quarta-feira, janeiro 18, 2012

Concertação Social, Legislação Laboral, Competitividade, UGT - mitos e tretas e, se me permitem, a minha solução para a crise (não brinco eu serviço, eu). E, de brinde, um pouco de l'air du temps


A parvoíve é tanta que se torna fastidioso enunciar.

Primeiro, o importante, para salvar a economia, era baixar a TSU: lembro-me de um debate entre Passos Coelho e Sócrates, este último descrente e Passos Coelho, fundamentalista e tonto, a querer que Sócrates dissesse ali mesmo, naquele instante, quanto ia baixar, se era 4 se 8%, coisa que Sócrates obviamente evitou responder.

Nessa altura, escrevi aqui várias vezes, demonstrando o absurdo que isso seria, prejudicando seriamente a já de si débil sustentabilidade da Segurança Social (em sentido lato), e não acrescentando nada à competitividade da economia. Nenhuma esperteza da minha parte, apenas aritmética. Felizmente a medida foi abandonada. Um dos grandes cavalos de batalha de Passos Coelho caíu, portanto, por terra.

Eis senão quando algum esperto teve a ideia peregrina de substituir a tontice da descida da TSU por outra tontice, a subida do horário diário de trabalho em meia hora. Também aqui tive ocasião de me pronunciar. Não leva a lado nenhum e só vem causar constrangimentos práticos de vária ordem. Meses de desgaste e negociações improdutivas à volta desta parvoíce que a ninguém agradava, nem sequer aos patrões. Caíu, é claro.

E ontem, depois de muita conversa e de cedências por parte da UGT, eis que lá chegaram a acordo em sede de concertação social.

Aqui chegados tenho que fazer uma declaração e peço desculpa aos que a vêem pela segunda vez pois já não é a primeira vez: nunca fui sindicalizada, sempre me incomodei com as posições da CGTP que, mais que uma agenda pró-laboral, tinha uma agenda política contra-o-poder, qualquer que ele fosse; nunca, nas legislativas votei no PCP (muito menos nos partidos à esquerda deste) – mas já votei PC nas autárquicas; na maioria das vezes votei PS (e sempre na lógica do O’Neill: não me apetece mas voto PS – e, se o fiz, foi sempre com a consciência que seria o menor dos males); mas também já votei no PSD e, nas europeias, no CDS. Ou seja, quando tenho que votar, em consciência, analiso os objectivos e as condicionantes face à oferta partidária e, geralmente contrariada (porque a oferta me parece quase sempre aquém das necessidades), lá faço a minha escolha.

Ou seja: não tenho qualquer costela sindicalista ou esquerdista. Também não me revejo no estilo apocalíptico de Medina Carreira.

Mas quero aqui dizer que acho que todas estas medidas de que se vai ouvindo falar, tais como estas grandes e memoráveis alterações na concertação social, são pouco mais do que tretas.

Em minha opinião, nada daquilo resolve o que quer que seja em relação aos problemas endémicos do país e penaliza inutilmente os trabalhadores. 

O país não é competitivo porque lhe falta uma estratégia de desenvolvimento -  e esse é o problema,  o grande problema.

Quem está mais por dentro dos meandros da gestão, conhece certamente a metodologia dos Balanced Scorecard. Uma estratégia, qualquer que seja, pressupõe que se defina um objectivo global e que se perceba que assenta basicamente em quatro pilares: o do mercado, o dos processos, o financeiro e o do conhecimento. Isto aplica-se na gestão de empresas, de projectos, de organizações de qualquer tipo e, porque não?, à gestão estratégica de um país.

Ou seja, trocando por miúdos: em primeiro lugar, temos que encontrar qual o objectivo que, a partir daí, vamos perseguir (vamos supor, de uma forma muito simplista:  ter um crescimento anual sustentado ao longo dos primeiros 5 anos, nunca inferior a um ponto percentual acima do valor da inflação e, nos 5 anos seguintes, nunca inferior a 2 pontos percentuais acima do valor da inflação ).

A seguir, tem que se definir o que temos que fazer para o alcançar, em cada uma das quatro vertentes.

Por exemplo, na vertente Mercado:  junto à orla costeira apostar no sector Mar (desenvolver pescas, aquacultura, investigação marítima, bio farmacêutica e cosmética marinha, alimentos baseados em produtos do mar, etc, etc) e, mais no interior, apostar no sector Moda (confecções, calçado, malas, tecelagem, etc) e junto às universidades, apostar no sector Conteúdos Multimédia (aplicações para iPads, jogos para computador, para telemóveis, etc, etc, etc) e por aí fora.

A seguir na vertente Processos: então se vamos apostar naqueles sectores, vamos ver o que temos que fazer. Por exemplo: construir barcos, fabricar equipamentos para os navios, equipamentos de monitorização de parques de aquacultura, fabricar ferramentas, fabricar fibra de vidro para não sei o quê, etc, etc e o mesmo para os restantes sectores a desenvolver.

A seguir na vertente Financeira: então se vamos ter aquelas fábricas e aquilo tudo, de quanto dinheiro vamos precisar e onde vamos arranjar esse dinheiro, e qual o retorno esperado para vermos a viabilidade dos investimentos.

Finalmente na vertente Conhecimento: se vamos fazer aquilo e se vamos precisar de fazer fábricas, programar, apostar na moda, etc, etc, de que recursos humanos vamos precisar – engenheiros mecânicos, engenheiros informáticos, engenheiros têxteis, pessoas que saibam de design, pessoas de marketing para divulgar junto do mercado, pessoas que saibam de vendas e compras em mercados internacionais, juristas de direito comercial em contexto internacional, etc, etc. – e vamos preparar uma estratégia ao nível do ensino, da formação profissional, e, uma vez que tudo isto é para melhorar a vida das pessoas e porque, pessoas felizes e motivadas produzem muito mais, vamos parar de lhes atentar o juízo legislações laborais, aumentos de impostos e o escambau, etc, etc, etc.

A seguir, para cada vertente, vamos fazer um planeamento articulado, calendarizado, estabelecendo parâmetros de monitorização para garantir que a coisa avança coordenada e alinhada em todas as frentes, ao longo de todo o período de implementação da estratégia.

E vamos atribuir responsáveis a cada acção. E, e, e...

... Enfim, não vou alongar-me mais mas, mais coisa, menos coisa, é assim se constrói uma estratégia.

Não se trabalhando assim, anda-se aos bochechos a fazer coisas desgarradas que não levam a lado nenhum. Chegam uns e desfazem o que os anteriores fizeram, depois inventam umas flores, dão-nos música, manipulam a nossa opinião, fazem um foguetório, depois descarrilam e são corridos; a seguir vêm outros e reiniciam o ciclo. Ou seja, um passo em frente, dois para o lado e um para trás.

O País sem sair do mesmo sítio. 

E, cada um que vem, arranja uns técnicos de comunicação que criam umas parangonas, depois dão entrevistas e a comunicação social vai atrás como é o presente caso da grande festa do acordo da concertação social. E nunca se vai ao fundo da questão. E o fundo da questão é que isto tem que ser visto numa lógica de crescimento equilibrado, seguindo ordeiramente uma linha de rumo que articule as várias vertentes da estratégia, e tem que ser feito com inteligência, experiência, competência, determinação, honestidade (sobretudo intelectual), humanismo.. 

Outro aspecto que aqui quero referir.

Um dos grande problema de Portugal é que tem que importar quase tudo o que consome e pouco tem para exportar face ao que importa. Ora estamos a falar de ‘coisas’,  não de serviços.

Ao falarmos de coisas, e salvo indústrias como as de conteúdos ou coisas do género, estamos a falar de indústria transformadora, com fábricas ou máquinas que transformam matérias primas em produtos acabados. Ora, de forma geral, na indústria transformadora, o peso dos custos com pessoal não é o que tem maior expressão. Talvez represente no máximo 20% (há quem fale em pouco mais de 15%). Ora, variações como 2 ou 3 dias a mais de trabalho, redução de custos de trabalho extraordinário, são casa de decimais de pouca coisa.

O que é que tem peso expressivo na indústria transformadora? A energia eléctrica, os custos logísticos, o IRC (aliás, tal como todos os impostos em Portugal, que são insustentavelmente altos). E onde é que, para além destes factores, interessa optimizar margens? Na boa negociação nas compras, na racionalização de operações para evitar desperdícios, redundâncias, numa boa negociação de vendas, valorizando o produto, etc. Ou seja, relevante mesmo para além daqueles grandes factores exógenos à gestão da empresa (energia, logística e impostos), é a gestão, é haver boa gestão.

Andar a insistir no factor trabalho como se fosse por isso que o país não é competitivo é não perceber patavina do que é a economia real, é conversa de professores, de gente de gabinete ou de gente mal intencionada.

Por isso, toda esta conversa à volta da concertação social é uma treta, uma treta!

.....

Bom, isto está maçador, não está? Mas apeteceu-me dizer isto, que é o que penso. Estou farta de tanto ruído, tanto fala-barato, tanta parvoíce. O país definha, empobrece, marca passo, o desemprego a aumentar, a recessão a agudizar-se e toda a comunicação social de volta de uma coisa que não aquece, nem arrefece.

Enfim.

Para tentar introduzir aqui alguma leveza, permitam que vos mostre imagens que trazem algum charme e beleza a estes dias tão cheios de coisas cinzentas. Já agora: não gosto muito dos perfumes Nina Ricci, acabam por ficar um bocado intensos e enjoativos, pelo menos na minha pele. Como é sabido pelos que costumam ler-me, eu sou toda Chanel. (... e, como vêem, pode ser-se toda Chanel e, simultaneamente,  proleta - ... que é o que eu sou, uma humilde assalariada)













Cherchez la femme, digo eu aos homens; cherchez l'homme, digo eu às mulheres.

E a todos: que sejam muito felizes, meus amigos.


terça-feira, janeiro 17, 2012

Consta que o braço hacker das Produções Fictícias está a entrar nos computadores dos ministérios e que o que estamos a presenciar é fruto disso - o que é quase tão mau como apanhar com um gato na cabeça.


Existe em matemática, mais concretamente no ramo que se ocupa do estudo das probabilidades, uma ‘lei’ que rege os acontecimentos improváveis. Designa-se Distribuição de Poisson e aplica-se a fenómenos raros. Por essa razão, a esta distribuição chama-se também a lei da morte por coice de burro. Já aqui falei dela uma vez. Tem este nome porque foi demonstrada pela primeira vez com o número anual de mortes por coice nos regimentos prussianos de cavalaria.

Vou exemplificar um caso de aplicação: qual a probabilidade de, numa discussão conjugal, o marido agredir a mulher pegando no gato de estimação e atirando-lhe à cabeça?

Probabilidade ínfima, diria eu.

E qual a probabilidade de, vendo o gato a vir pelos ares na sua direcção, a mulher ter reflexos suficientemente rápidos para se desviar a tempo, seguindo, pois, o gato a sua trajectória que, por sinal, é na direcção de uma janela? 



E qual a probabilidade de a janela estar aberta e, de facto, sem obstáculos pela frente, o gato voar pela janela? Ínfima, diria eu.



E qual a probabilidade de uma senhora de 85 anos ir a passar na rua justamente no momento em que o gato voou e apanhar com ele na cabeça? Ainda mais ínfima, diria eu.



Resumindo: qual a probabilidade de uma senhora de 85 anos ir parar ao hospital e ter que ser posta com respiração assistida não por maleitas próprias da idade mas sim devido a um traumatismo craniano resultante de levar com um gato em voo picado desde um 4º andar? Ínfima.

Pois é… mas aconteceu em Belgrano na Argentina. História absolutamente verídica.

É o caso em que se aplicam aqueles irritantes ditados populares, ‘para morrer basta estar vivo’, etc, etc.

Mas que às vezes acontecem destas coisas improváveis, lá isso é. Certamente aqui aplicar-se-ia na perfeição a distribuição de Poisson se quisessemos prever quantas pessoas têm que passar na rua até que novo gato aterre a cabeça de uma delas.

{...}

Mas às vezes os matemáticos enganam-se. 

Então não é que por cá aconteceu uma coisa igualmente bizarra e improvável? A ser verdade, é uma coisa rara, de pasmar. Ora ouçam.

Sabem os meus amigos que ‘eles andem aí’… os hackers… aquelas diabólicas criaturas que invadem as redes informáticas, pirateiam sites, alteram os conteúdos? A comunicação social deu-nos conta de que entraram nos sites de autarquias, soube-se de um ataque ao Banco de  Portugal, a ministérios, etc. Pouco destaque foi dado a estas notícias porque convém não alarmar as populações e, supostamente, os departamentos de segurança informática destes organismos teriam controlado a situação.

Teriam… digo bem.

Pois a questão é que parece que há fundadas suspeitas que eles continuam a entrar e sair das redes informáticas, especialmente nas dos ministérios.


Várias improbabilidades se juntam nesta história. Consta que não se tratam dos Anonymous, mas sim do braço hacker das Produções Fictícias (consta - que eu não sou do SIED nem da maçonaria, nem sequer da Ongoing, limito-me a segredar-vos rumores que correm por aí). Consta que se partem a rir, dobrados com dores no estômago de tanto rirem, lágrimas cara baixo. Consta que o ministério preferido é o da Economia. Mas também o do Relvas, o do Gaspar e, claro, o próprio gabinete do nosso Primeiro Ministro.

E, ao que consta, que fazem estes foliões?

Pois bem. Alteram os discursos. E quando algum deles, mais cuidadoso, diz: 'Ó pá, 'pera lá, essa ele vai logo dar por ela, desconfia que isto é no gozo, vão desconfiar que a malta anda aqui, ele não vai dizer isso', logo os outros o tranquilizam: 'Qual quê, pá... ele é um totó do caraças, não dá por nada, papa tudo, vais ver como o gajo vai dizer isso com o ar mais tecnocrático deste mundo...'.

E, na maior risota, lá vão trocando tudo. Vão ao discurso do Relvas e onde o da agência de comunicação tinha escrito: 'andámos a investir nos jovens, queremo-los cá, a desenvolver o país' vão os malandrecos e trocam por: 'devem emigrar, e nem ter saudades, nem saber de que pátria são'.
  ..


Vão ao discurso do Álvaro e onde era suposto ele falar de indústria, de clusters de desenvolvimento económico a sério, é vê-lo todo professoral, quase erudito, como se interrogasse uma turma inteira: 'Qual é a diferença entre um frango no churrasco e um pastel de nata?' - e, ao vê-lo na televisão a dizer aquilo, os hackers rebolam-se a rir: é demais!!!
 ..



Depois, vendo que estão à vontade, vão ao discurso do Passos Coelho que ia falar nessa mesma conferência organizada pelo Diário de Notícias, com o tema 'Made in Portugal', e viram-lhe o discurso do avesso. Em vez de falar de produção nacional, põem-no a falar, a despropósito, de nomeações, com números ao calhas, tudo trocado - e quando o vêem na televisão, patético, os hackers nem querem acreditar, ali está ele, a mostrar os bonecos que eles fizeram no gozo, ar muito convencido. E no momento em que eles escreveram entre parêntesis rectos [fazer ar triste, compungido e bater com a mão no peito] os hackers juram que viram Passos Coelho a simular uma lágrima no canto do olho e a fazer uma ginástica para não deixar cair o papel, enquanto tentava bater com a mão no peito.

Entretanto, a gente vai rindo com as cenas divertidas que os nossos ministros nos andam a proporcionar e até já consta que se prepara para breve uma rábula ao estilo dos Monty Python. Estejam atentos.


...

Parece-vos improvável? Pois, a mim também. Nem sei se acredite, se não. Que a malta das Produções Fictícias se conseguisse infiltrar nos computadores dos ministérios já me pareceria improvável, mas que os ministros papagueassem tudo o que lhes põem à frente sem perceber que não estão a dizer coisa com coisa, ainda me parece mais improvável.

Mas enfim, pode ser mais um caso raro, uma improbabilidade, tão raro como sofrer um traumatismo causado por um gato atirado de um 4º andar.


Tenham, meus amigos, uma bela terça feira e, pelo sim, pelo não, tenham muito cuidado quando passarem debaixo de janelas abertas...! 
  

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Aqui in heaven eu, mulher da terra, me depuro - venham comigo respirar o oxigénio de que tanto necessitamos para enfrentar a cidade


Acontece que, por vezes, tenho que me depurar. Afasto de mim as análises económicas, os artigos financeiros, os textos sobre política, ou sobre a actualidade que me desilude. Em dias assim, apenas o mar bravo do oceano, a água fresca do rio ou a terra bravia me sossegam.

Este fim de semana estive outra vez in heaven.

Agora que escrevo, já é quase uma da manhã, e já estou de volta à cidade, aqui nesta torre perto do céu, e a terra pedregosa está longe - mas sempre tão perto, tão dentro de mim.

São assim os grandes amores a quem tudo se perdoa, por quem ansiamos quando estamos longe, que guardamos amorosamente, com todo o carinho, quando nos afastamos. Sempre dentro de nós.

Tantas vezes aqui já vos falei da pequena parcela de terra que um dia me acolheu, me escolheu. Já vos contei: não está cuidada, não é arável, é selvagem, indomável. Dela nascem grandes pedras, mato selvagem que não tento controlar. Mas nela me abrigo, com ela me encanto como se fosse amor de primeira descoberta.

Por ela ando devagar, respiro o cheiro a terra molhada, odores femininos que vêm do seu ventre, afago os pinheiros que exalam um cheiro doce, olho com ternura as pequenas flores lilases que despontam no alecrim e  que atraem as abelhas que as beijam, enredadas, fotografo os refegos das minhas árvores como se fossem dobras nas perninhas gordas dos bebés, sorrio com o charme de maravilhosos líquenes, tanto tempo a olhar, a cheirar, a sentir.

E, então, penso que amo esta terra como se fosse gente, e começo a descobrir formas femininas e formas masculinas, e olhos que me olham, meigos como olhos de animais, e braços que se abraçam e quase me emociono ao pensar: esta é também a minha gente, a gente que tão carinhosamente me acolhe.

Fiz um estufado ao almoço. Tinha um bocado de chambão e estufei-o. Cebola abundante, azeite, um pouco de vinho tinto. Quando a carne estava macia juntei um pouco de água e batatas, cenouras, batata doce, ervilhas, um ramo de alecrim. Rescendia. Ficou saboroso, apurado.

E, enquanto estava ao lume, o odor a cozinha e a casa acolhedora e quente, saía pela chaminé e eu andava lá fora, a percorrer os caminhos mil vezes percorridos, e ao cheiro a campo juntava-se o cheiro a cozinha e eu pensei, como sempre penso que aqui, in heaven, eu sou uma mulher mais completa e que esta é a terra à qual eu pertenço inteira.


Reflexo do céu e do grande e cheiroso cedro num espelho de chuva

Tronco de pinheiro que me olha, humano, compreensivo


Ramos de azinheira que se abraçam, que me abraçam - e por detrás um dos pássaros de grandes asas que habitam este espaço


Abertura do corpo da terra, vulva quase secreta, inexpugnável esconderijo


Mulher deitada em fundo e, a zelar por ela, pinheiro de cujo forte tronco sai uma pinha quase fálica


Mulher plena de requebros femininos, sedutora, encantadora, assim é esta minha terra que se enfeita com líquenes belíssimos - ah, eu mulher também vaidosa, com vontade de lhe arrancar estes requintados enfeites para me enfeitarem a mim


E, logo, mais à frente, novos adereços macios, de um verde dourado, elegantes, e eu invejo esta mulher que assim se embeleza, mulher  moderna de gostos telúricos, que se perfuma com o cheiro sensual dos cedros e dos pinheiros,  mulher que se veste de veludos e que usa estas arrojadas jóias ondulantes 


O aloe vera floresce e ergue-se belo e vermelho, e é tal uma explosão de cor, de vida, e eu olho-o de vários ângulos e sempre me surpreendo com os contrastes e com a imagem de vitalidade que emana desta minha tão amada terra

Respiremos fundo, aspiremos o ar tão puro que existe ainda dentro de nós, revigoremo-nos, tentemos ser felizes. 

Com um sorriso vos desejo, meus amigos, uma bela semana! E aproveitem a vida em cada pequeno instante.

  

domingo, janeiro 15, 2012

José Castelo Branco, a Imperatriz, acompanhado por D. Betty e por Nelson, foi ao tribunal dizer que não se lembra de ter participado em orgias; não há quem conheça a explicação para Celeste Cardona ir parar ao Conselho Geral e de Supervisão da EDP; e eu não consigo perceber como é que Luís Menezes, um gaiato, tem tanto relevo no PSD. Só mistérios.



Mistério Nº1.  Madame José Castelo Branco, segundo ela própria vestida de imperatriz mas mais parecendo uma viúva negra, ou uma versão feminina do Rei Nimba, ou uma árabe milionária vestida de homem vinda de uma expedição à Namíbia, nem sei, e Senhora Dona Lady, Betty Grafstein de seu nome, vestida de cossaca, apresentaram-se a tribunal.

Diz a Imperatriz Condessa Zeza Castelo Branco que não se lembra de ter participado nas badaladas orgias, ao que parece de cariz sado-masoch, que até já foi a um vidente, que já se submeteu a uma sessão de hipnose para ver se, regredindo no tempo, conseguia recordar-se de por lá ter andado a fazer uma perninha  - mas nada, não tem ideia de nadica. Pediu, então, à juíza que o deixasse ver o filme das ditas para ver se tinha tido algum orgasmo mas, imagine-se, a juíza não o satisfez.

E, no meio dos disparos dos fotógrafos, lá saíram as duas mais o motorista e guarda-costas Nelson, cheios de glamour, sem que o mistério se tivesse esclarecido, ela confessando-se cansada e a Senhora Dona Lady , como sempre, caladinha e sorridente. 

O País continua, portanto, à espera que coisa se esclareça. Ao que parece haverá nova audição e, portanto, lá estaremos todos, à porta do tribunal, à espera do show que aquelas duas sempre proporcionam. A Imperatriz Zeza (brilhantésima, cheia de charme, extraordinárias toilettes) e sua Senhora (sempre com toilette a fazer pendant, inacreditavelmente ainda pelo próprio pé,  e sempre com aquele seu fantástico sorriso) nunca desiludem - aparições plenas de surrealismo estão garantidas!

...

Mistério Nº2. O outro mistério que nos anda agora a preocupar é igualmente perturbante. Ninguém consegue perceber como é que Celeste Cardona apareceu naquele albergue espanhol (ou deverei dizer bazar chinês?). Para os outros, ainda parece encontrar-se uma lógica - um porque é um conhecido humorista (a piada pubiana correu mundo), outro porque esteve em Macau, outro porque tem ar de inteligente alucinado, outro porque faz uns poemas muito engraçados e pinta uns quadros minimalistas que são verdadeiramente do além - ... agora para a Dona Celeste ninguém consegue perceber que piada é aquela.  Quem é a que a escolheu? E a propósito de quê? O senhor presidente Catroga também está intrigado, não faz ideia.


Talvez Paulo Portas pudesse desvendar o mistério mas, como parece que é o único inteligente ali para as bandas do governo, anda caladinho, caladinho, a ver se passa despercebido. Os outros vão-se espalhando ao comprido a cada passo que dão e ele, sorridente, passando entre os pingos da chuva. 

...

Mistério Nº3. Como é que uma criança é agora a voz mais avalizada no PSD para botar faladura sobre o que quer que se passe neste mundo e no outro? Alguém me explica? Em terra de cegos quem tem um olho é rei, é bem certo. Face ao estado de penúria de competências que reina no PSD, a criança (que usa barba para disfarçar) até já conseguiu chegar a vice-presidente da bancada. Parece anedota mas não é.


Dá pelo nome de Luís Menezes, o filho de seu pai. E opina sobre as decisões de Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, opina sobre Cavaco Silva, opina sobre política nacional e internacional e sobre o que quer que seja desde que lhe ponham um microfone à frente. Convicto, sábio, vivido, carregadinho de mundo e de experiência de vida,  hoje ouvi-o pedir ao governo que não se desfoque da política de austeridade, e que, uma vez que a Standard & Poors baixou a nota da dívida portuguesa para 'lixo' - invocando que, com esta política de austeridade o país não vai conseguir pagar o que deve (ah pois não! É que nisto a S&P tem toda a razão) - o gaiato concluíu que o que o Governo tem que fazer é reforçar as medidas de austeridade. Esperto. 

É o que dá entregar o destino do País a miúdos inexperientes.

Eu talvez o aceitasse como estagiário, para ver se ele aprendia o que é a vida real. Mas não, ele optou por mais interessante carreira. Como disse em cima, e desculpem se me estou a repetir, o catraio chegou a deputado e, aí chegado, em vez de o porem nos juniores, não: puseram-no como cereja em cima do bolo, já é vice-presidente da bancada do partido da maioria. Como é que isto é possível?

Alguém me explica um mistério destes? É que isto ainda é mais difícil de perceber que aquela cena maluca de um tal Mário Mendes, professor universitário em Évora, que se fazia passar, na internet, por Ana Sofia Magalhães, mulher sedutora, e depois passava a infernizar a vida dos pobres homens que caíam na esparrela. Ele há coisas...

Valham-nos todos os santinhos ... que já começo a temer que 2012 seja mesmo o ano do fim do mundo.

...

by Robert Maplethorpe

E assim, envolta em mistérios, me despeço por agora, desejando-vos um bom domingo!
  

sábado, janeiro 14, 2012

Nando's, o frango - o business case a seguir para Portugal deixar de ser lixo (segundo o Álvaro, o rei dos Pastéis de Nata)


E eis que inesperadamente dou com um anúncio do Nando's...!

É o último de uma série de outros igualmente inspiradores. Convido-vos a colher exemplos, talvez daqui vos venham ideias para negócios. Temos que tirar o pé da lama, meus Caros, vamos lá a isso. Não tem que ser no ramo culinário tal como o nosso pequeno Alvarito parece querer dar a entender (ele são os hamburgures, ele são 'as natas', ele são os frangos de churrasco nando's), podemos todos fazer pegas de cozinha para exportar, porque não...? Deixem-se lá de ser esquisitos, vamos lá a ver estes filmezitos a ver se têm alguma ideia, boa...?




E quanto à Standard & Poors:

A dívida soberana é lixo? Portugal é lixo?
 Lixo? Nós? 
O tanas é que eu sou lixo! E vocês também não! 
Marimbemo-nos para tanto lixo!

Abaixo o lixo. Pum! 
Morra o lixo. Pum! 
Abaixo as agências de rating. Pum! 
Abaixo quem se põe de gatas aos pés destas agências que manipulam o mundo. Pum! 
Abaixo também o Gaspar que se enganou estupidamente a fazer o orçamento e que ainda mais vai descredibilizar este país governado por gente que parece tonta. Pum, pum!
Abaixo as medidas de austeridade que estão a caminho devido a tanta medida estúpida e a tanto erro. Pum, pum, pum! 
Abaixo tanta gente incompetente por todo o lado. Pim!
PIM!

(óbvios créditos a Almada Negreiros com o seu Manifesto anti-Dantas).

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Divirtam-se, meus amigos. E tenham um bom fim de semana!


sexta-feira, janeiro 13, 2012

As lágrimas amargas de Hera – e a minha revolta pelo abandono das crianças e a minha infinita compaixão pelas famílias que a isto estão a ser levadas pela crise na Grécia

 
Hoje estava cheia de ideias para vir para aqui escrever no gozo. Motivos não faltavam. Era a dúvida existencial do nosso fofo Álvaro (o Santos Pereira, claro) expressa numa conferência promovida pelo Diário de Notícias: ‘Qual é a diferença entre os natas, o frango no churrasco e os hamburgueres?’ (good question, Alvy!), interrogando-se porque é que não se exportam pastéis de nata e dando como exemplo o frango Nando’s da África do Sul; era também o espanhol que encomendou pela internet um extensor de pénis e, na volta, recebeu em casa uma lupa (boa!); era a hipocrisia tonta, descabida, infantil de tão ridícula, da intervenção de Passos Coelho, falando das nomeações; enfim, uma épica sucessão de brincadeirinhas verídicas que dariam para eu fazer uma festa.

!!!

Eis senão quando sou agredida violentamente com um tremendo murro no estômago. Sempre ouvi falar desta forma de agressão como sendo dolorosa, mas não imaginava quanto. Confirmo: é uma dor forte, seca, invasiva. Ainda estou dobrada sobre mim própria, encolhida, dói-me tudo, o peito, a alma. Até escrever hoje está a ser, para mim, um exercício doloroso. Apetece-me parar, olhar para fora, para a noite escura que se alarga à minha frente, talvez até chorar.

Vocês que habitualmente me lêem devem perceber como as palavras saem de mim torrencialmente, sem qualquer esforço, sem qualquer pensamento prévio. Sento-me aqui, ponho as mãos sobre o teclado e os dedos vão sozinhos. Mas hoje as minhas mãos aqui estão, atordoadas, sem serem capazes de chegar ao assunto. Não estou a conseguir. Provoca-me dores violentas. Vou parar um pouco, vou ganhar coragem.

.-.

Não tenho visto muita televisão, nem ouvido muitas notícias pelo que nem sei se estou aqui a referir uma coisa já do conhecimento comum. Se for, perdoem-me. (E aqui estou eu, de novo, a ganhar tempo e, para ver se ganho coragem, vou escolher umas imagens).

Hera, a deusa da maternidade

Então vamos lá.

A questão é que li que, na Grécia, há cada vez mais famílias a abandonar os filhos. Deixam-nas à porta de igrejas, na escola, em instituições de solidariedade, entregam-nas para adopção. Dizem que não as podem sustentar. Não estamos a falar de cães abandonados por famílias que já não conseguem pagar a ração (o que também é uma dor). Não. Estamos a falar de crianças. Crianças a serem abandonadas. Famílias desfeitas, empobrecidas, a desfazerem-se das suas crianças.


Crianças abandonadas com um papel da mãe a pedir desculpa, a pedir que tratem bem da sua cria, a justificar que já não tem como continuar com ela.

Doloroso, doloroso.

Que desespero não está por trás de um gesto destes?

Nem consigo pensar numa coisa assim. Eu morria.

...

Como se chegou aqui?



Há pouco tempo a Grécia era um país europeu, integrado numa realidade civilizada, era um país digno, com um mar e ilhas de límpida beleza, respeitado como o berço da civilização, e os gregos eram um povo aberto, alegre.

Acusá-los do que se passou entretanto, como se fosse culpa deles em exclusivo, é não perceber que o que falhou foi o modelo de integração, foi um excesso de optimismo ao imaginar-se que as diferenças (culturais, económicas, financeiras, políticas, sociais) se esbateriam por si próprias ou que não exerceriam esta influência dramática no processo de coesão.

Como se viu, o modelo falhou, não se auto-regulou. E começou a falhar logo quando dois dos países mais fortes (Alemanha e França) arrancaram com excesso de velocidade, incumprindo o limite estabelecido para o défice - e nada aconteceu. A partir daí foi toda a gente ‘a abrir’, pé na tábua. Emprestando dinheiro uns aos outros, todos desataram a investir e a gastar como se não houvesse amanhã. Cada um instituiu as suas próprias regras e políticas, sem articulação entre si, e a dívida pública e privada disparou. Dinheiro barato, descoordenação entre países, e, colectivamente, todos construíram um paradigma assente em pés de barro, uma ficção – e a Europa viu-se artificialmente rica, expansionista, pronta a acolher mais países, sem perceber a insustentabilidade da construção.

Ou seja: não foi a Grécia, não os acusemos, não sejamos primários. Tal como não foi o Sócrates, por favor.

Foi o modelo. E, alinhados com o modelo, foram a Grécia, Portugal, a Irlanda, a Bélgica, o Reino Unido, foi a Itália, a França, etc. Foram os países a quem foi imposto (e que, de gatas!, o aceitaram) que abandonassem os campos, que abatessem a frota pesqueira, que encerrassem fábricas, que as vendessem, foram os países para onde foi empurrado (e que, deslumbradamente!, o aceitaram) pipas de dinheiro para que se construíssem pavilhões multi usos, rotundas, tretas. E, numa lógica darwiniana, foram também os mais fortes a avançar sobre os mais fracos. Helmut Schmidt já lembrou que os excedentes da Alemanha são os défices dos outros. Ou seja, deixem os outros de comprar e a Alemanha vai abaixo, sem ter onde colocar os seus excedentes, que são o motor do seu crescimento.

Querer que um desequilíbrio tão estrutural e tão alastrado se resolva país a país, obrigando os que estão endividados de morte, a suportar pesados juros e a submeter-se a uma austeridade cega, quando o que precisam é de crescer e de gerar resultados para poder suportar os seus encargos, é perverso, é louco, é estúpido.

Que, perante o desastre a que tão estúpida política está a conduzir, se persista mais e mais, até se chegar a este ponto de tragédia, de desespero máximo, é desumano, é bárbaro.



No dia em que se ouviu dizer pela primeira vez que uma mãe teve que abandonar o seu filho, tivesse isso acontecido na Grécia ou em qualquer outro país da Europa, todos os europeus deveriam ter-se vergado de humilhação, de dor, de comiseração.

É assim que eu hoje me sinto, vergada, profundamente triste, sem saber o que fazer para ajudar a evitar tamanho crime.


Você, meu querido leitor ou leitora, que me está a ler, pode pensar que havia excessos, que os excessos têm que ser corrigidos - e tem toda a razão. Mas essa correcção tem que ser feita com inteligência e humanismo.
É o modelo que tem que ser corrigido. Tem que haver políticas geográficas e demográficas, coordenadas a nível dos países da União Europeia. Tem que haver uma política monetária europeia. O BCE tem que agir como um banco central. E, em conjunto, tem que se ver por onde se puxa, por onde se refreia mas tendo sempre a preocupação de não regredir civilizacionalmente, tendo como objectivo o crescimento e a melhoria das condições de vida – nunca, nunca, nunca o contrário!

Se as coisas não acontecerem assim (a um nível superior, ou seja, a um nível no mínimo europeu, não a um nível local ou nacional), aquilo que agora pode ser visto como uma justa ‘paga’ pelos excessos, vai alastrar, tocando a todos. É que se os pobres deixarem de consumir, os remediados deixam de ter trabalho e deixam também de consumir; a seguir serão as pequenas empresas a fechar, tudo a paralisar.

Percebamos também que grandes empresas nacionais como a EDP, a REN, a GALP, os CTT, as Águas de Portugal, etc, são empresas que empregam muita gente mas, também, dão empregos indirectos a muita gente, compram muitos produtos e serviços a empresas nacionais. À medida que estas empresas forem deixando de ser nacionais e tiverem como donos, por exemplo, a China, substituirão muitas dessas compras por compras no seu país de origem.

Percebamos que o que está a acontecer é uma catástrofe para os países intervencionados como a Grécia, como Portugal que, a troco do dinheiro, se vêem conduzidos a aceitar um programa que conduz à total perda de soberania e ao empobrecimento mais humilhante e que é tanto mais grave quando Portugal, nomeadamente, está entregue a políticos inábeis, impreparados, que tentam ainda ser mais extremistas, mais liberais, sem perceber sequer o que estão a fazer.

Hoje um amigo meu, pessoa de algumas posses, dizia que o genro, antes com um bom emprego e com responsabilidades assumidas, há alguns meses que está desempregado e que é ele que agora está, na prática, a sustentar o agregado familiar da filha e que isso lhe pesa no orçamento, que não está fácil, e que o genro está a desesperar porque não vê qualquer perspectiva. É que o mal disto é que é uma mancha que alastra em cadeia. Por isso, que ninguém olhe para o que está a acontecer com displicência, não pense, ‘isto é lá com os gregos’, ou ‘isto é bem feito para as gordas que não querem trabalhar, passam o dia refasteladas nos cafés’. Que ninguém pense isto.

O que é necessário é que todos percebamos que o problema é um problema do sistema no seu conjunto (sistémico, portanto) e que, como tal, deve ser resolvido. E que não aceitemos tudo o que nos pretendem impor como uma fatalidade. Não é. Tem que haver melhor alternativa.

E que percebamos que não podemos assistir passivamente a que na Grécia, nos últimos meses, já sejam centenas as famílias que tiveram que se desfazer dos seus filhos. É preciso que, de cada vez que ouvirmos isto, o sintamos na nossa carne, que nos sintamos despedaçados, como se alguém estivesse a arrancar bocados de nós. Para que um dia não nos aconteça a nós.



Desculpem-me meus Amigos, hoje não consigo alegrar-vos. Quando o assunto são crianças eu fico alerta. Quando o assunto são famílias a terem que se desfazer das suas crianças eu fico destroçada.
 

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Quanto é que você vale? Quantos amigos tem? Quantos likes no facebook? - Veja se vale mais ou menos que Cavaco Silva, Ricardo Araújo Pereira, Nilton, Rita Pereira. (Não, não ligue a nada disso: sorria a sério, sem ser através de parêntesis).


Tenho aqui que fazer um statement. Pode parecer-vos, às vezes, que sou muito moderna.

Rihana por Annie Leibovitz

Mas, olhem: não sou. Pelo menos, não no sentido de ir atrás de modas. Zero. Pelo contrário, se meio mundo vai numa direcção, a mim já me dá vontade de ir em sentido contrário.

No entanto, qualquer assessment que me seja feito (ah, estas modernices… assessments para nos espiolharem a alma e verem os nossos gaps), revela que sou o que se chama uma early adopter. Ou seja, se a coisa me ‘cheira’, adopto-a mesmo que antes nunca ninguém o tenha feito – e refiro-me a metodologias, processos, empresas, produtos. E, na vida privada, a mesma coisa: adiro por mim, sem fazer a mínima ideia se já alguém aderiu antes.

Mas bastará que me digam que:
  • toda a gente tem uma bimby - de uma coisa eu tenho a certeza imediata: nunca a terei;
  • toda a gente leu o último Miguel Sousa Tavares - e eu mentalmente coloco-o no meu index pessoal;
  • toda a gente tem conta no facebook, e mais, que quem não tem conta no facebook, não existe - e eu fico com a certezinha absoluta que prefiro não existir a ter que me filiar no facebook.


por Serge Lutens


Por isso, meus amigos, fiquem a saber: não existo, não sei quantos amigos tenho, estou-me nas tintas para reatar contacto com colegas da escola primária que não vejo há 200 anos, não estou nem aí para me amigar com ex-namorados, muito menos com gente que conheço apenas vagamente. Sou um bicho do mato.

Hidden woman por Guy Bourdin

Leio num artigo duma empresa de consultoria internacional que finalmente parece haver convergência quanto a uma unidade de medida para o valor das marcas – LPM, ou seja, ‘likes per million’, que é como quem diz, o número de pessoas que accionaram o like no facebook da empresa que comercializa a marca, aferido pelo valor de receitas expresso em milhões de dólares.

Fico perplexa com isto. Será mesmo? Será mesmo que as pessoas que vão ver a página do facebook das empresas mais valiosas, mais valiosas segundo este critério (a Forever 21 com 5.000 LPM, a Burberry com um pouco mais de 4.000, a Starbucks com cerca de 2.500, a Levi’s com um pouco de 2.000, a Gucci com cerca de 1.900, etc, etc) vão lá todos pôr um pisco no like, como quem deixa uma moeda na caixa de esmolas?

E com as pessoas, não com as empresas, será que esta coisa também funciona? Ah eu tenho 300 amigos e 1.000 likes por mês…? E tu quantos tens?

Tenebrosa esta perspectiva. Ou não é teneborosa: é normal? Sou eu que fiquei agarrada a conceitos já inexistentes?

Quando vejo transcrições de páginas de facebook ou quando alguém me mostra a sua (página), o que vejo são coisas que me parecem futilidades, coisas sem nexo, sem interesse, frases incompletas, palavras pela metade, parêntesis em vez de sorrisos a sério, coisas que não aquecem nem arrefecem.

Por curiosidade, fui agora ver a página de Cavaco Silva. Lá me aparece ele em grande plano, atrás da D. Maria, e, ao lado, caixas com isto (e transcrevo tal e qual, ou seja, faço copy past):

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Páginas do Facebook semelhantes

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Ricardo Araújo Pereira

434.961 curtiram isso

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NILTON

356.339 curtiram isso

•

Rita Pereira

156.514 curtiram isso


No canto inferior esquerdo, por debaixo da fotografia oficial do presidente leio que (e volto a fazer copy past):

127.566
curtiram isso

828
falando sobre isso

Opções "Curtir".

Museu da Presidência da República.
Presidência da República Portuguesa

(Não, não vou falar do linguajar indigente..! Adiante.)

... Voltando à unidade de medida inventada pelos marketeers, é assim que, na página do facebook do Presidente da República, fico a saber que há mais pessoas a curtirem a Rita Pereira que Cavaco Silva (o que me parece compreensível), que Ricardo Araújo Pereira vale sensivelmente três vezes e meia Cavaco Silva e que o Nilton vale duas vírgula oito vezes mais que Cavaco Silva.

(Claro que estou apenas a ver os likes em valor absoluto, ou seja não calibrei pelos rendimentos de cada um não apenas porque não disponho dessa informação, mas também porque, neste âmbito, me parece descabido.)

Na dita página, vejo também a informação de que, quem queira opções à curtição com Cavaco Silva, pode ir curtir para o Museu ou para a própria Presidência da República Portuguesa. Uma bandalheira, seria eu levada a dizer – mas detenho-me porque reconheço que isso talvez pudesse ser considerado uma reacção pré-histórica.

(Uma mulher pré-histórica? pergunto eu) por Guy Bourdin

Mas, vocês aí que me lêem e que não são tão antiquados quanto eu, digam-me: qual o gozo ou qual a utilidade de se ter uma página de facebook? São mais felizes agora que eram antes de a ter?

Eu, por mim, vou continuando aqui, sem contabilizar amigos, nem likes, sem querer ressuscitar amizades ou amores que ficaram, e muito bem, lá atrás, nas calendas. Vou continuar a escrever estes grandes testamentos com que vos torro a paciência, a escrever frases em que tento não omitir o sujeito, o predicado, o complemento directo e o indirecto e o que mais venha a calhar (e oh meus amigos, desculpem lá mais este sinal de antiguidade… que já nada disto dá por estes nomes, pois não? A esta hora já alguns de vocês devem estar a rebolar-se no chão, agarrados à barriga, ‘olha m’esta… - verbo e predicado- …lol lol lol’).

:-)

Não me levem a mal: vou continuar a ser bicho do mato, antiquada, ciosa da gramática e das palavras escritas com todas as letras, com um gostinho antigo por sorrisos a sério, por 'gosto de ti' ditos com uma voz doce e não com o desenho de um dedo espetado.

(Uma mulher das antigas? pergunto eu) por Helmut Newton

Mas de uma coisa podem vocês estar certos – vejo as estatísticas diárias aqui do meu UJM e fico sempre surpreendida e muito agradecida. Escrevo porque gosto de escrever, é certo, mas fico mesmo contente quando vejo que tanta gente se dá ao trabalho de aqui vir todos os dias falar um bocadinho comigo. Sem likes, sem dedinhos no ar, mas muito presentes aí desse lado. Muito obrigada, meus amigos. De verdade.

 
..^..
 
Hoje até havia imensa coisa para comentar (os despautérios do Alberto João; a página de facebook do Jorge Silva Carvalho, esse grande maganão que fez o que fez, faz o que faz e ainda se ri que nem um descarado; o valor imoral do que Catroga, esse velho macacão que se pela por dinheiro, vai ganhar na EDP; as nomeações despudoradas para as empresas mostrando no limite da nitidez suportável a raça a que pertencem Passos Coelho e entourage, etc, etc) - mas quando é tudo tão medíocre, tão tristemente previsível, não me apetece enredar-me nessas tretas, apetece-me é fugir delas a sete pés, pôr para trás das costas, sacudir de mim como se sacudisse o cabelo.

Margie Gills por Annie Leibovitz
 
E tenham, meus Caros, uma boa quinta-feira, sentindo o calor humano dos vossos verdadeiros amigos.
 
 
PS: Não querem ir espreitar a fotografia que hoje coloquei lá no meu Street Photo & Co. ? Estava uma tarde tão linda. E, já agora, não querem também dar uma espreitadela no Ginjal? Está no mesmo comprimento de onda e há um Rachmaninov que vai mesmo a calhar. 

quarta-feira, janeiro 11, 2012

A emigração segundo Miguel Relvas, o apátrida. Novas medidas de austeridade segundo Vitor Gaspar, o sonso, e Carlos Costa, o grilo (quase) silencioso - e as vozes lúcidas de Joseph Stiglitz e Javier Solana


1. Miguel Relvas, com o queixo bem definido, próprio de um homem determinado, falava à vinda de um passeio por terras de África.


Esboço de sorrisinho na manga, homem poderoso, dono e senhor de todas as influências, dizia que, quando em Maputo,  tinha saído à noite e que, aí, tinha falado com jovens portugueses, jovens em quem Portugal tinha investido, formação superior, jovens a quem o País não tinha nada para oferecer e que, naturalmente, se estavam a fazer à vida longe de casa. Relvas falava, queixo bem erguido, semblante de quem se sente empossado dos maiores poderes, podia referir bons exemplos, casos a serem copiados por todos os jovens que o estivessem a ouvir. E acrescentava: E não os ouvi falar de saudades, de Pátria…. Faltou acrescentar. ‘E assim é que é’.

Que um jovem, num bar, à noite, copo na mão, não se tenha posto a chorar no ombro do Relvas parece-me até saudável.

Agora que um ministro venha dizer que os jovens nem se lembram da sua Pátria e que o diga como se isso fosse uma coisa boa, já me parece insuportável. Só faltou dizer com ar orgulhoso ‘os jovens, bem formados, que mandámos daqui para fora, já nem português falam e não fazem eles senão bem!’

Que um governante – e o mais influente – tenha esta mentalidade parece-me incrível, perigoso. Pessoas assim acabam com o País se necessário for ('se necessário for' aos interesses de alguém - que não nós -, leia-se). Vendem as principais, as mais lucrativas, as mais estratégicas empresas nacionais a estados (e querem lá saber se esses estados que, assim, se tornam donos dos nossos recursos mais estratégicos, de empresas altamente empregadoras, são estados em que o conceito de direitos humanos não é exactamente o mesmo que em estados democráticos e livres), aconselham os jovens a porem-se a milhas, fazem manobras supostamente apenas contabilísticas mas que colocam ainda mais em risco a sustentabilidade da segurança social e desbaratam as poupanças de pessoas que pensavam que os seus descontos estavam a salvo – e sempre com um arzinho lampeiro de quem está a fazer apenas a ménage.

Podiam ser liberais mas nem isso. A dupla Passos Coelho e Miguel Relvas confunde liberalismo com desbunda.


2. Ainda o ano vai no adro, ainda estamos a dia 10 de Janeiro, e o tema já é a derrapagem do défice. Quando ontem (ou melhor, anteontem que já passa da 1 da manhã) ouvi isto, apurei o ouvido, tentei perceber: mas de que ano, senhores?, se o ano ainda mal começou. Mais à frente, o jornalista acrescenta, ‘o défice deste ano’ e isso é atribuído à nova responsabilidade que veio com a transferência do fundo de pensões dos bancários e a um maior enfraquecimento da economia.

Nada disto é inesperado. O inesperado é que o Orçamento acabou de ser aprovado - e já se antevê um desvio? É possível tamanha incompetência?

Mas que, com as políticas seguidas, isto é o que se pode esperar:  o caminho é o da derrapagem permanente, uma infernal descida em espiral negativa, um dramático acelerar que se verifica quando não se interrompe um ciclo vicioso - já se sabe.

Com as medidas que estão a ser tomadas, de esvaziamento do poder de compra, de empobrecimento, desemprego e insegurança, com a leviandade que se verifica na condução das políticas públicas, a única consequência possível é a espiral de degradação económica, que conduz a menos base de tributação, que conduz a maior desequilíbrio emtre receitas e despesas, o que conduz a menor capacidade de suportar o serviço da dívida, o que conduz à insolvência. Digo-o eu aqui, desde há muito tempo, diz quem consegue fazer operações aritméticas simples, dizem vozes isentas e entendidas.

Aliás, não é também isto que diz o relatório do Banco de Portugal quando antecipa uma recessão superior e avança com a necessidade de novas medidas de austeridade?

Aliás, não é isto também que diz o sonso do Gaspar, cada vez mais sabido, quando diz e repete e volta a repetir - seis vezes o disse - que 'por esses motivos' (e referia-se à transferência do fundo de pensões) não haverá novas medidas? É que ele sabe bem que mais austeridade cega se está a forjar e que o motivo maior será a recessão cavada, a miséria que, cada vez mais, se abate sobre a população, cada vez menos gente a pagar impostos (e esses, nós!, pagando cada vez mais), cada vez mais empresas a sairem daqui para fora.

E, em voz pianíssima, avança que, para já, vai vender mais coisas do que as previstas (o quê? os Jerónimos aos chineses? A Sé aos brasileiros? o CCB aos angolanos? o Museu Nacional de Arte Antiga aos russos? Só se for isso) e mais concessões do que as previstas (what? vai fazer mais PPP, será?)

Ao 10º dia do ano?! Como é que é possível tamanha tontice, tamanha incompetência?! Andam aos papéis, não acertam uma, enganam-se todas as semanas e todas as semanas aparecem a corrigir o tiro e, pelo meio, vão acertando às cegas, abatendo todas as nossas esperanças. Revoltante.

Entretanto, Carlos Costa, ainda que de mansinho, lá vai começando a tentar espevitar a inteligência do Gaspar e da dupla Passos e Relvas, lembrando-lhes que têm que pensar na economia. Mas qual economia, senhores? As empresas que já pularam daqui para fora? As outras que ainda cá estão mas com a corda na garganta? E quem é que vem de fora meter-se num país entregue a uma gente destas?


3. Alguns de vocês dizem-me, às vezes, que perco o norte quando falo desta turminha que está a tomar o país de assalto. Acho que não, que não me desnorteio. Não gosto deles, claro que não. Acho que para se ser governante é preciso mil vezes mais do que esta dupla e alguns dos seus ajudantes poderão alguma vez dar. Mas isto não é uma questão de gosto. Isto é uma questão de contas. E, meus amigos, quando o negócio são números, aí sou muito objectiva.


4. E também não vivo confinada a este nosso País. Sei que esta política não sai toda da cabeça (pouco) iluminada da dupla maravilha. Eles são apenas uns executantes a um tempo provincianos, deslumbrados e incompetentes. Mas, claro, esta é a política dominante desta Europa entregue à voragem dos especuladores e à miopia e incompetente quadradice da Merkel e Companhia.
 

5. Mas, enfim, vou passar a palavra a quem sabe disto muito, muito mais que eu.  


Escreveu, há pouco tempo, Joseph Stiglitz (e aconselho-vos a espreitar também o seu curriculum):

"Os líderes europeus têm proclamado repetidamente o seu empenho em salvar o euro, mas aqueles que tanto têm insistido nisso poderiam dizer também que estão empenhados em não fazer aquilo que é necessário. Eles reconheceram que a austeridade significará uma desaceleração do crescimento – na verdade, é cada vez mais provável que haja uma recessão – e que, sem crescimento, os países em apuros da Zona Euro não conseguirão gerir as suas dívidas. Mas eles nada fizeram para promover o crescimento. Estão numa espiral da morte.

Espero que os acontecimentos provem que estou errado e que o meu pessimismo acabe por se revelar excessivo. Mas receio que os riscos pendam mais para o lado negativo. Com efeito, 2012 poderá provar ser o ano em que as experiências com o euro, o culminar de um processo de 50 anos de integração política e económica na Europa, chegarão ao fim.

Nesse caso, em vez de trazer consigo o esperado fim da Grande Recessão de 2008, uma contracção que durou demasiado tempo e causou muito sofrimento, o ano de 2012 poderá marcar o início de uma nova fase ainda mais aterradora da pior calamidade económica mundial em três quartos de século."


Mas para que não se pense que é voz única, aqui vai mais um testemunho. 


Javier Solana, cujo curriculum escreveu há dias um artigo de que transcrevo:

"Além disso, queremos que a União Europeia renasça mais forte desta crise. Para isso é necessário que exista um melhor equilíbrio entre a austeridade e as politicas de crescimento económico. Sem crescimento e baixo desemprego, não é possível resolver os problemas da Zona Euro. A União Europeia deve ainda aliar as suas estratégias económicas à competitividade de longo prazo, que é determinada pelo valor acrescentado de bens e serviços.

A China e a Índia aprenderam muito bem esta lição. Em menos de 15 anos, cerca de 20% dos seus gastos serão para investir em pesquisa e desenvolvimento, mais do dobro da percentagem actual. Entretanto, a União Europeia vai enfrentar um sério problema demográfico: em 2025, representará apenas 6,5% da população mundial, face aos 61% da Ásia. A média de idades será 45, enquanto na Índia será 28, na China 37 e nos Estados Unidos 38. Na ausência de estratégias adequadas para a imigração, integração, cuidados de saúde e educação, o crescimento e competitividade da Europa vai cair e as tensões sociais vão agravar-se e multiplicar-se."


**********


Sabem o que vos digo, meus Amigos? Um dia destes ainda me vou deixar de estar com palpites a partir aqui da bancada e vou passar à acção. Não sei se me amigue com algum partido (mas qual, senhores?!), se forme eu um novo, se salte para o ringue e resolva a coisa doutra maneira. Mas alguma coisa um dia destes vou ter que fazer.

by Annie Leibovitz  (como é bom de ver)

Entretanto, Caríssimos, vão por mim e deslizem até mais abaixo, batam três vezes, acendam um fósforo, sussurrem que vão da minha parte, depois saltem para o meio da pista, ali onde há alguma luz e, então, falem de amor (mas cuidado com quem está ao vosso lado...  não vá estarem no trabalho e o/a vosso/a colega de trabalho pensar que estão a fazer-lhe uma inusitada declaração de amor).

E não se vão abaixo com esta treta de más notícias. A coisa há-de virar! Tenham um bom dia.

 

terça-feira, janeiro 10, 2012

Um tango malandro, cuja letra e música me dão uma fantástica disposição - Hernando's Hideaway

Pela segunda vez neste salão de baile, aqui vos mostro um tango que eu aprecio sobremaneira. O primeiro filmezito pouco tem de dança - mas o que eu gosto do pouco que tem... - e o segundo é uma justaposição de imagens com base na versão instrumental do dito tango. Neste, Shakira, sensual, e um par bastante interessante de quem não sei o nome. No primeiro, o respectivo excerto do filme The pajama Game.


Mais logo, a ver se ainda escrevo uma coisa sobre as notícias de treta de hoje, relativas ao défice que, ao dia 10 de Janeiro, já derrapou. Começamos bem. Mas agora, enquanto eu vou ali ao Ginjal e ao Sreet tratar de fotografias, poemas, músicas e tal, vejam lá estas maravilhas. 






Já volto.

Uma imprevista história de amor, um apaixonado tango numa imprevista noite de Janeiro


O dia não foi fácil. Reuniões, muita exposição, sempre a ter que sorrir, sempre a ter que mostrar confiança, simpatia. Agora que conseguiu despachar a exigente agenda diária já é tarde. Podia estar cansado mas hoje, por acaso, não está.


Vem com uma irrequietude na alma e no corpo. Não lhe apeteceu ir jantar a casa. Parou na estação de serviço, comeu uma sopa, dois crepes, uma imperial, bem bom. Sentia-se incapaz de se ir enfiar no sofá, anestesiado, a saltar de canal para canal. Comentadores desportivos, comentadores políticos, telenovelas e sempre aquele ar provinciano, nada lhe interessava, nada o sossegaria.

Portanto, em vez de se dirigir a casa, seguiu outro caminho, conduziu até à zona antiga da cidade. Estacionou, guardou os óculos, e saíu do carro sem saber ao que ia, talvez apenas andar pela rua. Voltou atrás, foi buscar a pasta, esta zona não é segura e os documentos são demasiado importantes. Início de Janeiro, temperatura amena, uma vontade de primaverar, um certo ar precoce de flores a renascerem, um aroma de volúpia, qualquer coisa de invisível, de indefinido.

As luzes estão quase apagadas, a autarquia está a poupar na electricidade, pensaria que o ambiente está quase lúgubre não fosse esta pulsão pela descoberta de qualquer coisa, nem sabe o quê. Anda e parece que há uma leveza que o transporta. Sente perfume no ar, talvez alguma planta nos arbustos destas moradias antigas, talvez alguma mulher aqui tenha passado há pouco. Aspira, vai andando e, ao andar, vai aspirando, que cheiro tão bom. Pensa: se fosse há uns anos, talvez achasse normal procurar uma prostituta, que o corpo lhe está a pedir confronto. Ri-se sozinho. Uma mulher, coisa boa.

E segue. Adiante estão dois homens, cada um com seu cão, conversam, os cães brincam, estão praticamente às escuras. Olha-os com uma certa inveja; são hábitos de um quotidiano que lhe é estranho. Mais à frente passa por um carro que estaciona e de onde sai uma mulher. Repara que a mulher está amedrontada com a sua presença, olha em volta, atrasa-se para lhe dar tempo a passar, talvez receie que ele seja um ladrão, um traficante com a sua pastinha, um violador. Muda de passeio para que a mulher perca o medo e, ao fazê-lo, pensa: se fosse acompanhado, ninguém tinha medo, assim, cão sem dono, as mulheres têm medo de mim. A mulher era bonita, transportava uma mala com rodas, tinha um fato que parecia uma farda, talvez fosse hospedeira. Tem vontade de dar meia volta e ir atrás dela, sentir se o seu rasto é perfumado. Ainda hesita mas logo se detém: estás maluco ou quê?

E continua. A seguir ao pequeno jardim, há uma pequena rua, uns quantos prédios velhos, baixos, de dois ou três andares, alguns devolutos, andares vazios, zona a evitar, dizem que por ali param os sem-abrigo, drogados, não sabe. Avança um pouco na rua escura. Tomara não saia daqui algum que ainda me venha roubar, pensa. Mas segue, cauteloso. Por ali chega-se mais depressa ao rio, irá dar uma volta pelo cais.

E então, ao passar por um desses prédios antigos, ouve uma música suave, talvez uma valsa, uma música que parece vir de cima, sai talvez de uma janela. Afasta-se, espreita. As janelas do 1º andar têm as portadas abertas, uma luz amarela, quente, e uma música. Fica ali parado, envolvido, qualquer coisa de electrizante o paralisa. Quem será que ali, àquela hora, ouve aquela música?

A música pára, depois começa outra, agora parece salsa, é mais alegre. Ele ouve, olha a janela iluminada, parece ouvir uns passos, escuta com atenção, a música está baixa mas os passos agora ouvem-se distintamente, acompanham o ritmo. Sente-se arrepiado, uma emoção a crescer dentro dele, a música a invadir-lhe o corpo.

Sem pensar dirige-se à porta do prédio. É uma porta de madeira com um pequeno vidro, uma porta antiga, está apenas encostada. A medo, empurra-a, o prédio cheira a prédio antigo, as escadas são de madeira, e ele sobe, segue a música, está à porta do 1º andar de onde se soltam os acordes da salsa, uns passos, parece que apenas de uma única pessoa. Encosta-se mais, para ouvir melhor. Há luz por debaixo da porta. Treme. É receio, é apetência pelo risco, é um tremor que o empurra.

A música acaba. Uns passos soam. Tenta perceber os movimentos. E, então, movido pela curiosidade, pela vontade de qualquer coisa, encosta a mão à porta. Devagar. E devagar a porta vai-se abrindo, estava apenas encostada.

Fica com a respiração suspensa. Repara no chão que é de soalho, repara no tecto, o pé direito muito alto, uma luz coada, amarela, quente, suave, uma porta que divide esta sala de outra divisão em madeira e vidro, o ambiente é acolhedor, quase surreal atendendo ao sítio que é. E um cheiro a madeira, a cera, a flores, um cheiro a mulher.

E então, da porta de madeira e vidro, sai uma mulher, cabelo apanhado, corpo voluptuoso, ancas fartas, pernas torneadas - e ondula ao andar. Dirige-se ao leitor de cd’s, escolhe uma música, deixa-a começar. Ele está imóvel, não a quer assustar. Treme, o coração bate descompassado. A música começa, ela baixa o volume. Um tango. Deslizando, sensual, ela dirige-se ao centro da sala, vai dançar sozinha.

Sem se deter a pensar, ele despe o casaco e avança também, dirige-se também ao centro da sala. Curiosamente ela não parece estranhar, parece que vai acontecer uma coreografia previamente ensaiada. Como se fosse uma professora à espera do aluno, assertiva, ela diz-lhe que não fale, que não pense e ele pensa: mas eu não ia falar... e, à frente de um corpo destes, quem é consegue pensar...? Não consegue articular palavra, sente o sorriso preso no rosto. A confiança da vida diária sumiu-se. Agora é apenas um homem que apenas pressente que estás prestes a ser submerso. E entrega-se, pensando com a pouca malícia que lhe resta, tão sobressaltado está: seja feita a vossa vontade, minha senhora.

Nesse mesmo instante ele sente que é dela o cheiro, que é dela o cheiro que adivinhou na rua. Apetece-lhe chegar-se, cheirá-la. Chega-se a ela, enlaça-a, e ela faz o mesmo e então começam a dançar um imprevisto tango. E o calor que vem dos seus corpos, a luz coada, a música num sussurro, o cheiro dos seus corpos, a tensão dos músculos em entrega total, é tal que, aos poucos, a proximidade é irreprimível, ela luta, ele procura-a, ela afasta-se, ele afasta-se para logo a recuperar, rodopiam, ela ao colo dele, e, no final, sorriem, quase envergonhados, e a emoção é tão intensa que pensam ambos, sem o confessarem, que uma certeza assim acontece uma vez na vida.




Créditos

1. A ideia deste texto surgiu-me há pouco, a partir  do comentário e da informação do meu Caro Leitor Patrício Branco, no post anterior, a quem muito agradeço.

2. A última frase é uma fala de Clint Eastwood, como Robert, em As Pontes de Madison County, quando sai de casa e se despede de Meryl Streep, como Francesca.


^^^^^^


E, por hoje, é isto. Não me apeteceu falar do défice que parece que vai ser superior, da austeridade que parece que vai ter que aumentar - temas demasiadamente previsíveis.

Hoje apeteceu-me dançar (e quase me apetece escrever dansar, com s, como Sophia o fazia). Hoje apeteceu-se ser une danseuse, une danseuse com palavras voando à minha volta.

*

Aproveitem bem cada pequeno instante, gozem a vida, ouçam música, dancem a sério ou em pensamento.

E tenham uma boa terça-feira!