Desde que me tornei utente do SNS tenho-me estreado em algumas coisas. Por exemplo, fui a uma consulta num grande hospital público. Não correu mal embora a exiguidade de meios dentro do consultório (tinha equipamentos mas poucos, antiquados, diria que talvez attobsoletos) e o ser um espaço partilhado com outro médico me tenham feito alguma impressão. Depois entrou o que devia ser o chefe de equipa: interrompeu o que os outros estavam a fazer e ignorou-me completamente, sem a mínima consideração ou boa educação. Pos-se a falar com os outros omo se não estivesse ali mais ninguém. Fiquei com vontade de o chamar à razão, mas, claro, não o fiz. Certamente ainda acharia que eu não estava boa da cabeça.
Depois de frequentar durante anos a fio a medicina privada, é para mim sempre um banho de realidade inserir-me num meio que apenas conhecia de quando ia com os meus pais às urgências ou, das vezes em que estiveram internados, quando ia visitá-los. E, mais tarde, quando acompanhava a minha mãe às consultas de insuficiência cardíaca. Mas, embora com eles fosse também um hospital distrital, nada que se compare com a dimensão brutal deste.
Lembrei-me da minha mãe, quando não queria ir às consultas de insuficiência cardíaca e, sobretudo, estando sempre enervada, creio, por eu estar com ela e ouvir tudo o que era dito, muitas vezes me dizer: 'Mas o que é que eu estou aqui a fazer? Tenho alguma necessidade disto?'. Não apenas, por ela, saltava aquelas consultas, como, a ter que ser acompanhada, questionava o ter que aturar a desorganização daquilo em vez de ir a um hospital privado, já que tinha ADSE e um seguro de saúde. Eu não tenho ADSE mas tenho seguro. E estou habituada à organização, ao conforto. Ali, naquela sala de espera, estavam seguramente mais de cem pessoas. E toda a espécie de situações. E também me perpassou pela cabeça: Mas o que é que estou aqui a fazer? Qual a necessidade?
Mas depois moderei-me e pensei: E porque não?
Depois, de certa forma, gosto de observar.
Vi um homem que me fez lembrar um colega que tive que trabalhou quase até morrer, quase parecia já um defunto, magro, amarelo, esquelético, toda a zona abdominal inchada. As pessoas já ficavam aflitas sem saber como lidar com a situação e ele, teimosamente, ia trabalhar todos os dias. Quando estava mais aflito, saía, ia para o carro. Depois voltava. De feições quase irreconhecíveis, tal o estado irreversível e terminal em que se encontrava. E no hospital vi um homem assim. Fez-me muita impressão pois acho que é de uma coragem arrepiante. Mas se calhar é mais que isso, é instinto de sobrevivência, é não desistir até ao último suspiro. Em vez de se desviar o olhar talvez fosse de ir ter com ele e fazer saber que invejamos a sua bravura.
E vi uma mulher não muito nova, diria que talvez pela minha idade mas francamente envelhecida. Ou talvez cansada. Estava a acompanhar uma senhora muito idosa, muito frágil. Lembrei-me das minhas últimas vezes a acompanhar a minha mãe, quando foi fazer os exames (no privado, de urgência) que haveriam de confirmar que estava já em fase terminal. Já mal andava, o meu marido quase tinha que a pegar ao colo para a tirar do carro, e tinha que ser posta em cadeira de rodas. Isto cerca de um mês depois de estar bem, a andar normalmente, de ter ido às compras, de eu não desconfiar sequer do mal que a consumia. Ao ver aquelas duas lembrei-me desses dias tão tristes. Tive que desviar o olhar. O caminho para a noite escura é um bocado triste.
E também vi um casal, também já com alguma idade. O senhor tinha um penso num olho e estava um pouco combalido. E era a mulher que o ajudava. Mas ela também parecia um bocado perdida no meio daquela barafunda. Tive vontade de os ir ajudar. Mas estaria a imiscuir-me, quase a evidenciar que era notório que estavam a passar um mau bocado. E as pessoas muitas vezes têm o seu orgulho. Pensei que a idade é tramada
Agora uma coisa é certa: um grande hospital destes beneficiaria muito, e digo mesmo muuuuuuito, se fosse gerido com a eficiência e o profissionalismo das equipas que gerem os hospitais privados. E os utentes seriam os grandes beneficiários. Provavelmente os contribuintes também.
Tirando isso, o que desejo, e desejo com toda a convicção, é: longa vida ao SNS.
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Desejo-vos um dia feliz
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