quarta-feira, setembro 30, 2026

IA: uma questão de upsides e downsides com muitos $$$$$ à mistura

 

Há um vídeo que mostra uma senhora finíssima, vestida de uma forma sóbria mas distinta. Os gestos são discretos mas elegantes. Reconheço o estilo, é o agora chamado old money. Dá conselhos sobre o que deve constar do roupeiro de uma mulher de bom gosto sem ter que ter muita coisa a atravancar os armários, ou sem necessitar de gastar muito dinheiro. As pessoas assim, old money, são poupadas e não gostam de dar nas vistas pelo que poucas peças, monocolores, em que todas condizem com todas e em que a qualidade é boa, resolvem bem a questão da elegância e da economia. A senhora dá conselhos também sobre como pegar num copo de vinho, explica porque se deve pegar sempre pelo pé e não pelo bojo. Regras simples de como estar à mesa, de como conviver em sociedade. Cada vídeo debruça-se sobre um tema. Todos os conselhos me parecem correctos, não ouvi um único que me parecesse deslocado do contexto ou que contrariasse o que sei ou penso sobre o assunto. 

Mas o meu faro está cada vez mais apurado. Fui ver o perfil. Confirmei: a senhora não existe, os lugares em que se move não existem, tudo aquilo é gerado por inteligência artificial. Tudo.

Um outro vídeo: uma série típica dos anos 60 ou 70, uma família americana em que as cenas divertidas se sucedem. Aparece, então, por cima, um homem dos tempos presentes a dizer: 'o que estão a ver nunca foi filmado na realidade, aqueles actores não existem, tudo isto é gerado por inteligência artificial'. A seguir ele explica: 'enquanto está a ser difundida a série, decorre uma sondagem junto da assistência a perguntar como deve evoluir o argumento e, acto contínuo, no momento, o argumento da série adapta-se à sugestão mais votada -- podem entrar novos personagens, pode alterar-se o cenário, mudam os diálogos, mas tudo com coerência, sem saltos bruscos'. E, enquanto ele diz isto, nós assistimos a uma demonstração da capacidade da 'ferramenta'. No fim ele interroga-se sobre os riscos disto: poderemos estar a ver noticiários em que os jornalistas mostrem reportagens e em que se convidem pessoas a comentar o que se sucedeu, e ser tudo mentira, tudo inexistente, tudo gerado por IA, tudo assustadoramente real? Como vamos distinguir o real do falso?

Ouço os defensores acérrimos da inteligência artificial, os que só veem o upside da coisa (e uso a palavra upside deliberadamente, pois é assim que os fãs falam): os extraordinários avanços que a IA vai trazer à medicina, à matemática, à física, à biologia, à gestão, à história, ao direito... e por aí adiante.

E eu, que reconheço tudo isso, junto-me aos que, apesar de louvarem os benefícios, temem o que o downside pode fazer à sociedade. Sobretudo quando penso que cerca de 35 a 30% da população de alguns países, se calhar de muitos países, é ignorante, crédula, manipulável, estúpida até à quinta casa, e vai acreditar em tudo sem pestanejar, vai caminhar para o cadafalso a cantar e a rir como se fosse para uma festa (tal como hoje convictamente votam em tudo o que é alarve -- veja-se o caso de Trump, de Ventura, e de todos os que, do mesmo género, vão ganhando força nos países democráticos), fico francamente preocupada com o que estamos a fazer ao futuro dos nossos filhos e netos e aos que vierem a seguir. Temo que não seja coisa boa.

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Enquanto isto, se quisermos perceber porque não se conseguirá regular esta evolução e, muito menos, travá-la, nada como follow the money. Cito, apenas como exemplo, e para ilustrar a distopia absoluta, a incoerência paradoxal:

Anthropic alerta para riscos existenciais da IA ​​para a humanidade num documento IPO. Os investidores são alertados sobre os "comportamentos de autopreservação" da IA ao mesmo tempo que a empresa se prepara para uma possível oferta pública inicial de 2 triliões de dólares.

O mundo está a ficar um ninho de cucos sobre o qual voamos, no qual mergulhamos, no qual parecemos querer afundar-nos.

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Para aligeirar, dancemos ao som da agradável canção do vídeo abaixo.

E creio que será escusado dizer que ninguém compôs a música, ninguém a interpretou, ninguém deu corpo aos personagens, ninguém criou o cenário, ninguém filmou, ninguém tratou do guarda-roupa ou das luzes ou do som. 

O dinheiro que se poupa... 

Não é preciso ninguém. Só é preciso alguém usar a aplicação e escrever que quer um vídeo com um toque surrealista, com pessoas e animais, uma música pop no mesmo mood. E está feito. Tem um upside, então não tem? Um upside gigantesco. 

Mas e a quantidade de gente que se arruma a um canto, desnecessária? É para aqui que caminhamos? A aperfeiçoar-nos cada vez melhor para nos tornarmos cada vez mais irrelevantes?

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Surreal AI Music Video - "A Very Unusual Town" - Kelly Boesch | 4K

Legenda do vídeo: Uma cidade muito peculiar. Adoro quando um vídeo combina tão bem com a música. Estes clipes parecem um conto de fadas. Imagens feitas com #Midjourney e animadas com @Hailuoai_MiniMax #Minimax. Música feita com @suno.


Desejo-vos um dia feliz

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