terça-feira, setembro 15, 2026

Muito ruído e alguma substância

 

É sempre assim. Penso que o meu corpo segue a racionalidade que procuro ter. Mas não segue. Sabendo que tinha que me levantar cedo, fui para a cama sem estar a dormir em pé, que é como gosto de me deitar. Pus o despertador. Vi que nem seis horas de sono. Mas menos mal se as dormisse. Claro que não dormi. Acordada até começar a perceber qiue o dia já dava mostras de querer levantar-se. Daí por um bocado, o despertador.

O meu marido ouviu-me na casa de banho e foi dizer-me que ia sair para o passeio matinal do dog e que só entraria depois dos homens terem entrado. Pouco depois, os homens. Carregaram coisas e coisas e começaram a trabalhar. Entretanto, o meu marido chegou e sitiou a fera.

Nos trabalhos, o costume: imprevistos, coisas técnicas, queriam falar com o meu marido. Não percebo metade, apenas que tem que ser.

No fim, à tarde, quando se vão embora vejo lá fora uma coisa horrível. O meu marido diz que com tinta se disfarça. Não creio. Deveria ter acompanhado e dito que não. Só que, nestas coisas, me afasto, não tenho paciência, cada um dá sua opinião e nenhuma me agrada e, a bem dizer, não percebo bem o que dizem. E eles também não estão interessados na minha opinião. Mesmo cá dentro, ao ver o resultado, penso: mas porque não ficou centrado? O meu marido diz que foi para aproveitar as furações e que assim também não está mal. Está. Podia ter ficado melhor. Ele diz: não vale a pena, não há nada a fazer.

Fico arreliada. Um dia inteiro de irem ao carro, depois irem buscar material, depois vão almoçar, depois desliga o quadro, depois liga o quadro, depois, 'minha senhora, podemos falar com o seu marido?' -- e, lá fora, o cão permanentemente a ladrar, um chinfrim do caraças, alto e bom som, ininterruptamente. A cabeça feita em água, uma vontade de que se despachem e se vão embora.

Mas, no meio, um telefonema bom, como se nos falássemos todos os dias quando passam anos ou meses sem nos falarmos. Mas, de cada vez, é como se estivessemos a retomar a conversa do dia anterior. Conversa boa, fluida, animada e franca como sempre foi. No fim, ao contar ao meu marido, ele diz: 'estás a falar como se fosses ela'. O sotaque dela cola-se-me, falo e quase parece que é ela que está a falar através de mim. E quase adivinho o que ela vai dizer. Contava-me o que uma outra lhe tinha dito e eu, ao ouvir, reagi com um comentário. E ela, 'foi isso mesmo que eu lhe disse'. E as nossas interjeições são iguais. Uma amizade que vem do século passado.

Depois, uma troca de mensagens com uma outra. Conta-me o que tem andado a fazer, um trabalho meritório. A minha prima disse-me dela: 'tem um feitiozinho... por causa dela muita gente deixou de trabalhar lá, fugiram para não ter que a aturar'. Não me admiro. Tem mesmo um feitiozinho, sempre teve. Muita gente não gosta dela. Mas eu gosto de conversar com ela, e, de longe, por vezes trocamos longas mensagens, conversas interessantes, fora dos temas correntes. É culta, informada, viajada. Não foi feita para ser consensual, parece que leva tudo muito a peito, que analisa as coisas sem que o coração interfira. Não sei, não sei bem dizer o qu elhe acho. Mas gosto de conversar com ela e ela diz que gosta de conversar comigo. As outras dizem-me: 'gabo-te a paciência'. Mas não preciso de paciência. Há pessoas que não nasceram para serem afectuosas, e isso não tem mal. É casada e tem filhos pelo que provavelmente há momentos em que consegue sentir e demonstrar afecto. De qualquer forma, ela age a pensar no bem dos outros. Apenas o faz de uma forma científica, talvez distante, não sei. Nunca soube interpretar.

E, no meio da confusão cá em casa, ainda tratei de muitas coisas. Ao fim do dia, depois de termos arrumado a casa e posto tudo no sítio, fomos passear para a praia. E soube-me maravilhosamente. Olhei o mar, olhei as pessoas, fotografei. Sempre o mesmo encantamento. Parece que me descansou a cabeça.

Esta segunda-feira, ao fim da tarde

Depois de jantar, sentei-me no sofá e tive que fazer um grande esforço para não adormecer.

Penso nos dias em que tinha que sair de casa antes das 6 para ir ter reuniões às 9 da manhã a trezentos quilómetros de distância. E metia almoço, muitas vezes visitas ou continuação de reuniões na parte da tarde e chegava a casa por volta das 9 ou mais da noite, perdida de cansaço para no dia seguinte a labuta continuar. E isto, nos últimos anos, depois de me deitar à uma e tal ou duas da manhã para estar a escrever no blog. E aguentava. Caraças. Aguentava. Não sei como, mas aguentava. 

Hoje, não sei se foi da agitação cá em casa, se do cão a ladrar que nem um perdido por imaginar que o seu rebanho estava à mercê de perigosos predadores e ele sem poder acudir, se por quê, estou assim a modos que ko. O meu marido disse que estava com vontade de cascar no Fanã, que só faz porcaria atrás de porcaria, agora isto de tanta criança sem lugar na escola, mas depois disse que estava com sono, mas que achava que eu devia escrever. E eu disse que escrevesse ele porque eu estava com sono para escrever o que quer que fosse. Não quis, disse que tinha que ir dormir. E eu estou na mesma, não consigo, também tenho que ir dormir.

1 comentário:

Daniel Marques disse...

Vera, que leitura envolvente para o fim de um dia que imagino francamente esgotante!

Mas é a fotografia que rouba o olhar e traz a bonança depois de tanta agitação. Há algo de imensamente pacificador nas cores que captou — esses tons quentes, quase terrosos, na popa e no casco de um dos barcos que se destacam de forma tão suave no meio do areal. É uma tranquilidade que parece transbordar da imagem e que, de certa forma, resume perfeitamente essa sua saída ao fim da tarde: a praia como um refúgio visual onde a cabeça finalmente descansa e o ruído do dia se dissolve na maré.

Um abraço e um excelente descanso!