Dantes tinha um hábito que, nos últimos anos, fruto das circunstâncias, se perdeu. Consistia no seguinte: sempre que estava de férias, marcava massagem no hotel. Quase que recordava os hotéis pela qualidade das massagens.
Por exemplo, não me lembro nada de como era um certo hotel na Costa Vicentina mas jamais me esquecerei da épica massagem dada por um massagista homem, indostânico, que vimos a chegar numa motoreta, e que, quando cheguei à salinha, me mandou despir com ele presente, eu sem saber se haveria de fugir, se aguentar firmemente. Aguentei. Despi-me de costas para ele, temendo virar-me não fosse ele estar a olhar par amim. Um filme. Mas estava com um lençol ao alto, cobrindo-se a ele próprio até que depôs o lençol em cima de mim. Não me esqueço da minha inquietação. As massagens, até então, sempre tinham sido dadas por mulheres, tudo segundo um protocolo de reserva e privacidade que nada tinha a ver com este massagista. Pensei que era chato desistir pois podia estar a descriminar o homem só por ser homem, só por vir de uma outra cultura. E não me arrependi, foi uma bela massagem, decente, eficiente. Mas não repetiria pois, do que me recordo, acho que não consegui estar devidamente descontraída.
Pôr o corpo nas mãos de alguém é sempre, de certa forma, um tiro no escuro. Uma de que me lembro bem foi com uma jovem. Segundo me disse depois, era a primeira semana que fazia massagens. A massagem era para ter durado cinquenta minutos e levou quase duas horas. O vagar com que se aplicava, o vagar com que punha o óleo, tudo muito lentamente, quase milímetro a milímetro de pele. Eu estava na boa mas só pensava que, ao ritmo a que ela estava, nunca mais de lá eu saía. Finalmente, uma vez que a massagem incluía massagem na cabeça, fez a linda proeza de também me pôr óleo na cabeça. Escusado será dizer que saí de lá com o cabelo todo oleoso, a precisar de ser urgentemente lavado. Mas não me queixei, provavelmente até a elogiei. Não quis assustá-la ou desmotivá-la. Quando cheguei ao quarto, o meu marido já estava apreensivo pois eu nunca mais aparecia e não lhe parecia possível que eu estivesse aquele tempo todo a levar uma massagem.
Mas, peripécias à parte, lembro-me com saudade de quando escolhia as massagens, se eram de pedras quentes, se eram de relax, se eram de vitalidade, se eram sei lá do quê -- e só ver a descrição de cada uma já era parte do prazer de as levar.
Agora onde temos ficado nos últimos tempos, o hotel é bom mas é um hotel de charme, mais pequeno, sem algumas dessas mordomias que eu gostava de desfrutar. Portanto, massagens em férias não tem havido.
No entanto, apesar de experimentar diferentes tipos de massagens: azeite, chocolate, pedras, etc, sou conservadora: só as levo em lugares 'normais', asseados, em que há garantias mínimas de que serei atendida por uma mulher, boa profissional. Por muito afamadas que possam ser algumas outras massagens, jamais eu ousaria tentá-las. Há aquilo de se dizer 'nunca digas nunca' mas, neste caso, tenho a certeza que o mais longe que a minha temeridade me permite é o que já permitiu e não voltará a permitir: a massagem dada por aquele homem, segundo protocolos atípicos. Não correu mal, foi uma boa massagem. Mas podia ter sido desconfortável. E isso eu não quero.
Têm fama as massagens dadas por indianos na cabeça de homens. Vejo e imagino que seja até hipnótico, se calhar agradável. Mas eu não meteria a minha indefesa cabeça nas mãos de um tipo daqueles. Vejo o que eles fazem: massageiam, sim, mas também esfreguem, batem, rebatem, viram, reviram. E, quando mete barba, só falta arrancarem a cabeça, tantas as tropelias que lhe fazem. E depois sabe-se lá que óleos são aqueles, que águas são aquelas, que intenções são aquelas. Por muito bem que possa saber, eu não deporia a minha vulnerável cabecinha nas mãos de uma enérgica criatura como esta que aqui abaixo vemos.
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