Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, fevereiro 10, 2018

Smile





Tenho que confessar: algumas pessoas tiram-me do sério.

Gosto de fazer coisas, não perco tempo com mas-mas, se há o que fazer eu penso durante dez segundos, vejo em volta quem posso arregimentar para me ajudar na faina, desafio as pessoas a fazerem o que nunca fizeram, puxo por elas -- e não perco mais tempo, arregaço as mangas e meto pernas a caminho. E alegro-me no mais fundo do coração quando as vejo motivadas, a descobrirem o mundo, a sentirem que acreditam nelas. E depois passo-me quando vejo que há quem fica a patinar em seco, não querendo arriscar, quem se atemorize e não faça a sua parte.

Por mim, em querendo, arrastava o mundo para outra galáxia. Não me falta energia, capacidade para empolgar os outros nas jornadas que empreendo. Mas falta-me a paciência para esperar pelos que parece que têm medo de se mexer (medo de poder não estar a fazer bem, medo de poder vir a sofrer críticas por não fazer como deveria ser feito). Ficam, então, à espera do último input, da última confirmação -- e o que acontece é que as oportunidades vão passando. E os que estão mais do que disponíveis para avançar ficam eternamente à espera de que soe o tiro de partida. Desmotivam-se, desacreditam, abandonam. 

Por isso, arreliei-me a sério. Quando me arrelio já não tenho vontade (ou capacidade) de disfarçar. Não disfarço. Vai à bruta. Se calhar mais à bruta do que deveria. Se calhar, chega aos outros quase como uma agressão. Mas não pretendo agredir, pretendo apenas que se mexam.


Mas logo a seguir me enterneci ao ver a minha menina, há pouco tão hesitante e frágil e agora já toda confiante, afirmativa, destemida. E o outro que tem andado meio perdido e agora a vir contar-me as suas ideias, todo ele projectos e vontade de voar. Ou o outro, todo bem disposto, a rir e a fazer-me rir, todo irreverente e teatreiro e a mostrar que conta comigo para virar o mundo do avesso.

E, de repente, aquele com quem me passei por não lhe ver a acção que me parece urgente, começou a dar sinais de que finalmente se moveu e eu enchi-me de esperança: o mundo é mesmo capaz de se ter começado a mexer e isso é o que eu quero.

E consegui ir à fisioterapia e o fisioterapeuta novo, um homem, está a pegar os cornos do bicho-ombro de outra maneira e ao fim de duas sessões parece que já sinto a diferença. Explicou-me o que tenho em cada sítio onde me dói, dizendo o nome da coisa e agarrando-a para eu perceber. E fez-me sentido. Percebi qual o tendão que teve a rotura, como a inflamação se formou, dando origem a uma bursite. Com energia, muito focado, desfaz contracturas, alisa músculos, puxa o braço. Tamanha a tareia, custa-me. Mas, enquanto me dói, penso que aquilo é para ficar boa e fico a suportar melhor a dor.


Cheguei tarde, tarde. Foi, pois, bem noite que fomos jantar à praia. Frio e tarde -- demais para passear à beira mar. Paciência, fica para outro dia.

Agora já passa bem da meia noite, estou a dormir aqui no sofá da sala, tentando (em vão) acordar. Está um calorzinho bom e eu estou em paz. Não guardo nunca nada por dizer. Digo tudo de caras e na hora. Digo, fica dito, sigo em frente. Não faço planos, não me inquieto. Mas, se vejo um caminho e me parece que leva a bom porto, então, eu vou por ele e arranjo quem venha comigo. Gosto de tentar descobrir onde levam os caminhos que nunca antes percorri. Gosto de me aventurar. Gosto de sentir o medo miúdo de não saber como chegar ao fim. Gosto de partilhar o medo para sentir nos outros a força que me leva mais longe.

E não há muito mais a dizer. Aliás, haver até havia, eu é que tenho que acordar para ver se consigo chegar ao quarto.

Talvez só mais isto: está-se bem. 

Trabalhos efémeros na natureza by James Brunt

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Antes de tentar chegar à cama, só mais um pouco na companhia da beleza. Palavras, bailados, jardins.

Ou seja, as palavras interditas nos jardins selvagens, com bailado pelo meio.









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E um bom fim-de-semana a todos.

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