sexta-feira, dezembro 07, 2012

Judite de Sousa entrevista António José Seguro. Mais discreta, mais simples, o cabelo mais natural, com uma franja que lhe disfarça a assimetria do rosto, esteve esteticamente melhor do que quando entrevistou Passos Coelho. E ainda Henrique Raposo, João Miguel Tavares e outras insuportáveis criaturas que por aí andam a dizer e a escrever coisas que me dão ânsias. E ainda a minha dúvida usual: o que leva Paulo Portas a estar metido no meio deste desgoverno? E, como se não chegasse, ouço na televisão que Medina Carreira 'foi apanhado na rede de branqueamento de capitais e fuga ao fisco' no âmbito do caso Monte Branco. Não pode ser...! Seria demais!


Isto deve ser sina minha. Chego sempre a casa a umas horas tais que nunca consigo ver os telejornais principais nem as entrevistas aos crânios deste país.

Só mais tarde, antes de um debate, vi um excerto da entrevista de Judite de Sousa a António José Seguro. Não vi o suficiente para poder opinar. Talvez ele venha a ser primeiro ministro e talvez ainda venha a surpreender-me. Mas acho que este homem tem tamanha falta de punch que dificilmente eu o escolheria para essa função. No entanto, o mundo está de tal forma cheio de nulidades à frente dos governos que, se calhar, ele nem será mau de todo. 

Mas, por não ter visto a entrevista, não vou poder falar do que ele disse. Falo, sim, de Judite de Sousa. Desta vez fui a correr buscar a máquina e aqui está ela, mais discreta, mais bonita.



Judite de Sousa entrevista António José Seguro,
com uma imagem mais sóbria, penteado mais natural
(mas a maquilhagem ainda carregada demais)


Claro que ainda poderia carregar menos na pintura dos olhos. Se aliviasse o eye liner e se usasse um baton com um colorido menos intenso, ainda ficaria melhor. 

Lá chegará, estou certa.

Aliás, todos os males fossem esses.

Mau, mau é a praga de comentadores que invade os canais de televisão. Papagaios, engraçadinhos, palermas. Uma coisa tenebrosa. Lá aparecem, claro, alguns decentes, inteligentes, que sabem do que falam. Pode não se concordar com eles mas há ali alguma elevação. Por exemplo, a Quadratura do Círculo é um grupo de gente interessante, capaz. Pacheco Pereira, nomeadamente, é de uma lucidez e frontalidade assinaláveis.

Fora disso, lá aparecem também alguns que revelam lucidez, conhecimento, cultura.

Mas a maioria é de uma pessoa se atirar ao ar. Ainda há bocado via um intelectualzinho irritante, ex-blogger acho eu, que opina, com ar de velho, dizendo coisas que são de arrepiar, tamanhos os disparates que diz. E ao lado havia outros que falavam de coisas relacionadas com economia sem fazerem ideia do que estavam a dizer, disparates em cima de disparates. E defendiam teses balofas com ar muito douto... Se não fosse ridículo, seria uma coisa preocupante. Ou o contrário: se não fosse preocupante, seria ridículo.

E isto agora é uma constante, as televisões pejadas de papagaios. Também nos jornais e na blogosfera há com cada 'cromo' que é de uma pessoa ficar parva com o que dizem, como se soubessem alguma coisa do que estão a falar.

Uma dessas criaturas que me tira do sério é um tal pretenso engraçadinho que diz barbaridades com uma ligeireza que deve fazer inveja à Margarida Rebelo Pinto, um tal Henrique Raposo. 



Henrique Raposo,
a versão masculina e de Moscavide
de Margarida Rebelo Pinto


De vez em quando lá escreve alguma coisa com algum sentido mas o normal é o contrário. Mas dá ideia que, quanto mais parvoíces, mais sucesso, e até tem direito a coluna e blogue no Expresso.

Outro que tal é o João Miguel Tavares. Um horror. Também gosta de se armar em engraçadinho, outra cabecinha light, opinador sem sapiência alguma, não diz nada que se aproveite, uma coisa que chateia. 

Comentadores bem ao nível do Relvas e dos outros que para aí andam a rabiar de um lado para o outro, autênticas bichas de rabiar, dizem e desdizem, baralham e voltam a dar, com cara de pau, como se estivessem sempre a dizer a mesma coisa, ou como se achassem que estão a falar gente parva. Baratas tontas, gente sem tino, descarada.

Agora, mais recentemente, dizem uma coisa, depois o alemão abre-lhes os olhos e vêm logo a correr, de rabo entre as pernas, uma coisa triste de ver, dizer o contrário. Defenderem o País, está quieto.



Cavaco Silva apareceu de novo
e disse que achava que se deveria renegociar as condições da dívida
(menos encargos, mais prazo)


Depois Cavaco faz nova prova de vida e diz o contrário do que eles andam a dizer e aí vêm, de novo, a correr,  a dizer que, afinal, são da mesma opinião de Cavaco. 

Será que acham que somos atrasados mentais?! Ou será que são eles que não são bons da cabeça? Bolas!

Enquanto falo, a televisão passa uma peça onde mostram as contradições aberrantes do Vai-Estudar-Ó- Relvas. Podia ser de gargalhada se ele fosse um palerma qualquer, um dum clube de futebol, por exemplo, desses que aparecem sistematicamente nas televisões a dizer bacoquices ridículas e infantis. Mas o drama é que não é.



Parece o emplastro e é.
É o Vai-Estudar-Ó-Relvas.
 Depois da peça que vi na tv sóse pode dizer que é o maior troca-tintas,
o tal que inexplicavelmente ainda é ministro


Uma coisa patética, até dá nervos. Como é possível uma ave destas ser ministro? É que até devia ser proibido. Que coisa!

Mas mais patético ainda é ver Paulo Portas. Dá pena. 

Já votei no CDS para o Parlamento Europeu. Gosto do Nuno Melo, é esperto, é capaz de ser trabalhador, tem sentido de oportunidade, acho que gosta de Portugal, é educado, é simpático (e até é bonito). 

Quanto ao Paulo Portas é demasiado tacticista para o meu gosto, tem o discurso demasiado maleável para o meu gosto e, por vezes, dá-se ares de um conservadorismo que me incomoda. Mas reconheço que é inteligente, pessoalmente simpático (pelo que vi em entrevistas, nomeadamente no Cinco para a Meia Noite), e, aparentemente, também gostava do País. Reparem no tempo do verbo que usei: escrevi gostava.



Paulo Portas,
sem brilho, sem alegria, baço, triste, envelhecido
Para quê? 


Mas vejo-o agora, como o vi há pouco na televisão, e dá-me pena. A dizer que disse o mesmo que o outro disse e que, se o outro disse, e o outro também, então ele está de acordo com um e com outro. Uma conversa pífia, infeliz. Uma caricatura do que foi nos seus tempos áureos. É certo que conviver com gente como o Relvas ou o Passos deve tirar a saúde e desnortear qualquer um. Mas alguém o obriga a aturar aquela gente?

Ia dar cabo da coligação? Ia causar uma crise? Ah, pois ia. E depois? 

Limpar o País desta tropa fandanga é mil vezes preferível a aguentar a paz podre que vivemos, é mil vezes preferível a assistir ao desgoverno a que esta gente está a submeter o País. 

Esbulho fiscal, destruição da economia, descontrolo da dívida e do desemprego, venda das melhores empresas do País sabe-se lá a quem, a que preço e a troco de quê, destruição da cultura, expulsão dos mais jovens e dos melhores... e não continuo para não me irritar mais já que quero ir dormir descansada.

É isto que Paulo Portas está a defender? Com a voz frouxa, os olhos sem brilho, ar estafado, falando si-la-ba-da-men-te (será influência do Gaspar-não-acerta-uma?), Paulo Portas é uma triste sombra do que foi. Está a comprometer o seu futuro político, o do seu partido, está a contribuir para a descredibilização da classe política e está a ser co-responsável pela destruição do país. A troco de quê, alguém me poderá explicar? Volto a perguntar-me: ser ministro justifica isto? Desperdiçar a vida de uma forma tão inglória a troco de quê, senhores?

E, como se isto não estivesse tudo mau demais, ouço agora que o Sol vai publicar um artigo que é chamado à capa em que diz que Medina Carreira foi apanhado na rede, e que esta quinta feira até lhe revistaram a casa. 



Medina Carreira apanhado no caso Monte Branco?! Recuso-me a acreditar.
Acho que ele é mais 'a mão do diabo'.



Bom. Se há alguma verdade nisto, já estou como o Nogueira Leite: 'piro-me daqui para fora'. 

Mas será que está tudo doido?! O Medina Carreira num esquema de fuga ao fisco e branqueamento de capitais?! Pode lá ser?! 

Vou mas é deitar-me antes que ouça mais alguma do mesmo género... Que medo... O País está entregue a gente maluca, perigosa. Foge...! 

*

Bom, caso queiram passar para um registo bem diferente, convido-vos a irem até ao meu Ginjal e Lisboa. Hoje só há palavras de Sophia, um excerto de um inédito publicado na Ler e um poema do livro Geografia. São palavras sobre Brasília e, parte, sobre Niemeyer. A música é ainda de Haydn, violino.

*

Desejando-vos que amanhã não sejam assaltados por nenhum dos referidos, desejo-vos, meus Caros, uma boa sexta-feira!

quinta-feira, dezembro 06, 2012

A vida é um sopro, dizia Oscar Niemeyer. Aos 104 anos, tranquilo com a vida, foi-se o arquitecto inspirado pelas curvas das montanhas ou dos corpos das mulheres.


Escrevo este texto de manhã depois de ontem à noite ter escrito um texto sobre uma inovação chinesa relacionada com namoro entre colegas de empresa e depois, ainda, de ter falado de Joaquim Benite (ver abaixo).

Mas acabei de saber de uma notícia sobre a qual não poderia deixar de falar.

Em tempos transcrevi palavras assim: De um traço nasce a arquitectura. E, quando ele é bonito e cria surpresa, ela pode atingir, sendo bem conduzida, o nível superior de uma obra de arte. [...] Na cúpula do Senado, desprezando a característica autoportante que oferece o empuxo que criaria, inclinei em rectas sua linha circular de apoio, tornando-a mais leve, como preferiria. Na Câmara, depois de invertê-la, a estendi horizontalmente como a visibilidade interna exigia, procurando uma forma que a situasse como simplesmente pousada na lage de cobertura. E tudo isso fazíamos com tal empenho que lembro Joaquim Cardozo me telefonando: 'Oscar, encontrei a tangente que vai permitir a cúpula solta como você deseja.'. [...] Um dia, Carlos Drummond de Andrade escreveu num dos seus versos:' Oscar desenha na areia seu edifício.' E tinha razão o nosso amigo. De um risco inicial nasce a arquitectura e até na areia isso pode acontecer".

Algumas vezes antes me referi a ele aqui.




Figura excepcional, Oscar Niemeyer partiu mas levou consigo uma vida vivida com imenso prazer.




Oscar Niemeyer (autor da letra), Edu Krieger e Caio Marcelo  
Samba 'Tranquilo com a vida', também conhecido por Samba Niemeyer



Tranquilo com a vida, se foi. As suas obras falarão, para sempre, dele.


*


De convexidades de mulher,
Sensuais concavidades,
Silhuetas de rio,
De um braço,
Um dedo,
Um instante,
Um traço curvo de luz,
Eis de que fizeste cidades
Com chapéus,
Taças,
Afrontações,
Sei lá eu…,
Até ondulações de Alentejo
Com sorrisos dos homens a olhar
Que querias o mais iguais que se puder…

E porque a vida é assim,
Luz e sombras,
Em linha recta em plano
Eis-te a descansar…



['Poeta do betão armado', um poema com as curvas de uma mulher, de José Rodrigues Dias num comentário abaixo e também no blogue Traçados de Nós]

Empresa chinesa oferece bónus a quem namorar com colega de trabalho. É capaz de ser boa ideia. Conto-vos alguns 'casos' a que assisti e que até estimularam a produtividade.


Os chineses afinal não são apenas replicadores de tecnologias, modas e costumes:  conseguem também ser inovadores. 



在办公室约会


Li uma notícia em que se diz que: “Muitas empresas consideram as relações amorosas entre trabalhadores uma potencial fonte de complicações no trabalho, mas uma empresa de tecnologia chinesa vê a questão de uma perspectiva bem diferente: dá bónus a quem namorar com colega. A compensação foi criada porque muitos funcionários pareciam deprimidos. Caso o namoro não resulte, os trabalhadores podem tirar dois dias de folga para se recomporem”.

Acho fantástico. Nunca me passaria tal pela cabeça.

No entanto, concordo que nada como alguém andar apaixonado para sentir um pico de adrenalina que é óptimo para o desempenho profissional.

De resto, é muito normal nos empregos haver casos entre colegas. Sempre ouvi dizer que o melhor ambiente para isso são os hospitais. Uma amiga minha que é médica num dos grandes hospitais de Lisboa conta-me histórias do além. Geralmente conclui: 'Sabes...? Há lá muita cama....'

Por razões óbvias, não vou falar do presente mas, apenas, do passado. Assim já passou, já não interessa.

Aqui há uns anos, na empresa onde eu estava, numa altura de grande efervescência profissional e em que a média de idades se situava entre os trinta e tal e os quarenta e tal anos, eram poucas as pessoas que não acasalavam por lá em regime de não exclusividade (ou seja, tudo gente casada, bons pais e mães de família).

Um colega, grande amigo meu, acasalou com a minha secretária; a secretária de outro director acasalou com outro director; uma jovem recém admitida, pouco dotada intelectualmente mas inversamente dotada do ponto de vista físico acasalou com outro director (e, aliás, convidou-o para o casamento, ao qual ele gostosamente compareceu, obviamente acompanhado pela mulher - coisa que na altura me fez um bocado de impressão; hoje já não me faria, já vi de tudo); um outro acasalou com a respectiva secretária e veio, mesmo, a casar com ela; um funcionário administrativo do mais apagado que havia acasalou com uma administrativa de outro serviço, igualmente apagada; uma outra administrativa daquelas com um corpo de tipo viola, que o Vilhena tanto parodiava, acasalou com um motorista franzino; uma colaboradora minha, tímida e recatada acasalou com um de outro serviço; e por aí fora.




O presidente, homem fresco, também ele, já que vivia com uma directora de uma empresa na qual antes tinha sido administrador (sendo, na altura, casado com a mãe dos filhos), fartava-se de rir. No meio daquilo tudo, o que achava mal era o tal que andava com a jovem (que já namorava com o que viria a ser seu marido) e que 'dava muita bandeira'. Saíam juntos de carro ao meio dia e picos e apareciam às 3 e tal ou 4 da tarde, todos risonhos, andavam aos segredinhos pelos corredores, depois ela zangava-se, fazia cenas, depois faziam as pazes: um filme... Dizia-lhe o presidente, se fosse preciso ao pé de nós, outros colegas dele, 'Ela é muito gira mas é completamente burra, parece que você anda a aproveita-se da burrice da rapariga. Não lhe fica bem isso, pá'. E concluía, dirigindo-se ao meu amigo que namorava com a minha secretária, 'Não é o caso deste que se vê que é mesmo amor, é um caso de bigamia'. E fartavam-se de rir, todos no meio da maior alegria. Eu ficava ainda um bocado chocada com tanto desplante, mas nada por aí além já que isso acontecia para onde quer que eu me virasse.




Quando foi aquilo do casamento, o meu colega contou-me e eu achei mal que ele fosse e levasse a mulher. E perguntava-lhe eu 'E se a tua mulher descobre, já viste? É péssimo o que estás a fazer. E ela, de facto, é mesmo maluca, estar a convidar-vos...' Ele ria-se 'Que mal é que tem... Lá estás tu. Quadradona. E como é que a minha mulher is saber?. Eu encolhia os ombros, 'Sei lá, imagina que alguém lhe conta'. Mas ele ria-se, 'claro que não, iam contar porquê?'

Algum tempo depois, na minha casa, estava eu sentada à cabeceira da mesa, a mulher dele à minha esquerda e ele na cadeira a seguir. A mulher, muito habilidosa, contava-me que tinha feito um chapéu muito giro com o mesmo tecido do vestido que tinha levado ao casamento da outra e descrevia-me o vestido e o chapéu. E perguntava-me, intrigada, porque é que a jovem não me tinha convidado nem a mais ninguém, só ao marido, que até era de outro serviço. E ele ouvia a conversa, com o braço por cima dos ombros da mulher, carinhoso, enquanto se ria, gozão, sem ela ver. E quando eu inventei uma desculpa qualquer para a jovem só ter convidado o marido, ele, o safado, piscou-me o olho, mesmo como quem diz 'Estás a ver que ninguém lhe diz, nem ela desconfia de nada?' e dava-lhe um beijinho carinhoso. Mas, a verdade, é que gostava mesmo, mesmo da mulher, disso nunca tive dúvidas.

Mas o caso que mais me surpreendeu foi o de um colaborador meu que, na altura já andava perto dos sessenta anos, pai de família, avô. Começou a desenvolver estreita amizade com a secretária do presidente, senhora divorciada, também avó, senhora essa que tinha um namorado de idade, um engenheiro (como se comentava à boca pequena) que, inclusivamente, lhe ofereceu uma operação plástica no Brasil.

Um santo dia, estando eu em casa, já noite, recebo uma chamada de uma senhora que se identificou como mulher desse meu colaborador. Muito nervosa, pedindo-me mil desculpas por me estar a incomodar, voz trémula, queria que eu confirmasse se tinha enviado o marido em serviço para uma cidade do norte do país. Apanhada de surpresa, fiquei sem resposta. Claro que não o tinha mandado, o que é que ele iria lá fazer? Por um lado, achava que não devia desmascará-lo mas, por outro, não fosse acontecer alguma coisa, não queria que a mulher viesse a dizer que eu o tinha enviado para algum lado, quando não o tinha enviado para lado nenhum. Acho que devo ter ficado calada o tempo suficiente para ela perceber e me dizer, 'Deixe estar, não diga nada, já percebi tudo'. E desatou a chorar e a contar-me as mentiras em que o andava constantemente a apanhar e acrescentava sempre, 'um homem daquela idade, já com netos, uma vergonha, anda de cabeça perdida'. O que ele aprontou até se reformar, não vos passa pela cabeça.

Podia estar aqui o resto da noite a contar-vos histórias. A mais picante de todas seria a que envolveu durante anos a pessoa mais poderosa da empresa, pessoa conhecidíssima a nível de opinião pública. Não o farei, claro. Aliás foi um segredo muito bem guardado.




E, no entanto, enquanto a vida amorosa andava ao rubro, a vida profissional era uma agitação, todos motivadíssimos, uma alegria no trabalho que não vos digo nada. Tenho ideia que nunca como nessa altura prodigiosa a produtividade foi tão intensa.

Por isso, sou capaz de achar bem a ideia da tal empresa chinesa. Oferecendo bónus, é mesmo capaz de motivar o pessoal e não há nada melhor para a produtividade do que a motivação.


*

Hesitei em escrever isto depois de ter evocado a memória de Joaquim Benite no post abaixo. Mas depois achei que não faria sentido sentido já que, como sempre, por imensa e dolorosa que seja  a perda, a vida continua.

*

Desejo ainda convidar-vos a visitarem o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje as minhas palavras olham e fingem que não vêem um belo corpo de homem num convés. Fazem companhia às palavras de Daniel Filipe. A música hoje é linda, uma sonata para piano de Haydn. Uma maravilha.

*

Aos que estão afastados destes meios em que há muitas mulheres e muitos homens, peço que não fiquem apreensivos com coisas como as que referi. Nem sempre acontece, claro. Há pessoas imunes a este tipo de tentações. Além disso, geralmente são coisas sem importância, mais vale nem pensar nisso. O que não se sabe, não existe. 

*

E, por hoje, nada mais. 
Desejo-vos um belo dia! Saúde e alegria!

quarta-feira, dezembro 05, 2012

O Teatro que perdeu o Azul no dia em que Joaquim Benite voou para mais longe





O Teatro Azul, edifício da autoria dos arquitectos Manuel Graça Dias, Egas José Vieira e Gonçalo Afonso Dias - que, segundo o Expresso, é, a seguir ao Centro Cultural de Belém, a segunda maior sala do país - é a casa do Teatro Municipal de Almada criado por Joaquim Benite



Esta e sempre será a casa de Joaquim Benite, agraciado com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural do Concelho de Almada, com a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura, condecorado pelo Governo francês com o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras e pelo rei de Espanha com a comenda da Ordem de Mérito Civil.

Tinha 69 anos e diz quem o conheceu de perto que era um homem simples. 



Gaivota elevando-se nos ares junto ao Teatro Azul

Como, segundo Tim Wildschut, os pensamentos nostálgicos promovem o conforto psicológico, ajudam a combater a solidão e induzem uma sensação de calor, dei por mim a recordar os tempos em que eu, a minha mãe e a minha avó tratámos do meu enxoval. Psicologia e lavores femininos de mão dada, portanto. (E vamos lá a combater esse frio, está bem...?)







A partir de certa altura a minha mãe começou a dizer que era melhor começarmos a tratar do enxoval.

Fomos a uma loja que vendia tecidos a metro e a minha mãe queria algodão e acrescentava qualquer coisa que era distintiva, não sei se seria algodão egipcío ou se algodão egipcío é o das meias de homem. Sei que ela queria algodão do bom. Comprámos muitos metros, divididos em lençol de baixo, lençol de cima, que era maior por causa da dobra, e almofadas. Comprámos só pano branco.

Depois a minha mãe foi falar com uma senhora que fazia bordados à máquina e deixou lá um grupo de panos com a encomenda de uma série de bordados.

Uma das minhas avós que gostava muito de fazer crochet, fez uma série de barras em renda, umas de bicos, outras com monogramas, bordados antigos, complexos. Fez uma mais simples mas que eu escolhi porque, justamente era simples e a renda fazia uns lacinhos, e eu achava muito bonita.




Quando estavam prontas as rendas, a minha mãe levava-as à senhora dos bordados para que ela as aplicasse e, então, num processo aturado, escolhia-se o processo de aplicação, ponto ajour ou outros, não me lembro dos nomes.

Depois a minha mãe comprou também linho onde bordava ela própria, à mão. Tinha imenso cuidado para não sujar a alvura do pano, e punha óculos, acendia uma luz sobre o bordado e estava concentradíssima.





Num deles bordou uma barra enorme em ponto de Richelieu. Tenho ideia que andou meses ou anos a fazer aquela enorme barra cujos interiores recortava com uma tesourinha de bicos. Vinha da escola e entregava-se a este trabalho, por fim tenho ideia que já desesperava, nunca mais aquilo acabava.




Noutro dos bordados equacionava-se maduramente se a linha a usar devia ser branca, pérola, ligeiramente acinzentada, faziam-se ensaios, olhava-se de frente e de lado, a minha mãe aconselhava-se com a senhora, com a minha avó.

Quando a senhora os dava por prontos, ou bordados ou com as rendas aplicadas, íamos buscá-los. O meu pai ficava no carro e recomendava que não nos demorássemos mas demorávamo-nos sempre porque a senhora (disse-me a minha mãe no outro dia que teve um AVC, está agora num lar) tinha sempre pormenores a relatar, dificuldades com que se tinha deparado e que tinha ultrapassado depois de muito pensar e eu e a minha mãe ouvíamos com muita atenção, analisávamos, dizíamos que tinha ficado muito bem e ela lá sorria, mais tranquila. Depois eu e a minha mãe trazíamo-los em braços, envolvidos em pano de lençol para não se sujarem, e com o mesmo desvelo com que transportaríamos um recém-nascido.

Depois já era tanta coisa que se começou a colocar a questão: onde guardar?

Veio a ideia da arca. E, então, fomos um dia escolher uma arca. O dono da loja aconselhou uma arca de cânfora, grande, toda trabalhada, com uma espécie de tabuleiro interior, um fecho em bronze ou latão, não sei. Pesada que se farta. Cheirosa. Nunca engracei muito com ela, gosto de coisas mais simples, mas o senhor explicou que era o melhor que havia para enxovais e a minha mãe aceitou o conselho, e eu também não ofereci resistência, andava encantada com aquilo tudo.

Algum tempo depois a arca estava repleta de lençóis, toalhas de mesa lindas, umas aos quadrados de linho bordados intercalados com quadrados de renda, outras todas bordadas à mão.




Depois a minha avó tinha na cama dela uma colcha de renda antiga, pelo menos do tempo da minha bisavó, tinha em cima um casal de ceifeiros, ela com uma cesta com flores. Eu gostava muito dessa colcha e pedi à minha avó que fizesse uma para mim. Ela começou por dizer que não seria fácil porque o tamanho era outro, o original era mais pequeno, a linha também era diferente, teria que adaptar o desenho; mas lá a fez. Gosto imenso dessa colcha. Faz-me lembrar a casa da minha avó quando eu era pequena e usava tranças.

Quando abria a arca, havia, pois, aquele cheiro tão característico da cânfora. Na altura não percebia se gostava daquele cheiro ou não. Agora acho que não, e nem sei bem porquê. Mas, a verdade é que dediquei muita atenção a esse enxoval enquanto namorava o poeta cantor.

Depois, avassalada pela paixão e com outro namorado, deixei de ter tempo para prestar atenção a isso. Lá estava a arca cheia que nem um ovo e eu com a cabeça noutro sítio.

Quando me casei, claro que levei o enxoval, mas não a arca, não tinha onde pôr uma coisa daquelas. Ficou em casa dos meus pais. Algum tempo depois, mandaram-na para casa da minha avó. Mais tarde, ela também não a queria, dizia que lhe ocupava muito espaço, e acabei por levá-la para uma arrecadação onde ainda está. Agora tem lá dentro os trabalhos da escola dos meus filhos quando eram pequenos.

Ainda muito miúdos, chegados à nossa casa, um pequeno apartamento perto do céu, num décimo quinto andar com uma vista maravilhosa, casados de fresco, olhámos com apreensão para aquela roupa toda, elaboradíssima. Pensei que devia ser uma canseira passar a ferro aquelas barras bordadas ou de renda e sempre tinha ouvido dizer que engomar linho é obra. Comprámos, então, coisas mais modernas, lençóis mais largos, estampados ou de cores fortes, toalhas amarelas, cor de laranja e, claro, brancas, mas tudo simples.

A grande maioria da roupa do meu enxoval continua, pois, por estrear. 

Ocupa várias gavetas que bastante falta me fariam para outras coisas. Fui agora tirar algumas peças para fora, para fotografar e vi que algumas têm manchas amarelas, devia lavá-las, pô-las ao ar. Mas... e o tempo para isso? Quando me reformar logo me entretenho.

Mas olho aquelas peças de arte com muito carinho. Há nelas muitas, muitas horas de trabalho da minha mãe e da minha avó. Há nelas muito carinho, o carinho com que muito genuinamente pensavam estar a ajudar-me a ter um futuro melhor, um futuro no qual dormiria entre rendas e bordados. Lembro-me tão bem, e até com uma certa nostalgia, daquelas tardes em que nos debruçávamos sobre os desenhos, sobre os panos, antecipando para mim um futuro radioso, branco e feliz. E assim tem sido, uma vida feliz mas mais colorida do que monocromática, branca.

Lembrei-me disto hoje depois de ter lido um artigo na Ciência Hoje em que se dizem coisas interessantes como: Tim Wildschut, da Universidade de Southampton e co-autor do estudo, considera que a “nostalgia é experimentada praticamente por toda a gente e que pode promover um certo conforto psicológico. Por exemplo, um devaneio nostálgico ajuda a combater a solidão”.

Os investigadores quiseram “dar um passo em frente” e perceber “se este sentimento estava também envolvido no conforto fisiológico”. O estudo mostrou que a nostalgia tem uma função homeostática, de equilíbrio, permitindo a simulação de estados anteriores de prazer, incluindo estados de conforto corporal. Neste caso faz as pessoas sentirem-se mais quentes e aumenta a sua tolerância ao frio.


Por isso, meus Caros Leitores, se estiverem a sentir frio, desolação ou solidão, tentem, por favor, recordar momentos agradáveis da vossa vida, momentos que guardem com carinho e pelos quais sintam uma doce saudade. Sentir-se-ão, de certeza, mais quentinhos, mais acompanhados.


*

As fotografias são de peças do meu enxoval. A canção, de que gosto imenso, é Marambaia e é interpretada por Maria Bethânia e Omara Portuondo.

*

Hoje não escrevi nada no meu Ginjal. Não podia - é que faço mesmo questão de ter em destaque dois poemas enviados por dois leitores, a quem muito sinceramente agradeço, e que incorporei no corpo da mensagem, a seguir ao poema de João Miguel Henriques. Convido-vos a irem até lá. Confesso-vos que me sinto tocada de cada vez que vejo como das palavras nascem palavras, e que belas palavras e que bem que aquelas falam umas com as outras, que bem.

*

Tenham, meus Caros Leitores, um dia muito feliz. E recebam um abraço que vos envio com amizade.

terça-feira, dezembro 04, 2012

(Vou já avisando: este post é altamente inconveniente. Quem, em vez disto, quiser ler sobre o OE 2013 e sobre os conselhos de Marcelo Rebelo de Sousa e Henrique Monteiro relativos à incapacidade do Gaspar acertar no que quer que seja, e à do Passos Coelho em perceber o que quer que seja, deve saltar imediatamente para o post abaixo). Aqui, neste, tenta responder-se à seguinte pergunta de um leitor: como fazer sexo fora de casa? (Mas cuidado com algum Flagrante)






Já por mais do que uma vez aqui vos informei das palavras usadas nos motores de busca e que, incrivelmente, trazem os pesquisadores até mim.

Uma das últimas foi: "como fazer sexo fora de casa?"

Tal e qual.

Como acho que nunca me debrucei sobre o tema, fiquei, de novo, a pensar porque é que o Google me enviou esta pessoa. Não sei, às tantas acha que isto pode funcionar como um correio sentimental, ou um site de aconselhamento, uma coisa assim. Seja. Como tenho uma costela mista, ou melhor, uma costela que é um misto de boa samaritana e de agente comercial, para que, de uma próxima vez, a pessoa que aqui venha parar não sinta que veio ao engano, vou tentar responder.

Claro que aqui deverei colocar um desambiguador, ou lá como é que isso se chama. Ou seja, o que quereria a pessoa dizer com ‘fora de casa’? Ao ar livre ou noutro sítio que não a própria casa?

Vamos ver se tenho sabedoria para tão complexa questão.



Se não estiver uma aragem,
podem, por favor, passar o rato ao de leve sobre a senhora?



Se for na rua

Bom, se for na rua, em primeiro lugar há que recomendar prudência não vá o acto ser descoberto e os praticantes ainda irem presos por ofensas à moral e aos bons costumes. Portanto, partindo do princípio que tal será acautelado, poderei recomendar os clássicos: o carro (que não é bem ao ar livre mas, enfim, para lá caminha) mas talvez num local mais ermo (a menos que goste de desafiar o destino), ou a praia num sítio mais resguardado, ou o campo, coisas assim. Mas agora é capaz de estar um bocado de frio para isso, não? 


Se for a bom recato mas fora da casa propriamente dita

Bom, aí as possibilidades são também muitas desde o hotel de beira de estrada, a casa de amigos. Claro que mesmo estas opções não dispensam alguns cuidados.

Conto-vos o caso da mulher que se encontrava com alguém em casa de um casal amigo que lhes emprestava a chave, num sítio bem distante e fora de mão. Lá chegados, saíam do elevador e, se eram vistos a entrar no apartamento dos amigos, já sentiam que os vizinhos adivinhariam o que ali se iria passar, isto se não pensassem que era uma dupla de assaltantes. 

Depois, logo numa das primeiras vezes, uma vez em que foram à hora de almoço, tendo, inclusivamente, levado farnel, ao saírem de lá foram tomar um café lá ao lado. Quando, na parte da tarde, chegou ao emprego, a mulher já tinha uma colega a avisar que tinham ligado para lá de um café no tal sítio no cu de judas a informar que tinham encontrado uma pasta com documentos a partir dos quais tinham identificado o local onde trabalhava. Bonito serviço. 

Ou seja, em qualquer situação, cuidadinho e cabecinha fria é o que se recomenda.

*

Não fui muito gráfica, pois não? Fui bem comportadinha - mas tinha que ser, meus Amigos, não se esqueçam que isto é um blogue de família. 

Mas, pelo menos, quem aqui entre agora à procura de pistas para tão magna questão, já não poderá dizer que veio de balde. Aquela senhora lá em cima, como se vê, já veio de carteira.

Obrigada e o que eu estimo é o que eu desejo, como dizia o outro.

As despedidas a sério estão no post abaixo, aquele onde se fala de coisas maçadoras, está bem? 

*

A canção é Flagrante, é cantada por António Zambujo e tem letra de Maria do Rosário Pedreira)

Faz algum sentido o que Marcelo Rebelo de Sousa, Henrique Monteiro e outros dizem quando aconselham Vítor Gaspar e Passos Coelho a deixarem-se de previsões, já que não acertam uma? Eu digo que não. Ou será que, ao contrário do que parecem dizer, estão, de facto, a juntarem-se a Mário Soares, Medeiros Ferreira e outros, que os querem mandar embora? Só se for. Ou isso ou não estão a ver bem a coisa.



Se a senhora não estiver a dar ao pé enquanto pensa,
passem com o rato, muito ao de leve, sobre ela, está bem?



Não me tem apetecido falar de equívocos, trapalhadas, incompetências. Mas há bocado estava aqui sentada a pensar no que havia de escrever e resolvi abrir uma excepção.


Ou seja, agora que o Orçamento de Estado para 2013 foi aprovado na Assembleia da República por um bando de deputados que não perceberam que, em primeiro lugar, devem lealdade a quem os elegeu e, só depois, aos partidos onde se acoitam, gostaria de deixar aqui alguns apontamentos.

Tal como o OE 2012 não foi executado, dando lugar a sucessivos orçamentos rectificativos, também o de 2013 não vai ser cumprido, mesmo que Cavaco Silva - esse fantasmagórico ser que habita o Palácio de Belém - o deixe passar.

E digo isto com toda a certeza porque, pura e simplesmente, o OE 2013, como tudo o que Gaspar faz, está errado. E, estando errado, é, pois, inexequível.

Baseia-se em pressupostos errados, desenvolve-se com base em previsões disparatadas e ignora tudo o que se é do mais elementar bom senso. Um aborto.

Face à falta de habilidade do ministro das Finanças, muita gente vem agora recomendar, Se nunca acerta nas previsões, porque insiste em fazê-las? Acabe com isso.

Já ouvi este conselho abstruso a pessoas como Marcelo Rebelo de Sousa ou Henrique Monteiro. Emitem essa opinião como se, estando perante o falhanço sucessivo de previsões da Maya, a aconselhassem a não adivinhar o futuro (como se isso não fosse sinónimo de a aconselharem a deixar de ser taróloga). 

Ora, há neste aconselhamento um grande equívoco. 

Um ministro das finanças ou quem quer que seja responsável por fazer orçamentos não pode deixar de fazer previsões. Fazer previsões, neste contexto, não é um acto de divinação. Isso é a base de que se parte para fazer um orçamento (e um orçamento é a base de que se parte para pôr medidas em prática, para pôr um país a funcionar).

Aquilo a que genericamente se chama ‘previsões’ é uma de duas coisas: ou são objectivos ou são cálculos. 

Fazer um orçamento é fazer um exercício sobre uma modelo que tem regras, dados de base e que pretende atingir um objectivo (por exemplo, o objectivo principal pode ser o de se atingir um défice anual de 5%). 

Ou seja, a partir desse objectivo (atente-se: objectivo e não previsão), irão desencadear-se uma série de cálculos (por exemplo: simulações que incorporem as opções de quem está a fazer o exercício, tais como redução de despesa, aumento de receita, etc). 

Em concomitância com o exercício serão calculados indicadores tais como os chamados estabilizadores, que como que aferem quais os danos colaterais que as medidas causam (e que me desculpem os entendidos e os puristas pela linguagem simplista que utilizo). 

Por exemplo, será calculado o aumento expectável da taxa de desemprego face a uma subida de impostos que seque a economia (e aqui deveria entrar aquele alerta do FMI quando veio dizer que afinal o índice é mais gravoso, pode chegar ao dobro ou ao triplo do que se costumava usar nestes modelos; ou seja, dito por outras palavras, os modelos apontavam para uma contracção inferior, o que, portanto, conduzia a índices de desemprego mais baixos do que os que a realidade tem vindo a demonstrar - pelo que os modelos devem ser corrigidos). 

E aqui será a altura da elaboração do orçamento em que devem ser introduzidas restrições. Por exemplo, pode definir-se que as medidas que estão a ser ensaiadas nos modelos orçamentais  não devem causar  o aumento do desemprego. E, aí, quem está  a fazer os orçamentos, deve experimentar outras soluções e, se não conseguir atingir o objectivo pretendido, deve assumidamente aceitar que ele é inantigível dentro do regular funcionamento da sociedade e do país.

Ou seja, todo o exercício de elaboração de um orçamento é um exercício que parte de objectivos e do qual decorrem indicadores calculados.

Quando se entrega um orçamento que é uma ficção, todo martelado,  inexequível, o natural é que a realidade venha  provar que nada bate certo. Surpresa só para quem não sabe o que anda a fazer.

Ou seja, como tem sido o caso do governo de Passos Coelho, as medidas que eles inventam são postas em prática, ou seja, a economia é sangrada, as empresas caem que nem tordos, há cada vez mais desempregados e mais portugueses a emigrarem, há cada vez mais gente a viver da sopa dos pobres e da caridade alheia - mesmo pessoas que antes eram professoras, farmacêuticas, etc -, quem ainda trabalha tem cada vez menos direitos, quem é reformado é espoliado…  e isto para quê? Para piorar ainda mais o estado do País. O défice não baixa, a dívida sobe, o sistema de segurança social está em risco, ou seja, nem um dos objectivos foi atingido e todos os cálculos vieram a provar-se errados.

Então, o que o Gaspar e o Coelho devem fazer é não fazer previsões?!

Ou seja, não fazerem nada? Estarem quietos? Não fazerem orçamentos? Não tomarem medidas? Já que não atinam com nada de coisa nenhuma, o melhor é deixarem-se disso? É isso que Marcelo Rebelo de Sousa, Henrique Monteiro e outros, querem?

E isso significa o quê, senão estarem a dizer para Vítor Gaspar, o medricas do Pedro Passos Coelho e restantes espertos se irem embora?


NB: Se é isso, estou de acordo. Já chega de darem cabo do país. Rua. Xô! Xô!


*

Bom, isto hoje foi para o chato, não foi? Eu acho que foi. Pode ser que ainda me inspire para escrever mais qualquer coisa. Já vou ver. Mas, caso me deixe dormir entretanto, aqui ficam já as despedidas.

No entanto, antes de me despedir: não querem ir até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, a love affair? Hoje as minhas palavras cavalgam a onda de um belo poema de João Miguel Henriques e a música é de cordas, Haydn.

*

E tenham, meus Caros leitores, uma bela terça feira. Divirtam-se, está bem?


segunda-feira, dezembro 03, 2012

Os quarenta de Pedro Mexia, segundo nos conta no Actual do Expresso. E o dia em que eu fiz os meus quarenta (já lá vão alguns anos)


Para este sábado que passou, Pedro Mexia escreveu uma crónica no suplemento Actual do Expresso sobre os seus quarenta anos.

Escreve bem, como sempre, escreve desapaixonadamente, como começa a ser usual, escreve com uma tranquilidade que começa a desenhar-se como uma imagem de marca. Aos poucos, o spleen que se colava persistentemente à sua pele, parece começar a dar lugar a um apaziguamento desencantado.

Transcrevo frases soltas desta sua crónica que, justamente, intitulou 'Quarenta'.



Pedro Mexia
Um homem de quarenta anos


Aos 40, sei que a 'felicidade' é uma hipótese estatisticamente improvável  ou efémera ("and I should know because I've seen them, but not often").

Aos 40 anos, vivo com 'expectativas diminuídas', diminutas, em diminuição. Já sei que não sou melhor nem pior do que os outros, sei ao milímetro aquilo que valho, sei perfeitamente que não vou deixar vestígio, que desapareço quando morrer a última pessoa que me conheceu. E nada disto é trágico. 

Pessimista e misantropo, é verdade que que vou ficando sozinho. Mas, aos 40 anos, não compreendo esse medo de ficar sozinho, que me inquietava ainda aos 33. Ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. É um preço que estou disposto a pagar. E há, digamos, dez pessoas de quem gosto, dez pessoas sobre quem não me enganei, e dez pessoas é um mundo.

E, entretanto, não faleci, o que também não estava garantido. Tenho ainda mais uns anos de esplendor inútil, não sei quantos, quem sabe se mais quatro ou quarenta. Está bem assim.


Cada pessoa é como é, claro. Por razões genéticas, educacionais, por condicionalismos imprevistos, sei lá, tudo isso vai moldando a nossa maneira de ser.

Eu vivo no mesmo mundo que o Pedro Mexia, já fiz quarenta anos, já passei por eles, já lá estive e, no entanto, que diferença.

Não estou sozinha, nem nunca estive. E, no entanto, tal como ele, eu também sou exigente. Tal como ele, eu não minto. Tal como ele, eu defendo as minhas convicções. 

E não me interrogo sobre o que é a felicidade nem nunca me interroguei. E, no entanto, já estive lá muitas vezes, nesse pequeno e efémero espaço em que a razão e os sentidos convergem num apaziguamento luminoso.

O dia em que fiz quarenta anos já lá vai e, no entanto, as minhas expectativas são ainda grandes, muitas, e não receio não vir a atingi-las - porque vou sempre atrás daquilo que quero, não me perco pelo caminho, vou, vou sempre. E nunca me preocupei com o que valho, se é mais ou menos que os outros, nem se vou ou não deixar vestígios, não penso nisso, quero lá eu saber. 

Escrevo isto e penso que o mais certo é que eu seja uma pobre de espírito. Leio com interesse as preocupações existencialistas de quem as exprime com perícia, gosto de saber o que pensam pessoas assim, pessoas inteligentes, pessoas analíticas, pessoas frequentemente amarguradas. E, no entanto, que distância sinto, eu tão simples, tão intuitiva, tão destituída de preocupações deste tipo.

Lembro-me bem de quando fiz quarenta anos. 

Os meus filhos já eram adolescentes, mais altos que eu, bons alunos, e opiniosos, reivindicativos, já com os seus próprios amores, já com a sua própria vida. Lidar com eles era, na altura, um exercício de equilíbrio no arame. Mas eu fazia esse exercício com alegria e, sempre, com muito orgulho neles e sempre cheia de amor.

A nível profissional, eu já tinha desde há alguns anos um cargo de responsabilidade na empresa em que trabalhava, e vivia, na altura, um período de grande azáfama, acumulava dois lugares, reportando a dois administradores distintos. 

Mesmo que fosse da minha natureza ter pensamentos metafísicos, existencialistas ou, de alguma forma, elaborados, quer por razões familiares, quer profissionais, não teria tempo disponível para isso.

Por isso, encarei os quarenta anos sem dramas, sem análises sobre o que tinha sido antes e o que seria depois. Era apenas o dia em que ia ter um aniversário especial, ia entrar nos 'entas'. Só isso.

No entanto, apesar do desprendimento com que vou atravessando a vida, há em mim uma espécie de preocupação - e não sei se preocupação é a palavra certa pois, de facto, não me preocupo com isso, talvez seja antes uma intenção.

Tendo bem claro que vida há só uma e que é de duração indeterminada e, seja como for, que é efémera, quero vivê-la bem, quero viver muito, experimentar tudo aquilo que me apetecer.

Por isso, leio muito e gostava de possuir todos os livros de que potencialmente gostaria, por isso pintei e pinto imoderamente, por isso fotografo imoderadamente, por isso faço tapetes e muitos, tal como fiz camisolas de malha, colchas de renda, toalhas de mesa, por isso tenho blogues - por isso me interesso por tantas coisas. Sinto que o tempo é curto para todas as coisas que gostava de fazer e de conhecer, por isso faço muito, muitas coisas.

E esta ideia tem estado presente em tudo, até no meu aspecto - e aqui sei que vou entrar num domínio em que posso ser tomada por uma mulherzinha fútil. Pois que seja. Sou assim. Vou fazer de conta que sou diferente porquê? Voltando onde ia, ao meu aspecto: já usei cabelo muito comprido, mediamente comprido, liso, ondulado, penteado como a Lauren Bacall, solto como o da Kim Basinger, ou com madeixas, ou sem madeixas. 

Mas, quando fiz quarenta anos, resolvi operar em mim uma mudança radical. 

De véspera fui à cabeleireira (dessa vez não me arrisquei a ser eu própria a fazer isso) e disse: Corte! Muito! Tudo! 

E, assim, de súbito, tornei-me numa Jean Seberg. 

Entretanto, antes, em casa, quando me perguntaram se gostaria de ter alguma coisa em especial, disse que sim, umas lentes de contacto azuis. E recebi-as de presente.



Jean Seberg
Aos 40 anos eu ainda fumava
e o meu cabelo era assim, tal e qual


Por isso, no dia dos meus anos, que é no verão, vesti um vestido justo, de alças, em tons de azul, e apareci assim - assim e de cabelo curtíssimo e olhos muito azuis.

Lembro-me muito bem desse vestido, usei-o bastante, e lembro-me bem das pessoas que, nesse quente dia de verão, se cruzavam comigo lá na empresa, um edifício enorme, vários pisos, centenas de pessoas - e, se distraídas, não me reconheciam. 

Lembro-me, em particular, dos meus colaboradores, dos meus colegas mais próximos, quando entravam no meu gabinete. Nessa altura, outros tempos, o meu gabinete era enorme, talvez uns trinta ou quarenta metros quadrados. À entrada havia uma zona de reuniões, uma mesa redonda. A minha secretária ficava no fundo e, para me verem, tinham que entrar. Entravam à espera de me verem igual ao que era na véspera e, quando punham os olhos em mim, quase davam um salto para trás.

Eu perguntava, quando os via estarrecidos, Mas estou assim tão horrível?! Respondiam que não, que estava bem mas que não era eu.

Eu própria, quando ia à casa de banho e me via ao espelho, mal me reconhecia. Os meus olhos não são escuros mas não são azuis e, naquele dia, eu estava com olhos azuis claros, de boneca. Aquele cabelo tão curto, de rapazinho, depois de, durante muito tempo, o ter usado comprido, e os olhos tão azuis... - não era eu, era uma estranha, era uma desconhecida. Mas diverti-me imenso, imenso. Não o fiz para surpreender os outros mas para experimentar ser outra. E, no entanto, a surpresa dos outros divertia-me extraordinariamente, só por isso valeu a pena.

No entanto, se gostei de me ver com o cabelo assim, e usei-o por mais algum tempo, já aqueles olhos não pareciam meus e os olhos têm muito a ver connosco. Quis mudar mas, nem imaginam, mudei demais. No dia dos meus quarenta anos eu não fui eu, fui outra, foi uma experiência inesperada, bizarra. 

Não voltei a usar aquelas lentes de contacto.

Depois disso não voltei a fazer extravagâncias deste género. Fiz de outro.

Quanto ao resto, estou como o Pedro Mexia, também não sei se vou durar mais quatro ou quarenta, ninguém sabe. O que sei é que, por isso, não vou desperdiçar nem um minuto a preocupar-me com coisas que não domino, que não dependem da minha vontade, que não acrescentam qualidade à minha vida, que não me fazem mais feliz. Saber o que é felicidade? Saber se deixo vestígios? Se sou melhor ou pior que os outros? ... Não quero saber, é-me indiferente. Vou vivendo o melhor que posso, de acordo com a minha consciência, atenta aos outros, rodeada pelos meus, que não são muitos mas que são também o meu mundo. E isso chega-me. Está bem assim.

Mas, claro, cada um é como é.

Para terminar, daqui desejo a Pedro Mexia uma vida longa e feliz, mesmo que ele não saiba o que é a felicidade. E estou certa que não desaparecerá quando desaparecer a última pessoa que o conheceu, e isso é coisa que não está ao alcance de todos. 

*

Hoje, no meu Ginjal e Lisboa, as minhas palavras procuram os contornos de um deus distante juntamente com as palavras de Al Berto. A música hoje é, nem mais, nem menos, Rostropovich no violoncelo interpretando Haydn

*

Tenham, meus Caros leitores, uma bela semana a começar já por esta semana. 
Saúde, boa sorte e felicidade é o que vos desejo.


domingo, dezembro 02, 2012

Folha do meu diário: registo de um dia frio, luminoso. Dos gatos e das gaivotas do Ginjal até ao aconchego à lareira in heaven - o tempo passando com vagar e doçura





O frio que estava de manhã... Este vento frio leva-me para junto do rio. Como se descreve o frio em palavras? O frio que enregela as mãos, o frio que entra pelo pescoço, que arrepia as águas, que arrasta canas e árvores para as correntes que levam o rio para o mar? Não sei, faltam-me as palavras.

Lá fui. Pouca gente. Quando o tempo está assim, o Ginjal fica entregue ao tempo. Dois ou três pescadores nos cais, dois ou três no jardim. 

A meio, reparo que um dos armazéns está aberto e, para meu espanto, vejo o ganso do outro dia a dirigir-se para lá. Vou atrás dele, espreito, e ele também. É um espaço amplo, com caixotes, redes, alguidares. O ganso afoita-se, entra. Eu não, fico à porta. O ganso olha, então, para mim mas desinteressa-se logo de seguida, está mais interessado em descobrir o que por lá há. 




Vê então uma alface num caixote que está em cima de uma televisão e atira-se logo a ela. Não sei de onde vem este ganso, se é companhia de algum pescador, se vive por ali, não sei. Mas é engraçado. O Ginjal é um lugar mágico, habitado por seres misteriosos.

Num dos cais, o cão que por vezes vejo por ali lá estava ao sol. O vento frio agitava-lhe o pêlo mas talvez esse seja assim que ele se sente bem pois, tranquilo, olhava quem passava, olhava o rio, os barcos, indiferente ao arrepio que me percorria a pele.





Penso que olhava o ganso indiscreto que espreitava cada recanto do armazém em frente; mas há neste cão uma sabedoria, um saber feito de vida, que o torna indiferente em relação a minudências irrelevantes.

Prossegui o meu passeio, as mãos geladas enquanto segurava a máquina, os olhos lacrimosos pelo frio, os olhos agradecidos por uma beleza tão límpida.

Um pouco mais à frente, entre o gradeamento da beira do cais e o rio, mesmo à beira, como se hesitasse entre voar ou estar ali, prolongando o prazer do momento que antecede o voo, uma gaivota. 

Linda, olhar inteligente. Olhava para mim, depois desviava o olhar dourado, olhava o rio, e, depois, olhava-se de novo, muito tranquila. Eu mesmo junto dela, leva-me contigo, leva-me contigo, e ela serena, sereníssima.




Inclinava a cabeça para me ver bem, talvez para me mostrar a sua compreensão. Fotografei-a de frente, de lado, aproximei-me o mais possível. Não se afastou nem um pouco, talvez tivesse deixado que eu lhe tocasse. Mas num ser belo e livre assim não se mexe, apenas se olha. Talvez um dia eu me deite a voar com ela. Mas não já. Só um dia em que possa não voltar se assim o desejar.

Continuei. Fui até ao jardim. Subi aquelas escadas que não levam a lado nenhum e que têm nuvens pintadas. De lá vê-se Lisboa inteira, o rio inteiro, as margens, as duas pontes, os navios que entram a barra, o céu, a imensidão de um espaço abençoado. Tanto frio, um frio tão limpo, tão azul.

Reparo então numa mensagem amorosa que alguém  lá deixou no princípio do ano, palavras escritas sobre uma nuvem azul, uma nuvem a que o tempo vai acrescentando novas tonalidades.



Amo-te Shochiinhas
:$


Fui à procura do significado de :$ e vi que significa que, quem escreve, está envergonhado. 

Enterneço-me. Vergonha? Vergonha de confessar um amor? 

Alguém confessou o seu amor escavando as palavras numa nuvem azul e isso é de uma enternecedora bravura.

Tomara que o tempo não desgaste este amor envergonhado, antes o enriqueça com as texturas que a vida acrescenta aos sentimentos entre pessoas que se querem bem. 

Depois desci e continuei. Ninguém. Nem gatos. Tinham-se abrigado do vento frio, certamente. 

Já me sentia desolada, quando, mais à frente, o meu amigo negro de olhos verdes atravessou uma parede e, com um miar amoroso, veio ter comigo, veio encostar-se às minhas pernas, seguiu-me miando, olhando-me com ar cúmplice.




Não sei o que fazer com este gato. Fico encantada. É lindo, vadio, terno. Eu fico parada a olhar para ele, tento perceber o que espera de mim e ele senta-se, paciente, olha para mim, espera. Fotografo-o uma e outra e outra vez, e ele espera. Depois afasto-me e ele segue-me, chamando-me, miando, um miar arrastado, quase silencioso. Hesitante prossigo, olhando para para trás, olhando para ele que me segue, desculpo-me, oh gatinho, mas que queres tu que eu faça...? Bsshhhh, bsshhhh, bsshhhhhh. E ele olha-me, tolerante, espera que eu um dia compreenda.

Mais à frente, reparo que sob uns arbustos que se agitam com o vento, uns olhos me olham. Espreito. Abrigado da maresia gelada, um gatinho colorido defende-se do frio.




Lindo, lindo, os olhos quase tão verdes quanto a verdura que o aconchega, olha-me, a princípio com alguma suspeição. Não sabe se há-de esgueirar-se para mais longe, se se deixe fotografar. Treme um pouco, é ainda novinho. Depois acaba por confiar em mim.

Semicerra os olhos percebendo tudo muito bem, reconhecendo o seu homem amigo e considera vagamente sobre a manhã, a tarde e a noite que há-de vir.

O gato, a gata, os gatos, as gatas. O animal que Rómulo ama e admira e observa como se nele visse uma entidade fabulosa, o mais veemente deus, a espécie perfeita!

Como este gato tem sorte! Não tem que procurar comida, nem água, nem sítio onde dormir, e é amado, é um gato amado.

Lá isso é verdade!

Isto seria se Rómulo tivesse tido um gato...

Na sua idade adulta, nunca houve nenhum gato. Só escrito com as letras no papel.


Quase assim eu. Nenhum gato meu. Mas estes maravilhosos gatos vadios de beira de rio que me olham com olhares profundos, meigos, compreensivos, meus irmãos, são bem mais do que isso, são exemplos de independência e liberdade. Alguma vez se pode possuir um gato para se poder dizer 'o meu gato'? 

Depois regressei, estava muito vento, muito frio. Como vos poderei dizer em palavras o frio azul, o vento carregado de limpidez e maresia?

Passou um casal. Fotografei. O meu marido puxa por mim, chama-me,  impacienta-se, já chega, anda, vamo-nos embora, e o que tem aquela mulher para que tu a fotografes...?

Explico, tem o cabelo no ar.




E, assim, já que não sei que palavras usar para vos dizer do vento e do frio, mostro-vos esta imagem, ambos encolhidos, ela sem mão nos cabelos.

Depois, escusava até de vos dizer, depois vim até cá, abriguei-me junto ao calor da lareira, o aconchego habitual aqui in heaven, o meu ninho, o ninho da gaivota vadia, da gata de beira de rio. Mas, antes de me aninhar junto ao fogo amigo, fui até lá fora, estava a apetecer-me uma coisa madura, doce, uma carne tenra e macia com sabor a flores. 




O medronheiro está carregado de pequenas flores e, também, de belos frutos vermelhos, doces, bons.

Fotografei este medronho, macio, envolto em cor e luz. Depois comi-o.


*

A música é 'Mar Estranho' do álbum 'A Montanha Mágica' de Rodrigo Leão.

O trecho em itálico é um excerto do livro 'Rómulo de Carvalho/António Gedeão - Príncipe Perfeito' de Cristina Carvalho, a filha.

*

Dizer-vos mais o quê? 

Que muito sinceramente vos desejo que este domingo seja um dia feliz.

E que desejo que, para o ano e nos seguintes, o 1º de Dezembro continue a ser Dia de Feriado. 
Temos que saber honrar a memória de Portugal.


sábado, dezembro 01, 2012

Hoje, quando eu estava na minha torre de vidro, uma gaivota veio, debaixo de intensa chuva, ver se me convencia a sair de lá para ir voar com ela






Hoje choveu muito, constantemente. Tive um dia relativamente calmo. Grande parte do tempo estive no meu gabinete que, como anteriormente já aqui o referi,  é todo branco e com paredes de vidro. Para introduzir alguma dissonância, junto à mesa de reuniões, tenho um quadro antigo a óleo, com moldura antiga e, num recanto desnivelado, por detrás da minha secretária, tenho uma página do Expresso de há uns anos, que emoldurei. Tem desenhos muito engraçados, a preto e encarnado, e frases sobre a imaginação, a ilusão, a fantasia, a fuga à realidade, o sonho, o brilho, a alegria, a luz – coisas assim. 

A escolha da cor e do mobiliário do meu gabinete não foi minha tal como não é de cada pessoa individualmente, uma vez que todos os gabinetes são iguais. Foi um gabinete de arquitectura que desenhou os interiores do edifício e o mobiliário, e que estabeleceu todos os layouts

É tudo branco e transparente. A zona central é um grande open-space. Ao todo não deve haver mais de uma dezena de gabinetes individuais. Mesmo os coordenadores de área estão no open space. Ao princípio as pessoas temiam a barafunda ou a falta de privacidade mas, afinal, não há barafunda nenhuma e todos se habituaram a gerir a sua forma de estar no meio dos outros.

No open space não há divisórias ou móveis altos. Por isso, parece um enorme espaço arejado, claro, muito luminoso. Poder-se-ia pensar que ficaria com ar de laboratório, tudo branco. Mas não. As pessoas vestem-se da cor que querem e isso, parecendo que não, traz muita cor ao espaço. Uma vez tive uma reunião com alguém que nunca lá tinha estado e, como sempre, a reacção foi de admiração, tão grande, tão bonito, tanta luz. Mas depois perguntou-me: as mulheres aqui têm que se vestir de roxo? Fiquei muito admirada, pensava que estava a brincar comigo. Mas não, estava a falar a sério. De facto, eu tinha uma blusa nesses tons, entre o arroxeado e o violeta. Olhei lá para fora, para o open space, e, curiosamente, nesse dia a maioria das mulheres estava vestida nos mesmos tons. Tinha sido uma curiosa coincidência. 

As pessoas que vão lá pela primeira vez ficam agradavelmente impressionadas, tudo tão claro, tão silencioso. É que também não há telefones, pelo que não se houve quase barulho nenhum; e quase não há papel. Ao princípio as pessoas, ao verem que praticamente não há armários, iam tendo um ataque de nervos, onde guardamos as nossas pastas? Mas habituaram-se. Claro que também não há lugar para que cada um ponha vasinhos, jarrinhas, bonecada. Apenas algumas pessoas têm pequenas molduras ou desenhos feitos pelos filhos e arranjam maneira de os ter na sua secretária. 

Os vidros são espessos e não se ouve o barulho da rua mas hoje, tal devia ser a força da chuva, ouvia-se bem. O dia esteve muito escuro. Já que não posso respirar o ar da rua (por segurança e eficiência energética, não existem janelas que se possam abrir), ao menos gosto de usar a luz natural. Mas hoje não foi possível, tive que acender a luz logo de manhã.

Se estivesse em casa, com um casaco de malha quente, à lareira, a ler um livro, abençoaria esta chuva que alimenta as terras e lava as almas. Assim, ali, vejo a chuva que cai lá fora como uma mudança de cenário. 

Num dia tranquilo, sem muitas reuniões, o tempo passa com leveza: vejo e respondo aos mails, toca o telefone, atendo, faço chamadas, entram-me no gabinete, resolvo assuntos, ou vêm pedir-me opinião ou ajuda, ou vêm contar-me coisas não porque sejam relevantes para o trabalho mas porque têm necessidade de falar, de se fazer ouvir, de ouvir uma palavra de apreço. 

No dia a dia do trabalho, mais importante ainda que um ordenado adequado, o que as pessoas mais valorizam é o reconhecimento. E, no entanto, é o que mais escasseia.

Quando em ambiente informal, em que podem conversar à vontade, as pessoas falam nas suas mágoas; e, ouvindo-as, percebemos que as mágoas  residem, sobretudo, na falta de valorização que sentem por parte dos outros, fiz aquilo e nem uma palavra, faço aquilo com todo o cuidado e ninguém dá valor, fazer ou não fazer é a mesma coisa. Pelo contrário, se alguém elogia, que alegria, que orgulho. Uma palavra de estímulo e reconhecimento é a medalha que as pessoas ostentam com vaidade, uma vaidade justa e positiva. Ele disse que estava muito bem feito, ele disse que confia no que faço, que nem precisa de conferir. O bem que palavras assim podem fazer. Tão fáceis de dizer e, no entanto, tão raras. 

Parece que as pessoas estão mais despertas para a crítica negativa do que para a positiva, pelo menos as pessoas portuguesas. Quando trabalho com pessoas de outras nacionalidades constato como estão mais disponíveis para o elogio, para a demonstração de apreço. Os portugueses, em geral, não valorizam o que têm de bom nem demonstram, por palavras e actos, o reconhecimento pelo bom trabalho ou pela correcta atitude dos outros.

(No entanto, aqui neste meu blogue, não me posso queixar disso. Há leitores que me acarinham muito e a quem muito agradeço o apoio que me transmitem).

Mas, voltando ao dia de hoje na minha gaiola de vidro. Chovia muito e eu ouvia, ainda que com um som vagamente remoto, o som das bátegas de água na minha janela. Gosto de ver a água a escorrer nos vidros, gosto de ver as árvores lá em baixo a dançarem ao som do vento e da chuva. 

E então, estando eu a olhar a rua, vi uma gaivota. Não queria acreditar. Uma gaivota ali?




Levantei-me para confirmar mas ela desapareceu. Fiquei à espera, senti que voltaria. Voltou. Um voo largo. Debaixo de um céu carregado e de uma chuva intensa, longe do mar, num local onde só existem edifícios eficientes e assépticos, executivos e técnicos qualificados, uma inesperada gaivota voava, aparecendo e desaparecendo. Voava à volta da torre transparente. Longas asas brancas, peito ligeiramente pintado de mel e cinza, ali andava ela. Queria levar-me com ela, desafiava-me. Pudesse eu abrir uma janela e talvez ela entrasse para me levar ou talvez saísse eu a voar com ela. 

Estão a ler as minhas palavras e talvez estejam a pensar que é imaginação minha, que até aqui estive a falar a sério e que, ao chegar ao fim do texto, me deu para ficcionar, que resolvi enxertar aqui uma gaivota. Mas não. Estou ainda a falar a sério. 

Acho que há uma gaivota que me acompanha, esteja eu onde estiver. Há um pinheiro que é o meu alter-ego, como uma fantástica leitora uma vez me disse, e há esta gaivota que é, talvez, a minha consciência ou a minha alma.


*

Ondas de luz


Testei números
E experimentei fórmulas
Que na sombra do mundo imaginei.

Adivinhas no olhar de crianças,
Rastos de deuses,
Magias de loucos,
Restos de dias,
Sonhos de partidas,
Começos de auroras…

Peneiro no entardecer devagar:
Penumbras remotas
Ao fundo do mar
E ondas de luz
Na praia,
Livres as gaivotas…


Évora, 2012-09-24

José Rodrigues Dias

*

A música lá em cima é All that I wanted de David Fonseca.

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Hoje quero dar-vos conta de um anúncio. Isabel Millet, autora de um livro sobre Guilhermina Suggia de que aqui vos falei por ter gostado bastante, enviou-me a seguinte mensagem que vos transmito com o maior gosto:

Venho aqui dizer que o lançamento do meu 3º livro sobre Guilhermina "Rua da Alegria nº 665", será no dia 7 de Dezembro, Sexta-feira, às 18h00, na Escola de Música Vecchi Costa, Rua D. Luís I nº 19 - 1º andar. Fica perto de Santos. Vou passar um CD com gravações históricas de Suggia e duas entrevistas, uma de 1945 e outra de 1949. Espero que apareçam! Um GRANDE ABRAÇO!


Aqui fica endereçado o convite que muito agradeço e daqui envio a Isabel Millet os sinceros votos dos maiores sucessos.

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Antes de me despedir, convido-vos ainda a fazerem uma visita ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje, para assinalar os 77 anos da morte de Fernando Pessoa, tentei partir para abraçar o mundo; mas fiquei. As minhas palavras acompanharam a Mensagem ao som de Froberger que hoje se despediu do Ginjal.

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E agora é que é. Tenham, meus Caros, um belo fim de semana. 

Parece que vai estar frio. Por isso, não se esqueçam, abracem-se se tiverem a quem e/ou agasalhem-se porque o frio é bom quando estamos quentinhos. E tomara que todos se possam agasalhar (nestes dias de inclemência tenho tanta preocupação pelos mais pobres, que vivem em casas degradadas)