A minha mãe, no último dia que saíu, creio que na sexta-feira da outra semana, numa altura em que eu já andava a implorar-lhe que não saísse mas em que ela achava que ali o bicho não chegava, pelo menos já foi de máscara. Foi ao lugarzinho do bairro comprar pão e mais não sei o quê e, segundo ela, era a única a proteger-se. E contou que uma 'gorda e bronca' que lá costuma encontrar estava a tentar dar um beijinho a um outro que a afastou e a quem ela não deu tréguas aproximando-se, rindo, requerendo o beijinho. A minha mãe alertou-a que, face à grave epidemia, os beijinhos e apertos de mão deveriam ser evitados, ao que ela, galhofeira, respondeu: 'Temos que brincar com estas coisas... Se a gente não leva isto para a brincadeira, então, como é...?'.
O que acabei de ver na televisão, algures a Norte -- mas em mais do que um lugar --, é do mesmo calibre. Ainda há gente que não percebeu o que está a passar-se. Gente aos magotes a passear e a curtir. Todos os broncos parecem que, nem suricatas, saem à cena nestas alturas. Trumps e Bolsonaros e gente que os apoia ou da mesma raça: gente estúpida, gente que não compreende nada mesmo quando as evidências lhes são escarrapachadas nas fuças, gente que acha que os outros são exagerados e que eles, os burros, é que são espertos.
Todas as pessoas que parece que ainda não perceberam que é preciso 'achatar a curva' -- reduzindo o contágio, mantendo-se em isolamento social, ter estritos hábitos de higiene e respeitando na íntegra o protocolo respiratório (não estando a menos de cerca de dois metros dos outros, não tossindo ou espirrando para o ar ou para a mão ou, de para um lenço, deitando-o logo para o lixo) -- têm que ser firmemente chamados à razão.
Não há que ter delicadeza para quem não respeita a vida dos outros. Se os estúpidos não percebem a bem terão que ser obrigados, nem que seja à bruta, a a cumprir todas as recomendações da DGS e do governo.
Leitor, a quem muito agradeço, enviou-me um vídeo muito divertido e acho que claro. Seria bom que, por cá, se fizessem vídeos equivalentes. Daqui lanço um apelo para que os criativos ou os entendidos nestas coisas, lancem campanhas fortes para convencer todos, os novos e os velhos, os civilizados e os broncos, os inteligentes e os burros encartados.
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Entretanto, aos inteligentes, recomendo a leitura, no Público, de:
Análise de Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa [Não recomendo aos burros porque esses, está mais do que provado, só percebem as coisas de outra maneira]
Este ritmo e esta maneira de viver não estão nos meus hábitos. Passei, sem mentalização prévia e sem preparação psicológica, do meu ritmo de sol a sol, de horas de trânsito, de muita gente permanentemente à minha volta, de visitas à e da família ao fim de semana, do carinho naturalmente expresso, para este regime de clausura, só os dois e todos os outros à distância.
Durante a semana foi uma aflição, trabalho e stress em excesso. Entretanto, alguns a queixarem-se que deveríamos retomar os trabalhos noutra área. Ainda não estou a ver bem como mas já marquei uma videoconferência para segunda-feira. Trabalho que me farto e há sempre alguém a querer mais. Lembrei-me tarde demais que me esqueci de ligar a três pessoas com quem tinha obrigação de estar mais próxima. Lembrei-me também tarde demais que deveria ter enviado um mail ou feito um telefonema a uma pessoa a quem despachei a grande velocidade e à bruta num dos dias de maior confusão. Esgotei-me durante a semana que passou e receio a que aí vem. Tenho que perceber que, se calhar, este vai ser agora o meu novo normal. E não gosto. Estou em minha casa, apetece-me passear ou descansar, e não consigo. E isso faz com que me sinta ainda mais cansada e desalentada.
Faz-me muita impressão estar aqui, neste lugar que sempre esteve associado a férias, fim de semana e lazer, e não o usufruir como tal.
Este sábado acordei tarde, o meu corpo recarregou baterias. Mas acordei com o som de mails e mensagens a chegar. Até à hora de almoço estive com isso. Não me apetecia mas teve que ser. Tenho arrumações para fazer mas durante a semana não consegui lá chegar e hoje não tive disposição. O tempo não me rende, parece que ando meio desorientada. Andei pelo campo, soube-me bem, mas já eram horas de pôr o almoço ao lume.
Depois de almoço peguei numa mantinha, no livro, na máquina fotográfica e no telemóvel e reclinei-me na espreguiçadeira. Estava frio. Pus-me a ler e, de quando em quando, fotografava. Reparei que a estrelícia já quase desabrochou. Estar aqui, nesta altura, todos os dias, permite-me assistir a uma coisa a que nunca tinha assistido: a chegada da primavera, em tempo real. Num dia há umas florzinhas a despontar nos marmeleiros, no dia seguinte já há mais, há pequenos frutos a adivinhar-se, um milagre em permanente devir.
À medida que a tarde avançava, entre esquivos raios de sol, pingos de chuva e páginas de boa escrita, ocorreu-me que isto, se me abstrair de tudo o resto, tem o seu lado bom.
Depois, fechei os olhos e comecei a fazer respirações a ver se me ajeitava na meditação. Contudo, a minha mente levou-me para outros lugares, lugares desconhecidos, lugares que nem consigo imaginar. Levou-me até seres sem rosto, sem nome. Levou-me até palavras que me chegam de longe, bálsamos, consolos. Inspirava, devagar, um, dois, três, quatro, cinco, seis, depois expirava, devagar, um, dois, três, quatro, cinco, seis. De novo, inspirar, um, dois, três, quatro, cinco, seis. Uma tranquilidade, o som dos passarinhos, a luz coada pela chuva ligeira, uma rola a voar e a pousar ali perto. Eu já a olhar, esquecida que deveria ter os olhos fechados.
Depois, de vez em quando, um pouco de tristeza por não saber qual o desenlace de tudo, sem saber como este caos se vai reorganizar. Muita apreensão por Itália, a morte à solta sem dar tréguas, tanto tempo decorrido e aquela tragédia, tanta gente a morrer, angústia pelo que se passa também em Espanha, pessoas de idade doentes que ninguém vai buscar nem tratar, mortos que ninguém vai levantar e que nem podem ser velados. O ensaio sobre a cegueira dolorosamente levado à cena.
Tento afastar os pensamentos, tento apenas respirar. Depois reparo que, de longe, já não me chega o som do mar. Era o ruído dos carros que, até há uma semana, passavam na autoestrada que corre lá bem longe e que, coado pelo ar da distância, me parecia o suave rumorejar das ondas. Agora parece que passou muito tempo, que isso foi numa outra vida. Agora há apenas o silêncio e o canto dos pássaros.
Ao meio dia, estava eu ainda de roda de mails e mensagens com colegas de trabalho, chegou mensagem do meu filho à família dizendo que os números eram bons. Fui ver ao DN. Mais de duzentos infectados e os mortos já em doze. Mas tudo é relativo e nesta luta contra o invisível e microscópico inimigo, até as más notícias podem ser boas notícias.
De noite, ele enviou-me excerto de uma entrevista: uma pancada de mais de 8% no PIB, uma escalada de desemprego. A bruxa da foice não ceifará apenas vidas mas também qualidade de vida a muita gente, se calhar a quase toda a gente. Sendo expectável uma segunda onda de contágio dentro de meses, quando se sair deste isolamento, seremos outros, o mundo será outro, e em muitos aspectos, tudo será irreversivelmente diferente. A prazo haverá reconversão, novos sectores de actividade despontarão, outros retomarão a actividade -- mas tudo será diferente. Talvez esta ruptura, esta fractura, seja importante para a salvação do planeta. Descobrir-nos-emos menos poluidores, menos irracionais. Talvez reaprendamos o respeito pela natureza e pelos outros. Mas, enquanto não reeencontrarmos o equilíbrio, haverá muito desemprego. Presumo que o sector do turismo e o das viagens internacionais sejam dos que mais sofrerão. O sector dos espectáculos ao vivo, seja de que área forem, se calhar também, pelo menos enquanto não aparecer a vacina. Mas é quase certo que a vacina não estará disponível antes de ano e meio. E durante um ano e meio os hábitos mudam, as pessoas desabituam-se.
Ao fim da tarde arrefeceu, a mantinha já não era suficiente. Vim para dentro. Vim com o meu livro, voltei a ler. A inteligência quando aliada ao saber e à estética deslumbram-me. Sinto quase uma inquietação, como se o que leio, de tão inteligente, sábio e belo me sobressaltasse.
E depois foram os telefonemas, os meus meninos, lindos, irrequietos, risonhos, os meus filhos também nesta sua nova vida, a minha mãe, umas vezes preocupada, outras bem disposta. E depois hora de jantar. E depois sempre isto, aquilo e o outro. E eu a tentar acompanhar mas deixando-me levar. Parece que perdi o meu ritmo, o tempo passa e parece que dele nada fica.
Durante o dia, penso no que leio, penso nas ideias que me ocorrem, penso que vou escrever aqui mais cedo, que vou falar disto e daquilo e depois escrever um mail, mas depois esvai-se-me a vontade, esvaem-se-me as ideias e esvai-se a vontade de dizer tudo o que penso e de desvendar tudo o que queria saber e, ao mesmo tempo, que não, que não quero saber. Por isso, preguiço, entedio-me, hesito, protelo.
Apetece-me não escrever nada, apenas pedir: 'fale-me de si'. E depois ficar a imaginar como será quem generosamente acedesse ao meu pedido e me falasse do si.
Tenho que tentar adaptar-me melhor a esta situação, tenho que saber assimilar a distância, tenho que arranjar trabalho físico que me canse, tenho que afastar de mim preocupações, tenho que pensar que tudo isto é bom para o futuro dos homens e do planeta. E tenho que me concentrar na beleza das flores, na beleza da luz a iluminar as pequenas folhinhas das videiras, no mistério e beleza de algumas palavras, na paz que se desprende de tantas coisas.
Há pouco, antes de começar a escrever, estive a ouvir poemas ditos e a ver a mais alada de todas as criaturas lançando-se em pleno ar. E pensei mais coisas. Mas agora não vou para aqui pôr-me a falar delas. Vou apenas partilhar convosco.
De manhã, o meu filho partilhou com a família um vídeo que mostra como é a cabecinha (des)pensadora do Donald, o palhaço cor de laranja com boquinha de botão de rosa, mãos pequeninas de boneca, cor de barbas de milho e miolo mole de minhoca rafeira que está à frente dos Estados Unidos.
E eu, que ainda não consegui assimilar como é possível que tamanha anta narcísica esteja onde está, vi sem surpresa que daqui nunca nada de bom ou coerente se pode esperar.
Por vezes, penso que não é possível que alguém com os alqueires bem medidos tenha votado em tal alimária mas logo aparece a realidade a espetar-me na cara a evidência dos factos: por exemplo, na perspectiva de quarentenas por via do Covid, o que é que aquela cambada que o apoia desatou a açambarcar? Não papel higiénico, que isso é coisa de gente asseada, mas armas. Filas na rua para açambarcar armas. Gente estúpida. E, claro, gente estúpida quer ser conduzida por gente ainda mais estúpida.
Veja-se a cronologia das opiniões do Trump a propósito do coronavírus. Lapidar.
Talvez seja porque os números subiram um pouco mais e eu, optimista, queria ver na pequena descida de ontem uma promessa de inflexão e afinal hoje vi que ainda não, talvez seja porque esteve frio, escuro, e choveu todo o dia, impedindo-me de sair de casa, talvez porque os problemas desabaram, como uma torrente, sobre mim, mails e telefonemas e videoconferências sem parar, talvez porque, nem todos os que foram para casa têm muito que fazer e se entretêm a fazer prova de vida, atentando a paciência aos outros, talvez porque não consegui descansar um segundo nem arejar as ideias, talvez porque me preocupo com o abastecimento aos meus pais já que a minha mãe, habituada a ir às compras quase todos os dias, não tem grande apetência pelo planeamento insistindo em dizer que ainda não precisa de nada e não quer que eu encomende nada - ou talvez por tudo isso junto.
E talvez porque não percebo o que está a passar-se em Itália, em isolamento há tanto tempo e ainda naquele trágico descalabro, e talvez porque me deixe impressionar muito com o que está a passar-se aqui ao lado, em Espanha, e talvez porque, como me avisa o meu marido, eu leia demais, pesquise demais, consuma informação a mais e, depois, assoberbada por mil solicitações e, sobretudo, esmagada pela minha ignorância, não consiga processar um milésimo do que me atola.
E talvez seja porque ouvi o que temia e no que não queria acreditar, que esta hibernação vai durar até ao verão, e nem é a hibernação em si que me perturba, embora perturbe, nem é tanto o distanciamento daqueles que gosto de sentir perto de mim, mas é, e é também o medo antecipado por saber que vou ouvir voltar a notícias más e que vou sentir medo, e é o medo também por saber que a economia se vai ressentir, e muito, e porque receio muito o day after porque o mundo vai ser outro e não sei se, desnorteados que todos devemos estar, saberemos interpretar o que aconteceu e saberemos enveredar pelas melhores opções.
Mas talvez também seja porque, no fim de um noticiário, não me lembro de qual, mostraram o Porto deserto e iluminado, belo e triste, e depois Lisboa, minha amada Lisboa, deserta e tão triste e eu, sem palavras perante tamanha tristeza, tive vontade de chorar.
E nem trago mais razões porque acho que as que aqui aventei já são suficientes. Suficientes para explicar a minha falta de inspiração e o meu desânimo e a minha apreensão e tristeza.
Este sábado, os telefonemas e os mails de trabalho não devem chover, videoconferências não devem acontecer, talvez o tempo abra, talvez eu consiga caminhar por entre as árvores -- e a caruma deve estar molhada e macia --, talvez cheire a terra fértil e talvez o rosmaninho esteja mais perfumado e florido, talvez a maruca que vou cozer com batata, feijão verde e cenoura fique uma delícia, em especial depois de regada por um fio de azeite e sumo de limão, talvez eu consiga pegar no livro que está aqui ao meu lado e cujo autor eu nunca me vou cansar de ler, seja em livro seja onde for, talvez amanhã os números sejam animadores, talvez eu volte a saber sobre o que escrever e fique animada enquanto escrevo.
Enquanto escrevia, vi o Governo Sombra. Confirma-se: está melhor, deixou um pouco o modelo apalhaçado, já acrescenta alguma coisa. Mas o João Miguel Tavares está gasto. Pouco tinha para dar e o pouco que tinha já deu. Ricardo Araújo Pereira por vezes tem um ou outro laivo de graça mas, na maioria das vezes, é uma tentativa de clone do 'boneco' que, em temos, criou.
Agora estou a ver Original é a Cultura. Gosto imenso deste programa. Sempre a horas tardias como se programas destes apenas interessem a uma minoria. E, no entanto, se este programa fosse transmitido a horas normais, a seguir ao telejornal, por exemplo, certamente teria um lugar de destaque.
Se a minha vida tivesse seguido outro rumo e, por exemplo, pudesse ter um programa de televisão ou de rádio à minha escolha, teria conversas com pessoas assim. Talvez juntasse o Pedro Mexia e o Rui Vieira Nery, devia ser sempre interessante, deixava-os conversar, talvez lançasse algumas provocações para os ver, tão ponderados e comedidos que são, a tentar manter a compostura, e talvez também juntasse o Carlos Fiolhais com a Hélia Correia, talvez o Pedro Paixão e o Manuel João Vieira, talvez tentasse o Rogério Casanova (encoberto, em silhueta e voz distorcida) e Miguel Esteves Cardoso, talvez a Paula Moura Pinheiro e o Souto de Moura. E etc. Seria feliz ouvindo pessoas inteligentes, pessoas que respeitam a verdade possível e as palavras. Pessoas diferentes entre si, talvez não consensuais, mas com visões distintas sobre o mundo e com um olhar que sabe valorizar a estética das coisas.
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As fotografias foram feitas esta sexta-feira triste que não me pareceu o primeiro dia de uma primavera que não chegou envolta em luz. Foram feitas de dentro de casa. E a canção, lá em cima, foi-me sugerida pela minha filha. Diz que há anos que não via telenovelas e que ontem começou a ver o 'Amor de mãe' que tem esta música e que eu podia pô-la aqui porque, segundo ela, nesta fase dificil...é colo, é esperança e mimo. Aqui está.
Não poderia ter feito melhor sugestão. E nem me parece que sejam palavras de esperança e mimo. Parecem-me palavras tão tristes, tão sem esperança, palavras que nem parecem conhecer a doçura da saudade, apenas tristeza.
Como esta noite findará E o Sol então rebrilhará Estou pensando em você Onde estará o meu amor? Será que vela como eu? Será que chama como eu? Será que pergunta por mim? Onde estará o meu amor? Se a voz da noite responder Onde estou eu, onde está você Estamos cá dentro de nós sós Onde estará o meu amor?
Enquanto agora escrevo, vejo uma cena de África Minha. Denys diz uma frase olhando Karen nos olhos e ela, apaixonada, olhando-o também a ele nos olhos, tenta iniciar uma história; mas a força do amor e do desejo impede-a de usar mais palavras. Gostava um dia de experimentar. Se o exercício fosse com um homem neutro talvez eu pudesse inventar uma história e estar ali, em voz baixa, desfiando palavras. Mas perante um homem especial talvez também me faltassem as palavras, talvez não quisesse arriscar dizer mentiras.
Ao fim do quarto dia de teletrabalho, fartinha de trabalhar em contínuo, de sol a sol -- sem ter tempo para pegar no balde e lavar nem que fosse mais um palmo de chão, sem ter tempo para sacudir um tapete que fosse ou para arrumar nem uma gaveta chinfrim -- fartei-me de carpir. Não dá. Bolas para isto. Não há saco. Não quero estar para aqui a queixar-me desta insana estafadeira. Não basta ela, ainda mais estar para aqui a falar dela. Ná, ni penser.
Hoje, num intervalo, fartésima de mails e telefonemas e com os problemas a choverem-me em cima, peguei em mim e fui andar para o meio das árvores. Espreitei o DN e, pelo segundo dia consecutivo, vi a flecha a amolecer. Pensei: não há tusa que sempre dure nem exponencial que sempre se empine. Depois ocorreu-me que o pensamento era capaz de dar aforismo bom para emoldurar. E comecei a rir e a lembrar-me dos meus ídolos, os meus gurus, naquela vez em que estavam na cruz a cantar que há sempre um bright side of life. E resolvi: se a gente se rir na cara do pompom dos totós cor-de-rosa, a flausina capaz de recolher o desaforo. A gente não pode mostrar medo. A bicha é que nem caniche, se sente o medo nos outros, arreganha o dente e avança para cima.
Com esta disposição, fui para casa, pus o franguinho ao lume para fazer um cheiroso arrozinho dele com tomatinho, feijaozinho verde, cebolinha e etc. E, enquanto ganhava cheirinho de comidinha caseirinha feita com alegria e alecrim, voltei para os problemas. Mas, naquela disposição de afastar de mim as maçadas, despachei tareia em dois, sorrisos para outros, atendi chamadas e, antes de ir à bucha, voltei para uma volta rápida para snifar o cheirinho a eucalipto, a pinheiro e a cedro. Quando regressei, estava com uma fomeca de dar gosto.
A tarde correu de feição.
Disse à minha mãe: arranje um lençol velho e faça uma bata como aquelas descartáveis que usamos quando vamos fazer ecografias. A minha mãe tentou desviar a conversa. Até treme quando venho com ideias. Disse ainda: arranje também uns chinelos. E expliquei que a senhora que lá vai ajudar a tratar do meu pai, não deve estar em casa com os sapatos e com a roupa da rua. A minha mãe suspirou. Tem medo de ofender, não quer melindrar. Insisti: mãe, é para levar a sério. Vocês são grupo super de risco, ninguém devia entrar aí. Mas como tem que ser, que vá blindada, não pode roçar em nada com os braços vindos da rua. Não tem equipamento adequado, faz-se. A minha mãe suspirou.
À hora de jantar, liguei-lhe, uma video chamada. Ficou logo toda: ai, que nem o cabelo arranjado tenho. Mas eu também não. Tomei banho e deixei o cabelo secar de qualquer maneira, estou uma leoa com juba. Fomos falando até que chegou a senhora. Passado um bocado, a minha mãe mostrou-me a ela e ela a mim. Desatei a rir à gargalhada e elas as duas também. Estava de máscara e com umas mangas azuis claras de balão. A rir à gargalhada, mostrou-me as mangas: olha, as mangas de alpaca que a tua mãe me fez. A minha mãe disse: saíram mangas de balão. E escangalhavam-se as duas a rir e eu com elas. Ela saíu da cozinha para ir para o quarto do meu pai: 'olha, adeus, agora vou ali fazer uma operação'. E saíu a rir, a minha mãe perdida de riso. Uma cirurgiã de mangas de balão e, disse-me ainda a minha mãe, com uns chinelos que eram do meu pai. Perfeito.
E, se bem que o dia tenha sido longo, hoje estou assim. O meu marido com uma baita neura e eu toda cheia de animação. Tenho a certeza, e chamem-me maluca: as boas notícias vão começar a chegar. É só a gente deixar-se ficar na toca, em isolation, a curtir a situation, a esperar que a má onda passe e que a maluca e reboluda gaiteira dos pink totós não nos bata à porta, nem à nossa nem à de quem amamos e, claro, à porta de cada vez menos pessoas.
Tirando isso, dizer mais o quê?
Niente. Só se for para desejar que a nuvem negra que baixou sobre Itália se dissipe rapidamente, que os raios e coriscos que invadiram Espanha também, que, por todo o lado, a malapata se vá e que, não tarda, a gente ande a jogar ao berlinde com o pink-covid.
E c'est ça. E agora, com vossa licença, vou ver coisas fantásticas. Podia ir ler ou dedicar-me a coisas mais eruditas. Mas não estou para isso, hoje estou toda para esvaziar la tête e deixar que a música, a surpresa, a graça e o good mood me banhe.
Todos os cuidados são poucos para fazer frente ao insignificante bicho peçonhento, essa bola fofa cheia de totós cor-de-rosa, pelo que acho que nada como estarmos bem informados. Portanto, com vossa licença, que entre o Peçanha para nos dizer como é que é. Atenção a como se põem as máscaras.
E agora uma senhora que leva estes temas mais a sério e que gostava que V. fizessem o favor de ver com atenção. Vale?
Dia, de novo, agitado e complexo. comecei com uma conference call. Muita gente, cada um em seu sítio. Não por imagem mas apenas som. Não foi fácil. Cada um reportando a situação. Casos sob suspeita, obrigando a quarentenas, a problemas. Casos dificílimos para resolver. Situações que parecem irresolúveis mas que têm forçosamente que ser resolvidas. Dei por mim, com a mão na testa, a pensar que uma coisa destas enfrenta-se uma vez na vida e que nem todos saem dela para o contar.
Acabei arrasada, sem saber bem como dar a volta a tantos problemas tão impossíveis de resolver. Quando acabou, agarrei-me ao computador e mandei mails com propostas de mitigação para algumas das questões.
E continuou assim. Muitos problemas, muitas dúvidas.
A meio da manhã, exausta com tanto mail, mensagens e telefonemas, levantei-me, peguei num balde com água e detergente multi-usos e resolvi lavar o chão da casa. Ouvia os mails a chegar e os pings das conversas e ia espreitar mas, dado que achei que podiam esperar uns minutos, mantinha-me na lida doméstica. Lavei o chão da cozinha, depois o da sala da lareira. Quando me preparava para ir despejar e pôr água limpa para seguir para o corredor e para o quarto, quiçá ainda para as casas de banho, veio um telefonema que tive mesmo que atender. E assim me mantive até à tardia hora de almoço. Felizmente ainda tinha massa com tomate e salmão de antes de ontem. Do lado do meu marido os telefonemas e os mails também choviam. Uma estereofonia enervante.
Depois de almoço, sentei-me no sofá e pensei que me saberia bem dormir a sesta. Mas durou um minuto essa ilusão.
Meio desanimada, resolvi fazer uma coisa: ir trabalhar para a rua. Peguei numa almofada, no computador e no telefone e fui sentar-me em cima de uma pedra. Às tantas, com o sol a dar-me, fiquei com calor e tirei a blusa de manga comprida, ficando apenas com um top de alcinhas. E ali fiquei trabalhando, mail para aqui, mail para acolá, telefonemas e, pelo meio, whatsapps a que fui levada a aderir por pressão familiar. E, também pelo meio, um mail da minha menina mais linda a perguntar que é feito de mim, e com muitos bonequinhos coloridos e em movimento. Fiquei logo toda derretida. Naquele instante abriu-se uma clareira inundada por luz e o covid evaporou-se e, com ele, todas as suas consequências.
A seguir, voltei à doideira, stress, stress, stress, falta disto, falta daquilo, pedidos disto, pedidos daquilo, problemas a caírem. Fui dizendo que em contingência há que estabelecer prioridades, que isso não, aquilo não, outra coisa tem que esperar, outra é para esquecer, outra claro que sim, outra o mais urgentemente possível.
Às tantas, uma barulheira, uma louca correria, um gato a passar rente a mim, um cão atrás a ladrar, furioso, o gato aflito, a seguir outro cão pequenino também em perseguição.
Durou segundos mas fiquei ali em suspenso. De onde tinha toda aquela cena aparecido? De que outro filme?
Levantei-me a perceber para onde tinham ido todos. Já não os vi. Desapareceram. Fiquei um bocado a olhar para o ar pensando no mistério de tudo isto. Toda esta vida é um mistério. Uma sucessão de acasos que umas vezes se conjugam harmoniosamente e outras em que tudo se desencaixa, ameaçando fazer ruir tudo de forma irreversível.
A seguir fui vestir outra blusa, pus um fio, brincos, penteei-me e fui instalar-me para a vídeo conferência. Quando acabou, passei para outra. Depois, aprovação de cenas e mais mails.
Por fim, já o dia se estava esvair. A sala estava escura e eu com frio. O meu marido apareceu, também já livre de trabalhos. Disse-me para vestir um casaco pois já estava frio na rua. Fui buscar a máquina fotográfica e fomos passear. Enquanto andava, liguei à minha mãe. Continuei a pedir-lhe que não saia, que não deixe entrar ninguém em casa a não ser a senhora que lá a vai ajudar com o meu pai e que essa tenha cinquenta mil cuidados. Contou-me piadas, contou de uma vizinha que lá foi levar uns medicamentos e que apareceu de capuz na cabeça, máscara, óculos escuros e disse que era um assalto. E rimo-nos que nos fartámos.
A seguir liguei à minha filha e estive a vê-la e aos meninos, mais lindos, grandes, tão queridos. Cada um do lado da mãe, abraçados a ela, meigos, meninos mais amorosos. Que saudades. Enquanto falava, o gatinho preto e branco estava deitado em cima de um muro. Tal como o gatinho cor de mel já não se assusta comigo, este também se deixou ficar. Fotografei-o. Mas quando me aproximei para o filmar para o mostrar, os meninos a falarem alto, que eu não estava a filmar bem, para a esquerda, para baixo -- ele fugiu. Meus meninos queridos, como eles haveriam de gostar de aqui estar.
Ao entrar em casa já havia mais mails, mais mensagens, mais dúvidas, mais questões: e agora com o estado de emergência? e agora com tanta gente em quarentena? e agora quando precisarmos de ir?
Mas a preocupação e o cuidado são sempre estes: em casa sempre que se puder, a trabalhar sempre que tiver que ser.
A vida continua, a vida tem que continuar. Todos com mil cuidados mas a fazer a vida continuar. Lavando-se, protegendo-se, desinfectando-se mas fazendo o que tiver que ser feito. E este é o espírito de todos. As cadeias de abastecimento e os serviços indispensáveis não se podem romper.
Não podemos deixar que o mundo seja sugado pelo medo. Temos que ser capazes de vencer isto.
E que alguém mande deitar mãos à obra.
As fábricas de produtos químicos que façam desinfectantes, as fábricas de pensos higiénicos e fraldas que façam máscaras, as fábricas de embalagens que façam óculos de protecção, as fábricas de confecção têxtil que façam fatos de protecção. As fábricas de medicamentos nacionais, que as há, que façam os medicamentos que têm estado a provar alguma eficácia.
E as fábricas de automóveis ou de electrónica ou todas façam ventiladores ou o que fizer falta.
E os investigadores ousem soluções, avancem, proponham munições, façam testes.
E todos se unam para vencer esta guerra.
O país tem que converter o medo em acção. Não podemos acabar tolhidos, infelizes, esfomeados, pobres, inanimados.
Inventem-se novas formas de trabalhar, inventem-se novas formas de nos relacionarmos, inventem-se soluções para problemas que ainda mal sabemos formular.
Ouvi Marcelo. Não falou mal. Mostrou bom senso. Marcelo tem que abdicar da ânsia de protagonismo e ouvir, mais do que o apelo pela popularidade, o bom senso e o pragmatismo de António Costa. Marcelo será mais amado, e ser amado é a praia dele, se souber mostrar ser o suporte institucional do Governo. Neste momento o país precisa de sentir a união esclarecida de todos.
Ouvi António Costa. Excelente. Sensibilidade e força. Inteligência e sentido prático. Visão de curto e de médio prazo. Podemos estar confiantes. António Costa vai ajudar-nos a sairmos rapidamente deste buraco negro.
Depois ligou o meu filho e o bebé levou-me a ir outra vez para a rua, à noite, para ver os lugares onde gosta de estar quando cá está. Contei dos gatinhos, da perseguição do cão. O menino do meio quis saber se o pai se portava bem quando era pequeno e eu tive que ter muito cuidado com o que respondia. A menina mais linda estava tímida e com sono. Todos lindos e tão queridos. Que vontade de poder enchê-los de beijinhos.
Os tempos não estão fáceis. Enquanto estava a escrever, estive a ouvir Fernando Maltez. Não fiquei tranquila. Porcaria do covid: tão pegajoso e traiçoeiro, o raio do bicho. Tão tinhoso, infiltrando-se pelos pulmões abaixo. Mas ele, o médico, tão sabedor, tão comedido, tão frontal.
De manhã, ao saber-se os números, o meu filho enviou para a família uma fotografia com o gráfico. O crescimento é de susto mas menos do que a exponenciação pura daria. A minha filha respondeu logo, animada.
Sendo devota da matemática, sei que há casos em que a matemática pura e dura, não pode ser usada a seco. A matemática é linda e pura mas é quando conhecemos todos os factores e conseguimos transpô-los a todos para as equações. Não é o caso de quem se põe a prever flechas a caminho do inferno. Ignorar factores como os comportamentos que influem no contágio, como a imunidade que a comunidade vai adquirindo, como a resistência do vírus à temperatura ou outros aspectos é uma estultice. A matemática, tal como a música ou a poesia, são para ser usadas com inteligência, com respeito, com arte e com humildade.
Já vai longo este texto. A ver se esta quinta-feira consigo lavar mais um bocado de chão. Também tenho que fazer o almoço e a ver se faço a mais para dar para o jantar. Gostava também de conseguir arrumar umas tralhas que, há umas semanas, trouxe da casa da cidade. Mas já sei que não vou ter tempo para tudo. Talvez isto acalme e eu consiga usufruir um pouco mais deste meu retiro.
Continuo esperançada. Não creio em milagres que caiam sobre nós como brindes mas creio em milagres nascidos da força dos homens e da força da natureza.
O covid não pode ser o fim do mundo. Não vai ser o fim do mundo. É apenas o inesperado motor da transformação do mundo. E acredito que a transformação vai ser para melhor.
E uma vez mais não consigo responder aos comentários, que são tão bons e que seriam tão gostosos de responder. Mas teria que me alongar e já não consigo. No outro dia, num comentário, alguém me perguntava porque é que eu não ia dormir em vez de me pôr para aqui com relambórios e com pinturas e músicas. Tenho ideia que não respondi mas respondo agora: porque sim, porque me apetece. Porque gosto, à noite, de lavar a alma e alimentar o espírito. E porque gosto de partilhar. Só por isso.
Estou quase na mesma que nos outros dias. Passa da meia-noite e estou a começar. Debato-me entre conversar com quem, generosamente, ali abaixo comentou ou responder a mails ou começar já aqui. Mas estou deveras esgotada; por isso, desculpem-me se me atiro já à página em branco. Esta quarta-feira começo o dia bem cedo com uma call (e não estou a fazer género mas apenas a reproduzir os termos que usamos) pelo que não posso repetir a proeza de ir para a cama às três da manhã.
Esta minha terça-feira foi do piorio. Comecei mal pus o pé fora da cama, só consegui comer uma banana, uma laranja e um café já a meio da manhã. Ás tantas, estava a andar de um lado para o outro ao telefone, reparei que o chão da sala precisava de ser limpo. Então fui buscar vassoura e pá e varri. À pressa. E a ouvir os mails a chegar. Levantei carpetes, mudei cadeiras de sítio, afastei a mesa grande, a mesa pequena, varri, tudo a grande velocidade. Nisto tocou o telefone. Um telefonema longo. Entretanto, fui temperar o entrecosto e pô-lo no forno. Já era quase meio-dia.
Apareceu, então, o meu compagnon de route. Dizia que, se era para irmos ao supermercado, o melhor era irmos à hora de almoço pois o dia dele não estava a dar tréguas. Pensei que o meu também não. Fui acabar de me vestir, baixei o forno, e lá fomos.
Cenário de ficção. Ninguém em lado nenhum. Quando chegámos, um empregado à porta, de luvas, disse que só podia entrar um de nós. Entrei eu. A seguir apareceu o meu marido. Mal me viu disse: 'A ver se nos despachamos'. Respondi que ajudasse. Mas, como de costume, não descobriu nada e foi ficando furioso. Não intui o lugar das coisas nos supermercados que desconhece e a este acho que só tínhamos uma vez. Quase ninguém, um supermercado quase vazio é uma coisa estranha. E toda a gente desviando-se dos outros. Quando uma senhora deu uma tossidela toda a gente estremeceu e olhou para ela com desconfiança. Se calhar até eu.
Como aqui no campo não tinha congelados ou grande coisa e, a comermos sempre em casa a comida parece que desaparece num instante, resolvemos ir abastecer-nos para ver se, durante os próximos dias, quiçá sete ou oito ou mais dias, não saímos daqui.
Detestei. Não havia arroz, não havia gel de lavar as mãos, quase não havia peixe fresco, pouca carne. Nem algumas coisas de que precisava e que não são vitais tais como toalhitas anti-transferência para pôr na máquina de lavar roupa, para as cores de umas roupas não mancharem outras. Pelo caminho vim a ver mails e avisei que já ligava a uma que estava a ligar-me. Depois foi chegar a casa, arrumar as coisas com cuidado. A seguir, despi-me, fui tomar banho, fiz o acompanhamento (batatinhas e feijão verde cozido), desatei a receber telefonemas. O meu marido também e teve que ir fazer um mail urgente. Quando estava a vestir-me, cabelo molhado, o telemóvel deu aquele toque de lembrete. Fui ver. Vídeo-conferência em cinco minutos. Quase baqueei. Naquela figura? No way. Fui a correr pentear-me. E qué dê o pente? Apenas vestida da cintura para cima, fui à sala onde estava o meu marido sentado na escrivaninha e, aflita, perguntei-lhe se tinha visto a meu pente. Soltou uma gargalhada e disse: 'É que passou aqui a minha mulher'. Estava ao telefone, e felizmente não disse à pessoa com quem estava ao telefone porque é que isso o fazia rir e, mais felizmente ainda, não estava em videoconferência. Não descobri o pente. Fui à cozinha onde tinha deixado a bolsa pendurada nas costas de uma cadeira e revirei-a. Nenhum pente. Fui à casa de banho, procurei na gaveta onde há um pouco de tudo e descobri uma escova. Enfiei uns leggings porque, sentada em frente do computador, não se vê, penteei-me, fui pôr uma subtil sombra verde cinza na pálpebra superior e, esgalgada de fome, apresentei-me ao serviço. As cadeiras ainda estavam fora do sítio, as carpetes reviradas mas isso também não se via.
A seguir, já era hora do lanche, fomos almoçar a correr.
Os assuntos foram-se complicando ao longo da tarde. E eu cheia de pressentimento. Telefonemas, mails. Ao fim da tarde mais uma videoconferência. E a seguir foi non stop até quase às nove. Quando íamos jantar ligou o meu filho e estivemos a conversar com os meninos. O do meio está desdentado. Menino mais querido. O bebé quis ver onde é que eu estava e, como sempre, quis falar com o avô. Ela, menina mais fofa e linda, mostrou ginásticas. Uma dor de alma não os ter entre os meus braços. Quando me sentei para jantar, o telefone. Era a minha filha e os meninos. O mais crescido, muito crescido, menino querido. O que, em tempos, foi o bebé e depois, o ex-bebé, está grande, divertido, faz caras, ri-se. Mais fofo. Tal como o meu filho também a minha filha está em teletrabalho. Achei-os com ar cansado.
Jantei às dez e tal. Mas a seguir outro telefonema. Más notícias, tudo a complicar-se. O tal pressentimento que vinha sentido desde a tarde. sustos e mais sustos. E mais mails.
Não vi as conferências de imprensa, nada. Só que, no meio destas cenas de mails, telefonemas, preparar-me para jantar e etc, passei pela salinha da televisão, esta em que agora estou, e estava a dar uma coisa qualquer. Como a saleta estava às moscas não tive a quem perguntar o que era aquilo. Percebi, depois, que era um programa da Alexandra Borges a introduzir um debate em que a maioria dos debatedeiros estava em casa e que ia continuar na tvi 24. E, para meu espanto, lá estava o matemático pop, quiçá alternativo, misto de sub-hipster, misto de profeta da desgraça, candidato a nostradamus de trazer por casa. Atrás dele, uma estante com uns bibelotes (bibelotes e não bibelots, ao que me foi dado perceber), um dos quais quase me parecia a Nossa Senhora de Fátima mas que não devia ser. Ao dizer ele uma coisa qualquer, ela concluíu que 5% da população portuguesa ia precisar de ventiladores. Fiquei beige. Da população portuguesa...? Bolas, bolas, bolas. Devia ter dito 5% dos infectados mas para gente empolada o que é preciso é dizer coisas tchanã, que assustem a populaça. Saberá ela quanto é 5% da população portuguesa? Não deve saber. Instantes antes, a dita Alexandra, para dizer mal do Governo, que deveria ter feito e não fez, devia ter encomendado e não encomendou, tinha louvado o grupo Mello por ter encomendado cinquenta ventiladores para oferecer. E eu, que não sou de falar sozinha, não consegui evitar: 'Mulher mais estúpida'. O meu marido foi espreitar: 'Quem?'. Apontei. Ele fez uma cara de enjoo e perguntou: 'Mas tu estás a ver isso?' Expliquei que não, que ia a passar. E acrescentei que não é preciso ser muito esperto para antever que, estando para abrir o hospital CUF Tejo, o que deve ter acontecido é que os 50 ventiladores já estariam disponíveis, à seca, à espera da inauguração e, portanto, foi só pegar neles e emprestar. Mas estas moderadoras (acho que não se lhes pode chamar jornalistas) gostam é de baderna, infectados e sangue a escorrer pelos olhos. Pensar não é com elas.
Quando ao Covid o que tenho a dizer é o seguinte -- e prestem atenção que vou dizer apenas uma vez (pois não me conseguirei acordada para dizer uma segunda vez):
Há muito mais infectados do que os oficiais. E isto não é que os oficiais estejam mal. Não. Só que os oficiais são os que se podem contar, os declarados, os que testaram positivo. Ora, como se sabe, há doentes que não têm sintomas, estão infectados sem o saberem. Outros estão infectados e só têm sintomas dias depois. Portanto, num dado momento, quando a curva está a subir, na realidade há muitos mais novos casos do que os que se consegue declarar.
A taxa de mortalidade do Covid é, forçosamente, bem inferior à 'oficial'. E isto deve-se a que ao número oficial de infectados há que adicionar os que não têm sintomas ou que são tão leves que a coisa passa por uma constipação de nada.
Dito isto, é indispensável levar muito a sério os riscos. Sei de casos que, pelo local em que trabalham, tornam as consequências para o país muito severas e preocupantes. E isto já para não falar naqueles cuja saúde é débil e a quem a aventura covidiana não corre muito bem. Por isso, é bom que toda a gente tenha mil cuidados, lave bem as mãos, não tussa para as mãos ou para o ar, mantenha-se em isolamento social. Depois de haver isolamento social à séria ainda vão continuar a manifestar-se os casos que estavam e incubação. Mas, havendo isolamento, quebrar-se-ão as cadeias de transmissão. E isso, agora, é o que é indispensável. A última coisa que deveremos querer é que o Buescu tenha razão e que a meio de Abril já houvesse mais portugueses infectados do que portugueses cadastrados.
Imagens com o gato dela descobertas no Panda Cansado porque quando estou aqui a trabalhar vejo dois gatos lindos a passearem lá fora, um branquinho e preto e outro cor de mel e branco. Vêm ao som de Omar Sosa & Paolo Fresu a interpretarem A Moment
Nem consigo descrever o meu dia de teletrabalho. Não sei em que mundo é que eu vivia quando imaginei que estando em teletrabalho in heaven, ia conseguir ter tempo para limpar a casa, para dar umas voltas pelo arvoredo, quiçá estar ao computador enquanto, estendida na espreguiçadeira, apanhava uns retemperadores banhos de sol. Não sei mesmo.
Trabalhei de manhã à noite, quase sem tempo para pôr o almoço ao lume, quase sem tempo para confraternizar com o meu roommate. E limpar a casa, claro, nem pó. Estes dias têm estado a ser muito difíceis. As empresas não estavam preparadas para isto e de uma semana para a outra pô-las a funcionar com cada um em sua casa e, na frente de batalha, as baixas a começarem a acontecer, dia após dia, e a gente a querer que as tropas se mantenham no terreno, não é fácil. E, pelo meio, articular tudo, assegurar a comunicação entre todos. E a toda a hora a receber mails de outras empresas a informar que vão deixar de prestar os serviços, e as coisas que estavam encomendadas a nunca mais chegarem e a gente a pensar que, um dia que as coisas cheguem, pode não estar ninguém nos locais para as receber.
E todo o dia, de manhã cedo à noite, mails, telefonemas, videoconferências.
E os meus filhos em casa com os miúdos e a preocupação que tenho por eles e eu aqui longe deles, que pena, que saudades. E os meus pais, que tripla preocupação. E a minha mãe que não era capaz de me encaminhar uma receita e toda ela, enervada, a suspirar, com vontade de não tentar mais com medo de a apagar. E eu aqui com medo de lá ir não vá contagiá-los, eu que até sexta-feira andei em elevadores, em salas de reunião sem janelas e com alcatifas, em restaurantes, em toda a espécie de locais públicos frequentados por gente das mais variadas proveniências.
Mal vi televisão mas vi a excelente entrevista de António Costa: firme, transparente, lúcido, directo, consciente. Portugal deve confiar na sua mão forte na condução desta tragédia.
E vi os Prós e Contras. Uns nervos. Aquela Fátima Campos Ferreira esteve do princípio ao fim obcecada com os ventiladores. Qualquer coisa que qualquer dos convidados dissesse ela rematava com uma pergunta ou uma observação sobre os ventiladores. Que isso é um nó górdio é. Mas antes de nos preocuparmos que não há ventiladores para todos os que precisam, temos é que nos preocupar em que não haja muita gente a precisar. Para programas destes, sobre matérias complexas, tem que haver moderadores que percebam o que os outros dizem.
Outro que parece que levou uma paulada na tola é o tal de Buescu. Não sei para que números é que ele está a olhar que o levam a extrapolar que a meio de Abril já iremos com 12 milhões de infectados em Portugal. Juro: não percebo. A ser assim, em Itália, a esta hora, uma vez que já levam um bom avanço temporal em relação a nós, já iriam com setenta e tal milhões de infectados -- e vão com vinte e oito mil. É muito infectado, claro, mas, caraças, nada que se compare com as maluqueira do Buescu. Portanto, please, percebam que em todas as profissões há profissionais que etc. e tal e este é um desses. Não é por se ser matemático que se pode levar a sério. Isto do covid é uma desgraça que se abateu sobre o mundo mas, no que se refere a nós, não é nada da catástrofe que aquele senhor para aí anda a espalhar. Começou por desvalorixar para agora andar a empolar. Não é para levar a sério.
Bem, bem esteve Pedro Simas. Por tudo o que disse e por outra coisa: é um giraço. Não sei se ainda se diz mas eu digo: um pão. Um borracho. Façam o favor de o levar à televisão mais vezes e de avisar antes para eu não o perder. Um consolo. Gente inteligente e bem apessoada daquela boa maneira são um suplemento de alma para a gente resistir ao covid.
Outra que esteve muito bem foi a Patrícia Gaspar. Serena, forte, confiante, sabedora. A forma como acabou o programa deu-me vontade de a abraçar, de lhe oferecer flores, de lhe agradecer. Grande mulher.
Saindo do Prós e Contras, outro que também já mostrou que não se pode levar a sério é o Marcelo. Depois de andar a desobedecer a todas as recomendações da DGS e, publicamente, a incentivar ao desacato, parece que caíu na real. Mas não apenas caíu na real como parece ter ficado acagaçado perante a perspectiva de poder ter infectado meio Portugal, parece ter caído num estado de estupor catatónico. Isolou-se. Mas isolou-se mais do que a conta pois parece que desertou. Não estava doente, não tinha indicações para deixar de exercer a sua função. Apareceu a falar aos portugueses como se não atinasse com o computador, quase às cabeçadas ao monitor. Um som e uma imagem inexplicáveis. Parecia que estava a falar do meio da selva, sem condições. Caraças. Alguma coisa impede que alguém contacte com ele e lhe coloque uma câmara e um microfone à frente? Passou dos banhos de multidão com beijinhos e selfies para o isolamento monástico, esquecendo-se que é Presidente da República, esquecendo-se do momento assustador que atravessamos. Parece que sem a muleta dos beijinhos e o andarilho das selfies ficou com medo de andar.
A quem eu tiro o chapéu é a Marta Temido e a Graça Freitas. Mulheres trabalhadoras, inteligentes, bem preparadas, dedicadas, fortes. Temos que lhes agradecer por todo o esforço, por toda a entrega, por toda a lucidez, por toda a angústia e stress a que certamente estão sujeitas ao longo de tantos dias consecutivos. Não sei como aguentam, devem andar arrasadas, mal dormidas, sujeitas a todo o tipo de pressões. Confio nelas e agradeço-lhes. Nelas e na Patrícia Gaspar. E no António Costa.
Vamos sair desta. Vamos mesmo. Temos é que nos aguentar. Com muita disciplina, com isolamento, com sensatez, sem pânico. Mantendo-nos em funções se o pudermos (mesmo que remotamente), garantindo que o mundo volte ao normal logo que possível. E pode ser que surja rapidamente o tratamento e que nos reinventemos em melhor. Acredito nisto. Acredito mesmo. Ainda que agora esteja muito preocupada pois não consigo avaliar a dimensão do que nos espera.
Passa da uma da manhã e só agora tenho sossego mental para escrever qualquer coisa. Foi um dia assaz agitado, por razões conexas com este coronado ataque. De tarde, depois de trocas de mails e telefonemas múltiplos, decidimos ambos que entraríamos em teletrabalho. Organizámos, cada um na sua empresa, tudo o que havia a organizar, falámos com quem tivemos que falar, mandámos para casa todos os que podíamos mandar. Não apenas estamos convictos que esta é a atitude certa como os nossos filhos, ambos também já em teletrabalho, nos pressionaram bastante para isso.
E se, cada um na respectiva empresa, já estava muito envolvido nos planos de contingência e nas medidas que eles implicam, a verdade é que ainda estávamos na dúvida em ficarmos, nós, em casa. Para quem passa uma vida inteira a coordenar equipas e a ser o primeiro a enfrentar as dificuldades e o último a apagar a luz, não é fácil saber que alguns têm forçosamente que ficar enquanto nós nos resguardamos. Fica-nos um travo a cobardia.
Quem não está muito por dentro destas realidades pode pensar que -- ao mesmo tempo que parece que o nosso querido mundo está a querer bater em retirada -- fazer de tudo para que as empresas continuem a laborar é uma futilidade ou uma manifestação de um descabido liberalismo mas a verdade é que não apenas podem estar em causa bens essenciais à sociedade como ninguém quer que, quando isto passar -- e há-de passar --, o país tenha virado uma cratera da qual a vida se evadiu.
Decidimos, pois, ficar em teletrabalho e, em consciência, achamos que é isto que todas as empresas, organismos e estabelecimentos onde se vendam bens não essenciais à vida, deveriam fazer. E nos locais que não podem resguardar-se todos, pois que se resguardem o que puderem. Tem que haver um day after.
Uma pandemia trava-se quebrando as cadeias de propagação. Com a higiene tão amplamente divulgada, com hábitos de decência respiratória e com distanciamento social que durem no mínimo quinze dias e, idealmente, um mês, a propagação viral múltipla será interrompida. E, com sorte, vamos parar a uma altura de tempo quente já com poucos casos e, ainda com mais sorte, já com tratamento para o bicho.
Penso que o Governo irá estabelecer regras mais apertadas. Convém que as explique pois penso que nem toda a gente percebe a razão de algumas das que já foram tomadas: por exemplo, porque fechar bares após as 21? Antes disso o bicho raivoso não se propaga?
Respondo eu: claro que sim mas muito menos pois o que se passa é que a partir dessa hora, mais coisa menos coisa, a malta começa a conviver, a animar-se, a abraçar-se, a partilhar garrafas, a partilhar charros, a esquecer os dramas do mundo pois tudo parece muito peace end love e a malta quer é ser feliz. Portanto, enquanto a fera microscópica andar à solta, que fechem os bares, que vigiem locais de muito contacto e muito amor, que seja proibido beber na rua -- e quem conheça a animação nos passeios junto aos bares sabe bem a festa que é. Identicamente, dada a escassez de clientes e do risco de contágio, mais vale que encerrem centros comerciais e outros estabelecimentos mais frequentados por estrangeiros. Quanto mais radical for o isolamento social, mais curto ele precisa de ser.
Vai ser muito difícil, vai ser um tempo de inquietação, vamos pôr-nos diariamente à prova. Mas se, dessa forma, travarmos a ascensão em flecha da curva, valerá a pena.
Entretanto, a nível nacional (e europeu -- e mundial) haverá que injectar liquidez circulante na economia e pensar em como aguentar, no 'ventilador', empresas e trabalhadores individuais e todos os que sofram com esta paragem de actividade. Não é tempo para limpar armas. É tempo é de evitar perdas, perdas de vida em primeiro lugar e, a seguir, a perda de rendimentos. Espero que, mal esta borrasca passe, haja planos para tentar recuperar tudo o que vacilou durante os tempos da peste.
Mas, para já, a prioridade é quebrar as cadeias de contágio -- mesmo que seja à bruta.
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Portanto, tendo decidido entrar em teletrabalho, achámos que em vez de nos fecharmos numa torre, na cidade, ficaríamos bem era aqui, in heaven. E, assim, fomos buscar roupa e mantimentos e viemos. Quando aqui estou, venho o mais casual possível. Eu e ele. E ou trago comida para um ou dois dias ou vamos ao supermercado. Como resolvemos entrar o mais possível em isolamento e no mínimo ficaremos uma semana, desejavelmente duas, resolvemos trazer comida quanto baste. E eu, que participo em inúmeras video-conferências, nunca participei em nenhuma a partir de casa. Ora, em contexto profissional, não me vou apresentar toda informal e mal arranjada. Portanto, vim com várias mudas de roupa, brinquinhos, etc. Uma vez mais, saí de casa, na cidade, com roupas, livros e comida, sem saber por quanto tempo. Uma tristeza. Parece que uma pessoa está a ir para o exílio. Uma pena deixar a casa para trás nestas condições.
Depois, aqui, foi preciso tirar as coisas do carro, arrumar, etc. E mais um monte de mensagens e artigos enviados pelos meus filhos.
A seguir decidi que tinha que escolher o décor de onde vou entrar em vídeo-conferência já que vou ter várias reuniões. Esta é uma casa de campo, não há escritório. Nem vou aparecer à escrivaninha com o cavalete das pinturas atrás. Nem na mesa dos azulejos com os brinquedos dos miúdos à vista. Não vou aparecer no sofá onde habitualmente pouso, como é o caso presente. Estarei a trabalhar e não refastelada, em férias. Também não vou estar num local de onde fique à vista a mobília e os bibelots senão distrai a atenção de quem estiver a ver-me. Se estivesse bom tempo, punha uma mesa debaixo de uma árvore e pronto, aparecia no maior bucolismo, passarinhos a fazerem o acompanhamento musical. Mas vai estar frio, acho. Ora, com isto, com o computador de um lado para o outro a ver o que se via, gastei um ror de tempo.
Pode parecer futilidade, e não digo que não seja, mas eu sou assim, dada a maluqueiras e vaidosices. Poderia dizer que isto é coisa de mulher mas, cá para mim, com o que tenho visto com os colegas que, nos últimos dias, têm entrado em reunião a partir de casa, isto deve acontecer com todos. No entanto, a ver se eles assumem isto...? É o assumem.
Portanto, agora estou aqui que não posso, já dei por mim a cabecear nem sei quantas vezes. Para lá de bagdad. Daqui a nada são três da manhã. E esta segunda-feira, em vez de poder ficar a dormir até vir a mulher da fava rica, vou pôr o despertador para me levantar cedo e cedo começar a trabalhar. Uma coisa que nem parece justa pois in heaven está-se bem é na rêverie ou a podar árvores ou a cortar mato, não a trabalhar a sério.
A ver como vai correr. Pelo menos a ver se, à hora de almoço ou no final da jornada, tenho tempo para um banho de sol.
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Uma boa semana, meus Caros e minhas Caras.
Sem medo mas com preocupação. Com solidariedade mas com distanciamento. Com exercício e com comida saudável. Com boas leituras e com melhores músicas. Com atenção e com bué de smiles.
E etc.