quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Juan, o jovem namorado da velha pintora
- um segredo bem escondido (pelo menos de mim)




Quantas  vezes já eu aqui disse que me atrai a vida livre dos artistas? Tanto, atrai-me tanto. Especialmente de pintores. E quantas vezes já aqui falei de Georgia?
São as suas flores, é ela, o seu rosto, o seu porte, a sua determinação, toda a sua vida.

Quando nova, Georgia rompeu todas as regras: teve um caso com um homem casado, deixou-se fotografar nua, não se importou de posar mostrando o seu corpo livre. O homem que tal paixão despertou foi  Alfred Stieglitz (com quem foi casada entre 1924 e 1946), fotógrafo, promotor de arte moderna, galerista, mais velho que ela 23 anos.

Já aqui falei deste amor, e já várias vezes aqui a trouxe. Qualquer coisa na independência e na liberdade intrínseca desta mulher tão rija me cativa. Nos últimos anos o seu rosto adquiriu os traços de uma rude camponesa. Era muito bela. Devia ser fascinante -- como são todas as mulheres inteligentes, livres e irreverentes.




O abandono de Georgia à câmara de Alfred, o abandono do seu corpo ao olhar do amado, em algumas o olhar de desafio, o sorriso disfarçado -- e, em todas, a expressão da uma vontade própria que não se deixava sujeitar. Olho-a e imagino-a a dizer:
Esta sou eu. Olha-me. Vê como o meu cabelo se espalha, olha como os meus seios quase cabem nas minhas mãos. Olha-me. Guarda-me nas tuas fotografias. Guarda-me dentro de ti. Mas deixa-me livre.
Alfred quis casar-se com Georgia apesar de Georgia não o querer. Casaram. Foram amigos, cúmplices.

Georgia e Alfred

E depois há a sua arte. Gosto das pinturas de Georgia, gosto mesmo. Há uma sensualidade desmedida, uma exuberância cromática que não acautela limites. Algumas vezes tentei pintar flores como as dela, mas não consegui, não consegui desimpedir-me, tinha muitas fronteiras na minha cabeça e as minhas mãos não conseguiam dar o salto. Nunca mais tentei. Não se deve tentar que as mãos voem mais alto do que a cabeça.


Mas eu não sabia uma coisa: não sabia que em 1973, Juan Hamilton, então um jovem ceramista com 27 anos e com falta de dinheiro, tinha procurado emprego junto de Georgia que tinha 85 anos -- e que isso foi o princípio de uma história em que os intervenientes tinham 58 anos de diferença de idade.


Não sabia que, aos poucos, se tinha desenvolvido entre eles uma grande estima, e mais e mais estima. Juan era o empregado de Georgia, o homem forte que trabalhava com vigor, que a transportava, que carregava as suas coisas, que estava sempre à sua disposição, em quem ela descarregava, se fosse caso disso, a sua impaciência ou ataques de fúria.

"She was no flower. When she was in a bad mood, boy, she was tough!"


Juan foi a sua companhia, o seu amparo, a sua alegria, o seu último amor.

(Ao ler esta história, não pude deixar de me lembrar de outros casos de que aqui já falei como o de Marguerite Duras e Yann Andréas, outro amor improvável).

Os conhecidos que, ao princípio não estranhavam - afinal era normal que uma mulher daquela idade tivesse um jovem empregado para a ajudar em parte das tarefas -, por fim começaram a temer que ele estivesse a aproveitar-se de uma indefesa idosa. Juan tinha-se tornado indispensável nas viagens, nas visitas, em casa, na cama de Georgia.

Ela tranquilizou-o: afinal se um homem velho arranjasse uma mulher nova, haveria algum mal? Então porque haveria ela de coibir-se de ter um jovem amante? Ele que não se ralasse com o falatório.
"Georgia said, 'All the men artists can have young women, but people think it's shocking that I might have a young man in my life,' " he continues. "Of course, she'd gotten over the sensitivity—you wouldn't believe the things that were said about her and Stieglitz. He was 23 years older than her, and still married to his first wife when they began their affair. Imagine such behavior! Photographing her nude, and so forth. I'd get upset about what people said, but she'd just say, 'Oh, for Christ's sake, Juan, what do you care what they think? Just focus on your work.' "
E era possessiva, insegura, ciumenta como uma adolescente.
"Once, when we were in New York, a wealthy friend of Georgia's asked to borrow me to hang pictures in her penthouse," Hamilton says. "I went over and did it, and it wasn't a big deal, but Georgia was so angry when she found out. She said, 'The nerve of her. I know she had other intentions.' I'm not going to speculate about what those intentions were, but the woman had recently separated from her husband, so you can guess. But that's all trash talk, and that's what people like to do—gossip."

Isto diz Juan Hamilton que tem agora 70 anos. Georgia O'Keeffe morreu em 1986, quase com 100 anos. Juan, no fim, casou-se com outra mulher e ela achou bem: 'Good. You'll need somebody when I'm gone.' "

Georgia deixou-lhe as suas duas casas e muito dinheiro. Ele esclarece:
After O'Keeffe died, Hamilton quickly gave over most of what she'd left him to her family's estate, which is now controlled by a board of trustees (he serves as a special consultant). "There was a lot of talk about how much money I got, but I turned down a huge amount just to have my freedom," he says. "I'm not living off what Georgia left me; I've been living off my own work and wits."

Toda esta história pode ser lida no artigo da Harpar's Bazaar: EXCLUSIVE: GEORGIA O'KEEFFE'S YOUNGER MAN

(Georgia O'Keeffe's intimate relationship with Juan Hamilton, 58 years her junior, was an art world scandal. As London's Tate Modern museum prepares to mount a new O'Keeffe retrospective, Hamilton talks about their bond)
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Vídeo com Georgia O'Keeffe na sua casa no New Mexico em 1977, quase com 90 anos



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Lá em cima, Sara Gazarek interpreta Dear Someone


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E, aos que ainda não viram, queiram, por favor, descer até ao post abaixo: A todos quantos parecem ter sido afectados pelo Zika-B (dedicado às viúvas do láparo e ao próprio que, tão afanosamente, procuravam pelo Plano B. Isto, claro, antes de terem visto um novo osso, o da nacionalização do Novo Banco, e já andarem todos num excitex: béu-béu, béu-béu)

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E um bom dia a todos.

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A todos quantos parecem ter sido afectados pelo Zika-B


Se eu perguntar aos desvairados deputados do PSD e CDS (especialmente aos primeiros), aos desvairados comentadores que pululam entre as rádios e as televisões e aos desvairados moderadores de debates e jornalistas que, todos eles, parecem ter sido afectados pelo Zika-B, se têm um plano alternativo (e que explicitem as respectivas medidas) para o caso de alguma coisa imprevista se passar, o que me responderiam?

Antevejo que grande parte deles nem parava para pensar e, com o voluntarismo imprudente dos néscios, na ânsia de parecerem espertos, dariam, imediatamente, uma resposta do género:
  • O pateta Baldinha diria que sim, que tem, que há que tempos o tem, que já tem Ben-u-Ron para o que der e vier.
  • O pateta Montinho diria que sim, claro que sim, que já está munido de guarda-chuvas.
  • A pateta Matinhos diria que sim, toda a gente deveria também já estar preparada: que já tem escolhida a estação de serviço onde irá encher o depósito de combustível.
  • O pateta Dininha diria que com certeza, já tem consigo o protector solar.
  • O pateta Ferrinha diria que desde o início do ano que tem tudo a postos: já tem preparado um bolso secreto no colchão para esconder o dinheiro.
E imagino-os a dizer, convictos, impantes na sua prosápia: ‘Obviamente!’ como se outra coisa não fosse de esperar.

E, no entanto, o plano do pateta Baldinha poderia não servir de nada se o problema dele viesse a ser o ter furado um pneu, ou o do pateta Ferrinha para nada prestaria se o problema fosse ele ter imprevidentemente temperado o bacalhau com demasiado alho e, a seguir, aparecer-lhe pela frente a mulher dos seus sonhos.

Ou seja, plano B para um problema exactamente de que tipo?
O que é que estão exactamente a querer saber?!

Vem isto a propósito de, tendo sido aprovado o Orçamento pela maioria de esquerda em peso, sob aplauso das respectivas bancadas, logo de seguida, como cães a um osso, toda uma chusma de deputadeiros, comentadeiros e jornaleiros ter desatado, num inusitado frenesim, a discutir:
Qual o plano B? (- by Micaël Reynaud)
Qual o plano B? 
Há ou não há plano B?
Quais as medidas do plano B? 
Quem é que sabe se há plano B? 
Quem é que afinal está a preparar o plano B? 
Quem é que, no meio disto, escolhe as medidas do plano B? 
A deputada do BE? O ministro? Quem?!? Onde é que está o plano B? Digam!
- como se todas as questões do País, neste momento, girasse em torno do famigerado Plano B.

[Claro que a discussão teria mais graça se, em vez disso, se reunissem todos a discutir se há ou não Ponto G. Mas isso é lenha a mais para a camioneta deles, preferem entreter-se com ficções.]
E eu assisto àquele espectáculo e nem sei que pense. Estará tudo doido? Foi o Zika-B, foi? 

Então uma pessoa quando se propõe fazer uma coisa, deve é de imediato concentrar-se em preparar-se para o falhanço daquilo a que se propõe? 

E eles? Será que aquelas pessoas (o Baldinha, a Matinhos, o Batatinha, a Cebolinha, o Parvinho, o Anormalzinho, o Alhinho, a Alfacinha, etc), antes de saírem de casa, preparam-se de acordo com o tempo que faz, com o local para onde vão ou para o que vão fazer, ou, em vez disso, ficam atarantados  a preparar-se, à toa, para tudo o que der e vier e mais um par de botas?

Deixa-me cá levar o chapéu de chuva, deixa-me cá levar o chapéu para a cabeça, deixa-me cá levar o protector solar, deixa-me cá levar o Imodium, deixa-me cá levar pastilhas para a garganta e, já agora, também para a azia, deixa-me cá levar um penso, ou melhor, deixa-me cá levar pensos para vários fins e de várias dimensões, deixa-me cá levar uma bomba de encher pneus, deixa-me cá levar uma fisga para o caso de me cruzar com o Cavaco, deixa-me cá levar champô para cabelos oleosos para o caso de me cruzar com o Nuno Magalhães, deixa-me cá levar meia dúzia de ovos e um quilo de açúcar para o caso de me cruzar com o Láparo e lhe quiser fazer um agrado, não vá ele apetecer-lhe fazer farófias no intervalo do plenário, deixa-me cá levar um depilador para o caso de me cruzar com o Catroga, deixa-me cá levar uma sandes para o caso de me dar a fome, deixa-me cá levar um submarino de brincar para o caso de me cruzar com o ex-irrevogável e me apetecer fazer-lhe pirraça, deixa-me cá levar uma embalagem de Depuralina para o caso de me cruzar com o Amorim e querer ser simpática, deixa-me cá levar um colchão portátil para o caso de precisar de dormir a sesta enquanto a cassandra Medina estiver a antever calamidades, deixa-me cá levar comprimidos para os nervos caso seja obrigada a ouvir o António Costa (comentador), o David Dinis, o José Gomes Ferreira, a Helena Matos, o Baldaia, o Henrique Monteiro, etc, etc, deixa-me cá levar um gorro de pele à russa para o caso de nevar ou de me cruzar com o Putin, deixa-me lá levar um calicida para o caso de me nascerem calos de criar bicho, deixa-me cá levar umas botas para oferecer à Judite Sousa caso me cruze com ela, deixa-me cá levar uma garrafa de azeite e um queijo para o caso de me cruzar com o Fernando Mendes, deixa cá levar uma protecção contra o vírus da gripe para o caso de ouvir alguém espirrar, ….  

E podia continuar entretida com um plano B só para fazer boa figura e nenhum blogger pafiento embirrar comigo, nenhum comentador me apanhar em falso ou para o puto malandreco do PSD e seus coleguinhas não terem por onde me pegar -- porque, em abstracto, tudo pode acontecer e cinquenta mil milhões de medidas podem não ser suficientes para o que, na realidade, vier a ter lugar (especialmente se falarmos de um Act of God).

Por exemplo, o que fariam as viúvas do Láparo se o cão lhes nascer com cabeça de couve-flor?
Sim, o quê?
Qual o plano B?

. & .

Quero com isto dizer que quem traça um plano se deve meter a ele, às cegas, sem querer saber de desgraças? 

Não, claro que não. A questão não é essa.

A questão é que as pessoas competentes, experientes, inteligentes, sabem que têm que monitorizar de perto o que se passa, que existem mecanismos de mitigação para possíveis riscos, que têm que estar preparadas para, em tempo útil, mobilizar recursos para atacar onde for preciso. E sabem também outra coisa: que não se deve perder muito tempo com estes bandos de artolas que não fazem a mínima ideia do que é isto e que, portanto, por aí andam feitos baratas tontas inventando parvoíces e disso fazendo um modo de vida.
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E até já. E, provavelmente, com uma coisa completamente diferente porque, verdadeiramente, nada disto se pode levar a sério -- por exemplo, agora, à hora a que aqui estou, o láparo e as suas viúvas, completamente atarantadas, já andam aos saltos e aos guinchos, tresloucadas, em torno do assunto Novo Banco: nacionaliza? Não nacionaliza? Tão bom que ele era e agora assim? Mas como foi isto? E a credibilidade do sector financeiro português que era tão boa, tudo tão sólido, como fica? Ó céus, ó deuses!

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E, caso tenham aterrado aqui agora, permitam que vos sugira que deslizem por aí abaixo que a conversa que se segue é mais agradável: surrealismo, Cesariny e etc.


quarta-feira, fevereiro 24, 2016

É sobre a missa branca do teu peito que se erguem os palácios rasos de água


Linha d`Água (sem data). Autor: Mário Cesariny

A primeira vez que ouvi falar de Mário Cesariny, que nessa altura ainda era de Vasconcelos, foi na antiga cidade de Lourenço Marques. O nome intrigou-me imenso. Intrigou-me ainda mais o facto de se tratar de um surrealista português. Surrealismo para mim, naquela altura, queria dizer Paris. Exclusivamente Paris. Estávamos no ano de 1957. Escrevi para Portugal, para a livraria Bertrand, a perguntar se o poeta Mário Cesariny de Vasconcelos tinha obra publicada e se me podiam enviar um livro, o que tivessem, à cobrança. O livro que chegou foi Pena Capital. Li-o com deslumbramento e escrevi logo outra carta, desta vez à Contraponto, a pedir mais, mais livros daquele poeta. E desta vez recebi, numa edição numerada e assinada pelo editor, Luiz Pacheco, Manual de Prestidigitação. Uma festa.

Figuras de Sopro, 1947, óleo sobre cartão, 37,5 x 24,5 cm. Mário Cesariny

Li e reli os dois livros e decorei certos poemas para sempre. um desses, 'Julião os Amadores', saíu-me do princípio ao fim, a meio de uma conversa com Alberto de Lacerda. Quando dois poetas se encontram falam sempre de outros poetas. Falávamos do Cesariny que o Alberto conhecera na altura da formação do grupo surrealista português. O Alberto perguntou-me por que razão tinha eu decorado esse belíssimo poema que também tanto apreciava. 'Foi só de ler, Alberto. é um poema que me ficou.' E então o Alberto fez uma pausa especial, um gesto leve com a mão, e disse apenas: 'O Mário é o maior de todos nós.' Notei que disse o maior, não o melhor. Os critérios do Alberto exigiam grandes poetas.

Estávamos ambos em Londres. Na Londres que tanto amávamos. (...)

O Papá que veio de Leste, de Mário Cesariny . Lisboa, 1980

O que há para descobrir de Cesariny no mundo íntimo de Alberto de Lacerda excede em muito os contornos deste livro. Mas nesse mundo e sempre nos dois sentidos, resplendem admiração e amizade que o tempo nunca deixou de sustentar. Nenhum deles desejou que fosse uma amizade literária. O que a define é uma alta camaradagem marcada, muito ao contrário, pelo desejo de aventura e de magia com que Alberto e Cesariny sempre quiseram viver.

Peço a Mário Cesariny que nos venha aqui contar.

[in Introdução - Luís Amorim de Sousa, Oxford, Maio 2014]

(in 'Um Sol esplandecente nas coisas', cartas de Mário Cesariny para Alberto de Lacerda)


Já nada temos a fazer sobre a Terra esperemos de olhos fechados a
              passagem do vento
dizia eu            dizia eu
que é sobre a missa branca do teu peito que se erguem os palácios
             rasos de água
no escuro         no escuro
alguém nos levará tocando-nos com um dedo nós trémulos,
             deitados, sem dizer palavra, morreremos de ter-nos
             conhecido tanto
e depois?          e depois?
depois o halo de uma fita azul o martelo esquecido sobre a pedra
             de um sonho
mas os salões?   e a casa?
e o cão que nos seguia?

o teu rosto meu rosto
este homem alto
                            o Sol

[Julião os Amadores]

Mário de Cesariny

Mário Cesariny ''Ama como a estrada começa''


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Convido-vos hoje a virem de passeio até ao meu Ginjal e Lisboa, a love affair onde vou, ao luar, pela mão de Luís Filipe Castro Mendes e ao som de Catrin Finch e Seckou Keita

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E, caso não tenham lido o que ontem publiquei à hora de almoço, aqui fica o link: 
(um post dedicado a falsidades, imitações, erros de casting e outros)

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Passos Coelho e o láparo que não sai de dentro dele, Agostinho Caridade, o falso padre de Barcelos, o photoshop que correu mal, os bebés que parece que dançam kuduro
-- um post dedicado a falsidades, imitações, erros de casting e outros


Para quem aterrou agora aqui e ainda não ouviu a dupla de sucesso Mozart & Salieri ou não viu ideias para bibliotecas domésticas e para quem ainda não deu de caras com a minha fúria contra os papagaios avençados que opinam agora como se fossem especialistas em finanças públicas  e como se o Orçamento fosse a nova Bíblia, a nova Constituição, os novos Lusíadas, a nova tabuada, o alfa e o ómega de tudo quanto mexe - então informo que, querendo, podem, através dos links, saltar já para lá.

É que aqui, agora, a conversa não vai ser meiga. Eu bem queria destilar mel, fazer olhinhos marotos, dizer lol lol e outras doçuras blogosféricas. Mas a televisão não me deixa. É certo que podia levantar-me e ir buscar o comando mas, ó caraças, uma avózinha depois de um dia de trabalho não merecia ser poupada? Francamente.

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Vamos lá.



Anda por aí um tal que se fez passar por primeiro-ministro durante 4 anos. Conseguiu enganar muita gente, mais pela voz bem colocada e por ser alto e ter boa figura do que pelo que disse ou fez. Durante esses 4 anos revelou completa inaptidão para governar o país, o que não é de admirar já que nunca, antes, tinha governado o que quer que fosse na vida. Os espertos de sempre, que dispõem de olheiros, logo sinalizaram a criatura e passaram a informação aos mandantes. Portanto, com ele a fazer de primeiro-ministro, foi fácil conseguir que as grandes empresas do país, incluindo as estratégicas, fossem passadas a patacos, foi fácil que as firmas de advogados e de assessoria tivessem tido trabalho com fartura e, ainda por cima, trabalho fácil e bem remunerado. Foi também fácil pô-lo a papaguear a argumentação que permitisse suprimir rendimento às pessoas para que, com essas verbas, se pagassem juros e dívidas velhas (por substituição de dívidas novas). E igualmente fácil foi pô-lo a insultar os portugueses, a assustar os mais velhos e a incentivar os mais jovens e melhor preparados a saírem do país.

Agora a aventesma foi finalmente afastada do poder mas, os que lá o mantiveram durante aqueles desgraçados anos e dele se aproveitaram, continuam a mantê-lo vivo. A comunicação social continua a dar-lhe palco de primeiro plano. Os noticiários mais ouvidos têm-no em permanência. Com a sua voz bem colocada e a sua alta figura, continua a falar com convicção, parecendo que sabe do que fala. Pode dizer uma coisa e, acto contínuo, o seu contrário. Diz-se e desdiz-se, jura nunca ter feito o que passou anos a fazer, critica nos outros não o que os outros fazem mas o que ele fez durante anos. É destituído de ética. Ou, então, é destituído de princípios. Mais do que imorais, as suas atitudes são amorais, estranhamente destituídas de qualquer laivo de moralidade. Situa-se num patamar diferente daquele em que se situam as pessoas equilibradas, bem formadas, minimamente inteligentes. Não tem vergonha ou não tem memória ou não tem medo de ser desmascarado, gozado, corrido de cena como um vulgar trambiqueiro. 

Uma pessoa assim destrói a credibilidade dos políticos, dos partidos, dos sistemas democráticos.

Manter uma pessoa destas à frente de um partido pode parecer inofensivo, mas não é. Mina a confiança das pessoas que gostam de ter à frente das instituições pessoas correctas, honradas. Pode parecer que agrada aos seus correligionários mas não, agrada apenas aos da sua laia, e que, felizmente, fazem muito barulho e parecem omnipresentes mas são poucos. 

Uma pessoa assim é uma erva infestante, é um parasita que infecta aqueles em que se aloja.

Ele pode querer tirar o láparo que há nele mas a cada palavra que profere, a cada esgar, se vê que o láparo lá está, o pêlo a sair-lhe pelas unhas, servil perante os mercados, ajoelhado perante a Alemanha, de gatas perante Bruxelas, insidioso perante os portugueses.

E enquanto o seu partido não o relegar para o lado omisso da história e a comunicação social não se envergonhar de dar palco a tão desqualificada criatura, Portugal não vai conseguir respirar ar puro.

A bem da democracia, da liberdade de escolha e da soberania, era bom que o PSD e a comunicação social acordassem e optassem também pelo bem do seu país.

Durante algum tempo Agostinho Caridade, de 42 anos, celebrou missas, enganou os fiéis, fazendo-se passar por padre. Está agora a ser julgado. Durante o tempo em que assim agiu, o falso padre de Barcelos roubou peças valiosas. Agora, pelo menos, mostra-se arrependido.

Será que alguma vez vamos ver o falso ex-primeiro-ministro Passos Coelho arrependido por ter enganado os portugueses e ter proporcionado o roubo de rendimentos, o roubo de soberania? Não sei. O ex-falso padre diz que agiu assim para fazer face às dívidas do jogo. E, digo eu, se calhar viu que era fácil enganar tanta gente. Não sei qual a motivação de Passos Coelho mas, provavelmente, às tantas passou a fazê-lo também por ser fácil. 

E, pelo que se vê com o lindo espectáculo dado pela comunicação social, continua a ser-lhe fácil. Dão-lhe palco, retocam-no, tentam fazê-lo parecer respeitável.
Ele, contudo, não sendo capaz de esconder o láparo que vive dentro dele, diz coisas inconcebíveis (que António Costa ajoelha perante a Europa, que não sei quem é pirómano, e o Montenegro-voz-do-dono logo vem dizer que o Orçamento é bipolar e outras vacuidades que tais). Olha-se para a criatura alaparada e o que se vê é um descuidado exercício de photoshop: nada ali bate certo, é tudo falso. Um desastre.

Passos Coelho é como esta menina: ainda quer parecer um primeiro-ministro, agora todo prosa, todo anti-carga-fiscal, todo anti-bruxelas, todo rescendendo a social-democracia. 

Mas olha-se e não apenas se vê o láparo a sair-lhe pelas unhas como nada nele é coisa própria de um primeiro-ministro. A comunicação social bem tenta, mas a verdade é que não têm sorte nenhuma. Passos Coelho é um erro de casting em forma de gente, tudo o que ele faz ou diz está errado. 

Olha-se para ele e parece que ainda tem a mão de Schäuble no ombro, uma madeixa de cabelo da Merkel a sobrevoar-lhe a cabeça, o espírito do João Duque a esvair-se-lhe da perna, a maluquice do Maçães a derreter-se-lhe na mão, as inverdades da Albuquerca a reluzir-lhe no olho, a devoção do Cavaco a fazer-lhe subir o umbigo barriga acima, o apoio dos inteligentes Hugo Soares e Duarte Marques a desequibrar-lhe a linha do mar. Só cenas.


(Já agora: para quem quiser confirmar os erros de photoshop da fotografia, clique aqui)

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Até pode parecer que as crianças aqui abaixo fazem mesmo tudo o que aqui se vê: mas é tudo montagem, tudo treta. É o mesmo que aquilo a que estamos a assistir com Passos Coelho: põem-no a fazer de conta que foi um primeiro-ministro responsável mas, hélas, apesar da figura escorreita e da voz bem colocada, basta olhar com um pouco de atenção para aquela pobre construção se desmoronar toda. Passos Coelho é, sempre foi e sempre será o Pedro que abre portas (e oh se ele as abriu nos últimos 4 anos: foi um fartar vilanagem; quem quis, entrou e serviu-se).

Kuduro 


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E permitam que volte a recordar-vos: se descerem por aí abaixo encontrarão, já a seguir, um post sem láparos ou outros tretalhões: apenas bibliotecas, decorações e, pasme-se, uma obra Mozart e Salieri. Mais abaixo volto à catanada (Não há vida para além do orçamento?) que, por muito pacifista que uma pessoa queira ser, estão sempre a desafiar o nosso bom feitio.

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terça-feira, fevereiro 23, 2016

Per la Ricuperata Salute di Offelia
- a cantata de Mozart e de Salieri tocada pela 1ª vez
Para se ouvir de olhos fechados ou, não gostando de assim estar, para se ouvir enquanto se lêem coisas sobre as casas onde vivi e se vêem modelos de estantes e etc

(Sou poucachinha, vocês sabem - porque só uma poucachinha é que fazia uma misturada destas)


No post abaixo já me insurgi contra esta epidemia, esta praga: ou é Passos Coelho e apaniguados ou são comentadores às pinhocas. Por todo o lado. Uma infestação de gente que manipula, mente, distorce, lança areia, lança poeira. Falam do que não sabem, armam uma cegada, enredam-se nas suas próprias baralhações - mas sempre com ar douto, convicto, como se estivessem a falar de cátedra. Tanto papagaio, tanto burro, tanto carneiro, tanto palhaço. Não há pachorra.

Mas isso, meus Caros, é ali em baixo. Aqui, agora, vou partir para outra para ver se me volta a boa disposição.
Bolas que esta gentinha me tira do sério. Só gostava de saber é quem é que, de facto, paga para tanto mentecapto andar por aí a lançar confusão?!?
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Mas adiante. Falemos, antes, de livros e de música para nos sentirmos melhor.




A minha primeira casa era pequena: um T1 num 15º andar com uma vista fabulosa.  O quarto era grande e tinha uma varanda larga, a sala era enorme e tinha uma varanda que parecia suspensa, e havia uma pequena cozinha, uma casa-de-banho, um roupeiro grande no corredor, um hall razoável. Mas só isso. E chegava bem. Adorava aquela casa. Já nessa altura, tínhamos uma estante alta cheia de livros. Os móveis eram lineares, geométricos, em madeira escura da Interforma. Tínhamos também uns cubos, uns abertos, só com uma prateleira ao meio, outros com portas, que empilhávamos de forma variável e que tinham funções diversas. Os móveis eram escuros mas os sofás eram de cores alegres. E, no conjunto, e talvez pela muita luz e pela vista do além, a casa era alegre e parecia muito espaçosa. Tivemos que nos mudar quando a minha filha nasceu, queríamos que ela tivesse o seu quartinho.

Nessa altura mudámo-nos para uma casa grande. Pouco depois, nasceu o meu filho. Tinha vinte e poucos anos e uma casa cheia de coisas de crianças e de livros. As estantes foram invadindo tudo, tanto ou mais do que os brinquedos. Era o piano dela, e depois a guitarra dele, e a linha de comboios e a pista de carros que eram do pai, e legos e meccanos e bonecas e os livros deles e sei lá que mais. Nessa altura, não sei bem porquê, talvez porque não havia Ikea ou oferta do género, ou talvez por influência familiar, deu-me para ter a casa num estilo mais clássico, aquilo a que se chama estilo inglês, móveis de estilos variados, sofás confortáveis, um grande de veludo que veio da casa dos meus sogros, capitonné, outros de cores variáveis, tudo de cores alegres, e cortinas floridas, muitos quadros claros, aguarelas. Ou seja, ainda assim a tender para o leve. Depois, como às tantas os livros já não cabiam, voltámos a mudar de casa.

Esta casa agora é maior, há estantes por todo o lado e montes de livros ainda a granel. Logicamente, uso os móveis que vieram da outra casa. Muitos de nogueira ou raiz de nogueira, outros de carvalho, outros que desenhei e foram feitos a feitio em mogno. Mas já tenho muitas estantes do Ikea, lineares, abertas, simples.

Se fosse hoje não mobilaria a casa como agora a tenho. Apesar de tudo, das misturas, das cores, dos objectos heterodoxos, ainda a acho demasiado convencional para o que hoje sou. Se fosse hoje, misturaria móveis de cores, estantes azuis, armários encarnados ou amarelos, muita coisa branca com puxadores um de cada cor. Coisas assim. Mantinha, contudo, os espelhos. Gosto de espelhos: trazem ainda mais luz para casa.

Na casa de campo o estilo já é mais assim, ou seja, mais ecléctico. Mas, como tenho várias peças de mobiliário que foram herdadas e outras adquiridas em ferro-velho, estou longe das linhas simples, lisas, coloridas que gostaria de ter.

Vem isto a propósito do artigo com bibliotecas que vi na Harper's Bazaar e de onde retirei as primeiras 4 fotografias e de outro na Marie Claire Maison de onde tirei as últimas 3. Claro que há lá mais mas apeteceu-me escolher estas.

E dos livros passo para a música e até estou a pensar que não deveria ter misturado esta música com todo este palavreado, que deveria era dar-lhe o devido destaque. É que não é coisa qualquer. É chuchu mesmo. Mozart & Salieri, essa dupla que alimentou intrigas e ficções, juntos e ao vivo (que é como quem diz)

Podia traduzir o que se segue mas estou preguiçosa.

Para os que se entendem com francês:

Ecrite il y a plus de deux siècles, une partition écrite par Wolfgang Amadeus Mozart et le musicien italien Antonio Salieri, vient d’être mise en musique pour la première fois, par le claveciniste Lukas Vendl à Prague.

Mélomanes et amoureux de musique classique, réjouissez-vous ! Un morceau daté de 1785 et composé par le grand Mozart a été retrouvé dans les collections du Musée de la musique de Prague. Intitulé « la cantate Per la ricuperata salute di Offelia » (Pour la santé retrouvée d'Ophélie), ce morceau illustre, pour les spécialistes, la relation qui liait les deux artistes.
« Il est vrai que le passage écrit par Mozart est, disons, plus ingénieux et plus dramatique, et les deux autres couplets sont plus lyriques. Mais il n'est pas possible d'en déduire que l'un ou l'autre était un meilleur compositeur », a expliqué Lukas Vendl, qui a joué la cantate sur un clavecin pour la première fois depuis fort longtemps. La copie de Prague est la seule qui soit conservée à ce jour.
E para quem prefere bife:

A rare print, until now considered lost, has been discovered in the collection of the Department of Music History in the National Museum‘s Czech Museum of Music. It is a libretto by the court poet in Vienna, Lorenzo Da Ponte, with a score, entitled Per la Ricuperata Salute di Offelia. The libretto was set to music in autumn 1785 by Antonio Salieri - the court composer of Italian origin - Wolfgang Amadeum Mozart, and Cornetti.


Harpsichordist performer - Lukáš Vendl


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E, caso vos apeteça ver o estado em que eu estava quando comecei a escrever isto, desçam, por favor, até ao post já a seguir. Estava mesmo piursa. 

(E agora estou a ficar de novo. O ar aqui da sala está outra vez atabafado tal a chusma deles: está a dar o noticiário da meia-noite e saem da televisão como uma gorgolejante nuvem de Aedes mosquitoes. Querem ver que tenho que voltar ao assunto? Já cá volto.

Olha, até o José Gomes Ferreiro outra vez! Apre!)


Não há vida para além do Orçamento? - pergunto.
E pergunto à TSF, à SIC, à TVI, à RTP, todos esses que, com tanta conversa da treta levada a cabo por tanta gente desqualificada, ainda não perceberam que andam a dar tiros nos pés, uns atrás dos outros.


Nas televisões todas, o mesmo: enxames, resmas, paletes de comentadores, os jornalistas também transformados em comentadores, toda a gente a opinar, à boca cheia (e, a maior parte, com a cabeça vazia) sobre economia e finanças. Fulanos e fulanas que não devem ser capazes de somar 2 e 2 para ali estão, ensarilhados na aritmética mas armados em técnicos de finanças públicas. Todos opinam, todos baralham e dão de novo, pontapés nas rubricas em catadupa, uma confusão pegada sobre as regras mais elementares da aritmética -- mas não faz mal, no meio da confusão, vale tudo. Em suma (e desculpem a franqueza): uma porcaria de comunicação social que não se pode ver, uma intoxicação, uns fazedores de trapalhadas mentais - em geral e em suma, uma cambada.

E à hora de almoço, de carro, ouvi a abertura do noticiário da TSF e quem é que lá foi plantado (provavelmente a ver se pega de estaca)? Passos Coelho! Quem mais?! Mais de 4 minutos! Bacoradas do princípio ao fim, um exercício verbal que deveria ser analisado por um psiquiatra para ver se o fulano é um mentiroso vulgar ou se é esquizofrénico ou se qualquer outra coisa ainda pior.


Aguentei só para ver até onde ia a pouca vergonha dele e a da TSF. Quase 5 minutos. Desliguei de imediato e passei para música. É que uma pessoa podia não concordar mas enriquecer a perspectiva ou aprender qualquer coisa, ouvindo-os. Mas não: desinformação pura do lado da TSF e um puro exercício de falta de vergonha do lado do Passos Coelho.

E o que eu digo é: se o PSD não correr rapidamente com esta sinistra figura, de uma coisa podem estar certos -- nas próximas eleições, o partido valerá tanto como o CDS. Ou seja, desaparece tal como o CDS. Tende para a mais absoluta irrelevância. 


E se a rádio e a televisão persistirem neste banho de PàFs, bem os seus trabalhadores podem começar a ver se arranjam outro tipo de emprego -- porque isto não vai acabar bem. As audiências devem tender a diminuir à força toda. Estes gestorzinhos de meia tigela ainda não devem ter percebido que, com estas opções perdedoras (quem é que ainda está para ouvir o desqualificado Passos Coelho ou estes comentadores a metro?), não tarda estão sem audiência e, sem audiência, não há publicidade e, sem publicidade, não há receitas.

[Apre que nunca pensei que houvesse tanta gente incapaz neste país.]

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira. 
(E daqui a nada já cá volto. Tenho um outro post praticamente pronto mas estou perdida de sono, não sei se aquilo está, ao menos, bem formatado. Mas me aguardem.)


segunda-feira, fevereiro 22, 2016

Casas, casinhas, casas que já foram casas, casarões, reinvenções - entre Cascais e as Azenhas do Mar, passando por Colares


Já vos dei conta, nos dois posts abaixo, do meu feliz passeio pelos lugares a ocidente, lugares banhados por um mar bravio e, na altura, também pelo sol. 

A localidade das Azenhas do Mar, um lugar extraordinário


Eu estava com vontade de ir. Há pouco tempo, por razões profissionais, tinha estado em Colares e tinha sentido vontade de lá voltar em passeio. A Sintra, à vila, vou com uma certa frequência mas, por razões que não vêm agora ao caso, geralmente também não posso veranear. 

E, portanto, a verdade é que, passear, passear, há algum tempo que não ia para estas bandas. Antes tínhamos o hábito de ir almoçar a S. Pedro e depois dávamos uma volta por lá, pelos jardins, pelas ruas. Também, um dos casamentos mais especiais a que fui teve lugar em Seteais, uma coisa mesmo à maneira, comida de chef e noite com acompanhamento musical de harpa. Aquele ambiente e aquela sonoridade pareciam irreais. E gente principescamente vestida: ministros e ex-ministros, empresários e tutti quanti eram mais que as mães e todos, mas em especial as senhoras, tinham caprichado nas toilettes. Podia ter sido uma maçadoria mas, por acaso, foi muito agradável. Mas, ainda assim, aos hapennings em Seteias prefiro descobrir os recantos e as árvores de Monserrate ou circular entre as salas e saletas, boudoirs e múltiplas divisões da fabulosa casinha de bonecas que parece ser o Palácio da Pena. Quando os meus filhos eram pequenos íamos também visitar o Palácio da Vila, o Castelo dos Mouros, tudo isso. E fizemos pic-nics muito bons pelos meandros da serra, um animado grupo de amigos (cheios de filharada) que percorria lugares diferentes com toalhas sobre a erva e cestas com variado farnel.

Mas, agora que escrevo, estou a lembrar-me de um outro lugar: Odrinhas. Há lá uma estrada cheia de antiquários e lojas de velharias. Trouxe de lá um belo cadeirão de madeira, muito confortável, que tenho na varanda da sala, duas pequenas mesas de madeira trabalhadas, lindas, um busto muito bonito (de que um dos mais pequenos, quando era bebé, gostava muito, gostava de passar a mão pelo busto da sinhôa). Os meus cunhados, que na altura tinham mudado de casa, trouxeram de lá várias peças. Estou a lembrar-me, em especial, de uma elegante mesa para quatro pessoas, com tampo de palhinha e vidro por cima. Ando com vontade de lá voltar, não tanto para comprar o que quer que seja, mas para rever, é uma terra curiosa.

Este sábado, quando estávamos a pensar ir para aquelas bandas, fazer o percurso entre Cascais e Azenhas do Mar, parando pelos entremeios, o meu marido temia: 'Não haverá muita gente? Isso deve ser um bocado o passeio dos tristes'.

Mas quais tristes? É lá possível a tristeza em lugares talmente abençoados?

E não: pouca gente -- com excepção do Cabo da Roca (pejado, em especial de excursões de asiáticos desaustinados a fotografarem-se uns aos outros ou a si próprios com aqueles paus de selfie) e, também alguma gente, mas nada por aí além, na Boca do Inferno. De resto, um passeio muito bonito, lugares com uma vista de cortar a respiração.


Uma das coisas que, por estas bandas, é bonita de ver são as casas. Não tirei tantas fotografias quanto queria já que, indo de carro, não dá para parar onde se quer.
Mesmo assim o meu marido passa-se porque estou sempre a querer que ele pare (e, depois, quando, contrariado, lá consegue parar, já não tenho vista para o que queria e, aí, passo-me eu com ele). Mas, enfim, isto é um número que dura há mil anos e, milagre!, nunca causou mossa. Continuamos a adorar passear.
Mas, continuando: fotografei sobretudo casas mais tradicionais, não as casas mais 'normais' ou mais modernas, algumas notoriamente 'de autor'.


Há quem diga de Raul Lino: ah, é o tal da 'casa portuguesa', das 'casinhas bonitinhas', o chamado 'arquitecto do regime', referindo-se à estima que o Estado Novo demonstrou pelo seu trabalho. Pronto, cola-se uma etiqueta a alguém e vá lá ver-se para além disso.

No entanto, a verdade é que as suas moradias familiares são características e pode facilmente aplicar-se-lhes o petit nom de 'casinha'. Mas quem tem casas assim e as trata com carinho, dirá, certamente, com naturalidade e amor: 'a minha casinha'. E não vejo que isto possa ser visto de forma depreciativa pois a ternura que se sente por uma casa como sendo parte de nós é algo de muito aconchegante para a alma e isso é, para mim, um sentimento grande (sem diminutivo).


Aliás, enternece-me ver as casas assim, em que há uma evidente entrega na forma como se arranjam os jardins, se emolduram os caminhos com vasinhos, e, olhando-as, facilmente se imaginam os donos, cuidadosos, regando as flores, aparando as sebes, levando lenha para a lareira, orgulhosos pela sua obra, e os filhos e netos a chegarem, alegres, para almoços familiares.


Por outro lado, olho com alguma compaixão para as casas que se imagina que, em seu tempo, foram amadas, que fizeram as delícias dos seus donos e que agora, fruto das mais variadas circunstâncias, se encontram à mercê do tempo. Observo sempre com muito carinho casas assim, parece-me guardarem ainda os sorrisos de outros tempos.

Nunca vivi numa casa feita de novo. Pelo contrário, são as casas com vida lá dentro, com histórias, que me atraem. Tenho para mim que as casas conservam parte da vida de quem lá vive e que se tornam sábias com o tempo (embora, sabido é, com a sabedoria da idade chegam também os achaques do corpo -- mas, enfim, esses vão-se remediando).


E, como ontem referi num comentário, se antes olhava as casas abandonadas, erodidas e decadentes, apenas com pena, como se carregassem em si o peso da destruição que o tempo -- essa inclemente figura -- a tudo inflige, agora olho-as sobretudo com admiração: são a prova viva de que as casas resistem para além do tempo, para além daqueles que lá viveram. Parecem-me quase estóicas, conservando memórias, símbolos de um tempo, recordações ainda vivas, muito belas.

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E não quero ainda deixar de aqui mostrar o curioso edifício da Escola Oficial das Azenhas. Acompanha o declive do terreno, abraça elegantemente as ruas e tem umas proporções harmoniosas e uns azulejos bonitos.

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E, afastando-me um pouco deste tipo de arquitectura e de regresso à capital, via Cascais, não deixei de fotografar o belo Palácio dos Condes de Castro Guimarães que, de um lado, pousa sobre a praia e, do outro, assenta em solo urbano. Nele se abriga agora o Museu do mesmo nome. Transcrevo da wikipedia:
Trata-se de um palácio em estilo revivalista, instalado numa pequena enseada. Aquando das marés altas, a base do edifício é tocada pelas ondas. O seu estilo conjuga o Romantismo - em voga à época - com uma aparência de château medieval, que culmina com a grande torre. Encontra-se rodeado de um interessante jardim.
O edifício tem elementos de origem irlandesa, como os trevos presentes na porta de ferro forjado e na pintura do teto da Sala dos Trevos, a sala de entrada do museu, e o brasão de armas de Jorge O'Neill e dos seus antepassados, pintados no teto do torreão.

E, para terminar, abaixo, um dos emblemáticos edifícios de Cascais: o Palacete Seixas, onde funciona a Messe da Marinha.

Transcrevo:
A família Aires de Ornelas constrói nos terraplenos do Forte de Santa Catarina a sua residência, que se manteve até que Henrique Maufroy de Seixas cerca de 1920 adquiriu a prioridade aos herdeiros Ornelas e constrói o Palacete Seixas, cujos trabalhos terminaram em 1932.  
O antigo Forte de Santa Catarina, depois Residência Ornelas e finalmente Palacete Seixas, é hoje propriedade da Marinha, “Messe de Cascais”, por legado testamentário de Henrique Maufroy de Seixas.

E depois, o olhar já repousado e a alma cheia, anoiteceu de vez -- 
e fomos à nossa vida que já se fazia tarde.

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Já agora, para quem não viu o documentário abaixo e não tem ideia da vida e obra de Raul Lino, partilho um vídeo longo mas interessante. 

Conheci um seu genro que me falava muito dele, criando em mim curiosidade por conhecer um pouco mais de perto este relevante arquitecto português. Por isso, na altura, vi com gosto o filme que agora aqui vos deixo e em cujo texto de apresentação se diz:
«Viveu quase 95 anos. Projectou 700 habitações. Deixou um espólio de mais de 2000 documentos. Foi arquitecto, aguarelista, decorador, cenógrafo, desenhador, figurinista, escritor, articulista de jornais. Considerava-se um homem livre, como um cipreste.»

Raúl Lino - Livre como o cipreste


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Lá em cima A minha casinha era interpretada pela Milú (coisa já lá vai para cima de 70 anos).

Para os que preferem outra batida, deixo aqui a versão Xutos & Pontapés 
(numa gravação que, assim como assim, também já tem quase 30 anos; bolas, estarei a ficar velha?)

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E, caso vos apeteça continuar a passear por estes lugares, deslizem, por favor, pelos dois posts já a seguir, um em que mostro como os enamorados se sentem atraídos pela beleza destes locais e outro em que me deixo levar pela inspiração ao som de Quem és tu, outra vez?, música que faz parte do CD do Jorge Palma e Sérgio Godinho que a minha filha ofereceu ao pai e que fomos ouvindo enquanto passeávamos.
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E desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, fevereiro 21, 2016

Espalhem a notícia


O mar atrai os apaixonados. A cor que é variável, o movimento que é dança, a dobra espumada que é renda de lençol, e o perfume, a braveza, o inexplicável.

E depois a vastidão: a lonjura, os largos horizontes que prometem espaceza para muito amor, e os céus que trazem a paz por que os corações anseiam. 

E depois também o ocidente, o muito ocidente, o mais ocidente que há, depois dele só o oceano, o oceano infinito, o misterioso oceano que leva a novos mundos. 

E em cada escarpa, em cada miradouro, em cada recanto, como se estivessem sozinhos no mundo, é vê-los, aos casais abraçados, olhando o mais para lá, esperando que o tempo e o espaço seja a sua acolhedora casa. Forever.

Por isso, há uma outra dimensão a acrescentar ao que se vê quando por aqui se anda: o amor.

Espalhem, pois, a notícia.




Espalhem a notícia
Do mistério da delícia
Desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente
E se parece
Com o que é firme e com o que é vago
Esse ventre que eu afago
Que eu bebia de um só trago
Se pudesse


Divulguem o encanto
Do ventre de que canto
Que hoje toco
A pele onde à tardinha desemboco
Tão cansado
Esse ventre vagabundo
Que foi rente e foi fecundo
Que eu bebia até ao fundo
Saciado


Eu fui ao fim do mundo
Eu vou ao fundo de mim
Vou ao fundo do mar
Vou ao fundo do mar
No corpo de uma mulher
Vou ao fundo do mar
No corpo de uma mulher bonita


A terra tremeu ontem
Não mais do que anteontem
Pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
Transbordou
E o tremor que anunciava
Era fogo e era lava
Era a terra que abalava
No que sou


Depois de entre os escombros
Ergueram-se dois ombros
Num murmúrio
E o sol, como é costume, foi um augúrio
De bonança
Sãos e salvos, felizmente
E como o riso vem ao ventre
Assim veio de repente
Uma criança


Falei-vos desse ventre
Quem quiser que acrescente
Da sua lavra
Que a bom entendedor meia palavra
Basta, é só
Adivinhar o que há mais
Os segredos dos locais
Que no fundo são iguais
Em todos nós

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Fotografias dedicadas ao Leitor P. Rufino que gosta ver casais enamorados quando anda a cavalgar as rochas à beira deste mar.
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E queiram continuar para o post abaixo onde se mostra como são belos e inspiradores estes lugares a ocidente.

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Por favor diz-me quem és tu, de novo?



Quem és tu, de novo?

Quando o dia me convoca e eu, impaciente, corro até ao ocidente, e quando o azul me penetra nos poros, me lava o olhar, me corre no sangue e no ar que respiro, é contigo que vou, contigo, sempre contigo. E quando o que vejo me deslumbra e eu, entre serras e mares, me entrego ao encantamento da beleza que me envolve, és tu que estás comigo, sempre comigo. 

E quando, com o olhar, eu percorro a cor e a frescura das águas e o rebentamento dos mares, e vejo que o azul se transforma em verde e espuma e movimento, e sinto a feroz atracção do abismo, és tu que me chamas, me olhas, me embalas. Por isso diz-me: quem és tu? Diz-me, de novo.


Quando cá em cima, a vertigem tremendo-me na pele, sinto o frio dos ventos sobre as águas bravias, eu recolho-me a mim e, de olhos fechados, aspirando a limpa maresia, não estou só, não estou, nunca estou: sinto-te comigo, sempre comigo, sempre em mim. E digo-te, mesmo quando não se ouve, quando ninguém ouve: olha, olha, vês o mesmo que eu, sentes o mesmo que eu, queres-me tanto como eu a ti? 


E quando vejo uma casa branca com riscas verdes e janelas cor de laranja e sorrio porque deve ser muito bom viver numa casa tão alegre, pousada em verde e pairando sobre o mar e o céu misturados, és tu que vês o meu olhar e o meu sorriso e sorris porque gostas do meu olhar e do meu sorriso e é como se entrássemos os dois naquela casa branca envolta em verde e azul e é como se fossemos os dois até à janela, o teu braço sobre os meus ombros e eu encostando o meu corpo ao teu. E eu, rendida, pergunto-me: quem és tu? Diz-me. Diz-me de novo.

E quase te ouço dizer: eu sou aquele que te quer princesa, a minha princesa, a minha rainha, a minha mulher, que quer inventar um palácio colorido para a ele te levar pela mão, eu sou aquele que desenha serras e florestas e castelos e pinta céus para se reflectirem no teu olhar de menina, porque tu és mais bela, de toda a mais bela.


E eu, ouvindo-te, não sei quem és tu, quem és tu que assim me falas, quem és tu que assim, tão desmedidamente me amas, quem és tu que não sais do meu coração. Não sei. Diz-me se és de verdade. Diz-me. Por favor, diz-me.

Quando o sol desliza na areia, se faz seda dourada, e vem, de mansinho, afagar a minha pele e eu sinto o calor suave da sua carícia, são as tuas palavras que deslizam em mim e é o teu sorriso posto em mim que me abraça. E então sinto o teu calor terno, o toque gentil do teu afecto e és tu, sempre tu, sempre tu, presença em mim, és tu que eu sinto a percorrer a minha pele que a ti se oferece. Vives dentro do meu corpo. Por isso, porque te dou tanto de mim, diz-me: na imensidão destes horizontes, quem és tu? Diz-me, diz-me de novo: quem és tu?


E quando o sol se põe e deita sobre o mar e os casais abraçados se fundem na paisagem, e quando uma gaivota vem de longe para pousar nas escarpas, contra um mar que se faz branco e um céu que se estilhaça em azul e magenta, és tu ainda que vens, és tu que tomas a minha mão e me fazes sentir desejada, mulher, tua. É a tua a mão que vem, tão terna, tão doce, pousar no meu coração.

E eu fecho os olhos e penso: quem és tu? Diz-me. Diz-me de novo.


E quando a lua se desenha em transparência branca no céu e as luzes da cidade se acendem e a intimidade das casas se sente nas ruas, és tu, ainda tu, que me envolves em brandura, que desces comigo até onde as brumas da noite são afago e desejo, és tu que, comigo, me levas pelos caminhos do sonho, pelas ruas floridas que são labirinto, jardim proibido, ninho de amor, és tu, sempre tu, que me abres a porta, que me levas pela mão, que me transportas ao colo, que me deitas, que me tomas nos braços, que dizes que eu sou a mais bela. 

Por isso, diz-me. Quem és tu? Diz-me: quem és tu, de novo? 

(Mas diz-me baixinho, ao ouvido, em segredo, diz-me apenas com um beijo, diz-me para que ninguém ouça. Sobretudo para que nem eu ouça. Nem suspeite, sequer).


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(Fotografias feitas por mim este sábado em lugares de deslumbramento --
entre Cascais, a Boca do Inferno, Guincho, Cabo da Roca, Azóia, Colares, Azenhas do Mar)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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