domingo, julho 22, 2012

A menina é filha de quem? - leituras, limpezas e fotografias. E, de novo, convido-vos a verem a minha casa (de bonecas), aqui in heaven


Música, por favor

Beethoven, Sonata nº 8 - Ruben Reina no violino e Paulo Brasil no piano

*

Os meus dias aqui são dias de paz e felicidade. A minha recuperação vai andando a bom ritmo e, estando cada dia mais próxima da normalidade, tudo são prazeres a que não viro as costas. Hoje fui às compras ao supermercado (ou melhor, fui transportada, pois ainda não me aventurei a conduzir) e que bom é andar por ali, escolhendo o peixe para o almoço, escolhendo a fruta, os legumes. A mobilidade ainda não é perfeita mas, apesar das limitações, tudo isto são pequenas vitórias e grandes alegrias.

Aqui em casa continuam as limpezas e, claro, tal como ontem, quando o período de pé é mais longo e sinto que preciso de descansar, pego na máquina fotográfica e entretenho-me a fotografar a casa, depois sento-me, passo as fotografias para o computador, depois recomeço já pronta para mais faxina.

Hoje foi dia de leitura do Expresso - grande artigo o do Miguel Sousa Tavares!, grande artigo o da Clara Ferreira Alves! (porque não me apetece indispor-me nem indispor-vos, não falo da Perella e de outras empresas que, sob recomendação do ministro-fantasma Borges, e, ao que parece, também do Gaspar, por aí andam ganhando dinheiro e dando dinheiro a ganhar, e vamos ver se não de forma ilícita, enquanto nós vamos descontando e pagando mais e mais impostos para lhes pagar).

A seguir peguei num livro que andava com vontade de ler há algum tempo mas, como tenho alguns mixed feelings em relação à autora, fui protelando. Não se pode dizer que o livro seja extraordinário em termos literários mas é uma escrita corrida e o tema desperta curiosidade pelo que já li quase metade. Trata-se de 'A menina é filha de quem?' da Rita Ferro, um livro autobiográfico.



Rita Ferro lendo uma parte do seu livro,
em cuja capa se encontra uma fotografia sua em menina


Transcrevo um pouco para dar 'um cheirinho' a quem ainda não o leu:

(Falando das duas avós, a materna, viscondessa, e a paterna, a poetisa Fernanda Castro)


"Dava gosto observar as duas sogras: a cultura a concorrer com o berço, a qual, quando se esmera, leva a taça de olhos fechados, embora ali o nível se tenha equilibrado até ao fim. Em todo o caso, uma linha marcava subtilmente a distância: a minha avó materna jamais permitiu, até ao fim da vida, que o meu pai, seu genro, a tratasse se não fosse por senhora viscondessa, numa época em que o senhora dona e o tia eram alternativas.

- Chamar mãe à sogra é um bocadinho povo - ouvia-se lá por casa.

Já a minha avó Fernanda - lá está - pediu à minha mãe no próprio dia em que a viu casar-se com o filho:

- Não quero cá tias nem senhoras donas, Pó, trata-me por Fernanda.

A poetisa morou no prédio em que viria a morrer e se tornou histórico, onde antes vivera o político Joaquim Pedro Oliveira Martins e a mulher, e onde muitos nomes ligados às artes tinham, noutros andares, escrito ou desenhado: o escritor Ramalho Ortigão, o grande gráfico suíço Fred Kradolfer, o poeta José Gomes Ferreira e a mulher, Ingrid, e ainda os pintores Bernardo Marques e Ofélia, sua primeira mulher, que viriam a suicidar-se. A todos estes acrescenta-se ainda uma história de fadas: no andar superior, tinham também residido as senhoras Campos, já muito idosas, antigas aias dos príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel.

O prédio ficou conhecido como o Soviete dos Caetanos, por ficar na Calçada dos Caetanos, nº6, e os meus pais, depois de deixarem Cascais como morada permanente, alugaram uma casa na mesma rua, no nº7, na rampa onde se instalara, para as décadas vindouras, o Conservatório de Música, mesmo em frente aos Estúdios Cor, hoje famosos por terem empregado Saramago, figura que eu seguia, já nessa altura, industriada à janela por meu pai:

- Aquele senhor que vai ali também escreve, como o pai, mas pensa de modo diferente. É comunista.

- O que é comunista, pai?

- Comunista é ires agora estudar com os teus irmãos!

No nº 6 da Calçada dos Caetanos, onde artistas bebiam de mais e gritavam versos ou ideias pela noite fora, a minha mãe arregalava os olhos com aquela chusma vestida à revelia da moda, cujos excessos a interditavam: muito gin a circular, certas liberdades de linguagem, uma grande intensidade em tudo o que se dizia e um teatro que a hipnotizava pelo contraste com o ambiente em que crescera.

(...)

A Natália [Correia], então, electrizava-nos. Pisava como uma imperatriz, tinha o timbre de uma soprano, falava como se declamasse no tom dos génios e das divas, e olhava para nós como se fôssemos larvas: não tinha filhos nem a menor paciência para crianças e confessava-o sem escrúpulos. Guardava uma raiva surda às mulheres exclusivamente domésticas e apontava-as a dedo, sem caridade, berrando para nosso sobressalto:

- Mulher imunda!

(...)

O Ary [dos Santos], caramba, que levava à minha avó presentes sofisticados, como lenços Hermès, marrons glacés ou flores tão raras que pareciam pássaros! Quando se cruzava connosco, perguntava-nos invariavelmente que ano frequentávamos, nas escolas ou liceus, para virar as costas antes da resposta - décadas mais tarde apanhá-lo-ia em flagrante a tentar catrapiscar-me um marido, e não escondo o que este me fez rir ao abrir muito os olhos para me rogar salvação."

**

E, continuando a mostrar-vos o produto das minhas expedições fotográficas, e esperando não vos maçar para além da conta...

Mostrando ao Poeta como estão as minhas uvas que ou padecem de excesso de calor ou de alguma maleita que não foi tratada:



Como respondi num comentário de há dois dias:
Muitos cachos secaram. Mas subsistem outros que não sei se vão resistir
pois alguns bagos já me parecem querer secar e as folhas estão assim, sarapintadas.


E agora voltando a entrar em casa. Ontem fiquei com pena de não se ver o prato das louças Fortuna e, por isso, hoje fotografei uma outra peça feita lá, também oferta dos meus pais: uma travessa que tenho em cima do aparador que está junto à mesa de jantar.



Como se vê, é uma travessa de barro pintado manualmente. É pesadíssima. É da Fortuna Ofícios.
À frente, uma galinha das Louças Bordallo Pinheiro.
Por trás, na parede, um grande espelho


Ontem falei dos muitos galos que tenho pintado e mostro-vos um deles. 



Parte do quadro. Aqui não dá para ver bem pois tirei a fotografia com flash, o que criou algumas alterações
Sobre as penas do rabo e das asas tem purpurinas de várias cores, brilhantes, o que o torna muito glamouroso


Mostro-vos também, de novo, a minha pequenina árvore renascida depois de a termos dado por perdida, quando uma rajada de vendo derrubou a árvore, uma grevílea, então já alta. Apesar deste calor e apesar de tão novinha agora que renasceu, cresceu imenso nestas semanas.

Está assim, vista de dentro da sala:



Como se vê, rebentou junto ao que resta do tronco da mãe
Está entre duas pedras enormes que saíram aqui da terra
e que agora usamos como bancos (e como elementos decorativos)


E como num dos comentários ao post de ontem, foi referido que a minha casa parece uma casa de fantasia, de bonecas, provo que assim é, de facto.

Com vossa licença, voltamos a entrar numa das casas de banho, por sinal a mesma de ontem. No parapeito da janela que está junto à banheira e que tem uma cortina de linho com renda feita pela minha mãe, tenho duas meninas.



Esta menina está a tomar um banho de espuma, de espelhinho na mão, enquanto um gato a observa
de cauda toda arrebitada
(É uma figura em chapa metálica pintada)



Esta outra menina prepara-se para ir apanhar um banho de sol lá fora, havaiana no pé, uma formosura
(É de material sintético pintado)



E esta madame está de cuequinhas pelo meio da pernoca gorda, enquanto fuma o seu cigarrinho
Não consegui apanhar, na fotografia, a parte de trás que também tem piada: em cima do autoclismo,
está a sua mala de mão e o telemóvel. Acho o máximo.


Ou seja, Ana, como vê, é mesmo uma casa de bonecas. Ontem, em cima da lareira, já estava uma,  com as 3 de hoje, já faz 4. E comigo, já vai em 5...!

**

E, por hoje é isto, meus Caros Leitores. 
Já é domingo e o que vos desejo é que seja um belo dia, que o vivam com boa disposição e muitos sorrisos!

sábado, julho 21, 2012

A passiva mansidão dos portugueses. A maledicente verborreia portuguesa. A inconsequência portuguesa. E, para me distrair disto, convido-vos a verem a minha casa. Sejam bem vindos aqui, in heaven.


Música, por favor

Beethoven - Hélène Grimaud interpreta Sonata ao luar

*

Pouco tenho visto televisão, nada de debates, afasto-me das notícias.

No entanto, de vez em quando não posso deixar de ouvir os choros e o desespero de quem vê a sua casa ameaçada pelas chamas ou outras tristezas assim; ou de sentir a perplexidade que sempre sinto quando sei que, uma vez mais, um homem irrompeu num local público, desta vez num cinema, e disparou sangrentamente contra quem ali estava descansado, em paz; ou de saber que José Hermano Saraiva morreu - e, depois, ao passear pela blogosfera, ver que uns louvam, mas outros desprezam e desprezam com um acinte que me causa até um certo enjoo.

Há pouco vi-o, num relance, numa entrevista em sua casa, já muito fraco, e gostei de o ouvir falando do país, referindo que o país estará sempre acima de tudo, como aliás sempre o referiu. A forma como divulgava as muitas pequenas terras de Portugal, elogiando as actividades culturais e económicas, a forma sempre enfática como contava as petites histoires dentro da história dos locais que visitava e das gentes que o povoaram, parece-me estar acima da mediania corrente e isso a mim basta-me. Como é que, tendo acabado de morrer uma figura tão marcante da comunicação e da cultura portuguesa (por questionáveis que fossem algumas das suas afirmações), uma pessoa que tanto amou o país e que tanto trabalhou para o enaltecer, há tanta gente que se compraz a escrever palavras desdenhosas sobre ele? Acho deplorável.


Conheço relativamente bem - de trabalhar desde há vários anos com empresas espanholas de vários tipos e de pontos diferentes de Espanha - o que diferencia a mentalidade portuguesa da mentalidade espanhola.

Os espanhóis, do ponto de vista profissional, não sabem mais, não são mais organizados, não são tecnologicamente mais evoluídos, ou mais cultos ou mais trabalhadores, nem nada disso, do que os portugueses - muito pelo contrário. De forma geral, trabalhar com grande parte das empresas espanholas é um castigo: não planificam, não cumprem, não assumem que não cumprem, dizem uma coisa e fazem o contrário, a seguir não assumem nem que não fizeram nem que disseram o contrário. É aquilo que se diz: de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento. Mas há aspectos em que, geralmente, levam vantagem em relação a nós. Têm brio, têm orgulho, vão em frente de uma forma ou de outra, não se perdem em tretas, estão-se nas tintas para a envolvência da coisa e, pragmaticamente, nem que seja às três pancadas, atiram-se ao que interessa. E conseguem-no. Os portugueses, pelo contrário, descrêem por princípio, invocam insucessos passados e sentem-se, por isso, com direito a estar desmotivados, injustiçados, e desculpam-se com as circunstâncias, ou perdem-se em perfeccionismos deslocados ou desnecessários, ou com discussões em volta da forma, menosprezando o conteúdo e, com isso, acabam por perder o ânimo, acham que não vale a pena, que o sucesso é improvável, desgastam-se nisso, deixam passar a oportunidade. Sabem muito. Lutam e acreditam é pouco.

Isso está bem patente no que se passa nas ruas de Espanha. Foram anunciadas medidas de austeridade em Espanha e, em três tempos, aí está meio mundo na rua, dando o peito às balas. 

Por cá é muita conversa, muita escrita, muita polémica. O Bispo das Forças Armadas fala alto e bom som o que toda a gente pensa e logo um coro de virgens ofendidas vem dizer que é de mais, que, sendo da Igreja não devia falar assim, que não devia ter dito que o governo é corrupto e mais não sei o quê, e, num ápice, aí está toda a gente enredada, numa conversa mole que não interessa nem acrescenta uma vírgula. Se houvesse mais gente como ele e isto não fosse essencialmente um bando de marias amélias que mais não fazem do que brandir argumentos de sacristia, outro galo cantaria. 

A propósito de qualquer coisa, aí está meio mundo armado em sacristão, a benzer-se ou a censurar quem disse, quem fez, quem protestou. O país a ser destruído, sem economia, sem cultura, sem valores, sem futuro, e meio mundo anda enredado em tretas, incapaz sequer de um murro na mesa.

Quem descreve muito bem o espírito acomodado, ancestral, do velho e timorato camponês que existe dentro de grande parte da população portuguesa, é o autor de um dos mais estimulantes lugares da blogosfera, o Kyrie Eleison. Talvez ele tenha razão, talvez parte da explicação para esta inquietante mansidão resida nisso. Mas talvez, a par dessa ruralidade atávica, haja também ainda vestígios,  pastosos, de uma nobreza decadente. É que não há só camponeses, há também quem se ache sempre superior, quem ache que dêem os outros o corpo ao manifesto, quem ache que a si próprio não se exige mais do que assistir da galeria, do que fazer soar uns dichotes indiferentes e pretensamente superiores.

Talvez que essa mescla de provincianismo atrofiante e de presunção improdutiva explique esta inércia doentia dos portugueses.

Não dançam nem saem da pista: um espectáculo deprimente de um país espoliado que não sabe protestar consequentemente.

Por delicadeza vamos deixar-nos morrer. (Mas é que, se fosse por delicadeza, ainda teria alguma graça; mas nem isso é).

*

Portanto, saturada de tanta passividade e desta mansidão que leva a que não se saia das tábuas,  desligo a televisão e, em parte, desligo-me da blogosfera e, estando de férias, longe da cidade,  entrego-me a actividades mais compensadoras.

Estive a ler um livro que me agradou muito, 'Tempo da Música, Música do Tempo' por Eduardo Lourenço, organizado por Barbara Aniello. 

A música que hoje escolhi para nos acompanhar foi-me sugerida durante a leitura. Sobre ela escreveu Eduardo Lourenço em 1955:

"Sonata ao luar. Beethoven escreve aqui a mais chopin[iana] das suas obras e dizemos isto sem fazer de Chopin o 'metron' de Beethoven. Mas por isso mesmo poucas obras servem melhor para descobrir (manifestar) a diferença entre um e outro.

Beethoven quer sempre dizer alguma coisa mesmo quando o que quer dizer diz respeito ao indizível, a esta conversa entre o real e o sonho e o sonho com a noite. Chopin conversa consigo sobre a tristeza, a melancolia da noite mas sem saber onde se dirige. Quem sabe é o seu coração que seus dedos seguem. Em Beethoven o sentimento nunca está só, mesmo aqui onde parece nada mais haver que um rendez-vous do sentimento consigo mesmo."

A música que escolhi para o Ginjal, Música para cordas, percussão e celesta de Béla Bartók, também me foi sugerida após ler as palavras de Eduardo Lourenço: "(...) A sugestão é mediata, de um espaço musical de uma homogeneidade pura e solitária, universo de um tom que se cria avançando toda a sua lei como um triângulo forma um cone. Assimilação com o universo dos grandes espaços da pintura de Giorgio de Chirico. Uma pureza estelar, um vermelho gelado dos confins da tristeza, universo galáctico. Nada existe aí senão uma correspondência extática de formas depuradas, pensamentos de Deus na aurora de um mundo onde o sentimento espera a sua hora de nascimento. (...)"

*

Tirando isso, cozinhei, limpei a casa de teias de aranha e de bichos de conta, varri dentro e um pouco fora; e, porque ainda não estou extraordinariamente ágil, ainda há muito trabalhinho por fazer. Amanhã será.

Para amenizar o esforço, fui-me distraindo, fui fotografando algumas partes da minha casa. É a minha forma de vos acolher aqui, mostrando-vos um pouco do meu espaço.




Galo à janela sobre um banco que era de uma das minhas avós


Gosto muito de galos. Já os pintei de muitas maneiras. Acho que as suas penas coloridas e o seu porte garboso lhes conferem um glamour especial. Por isso, também os tenho aqui, como objectos, em profusão. Uns adquiri-os eu, outros têm-me oferecido.




A chaminé da minha cozinha - Galos, galinhas, mel, um moinho para alfazema trazido de França pela minha filha


Aqui in heaven o meu fogão está sob esta chaminé e isso confere logo um prazer suplementar à actividade culinária. Não é a mesma coisa cozinhar um perfumado estufado debaixo de uma chaminé ou debaixo de um exaustor. Há galos em vários objectos da cozinha mas, para não vos maçar, passo para a sala. Mas, a caminho da sala, no pequeno corredor que a liga à cozinha, mostro-vos mais alguns apontamentos de cor.




Há pratos de barro. É pena porque o que não se vê bem é o mais bonito,
das louças Fortuna Ofícios de Azeitão perto de Palmela e foi a minha mãe que mo ofereceu.
De frente, uma flor em vidro, artesanato urbano, oferta do meu filho
Ao fundo, encostadas à parede, as minhas canadianas felizmente já praticamente inúteis

Entramos, então, na sala que já se antevia pela porta que a ligava à cozinha e sigamos a bicharada.




Aqui, na sala, no chão, temos uma família inteira.
Junto ao galo, à galinha e aos galitos, tenho um tronco de árvore que me parece um torso feminino e,
portanto, foi elevado à categoria de escultura natural


Quem aqui chegue pela primeira vez pode ficar surpreendido com 'cenas' como esta mas logo se habitua pois vai encontrar de tudo em toda a parte e, às tantas, já nada espanta.




Aqui não há galos mas apenas alguns dos meus chapéus.
Devia ter posto o de meio por cima para vos mostrar porque é o que prefiro, um belo chapéu basco.
No chão uma malinha antiga e umas socas todas em madeira
 (creio que vieram dos Picos da Europa mas não juro).


Já agora, antes de sairmos da sala, para ir varrer noutro lado, mostro-vos a parte de cima da lareira. A lareira, que fuma lindamente, foi adquirida, em peças, numa oficina da Serra de Sto António, no Parque Natural de Aires e Candeeiros, terra de gente dos mil ofícios e onde tudo se encontra com grande qualidade. A barra de madeira foi adquirida também pelas mesmas bandas. Acho-a linda, é uma madeira rija, macia, com uns belos veios e, por mestria do senhor que a montou, encaixa na perfeição na lareira e na parede.




Tenho aqui peças de artesanato tradicional e artesanato urbano. Por cima, na parede, uma peça especial,
de muita estimação, que me foi oferecida com muito carinho: um bordado muito antigo
das colchas de Castelo Branco, feito pela falecida mãe da pessoa que me ofereceu,
 ela própria pessoa já de avançada idade.
A moldura é artesanal, em madeira.


Saímos da sala para, com vossa licença, entrarmos numa das casas de banho e, se o faço, é para mostrar uma cadeira de que, num determinado contexto, hoje falei num mail que troquei com uma das leitoras do Um Jeito Manso.



Trata-se de uma cadeira muito antiga que foi restaurada, pintando-a casca de ovo
e dourado, pelos meus pais que, quando se reformaram, descobriram que tinham imenso jeito para
trabalhos deste tipo.
Foi também estofada com um tecido que escolhi para se adequar à barra de azulejo pintada à mão
 em azul (que aqui não se vê) e cujos motivos estão na louça dos toalheiros,
na louça da bancada e noutros apontamentos.
A toalha das mãos é também antiga, era de uma avó do meu marido.
Por cima, não dá bem para perceber, mas é um espelho com moldura em talha dourada


Quando há muitos anos adquirimos a casa, odiei a tijoleira que reveste o chão, odiei mesmo. Pensei que seria a primeira coisa a saltar. Mas, aos poucos, habituei-me. Não é tão amarela como parece nesta última fotografia, é mais como se vê nas da sala, um tom ocre. Agora já gosto, dá um tom luminoso e alegre à casa. Eu que gosto tanto de casas arejadas, cheias de luz, com este chão parece que o sol lhe está sempre a bater. Não apenas não me imagino a ter a trabalheira e a despesa de o substituir, como já não me imagino a ter um chão que escurecesse ou entristecesse a casa.

E é isto. É assim a minha casa aqui in heaven.

*

Hoje, lá no meu Ginjal e Lisboa as minhas palavras voam em volta de um veleiro chamado Ariane, um poema de Miguel Torga. Na música tenho ainda Béla Bartók, tal como acima vos referi. Se tiverem ainda paciência para me continuar a aturar, terei muito gosto em ter-vos por lá.

*

E é sábado, um dia que tem tudo para ser um dia feliz. Enjoy it!


sexta-feira, julho 20, 2012

Comecei de férias: saí da cidade com um calor infernal e já estou 'in heaven' com um ar fresco, tão agradável. Que bom!


Música, por favor

Massenet - Meditation (da Ópera Thais), 
interpretado por Sarah Chang no violino, aqui com Placido Domingo dirigindo a orquestra

*


Quando hoje saí da cidade, estava um calor impossível. Antes, passei pela beira do rio e deliciei-me com a maresia e com a visão dos belíssimos veleiros acostados ao pé de Sta Apolónia. E deliciei-me também a fotografar. Ah, parece que estou a renascer...!




Com o sol dourado da tarde, Lisboa fica linda e os veleiros estavam quase irreais, os mastros pareciam revestidos a renda, a brilhantes. Aqueles grandes cruzeiros ali, ancorados num Tejo cujo ondular parecia coberto de luz rosada, junto a uma cidade de cores suaves, tingida pelo sol suave da tarde, que maravilha, vocês haviam de ver. Tão bonito, tão bonito.

Hoje saí do meu cativeiro: agora que vos escrevo já estou in heaven. Quando cá chegámos, depois de quase três semanas de ausência, a natureza já estava a agir como dona do espaço. O portão já estava cheio de teias de aranha, o caminho à volta da casa coberto de montes de folhas secas e até a porta de casa estava já coberta de teias. É impressionante como, mal a gente se retira, mesmo que temporariamente, a natureza se apodera logo das casas.

Cá dentro, para além de algumas teias, também, em vários sítios, algumas colónias de bichos de conta. Claro que, ao deparar com este cenário, me deu logo vontade de fazer uma coisa que adoro (quem me conheça daqui já sabe que sou mulher de gostos simples): varrer! Mas ainda não dá para isso, acho e, aliás, hoje já tinha abusado um pouco. No entanto, amanhã vou tentar, começo cá dentro e, se me aguentar bem, avanço para a faxina no exterior. Parte do encanto das minhas férias reside nisto: fazer limpezas, lavar tapetes e carpetes, varrer a rua e apanhar folhas secas, regar, aparar ramos e serrar pernadas de árvores, podar o que apanhar à mão, fazer refeições saborosas cujo cheirinho saia pela chaminé e perfume o exterior, descansar à sombra da grande figueira, ler, ouvir os pássaros, olhar as árvores, olhar os montes ao longe. Aliás, sendo mais precisa: parte do encanto da minha vida reside nisto.

Quando cheguei, não resisti e, devagar, com muito cuidado - porque isto de andar em piso pouco regular agora é do pior - dei um pequeno passeio. Que saudades eu tinha, que saudades.

E encontrei tantas diferenças.




A começar, a linha do horizonte à nossa frente apresenta novidades - ou então, não tínhamos reparado e os moinhos de vento já estavam há mais tempo. Mas fica bonito. A fotografia foi feita com bastante zoom. De facto, o que se vê, pelo menos num fim de tarde como o de hoje, são uns suaves segmentos dourados que giram ao longe.

Depois as figueiras estão carregadas, tantos figos. Ainda estão pequenos e verdes, no meio de uma folhagem de um verde intenso.




Não tarda, estarão grandes, macios, rebentando, deitando leite, vermelhos e doces por dentro. Nessa altura serão uma tentação e eu tenho tanta dificuldade em resistir a tentações doces, assim.

As silvas, que há pouco estavam floridas, umas flores pequenas, delicadas, de penugem rosada, estão agora cheias de amoras. Ainda não estão bem no ponto (confirmei; como disse, há coisas a que não resisto e já as provei).




Agora estão a ganhar cor, algumas já cor de sangue vivo, macias. Mas, aos poucos, ficarão escuras, e só então ficarão doces, doces, deliciosas. Gosto tanto de amoras, selvagens, ínfimos bagos sumarentos.

E depois o alfazema. 




Aqui, para me perceberem, deveriam ter convosco uma espiga de alfazema, esfregá-la na palma da mão, fazer com que o odor se soltasse, aspirar suavemente.  Que bem que cheira à tardinha, quando o sol faz a planta suar e o perfume no ar é forte, limpo.

Amanhã vou apanhar e fazer raminhos, ato-os e ponho-os em lugares estratégicos. Fica tão bonito e fica tudo tão cheiroso, vêm-me à ideia as gavetas com lençóis de linho, barras bordadas a ponto Richelieu ou com renda, tudo imaculado e a cheirar a lavadinho, a lavanda natural.

Também apanhei alguns orégãos e amanhã a ver se apanho mais. A minha mãe seca-os à sombra, depois põe em frasquinhos que distribui pela família. Não dispenso para temperar a salada de tomate. Cheiram tão bem, sabem tão bem.

Quando andava por ali, feliz, feliz mesmo, reparei na minha sombra no meio da terra pedregosa (agora sequíssima, há tanto tempo sem chover e com este calor marroquino), terra que tanto amo, e fiquei contente por estar ali, impregnada nela, e feliz também por estar pelo meu próprio pé, a andar sem apoios. Fotografei-me para registar o momento e partilho-a aqui convosco. 




É uma imagem a la Giacometti, pernilonga, a sombra alongada com que o sol, antes de se pôr atrás dos montes, nos presenteia. Sou eu a fotografar a mulher renascida cujas células vivem inscritas nesta terra, nestas pedras, nesta vegetação campestre, aqui in heaven.


Comecei hoje, portanto, as minhas férias e estou no sítio, em todo o mundo, onde eu sou mais eu.

*

Já agora, convido-vos a ver a Kate Moss, bad girl, uma moça que também renasceu, que também se levantou - e andou por um heaven fresquinho até que chegou ao inferno do calor (comigo o percurso foi ao contrário pois, primeiro, passei por um calor dos diabos e só depois é que cheguei aqui, in heaven, dando, então, com uma temperatura muito amena; e, agora, de noite, até está uma aragem fresquinha, mesmo boa). Mas ela, no fim, foi deitar-se outra vez... e eu não! Eu já me aguento bem de pé! Aleluia!



**

E é isto, meus Caros Leitores. 
E a vocês desejo que se divirtam, que descansem, que se animem:  be happy! Enjoy!


quinta-feira, julho 19, 2012

Sobre o corpo e sobre o desejo num dia de céus em fogo - o erotismo na perfumaria francesa e na poesia portuguesa


                                          (Num autocarro para Campolide. Dia sexual)


                                          Uma mulher de carne azul,
                                          semeadora de luzes e de transes,
                                          atravessou o vidro
                                          e veio, voadora,
                                          sentar-se ao meu colo
                                          na nudez reclinada
                                          dum desdém de espelhos.

                                          (Mas que bom! Ninguém suspeita
                                          que levo uma mulher nua nos joelhos)




                                        Não me peças palavras, nem baladas,
                                        nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
                                        deixa cair as pálpebras pesadas,
                                        e entre os seios me apertes sem receio.

                                        Na tua boca sob a minha, ao meio,
                                        nossas línguas se busquem, desvairadas...
                                        e que os meus flancos nus vibrem no enleio
                                        das tuas pernas ágeis e delgadas.

                                        E em duas bocas uma língua... - unidos,
                                        nós trocaremos beijos e gemidos,
                                        sentindo o nosso sangue misturar-se.

                                        Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
                                        Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
                                        Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!




                                              Um corpo, certamente. Mas que é um corpo?
                                              Boca, seios, coxas, sexo,
                                              um sorriso, a mão que afaga, voz?
                                              Que trevas, quais trevas,
                                              de esquecer ou ir tão fundo
                                              quando o desprender-se da alma abre
                                              nas portas da luxúria os céus em fogo?




                                   
                                         Ela vem
                                         quando eu cerro as pálpebras pesadas
                                         e apoio a cabeça na escuridão do desejado sono
                                         Vem muito branca muito lenta
                                         Fita-me calada
                                         e muito direita
                                         começa desatando seus cabelos negros
                                         Abre a boca num riso que eu não oiço
                                         deixa cair o seu vestido todo
                                         E enquanto eu olho fascinada o seu ventre coroado de negro
                                         seis homens pequeninos e muito encarquilhados
                                         agarram suas seis tetas
                                         e sugam-lhe os bicos
                                         rosados e rijos de prazer


**

Os poemas são, respectivamente

'De eléctrico' de José Gomes Ferreira
'Soneto de amor' de José Régio
'Céus em fogo' de Adolfo Casais Monteiro
'[Ela vem]' de Ana Hatherly

e também fazem parte de 'Variações sobre um corpo', Antologia de poesia erótica contemporânea, seleção e prefácio de Eugénio de Andrade com desenhos de José Rodrigues.

A música que percorre os perfumes é Casta Diva da Ópera Norma de Bellini.

**

Tenham, meus Caros leitores, uma quinta feira muito animada!



quarta-feira, julho 18, 2012

Num dia de grande calor, nada melhor do que ir a banhos. Venham comigo: sintam a doçura da beira do rio e a magia do fundo do mar


Música, por favor

Manuel de Falla - Esteban Sánchez interpreta Nocturno para piano

*

Hoje esteve um calor brutal, pelo menos por estas bandas. Dado que agora pouco tenho saído, hoje, por ter que ir ao médico, resolvi aperaltar-me. Roupa de ir à missa, roupa de ir ao senhor doutor - sou uma mulher de preceitos, como é sabido. Vestido sem alças, claro, porque a elevada temperatura ambiente faz com que não tolere nada nos ombros, tenho que sentir o pescoço e o colo desabrigados. Depois, um chapéu, claro, porque, com este sol, e estando eu a convalescer, tenho que proteger a cabeça, não é?




Para o vestido, escolhi os tons de azul, que me parece ser uma cor refrescante e que sobressai bem com o meu tom de pele, ainda nada bronzeado. Como chapéu, um muito pequeno, muito simples, preto. Uma roupa adequada, portanto, para a ocasião solene (sim, porque ir ao médico ainda tem o seu quê de solene). Poder-se-ia dizer que ia dressed to impress mas não, nada disso, foi apenas a toilette que, dadas as circunstâncias, me apeteceu vestir.

Pelo caminho ainda parei um pouco junto a um jardim, que saudades de estar num jardim.

Contudo, o vestido acabou por resultar um pouco quente. E, então, mal me despachei dos meus afazeres, só me apeteceu tirá-lo e meter-me tna água.

Procurei a beira do rio que estava linda. 




Há quanto tempo não estava por aqui a esta hora, quando a tarde se dissolve no rio, quando as cores doces tingem os rostos das pessoas, dos monumentos, tingem os nossos corações. Soa muito doce? Ainda bem, porque era mesmo uma grande doçura o que eu sentia no ar, respirando a tepidez rosada deste fim de dia de verão.

Esperei, então, que anoitecesse. 




As pessoas começaram a recolher a suas casas, os veleiros iniciavam o caminho de volta e que belos são os veleiros a esta hora do dia, envoltos em dourado, que belos; e eu, pacientemente, esperei que a luz se esvaísse. O que queria fazer não podia ser testemunhado.

Nestes dias compridos de verão, a noite tarda em cair. Mas, então, quando mais ninguém restava na beira do rio, com prazer e vagar, pedi ao meu amor que me desapertasse o vestido, que me ajudasse a despi-lo. Não lhe pareceu nada bem que eu o fizesse ali mas acabou por me fazer a vontade, sabe que eu sou bicho do mar.

Depois do vestido, tirei os sapatos altos, depois o pequeno chapéu. Fiquei então apenas com o corpete e com a armação do vestido. O meu amor disse que eu ficava bonita assim, ali, à beira da água. E beijou-me e o beijo também foi quente e doce.




Não gosta que eu entre no rio quando já é de noite, não gosta. Então, como é cauteloso, atou-me  uma fita para me poder puxar caso eu me distraísse e precisasse de ajuda para encontrar o caminho de volta. Um fio de Ariadne ao contrário.

E, finalmente, mergulhei. Mergulhei, mergulhei e lá em baixo a água é fresca, escura, e a luz que se vê lá de cima é a luz coada dos candeeiros da beira do cais. Nestes dias só aqui é que se está bem, que maravilha.

Desci, desci e vocês já sabem para onde vou, quando desço assim até ao fundo do mar. Mas devem estar intrigados. Se o meu amor estava na beira mar a segurar a ponta da fita dourada, quem me esperava no castelo do fundo do mar? Ou será que, desta vez, ninguém me esperava nas salas atapetadas a limos de veludo e com cortinas de algas douradas?

Se me conhecem bem, saberão que, no fim das longas e venturosas viagens, gosto de me acolher nos braços de quem me saiba envolver.

(Mas, compreenderão que, noblesse oblige, não vou aqui entrar em pormenores.)

Posso apenas contar-vos que, nos espaços submarinos para onde gosto de ir quando quero isolar-me, quando quero tirar de cima de mim o peso do mundo, quando quero refrescar-me, purificar-me, a luz é azul, a beleza é imensa, a quietude encontra-se suspensa, acaricia-nos quando por ela passamos.

E há seres fantásticos, e algumas outras mulheres livres como eu, e crianças anfíbias, puras e alegres que brincam em volta de esferas de luz, crianças cujas mães zelam por perto, frequentemente levando-as ao colo com desvelos mil, e há homens fantásticos que parecem peixes inventados em inspiradas acrobacias, e animais coloridos que dançam como pessoas, e plantas sinuosas de cores extravagantes. Ah meus amigos, como eu gostaria de vos poder levar também comigo.




O fundo do mar é imenso, silencioso, mas, por vezes, ouve-se uma música e não percebemos se sai das esferas de luz que existem no fundo do mar, se sai do castelo de prazer onde me acolho, ou se, extraordinariamente, vem cá de cima, da terra, da terra onde vivem prisioneiras as pessoas que não ousam tirar os pés da terra firme, as pessoas que não ousam libertar-se das sombras, das quatro paredes onde, dia após dia, deixam que a sua existência se vá esgotando. Talvez venha mesmo dali, talvez no meio das pessoas que se deixam moldar, domar, e que não encontram ânimo para fazer nada de diferente nas suas entediantes vidas, talvez haja ainda alguns que procurem a fractura, a música transcendente, a palavra de revolta e emancipação, o voo, a luz, a liberdade, o sonho, o futuro. Talvez.

*

No mar passa de onda em onda repetido
o meu nome fantástico e secreto
que só os anjos do vento reconhecem
quando os encontro e perco de repente




No fundo do mar há brancos pavores,
onde as plantas são animais
e os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
a agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
no desalinho
dos seus mil braços,
uma flor dança,
sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
tem um monstro em si suspenso.



*

A primeira fotografia é de Mario Testino, as duas do meio são minhas, de hoje, e as duas últimas são de Zena Holloway. Os dois poemas são de Sophia de Mello Breyner Andresen, o primeiro não tem nome, o segundo tem por título 'Fundo do mar' e encontram-se ambos na Antologia de nome Mar.

*

Permitem que ainda vos convide a visitar-me no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa? É que gostaria muito de vos ter por lá, onde as minhas palavras se despedem por hoje, muito tristes em torno de um poema de Ana Marques Gastão. Na música, continuamos, claro, com Béla Bártok.

*

E já é quarta feira. 
Que seja um dia agradável e, caso tenham muito calor, já sabem: metam-se debaixo de água... 
Be happy!

terça-feira, julho 17, 2012

Sobre o amor conjugal (palavras de António Lobo Antunes e o exemplo de Nelo e Idália). E, ainda, Adelaide dita pelo autor


Estou casada há vinte e quatro anos e não sei se gosto ou se me habituei. Não morro de entusiasmo com a ideia do meu marido voltar todos os dias para casa às seis e meia sete mas também não é desagradável. Não me apaixona o facto de passar o mês inteiro de férias com ele e os pequenos mas também não me arrependo por aí além. Fazer amor não é a coisa mais apaixonante do mundo mas também não posso dizer que seja um frete.
(...)
Chego a pensar que gosto se o comparo com outros homens, com os maridos das minhas amigas por exemplo, com os meus cunhados, chego a pensar que me habituei quando vejo um filme com o Robert de Niro. Não é que o Robert de Niro seja bonito ou assim: é o sorriso, é a maneira de olhar, é o vazio que fica em mim ao acenderem as luzes e em vez do Robert de Niro, o Zé Tó ao meu lado no automóvel, o Zé Tó a perguntar-me em português se a mulher a dias lhe passou as calças cinzentas, a torneira do quarto de banho a correr, eu deitada, e o Zé Tó, em pijama, quem se estende à minha esquerda com aquelas revistas de jipes todo-o-terreno que ele adora ler, é o Zé Tó quem me dá um beijo, quem apaga a luz, é o calcanhar do Zé Tó que me toca a perna, é o Zé Tó que adormece com uma rapidez que me irrita e me deixa sozinha no escuro a olhar o tecto à espera do sono que não vem, que não há maneira de vir, que demora séculos a chegar. Claro que se o Robert de Niro aqui estivesse não o queria para nada.
(...)
  a ausência de discussões, o bom feitio do Zé Tó, ainda bem que você julga que não me devo questionar sobre se gosto dele ou se me habituei, ainda bem que me convidou para jantar só que eu jantar não posso, doutor, que desculpa ia dar ao Zé Tó diga-me lá, podemos mudar para um almoço sexta-feira num restaurante que não seja perto nem do seu consultório nem da minha casa, de preferência sem pessoas conhecidas, eu até sinto que você tem qualquer coisa do Robert de Niro, o sorriso, a maneira de olhar, mal entrei no seu gabinete pensei logo
  - Este psicólogo tem qualquer coisa do Robert de Niro aposto que nos vamos dar bem
  e agora sou capaz de jurar que nos vamos dar bem, sou capaz de jurar que a seguir ao almoço nos vamos dar lindamente.

*


*

Não sei há quanto tempo estou aqui sentado à tua espera. Um quarto de hora? Meia hora? Mais? Penso: se passarem dez automóveis encarnados e ela não vier, vou-me embora. Penso: conto de uma a trezentos e se, chegando aos trezentos, não apareceres, peço a conta. Passam doze automóveis encarnados e fico. Cheguei aos quatrocentos e vinte e três e continuei à espera. Recuo dos quatrocentos e vinte e três para o zero na certeza que aos cento e cinquenta te vejo chegar, acenando entre as mesas da esplanada, um problema no emprego, um telefonema da tua mãe, o drama de arrumar o jipe no parque de estacionamento. Mas como o baton te escorrega da boca para a bochecha e me dá ideia que, para além do perfume, cheiras a loção de barbear, tenho alguma dificuldade em acreditar em ti. Digo
    - Trazes o baton na bochecha
    os teus olhos mudam sem deixar de olhar-me, tiras o espelhinho da carteira, verificas a bochecha, pedes-me um lenço de papel, limpas o batom, procuras o tubo prateado numa confusão de chaves e agendas, refazes a boca mais devagar do que o costume em busca de uma justificação, guardas tudo na carteira, sorris porque encontraste uma mentira, os teus olhos mudam de novo, a tua mão poisa na minha, pedes não sei quê ao empregado, a mão troca a minha mão pelo teu queixo, explicas que devido à suspensão do jipe o baton errou o alvo (...). A mão abandona-me o queixo, belisca-me a orelha e ao beliscar-me a orelha quase acredito em ti. A parte que ainda não acredita insinua
    - Cheiras a uma loção de barba diferente da minha
    a mão que me esfregava o lóbulo hesita, ofende-se, a tua cadeira afasta-se indignada, reparo que te farejas a pretexto de fungares, que tropeças no cheiro, que te afastas um pouco mais para que eu deixe de sentir a loção, que tentas uma ironia qualquer
    - Estive a rapar o bigode
    que, como de costume, te defendes atacando-me
    - Não é possível viver com um homem que desconfia de tudo
    que tentas resolver o assunto ofendendo-te
     - A tua falta de confiança magoa-me
(...)
Aproximo a cadeira da tua e peço-te perdão. Logo, se estiveres para aí virada
     raramente estás para aí virada
     é possível que a gente tal e coisa, e a seguir tu de nariz no tecto numa espécie de careta
     e eu, sem reparar no teu chupão no braço
     nunca consentes que te chupe o braço
     eu, apesar do teu chupão no braço, a acomodar-me melhor na almofada, sentindo-me
     como direi?
     satisfeito, Fernanda, satisfeito.

*


*

O primeiro excerto pertence à crónica 'O amor conjugal' do Primeiro Livro de Crónicas. O segundo pertence à crónica 'Não ligues às minhas picuinhices' do Segundo Livro de Crónicas. Lembro que António Lobo Antunes, a nível de crónicas, já vai no quarto volume. 

Pessoalmente acho as crónicas de António Lobo Antunes uma excelente leitura (e acho os seus romances, desde há algum tempo, uma seca. Acabo por os deixar de lado ao fim de uns dias de luta).

*

E, vocês, meus Caros Leitores, desculpem esta minha onda de transcrições. Não tenho paciência para falar do Relvas (e, a sério: a bem da consciencialização de quem ainda não percebeu o desastre que é este Governo, acho que Passos Coelho faz mesmo muito bem em aguentá-lo porque aquilo é tudo tão irremediavelmente mau que é bom que haja bem visível, à vista de toda a gente, uma caricatura como o Relvas) e quase tudo o que vejo na televisão me maça.

Hoje ouvi que o Moita Flores suspendeu o exercício da função de presidente do município de Santarém. Invocou razões de saúde e pressões literárias. Como?!?!?!? Fiquei aqui de queixo caído durante um bocado. Isto só visto. Razões literárias...?

Por aqui, pelas televisões, pode ele andar sempre que há um qualquer crime para comentar. Para isso tem saúde e agenda livre (agenda livre face aos compromissos literários). Entretanto, anunciou que está disponível para se candidatar por Oeiras. Ou seja, entre as idas à televisão e os livros e as séries de televisão, faz umas perninhas nas Câmaras. É este o espírito destes fantásticos políticos.

No outro dia tinha visto um rapazola qualquer a dizer que a culpa do Relvas se ter portado como um chico-espero era do Mariano Gago e que mau mesmo era o que Sócrates tinha feito, desculpabilizando de forma bacoca e disparatada o seu correlegionário Relvas. Ora isto seria apenas estúpido se o rapazola fosse um qualquer apanhado à má fila, no meio da rua, por um repórter daqueles que gostam de ouvir opinar quem quer que passe na rua; mas não, parece que é o líder da Jota (JSD, claro), ou seja, um secretário de estado, quiçá directamente ministro, em potência. Deprimente.

Depois vejo a revolta nas ruas de Espanha e vejo a bonomia passiva dos portugueses, muitos ainda a apoiar estas políticas de miséria. Não que eu apoie a violência, claro que não. Mas defendo a indignação, a manifestação da indignação. Esta bovinidade mansa dos portugueses às vezes chateia-me. A empobrecer e a estupidificar... e tanta gente ainda tão conformada.

Por isso, para não vos maçar com a minha chateação, prefiro dar a vez a quem escreve bem.

*

E ainda: gostaria imenso de vos ter lá no meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras são m´suica em volta de um belo poema de Eugénio de Andrade. E, porque se fala de música, há festa: inicio hoje a semana dedicada a Béla Bartók e a vibração está no ar.

*

E, assim sendo, desejo-vos uma bela terça feira. Alegria e muitas bebidas frescas!

segunda-feira, julho 16, 2012

Numa noite quente, excertos de histórias com sexo e suor da autoria de um escritor cubano caliente, Pedro Juan Gutiérrez - com música e dança cubanas a acompanharem e com palavras ditas pelo próprio


Música, por favor

Omara Portuondo com Maria Bethânia - Tal Vez



Há uma hora ou mais que dava voltas na cama, desperto. Tentava dormir mas não conseguia. (...) Fazia calor e havia mosquitos e eu suava. Levantei-me. Olhei pela janela. (...)

Caminho até à rua, viro à esquerda e desço meia dúzia de metros, em direcção à praia. A noite está escura, com muitas estrelas e brisa, mas o mar mal se mexe. A uns cem metros um casal acaricia-se. Ou dão uma trepa. As suas figuras recortam-se contra o brilho das poucas luzes. Caminho à beira-mar, com os pés dentro de água. Aqui ao menos não há mosquitos. Sinto a água morna. Gostava que estivesse fria.

(...)

Não queria regressar. Mas continuei a caminhar muito devagar, em direcção a casa.

Um carro avançava pela rua. Parou no fundo da rua, onde o asfalto termina e começa a areia. Desceu um tipo magro e muito branco. Parecia estrangeiro. E uma mulata alta e bonita, com um longo vestido vermelho, que lhe deixava ver os ombros e as costas perfeitas. Cruzaram-se comigo, mas não me olharam. Estavam muito concentrados um no outro. Beijavam-se com chupões. Acariciavam-se e pareciam um pouco bêbados. Ou um pouco pedrados com pó, talvez. A mulata era belíssima. Voltei-me para trás. Entraram na água sem tirar a roupa. O vestido vermelho flutuava e parecia uma flor estranha e gigantesca. 'Quem será este tipo', pensei. Se calhar nem sequer sabia dar uma trepa na água. Bom, a mulata ensinava-lhe, de certeza. Então apercebi-me de que amanhecia. Já se via bastante. Continuavam abraçados dentro de água, a beijarem-se. E o vestido vermelho brilhava a flutuar, e a mulata começou a cantar e a dançar. Eram felizes. Demasiado bonito. Fui-me embora. Eu não podia estar ali, a destruir aquele momento com a minha estúpida morbidez.

Cheguei a casa e sentei-me à entrada, numa cadeira de ferro muito incómoda. Não havia outra. Pus-me a olhar para a velha casa de madeira. Estava escorada do lado esquerdo, sem pintura, a maior parte apodrecida e remendada às três pancadas, rodeada de mato e de uma cerca espatifada. Sobre a porta conservava um vidro martelado, com o ano da construção: 1925. A modernidade asfixiava-a pouco a pouco: os chalets bem cuidados, o café vinte e quatro horas, telefones para credifone. Pareceu-me que lhe faltava pouco para naufragar, desmantelar-se definitivamente, e fazer-se em pedaços. Nela sobrevivia, sabe-se lá como, uma velha tão suja e arruinada como a casa. 


Entrevista ao escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez



Conhecemo-nos numa camioneta. Um sentado ao lado do outro durante hora e meia. Os dois a transpirar sexo por todos os poros, como se nos farejássemos um ao outro. Anisia com dezanove anos e eu com quarenta e cinco. É uma mulata delgada, fibrosa, com tudo bem medido, linda, com olhos alegres, como uma fonte de chispas. Dissemos uma coisa qualquer. Havia uma boa corrente entre nós. Trocámos telefones e adeuzinho e eu cheguei. Segues? Sim, sigo. Bom, logo nos havemos de ver. Eu telefono.

Está aqui agora. Depois de muitas chamadas. Eu sem estar em casa. Finalmente, falámos e veio ao meu quarto no terraço. Chega a transpirar, sem fôlego. Essa escada, nove andares, é uma provação. Chamam-me outra vez ao telefone. A velha do oitavo andar grita por mim. Por cada telefonema, cobra-me um peso. Tenho de me controlar porque a este ritmo poderia comprar a companhia dos telefones. Desço.

(...)

Subi, e ali, estava Anisia, sentada no chão, a ver uma revista pornográfica que encontrara no meio dos papéis. Sentei-me a seu lado:

- Ouve lá, andaste a mexer nos meus papéis?

- Não mexi nos teus papéis. A revista estava saída e puxei-a. Ai querido, estou com água na boca. Olha para isto.

Folheava umas fotografias a cores, de página inteira (...)

A expressão dela de menina diabólica punha-me doido. Estendi a mão. Desabotei a blusa. Não tinha soutien, mas escorriam-lhe gotas de suor pelo peito. As mamas eram lindíssimas. Pequenas, escuras, duras, com uns bicos redondes, de púbere. Beijei-as, chupei-as. Ela deixou, agradada.

**

Não é bolero mas são os sons e o ambiente de Cuba



Na minha cabeça soavam passagens daquele bolero da minha infância, e cantei-as baixinho, quase ao ouvido:

Si negaras mi presencia
en tu vivir,
bastaria con abrazarte
y conversar
tanta vida yo te di
que por fuerza llevas ya
sabor a mi

**

O primeiro excerto pertence a 'Come back from the night' do livro 'Carne de Cão'. O segundo pertence a 'Muito ruído à volta' e o terceiro a ´'Sabor a mí', ambos de livro 'Trilogia suja de Havana'. O autor é Pedro Juan Gutiérrez, cubano nascido em 1950.


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E tenham, meus Caros leitores, um dia feliz (apesar de caliente). Uma boa segunda feira!

domingo, julho 15, 2012

Uma vez mais sobre o Relvas que felizmente ainda é ministro, o braço direito de Passos Coelho. E, numa de fuga (ao Relvas e ao calor), deslizo da indolência do sofá até à frescura no fundo do mar


Então e para o Relvas não vai nada, nada, nada...?!

Então não...? Toca a música...!


Pela segunda vez no UJM: 
Quim Barreiros e Os Pêlos do Coelhinho (referir-se-á ele aos pêlos do cada vez mais descabelado Passos Coelhinho?)

*

Relvas virou anedota generalizada. Pelos jornais, pelos blogues, pela televisão, por todo o lado, a galhofa é geral. 

Mas, mais divertido do que as anedotas (a das relações sexuais aos 13 anos obtidas por equivalência a outra actividade mais solitária, a do jantar sozinho no jantar de fim curso, a do dá licença? está licenciado, etc, etc, etc), são as imagens do próprio Relvas. 




A hilariante declaração do Relvas, numa biblioteca com uma televisão por trás, a dizer, antes de fugir, que sempre norteou a sua vida pela simplicidade da procura do conhecimento permanente (terá sido a assessora de imagem de Passos Coelho, também, surpreedentemente, nomeada para coordenar um grupo de trabalho para as TIC, uma tal Marta Sousa, a escrever-lhe aquela extraordinária sound bite?),

ou a imagem que sempre aparece dele na televisão em que, junto a uma porta, aquele sujeito insuportável, um autêntico papagaio televisivo, o deputado Carlos Abreu Amorim, se atira solicitamente sobre ele, num gordo abraço arrebatado,

ou, ainda, a imagem dele, dizendo as suas habituais faceirices, a rir - hélas, faltando-lhe um dentinho...,

tudo o que aparece do Relvas é digno de sitcom, é digno de rábula de revista, é digno de anedota, e de  anedota para todos os gostos, desde a anedota de mais fino recorte blogueiro até a piadolas de taberna.

Passos Coelho mantém-no como número dois do Governo e faz muito bem porque assim percebe-se melhor quem é Passos Coelho e de que material é feito este Governo. 

(Mas o drama português vai muito para além da mediocridade do Governo. Só que estou a escrever isto na noite de sábado para domingo e há que ter noção das coisas: numa noite de sábado para domingo não se fala de misérias tão deploráveis.)

*

Assim sendo, vou falar de coisas simples, ligeiras (... enquanto, nos bastidores do País, o Coelho, o Relvas, o Borges, assessores, consultores e escritórios de advogados trabalham afanosamente para passar a patacas as maiores empresas do País - ...mas, ok, agora, faz de conta que agora não me lembro disso...).

*

Se já ouviram a música dedicada ao inexpugnável Relvas, então, está na hora de mudar de registo.

Música de novo, por favor



Katie Melua - If you were a sailboat

*

Ora, então, o que tenho a dizer é que é uma saturação estar a maior parte do tempo restrita a um sofá, de pernas estendidas. Chega-se a um ponto em que já não há paciência.




Fotografia de  Guy Bourdin


Falta-me a paciência para ler, para ver televisão, para tudo. Não obstante, hoje esforcei-me e felizmente fui bem sucedida. Estive a ler um livro que me atenuou a moleza: 'Os amores difíceis' de Italo Calvino, um conjunto de saborosas histórias - e chamo-lhes saborosas por mero espírito estival. 





Fotografia de  Guy Bourdin  


Ou seja, apesar de na horizontal e com tanto calor como se tivesse um urso a dormir em cima de mim, gostei imenso daquelas histórias em que pequenos e irrelevantes acontecimentos acabam por ter um efeito enorme, senão brutal, na vida das pessoas.

De qualquer forma, acho que estou melhor (mal fora... já lá vão oito dias) e já começo a ensaiar passos mais longos, até por vezes já me sento quase normalmente (enfim, quase, pois ainda há algumas restrições).




Fotografia de Steven Klein 


Passo ante passo, com mil vagares, já me aventuro a outros poisos, já me sento à mesa (mantendo os devidos cuidados porque a mobilidade ainda não é perfeita). E amanhã já vou almoçar fora e já estou na disposição de ir passear (de carro, claro). Por isso, não tarda estou a voltar aos meus passeios pela beira do rio, contemplando os barcos, os pescadores, os peixes que nadam junto à superfície.




Fotografia de  Guy Bourdin  


Até lá, contento-me em olhar os peixes através de um aquário imaginário, imaginado-me eu própria dentro de água, nadando, sentindo a água fresca, o maravilhoso cheiro da maresia.

E, então, fecho os olhos, ouço os movimentos quase silenciosos dos peixes, sinto a frescura da água em volta do meu corpo e, quando dou por mim - para que eu, ainda convalescente, não me canse - já um cavalo me leva agarrada ao seu pescoço, como se fosse um ágil sailboat.




Fotografia de Steven Klein   


O mar é azul marinho, a temperatura é baixa, tão fresca, tão retemperadora, a luz é escassa, o meu corpo branco é quase o único ponto de luz e eu ali vou, feliz e expectante, levada por um veloz cavalo marinho.

E o cavalo voa dentro de água, voa sem se cansar e depois mergulha, mergulha, vai até ao sítio mais escuro e mais fundo onde só habitam vultos, deuses, sereias, corais, tesouros, e leva-me para os braços do meu amor que me espera num castelo verde, forrado de limos macios como veludo, com algas douradas como cortinas.

Que bom é o amor nos castelos do fundo do mar.

***

E é domingo, um dia para se estar muito bem disposto. Tenham, meus Caros, muita saúde e muita alegria.