos mistérios.

A vida é curta? Ah pois é, bebé, mas sempre ouvi dizer que até onde chega não é curta. E essa é que é essa. 


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Flores aqui de casa ao som de One safe place por Marc Cohn 
(cujo título usei como título desta mensagem)

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Desejo-vos um dia feliz e uma vida longa e boa

terça-feira, junho 01, 2021

O clitóris perdido e solitário: porque é que são tão poucas as pessoas que sabem onde encontrá-lo?
(Artigo do The Guardian)

[E, ainda: o mistério do controverso Ponto G inequivocamente desvendado]

 

Vai em itálico para se perceber que não é obra minha. Gentileza do Guardian. E confesso: estava com vontade de me divertir. Inicialmente o tradutor automático devolvia aberrações com que me fartava de rir. Pensei: vou meter isto na máquina a ver que macacadas saem daqui. Afinal não... uma ou outra incongruência e, em alguns casos, tão inofensivas que até me apetece emendar. 

Apenas a primeira imagem provém do artigo. O resto descobri por aí: imagens, vídeos e, claro, a cançãozinha. De vez em quando, o espírito do serviço público desce em mim.



Numa pesquisa recente, mais de um terço das pessoas no Reino Unido rotulou incorretamente esta parte vital da anatomia feminina. Então, onde está - e para que serve?

Nome: O clitóris.

Idade: Tão velho quanto os homens e - possivelmente mais importante - as próprias mulheres, você reconheceria Adão e Eva? Mais antigo ainda, para não criacionistas.

Como assim? Na mitologia grega, depois que o profeta Tirésias foi transformado em mulher por sete anos - como punição (!) por incomodar cobras (!) - ele foi questionado por Hera e Zeus sobre quem tinha mais prazer nas relações sexuais, homens ou mulheres.

E? Ele disse mulheres.

Por causa de seu clitóris? Possivelmente.

O que Hera achou disso? Não muito, ela o cegou.

Mas esse é o ponto, certo? Prazer sexual? Bem, o clitóris ativa uma série de respostas sexuais - a menos que você seja uma hiena-malhada fêmea, caso em que você urina, acasala e dá à luz através de seu clitóris (reconhecidamente e, felizmente, maior).

Então, não são apenas as mulheres humanas que os têm? Outros mamíferos também. E avestruzes.

E quão grande é, em humanos femininos? Bem, a frase “do tamanho de uma ervilha” é muito difundida, mas este é outro exemplo de como o órgão tem sido mal compreendido ao longo dos tempos. Seus nervos e vasos sanguíneos se estendem extensivamente na pelve, na verdade cerca de 90% de seu volume está abaixo da superfície ...

Alterando rapidamente o curso, para estibordo ... O clitóris é etimologicamente interessante, assim como anatomicamente? Sim, por acaso. Provavelmente deriva do grego kleitoris, que foi traduzido como “pequena colina” e “esfregar”, talvez sugerindo um jogo de palavras.

Mas isso é realmente uma questão de localização, não é? Sempre. Localização, localização, localização.

Difícil de encontrar, não é? Vá em frente, quais são as últimas? A maioria das pessoas no Reino Unido não consegue nomear todas as partes da vulva. Em uma pesquisa, metade dos britânicos não conseguiu identificar a uretra, enquanto 37% etiquetaram incorretamente o clitóris ...

Homens, provavelmente. As mulheres pesquisadas não se saíram melhor. Pobre clitóris solitário, ninguém pode te encontrar.

Bem, é difícil ver, lá em baixo. Sempre há espelhos. E amigos. Você já experimentou o Google Maps?

Eu tenho agora, e eu encontrei! Monte Clitoris, em Luzon, nas Filipinas. Há até uma igreja católica em suas encostas mais baixas, perfeitamente. Maravilha

Diga: “Nossa falta de conhecimento sobre a anatomia da mulher levanta questões importantes sobre a saúde da mulher e deve ser discutido com seriedade e sensatez.”

Não diga: “Vou apenas configurar o gps.”

[Não percebi qual o autor do artigo]

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Uma das várias flores de Georgia O'Keeffe

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E continuando numa de serviço público, um vídeo que me pareceu esclarecedor

Foram precisos 2.000 anos para que a Ciência descobrisse o clitóris

In the history of sexual anatomy, the clitoris has long been dismissed, demeaned, and misunderstood. Here is a view of the clitoris you've probably never seen.


Quanto ao ponto G... got it?

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Dias felizes