quarta-feira, novembro 04, 2026

Na mesma noite, temos o Montenegro a fazer (uma fraca) prova de vida e, espero eu, o afogamento político do lame duck
-- E, ainda, um apelo para um crowdfunding feito pelo meu marido --

 

Desde o momento 1 que tenho e mantenho a mesma opinião: Montenegro não tem estofo de estadista, não tem cabedal para ser primeiro-ministro, não tem perfil de político democrático e moderno. 

De cada vez que o vejo em acção, só me faz lembrar aqueles tipos habilidosos, videirinhos, que conseguem ir-se safando por conseguirem andar naquele limbo de esperteza em que o que dizem não é declaradamente mentira mas também não é bem verdade, pelo menos não é toda a verdade, em que o que fazem não é verdadeiramente ilegítimo mas também não é eticamente muito correcto. São pessoas que, para confirmarem a sua razão, dizem: 'é tão verdade e tão correcto que, se fosse hoje, faria exactamente a mesma coisa', e fazem um sorrisinho matreiro como se, com isso, arrumassem quem deles duvide. E não percebem que estão apenas a demonstrar a sua tacanhez, uma tacanhez que é um misto de provincianismo, de falta de mundo, de auto-satisfação, de teimosia saloia.

Montenegro não tinha experiência de governação, não tinha experiência de gestão, não tinha experiência no mundo da economia real. Sempre rodeado de fiéis do seu círculo nortenho, Montenegro especializou-se, em conjunto com o seu grande amigo Hugo Soares, no drible retórico, nas tiradas trauliteiras, nas braçadas para sobreviver politicamente nos conturbados tempos em que Passos Coelho se gabava de ir mais longe do que a troika e em que, fosse o que fosse que acontecesse, a culpa era sempre do PS. Montenegro viciou-se nisso.

Quando eleito, formou um Governo em que grande parte dos ministros ou tem objectivos pouco transparentes ou tem uma agenda de contactos 'que interessam' ou tem apoios nas distritais ou nas cocelhias. Daquele grupo todo, talvez se salve um ou dois ministros e um ou dois secretários de estado. Não chega.

Herdaram, do PS, umas contas certas, procedimentos bem oleados, 'cofres' cheios, planos de acção em movimento, inciativas em vias de conclusão ou a caminho disso. 

Tendo ganho as eleições por criticar ferozmente o PS e por prometer resolver todos os problemas em três tempos, com uma perna às costas, fosse na saúde, na educação, na habitação, fosse onde fosse, o que é que Montenegro fez?

Pois bem. Montenegro montou-se nos planos do PS e começou a colher os frutos do que o PS plantou. E, com a nula humildade e a indelicadeza pacóvia que o caracteriza, em vez de o referir, não senhor, colhe os louros de trabalho alheio e finge que é mérito seu. E, ao mesmo tempo, mal agradecido, ainda tem a falta de vergonha de, sempre que acusado de não resolver nada, atirar as culpas para o PS.

E, para parecer que tem ideias próprias, Montenegro pôs os seus ministros a fingir que faziam reformas. Reformas nenhumas. Tretas. Mas nem tretas conseguem fazer em condições. O que tem acontecido é que estragam tudo em que tocam. Tudo. Não há uma em que tenham mexido que não se tenha ensarilhado completamente.

Com a agravante que, mesmo perante o descalabro, Montenegro teimosamente mantém o desastre. Não arreda os incompetentes que demonstram à saciedade que não dão conta do recado. Tem-se visto isto em todas as áreas. Por exemplo, na Saúde as notícias dão conta do desastre nas contas, gastam dinheiro como se não houvesse amanhã, e, no entanto, todos os indicadores estão piores. Não houve um único problema resolvido. Pelo contrário, vários problemas acentuaram-se. E, no entanto, Ana Paula Martins mantem-se em funções. Aconteceu o mesmo na Educação. Acontece o mesmo com outro que tal, o chico-esperto Luís Neves.

Por isso, não é novidade que na Habitação o que Montenegro tem para apresentar sejam resultados já obtidos pelos socialistas ou que resultam dos planos dos socialistas. Tirando isso, ao isentarem de IMT os jovens (até aos 35 anos) o que conseguiu foi que a procura tenha aumentado, segundo se diz com muitos pais a comprarem casas em nomes dos filhos, e com a garantia do Estado, o que toda a gente comprova é que isso aqueceu ainda mais o mercado, puxando o preço das casas para cima.

Depois de ter estado escondido durante semanas -- enquanto o país se dividia entre acampados e não acampados, entre a favor ou contra as bastonadas, com discussões legalistas sobre se as bastonadas vinham ou não a propósito -- eis que aparece, em horário nobre, para vir dizer que vai falar com o PS e com o Chega, deixando toda a gente a pensar que só pode ter levado um valente apertão no Conselho de Estado para que finalmente perceba que deve articular-se com a Oposição e para que tenha a coragem de se chegar à frente e dar a cara pelo Governo.

E que grandes novidades teve ele para nos comunicar? Anunciou o que fez, e era o que se esperava, que viesse tranquilizar as pessoas, mostrar que têm estado a trabalhar -- mas, por exemplo, se mexeu na lei dos solos, mexeu tão ao de leve que ninguém deu por isso, e, se vai chegar ao fim da legislatura com mais 50.000 casas (as tais que vêm do PS ou que são a concretização dos planos PRR), ainda bem, mas, caraças, não sabe que faltam mais 250.000? Talvez algumas venham de edifícios públicos reabilitados, mas, caraças, de quantos? E talvez algumas venham de mais casas que os senhorios ponham no mercado, mas, caraças, quantas? E não percebe que com esta instabilidade e esta inação e esta crise nas ruas o que acontece é o contrário, os senhorios retraem-se, ficam com medo de confusões e preferem desfazer-se das casas ou fechá-las?

Portanto, o que vi na conversa de Montenegro é que se mantém igual a ele mesmo: sem rasgo, sem ideias, sem estratégia. Além do mais, desgastado. Ou melhor: gasto.

____________________________________________________

Entretanto, o meu marido enviou-me uma gracinha para eu publicar. Aqui vai:

Sugiro um crowdfunding para uma ida do Montenegro & Associados a Madrid

Vi nas notícias que o governo espanhol retirou centenas de tendas da Praça do Sol sem se ver uma única imagem de violência policial. Afinal é possível a polícia atuar de forma democrática e civilizada. Por isso sugiro a abertura de um crowdfunding para financiar a viagem a Madrid, pelo menos, do Montenegro, do Neves e do diretor nacional da PSP para um curso de formação acelerado com o Pedro Sanchez e restantes envolvidos na operação de Madrid. Alerto para que estejam atentos não vá o Neves ver algum atrelado ou algum Golf que lhe possa dar jeito e desencadeie ações de apropriação indevida, o que seria embaraçosa para a delegação governamental. Se os fundos forem suficientes sugiro também a ida do Leitão Amaro para transportar as malas.

___________________________________________________________

O pato devoto da Reflecting Pool vai ou não vai ao fundo?

Enquanto escrevo, estou a ver a evolução das contagens dos votos nas Midterms americanas, mas ainda não consigo atirar foguetes. Espero muito que o pato-patareco, coxo, anafado e tonto, leve uma abada que vá de banda, e não consiga sequer fazer aquilo que anuncia: que vai vetar tudo, ser o Sr.Veto. 

Mas desejo que o cataclismo trumpiano aconteça, que não dê sequer para levantar cabelo. Nos dias de hoje, para grande parte do mundo, seria uma das melhores notícias.

Vamos torcer, ok?

Sem comentários: