Já o referi e tenho vontade de repescar essas memórias para ilustrar o meu raciocínio. Houve uma altura em que ia a Paris com alguma frequência. Por exemplo, via anúncios à Minitel no metro ou na rua numa altura em que, por cá, nem se sabia bem o que era. Por cá, mais tarde, quando a Telepac começou a oferecer serviços, nas empresas era uma confusão para se conseguir perceber como usar.
Ainda me lembro de ver estudos para analisar quais as vantagens do fax. Criaram-se novos processos para aproveitar a rapidez do fax. Quando se adoptou, destronou o telex. Desapareceram as salas de telex e as Operadoras de telex.
Também me lembro de, em Paris, ver, com espanto, uma pessoa a conduzir e com uma coisa grande na mão através da qual falava como se falasse ao telemóvel. Depois reparei que não era o único.
Também acompanhei a atribuição de telemóveis na empresa, sendo contemplado com um porque era directora. Era uma coisa enorme e pesada e só dava para servir de telefone. Por essa altura, na empresa dele o meu marido foi contemplado com um BlackBerry e lembro-me de, na empresa, haver discussões para se perceber vantagens e desvantagens de cada um. Se na altura desta revolução me falassem que os telemóveis poderiam fotografar e filmar e enviar as imagens de imediato diria que estavam a sonhar. Isso estava fora das melhores conjecturas.
Numa visita que fiz à sede de uma multinacional em Zurique, vieram mostrar-me uma coisa que acharam que eu apreciaria muito. Era um Grid, um microcomputador. Explicaram-me o que era e mostraram-me o Lotus 123. Fiquei fascinada. Em Portugal só mais tarde começaram a ser comercializados os computadores pessoais com as suas aplicações de tratamento de texto e de folha de cálculo.
Achei uma coisa tão vital que consegui que se formassem algumas pessoas que, por sua vez, formaram centenas de pessoas na empresa.
E, mais tarde, quando finalmente a oferta de internet começou a ser comercial e operacionalmente interessante, lembro-me de haver grandes discussões sobre quem deveria ter acesso e se haveria forma de restringir o uso. Havia receio que algumas pessoas se entretivessem a ver imagens pornográficas em vez de trabalhar. Bati-me convictamente para que fosse dado acesso geral pois achava que a internet era uma porta aberta para o mundo e a empresa ter trabalhadores informados e curiosos era uma mais valia. E levei a minha avante.
Tudo isto parece pré histórico. Mas não é.
Só que de aí para cá as coisas evoluíram tão exponencialmente que um mundo sem internet e sem telemóveis parece inviável.
Viajar por países desconhecidos ou por lugarejos sem sinalização sem GPS parece hoje impossível. Mas era possível (embora desafiante) e isso aconteceu até não há muito tempo atrás. Como somos agora guiados, verbalmente, em tempo real, com indicação precisa de cada desvio, da existência de acidentes, em cada canto e esquina do nosso percurso, pode parecer já uma banalidade. E, no entanto, quanta tecnologia e quanto conhecimento estão envolvidos...
A velocidade do progresso só não nos deixa estupefactos porque já nos habituámos a ela. Mas a mim, que sou velha como o caraças e que tenho acompanhado isto desde o início, deixa-me mais do que estupefacta: deixa-me apreensiva. E deixa-me apreensiva porque sei que a tecnologia anda a um ritmo superior ao que as organizações precisam para se adaptar -- isto admitindo que percebem que têm que se adaptar.
Se por um lado a tecnologia (por exemplo, a nível da Inteligência Artificial) é extraordinária e deve ser integrada na nossa vida, por outro é impossível controlar a forma como é usada.
Pela parte que me toca, inofensiva aposentada, só uso para o (meu) bem. Por exemplo, o programador de rega voltou a pifar. O eletricista não está por cá e, com este calor, sem rega seria o desastre para o jardim já que as mangueiras não chegam a todo o lado. Fotografei o aparelho e passo a passo fui guiada até que voltou a trabalhar. Um ténis novo, aparentemente o melhor possível, topo de gama, impec a olho nu, magoa-me o pé num certo sítio. Fotografei o sapato e pedi informação. Explicou-me qual o problema e indicou-me a solução. O meu marido lembrou-se de fazer um acompanhamento de legumes assados no microondas, saudável e rápido. Perguntou ao chatgpt e saiu-lhe um belo acompanhamento. Quando recebi o relatório de umas análises, digitalizei e pedi informação. Relatório imediato e bem explicado. Precisei de ter um contrato para um certo assunto. Pedi-lhe e obtive um de tal maneira bem feito que foi aceite sem uma questão, como se tivesse sido feito por um advogado de mão cheia. Coisas assim, simples. Além disso, pela minha experiência, de vez em quando, quando quero estar 100% segura ou alguma coisa me parece inconsistente, vou validar o que 'ele' diz e não raras vezes detecto algumas imprecisões. Corrijo-o e acabo por receber uma resposta 'limpa', sem incorrecções.
Mas imagine-se isto mal usado ou usado por quem não se dá ao trabalho de validar ou por quem quer usar para efeitos nocivos. Ou no ensino, usado por alunos que fazem os trabalhos dispensando-se de estudar, investigar, aprender.
Ou, pior que isso, usando o algoritmo para incorporar programação mal intencionada.
E não falo, porque me parece óbvio, que isto torna dispensáveis muitas profissões.
Mas os riscos são maiores que isso. A BBC não é propriamente sensacionalista. Recomendo que vejam o vídeo abaixo. Está legendado. Claro que há sempre quem desvalorize. Se calhar, quando eu cheguei a Portugal e disse que tinha visto pessoas a conduzirem e ao telefone houve muita gente que achou que era uma excentricidade francesa, um brinquedo. Ou, quando eu cheguei cá e disse que fazer o orçamento da empresa poderia passar a ser uma coisa automatizada que permitia fazer simulações em tempo real, houve quem me achasse uma deslumbrada ou uma miúda que falava do que não sabia. Há sempre quem não consiga ver o alcance do que por aí vem e só dê por ela quando a onda está a passar-lhe por cima.
Talvez não venha a ser drama nenhum. Talvez. Assim o espero. Mas, por via das dúvidas, deveríamos prestar atenção ao assunto, ouvir os que talvez saibam um bocadinho mais do que nós.
AI2027: Is this how AI might destroy humanity? - BBC World Service
A research paper predicting that artificial intelligence will go rogue in 2027 and lead to humanity’s extinction within a decade is making waves in the tech world.
The detailed scenario, called AI2027, was published by a group of influential AI experts in the spring and has since spurred many viral videos as people debate its likelihood. The BBC has recreated scenes from the scenario using mainstream generative AI tools to illustrate the stark prediction and spoken to experts about the impact the paper is having.
4 comentários:
Já está a destruir com o seu uso, ativamente estimulado pelas tecnológicas, para as tarefas mais elementares do dia-a-dia, por um misto de preguiça e deslumbramento tecnológico, sem se pensar nas consequências. Não se fala o suficiente do consumo absurdo de energia e água, provavelmente é isso que nos vai destruir, muito antes da IA o "decidir". Mas primeiro são os que não têm voz a deixarem de ter acesso a água, enquanto outros pedem ajuda ao chat gpt para fazer o trabalho de casa. É a história da "humanidade". Essa da IA "convencer" a bondosa administração norte-americana a dar mais um passo "porque os chineses..." tem piada, não é e não foi sempre assim, alguma vez precisamos que fosse a IA a conduzir-nos ao abismo...?
Os "deuses" de outras galáxias , nossa origem , estão no controlo,,,,,,
Daqui a dez anos volto cá para comentar se o blogue ainda existir.
Não é preciso usar a IA para aprender a programar o regador da relva (nem canhões para matar mosquitos). Basta o youtube e os seus N tutoriais gratuitos. Foi o que eu fiz por aqui: ouvi um brasileiro bacano e correu tudo bem sem espinhas. Quanto ao resto, já nem digo nada. Anda tudo cada vez mais maluco. Só não sei se isto tem algo de novo, à parte o armazém de "dinamite" cada vez mais carregado. Basta ver os quadros do Bosch para ter uma ideia do que é que ele pensava sobre o que se estava a passar entonces. Seguiu-se mais de um século de guerras de religião, inquisição, e não só. Do que é que eu estava a falar? Perdi-me .... :-))
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