quinta-feira, fevereiro 09, 2012

O abúlico P do grupo dos PIIGS (ie, um elo pouco inteligente); Merkel, Alberto João Jardim e o piegas e complexado Passos Coelho; e, por falar nela: Merkel e Sarkozy, Dinner for One. E, para haver alguma coisa que se aproveite, o Staatsballet Berlin, a Maria Guinot, de Chirico e Richard Avedon (aqui há de tudo...)


Alinhado com o chefe Passos Coelho, diz Paulo Portas que nós não somos a Grécia e, como é seu hábito, contabiliza pelos dedos o número de razões que o comprovam. 


Nós somos quase a Irlanda, acrescentam em uníssono.

E todos, por aquelas bandas políticas, repetem esta mensagem. Querem demarcar-se dos gregos sarnentos, acham preferível colar-se aos irlandeses que são mais limpinhos.

Errado. Errado! Numa estratégia negocial (e o que eu gosto de negociar…?! vocês nem imaginam… ) o inteligente seria fazer justamente o contrário.

O nosso grande problema - e quando digo nosso refiro-me, por exemplo,  a Portugal, à Grécia, à Espanha, que também vai de mal a pior - é que os mercados ‘atacam’ quem lhes parece mais vulnerável. 

Uma vítima isolada é sempre uma vítima frágil.

  • [Abro aqui um parêntesis para voltar a recordar que os ditos 'mercados' se têm uma parcela racional e razoável, têm também um lado negro, funesto, especulador, ganancioso, apostando fortemente no incumprimento e isto porque têm fundos que ganham com isso e, por isso, fazem de tudo para que haja mesmo incumprimento, bancarrota – tal como agora há fundos que apostam na morte antecipada dos segurados. E se isto tudo vos parece necrófago e acham que estou a delirar, cliquem aqui e vejam com os vosso próprios olhos. E vamos ver qual o desenlace da tragédia grega em curso.)


Voltando à cold cow: Passos Coelho, como se tem vindo a demonstrar, é uma pessoa com algumas limitações* e as pessoas assim, para não se sentirem inferiorizadas, gostam de se rodear de gente mais fraca ainda, como é o caso, por exemplo, do grande guru da economia e finanças portuguesas, o engenheiro civil Moedas, do sonsinho trapalhão Gaspar, do atarantado Álvaro e outros que tais. Por isso, é gente que não pensa e que, de resto, também não tem experiência. Gente assim apanha-se à mão e isto é um perigo para nós, portugueses.

Tudo pequenino...? Ah isso não sei.
Mas que tem limitações, lá isso tem,
basta olhar-lhe para o fácies.

  • [Outro parêntesis, agora para falar das limitações de Passos Coelho. Há pouco vinha a ouvir na TSF o Proença de Carvalho e o Nogueira de Brito. A propósito do que Passos Coelho diz, nomeadamente, que os portugueses devem ser mais descomplexados e menos piegas, dizia o insuspeito Nogueira de Brito que como é sabido Passos Coelho tem algumas limitações a nível do vocabulário e que, portanto, usa palavras desapropriadas porque não conhece muitas mais]



Volto à cold cow: o que deveria ser feito era Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha, Itália, pelo menos estes (PIIGS, com muito orgulho e não inferiorizados), unirem-se, delinearem uma estratégia comum e, solidariamente, defenderem na UE uma solução conjunta que implicasse equilíbrio e desenvolvimento.

Os Gladiadores de Giorgio de Chirico

Havendo um bloco coeso de países em dificuldade, um bloco com o peso que este teria, de certeza que outro galo cantaria. A ver se andavam para aí de cimeira em cimeira atrás daquela galinha loura (galinha! estou a chamar-lhe galinha. Pensavam que a cow de que eu estava a falar era ela, jurem lá...) com cabelo cortado à tigela, filha de pai pastor luterano e educada no regime comunista - bela mistura como background - a ver se andavam anos neste faz que chove mas não molha, deixando a Grécia agonizar, deixando que Portugal para lá caminhe, deixando que a coisa vá piorando para toda a gente na Europa.

  • [Já agora por falar na Merkel: que não morro de amores pelo Alberto João é sabido e ressabido. Mas que admita que uma bardajona qualquer (e desculpem-me o linguajar...) ande por aí a dar lições de moral, apresentando como mau exemplo o que foi feito numa parte do território português, acho uma coisa intolerável. Onde é que pára agora o piegas do marido da D. Laura? Não os tem no sítio para vir a terreiro dizer àquela galinha intrometida para se ir meter lá com os da terra dela?]



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Bom, mas nem tudo é mau dos lados de Berlim. Não confundamos uma dirigente parva com uma nação.

Um exemplo? Vejam, por favor.



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E tenham, meus Caros, uma boa quinta feira!

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... e de bónus...

Audrey Hepburn por Richard Avedon

 Música*, por favor.

[* Já depois de ter publicado este post, voltei cá para incluir esta uma música, 'Silêncio e tanta gente' de Maria Guinot e agradeço à minha leitora Pôr do Sol que, no comentário à história de ontem a'o homem das mãos vazias' ma recordou; ficaria talvez melhor lá, ao pé daquele homem, mas apeteceu-me colocá-la hoje aqui - é uma voz dissonante na aridez dos temas destes dias de apreensão e isso é coisa que faz tanta falta. Precedi-a da belíssima fotografia de Avedon para ficar melhor acompanhada]

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Um homem de mãos vazias


Estava numa festa em vossa casa. Como sabes, não aprecio extraordinariamente este género de coisas mas, uma vez por outra, vá lá..., e gosto imenso da vossa casa, é grande, bonita, bem decorada. Estava muita gente, grande parte da qual eu não conhecia, muitas apresentações e eu logo esquecendo o nome, o rosto, a conversa, porque todas as conversas são de circunstância, e há muitos risos, muita desatenção e, consequentemente, muitas frases cortadas a meio.

Deambulava por ali, de máquina na mão (é uma desculpa para não ter que fazer conversa com ninguém), como sabes sou a fotógrafa do grupo, uns queixam-se, outros agradecem, alguns grupos formam-se para dizer cheese de boca aberta para a posteridade, outros fazem de conta que não querem, com a mão fingem que tapam o rosto mas riem, são os que mais querem, mas querem mais que isso, querem que se implore uma fotografia e eu uns dias faço-lhes a vontade, vá lá, deixa lá, estás óptimo..., outras vezes prego-lhes a partida e vou-me mesmo embora.

Eis senão quando vejo a porta da biblioteca meio fechada e, ao espreitar, vejo-te num cadeirão, não percebi se ensonado, se aborrecido. Às escondidas, fotografei-te. Estavas bonito, como sempre. Lá fora a tua mulher, sofisticada e quase intelectual, a fazer sala e a distribuir jogo e tu aqui, isolado. Intrigante. Mas ela já nos tinha dito que andas cansado, mal dormes, muitas viagens, muito stress, a crise, a bolsa, as imparidades, os accionistas, agora o fecho e apresentação de contas, tantas maçadas.


Depois afastei-me, voltei para a sala, entretive-me por ali. Até que me cansei de vez, estas coisas cansam-me sempre. Não fazer nada e estar sempre a sorrir cansa-me mais do que escrever de seguida durante dez horas ou conduzir reuniões tensas durante um dia inteiro, sem almoço.

Fui então até ao jardim. Fotografei flores, fotografei árvores, fotografei o vento a dar nas árvores, fotografei a minha sombra nas paredes. Ainda se ao menos houvesse crianças por aqui. Mas não, só adultos palradores e sorridentes.

E então reparo que te preparas para sair, és o dono da casa e vais-te embora, provavelmente é uma saída à francesa. Escondo-me e fotografo-te. Óculos escuros, um giraço, versace de alto a baixo (há bocado, na brincadeira, diziam à tua mulher que, vestido assim, até fazias lembrar o Sócrates mas ela, que é doce e conservadora, sorriu, abriu as mãos para esconjurar o mal e disse credo!) - vendo-te assim, quem diria que és um CEO stressado?  

Curiosamente, em cada mão levas uns livros e uns cadernos, coisa estranha. Fotografo-te. Sinto-me até ridícula mas não resisto (Life through a Lenz como a Leibovitz).

Depois metes-te no carro e fazes-te à estrada.



E eu, tomada sei lá por que impulso, meto-me no meu e vou atrás de ti. Conduzo até à Cidade Universitária. 

Intrigada, parei o carro longe do teu. Dirigiste-te à Reitoria e eu a pensar que estavas doido, num sábado, onde irias? Mas não, foste apenas espreitar. E eu de longe a vigiar-te. Depois desceste as escadas. Paravas, olhavas em volta. Fumavas, aspiravas o fumo, deixava-lo sair lentamente, os livros debaixo do braço, cachecol cinzento antracite da cor da camisola, cabelo revolto, a ficar grisalho. De longe via-te: alto, magro, quase etéreo, procuravas alguém, alguma coisa.

Temendo que me visses, eu obervava-te, tentando perceber se esperavas alguém, qual a direcção que, a seguir, tomarias, como faria para te acompanhar de longe, sem ser vista.

Uma mulher chegou ao pé de mim e perguntou-me se eu sabia onde era a Biblioteca. Expliquei, não percebeu, expliquei de novo  – e eu sem te querer perder de vista. E a mulher, chata, a insistir, se virava já, se só duas ruas à frente. Quase fui indelicada mas não queria perder-te de vista.

Com a minha máquina, objectiva de longo alcance, foquei-te de novo. Despenteado (era o vento, era o cabelo comprido). O teu ar preocupado, o teu olhar inquieto estava a deixar-me curiosa. Acendeste novo cigarro, a ponta do pé esmagava  o cigarro acabado de fumar, nervosismo nos movimentos. Olhavas o relógio, ajeitavas o monte de livros debaixo do braço, olhavas em volta, voltaste a subir as escadas, talvez para veres melhor.

De repente um carro aproximou-se, encostou, a condutora abriu a janela do lado do passageiro, debruçou-se e falou na tua direcção. Desceste os degraus a correr, aproximaste-te do carro, a minha objectiva sempre a seguir-te. Quando estavas perto e começavas a esboçar o movimento de espreitar pela janela do carro, desviaste-te como se alguma coisa te pudesse atingir e o carro arrancou em grande velocidade. 

(música, por favor)

Ficaste imóvel a olhar para o carro que se afastava. No chão, aos teus pés uma caixa e papéis que entretanto começavam a voar. Num instante todo tu estavas rodeado de folhas brancas que voavam em todas as direcções. Sentaste-te nos degraus, olhar perdido. Puxaste novo cigarro. As poucas pessoas que passavam olhavam intrigadas, algumas fizeram o gesto de tentar apanhar os papéis que voavam, mas vi que encolhias os ombros e as pessoas seguiam.

Fotografei-te vezes sem conta. Olhavas na direcção que o carro tinha seguido, olhavas absorto. Então reparei que disfarçadamente, como se fosse do vento, ajeitavas o cabelo e, de passagem, com as costas da mão limpavas o rosto. Tirei mais algumas fotografias mas logo parei.


Depois, um bom bocado depois, quando já não havia papéis a voar e quando o sol quase caía, puxaste a caixa para junto a ti. Com cuidado arrumaste nela os livros que tinhas trazido e afastaste-te sem olhar para trás. Ias de mãos vazias.

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[As fotografias retratam Patrick Dempsey, actor, e a música é 'Ne me quitte pas' de e por Jacques Brel]

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Uma bela quarta feira para vocês, meus Caros Leitores. Que a vida vos sorria.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

As fotografias de Sebastião Salgado, a Universidade dos Pés Descalços de Bunker Roy e o som de Natalie Merchant - e um programa de vida: não baixar os braços, lutar, inovar, crer, querer melhorar, querer viver uma vida digna, decente e feliz


Música, por favor.


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Defender que a vida deve ser um calvário, uma prova de obstáculos, uma sucessão de derrotas é do pior que há. É uma estupidez, é uma coisa mórbida.


A vida deve ser fácil, suave, cheia de sucessos, com as pessoas a gostarem uma das outras, a ajudarem-se mutuamente, leais, generosas, cada pessoa deve ter direito ao seu grande amor (ou a mais do que um), aos seus momentos de arrebatada paixão (se necessário for, intercalados por momentos de drama para acentuar ainda mais o calor da paixão), a vida deve poder ser vivida sem rupturas insuportáveis, sem tragédias, sem sofrimentos prolongados. A vida deve ser uma sucessão de realizações, deve proporcionar motivação, entusiasmo, alegria. A vida deve ser uma feliz procura de conhecimento, de experimentação, de descobertas surpreendentes e boas.

Sebastião Salgado com Lélia (que dizem que 'costura as suas imagens')

As pessoas com mais de sessenta (eu, se tudo me correr como desejo, hei-de lá chegar, e depois serei  septuagenária e, depois, por aí fora, até ser uma centenária bem disposta e atilada da cabeça – e façam o favor de perceber que isto sou eu a falar na brincadeira, não sou maluca ao ponto de pensar que a vontade tudo pode) devem concordar comigo pois, como já aqui o referi, as pessoas, à medida que têm mas experiência de vida, vão percebendo melhor o que é a tolerância e a felicidade. Mas os que são jovens devem achar que inalei qualquer coisa estranha (por exemplo o gás do riso – que levou a Demi Moore ao hospital, imagine-se uma coisa destas), que devo estar a flutuar algures num qualquer limbo bem acima da realidade.

Nada disso. Tenho os pés bem assentes na terra, movo-me em terrenos em que a racionalidade e o pragmatismo são indispensáveis.

Contudo, o que penso é o que escrevi e isso é todo um programa de vida.

Acredito que nos foi dada (pelos nossos pais – por quem mais havia de ser?) a possibilidade de vivermos e que é agora e só agora que deveremos usar os meios que temos ao nosso alcance para desfrutarmos essa experiência da melhor maneira possível. 

Índios Zo'e do Pará

Sendo supostamente dos poucos seres racionais à superfície da terra, porque nos haveremos de portar mais irracionalmente do que os animais das demais espécies?

Que não se pense que isso significa usar à labúrdia todos os recursos, espatifar com tudo à nossa volta numa insana luta hedonista - o prazer pelo prazer do prazer, como se não houvesse amanhã. Há amanhã para nós, para os nossos descendentes, para as gerações futuras e o que deveremos querer, de forma consistente e sustentada, é um mundo cada vez melhor em que as pessoas vivam em paz e harmonia entre si e entre si e a natureza.

Oração de agradecimento em Oaxaca, Máxico

O que isto significa é que pensar assim é sinónimo de:
  • não fazer da expiação, do sofrimento, do empobrecimento, do desemprego, uma prática política;
  • é não fazer da amargura e azedume uma forma de estar;
  • é não querer que a comunicação social se alimente de tudo o que é mesquinho, negativo, deprimente;
  • é querer que se divulgue o que é bom, belo, feliz e não, sistematicamente, o que é mau, horrível, angustiante;
  • é querer que a arte em todas as suas formas seja de divulgação obrigatória desde a mais tenra idade;
  • é querer que, nas escolas, se ensine os jovens a serem melhores cidadãos, a saberem lidar com o inesperado, a saberem conhecer-se, a serem lutadores, exigentes, a terem auto-estima
  • é ensinar, mas ensinar mesmo, filosofia, psicologia (a par da língua portuguesa, das matemáticas, de outras ciências, das demais humanidades, etc, etc .) pois o País precisa de gente com saber, com técnica – mas gente culta, informada, bem formada, que saiba pensar, que saiba lidar com os outros, que saiba vencer as suas próprias limitações, que perceba que há sempre mais para além do que já se sabe;
  • é ensinar a dar, é ensinar a receber, é ensinar a partilhar
  • …. e mais coisas neste comprimento de onda.

Sei que quem me esteja a ler e tenda para o pessimismo vai achar que isto é xarope e do mau, que isto poderia ser convertido num livro de capa azul e muitas florzinhas e borboletas, com a minha cara retocada, rosada e sorridente e, lá dentro, muitas fotografias do género, passarinhos, carinhas larocas, frases a bold e muita auto-ajuda.

Paciência. Podem fazer os sorrisinhos complacentes e superiores que tanto se me dá.

Sei por prática que isto é saudável e que é possível.

Se na mesma organização houver um sector que segue esta linha de conduta e um outro em que de cima vêm exemplos de derrotismo, de inércia, de rivalidade, as diferenças dentro de cada departamento são notórias. De um lado teremos pessoas motivadas, lutadoras, generosas, bem dispostas e, do outro, teremos pessoas abúlicas, desinteressadas, ressabiadas, improdutivas.

O País tem que sair da fossa em que se encontra e na qual parece que há quem queira que fiquemos enterrados, vivos.

Serra Pelada


Não podemos globalmente, como nação, expiar culpas que não são de toda a população, não podemos deixar-nos para aqui ficar sendo geridos por quem não sabe nada de coisa nenhuma, um governo que a única coisa que sabe fazer é obedecer cegamente a ordens, mesmo quando as ordens conduzem ao caos, à penúria e à desestruturação social como se vê que está a acontecer na Grécia.

Para clarificar o que penso: acho que, na situação em que estávamos, endividados por décadas de desequilíbrios estruturais, com os 'mercados' a atacarem-nos como cães esfaimados, com as taxas de juro a dispararem dia após dia e com as agências a não nos largarem as pernas, não podíamos ter deixado de recorrer a ajuda financeira nem podemos deixar de pôr em prática medidas de reestruturação e de contenção de gastos despropositados. Na altura em que li o memorando da troika concordei com grande parte do que li. Era um programa de racionalização bem feito. O drama é o prazo tão curto pois não se fazem ajustamentos destes em 3 anos, o drama é querer ser mais papista que o papa e desatar a fazer tudo e mais do que isso, com medidas avulsas e a correr, sem olhar aos danos colaterais ('custe o que custar' diz Passos Coelho numa bravata que lhe há-de, um dia, sair cara e depois se verá quem é o piegas) e, pior, muito pior que isso, o drama é não equilibrar esse plano com um outro de relançamento da economia.

O facto de olhar apenas para um dos lados da equação e à bruta, tem provocado todo este desequilíbrio suicidário.



O que há a fazer é ter um pensamento estruturado para o país, um pensamento baseado na confiança, na auto-estima, na motivação, no conhecimento, e pô-lo em prática de forma balanceada: racionalização de gastos por um lado e relançamento económico, por outro - e tudo acompanhado por políticas humanistas e de incentivo ao conhecimento.



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Peço agora a vossa melhor atenção para Bunker Roy e a sua notável Universidade dos Pés Descalços.


(Está legendado e dividido em duas partes - mas, por favor, tentem ver tudo)





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Tenham, meus Caros, um belo dia!

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(PS: Já o disse no título e penso que não oferecem dúvidas pois têm inegavelmente a sua marca, mas não é demais repetir: as fotografias, de uma sensibilidade tocante, são de Sebastião Salgado.)
  

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

António José Seguro e a Troika ou a irrelevância do ser; Vasco Graça Moura e o Acordo Ortográfico no CCB ou a irrelevância do assunto; António Borges mais um golden boy pela mão de Passos Coelho ou a defesa dos interesses; e June Tabor, e Annie Leibovitz e Ángel Mendonza para dar alguma graça a isto


1. António José Seguro falou e disse uma banalidade e isso é primeira notícia em todos os noticiários.

Um homem vulgar, com aspecto vulgar, que diz coisas vulgares - alguém me explica porque é que alguém, na plena posse do seu juízo, faz uma notícia sobre isto?

Diz ele que não concorda com algumas coisas do acordo da troika mas que o vai cumprir.

Tudo de uma irrelevância desconsolada. Quem é que quer saber a opinião dele? E como é que ele, em concreto, poderia não cumprir? 

O PS com este homem à frente não é nada. Numa altura em que seria premente que houvesse oposição de jeito, o que se tem? Este Tozé que tem cara de sobrinho de tias velhas e beatas, ou seja, nada.


2. Toda a santa semana passada se falou da atitude de Vasco Graça Moura relativamente ao acordo ortográfico. Falta de assunto, na mesma.

Sou leiga na matéria e, se opino, é na mera qualidade de utente da língua. A mim, tudo isto do Acordo Ortográfico parece-me coisa de gente desocupada. A mim, parecer-me-ia lógico a língua ir adquirindo novas palavras e que as novas se fossem ajeitando ao lado das antigas. Não me parece lógico que se estabeleça por decreto que a grafia passe a ser uniforme nos vários países, uma vez que nos diferentes países de língua portuguesa existem sotaques que dão leitura diferente às palavras. Uma vez que os sotaques não vão ser uniformizados, parece-me absurdo uniformizar a forma de escrever. Por mim, enquanto puder e enquanto não me sentir excêntrica, continuarei a escrever como sempre o fiz.

Quanto à atitude de Vasco Graça Moura, é-me indiferente, desde que não se gaste mais dinheiro por causa disso. 

Aliás, é-me também indiferente que Vasco Graça Moura esteja no CCB ou noutro sítio qualquer. Sempre que o PSD está no poder, vão buscá-lo para qualquer coisa. Mas acho que ele é competente, ao menos não nos deve envergonhar - e, nos tempos que correm, termos à frente do que quer que seja alguém que não nos envergonhe já é uma boa coisa.


3. António Borges foi repescado por Passos Coelho, vai supervisionar as privatizações que restam. Vai garantir que não fica pedra sobre pedra, que todos os interesses alheios sejam acautelados. Mas já não havia batalhões de gentinha a fazer isso? Era preciso ir gastar mais dinheiro, e não deve ser pouco, indo buscá-lo? Não há ministros, secretários de estado, directores gerais, adjuntos, assessores e o que mais por lá haverá para acompanhar isto? É necessário mais um golden boy? Santa paciência.


4. Em resumo, só tretas. Vê-se a televisão, lê-se os jornais e parece que não há uma ideia fresca, uma pessoa com palavras novas, nada. Só gente baça e velha a repetir cinzentices, só gente a papaguear-se mutuamente. 


5. Estou a ficar farta de tanta coisa pouca. Só espero é que, quando eu desfalecer de tédio, alguém esteja por perto para me amparar. Assim, se faz favor, tem que ser assim como abaixo se mostra, em grande estilo.

Kate Moss para a Vogue, por Annie Leibovitz


6. E que se chegue à frente a Senhora Dona June Tabor que por aqui tem poiso certo pois é invulgar (e eu abomino vulgaridades, banalidades, maldades mesmo que com sorrisinho ao canto da boca a fingir de moralidades - aqui só entra gente boa, diferente, especial, pode até ser gente doida que de doidos pacíficos eu gosto).

June Tabor & Oysterband perform Joy Division's 'Love Will Tear Us Apart' 


7. E, já agora, outro pedido: que, quando eu estiver linda, charmosa, sedutora, haja também por perto alguém que me fotografe e filme, para eu poder provar aos que pensam que eu sou uma chata - que passo a vida a maçar toda a gente com Passos Coelho, Relvas e Tozés, crises e troikas e mercados  e outras coisas do género - que, enfim... , tenho dias.

Carry e Mr. Big por Annie Leibovitz (who else?)

                                      Tão impossível a noite que não vinha contigo
                                      nem chegava por ti. Tão impossível,
                                      e tão lentos
                                      os seus dedos de faca arreganhando as minhas costas,
                                      destroçando as minhas costas,
                                      que não soube mais noite para além da luz dos teus dedos.

                                      [Noite de Ángel Mendonza in  criatura)


8. Vi-me aflita para aqui chegar até aqui, com a internet sempre a cair, um desespero. Mas, enfim, cheguei. Espero que o resto da semana não seja esta pastelice. 

E que, para vocês, meus Caros, a semana seja boa apesar de todas as circunstâncias. Divirtam-se!
  

domingo, fevereiro 05, 2012

O dia em que eu percebi, espantada, que estava viva

  
Música, por favor, está bem?


Conduzo há muitos anos e conduzo praticamente todos os dias, quer em ambiente de cidade, quer em estrada ou, mais frequentemente, em autoestrada. Gosto muito de passear de carro mas prefiro não ser eu a conduzir. No entanto, pelo menos durante a semana, que remédio.

Sempre receei ter um acidente. É raro o dia que não passo por um, pois frequento percursos que correspondem a zonas com grande incidência de sinistralidade.

Mas os anos foram passando e eu, felizarda. Até que, há cerca de dois anos, não escapei.

Ia a descer uma estrada com uma inclinação algo acentuada, em curva, estrada esta que conduz a uma rotunda muito movimentada, quando, logo no início, quando a estrada começa a curvar, ao reduzir e ao travar, o travão não produziu qualquer efeito. Carreguei no pedal, carreguei, nada, e o carro embalado por ali abaixo. Na aflição, ainda pensei mas estarei a carregar no pedal certo? e desviei o pé para o lado, senti o acelerador no sítio dele e não havia dúvida: o travão não estava a funcionar. Como o carro era daqueles cheios de electrónicas, não tinha travão de mão de puxar. O carro embalado por ali abaixo e eu a perceber que o desastre estava iminente.

A sensação é terrível. Não apenas a sensação de se perceber que se está a caminhar para o desastre mas a sensação em si de se conduzir um carro por uma descida, sem travões.

Durou segundos, eu agarrada ao volante a tentar que o carro não se despistasse, a tentar ainda travar com o pedal, estive até ao fim a tentar que aquilo produzisse efeito - mas nada.

Quando atingi a curva da qual se via a rotunda vi camionetas de carga a circular e pensei que me ia espetar numa delas. Pensei que se levasse o carro a tentar contornar a rotunda, com aquele trânsito e sem travões ia provocar um acidente do caraças (desculpem a expressão) e, ao entrar, desabalada, só pensei que o melhor era tentar atirar o carro para cima da rotunda. Tudo isto durou apenas uma ínfima fracção de segundos. Passei, nem sei como, pelas camionetas e não me espetei em nenhuma e, agarrando com força o volante, atirei-me mesmo para cima da rotunda.

Ao subir o passeio, que era alto, com a velocidade em que ia, senti um estrondo enorme, senti uma enorme pancada e, imediatamente, uma nuvem, que me pareceu de fumo, encheu o carro. Nesse instante vi que estava a ir contra uma coisa metálica enorme que estava no meio da rotunda e, naquele segundo, o que pensei foi que aquela chapa ia entrar pelo carro adentro e que poderia cortar-me a cabeça e que, portanto, poderia estar a viver o meu último instante com vida. Mas não havia nada a fazer, nessa altura o carro estava desgovernado, embora eu ainda tentasse controlar o volante. Então, nesse instante, o carro subiu para cima de uma coisa e imobilizou-se, quase de lado, entalado entre essa coisa e a construção metálica.

Durante um segundo fiquei imóvel a tentar perceber se aquela 'cena' tinha chegado ao fim e percebi que sim. Tentei abrir a porta, vi que abria. Tentei tirar o cinto, consegui. Apesar do carro estar todo inclinado consegui sair e, para minha surpresa, estava de pé e aparentemente boa. Pensei estou viva. Olhei as mãos a ver se via sangue mas não, nada. Confirmei em pensamento estou mesmo viva. Passado pouco tempo, as mãos, os pés e o peito haveriam de ficar negros mas, na altura, não tinha nada.

Imediatamente apareceram pessoas a correr de todo o lado, dos camiões, dos carros, toda a gente vinha saber se eu estava bem e toda a gente dizia que era melhor fugir pois o carro estava a deitar imenso fumo. No entanto, quando olhei, vi que o fumo não saía do motor mas de dentro do carro e que, portanto, o carro não devia explodir. Tinham sido os airbags que tinham rebentado. E eu estava calma, calmíssima, espantada por estar viva, por estar bem.

Só então percebi que o carro tinha embatido numa árvore que estava lá na rotunda, uma azinheira ou uma oliveira, não me lembro, sei que era daquelas que trouxeram do Alqueva, tinha-a deitado abaixo e tinha-lhe passado por cima, ficando o carro meio tombado, entalado entre a árvore que tinha ficado quase toda debaixo do carro e a dita peça escultórica metálica que ficou toda amolgada, como é bom de ver. O vidro da frente parecia uma renda fina, bastaria tocar-lhe para que se desfizesse em mil pequenos estilhaços, o carro todo amolgado dos lados e à frente.

E eu ilesa.



Entretanto, comecei a pensar em coisas práticas. Incapaz de entrar para dentro do carro, dada a posição em que ele estava, lá consegui, mesmo assim, cá de fora, encontrar o telemóvel, retirar a carteira, depois fazer telefonemas.

Passaram uns polícias para tomar conta da ocorrência e que me aconselharam a ir ao hospital para ser examinada, coisa que não fiz, e algum tempo depois, uns colegas foram buscar-me. O carro só foi retirado umas horas depois, com um guindaste, uma operação complicada que causou um enorme transtorno no trânsito; e foi declarado pelo seguro como perda total.

Durante uns dias mais, andei dorida das mãos, dos pés e do peito. Das mãos e dos pés deve ter sido da força que fiz para agarrar o volante, para travar, para agarrar o carro que eu sentia que fugia de mim, descida abaixo, uma sensação horrorosa; do peito, devido ao rebentamento dos airbacks, devido ao puxão do cinto de segurança e do impacto das pancadas. Mas tive uma sorte extraordinária.

Podia ter-me espetado contra um camião, poderia aquela coisa de chapa ter-me entrado pelo vidro, poderia ter-me magoado a sério, poderia ter ido desta para melhor - mas a sorte protegeu-me e saí ilesa. Percebi melhor o que é a sorte, aquela indizível (e invisível) força que nos desvia do que poderia ser uma desgraça e nos mantém a salvo; percebi a linha, tão ténue, que nos separa do nosso fim.

Recomecei a conduzir no dia seguinte mas o susto que apanhei deixou marcas. Durante cerca de um ano parece que tinha perdido a naturalidade da condução, andava sempre a verificar se o travão funcionava, odiava conduzir em descidas, especialmente em autoestradas em que os carros vão a grande velocidade. E ainda hoje, quando faço uma descida nessas condições, tento ir longe dos carros da frente, tenho um certo receio de ter que travar e não conseguir. Mas, enfim, passou e já quase não me recordo disso. 

Mas lembrei-me de vos contar isto porque ontem dei aqui com o clip da música que estava a tocar no momento do acidente e que nunca mais me tinha apetecido voltar a ouvir. É  o que acabaram de ouvir, 'Here's the tender coming' das The Unthanks. É uma música muito bonita e aqui estou, neste momento, a reconciliar-me com ela.

  Tenham um bom domingo, meus Caros, e apreciem a vida!

sábado, fevereiro 04, 2012

I'm a bird girl. Recebam estas minhas palavras que voaram até vós.


Música, por favor.

I'm a bird girl - Antony and the Johnsons

Chego com um vestido leve em fúcsia envolta numa longa écharpe preta mas não é para casa que me dirijo. Saturada de festas de sociedade, de palavras fátuas e sorrisos indestrutíveis, penso que só a água me poderá limpar de tanta vacuidade. 

Rente à água, respiro. Fecho os olhos. Respiro, reabro-os, hesito. Aspiro longamente, fecho os olhos, hesito. Pouso a écharpe na beira, descalço-me, uma última hesitação, uma última respiração. 

E então, lentamente, mergulho. Deixo-me deslizar devagar na vertical. Fico submersa. Sinto os cabelos a flutuarem e, depois, a descerem comigo. 

Woman under water by Annie Leibovitz

Deixo-me ficar. Limpa, livre. Abro os olhos. A água é azul e o meu corpo abandona-se. De braços abertos, soltos na água, quase como se estivesse reclinada, descanso, tão bom, que sossego, nem um sorriso forçado, nem um beijo forjado. Apenas eu no silêncio livre da água. 

Depois sinto que o meu corpo quer flutuar. Deixo que a água me traga à superfície, lentamente. Abro os olhos. Um vasto céu azul inunda-me o olhar. Está frio e eu flutuo na água fria, mulher livre, nadando na água azul.

A seguir saio, a água escorre pelo meu corpo. Respiro fundo, olho o céu. Ainda há um resto de sol mas está frio. Avanço devagar. Um pássaro passa riscando o espaço com o seu grito de liberdade. Olho-o. Dispo o vestilho molhado que se cola ao meu corpo, gelando-o. Procuro a écharpe de mousseline preta e, quando a encontro, envolvo-me nela. Continuo levada pela aragem fresca e limpa. Mais à frente está uma rocha grande suspensa sobre a ravina. Vou até lá e ali fico suspensa, respirando o ar puro apenas habitado por velozes pássaros, incertos habitantes. Sinto o ar frio e agora já azul escuro no meu rosto. Olho as copas das árvores, olho a montanha negra ao longe, reparo que ao fundo, algures no vale, um fio de fumo desenha ligeiros traços brancos no ar. A écharpe esvoaça em volta do meu corpo, que sensação tão boa.

Maureen Flemingpor Lois Greenfield

Aspiro o ar frio e silencioso, fecho os olhos devagar, avanço, livre e limpa, solto a vaporosa mousseline e prendo-a com as mãos, abro lentamente os braços e salto no espaço. 

E então começo a voar, o transparente tecido ondulando como um véu, como umas asas leves e belas, e voo, mulher livre atravessando os espaços. Uma grande ave de brilhante plumagem negra que desliza, que se vira, que plana no ar, liberta de peso, liberta de sombras.

Depois deixo que o vento me traga de volta e, satisfeita, saciada, pouso, arfando, sorrindo.

Maureen Fleming por Lois Greenfield

Só então regresso a casa. Visto-me, agasalho-me. Sento-me aqui, feliz, apaziguada. Fecho os olhos, respiro. Sou uma mulher feliz. Começo, então, a escrever-vos. E escrevo palavras que, de imediato, se soltam no ar, pequenas aves de transparentes plumas negras que atravessam a noite, livres, tão livres. Transportam a minha respiração. 

Deixem-nas pousar aí, perto de vocês, estão quase a sair do vidro, estão já aí por trás. Depois, quando aí pousarem, talvez no vosso colo, sorridentes, sintam-nas, ouçam como respiram as minhas palavras caprichosas que atravessam os ares para chegarem até vós. 

E agora fechem vocês os olhos. Estou quase eu aí, também, ao vosso lado. Fechem os olhos. 

Leah Stein por Lois Greenfield

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PS: Só agora me me ocorre que já nem tenho idade, nem está tempo para andar por aí a voar e, ainda por cima, com o cabelo molhado. Tomara não tenha apanhado um resfriado. Já agora, se puderem, vão preparando um chá bem quente para quando eu chegar, está bem? Obrigada. De lúcia-lima, se puder ser.

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Tenham, meus Caros, um belo sábado. E agasalhem-se que está um frio das sibérias.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

É a economia, estúpido! Manuela Ferreira Leite, Poul Thomsen, Carlo Cottarelli - todos dizem que é preciso abrandar a austeridade e relançar a economia mas Passos Coelho ainda não percebeu. E, para não nos afogarmos em tristezas, Joni Mitchell, a poesia de António Ramos Rosa e as mulheres de Jeanloup Sieff e Robert Mapplethorpe


1. Ar puro, por favor, preciso. Comecemos por ligar a música* para, então, prosseguirmos.



(* Obrigada P. R!)

 de JeanLoup Sieff


                       Mulher, tu cabes num soneto se o fizer perfeito e imperfeito
                       Se o abrir tanto como se abre o teu peito ao respirar
                       Com as tuas ancas balanças inseguras para a dança
                       Mulher tu não tens par para parar contigo
                       A tua dança não nivela entre os teus braços ao alto
                       Mulher amiga eu desisto do soneto não porque não o mereças
                         ....
                       se desisto é porque corres como um rio em raios de música
                       e na caixa simétrica de um soneto serias uma boneca branca fixa 
                                                                                                                     ou uma estampa


[Início de um poema inédito de António Ramos Rosa in Cultura ENTRE Cultura Nº 4, bela revista que recomendo]

..... ..... 

2. Peço agora a vossa licença por ir passar para um outro comprimento de onda. Quase sinto que vou conspurcar a leveza do momento anterior e devo confessar que estou aqui a vacilar sobre se o devo ou não fazer.

Não me apetece nada - mas acho que devo fazê-lo. Todas as vozes que se levantem são poucas e o pouco que faço é nada face ao que sinto que deveria fazer. 

- . -

2.a. É preciso ter muito cuidado com o poder nas mãos de pessoas pouco inteligentes.  

Quando há eleições que não se pense que, com o voto, se está essencialmente a punir o ente indesejado que lá está. Não, não se trata disso – porque o lugar nunca fica vazio. Quando se vota, está a escolher-se quem lá vai ficar.

Por isso, podia não se gostar de Sócrates mas dever-se-ia ter avaliado se Passos Coelho e respectiva turma não seria pior solução. Em meu entender, via-se à vista desarmada que era uma gente sem competência, sem experiência, sem cultura e, mesmo, com uma inteligência algo limitada. Mas agora está à vista o perigo que são.

Com ciência colada a cuspo, sem bases teóricas e sem prática, não fazem ideia do que andam a fazer. Como qualquer mau aluno que se preze limitam-se a copiar por aquele que acham que sabe e, com a espertalhice que aprenderam na Jota, para disfarçar que não sabem nada de coisa nenhuma, querem ainda parecer mais papistas que o papa. Querem que se pense que a troika ou a Merkel é que andam a copiar por eles. E então aplicam a suposta cartilha liberal  à outrance.

O que estão a fazer é a mesma coisa que um doente destituído de inteligência a quem dissessem que, para curarem uma doença, deveria tomar 1 comprimido de 8 em 8 horas e o doente, por sua alta recriação, desatasse a tomar 1 comprimido de 2 em 2 horas para fazer mais efeito e mais depressa. E, burro, ao ver que andava com vómitos, dor de cabeça, a desmaiar 5 vezes por dia, com problemas de visão e queda de cabelo, resolvesse que tinha era que tomar uma dose ainda maior e passasse a tomar de hora em hora, e que, quando já mal se levantasse da cama, concluísse que tinha era que os tomar em contínuo, e pusesse um balde de comprimidos ao lado da cama para engolir um de minuto a minuto. Nem mais. É isto que está a acontecer por cá.

Se tiverem curiosidade, recomendo a leitura integral do texto publicado no blogue do FMI da autoria de Carlo Cottarelli, do Departamento de Fiscal Affairs do FMI. Aqui.


Diz Carlo Cottarelli que os ajustamentos fiscais para combater a crise da dívida pública devem ser graduais e seguros. Querer regularizar a situação num período muito curto vai inibir o crescimento, ou seja, na prática, vai impedir a recuperação. Salienta que os mercados não gostam de dívidas muito elevadas mas ainda menos gostam de fracos crescimentos.

Refere a sua preocupação com o que está a acontecer em alguns países da Europa que não estão a perceber isto. 

Isto mesmo disse Manuela Ferreira Leite. Isso mesmo disse Poul Thomsen que diz que se está a ir depressa demais no ajustamento, que será necessário abrandar. Um pouco por todo o lado, as mais insuspeitas vozes clamam contra o que está a ser feito.

Só Passos Coelho e respectiva entourage não percebem isto. Todos os dias fecham mais empresas, cada vez mais ordenados em atraso, cada vez mais gente sem dinheiro para se tratar, cada vez mais crianças com fome nas escolas, desemprego e mais desemprego - e esta gente persiste. Acham que há é que sangrar ainda mais a população. É demais. É um perigo gente assim à frente do País.

Não vos maço mais com isto mas aconselho a leitura do artigo. Está claro e bem fundamentado.


2.b. Portugal precisa urgentemente de um programa de crescimento.

Um programa de crescimento não é antagónico de austeridade. Deve haver combate ao consumo disparatado, aos gastos desnecessários, ao despesismo, ao investimento em coisas que não servem para nada.

Mas deve haver um programa transeuropeu de crescimento - especializar o desenvolvimento por regiões. Portugal, por exemplo, pode apostar forte nas indústrias ligadas ao mar (com tudo o que isso implica em volta, e a montante e a jusante, desde a formação, investigação, até às indústrias complementares) ou indústrias ligadas a outra coisa qualquer que se identifique como viável e interessante. E, identificando isso, deve começar a atrair e a fomentar a instalação de tudo o que dê corpo a essa estratégia. E deve fazer isso com pés e cabeça numa estratégia consistente ao longo do tempo, dure o tempo que demorar.

Dir-me-ão que não há dinheiro para isso.

Há. Há sempre dinheiro quando se tem um projecto viável. Dinheiro é o que não falta: podem ser investidores não europeus, podem ser fundos que a Europa disponibilize, pode ser uma realocação diferente de recursos públicos (se apostarmos na actual estratégia de miserabilismo, grande parte dos recursos vai para subsídios de desemprego, subsídios de apoio à subsistência; há menos gente a descontar porque há mais gente a ganhar menos e mais gente no desemprego que, em vez de descontar, recebe. Numa estratégia de crescimento os recursos são alocados numa perspectiva multiplicadora.)

E o que se precisa é que a economia funcione. É vital que se volte a ligar o motor económico. 

Ora, uma economia a funcionar passa por um comprar a outro, o que vende recebe dinheiro e vai comprar a outro e assim sucessivamente. Havendo retracção, um não compra, o outro não vende, e o dinheiro deixa de circular, a confiança perde-se, a dívida aumenta. 

Mas quero voltar à minha afirmação ali de cima que vos pode ser soado polémica – a de que dinheiro não falta.

Ora bem. A China, o Brasil, Angola, por exemplo, são casos que conhecemos muito bem de investidores que precisam de ensopar a sua liquidez. Grande parte das nossas maiores empresas já estão na mão deles. E há países pacíficos do médio oriente que também nadam em dinheiro e procuram bons investimentos.

Ora podem consegui-lo por abdicarmos da nossa soberania, vendendo-lhes as nossas empresas estratégicas.

Mas uma outra coisa, bem diferente, é negociar contratos numa outra base e não vou aqui alongar-me a identificar as diversas modalidades. Mas, basicamente, há uma diferença de monta entre mostrar que se está de calças na mão ó tio, ó tio e outra, oposta, é dizer ‘tenho aqui um projecto interessante e andamos à procura de um parceiro’. Read my lips.



Em suma, esta situação que atravessamos, que é errada na teoria e na prática, está a conduzir Portugal ao beco em que a Grécia está metida. Portugal, após alguns meses de governação do bando Passos, Relvas, Gaspar, Moedas está hoje muito pior do que antes. E o grave é que eles ainda não perceberam. 

. &.

3. Nova operação de purificação do ar. Música de novo, por favor.


(Thanks again. P. R.)

Lisa Lyon por Robert Mapplethorpe


                        O poeta que canta a tua graça
                        não poderia chamar-te uma leitora anónima
                        (...) 
                        Se não conhecesse o teu andar
                        e os teus gestos vivos,
                        perdida noutro século
                        azul e cintilante como uma estrela
                        ter-te-ia perdido, minha amiga,
                        nem poderia sonhar contigo!


                       [Excerto de um poema inédito de António Ramos Rosa in Cultura ENTRE Cultura Nº 4]

....

E vocês, meus leitores, alguns anónimos, que estão aí, algures no mundo, não me percam nem deixem que eu vos perca. E permitam que eu sonhe convosco.

E tenham, meus Amigos, uma bela sexta-feira.
  

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Agent Provocateur, a lingerie de luxo; Dita von Teese, a dama do burlesco; Pina, a feiticeira da dança - a seguir ao pôr-do-sol sobre o Tejo


Há pouco quando o sol se pôs no Tejo, o Bugio ao fundo, uma visão de nos fazer ajoelhar perante tanta beleza

Meus amigos, hoje cheguei muito tarde a casa, logo que pude vim para aqui, passei fotografias para o computador, depois estive a responder aos comentários, a seguir coloquei uma fotografia no Street Photo, depois passei para o Ginjal  e escolhi uma música de Gershwin, depois um poema da Tatiana Faia - uma menina de Lisboa, nascida em 1986, que é uma poeta que nem vos digo nada - depois escolhi mais uma fotografia e escrevi um pequeno texto e, agora, já passa da 1 da manhã, tenho que me levantar cedo, (como de costume, ou melhor: mais cedo ainda, porque vou apanhar pessoas que não têm transporte devido à greve de transportes), e estou aqui completamente perdida de sono, muito cansada mesmo - ou seja, hoje não estou capaz de escrever mais nada. Desculpem-me.

Mas, ainda assim, para que a vossa vinda não tenha sido totalmente em vão, aqui vos deixo umas distraçõezitas, coisitas inocentes, inócuas, educativas.

A propósito da notícia que correu sobre o gosto de Michelle Obama pela marca de lingerie Agent Provocateur, aqui fica um pequeno filme com uns ensinamentos sempre úteis. Não é a Paula Bobone mas é a Paz de la Huerta, senhora também da alta sociedade como verão:



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E como isto da lingerie é como as cerejas, por lingerie lembrei-me da Dame du Burlesque Dita von Teese e, assim sendo, escolhi um dos filmezitos mais adequados a todas as idades (a maior parte é para maiores de 18 e este blogue, como é sabido, é um blogue de família):



<>

Ok, aceito. Há muita gente que não aprecia o género, eu sei. 

Então, para os que são atilados e intelectuais, quiçá até para alguns economistas sisudos e preocupados com a crise, ou para os professores que têm que manter sempre arte e cultura em estado puro na alma, ou para os que andam cansados de tudo e já não conseguem ter paciência para meninas que têm a mania que são giras, aqui vos deixo uma dança do melhor que há, Lillies of the Valey, música de Jun Miyake, coreografia de Pina, por Wim Wenders. Desta vão gostar, garanto, é linda:


E por hoje não dá mais. Sorry. Se amanhã não escrever nada, já sabem, é porque caí aqui agora a dormir e assim, ferradinha, vou ficar durante 48 horas de seguida que é aquilo de que estou mesmo a precisar.

Tenham uma boa quinta feira, meus Amigos. Estamos quase no fim de semana!
  

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Gap analysis: ser a mulher ou o homem que se gostaria de ser; fazer com que o companheiro(a) se aproxime do que desejaríamos; usar as palavras como gostaríamos; viver na casa onde nos sentiríamos melhor. E Madeleine Peyroux com Dance me to the end of love

 
.. Sobre as palavras ..


Palavras descendo do cérebro, estudadas, pausadas. Ou pousadas nas mãos, hesitantes. Palavras arrumadas dentro de gramáticas e acordos, palavras submissas, bem comportadas, medianas, correctas, muito lavadinhas dentro de caixinhas perfumadas onde se arrumam as boas intenções, as boas acções, as boas orações, palavras pensadas, moderadas, comedidas.


Palavras irreverentes, truculentas, saltitonas, esbracejantes, com vísceras, sexuadas, exaltadas, adormecidas, de punho erguido, de bandeira na mão, palavras com olhar, palavras com bocas molhadas, palavras excessivas, palavras irreflectidas, apaixonadas. Palavras loucas, palavras tensas, palavras com luar, palavras com luz.


.. Sobre as mulheres ..

Princesa Ira von Furstenberg por Richard Avedon
Aqui não por ela, mulher de vida assaz interessante, mas pela imagem em si,
mulher etérea e sonhadora

Mulheres discretas, tímidas, inseguras, mulheres virgens. Mulheres tristes, nervosas, exasperadas, descrentes, sempre de calças ou com vestidinhos de meia idade, com cuecas da avó, sempre vítimas, sempre incompreendidas, sem caminhos, metidas em becos, sem pinturas, naturais, ecológicas, sóbrias intelectuais, mulheres que acolhem um ardente vulcão que ignoram, só cuidando das cinzas. Mulheres que choram em silêncio. Mulheres que têm medo de mudar a cor do cabelo, de corte do penteado, que têm medo de ousar, que têm medo da opinião dos outros. Mulheres que têm medo de dar opiniões, que têm medo de dizer que não, que têm medo de dizer que sim.


Catherine Deneuve por Helmut Newton

Mulheres descontraídas, provocantes, sedutoras, irrequietas, doidas, crianças, carnais. Mulheres que gritam, que choram alto, mulheres que se afogam em lágrimas e logo a seguir sacodem o cabelo e saem felizes, para conquistar a rua. Mulheres vistosas, alegres, descendo perfumadas as ruas, conversando do alto dos seus saltos de agulha. Saias rodadas que esvoaçam quando a aragem está de feição. Decotes rentes em blusas transparentes, decotes profundos em vestidos opacos. Mulheres, tais como Michelle Obama, que gostam de usar lingerie ousada (nota: a Casa Branca desmentiu a notícia, admitindo-se que os gastos loucos de que se fala possa ser manobra publicitária da marca Agent Provocateur). Sorrisos subtis, risos descarados. Mulheres que lêem, que escrevem, que se expõem, que vão à luta.


.. Sobre os homens ..

António José Seguro - apenas a título de exemplo, talvez injusto.
Poderia ser outro mas a preguiça deu-me para o escolher a ele... Sorry Tozé.

Homens discretos, cinzentos, sorrisos apagados, que só gostam de falar de futebol, maçadores, homens que sabem tudo e falam com ar blasé, superiores, cansados, ou burocratas convictos, ou com roupa mais monocórdica que a própria voz, homens sem rosto que se recorde, sem galanteios, sem palavras irregulares, homens descrentes da vida, que teriam sempre feito melhor mas algum fantasma os impediu, ou homens que só descobrem as portas depois de baterem nelas com a cabeça, homens vulgares, que não deixam rasto, que não gostam de falar, que não gostam de rir, que não gostam de se ajoelhar aos pés de uma mulher, homens mesquinhos, reverentes, homens que pensam em tudo antes de fazerem qualquer coisa e que, mesmo assim, não fazem nada de jeito, homens que sabem tudo, percebem tudo, criticam tudo mas que nunca aparecem com uma deia nova, homens palermas, arrumadinhos, que não deixam uma marca.

Clive Owen - mas, felizmente, podia ser qualquer um de muitos

Homens livres, homens de passada larga, de sorrisos abertos, de olhar malandro, homens que têm dúvidas, que pedem ajuda, que gostam de palavras, que arriscam, que se enganam, que recomeçam, que se levantam, que olham para cima, que gostam de rir e fazer rir, que não sabem o nome de todos os livros, muito menos o nome de todos os autores, que não fazem citações à toa, que não agridem, que têm ombros acolhedores, que têm mãos generosas, que apetece despir para ver o interior da roupa e o que se esconde por debaixo dela, homens simples, homens de vistas largas, homens desformatados,  capazes de dar um murro na mesa, capaz de saírem porta fora, capazes de estender a mão, de dar um abraço, homens que olham de frente, que dão o peito as balas, homens livres.

.. Sobre as casas ..

Fotografia retirada da net, fonte desconhecida

Casas escuras, de portas escuras, de carpetes escuras, de quadros pequenos e convencionais no alto da parede, de molduras desengraçadas e clássicas muito arrumadinhas, casas sem espelhos, sem almofadas, casas com móveis altos, escuros, com bibelots caros, porcelanas sem história, bibelots muito centrados ou cadeirões à três quartos, dispostos com muita precisão, ou cortininhas muito lindas, ou colchas muito clássicas, muito esticadinhas, casas sem vida, sem uma partícula de pó, sem uma coisa fora do sítio, casas mal arejadas, casas descoloridas, frias, inertes, casas caladas, obedientes, funcionais, serviçais. Casas com estantes escuras com os livros muito arrumadinhos, de seguidinha, muito direitinhos. Casas sempre prontas para receber visitas. Casas chatas, tristes.


Até tenho vergonha de confessar...

Casas de portas brancas, janelas largas, luz a entrar à vontade, tapetes coloridos, lãs, sofás coloridos, almofadas às cores e aos montes, cortinados inesperados, coloridos, bibelots imprevistos, coisas com história, coisas desarrumadas, casas cheirosas, com cheiro a oceano, a ‘under a fig tree’, a musgo, casas com quadros grandes, coloridos, disparatados, casas com bonecas às cores rodando no ar, casas com livros por todo o lado, nas estantes e fora delas, casas com espelhos que reflectem a luz, que reflectem o céu, casas com molduras de toda a espécie e feitio, com música, com echarpes onde menos se espera, com muitos sapatos altos, com objectos que acompanham gerações, com caixinhas de música, ampulhetas, perfumes, frascos de perfumes, casas com vida, casas felizes e livres.


Jogo

Claro que o que escrevi são, digamos assim, características de situações em pólos opostos, algumas, de certa forma, fantasiadas ou extremadas. Na realidade nada é tão preto ou tão branco. Outras características haverá que não mencionei. Complete-as o meu Caro Leitor. A seguir, faça agora o meu Caro Leitor o seguinte: abra um documento (em word, ou excel, ou mesmo em power-point) e para cada coisa ('as minhas palavras', 'a minha casa', 'eu', 'o meu caro ou a minha cara metade') vá copiando e colando numa coluna aquilo que acha que se lhe aplica (o chamado as is) e ao lado, noutra coluna, aquilo que gostava que se lhe aplicasse (o to be).

Da confrontação desse ‘apanhado’ resulta a evidência das diferenças e é a isso que chamamos, nas empresas (quando fazemos isto para coisas mais maçadoras), o gap analysis.  Ficará assim identificado o conjunto de alterações a que deverá proceder para ser aquilo que gostaria de ser ou para viver no ambiente em que gostaria de viver.

No caso de ser homem pode usar o parágrafo dos homens para identificar o percurso transformacional que deverá empreender para si próprio. Mas pode fazê-lo também para o tema das mulheres, pensando na sua ‘companheira’ para lhe mostrar as diferenças entre a forma como a vê e como gostaria que ela fosse.  Idem, obviamente, no caso de ser mulher.

Com as diferenças que encontrar em relação à sua casa pode depois empreender um programa de alterações do tipo ‘querido mudei a casa’ e fazer aquela reforma que há tanto tempo lhe apetece.



Mãos à obra. É tempo de mudar. 

A vida é curta, use-a ao máximo. O tempo foge, use-o da melhor maneira possível.



(Para uma pessoa muito especial para mim - que não dança... mas a quem eu desculpo tudo, ou melhor, quase tudo)


E tenham um bom dia! Que seja o primeiro dia de uma nova, longa e muito feliz vida!