quarta-feira, junho 06, 2018

Alô, alô Senhores Professores!
Não querem saber o que se passa nas outras profissões?
Há alguma razão para quererem ser uma excepção?


Com toda a gente que conheço, e conheço muitas e com várias entidades profissionais, aconteceram situações gravosas resultantes da crise. Aconteceu comigo, com toda a minha família, com amigos e conhecidos. Houve cortes diversos, não houve aumentos durante anos (e isto já para não falar em quem ficou desempregado). 
Escuso de rememorar: a crise internacional, a gestão desastrosa de Passos Coelho, etc, etc. Para o caso, agora não interessa (embora, não nos esqueçamos, haja um aspecto que importa não esquecer: Passos Coelho e Paulo Portas fizeram o que fizeram porque o PSD, o CDS, juntamente com o PCP e o BE lá os puseram). Mas, vá, não é agora o tema. Adiante. Aconteceu. 
Agora as coisas voltaram a sair de debaixo de água e começam a aparecer alguns aumentos, embora sempre baixos pois acompanham a inflação e a inflação está baixa. Contudo, ninguém recebeu retroactivos ao tempo antes da crise. Com ninguém. Nem podia haver. Seria um rombo que atiraria as empresas para a desgraça.

Se falar por mim, em termos líquidos, ganho agora menos do que ganhava há uns anos e isto não apenas porque houve anos sem qualquer aumento, por miserável que fosse, como os impostos devoram uma parte mais dolorosa dos meus rendimentos do que antes. Com o meu marido acontece o mesmo. E isto só para falar dos dois casos que agora estão aqui na minha sala.

Houve um ano, na empresa onde trabalho, empresa privada, em que, apesar da crise, a administração resolveu dar um aumento de 0,5% -- e fê-lo porque estava preocupada com o rombo na vida das pessoas e quis dar um sinal de solidariedade Ninguém estava à espera e, mais do que ficarem contentes, as pessoas ficaram preocupadas pois, a bem da sustentabilidade da empresa, preferiam que não tivesse havido aquele gesto, preferiam a contenção.

Mais: na empresa onde trabalho, e, em geral, no grupo onde a empresa está inserida, não existe tal coisa de 'carreiras'. Nem nesta nem noutras empresas onde trabalhei. Aliás, acho que nunca trabalhei numa empresa em que existissem 'carreiras'. Nem percebo a lógica. Não faz sentido. Haver concursos internos para se mudar de funções, haver algumas promoções quando se justifique, ou avaliações com atribuição de bónus, isso, sim, tem lógica. Agora a pessoa ir ali de degrau em degrau, de forma compulsiva, não faz qualquer sentido.

Nem faz qualquer sentido que, estando agora a voltar a haver aumentos, as entidades patronais fossem aplicar aumentos retroactivos aos anos que pararam de os haver. O mundo não anda para trás. Aconteceu uma crise e as pessoas foram afectadas. Ninguém o pode negar. Aconteceu. É passado.

Agora estamos a sair da crise e estamos a voltar a crescer e é mais do que normal e justo que os ordenados acompanhem esse crescimento. O que é de loucos é pensar que se pode fazer de conta que nada aconteceu e se apliquem retroactivos. Havia de ser lindo. Seria um desajustamento automático, um buraco.

Ora se isto é cristalino e óbvio, os professores têm obrigação de saber pensar, de saber fazer contas e de não darem mostras públicas de um despropositado egoísmo.

Enquanto falo, o zapping foi parar ao Fernando Medina, na TVI 24, e, por coincidência, está a falar nisto e acaba de usar um argumento em que eu não tinha pensado: olha se eu exijo de volta os impostos que me cobraram a mais, a taxa extraordinária, etc? Não seria bem pensado...? 

Se o Governo resolver ceder a mais esta investida do Mário Nogueira e aceitar repor as carreiras de professores (e só de ouvir falar em carreiras já eu fico com erisipela), então é bom que, de facto, devolva todos os impostos que cobrou a mais a toda a população, que devolva aos reformados os cortes que lhes aplicou e que todas as empresas se preparem para desembolsar milhões e milhões para compensar os não aumentos do tempo de crise. Melhor: que todas as empresas que faliram, sejam obrigadas a reabrir e a readmitir todos os que ficaram desempregados. 

Porque não? A lógica não é igual para todos?

Claro que há a EDP e as rendas, os bancos e o escambau -- os sempre beneficiados. Claro.
Não apenas sei disso como o Leitor P. me enviou um mail a lembrá-lo (depois de eu me ter atirado ao macho-alfa Nogueirão que se armou em bicho mau com o Ministro Tiago Brandão Rodrigues). 
O mundo não é perfeito e há ainda muita coisa para corrigir. Claro que sim. Mas a forma de o fazer não é desatar a cometer outros erros e erros com impactos desastrosos.

E eu só espero que António Costa se mantenha firme e não ceda a Mários Nogueiras e outras figuras sinistras da democracia portuguesa, não ceda a populismos, de esquerda ou de direita. Espero mesmo.

As medidas correctas e que respeitem a equidade nem sempre são as mais populares para todos, nem sempre são fáceis de explicar a toda a gente mas, a bem do desenvolvimento saudável e justo do país, é bom que façamos finca pé e não nos rendamos aos facilitismos e à sedução que enroupa o populismo.

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As fotografias provêm do The Guardian e, se calhar, não têm muito a ver com o texto: mostram estátuas vivas do Festival Internacional de Bucareste

Que amor não me engana, do Zeca, às tantas, também não tem muito a ver com o resto. Mas não garanto.

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terça-feira, junho 05, 2018

Ao anoitecer as montanhas cobrem-se de azul.
O azul é a cor do silêncio.
O azul é a cor mais quente.






Quando cai a noite, as árvores começam a cobrir-se de azul. O mistério envolve-as. Os vultos agigantam-se, os pássaros aquietam-se. Apenas leves rumores, aragens suaves fazendo ondular a folhagem, o lento ranger dos troncos como doces gemidos. O azul tomba sobre as árvores, sobre as almas. 

E as montanhas também. Nas casas da minha vida há sempre, ao longe, uma montanha. Sei bem como a luz as desvenda e a noite as veste de veludo, sei como, então, os contornos se perdem, difusos. Por fim, apenas a nostalgia.
Olha-se o vulto feito de sombra e pensa-se: aconteceu? foi apenas um sonho?
Fecho os olhos, tento recordar. O fulgor da luz, as palavras, os sorrisos, as flores. Manhã luminosa e mil promessas.

Depois entardece. As saudades, a melancolia. Uma serra ao longe. Murmúrios que atravessam a distância. Laços intangíveis perdidos nas brumas.

Chegam os lobos, silenciosos, os olhos brilhando, o bafo azul ardendo na noite. Vultos súplices rondando os corações melancólicos, tingidos de blue.


Ou o mar. O mar a ficar galante ao cair do dia, os azuis mais profundos, os verdes rendidos, a encostarem o corpo, a pedirem uma quebra, um lânguido quebranto, um beijo de espuma macia, longo, infinito. A escuridão a pousar sobre as águas, o horizonte a perder-se na lonjura, os azuis a enegrecerem, tentadores, tentadores como a mágoa mais ardente.

O mar à noite é como uma serra. Um volume imenso, uma solidão distante, inumana, uma presença magnífica. Um abraço prometido. Ao longe, ao longe. Sempre presente. Um abraço quente, azul. O perfume de um corpo expectante.

E depois. Depois, lentamente. O despertar. Os primeiros raios, o amanhecer. 

Musgos que antecipam o afago, cristais indefinidos que a aurora descobrirá, o azul a esvair-se, devagar, devagar. Limos, algas, fetos, heras, a seiva verde a despir-se da noite, os lobos a recolherem-se, os azuis a esconderem-se, inocentes como bichos sinuosos. O silêncio perde-se. O alvo frescor começa a chegar. As flores, inocentes, deixam escorrer o orvalho da madrugada. Os bluebirds que habitam os nossos corações sacodem os restos de noite. O azul nasce de novo, claro e inocente, vem quase branco.

Outro dia.


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Pinturas de Zao Wou-Ki


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Lá em cima é Harmen de Boer com a Nieuw Sinfonietta Amsterdam que interpretam o Adagio do Concerto para Clarinete de Mozart

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Será que o Mário Nogueira se prepara para sequestrar o Ministro Tiago Brandão Rodrigues?


Pergunto isto porque acabo de ouvi-lo a dizer que para a greve os professores vão de certeza, a dúvida dele é se é só para a greve. E estava com cara de mau, ele, ameaçador. 

Fiquei a pensar. O que será que está na calha? Alguma coisa é, que o Mário Nogueira não brinca em serviço quando se trata de dar cabo de ministros da Educação de governos socialistas. Se forem do PSD ou do CDS ele ainda os suporta. Agora do PS... Ná. Só se não puder dar cabo deles.

Portanto, resta saber: o que será? Qual a forma de luta avançada à qual o temível Mário Nogueira vai deitar mão? Daquela cabecinha pensadeira tudo pode sair. 
  • Será que vai sequestrar o Tiago Brandão Rodrigues e pô-lo 24 horas por dia à guarda da Avoila? 
  • Sequestrá-lo e pô-lo 24 horas por dia a ouvi-lo comentadores desportivos? 
  • Sequestrá-lo e pô-lo, de castigo, acompanhar 24 horas por dia o Bruno de Carvalho? 
  • Sequestrá-lo até ele ter o cabelo de tamanho suficiente para fazer um penteado à Santana Castilho? 
  • Sequestrá-lo e obrigá-lo a andar 24 horas por dia com a Alexandra Leitão às cavalitas?
  • Algo ainda pior...?
Ui. Fiquemos atentos. Algo de muito grave poderá acontecer ao ministro Tiago se não ceder ao castigador Mário Nogueira, esse verdadeiro macho-alfa do sindicalismo português (que, por acaso se perdeu de amores pelo ministro Crato -- mas isso a gente faz de conta que não se lembra; cala-te boca)

(Ainda estás com a laranja entalada na goela, não estás, ó Nogueira...? )

Com artistas destes como sindicalistas estão os professores bem entregues, estão, estão....

segunda-feira, junho 04, 2018

'O que é que tem feito?', perguntou-me ele.
E eu fiquei sem saber bem o que lhe dizer





Vai começar uma semana e começa logo bem, com uma reunião de manhã inteira. Uma vez, numa caixa de um supermercado em Setúbal, ouvi a empregada a contar como alguém tinha tentado roubar uma coisa e, com aquele sotaque carregado de erres tão típico de alguns setubalenses, acrescentou, 'foi mesmo à carrra podrrrre', como quem diz, 'à descarada'. Adorei a expressão. E agora, ao dizer que me convocaram para uma reunião numa segunda-feira, queimando-me logo a manhã inteira, só me apetece dizer que o fizeram à cara podre.

Fui ver a agenda. Toda a semana, sobrecarregada de uma ponta a outra. Uma agonia. Surgem convocatórias, compromissos, projectos e maçadas de todo o lado. É isto a economia a bombar. Tem um lado bom. Claro que sim. Mil lados bons. Mas, para quem está dentro do remoinho, é um cansaço, uma falta de ar.


Este domingo, à hora de almoço, já passava das duas e meia, tocou-me o telemóvel. Fiquei sem ânimo. Nem queria acreditar que, mal ia começar a almoçar, estava o telemóvel a tocar.

Amanhecera com vontade de me atirar à faxina de interiores. Não toquei no estúdio, que é independente, nem na ala da casa onde estão os quartos dos meus filhos e a saleta de estar deles já que, sendo zonas pouco usadas (a não ser no verão), pouco se sujam. Mas as casas de banho, a cozinha, a sala grande, a sala de televisão e os corredores estavam a precisar de barrela. Uma casa térrea, no campo, onde as portas e as janelas estão sempre abertas, suja-se para caraças.

Afastei móveis e sofás, varri tudo, levei os tapetes para a rua e sacudi-os, limpei o pó e apliquei produto nas madeiras, lavei as casas de banho e a cozinha, lavei o chão de uma ponta a outra. Ainda assim não me deu tempo para espelhos e vidros.


Enquanto isso, ia adiantando o almoço: favas guisadas com entrecosto que acompanharíamos com alface temperada com coentros. 

Quando a limpeza estava concluída, fui tomar banho. Entretanto o meu marido, que tinha andado lá em baixo nas suas lutas contra silvados e tojais, regressou e foi também tomar banho. 

A seguir, antes do almoço, ainda fui pôr a roupa a lavar. Roupa de cama, toalhas, panos da louça e roupa nossa. Barrela completa.

Era, portanto, já tardíssimo, a casa reluzindo e rescendendo a sabão de flandres, a pinheiro, a cera de abelhas e a óleo de cedro, quando pus a mesa (na cozinha). Penso que já mostrei imagens da minha cozinha. É ampla, com uma grande bancada que percorre duas paredes. A meio está a mesa de madeira com tampo de azulejos que já cá estava quando há vinte e tal anos comprámos a casa. Quando somos só nós é na cozinha que comemos. E quando está cá toda a gente, é também aqui que se tomam os pequenos-almoços já que os horários são sempre desfasados. De resto, nas outras refeições, não dá pois só cabem seis pessoas e, ainda assim, um bocado à justa -- e não há necessidade.


O meu marido olhou para o relógio da parede, encolheu os ombros e disse que não eram horas para se estar a começar a almoçar. E queixou-se, disse que estava dorido, que lhe doía um ombro. Podar e serrar como se não houvesse amanhã dá nisto -- eu que o diga, que ainda mal restabelecida estou da rotura parcial do supra-espinhoso.

Mas, então, estava eu a começar a provar as favinhas, toca-me o telemóvel. Pensei: caraças que hoje só vou conseguir almoçar lá para a hora da merenda. Quando olhei, vi o nome de um ex-colega. Assustei-me. Àquela hora, num domingo, a ligar-me? Pensei: 'quem será que morreu desta vez?'. Mas não. Era para me dizer que tinha dado o meu número a uma outra ex-colega que tinha saudades de mim e que tinha perdido o número quando mudou de telemóvel. E esteve a contar-me coisas dela e depois, também, dele, da família, de velhos conhecidos. Vive agora no Alentejo, apenas de vez em quando vem a Lisboa. Tem tempo. Tem cultivos, tem um cão, tem como amigos gente da terra. Fala com vagar. E eu não lhe disse que ainda nem almoçado eu tinha, deixei-o falar, ouvi-o.


Depois perguntou por mim, o que tenho feito. Hesitei, pensei que não tenho muito para dizer. O que faço não é bom tema de conversa. Pelo menos, não é tema que a mim me interesse.

Trabalho como uma louca nas empresas, na cidade, de sol a sol, mas, na hora de dizer o que tenho andado a fazer, só me apetece falar na desrama das minhas árvores que estão gigantes, no mato que deu lugar a um bosque encantado, no desbaste das aroeiras que rebentam como umas loucas, na beleza efémera das flores, nas ameixas que já aparecem, no círculo de pedras em cujo centro gosto de me pôr a pensar que me sinto agradecida por ter encontrado o meu bocado de terra, nos carrinhos cheios de varreduras que apanho, no vento que faz dançar as ramagens, no perfume da madressilva e do rosmaninho. E, não fosse ele achar que estou bucólica para além da conta, também não falei dos pássaros que andam alegres, cantarolando como crianças, devorando-me as nêsperas douradas e doces, ou das lagartixas que se põem ao sol ou que vão banhar-se nas poças de água ou no gato branco, malhado de cinza e mel, que nunca antes vi e que agora por lá anda, das rochas que o tempo moldou, da serra ao longe que fica azul ao cair do dia, dos msteriosos sons da noite.


Mas não falei em nada disto. Desviei o assunto. Falei nos meus meninos e ele a rir, 'já são cinco, não são?' e contei proezas deles e rimo-nos.

Depois pensei que também poderia ter falado dos livros que ando a ler ou das palavras aos molhos que aqui vos deixo. Mas não disse. Assuntos meus, privados.

E depois fui almoçar. O meu marido já estava no queijo. Eu disse: 'Assustei-me, pensei que tinha morrido alguém'. Ele disse: 'Percebi isso pela forma como atendeste.' Felizmente não, felizmente só falámos de vida. E eu da minha não soube bem o que dizer.

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As fotografias foram feitas in heaven

Angelina Jordan interpreta uma canção sua 'What is life?'

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Não sou sócia, accionista ou, sequer, comissionista da casa Chanel.
Mas gosto de tudo o que vem de lá, que hei-de eu fazer?


Fiz uma pergunta que parece arraçada de pergunta retórica. Mas não é. É um pergunta que tem resposta. Sei bem o que fazer. Jogar no euromilhões. 

Gosto de tudo. Toilettes, perfumes, jóias, relógios, óculos, maquilhagens, publicidade. Há em tudo aquele toque de bom gosto que me parece a um tempo requintado, moderno, simples, feminino, romântico. Tem aquele pequeno problema do valor. Uma pessoa andar de Chanel de alto a baixo requer muito investimento. Mas é um investimento que, cá para mim, vale cada cêntimo. Falo por mim que, mal ponho umas gotinhas de Nº 19, de Coco, de Allure, de Chance e, sobretudo, do Nº 5 não me lembro do custo mas sinto-me, automaticamente, diferente (para melhor, claro). 

Claro que, nisto, a gente pode sempre dizer: gaba-te cesto. Mas quero lá saber.

Pena é que me fique pelos perfumes. Bem gostaria de andar, de alto a baixo, de Chanel.

Mas mais. Se eu vivesse em França há muito que teria tentado tudo por tudo para lá trabalhar. Deve ser maravilhoso.  Claro que, nos pisos em que se trata da gestão, os números perdem o perfume e tornam-se tão empestados de ebitdas como todos os outros. Mas como sempre gostei de andar junto às bases, haveria de arranjar maneira de poder cirandar pelos ateliers, pelos jardins, haveria de poder assistir às provas, aos estudos.

Mas não. Por mil motivos, qualquer possibilidade disto se poder concretizar já era. Portanto, para além de usar os perfumes Chanel, fico-me pelos vídeos que são sempre de um charme e bom gosto que me encantam (e pardon pelo pleonasmo).

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Deauville é uma cidade da Normandia e, mais do que falar da sua história, quero apenas dizer que é muito bonita e que comi lá umas belas ostras. Já aqui referi algumas vezes a minha vontade de lá voltar. Foi dos passeios mais bonitos que fiz e se bem que, em regra, não sinta a nostalgia do regresso aos lugares onde já fui feliz, à Normandia tenho sempre vontade de voltar.


Não conheço o Bleu de Chanel. O meu marido é Acqua de Gio desde que ela existe e, ao contrário de mim, neste tipo de coisas, quando gosta, não sente vontade de andar a arriscar. Um dia destes, vou ver se gosto e ainda ouso oferecer-lhe. Mas, seja como for, os vídeos são sempre uma maravilha.


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E, já agora, os Mandamentos Chanel. Aprender não custa.
Amén.


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domingo, junho 03, 2018

Então, querias ser escritora...




Estou sentada, mal sentada, no sofá com o computador nos joelhos. Não dá jeito. Aqui ao lado tenho uma escrivaninha. Era de uma tia do meu marido de quem já aqui falei. O móvel em minha frente, sobre o qual está a televisão, também era dela. São móveis antigos, bonitos, de madeira sólida. Porque não vou eu sentar-me à escrivaninha, bem instalada? É uma coisa estranha, esta minha.

É tarde, devia ir deitar-me mas apetece-me estar aqui a escrever. Não sei porque escrevo. Porque se escreve? 

Vi há pouco um vídeo. Diziam lá que há quem escreva como forma de combater a solidão. Acredito. Mas não é o meu caso. Embora precise de ter tempos só meus, penso que não é a isso que se chama solidão já que sou eu que os procuro. Penso que é o oposto: preciso de um tempo de recolhimento, só meu. Lembro-me de mim desde sempre a querer ter estes momentos. Adolescente, ficava a ler até às três ou quatro da manhã. Se ouvia algum som no quarto dos meus pais apagava, à pressa, o candeeiro. Zangavam-se comigo por ficar acordada até tão tarde. Sempre. Mesmo com os miúdos pequenos. Mal os apanhava a dormir, começava o meu tempo. Em vez de dormir, punha-me a ler, a escrever, a fazer tapetes, a pintar, o que fosse. E não é que durma mal. Pelo contrário: mal caio na cama, começo a dormir e, se ninguém me impedir, vou até de manhã, de seguida.


Mas, interrogava-me eu: escrevo porquê? Não sei, não sei mesmo. O que sei é que alimento a esperança de um dia encontrar um horário e um lugar em que possa dedicar-me à escrita com alguma dedicação a ver se sai coisa com substância. 

Gosto quando as palavras me transportam para um mundo desconhecido, eu quase num êxtase, não querendo interromper-me, nem por um segundo, para que essa sensação hipnótica não se esvaia. Não acontece sempre. Acontece apenas quando ficciono ou treslouco, nem sei como definir esse estado.

Se um dia me desse ao trabalho de reler o que escrevi ao longo de todo este tempo, tenho a certeza que saberia distinguir o que foi escrito debaixo desse enlevo.

Mas, assim, aqui mal instalada, a esta hora da noite, não poderei escrever nada de jeito. Ora, porque não fui sentar-me na escrivaninha a seguir ao jantar em vez de ter estado a laurear até esta hora? Também não sei. Vivo enleada no meu próprio desconhecimento (desconhecimento esse que, a bem da minha inocência, tento preservar).


Quando ontem andava a varrer ao pé da capela, reparei que na parede onde está a mesa forrada a azulejos que está no recanto, lá ao fundo, ladeada de cedros, está um candeeiro e uma tomada. Lembrei-me: na altura, pensei que era um bom sítio. Pegaria no computador e ali, sossegada, poderia escrever tranquilamente, inclusivamente até já ser noite. Ora nunca para lá fui escrever, nem uma única vez. Não gosto de estar sozinha. Se está mais alguém em casa, obviamente não vou isolar-me. Se estou só com o meu marido, não gosto de me pôr a milhas. E imagina se, à noite, me ia pôr ali, tão longe de casa, sozinha, arriscando-me a ser surpreendida por um bicho mau ou correndo o risco de apanhar um susto do caraças se me sentisse observada, quiçá por uma coruja, quiçá por algum monstro também noctívago, perdido nas brumas. Puxa, vida. Nem pensar.

Tenho, pois, esta questão logística. Na volta, vai perder-se uma escritora só porque não consigo resolver esta equação: onde, quando?

Lá em baixo, ao pé da figueira gigante, há mais duas mesas também forradas a azulejos e, lembro-me agora, também com candeeiros e tomadas e, estupidamente, pela mesmíssima razão. Zero vezes lá escrevi. 


No estúdio que fica do lado de lá do telheiro, debaixo da janela da sala pus a escrivaninha larga que era do quarto da minha filha quando adolescente. Imaginei que poderia ser bom estar ali a escrever, ouvindo os pássaros, deixando a luz entrar, sentindo o perfume do canteiro de alfazema ali por baixo. Zero vezes. Ah... não. Quando os miúdos cá ficaram no verão instalaram-se no estúdio e eu ficava a dormir no sofá-cama da sala e, então, mal eles adormeciam, eu começava a escrever. Mas era a escrever no blog, não conta. 

Gostava mesmo era de escrever a sério, uma história do caneco. 


Por exemplo, uma história sobre uma rapariga muito bonita que se deixou seduzir por um homem muito mais velho, com idade para ser avô dela. E, no fim, inesperadamente, a sedução a resultar num grande amor, os dois verdadeiramente apaixonados. Só que o velho seria um dos homens mais poderosos do país. E ninguém podia saber desse amor, o escândalo seria grande demais. E, então, viviam o seu romance às escondidas só que, pelas circunstâncias da sua vida, estavam sempre juntos, em público, à frente de toda a gente, sempre a terem que disfarçar. 
E agora não conto mais porque os pormenores escabrosos seriam tantos, tantos, e os de muita ternura ainda mais e os trágicos ainda mais -- e tudo tão inconcebível que ninguém ia acreditar em mim. E, no entanto, seria uma história verdadeira. 

Também gostaria de contar uma história de mistério passada num lugar extraordinário, uma fortaleza sobre o mar, com freiras silenciosas e algumas muito más, médicos reservados, escadas sombrias, corredores de chão de mármore a cheirar a sabão azul e branco, salões enormes com soalhos reluzentes a cheirar a cera de abelhas, labirintos, crianças a banharem-se junto às rochas, grandes ratazanas a atravessarem os pilares, junto ao mar, o senhor director a passear no terraço com o seu setter irlandês, vendo os navios a passarem ao largo, uma menina a escutar conversas de adultos. 
Mas teria que ficcionar muito para a história ser credível. E, no entanto, seria também uma história verdadeira.

Mas, como disse, primeiro tenho que descobrir um lugar confortável onde possa instalar-me, tranquilamente, com tempo, a deixar que as palavras encontrem o seu caminho. 

Até lá não passa disto. Temos pena.


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Fotografias feitas in heaven

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E queiram, agora, aceitar o meu convite e ir de passeio até a uma cidade muito bonita e saber da minha receita para uma boa cachola.

Na boa, com cachola para o jantar



Já eram oito e meia quando entrei em casa. De tarde, quando chegámos, fui para a espreguiçadeira, ao sol, de biquini, a ler. Tem graça o livro. Não tem um fio condutor evidente e eu gosto de ler coisas assim, sem grande sequência. Memórias, apontamentos. Fluidez na escrita, sentido de humor. Ali ao solinho com uma leitura gostosa, é caso para dizer: tá-se. 

Depois fui lá abaixo ver o que o meu marido andava a fazer. Está um verdadeiro camponês.
Hoje fez-me rir: disse que eu quero podar aroeiras como se fossem bonsais. E até achei uma boa ideia. Será o próximo passo: dar formas rebuscadas às árvores do campo...
Tinha estado a cortar tojo que tenta passar despercebido no meio do alecrim, e silvas -- que frequentemente trata por 'estas putas' -- e, de pá na mão, preparava-se para tirar a cinza do bidão.


Fui lá para cima, acabar a faena à qual tinha estado entregue de manhã: varrer à volta da casa, debaixo do telheiro, junto ao forno de lenha, junto do jardin zen. Mas, primeiro, fui vestir as minhas leggings e o meu top, já estava a ficar fresco. Há folhas por todo o lado, em especial folhinhas miúdas de azinheira mas também folhas de plátano e caruma, bolotas secas, de tudo um pouco. Acresce que o pó se junta e acaba por se formar uma camada de terra fininha onde a erva não se ensaia nada para despontar.

Tenho que andar com um ancinho a raspar, senão a vassoura não consegue arrancar aquelas crostas de terra misturada com toda a espécie de folheiragem. 


Estou contente porque descobri finalmente aquilo que procurava há que tempos. Uma pá de cabo alto, toda de metal. Afinal, estava na secção de drogaria. Sempre as procurei na secção de jardinagem. Com esta pá consigo um rendimento superior. Com as pás de plástico, domésticas, era uma chatice, não tinham força nenhuma, partiam-se.

Encho carrinhos e carrinhos com o que apanho e que depois levo para a zona dos pinheiros.

Mas, antes, quando fui a casa vestir-me, tinha posto a carne ao lume. No outro dia, num restaurante típico, comi uma coisa muito boa: cachola. Hoje, no talho do supermercado da vila, vi um recipiente com umas coisas cortadas aos bocados. Perguntei à senhora se era àquilo que chamavam cachola. Disse que sim, ou cachola ou fressura. O meu marido não queria, o aspecto daquilo e o saber o que é não lhe agrada. Mas acho que vai gostar.


Fiz assim:
Num tacho pus azeite, alho, cebola e folhas de louro. Frigiu levemente. Depois coloquei a dita cachola com uma cenoura às rodelas. Salpiquei com sal, coloquei mais outra cebola aos bocados por cima. Ficou ali a cozinhar enquanto andei a varrer.
Quando regressei, juntei batata doce (daquela bem amarelinha), feijão verde e um tomate. Não coloquei nem uma gota de água. Envolvi bem e juntei um ramito fresco de alecrim. Fui agora ver e já estava no ponto. Juntei um pouco mais de azeite e um pouco de vinagre de modena. Envolvi.  Desliguei. 
Recende que dá gosto.


Depois vos direi se foi aprovado. Agora está a ver o jogo da selecção, por isso posso aproveitar para escrever antes de jantar..

Por razões que agora não vêm ao caso, fomos a uma cidade de que gostamos bastante e, depois de um belo almoço, por lá passeámos durante a tarde. Agora, por todo o lado, se constata que as pessoas começam a curtir o ar livre.

Os tempos em que as terras estavam desertas e a pouca gente que se via tinha um ar ensimesmado parece que, felizmente, já lá vai. As esplanadas estão cheias, os jardins bem frequentados, um grupo fazia ioga, há crianças, gente a apanhar sol. E eu, feliz e descansada da vida, vou observando, fotografando.  São de lá estas fotografias que aqui partilho convosco. 


Faz de conta que estou de férias. A minha mãe, há bocado, ao telefone dizia-me que eu precisava de tirar férias, a ver se descansas, diz ela. Mas eu, dormindo bem, não tendo mails a chegar a todo o minuto ou gente a vir ter comigo para me dizer que 'temos um problema', e podendo passear, tendo possibilidade de varrer, podar árvores, cozinhar, fotografar, ler, já me sinto descansada, feliz da vida. 

E agora, com vossa licença, vou jantar.

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Pois, então, cá estou para dar o feedback: comeu que se fartou, disse que estava bom, mas não tocou no pulmão, faz-lhe impressão a consistência que diz que é esponjosa. Eu é do que gosto mais. Ficou-se pelo fígado e até ao coração torceu um bocado o nariz. Portanto, estou a ver que não vou poder reincidir com a frequência de que gostaria. Só se , para ele, juntar carne. Se calhar é isso que farei.

sábado, junho 02, 2018

A sumptuosa casa marroquina de dois homens que muito se amaram





Em tempos que já lá vão, da mesma maneira que hoje qualquer coisa me dá vontade de escrever, antes isso era o que acontecia quando pintava. A visão de um casario trepando colina acima, a visão de varandas floridas, a visão da obra de Barragán, aqueles muros em cores quentes, aquelas escadas que vão dar a pátios serenos onde um cavalo passeia, a visão de duas monjas ajoelhadas numa capela, a visão de uma balairina, a visão de uma sobreposição de cores numa parede abandonada, flores escandalosas, mulheres nuas entregues à doçura do sono -- tudo me dava vontade de me atirar a uma tela e desatar a pintar.

Lembro-me do entusiasmo que senti quando vi fotografias da casa de Yves Saint Laurent em Marrocos.

E Majorelle? Ah, que espanto. Que vontade de estar por perto. os jardins exuberantes onde os verdes cintilantes de vida conviviam com os azuis mais intensos, a jarra amarela, as flores abstractas, o exotismo da beleza excessiva.


Que vontade me dava de pintar... e pintava casas assim, iluminadas por uma luz meridional, quente e onírica, com apontamentos azul e turquesa, com a luz e a sombra a desenharem arabescos que só eu decifrava mas escondia.


Mas a última casa... A Casa da Sorte. Elegância e requinte em estado puro. A casa, de todas a mais tranquila. Os tons aqui são predominantemente os verdes, sejam os profundos, sejam os verde-água, os turquesa muito esbatidos, os marinhos suaves e pacificados.


Decorada pelo companheiro de Yves, Pierre Bergé, um esteta, a casa é uma maravilha. Em tudo há aquela simplicidade despojada que, por artes mágicas, resulta depurada e harmoniosa. Não há bibelots a mais, não há peças dispensáveis. Tudo se ajusta de uma forma perfeita.
Tenho ideia que os homens homossexuais têm um gosto refinado no que respeita a decoração mas, se calhar, também aqui se aplica o absurdo de fazer generalizações. Mas lembro uma loja de móveis que havia na minha rua. Poucas coisas lá comprei porque aquilo eram peças extraordinárias, peças de design, assinadas. Cómodas grandes, de uma madeira rara, sofás largos, com tecidos líndissimos, aparaores que eram obra de arte. Uns preços de estalo. No entanto, sempre que lá espreitava, via móveis diferentes, como se houvesse uma boa rotação. Uma vez, falando eu com a gerente, e referindo eu que peças daquela dimensão só em casas de dimensões muito generosas e com donos com carteiras bem recheadas, ela disse-me que a procura até era grande e que os clientes eram geralmente homossexuais e que a cidade é conhecida por ter uma significativa de homossexuais e que, do que lhe tinha dado conhecer, é gente com excelente bom gosto e cm elevado poder de compra. Pasmei. Não fazia ideia. Mas têm casas assim tão grandes? É que este género de móveis não fica bem em divisões com dimensões normais. Disse-me ela: como geralmente não têm filhos, deitam abaixo paredes, juntam divisões, ficam com a casa mais espaçosa.

Foi a última casa do casal em Marrocos. Chamada Villa Mabrouka (Mabrouka significa Sorte) esta casa era diferente de outras onde imperavam as obras de arte, os azuis cobalto bem afirmativos, os dourados, os bronzes e as peças de luxo. Aqui não, aqui há apenas simplicidade, ar fresco e bom gosto. Claro que quando os donos eram Yves Saint-Laurent e Pierre Bergé, a simplicidade é relativa. É uma simplicidade que encerra em si uma estética decantada e elegante.


Yves Saint- Laurent viveu até 1 de Junho de 2008. Pierre Bergé viveu até 2017. Viveram juntos um amor louco que durou cinquenta anos e que superou as dependências e as depressões maníacas de Yves, que conviveu com a sociedade a nível profissional, YSL, que começou por dar que falar mas que acabou por ser bem aceite na sociedade cosmopolita parisiense. O casal refugiava-se frequentemente em Marrocos. A serenidade da casa inspirava o criador. 
Life at Mabrouka was quiet and private. Saint Laurent read, listened to opera and the birds, and watched movies and fishing boats. He went on walks and shared simple meals with close friends, including his muses Betty Catroux and Loulou de la Falaise, the interior designer Alberto Pinto and the garden designer Madison Cox*
[Nota: Madison Cox viria a casar-se com Pierre Bergé. ]


sexta-feira, junho 01, 2018

Já fiz 35 anos há algum tempo e ainda não consegui nada disto...


No outro dia li uma coisa que era o que todas as pessoas que já fizeram trinta e cinco anos já deveriam ter feito. Coisas como, por exemplo, ter arranjado uma cadeira ao lado da cama para pôr a roupa que se tem preguiça de guardar e que não está suficientemente suja para ser lavada. Cada um dizia sua coisa. Ter um armário só para tupperwares, era outra. Coisas assim.

Pus-me a pensar no que eu escreveria. O que quereria eu ter feito ou tido até aos trinta e cinco anos? Pensamento meio fútil ou meio palerma, esse. Porquê aos trinta e cinco? É metade da vida útil? Não creio. Ainda hoje de manhã estive com a minha mãe que, aos oitenta e cinco, está elegante, ágil, sempre activa, sempre bem disposta, sempre com planos. Por vezes, acho-a mais jovem agora do que a achava aos quarentas e tais.

Por isso, o que me ocorre é o que eu gostaria de ter feito em qualquer idade e que, a bem dizer, espero ainda vir a ver esse desejo realizado. Enumero algumas coisas.

1 -  Dançar o 'Por una cabeza' com um homem que saiba conduzir-me de modo a que eu me sinta a mais leve e desejada de todas as mulheres.

Nunca dancei um tango a preceito. Uma lástima: nenhum dos homens da minha vida gosta de dançar.
Escrevo no presente embora a certeza do que digo, na actualidade, só a possa ter em relação a um deles. Dos outros presumo que, com a idade, não tenham adquirido pé para a dança já que, quando com eles dancei, era slow, slowzinho bem gostoso, mas não passava daí.

2 - Ter uma casa com um grande sótão que, a toda a volta, tivesse estantes e tudo bem organizado, os livros todos bem à vista, os lidos de um lado, os não lidos de outro e sempre no lugar certo, os de poesia portuguesa, os de literatura francesa, os russos,os americanos, os brasileiros, as biografias, as autobiografias, os epistolares, os textos à solta, os indefinidos. Os de história, os geografia, os de fotografia, os de pintura, os de museus. Conversas com pintores, conversas com escritores. Assim mesmo, tudo com seu sítio bem definido. Um luxo. Adorava.


E ter uns cadeirões super confortáveis para eu estar lá a ler e haver um puff para pôr os pés, e um candeeirinho ao lado, e tudo muito confortável e claro e aconchegante.

E até podia ter uma caminha para eu me deitar a ler naquelas tardes em que gosto de deixar que o sono me tome nos seus braços.


Idealmente seria esse o lugar no qual me sentiria bem a escrever. Escrever. Escrever com muito prazer. Escrever como se não houvesse amanhã. E haver muita gente a gostar de ler o que eu escrevesse.

3 - Ter uma casa na árvore e nessa casa ter uma varanda com vista. E estar lá sentada a olhar o mundo, a meditar, a fotografar, a ler, a ouvir os pássaros, a ver o tempo quase parado, a não querer muito mais do que a paz daqueles momentos.



4 - Ter um super-mega closet. Poder ter um espaço à larga para a roupa. Poder tudo super-bem organizado. Blusas de verão, blusas de inverno. Por cores. Saias. Calças. Casaquinhos. Casacões. Echarpes. Tudo com espaço de sobra. Sapatos de verão, sapatos de inverno, ténis, tudo por cores. Carteiras por tamanhos, por cores.


5 - Ter um outro espaço. Se já ocupei o sótão com livros e um andar com o closet, se calhar agora teria que ser a cave. Um atelier de pintura. Com janelas por onde entrasse muita luz. Poder ter bancadas à larga para as tintas e pincéis. Poder ter paredes grandes para pendurar ou encostar as telas, ter espaço para cavaletes. Poder pôr linóleo no chão para não ter que ter cuidado para não sujar o chão.


6 -  Esforçar-me por ser capaz de seguir uma receita e aprender a fazer bolos. Bolos saudáveis, com pouco açúcar. E lindos. Ou como aqueles que mostrei há dias, da pasteleira russa Elena Gnut, ou como estes da Alana Jones-Mann de quem a minha filha me falou e que também os faz bem criativos. Gostava mesmo de ser capaz de surpreender e deliciar os meus cépticos descendentes e o meu marido sempre gozão.


7- Ser capaz de contar histórias que encantassem quem me ouvisse, histórias cheias de sonho e de mil vidas, cheias de mistério e múltiplos afectos, e ser capaz de moldar a voz, modular os tons, os silêncios, e todos os que me ouvissem presos ao desenrolar da história e eu emocionada, sem saber de onde vinham todos aqueles maravilhosos enredos, sem saber a origem da melodia secreta que envolvia palavras e palavras e palavras, eu porta-voz de uma história mais verdadeira do que a vida dos que ali estivessem. Gostava mesmo.

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Enfim. Tanta coisa. 
Na volta, devo é começar a jogar com mais afinco no euromilhões para ter dinheiro e tempo para ter e fazer tudo isto.

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Um gostoso dim sum e uma sensual sessão fotográfica na Expo




Continuo a chamar-lhe Expo mas é Parque das Nações. Aquilo é mesmo uma coisa bem conseguida. Dá gosto lá passear. O meu marido diz: 'Não me importava de viver aqui'. Acho que alinhava. Gosto daquele lugar. É muito luminoso, muito arejado, tem espaços bons para caminhar, é um bom sítio para fotografar, motivos não faltam, edifícios bonitos, reflexos, cores, gaivotas, gente, árvores, flores.

Vamos lá com frequência por razões que não vêm ao caso e por mais outra: o cantonês à beira-rio. Não sei porquê é muito menos frequentado do que o da Almirante Reis e, no entanto, a qualidade é idêntica e o espaço muito mais agradável. Não que o da Almirante Reis seja desagradável. Não. É típico. As pessoas sentam-se ao lado umas das outras. Está sempre cheio. Na Expo, não, tem pouca gente. É bom estar lá com tempo, degustando, estando.


Hoje, ao pé de nós estava um senhor. Quando entrou, pôs-se a olhar -- e logo as empregadas, naquela voz cantada de quem não atravessou o Equador mas veio de perto dos lugares onde o sol nasce, desataram a apontar para o fundo e a dizer: 'É ali, é ali'. O senhor riu e disse: 'Mas eu venho é para almoçar...'. Elas desataram a rir, divertidas. Durante o almoço o senhor recebeu uma chamada. Alguém queria comprar-lhe uma peça de vestuário. Ele não queria, não tinha falta, tinha lá várias em casa, sorria, notoriamente agradado. Acabou por dizer que sim, claro, se ela fazia gosto, então, sim, tamanho L. Depois perguntou: 'Sabes onde estou? No dim sum da Expo, à beira rio, gosto muito. Pena é estar sozinho'. Pensei que estava a falar com alguma amiga e que estarão os dois a ver se a coisa pega. Depois ele respondeu: 'Sim, já comprei o bilhete'. Fiquei curiosa, com vontade de saber onde é que ele ia, talvez a algum concerto. Mas a conversa ficou por ali. O senhor tinha muito bom ar, e ar de quem não foi feito para almoçar sozinho.


Enquanto almoçávamos fui vendo quem passava. Muita, muita gente. Sobretudo turistas. Mas muita gente. Impressiona ver como há cada vez mais gente na rua. Novos, velhos, casais, gente sozinha, gente a ler, a namorar, gente com crianças, brancos, pretos, asiáticos, gente de todas as raças e condições sociais, falando todas as línguas. Gosto de lugares assim.

Antes de almoço tínhamos caminhado e depois voltámos a caminhar. Fui fotografando. Muitas fotografias. Um dia, daqui por alguns anos, volto ao meu blog de street photography e publico as fotografias de pessoas que agora não publico. Agora só publico fotografias de pessoas se não der bem para identificar. Hoje tirei fotografias a casais apaixonados sentados à beira-rio. Uma ternura. Muito amor nos olhares, nos gestos. Muito bonito observar a demonstração de afectos.


Mas o mais engraçado foi a sessão fotográfica a preceito a que assisti. A mulher loura, bonita e elegante fazia poses sensuais, sorria, rodava a cabeça, punha o cabelo de lado e, pelo meio, ia dando instruções ao fotógrafo. Escolheu locais, escolheu o fundo, escolheu as posições. Consegui uma bela reportagem. 


Mas, claro, não divulgo aqui as fotografias em que ela estava de frente, bonita e toda sexy, apenas mostro as duas que aqui podem ver. Fiquei curiosa. Será modelo? Seria uma sessão privada?

E, mesmo ao pé, meninos brincavam a corriam a entrar e a sair dos angry birds e os pais mostravam o mundo aos filhos, um mundo azul, colorido, rodeado por água e cheio de luz.


E depois pusemo-nos a caminho do campo. Comecei a ler 'O nervo óptico' e estava a gostar mas adormeci. É tão bom dormir assim, um sono súbito, incontornável. Descansa-me. Dá ideia que o meu corpo desliga, que a mente apaga. Blackout total. Time out. Quando acordei já estávamos quase a chegar.

Ainda estive na espreguiçadeira, ao sol, a ler mas depois fui juntar-me ao meu marido, mas em terra. Ele andava em cima da escada a cortar as pernadas da azinheira que estavam perto do telhado. Eu fiquei-me pelas aroeiras, pelas azinheiras pequenas, pelas ramagens baixas de alguns pinheiros e cedros.

Andámos nisto até depois das oito e já estava frio. Ainda era de dia mas pouco. A aldeia ao longe já mal se via e a grande serra estava azul, imponente na sua serena sobriedade.


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