quinta-feira, fevereiro 11, 2021

Te espero cuando la noche se haga día, suspiros de esperanzas ya perdidas

 



Vou fazendo contas de cabeça. Tento adivinhar a data em que voltarei a passear, a receber visitas. Penso: fins de Abril, Maio. Estando bom tempo, poderemos estar na rua, quase nem usar máscara. A minha mãe há-de estar vacinada, algures no tempo nós dois haveremos ser vacinados, todos o seremos. Voltaremos a sentar-nos em volta da mesa, talvez não nos sentemos em mesas separadas, talvez não sintamos necessidade de estar a milhas uns dos outros. Pelo meio aparecerão variantes tailandesas, eslovacas, congolesas. As vacinas irão sendo adaptadas. Aos poucos iremos voltando a uma quase normalidade. 

É nisto que penso enquanto estou aqui fechada, trabalhando de manhã à noite, cercada de chuva, de mau tempo, de frio. A terra do jardim está ensopada. Não se consegue andar, chove em permanência uma chuva miúda, as árvores pingam, pingam. Estava, à tarde, sob o alpendre a comer uma laranja quando ouvi correr água como num cano. Olhei admirada. A água corria no algeroz e caía copiosamente no tubo que desce por um dos pilares. 

Às tantas vi uns pontinhos brancos na árvore que tem os ramos nus. Fui a correr buscar a máquina para fotografar. A primeira flor da amendoeira. Que alegria. Que boa notícia. E outras se anteveem. O constante devir, o permanente milagre.

E é isto. Debaixo da invernia, adivinha-se já a chegada da primavera. A natureza continua os seus ciclos, indiferente às agruras que os estúpidos humanos infligem a si próprios. Esta continuidade são o chão que, queiramos ou não, pisamos.

E depois virá o verão, os tempos quentes e secos e esquecer-nos-emos destes dias sombrios, escuros, tristes. Estarei ao sol, saber-me-á tão bem, sentir-me-ei mais viva. Sentir-me-ei mais mar, mar de terras quentes, mar de aventuras e perdições. Fecharei os olhos e irei ao saber das marés do pensamento. Talvez adormeça ao sol, os pássaros cantando e eu mergulhada naquele doce abraço que sabe a eternidade. Depois acordarei, a pele agradada pelo calor, abençoando o prazer de estar viva.


Mas, por enquanto, estamos no inverno, em confinamento, atravessando o calvário que calhou em sorte a esta geração. Os meus avós avós falavam da pneumónica de que tinham ouvido falar, uma desgraça que roubara a vida a milhares de pessoas. Era coisa longínqua. As pestes eram coisa de passados irrepetíveis. E, no entanto, aqui estamos.

Durante o dia, pelo telefone chegam-me algumas boas notícias mas também problemas. Hoje uma pessoa, contando que lhe tinha entrado no gabinete uma pessoa a chorar (há quem não possa estar em teletrabalho), desatou também a chorar. Interrompeu, ouvi uma respiração funda. Depois disse-me: 'Desculpa. Hoje estou com um estado de espírito macabro'. Pessoa sempre animada, pessoa forte. E, agora, isto. 

Pelo meio, vou recebendo mensagens da família, fotografias dos meninos. Por vezes estou a meio de reuniões, ouço o sinal de uma mensagem a chegar. Se consigo, espreito. Às vezes fico com pena de não poder meter-me na conversa. Apetecia-me enviar sorrisos, corações. Mas comporto-me. Limito-me a pensar que não tarda estamos na primavera, depois no verão. E que, talvez, no outono já nos sintamos livres.

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E um poema a condizer com a cinzenta tristeza que tem vestido estes dias

Mario Benedetti - Te Espero

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As fotografias foram feitas aqui em casa, enquanto chovia.

Não sabia que título dar a este post. Hesitei entre 'wonderful world' ou em extrair do poema de Mario Benedetti o início do poema. Achei esta segunda hipótese mais deslocada do conteúdo do texto mas bonita.

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Desejo-vos um dia cheio de luz, mesmo que chova todo o dia.

O sangue nas mãos deles

 

Prossegue a campanha de The Lincoln Project, uma campanha que, em minha opinião, como já várias vezes o referi, vai à jugular. Não há metáforas, não há meias palavras: é a direito, na mouche. Haja quem, de entre os Republicanos que vão votar, veja estes vídeos e ponha a mão na consciência.

E volto a dizer que acho que os responsáveis pela comunicação dos Partidos, do Governo e, mesmo, das Empresas teriam muito a ganhar com a observação atenta destes vídeos. A mensagem é clara, inequívoca, visa a emoção e a consciência dos destinatários, deixa uma marca forte. E tecnicamente está sempre muito bem feito. Basta um minuto para dizer o que há a ser dito.

Blood 
Remember: Brian Sicknick deserves justice.

[The Lincoln Project]



No entanto, não sei se serve de alguma coisa. Como se pode ler:

Jimmy Kimmel on GOP senators: 'The sad truth is they’re a bunch of cowards'

quarta-feira, fevereiro 10, 2021

Apesar de tudo

 


Sobre o meu dia o que tenho a dizer é que foi quase como os demais. Só que, nas actuais circunstâncias, qualquer quase faz toda a diferença. Reuniões, telefonemas, caminhada, patati-patata. E, às tantas, sem que nada o fizesse esperar, a ocasião surgiu. Alguém disse: se quiser aparecer... E eu, que tinha traçado o caminho dizendo que haveria uma análise prévia e que, só depois de crivado, é que eu me pronunciaria, tive, de súbito, a vontade de me pôr a caminho.

A legislação prevê que se pode sair quando o trabalho a isso obriga. Tenho, aliás, uma declaração que o considera. Portanto, a bem da nação, resolvi ir.

Dei uma quick vista de olhos ao processo e, acto contínuo, passei à fase seguinte: o que vestir. Olhei para os jeans e pensei que não. Olhei para as outras calças tipo jeans e depois pensei que também não. Mas já nada me parecia prático e, estranhamente, parece que já não faz sentido vestir sem ser na base do casual e do prático. Pus-me a olhar para o suporte das calças. Optei por umas simples, pretas. Depois a blusa. Estando mau tempo, uma camisa ou blusinha das que gosto, fininhas, pareceu-me nonsense, tanto mais que iríamos estar a maior parte do tempo ao ar livre. Optei pela que a minha filha me deu pelo Natal. 

Depois os sapatos. Pretos, de salto alto, claro -- mas todos os que cá tenho são altos de mais. Já não me parece lógico. Pensei: os skechers, também presente de natal. Mas recuei. Não, não encaixa na minha imagem de marca a nível profissional. Pensei: os pretos de camurça e meio salto. Procurei-os. Nada. Lembrei-me então que estão no campo, do anterior confinamento; estavam lá para um just in case. Fiquei sem saber como descalçar a situação. Pensei, então, que os sapatos de pele castanhos, com meio salto, são confortáveis... só que, com aquela roupa, só se levasse outra peça que fizesse um mínimo de pendant. Lembrei-me: o blusão de pele castanha. Prático demais...? Sim, mas foi o compromisso possível. No meio da confusão, reparei que ainda estava com os meus soquetes de trazer por casa, hoje, por acaso, uns cinzentos com corações cor-de-rosa e cós em fio prateado. De repente, fiquei sem me lembrar onde tinha as meiinhas transparentes para calçar com sapato alto. Fiquei no quarto a hesitar. Lá me lembrei. 

Depois, ajeitar o cabelo. Prendo? Não prendo? Ao espelho, a ensaiar. Apanhei, desapanhei. E ia passar um brilho nos lábios quando me lembrei que não valia a pena. Depois o perfume. Ah, tão bom, o prazer de me pôr em frente da prateleira dos perfumes a escolher o que tem a ver. Bzzz, bzzzz, um esguichinho aqui, outro ali, bzzz, um suspirinho perfumado, fresquinho, floral, cheirosinho.

E preparei-me para sair, já estava em cima da hora. Só, então, me lembrei da máscara -- voltei atrás. Depois a carteira: qual? A usual? A nova, também presente? Não, já não dava tempo para mudar as coisas. 

Ia a sair... bolas. Outra vez a ter que voltar atrás. Tinha-me esquecido da chave do carro. 

Uma falta de automatismo. Todos os gestos que antes seguiam espontaneamente uma rotina que se repetia dia após dia, mês após mês, ano após ano, agora não acontecem de per se. Após a interrupção que começou em Março e, salvo raras excepções, dura até hoje, com o teletrabalho, tudo mudou. Nas vezes anteriores, sei com antecedência que vou ter reuniões presenciais e, portanto, mentalmente equaciono as toilettes e preparo tudo atempadamente, quase simulando os anteriores rituais. Hoje, como foi tudo de repente, parecia que estava perra. Hesitante demais. Claro que tudo se passou dentro da minha cabeça e durante pouco tempo mas eu que assisti a tudo senti que já não parecia eu, eu antes tão despachada.

Soube-me bem conduzir. 

Acontece que fui a um lugar onde nunca antes tinha ido. Claro que recorri ao GPS mas neste carro ainda não atinei bem com o gps. Aliás, desde que o tenho, pouco o tenho usado. Ainda não descobri como pôr o número da porta. Como aquilo era numa enorme e muito movimentada avenida, vi-me aflita. Passei o lugar, saí da avenida, meti-me numa rua de sentido único, não atinava com o sítio para poder voltar para trás nem havia sítio para encostar o carro. No gps do carro via que estava a afastar-me. Finalmente consegui encostar e recorrer ao maps do google do telemóvel. Lá consegui dar com aquilo. Já estavam à minha espera, claro. 

Mas, apesar de tudo, gostei. Saí. É bom sair.

Todos de máscara. Aqueles cumprimentos normais de quando nos apresentam desconhecidos agora ficam estranhos: nem aperto de mão nem a cara à vista. Tudo bizarro. Mas foi bom estar com pessoas, foi bom conduzir.

Ao sair de casa, recebi mil instruções: não te aproximes, evita espaços fechados, tem cuidado, desinfecta as mãos, não confio nada em ti, esqueces-te, distrais-te. Quando cheguei logo o controlo: tiveste cuidado? desinfectaste as mãos? desinfectaste o telemóvel?

A vida anda estranha. Não gosto de ter medo, não gosto de ter cuidado. 

Gostava tanto de conduzir a ouvir música. Hoje nem isso: para ouvir as instruções do gps, nem música ouvi. 

Em que mês é que os jacarandás estão em flor? Gostava tanto de andar de carro, janelas abertas, a ouvir música, talvez jazz se fosse ao cair do dia. Não havia máscaras, cuidados. Não havia medo, rotinas negativas. 

Mas, enfim, não me posso queixar. A vida há-de voltar a entrar nos eixos mesmo que os eixos sejam outros.

E os dias estão maiores. Hoje às seis e picos da tarde, já em casa, ainda havia vestígios de dia. Mudei de sapatos, fui apanhar uma laranja, fui olhar o céu e as árvores. As luzes do muro já se tinham acendido, as luzes da casa dos vizinhos todas acesas, como é costume, as luzes da vizinha do outro lado acesas no alpendre e uma luz suave lá dentro. A laranja estava fresca e doce. Senti o meu perfume. Apanhei umas quantas camélias caídas. Regressei a casa. Liguei à minha filha, liguei à minha mãe. Liguei ao meu filho. Ia correr com o filho. Àquela hora, já de noite, com o frio que estava. Fazem bem. No outro dia mandou uma fotografia: os dois rapazes depois de terem corrido três quilómetros e meio, o menino todo orgulhoso. 

O jasmim está uma nuvem rosada, cujos botões se metamorfoseiam em delicadas florzinhas brancas. E as magnólias estão a começar a despontar. Emociono-me ao ver os seus botões, ousados, afoitando-se ao mundo, indiferentes às pandemias, aos confinamentos. Não vejo a hora de as ver, certamente umas flores escandalosas de tão belas. 

Malgré tout, este é um mundo com o seu quê de maravilhoso. Acho eu...

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Para a despedida, umas imagens muito bonitas

Missed Nuance - a ballet art film


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Fotografias feitas cá em casa

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Desejo-vos um dia feliz

Uma questão de verdade e de imagem de marca

 

Não é fácil comunicar. Pensamos que estamos a ser claros, exaustivos, inequívocos e, afinal, o que dizemos ou fazemos pode ter segundas leituras, pode dar azo a interpretações distorcidas. Ou uma palavra mal colocada ou omissa pode anular todo o resto do texto. Ou o que pretendemos que seja uma narrativa inspiradora pode ser vista como utópica ou deslocada.

Saber escolher o momento de comunicar, saber identificar o destinatário e ser eficaz e inquestionável na mensagem transmitida mais do que requerer técnica, requer arte.

Desde que comecei a ver os vídeos de The Lincoln Project fiquei rendida à sua arte de comunicar. São certeiros, cirúrgicos. 

Hoje novos vídeos. Fantásticos. Uma vez mais o apelo de um grupo de Republicanos ao sentido ético dos Republicanos que serão chamados a votar. Na mira o julgamento sobre a actuação de Trump no assalto ao Capitólio.

Uma obra-maior na arte da comunicação política.

Branded   --  The Lincoln Project


Watch this if you own a company and corporate branding & messaging matters to you!


The Case Against Donald J. Trump



terça-feira, fevereiro 09, 2021

Ele todo na levezinha e ela nas profundidades. E eu aqui.

 



Devo dizer que o dia de hoje foi mais simpático. 

No entanto, acordei cedo demais. O meu marido, que é madrugador, acordou antes de tempo e, desta vez, sem querer (acho eu que foi sem querer...) acordou-me. Tentei adormecer mas comecei a pensar no que tinha que fazer durante o dia. Fui ficando mais desperta. Depois ouvi uma chuvada das valentes. Era de tal ordem que tive dúvidas de que fosse mesmo chuva. Nessa altura já o meu marido tinha saído para a sua caminhada pré-matinal. Quando estava a tentar adormecer, uma mensagem. Não é normal receber mensagens tão cedo. Era uma mensagem de voz no whatsapp. Uma voz simpática, num tom saltitante, dava-me conta de que tinha o trabalho quase feito e que contava enviar-me entre hoje e amanhã. Fiquei estupefacta. Pela cabeça de quem é que passa acordar uma pessoa àquela hora para dizer uma coisa que poderia ser dita uma ou duas horas depois? Voltei-me para o lado a pensar que há gente que parece que vive noutro fuso horário. Mas, pronto, a voz simpática atenuou a contrariedade. Penso que até devo ter sorrido.

Com isto, decidi levantar-me. Mas pensei que ia andar o dia todo cheia de sono. Afinal, por acaso, não. Estive na boa. O tempo levantou um pouco. Quando fomos fazer a nossa caminhada da hora de almoço até o sol espreitava. E ver o sol traz-me ânimo novo. Despi o casaco e subi as mangas da blusa. Gostei, parece que tinha avistado um mundo novo.

Ao fim da tarde, antes que ficasse noite, convenci-o a vir dar uma volta pelo lado de lá, por fora, pela orla das hortas. Não queria, que era tarde, que não tinha grande jeito andar por ali àquela hora, que esta mania minha de me meter pela penumbra adentro.... Claro que não disse assim, penumbra adentro. É muito pão-pão, queijo-queijo, ele. Linguagem a atirar para o poético não é com ele. Mas estava mesmo a apetecer-me apanhar ar, respirar o tempo que está para chegar. 

Como é óbvio, a grande maioria dos vizinhos não tem horta coisa nenhuma. Mas, surpreendentemente, surpreendentemente mesmo, vimos uma capoeira. Galinhas, galos. Parecia que estava no campo. Uma coisa do além... Chamei o meu marido. Não se empolgou. Eu sim. Quase não estava a acreditar no que estava a ver. Parece que ainda nem estou bem em mim. Qualquer dia, ainda acordo com um galo a cantar. Seria a maravilha das maravilhas.

Entretanto, recebi uma chamada. E, enquanto estava concentrada ao telefone, ouvi um sonoro, 'Boa tarde!'. Espantada, olhei. Era uma vizinha na sua varanda, lá ao longe, acenando com o braço. O meu marido retribuiu também sonoramente. Quando acabei a chamada perguntei quem era, se conhecia. Que não, claro, que aqui é isto, se ainda não aprendi que aqui as pessoas cumprimentam-se sempre. E é. Volta e meia, distraída como sou, quando me cruzo com alguém e ouço um bom dia, olho admirada pensando ser alguém conhecido. Mas não, desconhecido. Também há uma coisa: como sou míope, nunca vejo bem as pessoas. Não vejo ou não presto atenção, não sei. No outro dia, ao passarmos por uma casa, o meu marido disse que era ali que morava aquele casal com que às vezes nos cruzamos. Não sei de quem fala. Ele diz que não se admira, que ando sempre noutra. 

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Tenho ainda a dizer que, entretanto, enquanto estava aqui a escrever, recebi um mail de uma pessoa que me dizia que tinha urgência em falar comigo. Obviamente, atendi a urgência. E foi um longo telefonema do qual se pode dizer que de um arco emocional se tratou. Começou por me falar de uma pessoa que morreu, meia idade, saudável, em duas semanas foi-se. O abalo, a tristeza, o espanto. Como foi possível? Estava positivo mas pensava que estava bem, uma febre apenas, nada de mais. Afinal estava sem oxigénio e sem dar por nada. Ou seja, afinal estava quase a morrer. Daí, do desconcerto do que é esta maldita covid, passou para as hostilidades com um colega, a ponto de quase terem andado à pancada. Descreveu as zangas, as deslealdades, a arrogância do outro. Essa a verdadeira razão da urgência. Depois passou para a sua vida, para as suas dúvidas, para as suas convicções. Depois, nem sei como, para a risota. Por fim, acabámos combinando uma estratégia. 

Quando acabei, escrevi um mail como tínhamos combinado pois o desenrolar da estratégia requer mais um a bordo.

Agora cá estou, de novo. 

E só para verem como eu sou, uma maria desmiolada, ouçam agora esta. Tinha visto dois vídeos e tinha pensado partilhá-los convosco. Gosto de entrevistas, ao vivo, em vídeo ou por escrito. Desta vez, duas pessoas tão diferentes uma da outra. Tom Jobim, boa onda, leve, leveza, alegria e suavidade. E Clarice Lispector, toda coisa de dentro, insondável, espanto, intensidade contida, uma vida para além do compreensível. Estou em crer que o da Clarice Lispector já aqui o partilhei uma vez. Mas acho-o tão fantástico que me apetece aqui tê-lo de novo. É bom escutar o que pessoas assim têm para dizer mesmo que não seja nada de mais, mesmo que seja apenas o que, naquele instante, lhes ocorreu ou apeteceu dizer.

E a minha ideia era falar sobre o que eles dizem e ir intercalando com as fotografias que fiz enquanto olhava a lareira que me aqueceu a tarde. Mas agora já não faz sentido. Fico-me por aqui mas vocês podem ficar com eles. Está bem?


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Fotografias de Paolo Roversi da série Birds na companhia de Yo-Yo Ma e James Taylor

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E tenham, V.Exas, um dia feliz

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

Relato de um domingo normal

 



Não há o que dizer. Mais um dia sem história. 

O círculo foi mais alargado. Parecia que estávamos no campo. Antes de chegarmos a essa periferia cruzámo-nos com um casal de ciclistas e com um casal de caminhantes. Dir-se-ia que andamos por um lugar desolado, de onde as pessoas se evadiram. As janelas estão abertas mas nem vivalma, nem um som. Mesmo os cães andam calados. 

Ao ir para mais longe, passámos por casas por onde geralmente não passamos. Vi uma entrada para o jardim nas traseiras de uma casa que me pareceu muito bonita. Fotografei com o telemóvel para desagrado do meu marido. Mas pouco se via. Em casa, pesquisei no google maps e percebi melhor. Muito bonito. 

Depois estive a ver estas ruas por cima, incluindo a minha casa. Este mundo é cheio de devassa. A tecnologia tudo permite e continuo a achar que os poderes políticos do mundo, ou a consciência dos cidadãos, não sei, deveriam estar mais despertos para os perigos que daqui podem advir. 

Mas eu dizer isto é chover no molhado e, debaixo da crise pandémica que atravessamos, quem é que quer lá saber de temas tão intangíveis? Nem eu sei se ainda quero saber disso... 

Durante o passeio, apanhei uns ramos de mimosas, lindas, macias, perfumadas. Apanhei também umas plumas de uns arbustos espontâneos que encontrei lá pelo meio. Ao apanhar as plumas, como aquilo parece um caniço, cortei-me em dois sítios da mão. Tenho a pele das mãos muito sensível ou, então, deveria ter mais cuidado. 

Tinha posto um jarrão com um arranjo de natal -- ramos de pinheiro, pinhas, flores -- aqui no corredor. E agora ou tirava o jarrão ou arranjava alguma coisa para lá pôr dentro. Não acho um mínimo de graça a jarrões no chão mas este é metálico, parece prata mas não é, discreto embora grandinho, e está num recanto, ao lado de um candeeiro de pé e sob uma aguarela. Então, coloquei lá as mimosas e as plumas e até acho que ficou bem bonito.

Outra coisa que posso contar é que tinha arroz branco no frigorífico, tinha sobrado. Então tirei costeletas do congelador para acompanharem o dito arroz. Pensei fritá-las em azeite com alho e louro. Descongelei-as. Quando o alho estava louro, fui colocar as costeletas. Afinal era entrecosto. Fiz, então, o transbordo da frigideira para um tacho, juntei cebola pois pensei: vou mas é fazer entrecosto com favas. Quando a cebola estava macia e juntei o entrecosto, reparei que era, de facto, entrecosto mas também umas duas ou três costeletas. Lembrei-me: quando congelei costeletas e entrecosto, como cada um deles era demais, retirei um pouco de cada e fiz um terceiro saco onde juntei o resto de entrecosto e o resto de costeletas, talvez para fazer um arroz de carne. Seja como for, tudo para o tacho. Juntei um alho francês (a parte branca), juntei coentros, juntei um restinho de Bacalhoa tinto que já não dava para um copo, juntei um pouco de sal. E tapei. Fui vigiando. Juntei um pouco de água para evitar que se queimasse. Quando estava quase no ponto, fui buscar as favas congeladas. Não havia. Afinal os dois sacos, que eu pensava ser um de favas e outro de ervilhas, eram os dois de ervilhas. Juntei, pois, ervilhas. 

A emoção do dia resume-se a estes insípidos imprevistos.

Há pouco passei pelo MasterChef Brasil, aquele arremedo de MasterChef que não tem ponta por onde se pegue, dá ideia que apanharam na rua pessoas que não fazem a mínima do que é cozinhar e os puseram ali a fazer disparates. Mas vi uma panela de pressão. Em tempos tive uma panela de pressão. Não sei o que lhe aconteceu. Era bem mais antiga do que estas. Fico sempre na dúvida. Será que se justificaria ter uma? Ainda não cheguei a uma conclusão. 

As minhas dúvidas também se resumem a este tipo de questões. Não quero saber de onde vim, para onde vou. Quero lá saber disso. Agora se conseguir ter a certeza sobre a vantagem de uma panela de pressão, aí, sim, já ficaria mais esclarecida e apta a tomar uma decisão.

Tento lembrar-me do que foi o meu dia e pouco mais me ocorre. Aconteceu uma coisa mas foi a nível profissional mas foi cena chata de que tive conhecimento à noite. Terei que esclarecer melhor. Seja como for, nada aqui poderei comentar. Se pudesse, seria tema com o qual conseguiria produzir uma série altamente condimentada, cheia de suspense e acção. Como não posso, terei que me ficar pelas cenas da minha vidinha, coisas domésticas, rasinhas.

Não lavei hoje a roupa. Para já, era pouca e, depois, com o tempo que esteve não daria para secar. Não trouxemos a máquina de secar da outra casa. Não estava a funcionar, tinha-se partido a cinta do tambor. Pensei que estar a transportar uma coisa que não sabia se ia conseguir arranjar quem a reparasse quando tinha largueza para estender a roupa ao ar livre não fazia muito sentido. Mas a verdade é que em dias assim, sombrios e de chuva, a roupa não seca. E eu detesto ter roupa estendida muito tempo, não fica com aquele cheirinho bom a roupa lavada de fresco. Há um estendal na cave mas roupa estendida dentro de casa com uma humidade tão pesada como tem estado, não deve ser grande ideia.

Tenho enviado à minha mãe, por mail, vídeos que acho bonitos ou que me deixam a rir a bom rir. E ela tem gostado de ver. Quando falamos ao telefone, de vez em quando desatamos a rir à gargalhada, quase a sufocarmos de tanto riso.

Há bocado estive a ver se descobria outros para lhe enviar. Como ela gosta de costura, de rendas, de coisas assim, procurei aqueles dos ateliers Chanel ou Dior dedicados à haute couture. Fico sempre encantada, rendida à perfeição, à habilidade daquelas mãos delicadas. E apareceu-me um costureiro de que nunca tinha ouvido falar, o libanês Ziad Nakad. Vestidos lindos, de uma leveza, de uma feminilidade encantadora. Mas, de repente, ocorreu-me que deve ser outro sector que está a levar uma pancada daquelas. Quem, neste tempo de peste, vai vestir vestidos lindos desta boa maneira? Onde é que há festas, eventos, casamentos para se poder usar roupas tão laboriosamente imaginadas, costuradas, bordadas? Tudo isto me dá pena. Mais até do que pena: perplexidade. Que fragilidade a nossa para termos ficado assim, tão frágeis, tão derrubados, tão à mercê de uma vírus tão invisível e traiçoeiro...?

Enfim. É para esquecer. E estou mas é no ir.




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De novo, fotografias de Doan Ly ao som de Wonderful segundo Lianne La Havas

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

domingo, fevereiro 07, 2021

Talvez um buraco habitado pelo vazio

 



Estes dias são muito absurdos. Vivo num lugar que até é agradável mas, estando confinada, tanto poderia estar aqui como noutro lugar qualquer. Quando, no confinamento do ano passado, nos mudámos para o campo também estávamos ali como se o mundo fosse apenas  aquele lugar. Agora também. Saímos para fazer uma caminhada aqui à volta e, de momento, este é o nosso mundo.

Tem estado, por aqui, muito frio, vento, húmido, chuviscoso. Desagradável. Saí para dar uma volta pelo jardim por volta das seis e, pouco depois, tive que reentrar, o frio estava mau, triste, escuro. 

Aos sábados gosto de dormir até mais tarde para pôr o sono em dia. Mas tinha-me esquecido de desligar o despertador pelo que acordei cedo e já não consegui voltar a adormecer. De tarde, reclinei-me no sofá, pensando repor a situação. Contudo, estava a começar o Samba no canal Hollywood, filme que em seu tempo tinha visto no escurinho de uma sala de cinema, e não quis deixar de rever. Por isso, não dormi de tarde a agora ainda estou com sono.

E mais? Que dizer mais? Nem sei bem.

Talvez que os dois aquários da família já fizeram anos e festejámos -- que é como quem diz -- através de videoconferências. Em qualquer das vezes foi aquela complicação do costume para a minha mãe se pôr a bordo. Cantámos os parabéns em coro, a várias vozes, em total desafinação. Por estes tempos, os presentes chegam por correio e os beijinhos são dados por palavras. No outro dia, dizia a um menino pequenino que nos desse uma fatia de bolo. Disse que não podia ser. Dissemos que estendesse a mão que nós agarrávamos o bolo. Ele assim fez com a sua mãozinha. Encolheu os ombros e disse: é um bolo invisível. E o meu coração derreteu-se em ternura. Estão todos mais crescidos. Há muito tempo que não os abraço à vontade. Ultimamente abraçava-os pelas costas, beijava-os na nuca. Será que ainda vão aceitar que eu os puxe para o meu colo e os abrace e os encha de carinhos? Não sei. Se calhar ficam com receio que os contagie. Este vírus é diabólico, sequelas all over mesmo em quem não é directamente infectado.

No outro dia, fartos desta monotonia, resolvemos ligar para um dos restaurantes onde íamos, às vezes, jantar. Não faz entregas aqui, apenas ali perto. É o filho que vai entregar. Resolvemos ir nós lá. Fiquei no carro. Contou o meu marido que o restaurante, antes cheio que nem um ovo, estava (obviamente) vazio. A mulher na cozinha, como sempre esteve, mas sem ajudantes, só ela. Ele cá fora na sala a atender os pedidos (por telefone). E o filho a ver se tinha que ir fazer entregas. Diz o meu marido que estavam de máscara, o senhor com um cabelo muito grande. Não se deve ajeitar a cortar em casa. Nesse dia, uma vez chegados a casa, preparámos um gin, depois refastelámo-nos com um belo jantar que não tive que confeccionar e, no fim, para acompanhar a bela sobremesa que também veio de lá, bebemos uma bela ginja de Óbidos. Ao ver a garrafa, lembrei-me que a comprámos lá, num passeio que lá demos entre o Natal e o Ano Novo de 2019. Passeámos com vagar, subimos e descemos as ruínhas, entrei nas livrarias. Parece que foi há uma eternidade. 

Era, para nós, muito natural passearmos. Agora, mesmo que, dentro de algum tempo seja levantado o confinamento, já teremos adquirido outros hábitos. Já não iremos com a mesma naturalidade a restaurantes, quereremos verificar se estão arejados, se há distanciamento, estaremos atentos às máscaras, teremos receio que alguém tenha tossido e deixado gotículas no lugar ou nas coisas em que vamos mexer. 

Estranho, tudo isto.

Enfim.

No meu jardim reina o silêncio. Mal se ouve algum pássaro. De vez em quando, algum lá bem no alto, muitas vezes ao longe. De todos aqueles que tanto cantavam agora nem um pio. Não sei onde andam. Estarão transidos de frio, sem vontade de alegrias?

Há ainda laranjas nas laranjeiras e são muito, muito doces. E tangerinas. Mas estas caem muito. O jasmim está a ficar florido. Não consigo deixar de lá mergulhar o rosto para aspirar o perfume que é intenso demais para o meu gosto. Ainda assim cheiro. Quero perceber se o perfume vai evoluir.

Uma outra trepadeira, uma que deixou a anterior proprietária espantada pelo que cresceu, está agora a florir, uma flor com uma cor inesperada, muito bonita.

Também fiquei admirada com outra coisa. Ainda não compreendi a dinâmica dos meus novos vizinhos. Dá ideia que é uma comuna de rapaziada. Não consigo descortinar a lógica do grupo. O meu filho diz que deve ser malta que está a formar uma empresa. Espanto-me: iriam alugar uma moradia destas...? O meu marido, para quem nada disto interessa e que goza com a minha curiosidade, para apimentar o mistério fala de outras hipóteses, qualquer delas improvável e estapafúrdia. Mas, dizia eu, estava a sair da sala para um passeio pelo meu jardim, dou de caras com um dos jovens, saindo também da sua, de boné. Devia ir pôr comida nos cães, digo eu. Não sei se anda em casa de boné. Pelos vistos, anda. Sol não há na rua e, em casa, muito menos. Mas, então, ao dar de caras comigo, sorriu abertamente, fez-me adeus com a mão, e disse-me um 'olá, bom dia'. Fiquei muito admirada pois parecem-me sempre muito lá na deles, sempre enfiados em casa, se saem para o alpendre é para estarem na conversa uns com os outros, totalmente alheados em relação à casa do lado. Juraria que nunca antes me tinha visto. E, no entanto, cumprimentou-me com um ar surpreendentemente amistoso.

E eu estar a relatar isto revela bem a falta de assunto que envolve estes meus dias. Nada mais há a relatar. Li, vi televisão, fiz o almoço, fiz um jantar ligeiro, fiz alguns pagamentos, tratei de algumas coisas que, durante a semana, ficam por fazer, fiz os meus telefonemas. O dia correu devagar. Nem é o ser devagar. É a sensação de inutilidade. Parece que estou num buraco inespacial, intemporal. Antes, os meus dias estavam preenchidos de mil coisas para fazer, ia aqui, ia ali, alguém vinha cá, não tinha tempo para mim nem para descansar. Tantas vezes me queixei: gostava de ter um bocado só para mim. Agora é o oposto. O oposto mais oposto que é possível.

Várias vezes ao longo destes dias também me apetece ir passear. Meter-me no carro e ir por aí. Descobrir lugares, olhar pela janela do carro, ter vontade de parar para fotografar, deleitar-me com a beleza que sempre me surpreende. Quando poderei voltar a passear? Íamos passear, íamos descobrir restaurantes, íamos descobrir hotéis. Agora, se formos passear se calhar levamos farnel. Não sei. Parece que não sei pensar nem fazer planos. Parece que acho que não vale a pena fazer planos. E o vazio parece que fica ainda maior.

No outro dia estava a pensar que deveria ter mais uma mesa debaixo do alpendre. O meu marido disse que não, que a mesa que lá está é muito grande, cabemos todos, e ainda temos a mesa desdobrável e mais a outra pequena, redonda, de ferro. Mas eu fiquei a pensar que antes nos encostávamos todos uns aos outros e que, se calhar, nem tão cedo vamos sentir-nos à vontade com essa proximidade. Pelo Natal dividimo-nos por três mesas, distantes umas das outras. Será que, nos próximos tempos, será sempre assim? E sê-lo-á durante tanto tempo que nos esqueçamos que, antes, o normal era estarmos próximos, conversando, rindo, sem receio, descontraídos?

Ao ver o grupo abaixo, um grupo de belas e elegantes mulheres -- todas mulheres Chanel -- conversando em volta de uma grande mesa, todas distantes umas das outras, pensei que vão passar a ser precisas mesas de uma dimensão bem maior do que as anteriores. A vida aos poucos irá distanciar-se do que era, não irá? E todos nos distanciaremos uns dos outros. 

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O charme discreto da Casa Chanel, o charme discreto da burguesia

A roundtable conversation hosted by Caroline de Maigret with ambassadors and friends of the House Penélope Cruz, Marion Cotillard, Charlotte Casiraghi, Vanessa Paradis, Alma Jodorowsky, Lily-Rose Depp, Izïa Higelin, Blesnya Minher and Joana Preiss.Filmed after the CHANEL Spring-Summer 2021 Haute Couture show at the Grand Palais in Paris
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As flores foram fotografadas por Doan Ly

Lá em cima, Trois Gnossiennes por Hans van Manen com Ludmila Pagliero e Hugo Marchand

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Desejo-vos um bom e feliz dia de domingo

sábado, fevereiro 06, 2021

As chagas de carácter social

 

Tenho a certeza que é muita insensibilidade da minha parte não vir para aqui carpir sobre as agruras nacionais. É mesmo. Toda a gente lamenta coisas. Toda a gente e eu, que não sei se sou gente, se sou bicho, também. Como, estando eu imersa neste pequeno rectângulo sobrelotado de gente lamentando-se, não me deixo contagiar...? É muita insensibilidade. Muita.

Como, por exemplo, não estar aqui a lamentar que o Chicão, esse menino mais fofo, esteja agora a ser maltratado pelo Adolfo e demais amigos? Logo o Chicão, esse destemido gaiato com uns olhinhos azuis mais lindos. Devia lamentar, que o momento é de tristeza e chicana. Mas não me ocorre o que dizer.

Também me parece insensível da minha parte não fazer um reparo ao conselho amigo que Mário Machado, essa incontornável e cadastrada figura, líder de movimentos sobejamente tintilantes, veio fazer ao Ventura para que modere a agressividade e a conversa potencialmente apelativa à violência. Parece-me um gesto bonito, bonito demais, e auto censuro-me por não estar aqui a louvar estes actos de coração. Mas dizer o quê? O que se diz numa situação destas... Que é a lei da vida...? Que branco é galinha o pôs...? Não sei...

E mais. Soube há pouco que o governo não vai dar tolerância no carnaval. Não me parece nada bem e ainda pior me parece eu não fazer da condenação de tão insana medida a minha guerra pessoal. Se este não é motivo para a mais sentida lamentação não sei o que seja... A gente quer fazer desfiles e não pode, quer fazer rodar a baiana e não pode, quer despir-se de alto a baixo, só com uma estrelinha brilhante nos sweet nipples e na rosa clandestina, e não pode, quer ir fazer uma festa bem danadinha de boa, todos tapados e mascarados do pescoço para cima, e não pode... e, como se a afronta não bastasse, ainda nos cortam a tolerância. Mas como? Temos que ficar em casa...? Não pode...! Fechados? Não... Mas vou dizer o quê? Que mascarar-me de irmãzinha da caridade-pum e não poder ir para a rua fazer de conta que sou a Alcoforado não me parece bem...? Bahhh, não tenho saco. Esgotei. Já dei para esse peditório.

Claro que poderia falar da meia-irmã da costureira da prima da cunhada da amásia do padrasto do presidente da Junta de Freguesia de Caganita de Baixo que se abifou com uma vacina já meio morna. Mas quê? Pôr-me a fazer concorrência à impoluta e suportável Sandra Felgueiras...? Ainda se eu fosse como o colega dela e soubesse praticar aquela eloquente e histriónica língua gestual, se me faltasse a parte detrás da cabeça, se tivesse orelhas de abanico e conseguisse falar como se estivesse sempre a ponto de apanhar com um míssil no missing toutiço... Mas não. Eu sou só eu. Fazer o quê...? Nada, né? É que, para falar a verdade, ninguém merece.

Portanto, na presença de tão grande insensibilidade e na ausência de ter mais o que dizer, calo-me já.

E que entrem os convidados.






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O título foi retirado do discurso de Vasco Santana

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Desejo-vos e belo e confinado sábado.

sexta-feira, fevereiro 05, 2021

DM -- o grande, o único, o fantástico Poeta anal
[Com vídeo que, de tão inspirador, já está ser considerado não aconselhável. Que novos poemas brotem da alma dos Poetas que por aqui passam]

 

Ai... Cu português,
pede a Deus que Ele te livre
do Diabo chinês!

Rabos lusitanos,
Nosso Senhor vos proteja:
o Mal vai aos ânus!

Os Poemas vão fundo...
E as Prosas são como as rosas
mais belas do Mundo!

Ai cu, ai cu, ai,
ai cu, ai, ai, ai, ai cu...
Ai, ai, ai, ai, ai!


[Poemas da autoria do grande Poeta DM a quem, se não é pedir muito, sugiro que mande daí mais poemas (haikus que sejam) inspirados nos inovadores testes chineses à Covid]
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E, se mais poetas quiserem inspirar-se, aqui fica um vídeo que mostra um conjunto de pessoas depois de terem feito o teste. Oh, que andar mais subtil...

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Que a luz da poesia vos toque, Poetas do meu País

quinta-feira, fevereiro 04, 2021

Eles amam-se -- um século de homens apaixonados em imagens

 



Nos tempos que correm pode parecer estranho que a homossexualidade ainda seja tema olhado com algum desconforto. Em meios mais pequenos, a homossexualidade é ainda vista como uma característica desviante, como se um homossexual fosse um ser perverso, defeituoso ou ridículo. Mesmo em meios supostamente mais evoluídos, pelo menos por cá, quem é homossexual ainda receia expor-se à censura ou ao desdém. As pessoas homossexuais que conheço, apesar de pertencerem a meios cosmopolitas, não assumem a sua orientação. Creio que sejam habitados por um permanente receio de que sejam descobertos e que, sendo-o, passem a ser olhados com comiseração ou desconsideração. Uns tentam disfarçar contando muitas anedotas sobre gays, outros falam com displicência como se fosse tema que não lhes dissesse respeito e outros especializaram-se em, inteligentemente, desviar o assunto para outros terrenos. 

Em todos os grupos, sejam grupos do que for, há os que se situam na média, geralmente a grande maioria, e os que se situam nas franjas, geralmente uma minoria. Portanto, que se diga que os homossexuais são uma minoria é apenas uma constatação, não é mal. O que é mal é que isso venha acompanhado por censura ou repúdio.

Claro que se frequentarmos outros meios, por exemplo, se passearmos no Chiado (quando o podíamos fazer), veremos casais homossexuais assumidos que não escondem o seu afecto. Por exemplo, quando, numa outra vida, podia satisfazer o meu gosto por aliar o ambiente da beira do rio e o dos edifícios decadentes, indo passear para um dos lugares mais belos do mundo, o meu saudoso Ginjal, era frequente ver casais de mulheres homossexuais abraçadas, beijando-se. Não sei se fora dali mostrariam o seu afecto com a mesma naturalidade mas ali eram normais casais de pessoas enamoradas. De qualquer forma é ainda uma situação pouco frequente.

Já aqui o disse muitas vezes. Eu percebo que é mais confortável a gente sentir que não destoa da maioria e que, se nos sentirmos destoantes, nos inibamos de exibir a nossa diferença. Mas muito pior será se os outros apontarem a dedo, gozarem, achincalharem os que já, por si, se sentem pouco à vontade com  situação. Mas se eu sou heterossexual porque o sou e não por opção, também os que são homossexuais o são porque são e não porque o queiram ser. E da mesma forma que não me imagino a escamotear a minha orientação sexual para não ser objecto de repúdio social, imagino o que seria o meu sofrimento se fosse homossexual e passasse uma vida inteira e escondê-lo.

Por isso, tudo o que se faça para mostrar que qualquer pessoa deve ser livre de viver a sua sexualidade em paz e sem vergonha é pouco. 

O vídeo que abaixo partilho convosco mostra uma série de fotografias que mostram o amor entre homens.

Transcrevo parte do artigo da Vogue que apenas por preguiça transcrevo sem traduzir, desejando que parte dos meus Leitores consiga entender ou que o tradutor da google não deforme muito o texto.

“Ils s'aiment” : un siècle d'hommes amoureux en images

Cela n'était censé être qu'une simple collection. Depuis des années, Hugh Nini et Neal Treadwell accumulent des photographies vintage d'hommes qui s'embrassent et s'enlacent, des hommes qui s'aiment, tout simplement. Comme une leçon de vie et une manière de faire perdurer ces amours, à l'époque interdites et réfutées, le duo compile pas moins de 350 photographies dans l'ouvrage Ils s'aiment, publié aux éditions Les Arènes et 5 Continents.

Ces clichés, qui datent d'entre 1850 et 1950, ont été pris à une époque où l'homosexualité était complètement maudite, voire jugée comme un délit. Ils s'aiment est plus qu'un simple livre, c'est un manifeste de tout ce qu'il y a de plus pur : l'amour. Dans leur quête, Hugh Nini et Neal Treadwell ont réussi à dénicher des clichés qui proviennent du monde entier, des États-Unis, de France, du Canada, de Bulgarie, du Japon mais aussi de Thaïlande. Ces photographies, plus éclectiques que jamais, immortalisent des hommes provenant de tous les milieux de classes sociales : dandy new-yorkais ou ouvriers de province, riches et moins riches, blancs ou noirs, civils ou militaires…  C'est un authentique hymne à l'amour ponctué de moments tendres et passionnés, enfin dévoilés au grand jour. (...) 


E viva o amor.

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Desejo-vos uma boa quinta-feira

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

A vacina da prima, os jornalistas que só praticam a má-língua e o grande João de Deus, aka João Vuvu

 

Do que me tenho esforçado por não ouvir pouco consigo concluir. Não sei de que estamos a falar. Por cada lote, entre os que faltam e os que não aparecem, sobram umas quantas vacinas que, para não serem deitadas para o lixo, são aplicadas aos braços que estão mais à mão? Se for isso, é mau? 

  • E de quantas vacinas, nestas circunstâncias, ao todo, face ao total aplicado, estamos a falar? Cagagésimos percentuais? Ou lots and lots? 
  • Ou não é isso, trata-se é de uns quantos chicos-espertos que usam o seu petit poder para distribuir vacinas pela família e amigos? Quantos? Uma dúzia de chicos espertos em mil que se portam bem? Ou quinhentos?

Pergunto.

E peço desculpa pelas perguntas. Se calhar, isso já é sabido e eu é que estou por fora. 

Além disso, sorry mas tenho outra coisa: gosto de pôr os dramas em perspectiva. Se estamos a falar de insignificâncias que apenas espelham algumas margens da sociedade, que não é perfeita, estou fora. Por muito que as beatas e os orelhudos de Auschwitz se insurjam, não são estes fogachos indignativos que vão tornar o mundo perfeito.

Não alinho, mas nem um bocadinho, nesta sanha persecutória, """jornalistas""" e """jornalistas""" por este país afora, armados em inquisidores de meia-tigela, a ver quantas vacinas descongeladas, em vez de irem para o lixo, foram para o braço da padeira da rua. 

Claro que se não foi bem assim e umas quantas vacinas foram parar ao braço da cunhada e da empregada doméstica em vez de irem para o braço de duas idosas do lar, aí talvez já seja crime. Mas apure-se a verdade dos factos, avalie-se  dimensão do crime e deixe-se que a Justiça funcione. 

Mas poupem-nos. Não se aguenta mais tanta miséria jornalística. Procuram ou inventam motivos para exercitarem a sua língua peçonhenta, para empolarem a tragédia, para apelarem ao choradinho, para pintarem um quadro de nepotismo generalizado, para desencadearem a justiça popular, para abrirem a porta ao populismo. Não tenho um mínimo de pachorra.

Esta cambada que mais não faz do que encher o espaço público de maledicência, criando rebanhos ululantes de maledicentes, enoja-me. Olhem, faço minhas as palavras de um dos meus ídolos. 

E como me apetece fugir a sete pés das notícias -- e não encontro alternativa válida na televisão e como tive um dia de trabalho que durou até não há muito e estou cansada demais para ir procurar melhor alternativa -- permitam que partilhe convosco uns vídeos que me apareceram quando estava à procura do último, vídeos aqui reincidentes e sempre bem vindos. Ganda João Vuvu, João de Deus, João César Monteiro. 

Há pouco, ali em cima, ia dizer de um dos meus falecidos ídolos. Mas resolvi retirar o falecido. Enquanto houver quem se lembre dele e dos seus filmes e vá ao youtube procurar os seus vídeos ele estará vivo.

[Red Alert: quem padeça de ouvidos sensíveis deve abster-se de ouvir os vídeos abaixo. Talvez seja prudente retirar o som ou, pura e simplesmente, desistir porque daqui hoje não sai mais nada]


 





E, quanto aos pseudo-jornalistas que espalham maledicência de forma continuada, é isto mesmo: 

Quero que as más línguas se f...! Paragraph. E assim sucessivamente.


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Resposta a um comentário de há dias: claro que bebemos vinho. Como não? Que pergunta vem lá a ser essa? 

E obrigada ao poeta anal: os seus poemas vão fundo.

E obrigada ao Francisco, uma riqueza de simpatia, sempre com sol nas suas sorridentes palavras.

E ao Amofinado, ao Luís, ao Paulo, ao aamgvieira, à Pôr do Sol, ao Pedro e ao José a quem também devo resposta a comentários ou mails. 

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Desejo-vos um dia bom

terça-feira, fevereiro 02, 2021

A próxima pandemia e outras coisas -- o que diz Bill Gates

 

O que era o mundo antes da Microsoft é qualquer coisa de inimaginável. Outra era. Salas cheias de pessoas a escrever à máquina, as chamadas salas de dactilografia. E salas de telex, rolinhos cor de rosa. Salas com contabilistas que davam à manivela em grandes máquinas. Grandes centros de cálculo, máquinas gigantes, discos gigantes. Salas com operadores de computadores, salas com operadores de recolha. Todo um conjunto de profissões que desapareceu. Chama-se a isso pré-história. 

Depois, a coisa foi chegando. No meu caso, foi numa luxuosa moradia cercada por um relvado com lindas árvores que alguém disse que tinha uma coisa muito especial para me mostrar. Depois de termos passeado junto a um lago, um motorista levou-nos lá. Passou-se isto na chamada capital do mundo financeiro. Na tarde anterior tínhamos subido de teleférico, por sobre a copa de altíssimos cedros, até um lugar fora do tempo e, à noite, na cidade, tínhamos estado num pub em que toda a gente bebia cerveja e petiscava e cantava e, por fim, já subiam para cima das mesas, para dançarem abraçados enquanto cantavam. Uma festa. Mas nessa manhã, alguém atravessou a sala alcatifada, uma alcatifa macia em cinzento-escuro, as paredes todas em vidro, parecendo que estávamos no relvado, junto às árvores, e trazia uma coisa para me mostrar. Chamava-se grid, era pequeno, creio que antracite. E eu fiquei fascinada. 

Quando cheguei, contei o que se tinha passado e convenci-os que era aquilo e não outra coisa pela qual tínhamos esperado, sem sabermos que estávamos à espera. E isto ou qualquer coisa como isto deve ter acontecido um pouco por todo o mundo. A coisa foi-se entranhando e o mundo foi-se reformatando. Numa primeira fase era ainda um mundo que era um mix de mundo pre-histórico e de novo mundo. Mas foi andando. Ainda não havia, nessa altura, o hábito de pagar pelo que se usava até porque ainda havia a ideia de que era uma coisa que dava jeito mas da qual se poderia prescindir caso tal nos apetecesse. Usava-se mas copiava-se de umas máquinas para outras. Até que a coisa começou a fiar mais fino. A coisa começou a fazer parte da maneira de existir. Falava-se na Microsoft, no Windows, no Word, no Excel. E tudo o que se usava antes ia passando rapidamente à história. E, com  habituação total, veio junto um modelo de negócios que era tudo menos comum. E a seguir vieram as auditorias. Havia quem ainda tentasse fugir e havia quem não arriscasse danos reputacionais. Até que a coisa endureceu e a seguir às auditorias começaram a aparecer as facturas milionárias para regularizar a situação senão, sim ou sim, a coisa descambaria para os tribunais e para a opinião pública.

E aí toda a gente interiorizou: se usa tem que pagar, e ponto. A despesa das organizações (empresas, administração pública, demais instituições) disparou. Verbas impensáveis para os licenciamentos informáticos. As administrações furiosas da vida com a Microsoft. Gatunos, imperialistas. Monopolistas. Gananciosos. 

A Microsoft inflexível, preponderante. Ou pagas ou pagas. 

E toda a gente paga. Pudera, a dependência é total. Claro que há os open sources ou os googles desta vida. Mas não é a mesma coisa. Mover uma grande organização num outro sentido sai caro, perde-se tempo. Ninguém quer isso. Portanto, paga-se. 

E, então, com a Microsoft galacticamente hipergigamultimilionária, Bill Gates, o crânio que cultiva um permanente low profile, sai da gestão da empresa e muda-se para a Fundação Bill and Melinda Gates, uma fundação cujo porfolio de actividades é longo e pode ser visto no seu site. 

Em tempos, uma pessoa que tinha chegado dos Estados Unidos onde tinha vivido um par de anos com o marido e com os filhos, disse-me que a sua vida era dedicada ao voluntariado e que o tinha aprendido nos States em que havia muito a lógica de give back, devolver à sociedade o que a sociedade nos dá. 

E, segundo Bill Gates e a mulher dizem, é isso que fazem: devolvem à sociedade o muito que a sociedade lhes tem dado a ganhar. Defendem o direito à igualdade de oportunidades, o direito à saúde, ao desenvolvimento, à igualdade de género, o apoio à investigação e ao desenvolvimento, à divulgação do conhecimento. E muito mais.

Claro que se pessoas mais evoluídas como Obama, Biden ou o Papa Francisco o ouvem atentamente e agradecem e contam com e  o apoio da Fundação, Trump ignorou-o e os trumpistas inventaram as mais absurdas teorias da conspiração em cujo centro frequentemente o colocaram. Mas Bill Gates continua a ser o rapaz moderado e contido que sempre foi e, em vez de ficar irritado, fica é preocupado com o fenómeno negacionista e com o forte apelo que tanta gente sente pelo obscurantismo e pelas notícias falsas.

A entrevista que abaixo partilho é interessante. Não se pode dizer que seja curtinha. E é em inglês. Contudo, para quem tenha tempo e perceba a língua, é tempo que se dá por bem usado.

Bill Gates Warns The "Next Pandemic" Is Coming After Covid-19 - And How To Stop It 

| MSNBC

Bill Gates famously warned about the risk of a pandemic in 2015, and in 2021 he offers ideas on vaccines and preparing for the next pandemic. Gates stresses that spending in advance is actually quite a “bargain” compared to the cost of reacting to a pandemic once it ravages the world and cripples the economy. Gates also discusses tech regulations, attacks on him and Dr. Fauci, systemic racism, tax policy and his reaction to being cited in so many rap songs, in this debut of The Summit Series, a collection of in-depth interviews with leaders at the summit of their fields by MSNBC’s Ari Melber. Aired on 01/28/2021.

segunda-feira, fevereiro 01, 2021

Sempre quero ver o que vão dizer dos testes anais os que achavam a app StayAway Covid muito intrusiva...
E o Santana Lopes que já por aí anda outra vez a fazer-se ao piso...? Não tem vergonha nenhuma naquela cara.
[E, para compor o pot-pourri, um relato do meu dia, desinteressante como sempre]

 


Fiz bacalhau à Gomes de Sá para o almoço. Acompanhámos com alface. Sobrou e pensei que seria uma boa solução para o almoço desta segunda-feira. Era para ter feito para mim um jantar ligeiro, iogurte, fruta, mas o meu marido resolveu reincidir no bacalhau e, quando me deu o cheiro, deu-me também a fome. 

O dia foi o do costume.

Andei a fazer medições e conjecturas no jardim. Gosto de imaginar coisas para fazer. E fiz fotografias. Depois fiz um mail a descrever e juntei-lhe fotografias. Tratei de coisas pendentes. Houve uma que não consegui concluir. Com isto da pandemia, é tudo online. Mas é online com as burocracias de quando se tinha que ir penar para o guichet. Só que, atrás do guichet, podíamos ter a sorte de apanhar alguém que nos ajudasse. Aqui, online, não conseguimos passar para o passo seguinte. Bem tentei desencantar tudo o que pediam mas foi inglório. Desgastada, acabei por desistir. Também fiz uma caminhada. Demos uma volta maior, por fora, parecia que estávamos mesmo no campo. Apanhei urze. No regresso passámos por uma série de casas onde os cães já ladram apenas de brincadeirinha, para nos chamarem, correndo de um lado para o outro, ao longo da vedação que os separa de nós, a darem ao rabo. Não há dúvida que já nos conhecem. Por vezes, tenho vontade de lhes fazer uma festa mas, ao mesmo tempo, tenho receio que me arranquem a mão. É que uma coisa é verem-nos passar fora do seu território e outra é uma mão invadir-lhes o espaço. Nessas alturas, bate aquela saudade de voltar a ter um cão como meu amigo. Falei nisso no mail que enviei. A meio e ao fim do dia falei ao telefone. Li. Desta vez consegui ler com vagar e sem adormecer. Há bocado transcrevi um excerto de um texto que achei muito interessante: Cioran fala de Maria Zambrano. Também apanhei laranjas e tangerinas. Estão tão doces, tão sumarentas. E apanhei camélias caídas e distribuí-as por outros vasos. E tenho estado a tentar interpretar os resultados de uma app de que o meu filho me falou. No entanto, creio que apenas com um modelo 3D poderei obter resposta às minhas dúvidas.

E creio que pouco mais. Não sei como é que nisto passou um dia. Antes, isto tudo caberia numa insignificante parte do meu dia. Agora, qualquer pequena coisa expande-se até ocupar todo o dia. Chego a esta hora com a sensação de que estou a desaprender de aproveitar ao máximo cada dia. Penso que ainda devia fazer isto ou aquilo e só encontro obstáculos que me tolhem os movimentos. 

É uma abulia, um tédio, um cansaço. Estou habituada a ter muito que fazer, não pouco. Estou habituada a não ter tempo, não muito. E depois está frio, húmido, tudo molhado lá fora. Por volta das quatro da tarde, se não antes, já estava escuro dentro de casa, já a luz tinha que estar acesa. Muito desagradável este tempo e este confinamento. Lembro-me do belo passeio à Aguieira há cerca de um ano. Na primeira noite ficámos num bungalow de madeira, com uma varanda sobre o rio. Fotografei um bicho grande, misterioso, que nadava sob as águas escuras do rio. Nas outras noites ficámos no hotel. Todos estes lugares tão lindos. Tenho saudades de passear. E dos meninos, dos pequenos e dos grandes, nem se fala. Que saudades. Quando voltar a estar com eles, estarão bem maiores (os mais pequenos que os outros já cresceram o que tinham a crescer). A minha filha diz que, quando isso acontecer, o menino mais velho estará mais alto que eu. Penso que exagera mas sei lá. Os dias arrastam-se mas as semanas sucedem-se. Às tantas perco um pouco as referências temporais. Não percebo nada disto. E tenho mails e comentários a que queria responder mas, estranhamente, falta-me energia. Muito estranho. Espero que me perdoem apesar de não dar para perceber. Cansada e sem energia porquê... se pouco fiz...? Não dá para entender.

Esqueci-me de dizer que estive a tentar pôr-me em dia com as notícias. Mas, de tudo o que li, só me apetece fazer referência a mais uma do Santana Lopes. Voltou a maçar-se com mais um partido que formou. Descurtiu. Os amores dele são sempre na base do coelho, vai ser tão bom, não foi? Ter trabalho e aguentar contrariedades não é com o pontapeado menino da incubadora. Portanto, como é bom de ver, desaderiu. Está outra vez por aí. Mas, qual velha gaiteira, já por aí anda a bater perna e, para se fazer caro, a apregoar que anda a receber convites. E os jornalistas, quais cães a quem atiram ossos, já por aí andam a correr em volta dele e ele, sempre com aquele ar de putativo velho senador, já anda a dar palpites. Não sei se alguém lhe dá ouvidos mas os jornalistas gostam é disto, de quem gosta de mandar bocas. Santa paciência.

Também achei graça a outra coisa e essa eu acho que deveria ser elevada à categoria de ovo de Colombo para certos casos. Li que, na China, estão agora a aplicar testes à Covid por via anal. Li a descrição de alguém que se viu com as calças tiradas, dobrado sobre a cama e com uma cotonete enfiada no rabo. Por duas vezes. Dizem que é mais eficaz que no nariz ou na garganta. E o que eu tenho a dizer é que toda a malta apanhada sem máscara, com a máscara pelo queixo ou com o nariz de fora, em especial os machões, os que acham que usar máscara é coisa para meninas, deveriam ser postos em círculo, virados uns para os outros, tudo de rabo de fora e tudo a levar com uma big cotonete pelo rabo acima (sim, big, que as cotonetes para apanharem o corona não são coisa para meninos...), todos a verem a reacção uns dos outros. A ver se não aprendiam. 

Mas... e os que achavam que a app StayAway Covid era um abuso, uma intromissão e mais não sei o quê? O que dirão se a moda pegar por cá e se se virem na contingência de terem que fazer um testezinho à maneira...? Que é um atentado à liberdade? Que é preciso ver se não viola os sãos princípios do RGPD...? Ou, pelo contrário, até vão louvar a eficácia, vão exigir que seja obrigatório um teste por dia, que nada a ver com liberdade, qual intrusão, qual carapuça, que é pena é que a cotonete seja tão pouco encorpada...? 


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Não sei se o Blackbird (na voz do Jon Batiste) tem alguma coisa a ver com o texto mas, com boa vontade, talvez tenha a ver com as minhas florzinhas.

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Desejo-vos uma bela semana e um belo mês a começar já por esta segunda-feira, dia 1

Saúde. Ânimo. Boa disposição. 
E força aí, ok?

Gotas de silêncio através do silêncio

 

A partir do momento em que uma mulher se dedica à filosofia se torna pretensiosa e agressiva, agindo como um novo-rico. Arrogante e no entanto insegura, visivelmente espantada, certamente não se acha no seu elemento. Porque, na presença de Maria Zambrano, nunca sentimos o mal-estar dessa situação? Eu me fiz muitas vezes a pergunta e acho que posso respondê-la: Maria Zambrano não vendeu sua alma à Ideia, salvaguardou sua essência única, colocando a experiência do Insolúvel acima da reflexão sobre ele, ultrapassou, em suma, a filosofia... Só é verdadeiro, para ela, o que precede o formulado ou lhe sucede, o verbo que se arranca dos entraves da expressão ou, como diz magnificamente, la palabra liberada del lenguaje.

Ela faz pate dessas pessoas que lamentamos só encontrar muito raramente, mas nas quais não paramos de pensar e que gostaríamos de compreender ou pelo menos adivinhar, um fogo interior que se oculta, um ardor que se dissimula sob uma resignação irónica: tudo em Maria Zambrano conduz para outra coisa, tudo comporta um alhures, tudo. Se podemos conversar com ela sobre qualquer coisa, estamos certos, porém, de cedo ou tarde deslizarmos para interrogações capitais sem necessariamente seguir os meandros do raciocínio. 

Daí decorre um estilo de conversação sem nenhum sinal de tara de objectividade, graças ao qual ela orienta você para você mesmo, para suas buscas mal definidas, para suas perplexidades virtuais. (...)

Quem tem, como ela, o dom de, indo ao encontro de sua inquietude, de sua busca, deixar escapar o vocábulo imprevisível e decisivo, a resposta às suas sequências sutis? E é por isso que gostaríamos de consultá-la na encruzilhada de uma vida, no limiar de uma conversão, de um rompimento, de uma traição, na hora das confidências últimas, graves e comprometedoras, para que nos revelasse e nos esclarecesse a nós mesmos, para que de algum modo nos concedesse uma absolvição especulativa e nos reconciliasse tanto com nossas impurezas como com nossos impasses e estupores.


[Excerto de 'Maria Zambrano, um presença decisiva' in 'Exercícios de Admiração' de Cioran, edição brasileira]

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O título deste post foi retirado do texto sobre Beckett do esmo livro.