Um dos meus netos sempre gostou muito de Física, mas, de início, não sabia bem que curso seguir em que a Física fosse dominante. Eu dizia-lhe: aeronáutica ou qualquer outro em que se estude a utilização de drones. Na altura, era muito miúdo, para ele drones era coisa de brincar, ria-se da minha sugestão.
Sempre me mantive nessa ideia, mas sempre sem sucesso.
Quando teve que escolher, convictamente escolheu o curso e o sítio onde queria frequentá-lo e, tal como aconteceu anos antes com o tio, também ele estava profundamente decidido e convencido de que era aquilo e ali e nem valia a pena escolher outras opções. Depois lá cedeu (tal como o tio anos antes) aos conselhos prudentes e preencheu as outras linhas. Mas, felizmente, conseguiram ambos o que queriam.
Nada a ver com drones.
Mas eu continuo a achar que os drones são uma das muitas alterações substanciais a que vamos assistir num futuro próximo. A nível bélico nem preciso desenvolver pois é cada vez mais evidente o poder extraordinário dos drones no cenário de guerra. Para fins de reportagem também é mais do que óbvio e já banal. Mas não tenho dúvida que, para muitos outros fins, é um meio de transporte (de coisas e, um dia, de pessoas) que vai vir para ficar. Claro que se levantarão mil problemas (de regulação, de segurança, etc) mas as soluções irão aparecendo.
Li que podem vir a constituir uma ameaça existencial, e acredito que sim. A inteligência artificial, os drones, os poderosos meios de processamento e de comunicação, tudo junto, quando nas mãos de gente doida, serão um cocktail muito perigoso.
Não sei como se vão compatibilizar os ideais que alguns dos nossos jovens professam, quase num happy retorno aos tempos de peace and love e flowers in their hair, com esta dura e fria realidade tecnológica.
Ao mesmo tempo, leio que há avanços no tratamento do cancro e de outras patologias. E seria bom que toda a inteligência humana estivesse sempre ao serviço do desenvolvimento criativo, sempre com a preocupação da paz e da felicidade. Mas não, temos podido constatar como há uma maldade intrínseca dentro do corpo de uma parte significativa da população.
Claro que usar drones para transportar, por exemplo, órgãos para transplantes, medicamentos urgentes, encomendas críticas ou, mesmo, para resgatar pessoas em lugares de difícil acesso, são utilizações virtuosas. E creio que em breve aí os teremos nessas missões. Mas usá-los para vigilância indevida ou para carregarem explosivos ou armas de outro tipo já me parece daquelas utilizações perversas.
Mas, como em tudo na vida, há que ter abertura para ver o outro lado. Por exemplo, louvo a capacidade extraordinária que os ucranianos têm demonstrado para fazerem face à criminalidade terrorista da Rússia, usando drones.
Seja como for, o controlo sobre a segurança da vida humana vai-se deslocando dos humanos para as tecnologias. E se isso tem inegáveis vantagens, tem também riscos diabólicos. O que aconteceu no pavoroso acidente com os dois comboios em Espanha prova bem como, afinal, os mais infalíveis sistemas são, por vezes, de uma assustadora vulnerabilidade. Há um sistema todo automatizado no controlo do movimento dos comboios. E está tudo bem. Até ao dia em que o sistema falha. E, de repente, tudo depende de alguém que difunde avisos e de, do outro lado, alguém que os recebe, os interpreta e age de acordo com o que interpretou. E, se interpreta mal, aí vão os comboios -- cheios de gente indefesa, incapaz de antever o desastre e de se precaver -- a alta velocidade, esmagarem-se um contra o outro.
O mesmo pode vir a acontecer com um céu atravessado por drones no dia em que um sistema falhe e alguém dê instruções erradas ou mal compreendidas. Pode não haver guerra nem ser intencional, mas as cidades podem vir a sofrer situações de perigo colectivo como agora acontecem Espanha.
São percentagens pequenas, é certo. Mas a vida deveria ser tranquila, tudo concebido para melhorar as nossas vidas, sempre com garantias robustas de que o céu não nos cairá na cabeça, de que viajar de comboio é super seguro, de que haverá sempre mecanismos de último recurso para evitar danos colectivos.
Mas, enfim, estou cansada, estes dias, por circunstâncias várias, têm-me tirado de casa e, portanto, estou um pouco cansada e à míngua de notícias animadoras. É isso.
Desejo-vos uma boa quinta-feira
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