segunda-feira, setembro 19, 2022

Uma tarde dourada de um verão que está prestes a entregar-se nos braços do outono

[Post com uma espécie de culinária dentro]

 



Tarde em família. O sol bom, a temperatura amena, o ambiente tranquilo. Os meninos sempre felizes por estarem juntos. Aliás, primeiro chegou a turma da minha filha e os meninos, em especial o mais novo, estavam numa inquietação, só a querer que ligássemos ao tio, já inquietos com receio que se atrasassem ou não viessem. Por fim, apesar de insistirmos para se deixar estar quieto, acabou ele ligando ao tio. Para eles, quaisquer deles, quando sabem que vão estar todos, parece que a tarde não se concretiza enquanto não estão todos. 

De manhã, depois da nossa caminhada e antes de almoço, fomos os dois ao supermercado. Não sabíamos bem o que fazer para o lanche e, por isso, indo os dois, íamos validando as opções. Gosto de fazer lanches reforçados pois, como a tarde dá sempre para tarde, na prática, se quiserem, podem ir daqui quase jantados. Além disso, como felizmente apetite não lhes falta, mais vale jogarmos pelo seguro.

  • Começámos por escolher dois pães grandes com aspecto de pão de forma, um de Rio Maior e outro, salvo erro, de centeio da Baviera. Coloquei-os logo na máquina de fatiar, fatias finas. Para a próxima será mais prudente fatiar mais um daqueles pães. É que, apesar de nos parecer muitas fatias, voaram todas.
  • Para uma espécie de sobremesa, trouxemos também bolas de Berlim, por acaso sem creme, e uns muffins de chocolate. E também gelados.
  • Vieram também nectarinas e uvas. Gosto sempre que comam fruta. Apesar da fruta se dever comer depois da sobremesa, eu inverto a ordem dos factores para os motivar a comer fruta e gosto de dizer que sobremesa apenas para quem come primeiro a fruta.
  • Comprei um frango assado. Comprei batatas fritas. 
  • Comprei tomate maduro. 
  • E queijo fresco de barrar, guacamole, presunto e salmão fumado.

E, portanto, quando à tarde vi que estavam já a ficar com apetite, dirigi-me à cozinha onde o meu partner já me esperava para a preparação.

TOSTAS

Pus o forno a aquecer e, enquanto isso, o meu marido encheu as grelhas com fatias de pão. Quando o forno estava quente, deu-se início à operação. Só foram retirados quando o pão já estava não apenas quentinho mas, sobretudo, mais sequinho, mais tostadinho.

Entretanto, numa tigela coloquei um tomate grande, maduro, sem pele, cortado aos bocados. Juntei um bom bocado de azeite e um pouco de orégãos. Com a varinha mágica, triturei até estar uma pastinha quase macia. Num prato, colocámos tostas, com o pão de Rio Maior, barrado com essa pasta de tomate.

Outro prato ficou com tostas barradas com guacamole e com presunto por cima. 

Outro com tostas barradas com queijo e com salmão por cima. 

E mais dois pratos mistos.

Quando perguntei ao meu novo o que gostava mais no pão, respondeu: 'ovos mexidos' e eu pensei cá para mim: 'oh caraças... e era mesmo para ter feito também tostas com ovo mexido em cima... e, caneco, esqueci-me...!'. Já combinei com o meu marido que, para a próxima, não podemos esquecer-nos. Foi uma gaffe e tanto.


Fiz ainda um tabuleiro de ursa. Creio que já aqui expliquei como faço mas, just in case, aqui vai de novo. 

URSA

Desossei e cortei aos bocadinhos o frango assado e coloquei-os no tabuleiro. Por cima, cortei uma meia dúzia de tomates maduros aos cubinhos. Por cima, coloquei batatas fritas. Temperei com um pouco de maionese e um bocado de ketchup. Envolvi. Antes tinha cozido meia dúzia de ovos que depois coloquei em água fria mas mais facilmente descascar e para os arrefecer. Piquei-os por cima e polvilhei com orégãos. 

Era para ter comprado azeitonas pretas descaroçadas mas esqueci-me. Originalmente, deverá levar um pouco de cebola picada mas, para nenhum menino embirrar, não pus. Ainda pensei colocar uma maçã cortada aos cubinhos pois a maçã fica sempre lindamente, refresca, mas também me esqueci. Mas, ainda assim, ficou boa. Pelo menos, gostaram.

Para beber, água e a bebida preferida dos meninos: bongos. Os mais crescidos também gostam.

Eu só provei um pouco da tosta com tomate. Não costume lanchar, não tenho fome a esta hora. O meu marido também apenas tasquinhou. Para ele, preparou um gin. Mas, para mim, preparou um copo com bongo, rum, gelo, raspa de lima e dois bagos de uva. Bem bom.

Depois da turma do meu filho sair, eu e o meu marido e a minha filha fomos caminhar. O resto do pessoal ficou em casa pois estavam a ver um jogo de futebol que devia ser importante. 

E é isto. Um dia muito bom. Daqui a nada começa o outono e estas tardes longas em que podemos estar na rua até ao cair da noite já apenas serão possíveis com um casaquinho. Mas no problem, todos os dias são bons para estarmos juntos.

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As pinturas são da autoria de J. M. W. Turner e vêm na companhia de On the Nature of Daylight de Max Richter por Sophie e Josie Davis, violino, Colin Wheatley, viola, Ju Young Lee, violoncelo

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Desejo-vos uma boa semana, a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Afecto. Alegria. Paz.

domingo, setembro 18, 2022

Este imenso e insólito caleidoscópio*

 


A vida é uma coisa múltipla. Nela misturam-se passado, presente e expectivas para o futuro, misturam-se grandes crises mundiais com ínfimos problemas pessoais, misturam-se questões profissionais com questões pessoais, grandes alegrias e imensas tristezas, interesses e desinteresses, ficção e realidade, o bem e o mal, a aventura e o tédio, a intimidade e a indiferença, a morte e o nascimento, o amor e o ódio. E tudo o mais.

Enquanto Londres transborda com gente vinda de todos os lados para a ilusão de participar na despedida à Rainha e todos os Royals se desdobram numa cuidada e bem encenada coreografia e todas as forças de autoridade se multiplicam na execução de um exigente plano de segurança e enquanto a economia britânica se regozija com o inesperado afluxo de turistas e de consumo, dentro do caixão em torno do qual familiares e multidões circulam em passo lento o corpo de Sua Majestade segue o seu inexorável caminho rumo à inexistência. 

E enquanto uns se prostram em silêncio e outros festejam e outros choram e uns ameaçam e outros acusam e uns matam e outros cuidam de mortos e feridos... as nossas praias enchem-se de gente que aproveita o belo sol de um longo verão e as esplanadas vibram com gente que confraterniza e se diverte ou, simplesmente, desfruta a paz.

É assim mesmo. É normal e bom que assim seja. 

A vida alimenta-se dos impulsos entre polos de sinal contrário e se, por um lado, o The Guardian  mostra transactas fotografias da Rainha com outras celebridades como, por exemplo, Sua Majestade a não conseguir impedir-se de deixar cair o seu curioso olhar sobre os atrevidos seios de Jayne Mansfield, por outro mostra o terror levado a extremos de que a malavita russa é capaz como mais uma grande vala na qual centenas de corpos jazem demonstrando o horror a que foram sujeitos. 


E se a Monarquia é daquelas instituições que nada acrescenta e que pelo menos tem o mérito de ter um lado cinéfilo, ficcional, em que existem sempre imagens reais e afins nas quais há com o que entreter o pagode e estimular o consumo através da imprensa da moda, da decoração, da jardinagem, dos mexericos, dos amores e desamores já o mesmo não se pode dizer de regimes ditatoriais em que se cerceia a liberdade, em que se ignoram os direitos humanos, em que se desprezam todos os valores e princípios essenciais que devem reger o comportamento de sociedades que respeitem as pessoas.


Por isso, se podemos sorrir com alguma bonomia ou, mesmo, simpatia para as gaffes do novo Rei ou para a forma carinhosa como a sua Consorte de longa data o acompanha ou com admiração para os banhos de carinho que as multidões demonstram a tudo o que lhes cheire a realeza... estou em crer que ninguém com um mínimo de bons sentimentos consegue olhar para os corpos que estão a ser desenterrados em Izium sem sentir compaixão para os que sofrem as agressões e revolta contra quem as pratica. Nem se consegue imaginar o que estas pessoas sofreram antes de serem enterradas. Ao contrário daqueles de quem se diz que 'morreram tranquilamente' estes não tiveram certamente essa sorte. A sua vida foi-lhes ceifada prematuramente e, do que tem estado a descobrir-se, depois de terem sido torturados. Quantos não terão sido enterrados depois de humilhados, violentados, ou de assistirem à morte de outros ou, mesmo, enterrados ainda com vida?


E o que eu penso é que, por muito bom que esteja a ser o nosso dia, por muito quentinho ou dourado que esteja o sol, por muita alegria que sintamos com os nossos ou com o que quer que seja, devemos sempre guardar um bocadinho da nossa atenção para o que de mau se passa à nossa volta.

Claro que coisas más acontecem por todo o lado e, La Palice confirmá-lo-ia, não há coisas más que sejam boas. Mas, a par dos desastres naturais resultantes das alterações climáticas, não há na actualidade um drama de maior gravidade do que o a Ucrânia atravessa. A barbaridade do regime de Putin é miserável, inaceitável. Felizmente a contestação interna na Rússia começa a fazer o seu caminho e os seus potenciais aliados, Índia e China, começam a mostrar a Putin o beco sem saída em que se meteu, dizendo-lhe que a guerra tem que acabar.


Espero que o mundo ainda exista quando Putin passar à história como um medíocre agente do KGP que, depois de se alapar no Kremlin e distribuir riqueza pela família e por um punhado de oligarcas, virou um psicopata com aspirações imperialistas, congregando sobre si a repulsa generalizada do mundo civilizado pelos hediondos crimes de guerra que está a levar a cabo (sendo apenas apoiado, ainda que disfarçadamente, pelo PCP e por um punhado de palermas, alguns dos quais com presença na blogosfera portuguesa) e que, com o destamanho da barbárie de que mostrou ser capaz, sujou a Rússia de vergonha. 

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Entretanto:

Ex-CIA director predicts ‘terrible, painful retreat’ for Russia

Retired US Army general and former CIA Director David Petraeus tells CNN’s Jim Sciutto that he thinks Ukraine’s counteroffensive has placed Russia in a “disastrous situation.”

See Russians react to Ukraine's dramatic territory gains

As Kyiv pushes on with its counteroffensive, Russian troops are retreating from the occupied territory in Ukraine in one of the biggest defeats of the invasion. CNN's Matthew Chance reports on how Russians are reacting to the battlefield losses

Officials from 18 Russian districts call for Putin to resign

Deputies from 18 municipal districts in Moscow, St. Petersburg and Kolpino have called for Russian President Vladimir Putin’s resignation, according to a petition with a list of signatures posted on Twitter

Putin makes concession about Ukraine war in meeting with China

President Vladimir Putin addressed China's questions and concerns about the war in Ukraine during a regional summit. This is the first time Putin and Chinese President Xi Jinping have met since Russia's invasion over six months ago.
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* Caleidoscópio como o Arménio Pereira costuma dizer

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Desejo-vos um bom dia 
Saúde. Afecto. Paz (da verdadeira)

sábado, setembro 17, 2022

Estão a ensinar a Erica a rir, não sei para quê.
(Bem precisada estou eu hoje que tentassem isso era comigo)

 

Passa da uma e meia da manhã e só agora estou a pegar no computador. Cheguei há pouco a casa. A primeira coisa que fiz foi ligar à minha mãe pois, depois de a ter deixado em casa, disse-me que ficava preocupada por eu vir a conduzir sozinha tão tarde e depois de tantas horas de stress e sem comer. Depois tomei um belo banho. Depois de mais de oito horas nas urgências do hospital (cegada que, até ver e so far so good, parece ter terminado bem) só mesmo um banho para tirar de mim o ambiente de umas urgências superlotadas e com episódios de super-desorganização (outro dia conto, hoje não tenho energia). Venho destes lugares com vontade de contar tudo ao pormenor. Mas é melhor deixar passar algum tempo.

Depois do banho, misturei um bocado de papaia com iogurte, com frutos secos e canela e trouxe a tigela para a sala. Comi enquanto espreitava as gordas dos onlines. Estava varada de fome e claro que não foi isto que me consolou. Mas não ia agora, a esta hora, banquetear-me.

É que, ainda por cima, para almoço só tinha comido um queijinho e um pêssego. Por uma vez tinha reservado parte da tarde para um programinha bom que tinha recebido de presente pelos anos. A seguir, quando regressasse da coisa boa, logo lanchava. Mas não devo ter nascido para vida regalada porque, mal penso que vai ser, vem o destino e encarreira-me para trabalhos. E que trabalhos...

Com tudo isso, cansada como estou, não consigo pegar em assunto sério. Nem assunto de rir. Só consigo mesmo vir aqui dizer que isto dos robots humanoides me deixa sempre desconfortável. Ainda por cima quererem pô-los com lero-leros, a mandar boquinhas, a sorrir, todos prosas com fino sentido de humor. Até até em empatia já falam... Não gosto. Gente é gente, máquina é máquina. O planeta a pegar fogo nuns cantos e a meter água por outros, assassinos fascistas à solta com aplauso de palermas que preferem acusar os que querem ajudar os agredidos do que os criminosos que matam e destroem, uma crise generalizada de escassez de bens essenciais, uma inflação desgraçada... e há quem ande nisto, a querer ter máquinas a portarem-se como pessoas. 

Não há pachorra. Parece que não percebem onde é que isso vai parar. Gente doida.

Sugiro, pois, a leitura do interessante artigo do Guardian.

Scientists try to teach robot to laugh at the right time

Research team hopes system could improve natural conversations between humans and AI systems 

(...) Inoue and his colleagues have set out to teach their AI system the art of conversational laughter. They gathered training data from more than 80 speed-dating dialogues between male university students and the robot, who was initially teleoperated by four female amateur actors.(...)

e depois logo vêem se não tenho razão

E, caso queiram conhecer a dita Erica, aqui fica uma amostra.

JST ERATO ISHIGURO Symbiotic Human-Robot Interaction Project


Um bom sábado
Saúde. Boa sorte. Paz

sexta-feira, setembro 16, 2022

Emily em Nova Iorque

 

Não há nada mais comovente do que uma mulher corajosa. Nem há nada mais inspirador do que uma mulher que dá um pontapé para o ar em tudo o que são preconceitos, tabus, baias, e caminha de cabeça erguida e olhar destemido.

Se um homem rompe barreiras e deixa para trás algumas ortodoxias, a ideia que dá é que há nos seus gestos alguma coisa de provocador, alguma beligerância, quase como se quisesse afirmar-se através do desafio, através dos outros.

Se uma mulher avança com orgulho e valentia, quebrando barreiras e enterrando medos e censuras alheias, ela fá-lo por si mesma, por sentir que tem direito ao seu espaço, à sua vontade, à sua liberdade e felicidade.

Emily Ratajkowski tem 31 anos, mede 1,70m, tem um filho e acabou de avançar para o pedido de divórcio. Na sua primeira aparição pública depois desse passo importante na sua vida, Emily surgiu com um look sensual, um penteado desalinhado e ousou a toilette mais impudica do desfile de Tory Burch  em Nova Iorque. 

E eu acho isso uma maravilha. Não apenas gosto do vestuário, das transparências, das sobreposições, das cores mas também da coragem de Emily ao avançar orgulhosa e elegantemente como se estivesse a traçar o seu caminho. E está.

Aliás não foi apenas Emily que vestiu transparências ou sobreposições. Houve outros modelos também bastante bonitos e, mesmo, houve uns outros mamilos que também se afoitaram.

Abençoada liberdade e abençoada coragem. Salve Emily e salve todas as mulheres que não receiam as opiniões censoras ou os próprios medos.


Mas não é apenas na moda que Emily mostra que sabe o terreno que pisa. Emily é uma mulher que sabe o que quer, que empunha cartazes, que eleva a voz, que se arrisca a bem do direito sobre o seu próprio corpo e da defesa da liberdade e da democracia:


Salve Emily!

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Um dia bom
Saúde. Elegância. Coragem. Paz.

quinta-feira, setembro 15, 2022

Chamem o Milhazes para me ajudar aqui a dizer a 1ª palavra da interjeição:
C...., fui mordida por um jacaré!
[assim gritou a Muda Bella quando se banhava lá no Pantanal]

 

Do que vi na televisão, longas e longas e longas filas para chegarem perto do caixão real, tenho a dizer que me ocorre sempre a mesma prosaica dúvida: mas aquela gente não precisa de ir à casa de banho? Mas, na volta, ninguém precisa e a mais ninguém ocorre esta dúvida. Por isso, desde há muito interiorizei que sou a única mijona à superfície da terra.

Eu, com a minha tensão baixa, se estiver muito tempo de pé, ao fim de algum tempo começo a ver tudo a pôr-se branco. Disfarço, bebendo água. Só que se a água me ajuda a manter-me em pé, ao fim de algum tempo já deu a volta ao circuito e anuncia que está de saída. Agora imagine-se que estou no meio daquela gente toda, ali, horas e horas e horas. Haveria de ser bonito. Mas eles, bem os vejo, todos na boa, firmes e hirtos, frescos e fofos e sem vontade de ir à casa de banho. Juro. Não percebo.

Agora até me lembrei de uma secretária que havia quando fui trabalhar para um certo edifício. Reinava aquela mulher imponente, alta, forte, cabelos lisos compridos, muito louros, olhos muito azuis, voz poderosa. Toda a gente dizia que o administrador que ela secretariava era quem mais mandava no pedaço mas que quem mandava nele era ela. Falava como se, de facto, mandasse e impunha respeito a toda a empresa. Ninguém duvidava do seu poder e a ninguém ocorria desafiá-lo.

O gabinete dele era enorme, todo forrado a madeira, Num canto era a área da secretária, uma secretária enorme, e, no extremo oposto, perto da porta e rodeado de janelas, era o espaço da sala de reuniões, uma mesa comprida com dez cadeiras em volta. Entre um espaço e outro, tudo dentro do mesmo gabinete, era a zona dos sofás, uns belos sofás de pele. E havia grandes quadros a óleo, tapetes de lã, móveis de boa madeira. Outros tempos. Agora é tudo branco, liso, de vidro, uma monotonia. Bem. Para se chegar ao gabinete desse administrador tinha que se passar pelo gabinete dela, um gabinete que tinha também uma antecâmara onde ela deixava em banho maria os que chegavam antes de tempo ou sem estarem marcados. Havia ainda uma espécie de despensa cheia de estantes onde ela tinha o arquivo.

Até que ela achou que tinha muito trabalho e precisava de uma ajudante. As vontades dela eram ordens. Como o gabinete dela era grande, foi lá colocada uma outra secretária de madeira e outra de carne e osso. Claro que fez da outra gato sapato. E uma das primeiras instruções que deu à sua aprendiz foi que arranjasse um garrafa grande para que, quando tivesse vontade de fazer xixi, fosse à despensa fazer para a garrafa. A questão, segundo ela, é que uma secretária tinha que estar sempre disponível para quando o big chefão chamasse ou quisesse uma chamada ou para o que fosse. Claro que a outra, que também era de nariz empinado, se recusou -- disse que quando estivesse aflita iria à casa de banho e ponto. Claro também que não se aguentou muito tempo naquelas funções. E claro que também contou esta história e nunca ninguém mais se arriscou a entrar na despensa.

Mas, pronto, isto a propósito daquelas longas filas para se despedirem de Isabel II. 

Adiante.

Agora estou aqui a ver o Armário, um curioso programa com a Joana Barrios que se veste e maquilha a condizer com o seu fácies. Não se pode dizer que tenha uma beleza convencional mas a verdade é que a acho uma mulher interessante. É curiosa, carismática. E acho-a simpática. Gosto de vê-la quer aqui, quer nos programas de culinária. Tem sentido de humor, tem inteligência, tem graça.

Creio que o programa trata de marcas ou criadores portugueses ligados à moda ou à cosmética. Aproveito para ir vendo e escrevendo até dar o Pantanal. E, neste compasso de espera, aproveito também para dar uma circulada pelas notícias, pelos blogues (há com cada maluc@!) e pelo youtube.

E foi aqui que o meu amigo algoritmo tinha para me oferecer um videozinho mesmo divertido. O Porchat, esse ganda maluco, convida pessoas conhecidas para contarem cenas curiosas que lhes tenham acontecido. Aqui a convidada é Bella Campos, a Muda do Pantanal. 

E a história é do caraças: fora das filmagens, no período de descanso, estava a banhar-se no rio quando sentiu uma pressão na perna. Com a mão deu uma estalada no atrevido e foi então que percebeu que o atrevido era um grande jacaré. Nem imagino... 

Mas o melhor é vê-la e ouvi-la a falar sobre o sucedido.

Bella Campos foi mordida por jacaré durante banho de rio no Pantanal | 

Que História é essa, Porchat?

No Que História é essa da semana, Fábio Porchat recebe Bella Campos, Raí e Rodriguinho. Bella conta a história de quando foi mordida por um jacaré no Pantanal. A atriz deu detalhes do seu resgate e cuidados após o acidente.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Curiosidade e alegria. Paz.


quarta-feira, setembro 14, 2022

Querem lá ver que o petiz não tem a pachorra e o savoir-faire da querida mamã...?

 

Como é bom de ver, não tenho andado a comer, a mastigar ou a ruminar sobre os omnipresentes documentários e comentários sobre a falecida Rainha, sobre a Consorte, sobre o novo Rei, sobre os irmãos do Rei ou sobre os filhos. Não sou cidadã do Reino Unido ou da Commonwealth nem tenho recordações pessoais ou afectivas que me liguem aos Royals. Por isso, não os sigo caninamente, não consigo traçar-lhes traços biográficos nem consigo ter opinião sobre se Charles III vai modernizar a monarquia, se vai mantê-la viva e a vender canecas e outros gifts a todo o vapor ou se vai enterrá-la. Não sei, não faço ideia.

No entanto, acompanho o suficiente a comunicação social para saber algumas pequenas coisas. E é, portanto, a partir do pouco que sei que acho que o agora rei esteve bem quando, avant la lettre, demonstrou preocupações ecológicas e pôs em prática conceitos de sustentabilidade. Também acho que foi coerente e mostrou ser pessoa de fidelidade aos seus amores, quando, contra tudo e contra todos, apesar das tremendas dificuldades e contra a pressão da família e da opinião pública, se manteve inabalavelmente ligado ao seu amor de sempre, a sua Camilla, à altura casada com outro, mais velha e menos glamourosa que a sua belíssima Diana. E também aprecio o seu sentido de humor e a sua capacidade de rir em uníssono com a sua bem amada, tal como acho comovente a ternura que tem expressado em relação aos pais ao comentar publicamente a sua morte e ao agradecer o carinho das manifestações de pesar que os seus concidadãos têm demonstrado.

Tirando isso, pouco mais posso acrescentar. 

Por isso, limito-me aos fait divers, nomeadamente a esta sua recente baralhação sobre a quantas anda (o que é natural pois, ao mesmo tempo que o corpo da mãe anda em bolandas, de um lado para o outro, tem ele que andar também a bater perna por todo o reino, a discursar, a agradecer a gentileza de meio mundo e a fazer juras de que vai seguir o bom exemplo da darling mamma), à sua fúria com a caneta que se babou e lhe sujou os dedos e à cumplicidade de Camilla, sempre presente e atenta a seu lado.

'I can't bear this bloody thing': King Charles gets frustrated with leaky pen

King Charles became annoyed with a leaking pen during a visit to Northern Ireland's Hillsborough Castle on Tuesday.

Charles, alongside the Queen Consort, Camilla, was attending a reception at the castle, where he met with members of Northern Ireland's assembly.

During a book-signing ceremony towards the end of the visit, Charles realised he had initially signed the wrong date and then complained about the pen he was using, with the Queen Consort saying it was leaking 'everywhere'. The pen was swiftly vanished by a royal aide before Camilla sat down to sign the book herself


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E a propósito da risota cúmplice entre Charles e Camilla, partilho, uma vez mais, um vídeo com imagens que acho deliciosas

Inuit throat singing leaves Charles and Camilla in stitches

Prince Charles and the Duchess of Cornwall struggle to contain their laughter during a traditional Inuit welcome in Iqaluit. The city is the capital of Canada's northernmost territory and is already feeling the effects of climate change. The pair were on the first day of a three-day tour of the country.

Desjo-vos um dia bom
Saúde. Boa disposição. Paz.

terça-feira, setembro 13, 2022

Dating - como transformar uma centelha numa chama

 

Conforme confessei há uns tempos, quando conseguia ter algum bocadinho livre, em especial ao fim de semana, ia ver o Indian Matcmaking na Netflix. Não saberei explicar porque é que tinha tanto interesse em conhecer o desenlace daqueles casamentos 'arranjados'. O que sei é que a minha filha se deixou embarcar no meu entusiasmo e, quando deu por ela, também já estava a querer saber o que acontecia a esta, àquele e ao outro. Talvez seja aquele nosso ancestral gosto em ver que as célebres histórias de boy meets a girl (ou girl meets a boy) têm um happy end.

Um Tinder personalizado, dizia um dos participantes na série a propósito de se recorrer a uma casamenteira. Para dizer a verdade, podendo parecer uma coisa antiquada ou contranatura, parece-me um processo interessante. 

Se uma pessoa não anda por aí com um letreiro nas costas ou na testa a dizer: 'Estou à procura de parceiro/a', como é que descobre outros que também andem? É que, se espera que ele/a lhe caia no colo, pode esperar a vida inteira.

Se um dia o acaso não me tivesse bafejado com a sorte de o meu olhar se ter cruzado com o de um desconhecido, a esta hora poderia estar casada com outra pessoa ou, o mais certo, já me teria divorciado (e, na volta, já teria tido mais uma dúzia de relações falhadas). A vida é isto mesmo: acasos que nos levam por caminhos que se encontram e desencontram. Às vezes corre bem, outras não.

Assim, no processo retratado naquela série real, os interessados dizem o que gostavam de encontrar e a casamenteira vai à sua base de dados e vê quem lá há que cruze com esses requisitos. No fundo, o mesmo que o Tinder ou qualquer outra aplicação de dating. Uma coisa inteligente e útil. Por isso, totalmente a favor.

E, até aí, tudo bem. Onde a coisa se estraga é quando as pessoas não prosseguem o processo com abertura mental (e realismo) para um romance e, pelo contrário, vão para os encontros como se fossem avaliar candidatos e emprego, interrogando-se mutuamente à cara podre e, por vezes, não conseguindo disfarçar expressões de tédio que desmoralizam o 'concorrente'. Noutros casos, é o oposto: estão num tal estado de carência que, de cada vez que conhecem alguém, atiram-se completamente de cabeça, acreditam que daquela vez é que é, que encontraram  o amor da vida delas, e aceleram de tal maneira que a pessoa do outro lado se assusta e bate em retirada.

Por isso achei tanta piada e concordei tanto com Esther Perel no vídeo que abaixo partilho.

Esther Perel é uma psicoterapeuta que tem explorado a tensão entre a necessidade de segurança (amor, pertença e proximidade) e a necessidade de liberdade (desejo erótico, aventura e distância) nas relações humanas.

Os conselhos que ela dá -- 

  • que não se disseque a seco (passe a redundância) a outra pessoa, que não se encoste a outra pessoa à parede bombardeando-a com perguntas de tipo curricular, que não se anule a sedução e o mistério e o tempo de namoro que é essencial para que as pessoas se revelem 
e que, pelo contrário, 
  • se interaja com a outra pessoa em ambiente descontraído, em situações normais, entre amigos, em família, dando tempo ao tempo, deixando que a descoberta mútua aconteça ao ritmo certo - 

parecem-me acertadíssimos. 

Dating Advice: How To Turn a Spark into a Flame

Os primeiros encontros podem ser emocionantes, exaustivos, misteriosos, chatos, fáceis ou trabalhosos. O que determina o sucesso ou a decepção de um primeiro encontro tem menos a ver com uma faísca imediata e mais com a criação das condições certas para transformar essa faísca numa chama persistente que nos deixa com vontade de experimentar mais. Quando estamos apenas a começar a conectar-nos com uma nova pessoa, é tudo uma questão de contexto, educação, sedução e conexão. Quando o namoro é difícil, pode parecer um jogo que não sabemos jogar. Mas, concentrando-se nessas quatro áreas, podemos deleitar-nos com brincadeiras não gamificadas - essa qualidade de romance, humor e facilidade que, quando combinada com uma conexão autêntica, inspira ambas as partes a ir mais fundo.  
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Caso vos apeteça, podem continuar a ler sobre o tema e afins em O amor e o desejo são inconciliáveis? do qual consta um outro interessante vídeo de Esther Perel

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Um dia feliz
Saúde. Graça. Paz.

segunda-feira, setembro 12, 2022

Um domingo tranquilo na despedida do verão



Tenho a dizer que tive um domingo bem tranquilo. No sábado tinha ido sair com a minha mãe, demos um belo passeio ao sol, à beira rio, depois pela cidade e acabámos a lanchar numa esplanada.

Antes já tinha lavado a roupa, tinha arrumado a casa. Tempos houve em que a roupa transitava da máquina de lavar para a de secar. Desde que esta se avariou voltámos ao são hábito de secar a roupa ao ar, no estendal. Dá mais trabalho mas prefiro. 

Mas, portanto, o domingo nasceu sem compromissos. 

Dormi até que o sono me quis, tomei o pequeno almoço nas calminhas. Coisa boa.

Depois, caminhámos e estava um sol bem bom que quase me arrependi de não me ter protegido com o meu sprayzinho SPF 50.

Para o almoço, fiz legumes estufados ao de leve, qualquer coisa a meio caminho entre os simplesmente cozidos e os lightly guisados. Coisa soft. Em cima, escalfei dois ovos pois adoro ovos escalfados com o sabor do molho em que cozinham. Desta maneira os legumes ficaram não-binários, talvez na versão fluida. Ou seja, a ideia é que os legumes dessem quer para acompanhar o peixe do almoço quer carne amanhã. 

Ao lado, numa frigideira, em azeite alourei cebola às rodelas, dentes de alho (aos quais não tiro a casca), louro, uns pezinhos de perfumado alecrim. 

Quando estava tudo já bem lourinho, quase caramelizado, coloquei por cima lombos altos de atum. Por cima dos lombos deitei pedrinhas de sal e raspa da casca de uma lima. Depois, para reforçar, cortei a dita lima às rodelas e coloquei-as na frigideira. Virei os lombos para não ficarem passados. Douradinhos nas superfícies mas rosadinhos por dentro.  Nem sempre é fácil. Com medo que os lombos fiquem crus, frequentemente deixo-os passar do ponto. Mas, desta vez, interceptei-os a tempo. Ficaram au point.

Depois de almoço, estendi-me lá fora a ver se dormia. Mas deu-me vontade de procurar umas coisas na net e passou-me o sono. (Ando com umas ideias e, para não tentarem demover-me, fui procurar às escondidas).

Depois fomos passear para a zona nova da Expo. Ainda lhe chamo Expo porque me parece mais mignon que Parque das Nações. Prédios muito bonitos, todos iguais, uma disposição e uma dimensão equilibradas, bem pensadas. Toda aquela zona tem uma organização muito interessante, com parques infantis, máquinas de desporto, espreguiçadeiras de madeira à beira rio, passeios largos e jardins muito bonitos. 

A turma da minha filha já lá estava. Quando o urso felpudo os viu ficou doido de alegria. Salta para um, salta para outro, abraça um, abraça outro, uma euforia. É um extrovertido.

Na marina, vimos uma coisa que nos deixou cheios de ideias: casinhas-flutuantes. São casinhas e são barcos. Cada uma tem um terraço com zona de lounge, com bicicletas, e, em cima, um outro terraço com espreguiçadeira e cama de rede. Tem motores e volante. Os meninos, habituados a velejar, diziam que devia ter âncora e cabos (ou correntes?) e, perante a perspectiva dos avós saírem pelo rio sem estarem habituados às manobras marítimas, ofereceram-se para ir numa outra casinha para nos irem dando apoio. Mas escusam de se preocupar, não sou de me afoitar mar adentro. 

Se experimentasse era para me manter acostada, só para sentir a leve ondulação, para experimentar dormir sobre as águas e acordar envolta em maresia. Contento-me com pouco.

No regresso, fui ao supermercado fazer as compras da semana.

Para o jantar, comprei massa não de farinha de trigo mas de lentilhas. Trouxe também salmão fumado, bolinhas de mozzarela, salada de alfaces, coentros. O meu marido partiu ainda tostas aos bocadinhos lá para dentro. Croutons, pois então. Temperei a minha salada com molho de manga e lima, um molho que lá vi num frasquinho e que me pareceu que faria pendant com a salada que tinha em mente. O meu marido não vai nas minhas aventuras e temperou com azeite e ketchup. 

E depois de arrumar a cozinha e de pôr mais comida na tigela do cão, desloquei-me até este meu poiso, o sofá onde me sento a escrever estas conversas vadias.

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Como faço sempre que ligo o computador, espreito o que o YouTube tem para me oferecer. Há dias em que abro um vídeo, abro outro. Acontece que o sono que não dormi a seguir ao almoço está agora aqui a puxar-me pela pestana e, por isso, vi o primeiro e gostei o suficiente para ficar por ali. E vou partilhar pois o que é bom para se ver.

Marieta Severo abre sua casa no Rio e mostra coleção de arte popular brasileira | Lar

Em episódio da série documental "Lar: Vida Interior", a atriz Marieta Severo abre as portas de sua casa no Rio de Janeiro e mostra sua coleção de arte popular brasileira. A paixão pela cerâmica começou ainda na década de 70, e só cresceu ao longo dos anos junto com o número de itens. Com obras de artesãos como Roque Santero e Tiago Amorim, a coleção se expandiu tanto que Marieta chamou uma museóloga para catalogar cada obra. Dê play e conheça esse verdadeiro tesouro que a atriz guarda em sua casa!

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As flores nasceram das mãos de Van Gogh e pela mão dos Tindersticks vem For The Beauty

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Uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Boa disposição. Paz.

domingo, setembro 11, 2022

Amor, medo, noites sem dormir. O telefone ao lado da cama.

  



“É um triângulo impossível e todos se sentem magoados”, diz ela. “Algumas pessoas conseguem. Eu não. Foi uma situação destrutiva. É preciso coragem. Percebi perfeitamente o dano que isso pode causar. Para cada um de nós, foi doloroso. No entanto, não se consegue parar. É o que é. É como se tivéssemos que estar na frente de um dragão e tivéssemos que enfrentá-lo, sabe?” 

Porque é que não conseguia escolher entre os dois homens da sua vida? 

“Nós amamos de maneiras diferentes, acho que se pode dizer”, responde. “É como perseguir uma necessidade dentro de nós. Quando estamos no meio de uma situação destas, não percebemos porque é que acontece”

Penso no conselho que foi dado a Binoche aos 14 anos por uma amigo artista da sua mãe, quando ela não conseguia decidir entre atuar ou pintar. “Juliette: escolhe fazer tudo!”

Mesmo enquanto Sara está a planear encontros com François, ela convence Jean de que não há nada em andamento, que ela e ele foram feitos um para o outro. Porquê submeter os dois a essa tortura? "Tem que ser", diz Binoche decisivamente. “Ela está perante uma necessidade em si mesma, um apelo sexual, como uma onda de calor, talvez de amor. Tem que ser vivido. Ela tem que perceber o que é. Se ela não fizer isso, ela estaria a colocar-se entre parênteses, ou... no frigorífico! É o que a torna humana e verdadeira.”

 “Permitir-se passar por isso é incrível porque muitos de nós diriam: ‘Não, é muito destrutivo’ ou ‘vou perder o que já tenho’. Tornam-se conservadores antes mesmo de começar. Mas quando uma onda tão grande está a chegar, é difícil não dizer sim, eu acho. Ela pede para ter essa liberdade de ser ela mesma, sem saber qual será o resultado. Isso é tão corajoso. E terrível! Eu sei o quão doloroso e perigoso pode ser.”

Tradução livre do artigo: ‘I fell in love with two men – it was unbearable!’: Juliette Binoche on love triangles and ‘little boy’ Gérard Depardieu. A propósito do filme Both Sides of the Blade


Porque há Leitores que me acompanham há muito tempo não vou entrar em pormenores ao voltar a recordar os épicos tempos em que vivi uma situação de intenso triângulo amoroso. Durou três, quatro meses, não mais, mas foi o que Juliette tão bem descreve: amor, medo, noites sem dormir. 

E é tanto mais difícil quanto se decide expor a situação aos envolvidos. Pretendia ser franca, pensava eu, mas no fundo talvez esperasse que ambos aceitassem a situação. Melhor: nem sei bem o que esperava quando contei ao mais recente que eu já namorava, namoro firme, intenções de casamento já em andamento e quando contei ao legítimo namorado que achava que tinha conhecido o homem da minha vida. Não sei o que esperava quando me despedia de um dizendo que ia passar o fim de semana com o outro ou quando, ao domingo, me despedia deste dizendo que me ia encontrar com o outro no dia seguinte.

Claro que, se o 'intruso' começou por aceitar bem a situação, pois ele é que estava a entrar em terreno ocupado, já o outro aceitou pessimamente desde o início. E digo que aceitaram pois não podiam impedir-me e, portanto, deram por eles a viver essa situação. E claro que o 'intruso' ao fim de algum tempo também já não aceitava bem que eu me despedisse dele para me ir encontrar com o outro. Uma situação que se complicava de dia para dia.

E claro que, por fim, por defesa pessoal e também deles, eu já não podia ser completamente sincera. E não ser sincera dava cabo de mim. E claro que, por fim, já andava era sempre com medo que se cruzassem e que a coisa desse para o torto. Aliás, uma vez quase deu.

Não é fácil. Mas é o que Juliette Binoche diz: quando acontece parece que não há volta a dar, a tentação fala mais forte.

Até que um dia, inevitavelmente, há que tomar uma decisão, fazer uma escolha. 

No entanto, tenho para mim que a escolha só tem que acontecer porque os homens são muito territoriais. Se fossem menos picuinhas, talvez a convivência fosse pacífica. Para quê tanto drama?



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Já agora, e porque Juliette Binoche também pinta e são suas as pinturas que aparecem no filme Words and Pictures também referido no artigo acima citado, aqui fica o trailer desse filme em que contracena com um dos meus xodós, Clive Owen.


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E é verdade, Lucy, Juliette Binoche é uma das mulheres que aos 58 anos continua belíssima e sem problemas em mostrar a idade que tem. Belíssima, sedutora, fantástica actriz.

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A todos um bom dia de domingo
Saúde. Vontade de viver. Paz.

sábado, setembro 10, 2022

Os meus dias complicados --- e Hanna Naude e a sabedoria de não saber

 


Não foi hoje, foi já noutro dia. Estive num lugar muito especial não apenas pelo simbolismo mas também pelas pessoas que ali de vez em quando se reúnem. Mas a própria decoração e todo o ambiente são únicos. Tive lá uma reunião que marca um passo importante na minha vida. Se eu pudesse falar, teria matéria para vários posts. Mas não posso. Portanto fica apenas o tópico, talvez para que num improvável dia em que por aqui passe encontre este registo.

Esta semana foi complexa, tive muito trabalho, enfrentei situações complicadas, prenhes de conflitos, por vezes com ameaças ou chantagens veladas não sobre mim directamente mas em relação a circunstâncias sobre as quais me cabe decidir. E foi uma semana com aquela particularidade que me deixa francamente cansada: tudo consecutivo, quase sem tempo para descansar a cabeça, para respirar. Num dos dias o meu almoço foi metade de uma daquelas espécies de pudim com proteínas. Umas colheradas apressadas na esperança que encobrissem a fome até às quatro e tal que logo tentaria comer mais qualquer coisa. Mas, afinal, as coisas atrasaram-se, há sempre solicitações inesperadas, pessoas que sentem necessidade de ser ouvidas, problemas que se enredam uns nos outros. Regressei a casa perto das cinco e já estava a receber telefonemas de que já estavam à minha espera para começar outra reunião, esta remota. Por isso, só às sete e tal, já começava a querer escurecer, ao fim da segunda reunião (da segunda depois das cinco, leia-se), é que consegui ir à cozinha buscar uma maçã e sair para ir fazer uma rápida caminhada.

Nada disto interessará a quem me lê e, na verdade, nem a mim interessa. Mas a verdade é que semanas assim passam tão a correr que nem dou por elas e isso é um bocado aflitivo pois sei bem que o tempo não espera por mim. 

Esta sexta-feira, que tinha pensado que talvez fosse um dia mais tranquilo, foi outro dia complicado. Para já, começou demasiado cedo. Por duas vezes esta semana fui acordada por telefonemas complicados. Gosto de me levantar ao meu ritmo. E não estou a conseguir. Pensei que, para compensar, ia tentar despachar-me cedo. Pensei que gostaria de, ao fim da tarde, me ir sentar debaixo do manto de jasmim amarelo tentando retomar o imbróglio em que me meti na minha escrita. Não consegui. Recebi chamadas até depois das sete e, no fim, ainda tive que ir fazer um mail também complicado. Fomos, então, caminhar aqui à volta. Os pássaros grandes e pretos que não sei se são gralhas, corvos ou melros grasnavam no topo dos grandes pinheiros. Deve ser a forma que têm de se despedir dos dias. Quando chegámos a casa eram oito e tal. E era quase de noite. E isto ainda a hora não mudou. Quando mudar, lá para fim de outubro, já é noite cerrada por volta das sete, ou antes. Detesto mergulhar no breu quando o meu dia de trabalho acaba e estou disponível para começar o 'meu' dia.

À hora de almoço, comi a correr e fui atender uma chamada lá fora. Ouvi o toc-toc de um pica-pau. Queria olhar com atenção para ver se o descobria. Mas logo tive que ver uma coisa no computador. E só agora voltei a lembrar-me desse pássaro tão lindo que é o pica-pau, bicho colorido, todo festivo.

Muitas vezes me pergunto se é problema meu não saber repelir o trabalho. Não sou capaz de me furtar às minhas responsabilidades mesmo quando sinto que não são apenas minhas ou não são, de todo, minhas. Mas sou incapaz de, perante alguém que me relata um problema e me pede ajuda, dizer: 'O que é que tenho a ver com isso? Desampare!'. Não sou capaz.

E, com esta minha estupidez intrínseca (provavelmente nasci mesmo para burra de carga), estou a deixar passar o verão, daqui a nada o outono entra já com o pano a baixar, prenunciando o inverno, e não consigo dizer o que tem andado a consumir o meu tempo para assim me impedir de viver fazendo minimamente o que me apetece.

E com isto não me sobra tempo para equacionar aspectos que podem ser decisivos numa etapa da minha vida que se avizinha. Mas, pronto, é sexta-feira e as sextas-feiras são para ser festejadas: thanks god, it's friday..

Aliás, pensando bem, vi agora as oras e já é sábado. 

No outro dia apeteceu-me falar sobre as medidas do Governo para atenuar os efeitos da inflação mas ainda não tive disponibilidade, sobretudo mental, para isso. A ver se um dia destes falo. Estava também à espera de saber as medidas para poupança de energia pois, em alguns pontos, poderiam intersectar-se. Afinal não. Posso contudo adiantar que fiquei decepcionada e, mesmo, algo apreensiva, em especial no que se refere aos pensionistas. 

Mas agora já chega de maçadas. 


Por isso, permitam que me despeça com um daqueles vídeos da Green Renaissance que sempre gosto de ver. Tudo gente boa onda, zen, tudo peace and love, natureza, sabedoria, convívio com animais e com tudo o que é simples nesta vida. Gente que vive vidas tão diferentes da minha...

The wisdom of not knowing

Why are we so obsessed with knowing everything? While there's nothing wrong with knowledge and understanding, our insatiable desire to know and control all aspects of our lives often gets in our way of trying new things.  

There is no shame in not knowing, there is only freedom.  An uncertain mind is an open mind. It is a mind which is curious and interested.  It allows us to be creative and willing to live in a state of wonder and possibility, like children do.  

When we meet life with a genuine sense of uncertainty, we cease to project that which we think we know, and we instead begin to see life for what it truly is.  It is life itself, unfolding before our eyes.

Filmed in Montagu, South Africa. Featuring Hanna Naude.
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As fotografias são algumas das que podem ser vistas em Bird photographer of the year – the winning pictures

Mariam Batsashvili interpreta Franck: Prélude, Fugue et Variation, Op. 18: I. Andantino
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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Tranquilidade. Paz.

sexta-feira, setembro 09, 2022

Isabel gostava de chapéus e de se divertir

 


Não tinha proximidade de qualquer espécie nem tenho conhecimentos para falar. Apenas posso dizer que era uma presença que os meios de comunicação social nos tornavam próxima, uma mulher discreta e simpática que, ao longo de décadas tem ilustrado uma realidade carregada de símbolos, um misto de tradição e sonho, conto de príncipes e princesas, castelos, coroas, joias reais, sorrisos, banquetes, desfiles.

Neste caso com a graça adicional de encabeçar uma família fértil em escândalos, histórias de amores e desamores, traições, adultérios, mortes trágicas, amizades perigosas -- tudo nas capas dos jornais a alimentar a fantasia popular. E ela sempre ali, assistindo a tudo, conseguindo gerir com elegância e silêncios os dramas, as intrigas, as fugas de informação, as revoltas, a contestação.

Sou republicana. Zero de monarquias. Mas reconheço a simpatia tutelar que emanava de Elizabeth II.

E reconheço que achava muita graça às suas coloridas toilettes, aos seus alegres chapéus, à forma como mostrava o seu fino sentido de humor. E comovi-me quando a vi sozinha, na igreja, num luto carregado e triste, quando o marido morreu. Uma idosa que tinha perdido o amor da sua vida.

Escrever qualquer coisa aqui no dia em que morre a Rainha não é fácil. Não falar? Deixar passar o dia? Falar? Falar o quê? 

Prefiro, pois, limitar-me a partilhar imagens que a mostram bem disposta com os seus arrojados chapéus e uns vídeos no qual ela se ri, brinca, dança, mostra o seu sentido de humor. 


Queen Elizabeth II funny moments









E boa sorte a Carlos e a Camila, os senhores que se seguem. Um casal de bacanos.


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Um dia bom
Saúde. Alegria. Paz.

quinta-feira, setembro 08, 2022

Já há um novo 'rapaz mais belo do mundo'... e, caraças, é escandalosamente belo

 


Björn Andrésen tinha catorze anos, chamava-se Tadsio em 'A morte em Veneza' e nunca se tinha visto beleza tão inocente, tão perfeita... tão tentadora. As mulheres enlevavam-se. Os homens sentiam-se atraídos. Não sei se todos, se apenas alguns. Nem sei se todos o confessariam. A beleza do rapaz era talvez andrógina, talvez etérea. Um anjo atrevido, ambíguo.

Mas os anos passaram. Björn Andrésen tem agora sessenta e sete anos e é avô. O lugar de rapaz mais belo do mundo ficou em aberto.

E nem Brad Pitt, que se apresentou jovem e descarado e nos desinquietou em Thelma & Louise, conseguiu destroná-lo.

O lugar tem estado livre.

Mas já não está. 


Timothée Chalamet tem 26 anos, é lindo, talentosíssimo, premiado. Se calhar também tem qualquer coisa de andrógino e, se calhar, isso torna-o ainda mais atraente. Não sei. Pode ser que seja simplesmente muito belo. Mede 1,78m, tem olhos verdes e umas feições de menino. É o namorado preferido de todas as jovens, de todas as mulheres maduras e de todos os homens que gostam de rapazes bonitos.

Nos filmes em que o vi sempre me espantei com a intensidade, com a leveza, com a graça, com a agilidade elegante. 

Acresce que há nele qualquer coisa que faz com que possa vestir qualquer coisa. Apesar de um pouco desengonçado, tudo nele assenta bem. Pode ser um smoking, pode ser um casual, pode ser uma loucura qualquer. Fica lindo, insolentemente lindo de qualquer maneira.

Na Mostra de Veneza arrojou de vez, uma coisa nunca antes vista. Os fotógrafos ficaram malucos e não o largaram. E eu, se lá estivesse, faria o mesmo.


Lindo até dizer chega.

Timothee Chalamet | Beautiful Boy | Let It Unfold You by Bukowski


Top 10 Timothée Chalamet Movies


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E, se apreciam a beleza, queiram continuar a descer: abaixo umas longas pernas vos esperam

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Um dia feliz
Saúde. Beleza. Paz