segunda-feira, outubro 07, 2019

Base de referência para se ver quem ganha e quem perde nesta noite de eleições


Porque ao longo da noite muita gente vai cantar vitória mesmo que sem se perceba a razão da euforia, tenho o hábito de confrontar não apenas os resultados entre si como com os resultados nas últimas eleições.

Portanto, aqui está a base de partida, para os partidos mais votados:

Resultados de 2015
PPD/PSD.CDS-PP
Portugal à Frente

36,86%
1.993.921 votos

Mandatos

PS
Partido Socialista

32,31%
1.747.685 votos

Mandatos

B.E.
Bloco de Esquerda

10,19%
550.892 votos

Mandatos

PCP-PEV
CDU - Coligação Democrática Unitária

8,25%
445.980 votos

Mandatos

PPD/PSD
Partido Social Democrata

1,50%
81.054 votos

Mandatos

5
PAN
Pessoas-Animais-Natureza

1,39%
75.140 votos

Mandatos

1
PDR
Partido Democrático Republicano

1,14%
61.632 votos
PCTP/MRPP
Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses

1,11%
59.955 votos


E para se perceber a evolução, recuemos um pouco mais:

Resultados de 2011
PPD/PSD
Partido Social Democrata

38,65%
2.159.742 votos
Mandatos
108
PS
Partido Socialista

28,06%
1.568.168 votos
Mandatos
74
CDS-PP
CDS - Partido Popular

11,70%
653.987 votos
Mandatos
24
PCP-PEV
CDU - Coligação Democrática Unitária

7,91%
441.852 votos
Mandatos
16
B.E.
Bloco de Esquerda

5,17%
288.973 votos
Mandatos
8
PCTP/MRPP
Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses

1,12%
62.683 votos
PAN
Pessoas-Animais-Natureza

1,04%
57.849 votos
MPT
Partido da Terra

0,41%
22.690 votos
MEP
MEP

0,39%
21.936 voto

domingo, outubro 06, 2019

Crónica de um dia de reflexão in heaven
[Sendo que reflecti sobre muita coisa excepto, que me lembre, no que desaprendi durante a campanha pouco alegre destas eleições]





No outro dia dei dois vestidos meus à minha filha. Ela olhou para os vestidos e espantou-se por eu ter cabido neles. Não foi há muito tempo. Tento localizar no tempo e diria que talvez uns seis anos, por aí. Usava o 38 que, em letra, equivale ao M. A minha mãe diz que com ela foi a mesma coisa, diz que, com a menopausa, a roupa deixou de lhe servir, diz que, nessa altura, parece que alargou e que ficou com mais peito. Agora não, agora está outra vez mais delgada, elegante mesmo.


Os vestidos que dei à minha filha são intemporais; se calhar, se daqui por uns anos voltar ao 38, ainda me ficariam bem. Mas acho que não faz sentido estar a guardá-los, ficam-lhe a ela muito bem. São ambos de tecidos muito fininhos, ambos em verde, um em verde mais colorido estampado em flores cinzentas e outro num mesclado mais pastel em diferentes tons de verdes secos e beige. O primeiro é forrado mas o segundo não, fica completamente transparente. A minha filha disse que deveria ter um interior mas não o encontrei. Lembrei-me depois que sim, tinha, em malhinha de seda muito fina, em verde seco. Mas perdi-lhe o rasto. Há coisas que, na minha casa, desaparecem. Nunca me preocupo pois sei que voltam a aparecer. Só que agora é que dava jeito, não é quando lhes apetecer ver a luz do dia. Por isso, ela não o tem conseguido vestir. Lembrei-me que a minha mãe devia ter combinações. Este sábado de manhã, lá em casa, lembrei-me disso. Foi a uma gaveta do roupeiro e estava cheia de combinações e camisas de dormir de alças, umas de seda muito fina, outras de algodão também muito fino, com rendinhas ou bordados. Nunca usei combinação, nunca me dei bem com muita coisa em cima do corpo. Mas acho bonito, assim, dobradas, perfumadas, macias. Trouxe uma em seda numa cor que não sei definir, talvez um beige-profundo, talvez um rosa-velho esbatido. Tem cortes e pinças para se colar ao corpo, tem um decote elegante, tem umas rendas bonitas. Não sei é se não lhe estará um pouco larga na cintura. A minha mãe diz que não faz mal, se ela gostar, aperta-a nos lados. Trouxe-a para ela experimentar.


Ontem a minha nora também estava com uma blusinha arrendada, às flores, num colorido suave, que era minha. Também me estava justa demais e a ela fica mesmo bem. No outro dia, quando chegou lá a casa, disse que não tinha era um casaco quentinho que ficasse bem com o vestido que vai levar a um casamento, daqui por uns dias. Fui à procura e encontrei um casaco curto, escuro, em veludo muito leve. Ela achou que ficaria a matar. Disse que à noite já está frio e que preferia ir prevenida. Perguntei-lhe se precisava de uma estola e fui buscar uma de pele para ela ver. Ela, que estava de saia de verão, tshirt e sandálias, vestiu o casaco de veludo e colocou a estola e apareceu assim ao pé do meu filho que não tinha acompanhado a conversa. Espantou-se: 'O que é isso?!'. Ela disse que era para o casamento. Ele respondeu: 'Não me parece bem que vás mascarada'. Ela explicou que não ia levar a estola mas o casaco sim. Entretanto, a bonequinha mais linda agarrou no casaco e na estola, aperaltou-se e desfilou, linda. A mãe disse: 'A ela tudo lhe fica bem' e o meu filho olhou para a filha e não disse nada, penso que também achou que estava linda. Depois, toda coquette, pôs uns óculos meio malucos, de carnaval, que por lá andam e ficou deliciosamente extravagante. Tentei fotografá-la mas fez-se rogada. Tem alma de sedutora, um caso sério. Penso que ela herdará muitas roupas minhas. Tem um gosto muito parecido com o meu. Não receia ousar.


Mas é isto, passamos a roupa de umas para as outras. Por exemplo, no verão, usei muito, aqui, in heaven, uma blusinha fininha que era da minha filha e que ela já não veste e gosto da forma como me cai. E uso cá, por vezes, um vestido comprido, de alças, de algodão indiano em vermelhos florais, que era da minha cunhada.

Com os miúdos, então, nem se fala. Tirando o que se estraga, herdam tudo, passa de uns para outros. Só o mais crescido é que as inaugura a todas. Ela, a bonequinha mais linda, herda da filha de uma prima da mãe. 

Hoje a minha mãe, quando abriu o roupeiro, olhando para a roupa do meu pai, disse: tanta roupa que já não vai voltar a vestir, só se houver um milagre. Pensei que há milagres que, mesmo sendo milagres, são inexequíveis. E mostrou uns blusões bons e disse que, se calhar, ficavam bem ao meu marido. Ainda nem lhe disse. Nessa altura já estava no carro à minha espera, já não ouviu a conversa. Aliás, já estava era a ligar-me. Nem atendi, já sabia que era para me despachar.


No carro continuei a leitura de A mulher do meio. Gosto mesmo muito da forma como a Ivone Mendes da Silva escreve. O que ela conta não é nada de extraordinário, é apenas o seu dia a dia. Vai ao café, escreve, evita as pessoas conhecidas para não ter que lhes falar, caminha, gosta de olhar para dentro das casas quando à noite têm as luzes acesas e alguma janela aberta, enrola-se num xaile, bebe chá, fala do barulho do vento, fala das molhas que apanha quando está a caminhar e desata a chover, fala de uma mulher que faz árvores genealógicas no café, fala de uma flor no parapeito, fala do silêncio e da distância de que precisa. Mas fala de uma maneira tão fractal, uma escrita tão perfeita, que é um prazer lê-la.


De tarde, depois de almoço, deixei-me dormir. Só aqui, quando estamos apenas os dois, é que eu ponho verdadeiramente o sono em dia. Não há barulho, não há compromissos. Há apenas quietude e sossego.  

Depois, quando acordei, andava ele a regar e eu fui caminhar um pouco. Foi enquanto caminhava que tentei ler o maravilhoso poema da flor e não consegui. Há pouco estive a lê-lo ao meu marido, consegui. Ele ficou em silêncio e, quando lhe perguntei, disse-me que sim, que era muito bonito, que tinha gostado. E percebi que também o tocou.

Enquanto andei a caminhar, o frio já se fazia sentir, tive que vestir um casaco.

Fotografei tudo. Estava com saudades, tudo me pareceu de uma beleza reconquistada.


Descobri na rocha, num lugar para onde não vou muito, outro daqueles buraquinhos redondos. Enfiei lá dentro um pau comprido e não lhe senti o fundo. Não sei até onde irão estas misteriosas aberturas na rocha, nem sei o que lá dentro se esconderá. 

Está tudo dourado, naqueles suaves tons outonais que fazem desejar que venha o frio e os tempos de aconchego. Há também tons de cobre ou rubro. As folhas das parreiras estão quase transparentes, num matizado muito bonito. As árvores desenham bordados nas paredes e nos muros e eu, encantada, ponho-me a fotografá-los.

O eucalipto gigante está lindo. Ao fim do dia, parecia conter fogo nas veias. Creio que seja um deus pois só um deus poderia ter tal grandiosidade, tal beleza, tal superior perfeição.


Depois de jantar estive a ver um documento enorme, uma contestação. Um colega pediu que eu esclarecesse alguns aspectos e desse a minha opinião. Fiquei furiosa, cada vez mais à medida que ia lendo. Como é que deixaram que um assunto de pouca importância escalasse daquela maneira, falando-se já em milhões de indemnização? Nos homens o gosto pela guerra é responsável pela maioria dos disparates que se cometem no mundo. E aqui quando digo homens digo mesmo homens, seres com testosterona, e não género humano. A minha resposta espelhou a minha opinião: todo o processo era escusado, nada fazia sentido, sentassem-se e resolvessem as coisas a bem. E espero que a minha fúria tenha perpassado ao longo do texto e que os três destinatários estejam agora a ver como descalçam a bota.


Agora estou a ouvir o vento a namorar a copa das árvores. Ouço as ramagens num animado bailado. A natureza é sobrenatural. E eu, insignificante, frágil e efémera, penso que testemunhar isto é felicidade à qual tenho que estar sempre muito agradecida.

E estou a beber um chá. Há pouco li um texto em que a Ivone falava num chá de frutos da floresta. Também o tenho. Tenho vários, sou maluquinha por chás e infusões. A minha filha deu-me uma vez uma caixa com compartimentos, cada um com seu chá. Tinha pena de os beber, pareciam-me jóias raras. Receando que o que me apetecia, o chá branco misturado com gengibre, tivesse alguma coisa que me tirasse o sono, não me arrisquei, joguei pelo seguro: erva-príncipe. Uma das minhas avós tinha erva-príncipe no jardim. Este cheirinho faz-me sempre lembrar esses tempos e eu gosto.

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E o texto já vai indecorosamente longo. Não aprendo a ser contida. Não aprendo a moderar esta torrente de palavras que deseducadamente brota das minhas mãos.

Se conseguiram chegar até aqui são uns valentes, é o que vos digo. Eu não tenho essa paciência razão pela qual nem vou rever o que escrevi, pedindo-vos duplamente desculpa, seja pelo excesso do texto seja pelo mais do que provável bando de gralhas.


Finalmente: se ainda não leram, por favor desçam e vejam com os vossos olhos o poema que a flor escreveu:  'das paredes rompem flores'.

E outra coisa: votem, por favor. Não arranjem desculpas para não votar. Não votar não tem desculpa. O meu pai não vai votar porque está acamado e porque o mundo exterior já é, para ele, uma realidade distante cuja existência presumo que até desconheça. Tem, pois, uma boa razão para não votar. Mas tirando casos assim, extremos, não há desculpa. Vão votar, está bem?

assim diz a flor


Houve um pedido: três palavras. Chamou-lhe o desafio insano. 

Sugeri 'rompem flores das paredes'. Depois, ao ler as palavras da Alexandra, brinquei mas, flor, tem razão: na realidade, a sugestão a sério era mesmo essa 'rompem flores das paredes'. 

E hoje, ao ler para a UJM, fui logo ver. 

E não foi só o espanto, não foi só o agrado. Foi que me senti retratada. Talvez com o filtro da generosidade da flor, talvez com o filtro do talento da flor que embeleza aquilo em que toca. Mas, sob a capa da beleza das palavras, senti-me eu.

Depois, enquanto andava a passear entre as árvores, os pés pisando a caruma macia, tentei lê-lo em voz alta. Não consegui. Lágrimas nos olhos, a pele arrepiada, a voz comovida.



rompem flores das paredes,
quando das minhas mãos
são já os netos que procuram
alguma coisa para romper.
bordadas em mil cores,
carros de linhas em círculos sobre a mesa,
cata-ventos coloridos girando na janela,
crianças que riem e correm
num sábado de sol.
plumérias, rosas, lírios, jacintos,
narcisos e miosótis,
frágeis peónias, gentis amores-perfeitos,
erva-doce, alfazema, um singelo malmequer,
rompem flores de todas as paredes
na nossa casa-poema,
e do meu corpo, útero criador, rompem
dores e alegrias
e flores,
de avó, mãe e filha, mulher.


(a minha casa vista do exterior, aqui, in heaven, onde se vêem dois dos brinquedos com que os meninos sempre brincam quando cá estão)

Obrigada flor. Quase fico com vontade de continuar a ir deixando sementes no seu a faca não corta o fogo na esperança que delas rompam sempre flores tão belas como este seu poema.

sábado, outubro 05, 2019

A mulher do meio largou as vírgulas da mão





A semana foi de tal ordem que ainda nem me parece que a semana esteja a acabar. De tarde caí em mim e pensei que uma sexta-feira tem que ser festejada e que talvez uma boa maneira fosse ir ao cinema. Falei ao meu marido. Vita & Virginia. Que não, que devia ser chato. Sugeri-lhe que podia ir para outra sala, ver outro filme. Perante essa perspectiva, que ele sabia ser impossível pois eu não lhe perdoaria se aceitasse a minha sugestão, acabou por aceder. Mas teríamos que sair a horas decentes para dar tempo a jantar antes. Mas os deuses protegem os corta-baratos pois vimo-nos ambos, cada um em seu lado da cidade, ensarilhados no trânsito. Portanto, ao telefone um com o outro, percebemos que cinema já era. Salvou-se de ver em filme a história que conhecemos dos livros. No entanto, acho que iria gostar. Eu iria. A ver se para a semana. Nisto, manda-me o meu filho uma sms a perguntar se não queríamos ir jantar com eles. Não sabíamos se conseguiríamos chegar a tempo, que avançassem que logo veríamos. Quando lá chegámos já lá estavam e já o bebé tinha virado meio prato de sopa com bocados de pão à mistura. 

Logo de início, o menino que sabe tudo de futebol estava entusiasmado, queria que eu visse uma coisa na televisão. Pensei que era alguma jogada espectacular. Mas não: 'Olha, olha agora, o António Costa a zangar-se com um senhor que disse uma mentira'. E era mesmo.

E eu e o meu marido dissemos que, ao fim de muitos dias de cansaço,  é natural que a uma pessoa lhe salte a tampa ao ver-se acusado de uma mentira. Nada de mais. Alguém quer ter governantes que sejam máquinas, indiferentes a calúnias e a acusações injustas e maledicentes? Eu não quero. E também me parece que uma sociedade de censores em que não se admite uma reacção humana aos políticos não será uma sociedade saudável. 
No carro já tinha ouvido 'o caso', mais um 'caso', bem como as reacções do Rio e da Cristas e de vários comentadores que de imediato tinham sido convocados para opinar. Já vinha saturada. Um homem chateia-se por ser acusado de uma coisa grave que não aconteceu -- e cai o carmo e a trindade. Não indignados com a mentira mas com a reacção. Não se aprende nada nestas alturas. Estas gentinhas que vivem de comentar o que os outros fazem e dizem só me parecem vizinhas coscuvilheiras, só acusações, só parvoíces polvilhadas por polígrafos e papagaiadas. Não há pachorra.
E eu, a esta hora, aqui chegada ao meu sofá acolhedor e silencioso, já não estou nem aí. 

Estou aqui a pensar é noutra coisa. Tenho um colega que é muito culto. Cultíssimo. Culto de uma forma invulgar. Junta a isso o ter uma memória como nunca vi. A meio de uma frase minha pode lembrar-se de um verso de um poema e di-lo na língua original. E se eu, desconfiada, à socapa, depois, for googlar, constato, espantada, que aquele verso existe mesmo, que o autor é mesmo aquele. Uma coisa que descrita parece mentira mas que é estranhamente verdadeira. Tenho alguns livros que ele me tem oferecido e são sempre invulgares e surpreendentes. Pois bem. No melhor pano cai a nódoa. Hoje, num mail que me enviou, mail que, como sempre estava muito bem escrito quer na forma quer no conteúdo, as ideias sempre muito bem sistematizadas e apresentadas, quase no fim, um erro ortográfico. Onde deveria estar 'podemos' estava 'pudemos'. Fiquei ali parada a olhar para aquela letra trocada. Doeu-me como uma nódoa. Pensei devolver-lhe o mail e pedir que o revisse e mo enviasse de novo sem o erro. Por pura ironia e por saber que ele perceberia o meu desconforto. Mas depois pensei. Temi que ficasse a sentir-se mal. Se fosse comigo, eu ficaria doente se enviasse um mail com um erro daqueles. Depois pensei em responder-lhe ao tema em questão e, no fim, como uma notinha insignificante, um alerta para o typing mistake. Mas depois não fiz nada disso. Para quê? Para quê ir aborrecê-lo? Quantas vezes já eu troquei letras, deixei restos de frases alteradas no meio das frases novas, quantas vezes mudei de ideia a meio da frase deixando a vírgula onde antes fazia sentido e depois deixou de fazer? Quantas vezes, ao reler o que escrevi, fico perplexa com os erros que encontro? Quantas vezes me auto-recrimino por publicar coisas sem antes as reler, sem antes as editar? E isto já para não falar no corrector automático que, às vezes, de sua lavra, escreve palavras que não queremos e que, se não damos por elas, seguem viagem mesmo assim.

E, depois, quem me diz que o meu sentido de rigor na escrita não está furado, ultrapassado, gatado?

Tanta preocupação que tenho de pôr as vírgulas no sítio em que a conversa inflecte ou que a respiração precisa de pausa e, afinal, na volta, a conversa pode fluir, refluir, estacar, voltar atrás, dar uma volta, abrir um parêntesis, gargalhar, chorar, tudo, sem precisão alguma de vírgulas. 

E não estou a falar de cor, não. Estou a falar porque constatei. Não foi a primeira vez, claro. Mas desta vez eu estava a ler o livro, a ler, a ler, e não dei por isso. Eu lia fazendo as pausas todas sem dar pela falta das vírgulas. Quando dei, voltei atrás para verificar se a ausência vinha desde a primeira página. E vinha. E não me tinham feito falta nenhuma.

Exemplifico.
38. Tenho desde há muito o hábito de em algumas noites acender uma vela dentro de um pequeno castiçal junto à janela. Penso que se verá da rua. Creio que os anjos de grandes asas pesadas se háo-de abeirar ainda que por pouco tempo do lugar onde eu moro. Sei que nada é mais terrível do que a perfeição de um anjo e por isso os espero assim. Perdidos nas rotas da chuva e com um cansaço quase humano no rasto que deixam.
214. A tristeza tem mil e uma formas de ser dita mas a alegria não tem história. Claro que isto já foi escrito e com mais eficácia mas hoje voltei a comprová-lo. Encontrei uma pessoa que me convidou para um café e pensei oh diabo tenho para umas duas horas. Mas não. Disse-me logo não vou maçá-la está tudo a correr bem não tenho nada para contar. Com efeito em meia hora bebemos um café e conversámos sobre platitudes. E eu pensei nos caprichos do acaso mas nada disse.
Não concordam comigo? Percebem a minha dúvida? Para quê incomodar as vírgulas, andar com elas em preparos, com rodeios e mesuras, em bolandas? Porque não deixá-las em paz? Não viveremos, afinal, bem sem elas?

Tenho que tentar. Mas não me vai ser fácil, ainda estou muito apegada às maganas.


Os excertos em itálico pertencem ao belo diário de Ivone Mendes da Silva, 'A mulher do meio'. 

A bela mulher retratada podia ser a Ivone mas não, é Ida Rubinstein

Abaixo, Alessandra Ferri dança enquanto Sting interpreta Bach, suite 1 para cello


Desejo-lhe um belo sábado. Tudo de bom para si.

sexta-feira, outubro 04, 2019

No restolho da campanha
-- E Freitas do Amaral que não faz parte desta história --


Volta e meia coincide eu ir no carro e estar a dar um resumo da campanha. No outro dia, uma senhora dizia que, salvo erro, da Venezuela lhe tinham cortado parte da reforma ao que Catarina Martins se insurgia, que não estava certo, que devia receber a reforma por inteiro. E não sei se foi essa senhora, se outra, que lhe disse que ela lhe fazia lembrar a Princesa Diana. E a Catarina, em vez de dizer 'cruzes, canhoto, ó mulher vire essa boca mas é pra lá que não quero ter o fim triste que ela teve', fez um sonzinho enaltecido, acreditando-se já a princesa do povo, rainha dos corações. 

E isto foi o que registei na memória em vários dias.

Não, peço desculpa, registei também outra coisa: o Negrão, o tal puro que usou assinaturas de pessoas sem lhes pedir autorização, a dizer que o parlamento ia ficar cego, surdo e mudo durante a campanha por não ter sido aprovado uma reunião deles na sexta-feira para debaterem se o ministro sabia se não sabia.
E eu, ao ouvir aquela conversa desesperada, só me lembrei daquele jingle da TSF em que se ouve o dito líder da bancada do PSD, voz trémula, lançando um lancinante 'o senhor tem pelos no coração...!' ao Costa. É que, quando ouço aquele grito de dor, só me ocorre que ainda bem que foi ele e não Catroga que assim se manifestou.  
Logo a seguir, ouvi o Rio a dizer a propósito da conversa do seu líder: não morre ninguém por causa disso. E, ali no carro, sozinha, no meio do trânsito, desatei a rir. Cego, surdo e mudo, na volta também com pelos púbicos no coração mas, vá lá, morrer não morre. Menos mal.

Mas, portanto, da campanha, que me lembre, não registei mais nada.

Volta e meia, entre um e outro zapping, vi peixeiras ou mulheres no mercado ou na rua a convidarem candidatos para o quarto ou a dizerem brejeirices que deixam os pobres homens encabulados. Uma, sorrisinho malicioso no canto da boca, dizia para o candidato pôr a bandeira direita e perguntava se ele já não conseguia endireitar o pau. Geralmente, nestas ocasiões, o meu marido diz: 'Eu bem digo: as mulheres são muito piores que os homens'.
E eu, ao agora escrever isto, lembrei-me do comentário do Onirocrata e estou aqui a pensar que ele, o Ony, deveria fundar um #MeToo_Y para os homens com razão de queixa das mulheres, ou seja, para quase todos. É que as mulheres, essas malucas, são um perigo: umas deixam-se agredir física e psicologicamente pelos homens e outras apalpam-nos e fazem de tudo para desviá-los por maus caminhos. Um perigo, as mulheres. Tadinhos dos serzinhos do cromossoma y, sempre vítimas delaX.
Quanto a debates também não posso pronunciar-me pois tenho ideia que só vi um, o dos quatro contra o Costa. E entrevistas, assim de repente, acho que só o Ricardo Araújo Pereira com a Joacicine do Livre.

Mas até pode acontecer que tenha visto ou ouvido mais. Mas não me lembro, não ficou cá nada.

Para mim, estas campanhas são uma indigência intelectual, um desperdício político, uma canseira para os candidatos que andam em tournée, uma perfeita inutilidade para todos. Salvo quaisquer excepções de que agora não me lembro -- e nas tintas se alguém aí, Martin incluído, acha que o digo por sectarismo -- mas, na realidade, do pouco que vi e ouvi, foi o que constatei: acho que só o PS se limitou a dizer quais as suas intenções. O resto andou todo a malhar no PS: só chicana, maledicência, intrigalhadas, quadrilhices. Não me assiste. Ainda se essa grande figura da política nacional não tivesse desistido... Agora, com o grande Castelo Branco fora de combate, foi basicamente mais do mesmo. Sem graça. Sem conteúdo.

Não sei como é nos outros países. Nestas coisas acho que não vale a pena inventar a roda. Chama-se a isso fazer benchmarking. Gostaria, pois, de saber como fazem em países onde a democracia já leva mais anos de estrada. Não acredito que, em locais onde a malta é civilizada há mais tempo, os políticos andem em feiras a gritar 'toda a ciganada a votar no CDS', a insultarem-se, a lançarem suspeitas, a avacalharem a conversa ou a prometerem amanhãs que cantam mesmo que seja em Caracas. Ou a perguntarem o nome dos cães. Acredito que há maneiras evoluídas de mostrar aos eleitores quais as suas ideias sem ter que poluir o ambiente nem abalar a sanidade mental dos mais incautos.

Ah, é verdade, lembrei-me ainda de mais outra: aquela tal do Rio que num dia até prendia jornalistas por alimentarem a Justiça de tabacaria e, no dia seguinte, já esquecido do seu ponto de honra, os chamou para lançar a acusação contra um inocente (relembro: até prova em contrário toda a gente é inocente), fazendo o julgamento na praça pública do ministro Azeredo e do Costa. O mesmo Rio que, não tendo a malta toda desatado a apedrejar a mulher do Costa (sim, porque se o ministro sabia, o Costa claro que sabia e, logo, a mulher também tinha que saber), inventou outra: a de que o Centeno deveria receber uma aula do Sarmento, o ministro das finanças que o Rio já nomeou não se sabe bem para quê. Claro que o Centeno, que tem os dedos de testa que faltam ao Alpakas, o mandou dar banho ao cão.

E eu, que não sabia quem era esse tal génio da batata frita, o Joaquim Sarmento, resolvi googlá-lo, para lhe tirar a pinta. E tirei mas não me alongo. Hoje estou em dia bom: a santinha desceu em mim com o regaço a transbordar de caridade. Mas uma coisa eu tenho mesmo que dizer. É que, olhando o dito Quim, achei que o senhor até pode ser bom a dar aulas sobre a contabilidade das laranjas mas uma coisa ele não sabe: que as mangas das camisas do homem não devem ter vinco.

Tirando isso, noves fora nada, alekui-alekuá, xiripitatá-tatá. Urra. Urra.

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Hesitei. Freitas do Amaral merecia estar em melhor companhia aqui no Um Jeito Manso. Ou sozinho, num post apenas a ele dedicado. Mas, tudo sopesado, acho que estará bem aqui. A demonstração pelo absurdo é um método tão bom quanto qualquer outro. De um lado a Cristas, o Rio, a Catarina, o Ventura e etc e, do outro, ele.

Nunca votei em Freitas do Amaral nem sequer, em seu original tempo, alguma vez senti simpatia política pelas suas ideias. Depois, aos poucos fui adoçando a opinião. Fui achando que, independentemente das suas ideias, era um senhor, era uma pessoa respeitadora e digna. E comecei a sentir simpatia. Não propriamente pelas suas ideias que não me pareciam muito definidas mas por ele. Ou fui eu que ganhei maturidade ou tolerância ou foi ele que se chegou ao lado gauche da vida, seja lá o que isso quiser dizer.


Foi-se e eu, ao ouvir a notícia, senti pena. No outro dia, quando ia no carro com a minha mãe, passámos por uma casa que deve ter sido bonita e que está, há muitos anos, abandonada, cada vez mais degradada. Contou-me que era de dois irmãos, ambos sem herdeiros. Foram para uma residência, a casa ficou ao abandono. Agora que morreram ainda mais ao abandono ficou. Assim o CDS, uma casa que, percebi mas tarde, nasceu inteira, digna. Havia o Freitas e o Adelino. Gente inteligente, íntegra. Foi-se um, de uma maneira traumática, depois saiu outro. E o partido nunca mais foi o mesmo. Monteiro, Portas -- e, agora, descambou de vez com a Cristas. Agora que Freitas morreu, acaba a memória do CDS. Ficará ao abandono até que alguém o deite abaixo.

Mas Freitas do Amaral sobreviver-lhe-á -- quer através da obra que deixou, quer através da memória de coragem, dignidade e elevação na política que dele ficou.

Se há um panteão da memória da democracia portuguesa, de uma coisa podemos nós estar certos: Mário Soares está lá de braços abertos para receber o amigo.


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quinta-feira, outubro 03, 2019

O sofrido testemunho da deputada que, em silêncio, sofreu abuso psicológico por parte do seu companheiro





O tema da violência doméstica perturba-me. Custa-me aceitar que uma pessoa que, como qualquer outra, tem direito a receber afecto, a receber atenção, a receber a retribuição do apoio que dá ao outro, se veja, afinal, sujeita a receber as migalhas que esse outro entenda por bem dedicar-lhe, sujeita a ter que fechar os olhos à frequente desatenção para que ele não se aborreça não vá a situação ainda piorar, sujeita a ter que disfarçar a ansiedade para que os outros não se apercebam e não se apiedem, sujeita a ter que ceder cada vez mais para poder receber alguma coisa em troca, sujeita a ter que fingir que é muito o pouco que recebe para não ter que aceitar a ideia de que está a ser vítima de uma relação falhada ou, pior, vítima de violência psicológica por parte, tantas vezes, de um narcisista.

Toda a gente tem direito à felicidade mas nem sempre ela vem quando se quer.

Muitas vezes parece anunciar-se de forma promissora, ao princípio parece mesmo que há reciprocidade, que há generosidade, que há genuíno afecto. E, na ânsia de querer que perdure e que seja verdadeiro esse sentimento, a pessoa força-se à cegueira. Constrói uma narrativa na qual é feliz, na qual é amada como num conto de fadas. E mesmo quando percebe que o conto não é de fadas e que aquilo não é amor, força-se a aguentar. A ceder. A esperar que aquilo que parecia promissor volte. Força-se a encontrar explicações que desculpem o desafecto, talvez problemas dele em criança, talvez problemas familiares. Como se isso desculpasse o comportamento, como se isso justificasse o desamor, como se isso fosse razão para aceitar ser vítima, para aceitar desperdiçar a sua própria vida.

Tal como aconteceu com Rosie Duffield, não estou a falar da violência evidente, da violência tradicional com agressões físicas, empurrões, hematomas disfarçados. Não. Falo de uma violência oculta, disfarçada, de uma violência que frequentemente se disfarça de carinho. Fraco e efémero disfarce.

Falo, sim, das pessoas que, tal como Rosie, sofrem em silêncio o desamor, a solidão, a angústia. Falo das que se envergonham temendo ser vistas como falhadas. Das que aceitam que o outro viva em sua casa quase impondo regras e comportamentos, como se a casa fosse também dele, e se esforçam por achar que isso é normal. Das que nada dizem a quem as trata com desafecto, das que teimam em não perceber que o que parece um gesto de atenção do outro é, afinal, quase sempre um disfarce para receber, ele próprio, atenção. Das que teimam em acreditar que é amor o que é apenas uma palavra oca. Das que tudo fazem para acreditar em juras como se não intuíssem que de nada valem. Das que se forçam a parecer felizes quando recebem telefonemas como se os telefonemas não fossem senão um pretexto para os narcisistas falarem deles próprios. Das que quase abdicam das suas relações, dos seus gostos, na tentativa de que, aderindo aos gostos do outro, possam receber dele algumas migalhas. Das que, frágeis, frágeis, temem ficar ainda mais sozinhas se a relação terminar e, por isso, acabam por nem perceber como é patético o seu apego a quem não as sabe amar, a quem não as merece.

Há algum tempo recebi um mail de uma Leitora que me contou o seu caso pessoal. Era também assim. Contou-me como depois de, durante anos, ter fechado os olhos aos sinais de alerta, depois de se recusar a ouvir os avisos de familiares e amigos, depois de se ter forçado a sentir-se enamorada e a viver um romance de amor que era mais imaginário do que real, percebeu que estava a ficar vazia, exausta, sem amor próprio, infeliz. Contou-me como conseguiu coragem para o expulsar da sua vida. Quando li o seu mail interroguei-me: porque aceitou ela aquilo? Não era óbvio que era uma relação que não era saudável? Porque persistiu? Perguntei-lhe. E ela explicou-me. Não conto aqui pois obviamente respeito escrupulosamente o sigilo perante situações expostas por quem tanto confia em mim. Mas percebi como foi difícil esse processo. Percebi e fiquei com muita pena porque é, na verdade, muito triste a situação de quem passa por uma situação assim. E é preciso coragem para sair dela.

E o conselho é sempre o mesmo: não esconder, falar, pedir ajuda, libertar-se, virar a página, recomeçar. 

E esta é também a história que, de forma muito sentida, a deputada Rosie Duffield, deputada trabalhista, contou esta quarta-feira no parlamento britânico. Acabou o seu discurso muito emocionada tal como emocionados ficaram todos quantos a ouviram, incluindo John Bercow. Tal como eu.

Quando procurei fotografias dela para aqui colocar, reparei que aparece quase sempre a rir, a sorrir. Parece tranquila e feliz. Sabemos agora como tentava encobrir o que lhe ia na alma. Ao vê-la agora com a voz trémula, com a boca seca, à beira das lágrimas, melhor ainda percebemos o que ela se deve ter esforçado para conter e disfarçar a tristeza que a minava por dentro. E é isto que, geralmente, acontece. E isso faz com que a ferida seja ainda mais funda.

Que esta forma de abuso seja melhor contemplada na lei, na lei de todos os países, para que os abusadores, mormente os narcisistas que sabem muito bem disfarçar, é muito importante. Tal como é da maior relevância que estes casos, geralmente silenciados, sejam falados publicamente para que toda a sociedade os rejeite liminarmente e para que as vítimas saibam o que fazer, ganhem coragem, lutem pela sua felicidade e afastem de si todos os que não sabem retribuir o afecto que recebem e corroem o amor próprio e a estabilidade emocional das suas vítimas.

O que abaixo verão passou-se há muito pouco tempo pelo que ainda não deve haver nenhum vídeo legendado. Eu, pelo menos, não o encontrei. Contudo, pela força das palavras e porque penso que muitos de vós perceberão o que diz, aqui vos deixo o vídeo com o testemunho emocionado de Rosie Duffield.

Peço a vossa atenção. Por favor, vejam e ouçam uma e outra vez. É importante perceber os sinais para que quem passa por isto reconheça os riscos e para os que não passam estejam despertos para poderem ajudar quem precisa.

Que Rosie, tão, tão corajosa, encontre agora a sua felicidade é o que desejo. Ela e todas as pessoas que passam pelo que ela passou.


As lágrimas amargas de Rosie Duffield e o seu doloroso e corajoso testemunho



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Não são apenas as mulheres que são vítimas. Há-as também narcisistas, agressivas, hipócritas e manipuladoras. Contudo, as estatísticas ou os casos conhecidos parecem indiciar que os casos de violência doméstica (seja ela física ou psicológica) têm muito mais frequentemente as mulheres como vítimas.

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Hoje estava para falar de assuntos da campanha ou para partilhar um vídeo divertido. Contudo, depois deste testemunho, acho que não devo poluir o vídeo que acabaram de ver com parvoíces.

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Um dia feliz a todos e um abraço afectuoso a quem sinta como suas as lágrimas de Rosie Duffield.

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quarta-feira, outubro 02, 2019

Em dia de segredos, mel e ruibarbo, vou seguir os bons conselhos do Onirocrata





Para quem tem uma vida muito diferente, estas coisas que escrevo aqui sobre os meus dias podem parecer género. Mas não são. É a minha vida com o que ela tem de bom e de mau. E tem fases. Alturas de sobressalto, alturas de stress, alturas de sobrecarga, alturas de inquietação, alturas de desafio, alturas, até, de normalidade. 

Agora, já o disse, é uma daquelas alturas em que tudo se atropela: sobressalto, sobrecarga, stress. tudo.

E, no meio de conspirações, impaciências, fúrias e, etc, por vezes, quando menos se espera, acontecem coisas surpreendentes. Coisas que parecem levar-me para outro tempo, outro lugar. Depois de trabalhar mil anos, eis que me acontece uma coisa pela primeira vez. Ao fim da tarde, pensando eu que já estava mais sossegada, pus-me a redigir um documento sigiloso, perigoso. Aparece-me, então, um jovem à porta do gabinete. Estagiou, gostei dele, aprendeu, dedicou-se, interessou-se. Humilde, com vontade de aprender. Tudo novo para ele. Gostei da atitude. Pu-lo a ter responsabilidade a ver como corria. Correu bem. Convidei-o para ficar. Aceitou. Hoje, ali à porta, queria saber se podia entrar. Claro que sim. 
Pelo sim, pelo não, minimizei o documento, não podia ser visto. 
Entrou. Trazia um saco de plástico na mão envergonhada. E eu admirada. Meio tímido. Trago um presente da minha mãe, disse. Da sua mãe? Meio a medo, contou que a mãe queria agradecer. Agradecer? O quê? E ele, Por eu ter ficado. Estupefacta. Mas não tem nada que agradecer, ela tem é que agradecer a si por nos ter convencido que o deveríamos contratar. E ele, um sorriso ingénuo, envergonhado, Pois, eu disse que não devia ser costume oferecer coisas mas ela quis. Até vim tarde para ninguém ver. Podiam falar, não sei. É mel lá da terra dela. Espreitei para dentro do saquinho, um saquinho que antes tinha sido de outra coisa. Um boião de mel. Senti-me comovida. Quanta gentileza. Disse: Diga à sua mãe que não devia, não era preciso. Mas que gosto muito de mel, que fiquei sensibilizada. E fiquei mesmo. Disse ainda: Diga à sua mãe que lhe mando eu beijinho. Ele mordeu o lábio, pareceu-me comovido. Tão novinho. Penso que percebeu que gostei tanto. E tão contente que estou com o presente que ganhei. Nunca antes tinha recebido presente por ter contratado alguém. Presente de uma mãe. Quanto amor o daquela mãe. Pensei que gostava de conhecê-la, dizer-lhe que tem ali um menino de ouro. Vive longe mas sei que já vieram a Lisboa, pelo menos uma vez, para almoçar com o filho. Se soubesse como fiquei sensibilizada. Em vez de ficar apenas contente pelo filho, lembrou-se de se sentir agradecida, de me agradecer. Nunca me tinha acontecido. Nunca me esquecerei disto. Nem sei se conseguirei comer o mel, se calhar deve ficar para sempre a reluzir para nunca me esquecer da importância dos pequenos gestos. Dos grandes gestos.

A manhã teve reunião cheia de asperezas, cheia de impasses, de coisas. E a tarde ia ser bicuda. Saí cheia de fome, até parece que estava mal disposta. No entanto, o almoço teve que ser rápido. Mas, em dias assim, eu tenho que veranear nem que seja de fugida, meros minutos. Se não deixo entrar ar livre na cabeça vou para a parte da tarde a sentir-me asfixiada.

E então vi a perfumaria. Uma loucura. Não preciso de perfumes. Mas gosto de descobrir cheiros novos. Sou dos sentidos. E o cheiro é dos que me prende. Fui ao escaparate das promoções. Todos caros. Não quis. Repeti dentro da minha cabeça: não preciso. Cheirei, borrifei-me. Gosto tanto. E, então, um que desconhecia. Um preço nada a ver com o dos outros. Era de quarenta, estava a dezasseis. Cheirei. Agradável. Aquele cheiro estranho, insólito, bom. Reconheci. Há uns dois anos, vi um frasco encarnado, lindo. Cheirei. Um perfume insólito. Mas tão caro. Sem precisar, tão estranho, tão caro. Não comprei. O meu lado racional, por vezes, impõe-se. A partir daí, quando há saldos, tento descobri-lo a metade do preço. Nunca. Não vai a saldos. Estou a falar do perfume de ruibarbo da Hermès. Hoje, na perfumaria, tentei ler as letrinhas minúsculas da embalagem desconhecida. Não consegui. Não trazia a lupa. Perguntei à menina. Não sabia, disse que achava que era morango. De facto, pareceu-me haver um morango no desenho mas o cheiro nada tinha a ver com morango. Eaux Rayonnantes do Docteur Renaud. Quando cheguei a casa, peguei na lupa e fui ler: mandarine verte, mûre et rhubarbe. E aqui, ao ler isto, fiquei toda contente. Lá está: o aroma do ruibarbo. Tão contente que fiquei.

Mas, antes, também já tinha ficado agradada com os comentários do Onirocrata. Ele muda de nome e eu reconheço-o sempre. Surpreendo-me com os nomes que arranja. Acho-lhe graça. Agora é o onirocrata e, cá por mim, se continuar inspirado, pode continuar a aparecer-me com conselhos úteis, com sonhos nas palavras, presentes a saber a mel e nomes sempre muito novos.

Transcrevo:

6 - Ataraxia é imanente, mas encontra-se oculta por denso artifício.

7 - Dia e noite, morte e vida, vigília e sono, ordem e caos: a aceitação desinteressada dos ciclos universais traz consigo nenhum erro.

8 - Muito embora as inúmeras palavras e os labores empreendidos, o telos da humanidade não pode ser outro senão o que é, e nenhum ser humano tornar-se naquilo que não é.

9 - Dançar - apaziguar a mente, deixando o corpo submeter-se ao som - só ou acompanhada.

Lather, rinse, repeat until slumber reach.


Música nas palavras. Tão bom. Vou seguir estes conselhos e adormecer entre danças, sonhos, rios de mel, perfumes insólitos, silêncios insolentes. E esperar que venham mais -- para melhor dormir ou, apenas, para melhor sonhar.

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As fotografias são de Patrick Demarchelier

[E um dia feliz também para vocês]

Rui Rio sabia ou não sabia que o PSD usou assinaturas sem autorização dos seus proprietários?
O líder da Bancada Parlamentar do PSD informou ou não informou o líder do partido de que tinha feito isso?
É que que sabia é gravissimo e, se não sabia, também é muiiito grave,


Usar a assinatura de uma pessoa sem que a pessoa saiba é legal? É legítimo? É ético? É bem educado? Não é grave? Melhor: gravíssimo? 

E os senhores jornalistas que andam a dar palco ao justiceiro Rui Rio não sabem perguntar-lhe isto? Não sabem perguntar-lhe se ele sabia? E não é caso para Ferro Rodrigues chamar Fernando Negrão à Assembleia da República para ele se justificar? E se o acto de usar assinaturas sem que os próprios tenham autorizado for crime não seria caso de mandar uma participação ao Ministério Público?

Estou a falar de um escândalo dos valentes.

Transcrevo:

Casa do Douro. Deputados do PSD dizem não ter autorizado assinaturas e pedem explicações a Fernando Negrão


(...) Em causa está um documento sobre a lei que altera o estatuto de associação pública da Casa do Douro. 
De acordo com a TSF, o CDS, com 18 deputados, precisava de 23 assinaturas para avançar com este pedido tendo, por isso, pedido ajuda ao PSD. O documento contém mais 20 assinaturas de deputados do PSD (e não apenas mais cinco, como as que seriam necessárias para avançar), totalizando 38 assinaturas. Desta forma, CDS e PSD conseguiram entregar o pedido ao Tribunal Constitucional, uma vez que cumpriam com o requisito do número de assinaturas.
No entanto, há deputados do PSD que dizem não terem dado autorização para que a sua assinatura fosse digitalizada e utilizada neste documento. Foi o caso da deputada Andreia Neto que, contactada pelo Observador, garantiu não ter tido conhecimento da entrada do pedido: “Não assinei, nem dei consentimento para tal. Não conhecia o documento, porque só mo enviaram há pouco”, diz.(,,,)
Grave. Gravíssimo.

E Rui Rio não diz nada?  No PSD andam a fazer destas coisas e ele não diz nada?!

terça-feira, outubro 01, 2019

O que fazer para voltar a adormecer quando se acorda a meio da noite?




Este ano, as minhas férias foram muito boas e descansadas (noc-noc-noc, já bati três vezes na madeira para que assim permaneçam, apesar de já terem acabado). 
Ao contrário das férias de há dois anos em que passámos o tempo todo a caminho de hospitais, um hospital a cinquenta quilómetros do outro, dois internados mal, mal ao mesmo tempo, e ora piorava um, ora piorava outro, até que um teve alta e o outro piorou e depois o que teve alta piorou e voltou ao hospital para, poucos dias depois, piorar definitivamente e se ir e o outro ir para casa com alta mas cada vez mais debilitado. E, como se fosse pouco, logo depois, creio que no dia em que o que morreu (mais concretamente, a que morreu) se enterrou, soubemos que um primo do primo, rapaz mais novo que nós e saudável como um pêro do campo, tinha ido desta para melhor sem que nada o fizesse prever, deixando-nos atarantados, sem conseguirmos perceber, sem querermos acreditar.
No outro dia, por mail, falei numa amiga que morreu no início deste ano e que me deixou abalada, até porque foi a primeira que se foi. Dizia eu que, até aqui, era geralmente avós, tios, sogros, gente mais velha, os que estavam na linha da frente. Mas, afinal, não foi a primeira, não. O primeiro foi este que, incompreensivelmente, se foi no verão de há dois anos. Ainda hoje nos parece mentira.

Mas nada disto vem ao caso. O que vem é que, este ano, tive umas férias 'grandes' tranquilas e, portanto, descansei. Vim com o corpo descansado. E não sei se acumulei descanso a mais ou se foi o organismo que não se adaptou ao ritmo do dia-a-dia ou se é que aterrei num período carregado, carregado de trabalho, ou se, de repente, se conjugaram vários projectos disruptivos e que exigem bastante de mim -- o que sei é que, nos primeiros dias da rentrée, tive uma espertina desgraçada. E, mesmo tendo, ao fim de alguns dias, quase normalizado, ainda me acontece, de vez em quando, ir para a cama perdida de sono mas, uma vez deitada, espertar e ficar às voltas ou, outras vezes, acordar a meio da noite e está bem, está, voltar a dormir é o voltas, ou, mais chato ainda, acordar mais cedo do que devia e, claro, ver que já não vai dar tempo e, toda chateada, já não conseguir adormecer. E sonho. Sonhos nos quais acordo e que me deixam a pensar neles. Sonhos bizarros. Eu não preciso de dormir muitas horas durante a semana -- até porque tento repor ao fim de semana -- mas preciso que sejam horas seguidas, de penalti e de género apagão. E esta moda nova, de agora andar com dificuldade em dormir descansadamente durante as (poucas) horas que estou na cama, anda a maçar-me. Nunca me tinha acontecido.

Foi, pois, com curiosidade que li no Madame le Figaro: Ce que vous devriez faire pour vous rendormir après un réveil en pleine nuit.

E porque pode ser útil a alguma das pessoas que, por aqui, me acompanha, vou partilhar algumas dicas.

1. Não ver as horas. Ver as horas faz com que calculemos as horas que faltam até nos levantarmos e isso aumenta o stress. Nem ter à vista despertadores, visores de telemóvel, etc. Aliás, dizem que uma hora antes de se ir para a cama já não deveria haver telemóveis ou computadores ligados a despertar a nossa atenção.

2. Ao longo dos exercícios respiratórios que se seguem, manter sempre a língua encostada ao céu da boca, tocando na parte interior dos incisivos. Respirar segundo o ritmo 4-7-8. Contar até 4 enquanto inspira pelo nariz, contar até 7 enquanto retém a respiração, contar até 8 enquanto expira pela boca. Ao fim de pouco tempo, o corpo deverá sentir já algum torpor.

3. Se o sono não chega, encaminhe-o para tal. Pense que o corpo está pesado, enterrado no colchão. A cabeça, as costas, as coxas. Pense no corpo, sinta-o pesado. Provavelmente, entretanto, adormece.

4. Coloque-se na posição que lhe for mais confortável. Se lhe der jeito, balance levemente, quase como se estivesse no útero materno. Balancé, balancé, balancé. Devagarinho. Deixe-se acalmar. Tranquilize-se.

5. Se nada disto funciona, levante-se, beba um copo de água ou uma infusão leve (sem cafeína), leia um bom livro. Não mais do que vinte minutos. Não se esqueça: não veja as horas, não espreite o telemóvel. Volte para a cama e durma. Durma um sono descansado. Durma nos braços de alguém: de um amado, de um anjo da guarda, de um sonho.


E agora, em vez de aqui estar nisto, já deveria era estar em modo de devagarinho, longe do ecrã do computador. Mas ainda aqui estou a pensar no bonito enredo que amanhã tenho para desenrolar e na cabeça fria que tenho que ter para levar a tarde por diante. E tento não pensar que ainda devia ir analisar o longo ficheiro que me enviaram ao fim da tarde. Para me animar, penso que aquilo tem um sumário executivo. Mas isso não me consola. E também tento não pensar no mail carregado de anexos que me enviaram de novo, lembrando-me que já devia ter respondido. E sei que devia ir olhar para isso agora mas o meu coração balança. Balança entre o ir dormir já ou deixar-me ficar aqui a ouvir a telenovela brasileira enquanto, contrariada, me sacrifico. Preguiça. Preguiça. Tanto que me apetecia agora desatar a escrever histórias vagabundas e aqui estou presa ao que acho que devia ir fazer e contrariada porque não me apetece fazer. Sou uma mulher dividida, não tenho como escondê-lo.

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Anda, Sergei, voa,


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Pinturas de Marie Fox (a primeira e a terceira), Pino Daeni (a segunda), Władysław Ślewiński (a quarta) e Alexej von Jawlensky (a última) -- tudo com mulheres a dormir -- ao som das folhas de Outono pela voz de Angelina Jordan, a menina cuja voz anda sempre carregada de blues. Prezo muito o valor das pessoas de valor mesmo quando são menores. No fim, o belo Sergei Polunin voa como se o mundo fosse durar para sempre e eu olho para ele com vontade de que a parte bela do 'sempre' caiba toda dentro dos meus efémeros instantes.

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E uma boa terça-feira. Be happy.