Desde o início, as contas do Buescu não me convenceram. Começou por bolsonarizar a questão, que era coisinha boba, gripezinha de nada, coisa que matava menos que corriqueiro resfriadinho. Dias depois, já tinha soltado a exponencial que existia dentro dele e já ia nos dezanove mil infectados até ao fim de Março. De cada vez que o li e ouvi coloquei os dois pés atrás.
Sempre fui cautelosa: modelo não se faz com contas de poucos dias nem isolando os números da carne e osso que os mantêm de pé. Não há números puros. Só se forem os que pintam dentro de laboratório, em câmara de vácuo, coisa de onanismo de quem não sabe da realidade os sobressaltos da dúvida. Número de verdade é bicho elegante, às vezes ave de voo alto, às vezes pingando sangue e gordura, bicho com misticismos ocultos, que tem sol de um lado, sombra do outro, bicho que tem cheiro e astúcia, que tem música dentro, que tem mãos boas para festejo ou que, noutras vezes, tem ondulação como maré em dia de lua cheia. Número tem humor, tem sensibilidades, tem queda para tendência.
Imagina, então, se a conversa é vírus. Vírus é coisa nenhuma, nem coração tem, não tem boca nem olhos. Não tem tamanho, não tem voz. Vírus é ao mesmo tempo coisa do capeta e coisa banal como erva rasteira. Ninguém vê, ninguém dá por ele. Imagina imaginar uma curva a pensar no coisa de nada. Nem pensar. Tem que ser curva é a pensar no rasto que deixa. Se o primeiro-ministro e a rainha de belém resolvem fechar a malta em casa e pregar rasteira no merdinhas é uma coisa. Mas, mesmo nessa coisa, a malta obedecer é outra. Ou a malta obedecer mas cuspir para o chão ou tossir para a mão é outra. Ou se a coisa é bem pensada e há entrevistas, folhetos, medidas a sério, publicidade e tudo ao mesmo tempo, e toda a gente resolve fazer frente ao exército de coisinhas invisíveis e, aí, é outra. E a curva ondula ao sabor, esticando o número para cima ou para baixo conforme toca a música.
O que posso dizer é que sempre me pareceu que, com um costa inteligente e um celinho a gostar de ser amado, a coisa podia correr menos mal. Não falo em 'correr bem' porque quando há muita gente a sofrer, muita gente a morrer, muita gente a ter medo, muita gente a trabalhar muito, correndo riscos, e quando há muita gente a ver a sua vida a derrapar para a mais absoluta incerteza, não se pode falar em correr bem. Mas menos mal.
O importante, desde o início, era ganhar tempo para que os hospitais conseguissem encontrar respostas e para que morresse o mínimo de pessoas até que o tratamento ou as vacinas apareçam.
Quando a gente conhece médicos que trabalham como doidos e que chegam a casa exaustos, esgotados, aterrados, e a família, em vez de os abraçar, tem é medo que eles tragam o merdinhas agarrado a eles, ou quando a gente conhece uma pessoa que num dia tem um familiar que adoece mas nada de mais, nada de mal, nada a ver com o covid, e, passada uma semana, o familiar já se foi e afinal era mesmo covid e, às tantas, toda a família e amigos se calhar também estão contaminados, aí a gente só pensa é que temos que fazer ainda mais, andarmos todos à patada à curva, espezinhá-la, saltar-lhe em cima. Todos à uma até que os cientistas sequenciem muitos mil genomas, contrastem muitas mil substâncias activas com as espirais que se escondem nos interstícios do coisa nenhuma, façam muitos mil testes.
Mas, se já não sou só eu a duvidar das boas contas do Buescu, a verdade é que não consigo adivinhar quando e como será o day after. Não acerto nisso nem no euromilhões.
O que posso dizer é que, se chegarmos ao fim de Abril na vizinhança dos 30.000 casos confirmados, então de certeza que os números reais são mais do que 100.000, talvez entre os 150.000 e os 200.000. Se não mais. Digo eu. E isto porque há os assintomáticos e os assintomáticos que eles contagiam e que também são assintomáticos.E, se assim for -- e, por um lado, ainda bem pois isso significa que a taxa de gravidade e letalidade são efectivamente mais baixas que os números oficiais -- a verdade é isso também significa que, depois de se ter vivido confinado durante todas estas semanas e de se ter destruído parte significativa da riqueza da economia do país, pouco se avançou no grau de imunidade. Ou seja, não será possível voltar tão cedo à vida normal. A esperança é que daqui por uns meses aconteça o milagre. Ou seja, que, com o tempo quente e a menor probabilidade de transmissão, venha também a notícia de um tratamento. E falo no tratamento pois admito que surja antes da vacina.
Na China, depois de cerca de dois meses e meio de confinamento a doer, estão agora num lento abrir de cancela. Mas a manada está sob controlo: a malta toda a ser vigiada como gado com chip -- por acaso, não na orelha mas no telemóvel --, um rótulo verde, amarelo ou encarnado, os passos vigiados em tempo real, tudo rastreado, por onde andou, com quem esteve, por quem passou perto. Não é só o controlo absoluto, não é só a malta a ser tratada como prima do merdinhas, as pessoas feitas peças de jogo virtual, não é só o absurdo e o risco de tudo, não é só o teatro experimental em que só falta a malta ser posta a rebolar-se pelo chão e ainda agradecer. Não. É também a tecnologia que o permite, são os meios de produção que permitem que, de repente, desatem a fabricar ventiladores aos muitos milhares, máscaras aos muitos milhões, câmaras de rua em cada canto e esquina, brutais processadores que tratam e reconhecem imagem em tempo real e cruzam caras com nomes e com a vida toda de cada um. E isto ao fim de dois meses e tal. Fará nós sem nada disso. Abre-se a cancela e vai tudo repimpar-se no areal da Caparica ou para os copos no Bairro Alto, na Baixinha ou na Ribeira.
O império do meio com um big eye a meio da testa versus a malta do mediterrâneo que gosta da liberdade e do sol -- e, no meio, como fiel da balança, um merdinhas invisível. O cúmulo do nonsense, isto tudo.
Mas, lá está, em Maio isto há-de começar a aliviar devagarinho e, em Junho, já quentinho, mais uns aliviozinhos e aí já estamos com calor à brava e, logo a seguir, ou o soro dos imunes ou o mata-piolhos ou a cloroquina ou derivados hão-de aparecer em força para salvar o mundo.
O império do meio com um big eye a meio da testa versus a malta do mediterrâneo que gosta da liberdade e do sol -- e, no meio, como fiel da balança, um merdinhas invisível. O cúmulo do nonsense, isto tudo.
Mas, lá está, em Maio isto há-de começar a aliviar devagarinho e, em Junho, já quentinho, mais uns aliviozinhos e aí já estamos com calor à brava e, logo a seguir, ou o soro dos imunes ou o mata-piolhos ou a cloroquina ou derivados hão-de aparecer em força para salvar o mundo.
E o mundo há-de estar ávido de coisa boa e há-de voltar a haver vida de verdade.
E haveremos de saber viver com inteligência rejeitando o que nos mata. Haveremos de aprender a respeitar o planeta. Acredito nisso. Não quero crer que sejamos mais burros do que um merdinhas da treta que nem olhinhos tem, quanto mais neurónios.
E eu só espero que a bicharada que está a sair dos montes, das grutas, do fundo dos mares, e a começar a ocupar as ruas, também por cá venha fazer das suas. Por exemplo, que um urso prateado seja avistado a passear em plena Avenida da Liberdade, que uma lontra gigante venha refastelar-se ao sol no Cais das Colunas, que uma raposa sedutora venha, toda prosa, encantar as rosas dos jardins do Palácio de Queluz ou que um leopardo azul venha espreitar-me e deixar ouvir a sua ardente respiração quando eu estiver aqui a escrever à noite.
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Fotografias da bicharada a invadir as cidades enquanto as pessoas se resguardam em casa aqui,
no Panda Aborrecido.
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Desejo-vos um dia bem passado. Saúde.
















































