quarta-feira, setembro 09, 2026

A minha casa

 

Esta casa, ao contrário da outra em que vivi antes durante vinte e dois anos e da outra, antes, em que tinha vivido também um ror de anos, e da casa de campo, tem muita manutenção. Já cá vivemos há seis anos e ainda estranho isso. Provavelmente tem a ver com as decisões dos anteriores proprietários que automatizaram tudo. Um dos filhos era todo engenhocas e, talvez por saberem que tinham sempre quem lhes resolvesse os problemas, não se importaram de 'artilhar' tudo e mais alguma coisa. O senhor também gostava de construir coisas, era todo dado à bricolage, aos arranjos de coisas. Também optaram por soluções robustas, de boa qualidade mas que requerem, também elas, conservação. Por exemplo, os estores são como nunca vi coisa assim, um material e um peso que não imaginam. Funcionam com motor elétrico, com comando. Aparentemente tudo bem. Mas, se falha a electricidade, não há estores para ninguém. Ou se falha um motor. E não há como levantar à mão. Os homens dos estores, quando cá vêm, dizem sempre que é raro ver-se estores assim, dizem que são de alta segurança, que por estas janelas não entra ninguém. Amanhã temos cá outra vez uma intervenção, provavelmente mais dois motores novos. E há mais uns quantos estores que precisam de ser alinhados pois são tão pesados que, volta e meia, algumas lâminas parece que desandam ligeiramente, e depois já não fecham bem. Juro: sinto falta de puxar pela fita e conseguir levantar ou baixar uma persiana, sem qualquer ciência.

O portão dos carros a mesma coisa: todo xpto. Agora parece que está com qualquer coisa a fazer mau contacto, e abre e fecha quando lhe apetece, tivemos que desligar, e temos que esperar que cá venha alguém especializado nesta coisa.

Dos sistemas de aquecimento nem é bom falar. Todos integrados e automatizados com uns a serem backup dos outros: painéis para isto e para aquilo, caldeira a gás e a pellets, salamandra elétrica, duas lareiras com recuperador de calor, uma delas dupla e outra com saída de ar para duas divisões.  E tudo ou quase tudo com termostatos, válvulas motorizadas, e sei lá que mais.  O meu marido queixa-se de carregar com os sacos das pellets ou com a limpeza das caldeiras, volta e meia lá tínhamos que andar de volta dos manuais a perceber como é que aquilo estava regulado ou programado. Uma canseira. E depois era preciso virem cá fazer a manutenção disto, daquilo e do outro. Muito bem.Vamos instalar um ar condicionado potente na sala principal, com potência para aquecer essa sala e o piso de cima, coisa sem ciência nenhuma e que seja só de carregar no botão. Para a semana vai ser instalado e que se lixem as complicações. 

Claro que ainda subsiste o sistema de aquecimento de águas sanitárias com os painéis e os tanques e com um sistema de válvulas e redundâncias do caneco mas isso agora parece que está estabilizado. Esse, quando a temperatura não está à temperatura suficiente, faz accionar a caldeira de gás, mas isso, até ver, está a funcionar bem. Mas, caraças, houve uma altura que sentia cá umas saudades do velhinho sistema de esquentador que era tão simples e tão funcional... 

E nem falei no quadro trifásico com tantos disjuntores que mais parece um piano e em que, volta e meia, andamos a tentar perceber o que é que está pendurado em cada fase, ou, quando alguém vem fazer qualquer coisa que mete electricidade e nos faz perguntas e é sempre uma charada pois, para além do quadro principa, ainda há um no primeiro andar e outro na cave e mais o quadro da iluminação exterior e mais o quadro do sistema de rega. E também penso como era tão bom (e ainda é, no campo) em que há um único quadro elétrico, simples, com dois ou três disjuntores. As coisas simples são tão boas.

Enfim. A verdade é que ou para manutenção preventiva ou para reparação ou para instalação de novo, parece que há sempre gente a ter que vir cá fazer qualquer coisa e há sempre dinheiro extra a gastar. É chato. Felizmente, in heaven, o que há é cortar mato, desbastar árvores, varrer e limpar. De resto é tudo básico. Nem estores há, são portadas que é ainda mais simples.

Dito isto: gosto imenso desta casa, desde o primeiro dia em que a vi senti que tinha chegado a casa. Tudo me parecia fazer sentido, todos os meus móveis e quadros pareciam encontrar aqui o seu destino.  Gosto da arquitectura, gosto dos materiais, gosto da forma irregular, gosto da luz a toda a volta da casa, gosto do jardim. Gosto que seja fácil de limpar. Gosto de me levantar e abrir a porta da cozinha para sentir o ar da rua e apanhar com o sol na cara, gosto de abrir as janelas e parecer que estou a trazer o jardim para dentro de casa. Gosto de fotografar o reflexo da luz nas paredes, nos espelhos, nos vidros. Gosto de tudo. Só gostava mesmo é que fosse mais simples, mais fácil de manter.

Sem comentários: