sexta-feira, setembro 22, 2017

Claro que tenho que amar de paixão este homem





Não posso dizer que é um amor exclusivo. Não é. Não sou dada a isso. A um é pelo sorriso, a outro pela voz, a outro pela graça, a outro pelo físico, a outro pelo temperamento e sensibilidade, a outro pela insolência, a outro pela inteligência, a outro pela jovialidade, a outro pela patine. Claro que um ou outro quase faz o pleno e esses são merecedores de lugar no pódio.
E há um que não está em competição e que não entra cá nessas coisas de pódios e nestas conversas e que, de resto, acabou de ser avisado que eu ia escrever isto (e teve a reacção do costume: 'maluquices'). 
Mas, enfim, isto para dizer que lá por eu isto e aquilo, isso não quer dizer que o meu coração esteja fechado para os apelos que me chegam a toda a hora.

Mas também que não se pense que sou volúvel. Não, isso não. Sou toda dada a fidelidadades. Cá à minha maneira, bem entendido. Talvez deva antes dizer amores duradouros. Se gosto mesmo, gosto forever. Desculpo o resto e foco-me naquilo de que gosto. Sou muito focada, quero eu dizer.
Essa é a verdadeira explicação para me manter casada há mil anos com a mesma pessoa. Ignoro aquilo que não me agrada e embeiço-me com aquilo de que gosto. E vivo feliz. 
E deste outro que aqui hoje me trouxe também gosto desde que o conheci. Acho que pela voz. Ou por parecer um pouco esquivo. Ou por parecer que tem uma alma cheia de subtilezas. Ou por tudo, porque quando a gente gosta arranja sempre mais motivos para gostar.

Mas já cá volto para aprofundar.


Agora um apontamento sobre outra temática. Casas. Sou muito sensível a casas. Invado os espaços que habito, diz o meu marido. Sei que sim. Como um bicho que atapeta a toca, assim eu. Fiz tapetes, escolho almofadas, pinto quadros, descubro peças, milhares de livros, molduras, santos, espelhos, cadeiras e cadeirinhas, candeeiros, mesas e mesinhas, relógios e ampulhetas. Por todo o lado se vê a minha marca. Sei disso. Se vou ou vejo uma casa escura, mal arranjada, tudo sorumbático e mal jeitoso, mal pouso os olhos já eu estou a pensar que dali tirava aquilo, naquele espaço punha aquilo. E penso de acordo com o que penso ser o orçamento adequado. Tanto imagino decorações de alto coturno como na base da barateza. Tanto faz. Uma divisão grande quase vazia, paredes vazias ou com uns quadrecos quase junto ao tecto, móveis escuros ao pé de sofás escuros, portas de madeira escura, tudo escuro -- isso para mim seria mortal. Se tenho que estar em tal tumba só penso que não vejo a hora de apanhar ar fresco. Mas o contrário também me atrofia. No outro dia estivemos em casa de um casal das nossas relações e viémos de lá quase doentes. Uma moradia térrea enorme com uma cave do tamanho do piso. Cada divisão, enorme, estava cheia como um ovo. Uma coisa aterradora. Móveis bons, mas muitos, demais, mesas, camilhas, cadeiras e cadeirões, sofás e chaises longues, aparadores, escrivaninhas, estantes, vitrinas, um excesso que quase tornava o ambiente irrespirável, Na cave a zona das pistas, a zona dos relógios, a zona dos vinhos, a zona dos móveis velhos, a zona das ferramentas, a zona já nem sei de quê. Víamos aquilo e já nem pronununciávamos palavra. Nunca tínhamos visto tanta coisa, tanta, tanta, tanta. Um exagero. Assim não gosto. Gosto é de harmonia, elegância, luz, cor, tranquilidade.


Mas, agora que já fiz o supra intróito ao tema decorativo, volto ao dos homens -- mas agora postos em contexto. Um homem na sua casa. 

Por exemplo. Vamos supor que achava graça a um homem, uma graça mesmo de verdade e que um dia o via em casa. Imagine-se que era uma casa pirosa, descuidada, com pormenores de puro desmazelo ou mau gosto. Acabava logo ali. Logo.


Mas, então, portanto, ia eu dizendo.

Já não sei quando e onde foi que o vi a primeira vez. Se calhar foi no Apolo 70. Ele era o tenente francês e Meryl Streep a sua amante. E o que eram no filme trespassava para a vida real -- salvo seja. E eu, vendo-o, apaixonei-me logo ali por ele.

Se calhar não foi no Apolo 70, tenho agora ideia que deve ter sido no S. Jorge. A voz dele a invadir a sala e a vir alojar-se no meu coração.
(Tenho muitos recantos no meu coração, como já perceberam. À minha mãe é que ouvi dizer: 'no coração de uma mulher cabe sempre mais um'. Penso que o original deve ser 'de uma mãe' e referir-se a filhos. Mas a minha mãe, e bem, generalizou)

Depois, de vez em quando, via-o. Sempre aquela voz profunda, o corpo esguio e vibrante, aqueles olhos mal dormidos, aquela vontade de amar.

Revisitar o passado em Brideshead. A saudade, a melancolia, o afecto. A estética. Charles e Sebastien. Veneza.


Em Damage. Relações Proibidas. O amante da namorada do filho. Ela, Juliette Binoche. Um filme que retrata o desejo extremo, interdito até ao limite. E sempre aquele corpo que é um mero suporte para uma alma e para uma voz que se movem nas profundezas que existem logo abaixo da textura da pele.


Apenas três exemplos. Lembro-me de vários outros mas não quero maçar-vos com os meus gostos que, nestas coisas, gostos não se discutem.

Pois bem. Deste homem de que tanto gosto soube agora mais uma coisa. A cereja que faltava em cima do bolo.

Conto: parece que Jeremy Irons andava a sentir uma crise de criatividade. Viu um castelo abandonado no meio da água e teve vontade de o restaurar e dele fazer a sua casa. Foi uma obra de uma vida. 

How Jeremy Irons Rescued and Restored a 15th-Century Irish Castle.

In the midst of a creative crisis, the British actor impulsively purchased Kilcoe Castle, a long-abandoned fortress near the water. David Kamp learns how a magical retreat came to be.


[From left, the castle before Irons began restoration, 1997; renovations in progress, 2001; a roof over his head, 1999.]

Pois, pois, é para quem pode -- dirão os cépticos. Pois, pois, direi eu, que há quem, com dinheiro, se enfie num apartamento forrado a ouro enquanto o Jeremy fez um milagre. E eu, que não aprecio os feitos das santas milagreiras, toda me derreto com as graças dos pecadores dads a milagres como este que aqui vos mostro.


Podem ler um artigo interessante sobre o tema na Vanity Fair mas, para os mais apressados, deixo aqui um excerto. 
Irons, I learned after two days at his side, is a man serenely comfortable in his own skin. He speaks without inhibition and does whatever he feels like doing, whether it’s sailing his yawl, the Willing Lass, heedlessly through the stiff gales of Roaringwater Bay, driving the local roads in his pony trap (his preferred, Anglo-Irish term for a horse-drawn carriage), or interrupting his houseguests’ sleep with theatrical wake-up announcements delivered through the intercom system that he rigged up to reach all the rooms in the castle. At the time of my visit, he had two friends staying over, both women. “Good morning, ladies!,” he intoned through the intercom, his plummy Jeremy Irons voice echoing throughout the ancient building. “It’s a lovely day. The sky is dry; the wind is low. Please come down to the smell of burning toast.”
After we had finished eating, Irons asked his guests to gather around in the conversation pit, where Gavin played a couple of songs and told a few groaners. Irons jumped in to tell a few of his own. Collins stood up, pre-emptively apologized for his singing voice, and delivered a heartfelt a cappella version of “The Banks of My Own Lovely Lee,” Cork’s de facto county anthem. Even the slight, shy Whooley performed a set piece, a from-memory recitation of “The Priest’s Leap,” a 74-line Irish-nationalist poem held dear in Cork, about a defiant cleric who, on horseback, miraculously evades a pursuing battalion of nefarious English soldiers. Irons, in his flowing robe, took it all in mirthfully, having evidently banished forever the cold, passionless Anglo-Saxon part of himself.
Outside, it was a stormy night, with lashing rain and flattening winds. But you wouldn’t have known this inside Kilcoe, where the fire crackled, the hum of conversation drowned out the gusts, and the towers didn’t even sway. “There’s something about the castle that generates the most extraordinary energy,” Irons said to me. “Everybody stays up ‘til three, four in the morning—talking, listening to music, drinking. You just want to go on, go on. It takes a bit of getting used to, this place. Because it does somehow produce an energy. Have you felt it?”

Leio o artigo e vejo as fotografias e penso que com este homem e a sua casa eu construiria um romance. E talvez do romance fizesse um filme. E nesse filme bastaria ele e a sua casa, e a sua voz, e o silêncio, o ladrar alegre do cão ou o rumor das águas.




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E uma sexta-feira feliz a todos quantos por aqui me acompanham.

E obrigada pela vossa presença aí desse lado.

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quinta-feira, setembro 21, 2017

Bruno de Carvalho vai ser pai e anunciou-o nos ecrãs do Estádio de Alvalade
-- depois de, obviamente, o ter divulgado no Facebook --


Já lá vai o tempo em que eu, na minha santa ingenuidade, pensava que quem ocupava lugares relevantes nas organizações -- nas empresas, nos clubes, nos partidos políticos... e mesmo à frente dos países -- era o que havia de melhor. Os melhores de entre os melhores.

Infelizmente, os tempos que correm provam que estava enganada. E ponham enganada nisso. Redondamente enganada.

Sendo eu ferverosa democrata, reconheço que alguns mecanismos regulatórios precisavam de ser afinados para não levarem onde isto nos está a levar. Tais como estão, dão no que se vê: num falhanço. Dá ideia que a democratização levou a uma razia nas elites, reduzindo tudo à mediania. E isto de forma decrescente. Primeiro arrasam-se os melhores, depois os medianos rejeitam os que, ainda assim, são melhorzinhos, depois a média já é a mediocridade e, sendo a mediocridade a camada dominante, há uma indução no sentido de se escolher o pior de entre os piores.

Vimos o que aconteceu em Portugal. Parece mentira mas durante quatro anos uma abécula impreparada e néscia (tendo como número dois um chico-esperto) governou o país, empobrecendo-o, vendendo as melhores empresas, tentando anular os direitos dos trabalhadores, tentando espatifar a coesão social e separando família -- ao fazer emigrar muita gente, em especial os jovens adolescentes. E vimos também quem presidiu a este pobre país durante um ror de anos: um ressabiado empertigado que só sabia ser simpático para com cagarras e vacas e que, no resto do tempo, se entregava à auto-promoção, escrevendo absurdos 'roteiros', à paranóia e às conspirações de meia tigela. Tivemos também à frente da Comissão Europeia uma alforreca peganhenta que destruiu a credibilidade duma instituição que deveria ser um bastião da democracia e liberdade e que, às suas mãos, mãos de concièrge da grande casa dos poderosos&velhavos, se viu arrastada para um humilhante papel subalterno, um barco à deriva que, por não ter comandante, acabou a entregue a burocratas acéfalos.  Um pouco por todo o lado, também um atraso de vida. Estamos agora a ver à frente dos EUA um narcisista estúpido, um perigoso palhaço, um inacreditável demente.

E à frente de grandes empresas...? Vimos os cagões burlescos que foram condecorados por bimbos e pacóvios... Zeinal Bava, por exemplo. E o que dizer do António Mexia...? Eu não digo nada mas há quem diga. Ou o Granadeiro ou o Berardo ou o Jardim Gonçalves ou... tantos, tantos.

E, portanto, se assim é, como posso eu admirar-me por, à frente do Sporting, estar um fulano que se não é um parvalhão encartado, parece.

Como é sabido, aqui em casa os ventos sopram a favor dos verdes.

Mas aqui em casa havia a ideia, quiçá um bocado lírica, que o Sporting era um clube onde a malta era discreta, direi mesmo a modos que distinta. Nada de rufias, capangas, pintarolas. Isso eram os outros (if you know what I mean)

Pois bem. Ilusões. Reconheço, reconheço.... Ilusões, puras ilusões.

O Sporting está entregue a uma maltosa que nem se percebe.


Aquele Bruno de Carvalho é uma coisa que não se explica. Misto de arruaceiro e de badameco. Misto de palhaço e de ordinarão. Nem sei. Sempre que o vejo ou ouço, há uma palavra que logo me ocorre: rasca


Pois bem.

Sendo como é, não espanta que se ache. E acha-se o maior. E, como todos os pequenos narcisos com pouca cabeça, acha que é tudo dele.


E vai daí, Bruno de Carvalho não apenas usa a gravidez da mulher para se auto-promover, para se colar ao Cristiano Ronaldo, para se armar em engraçadinho parodiando o Sócrates -- como, para cúmulo do dislate, resolve usar os recursos do Sporting para tratar todos os apoiantes do Sporting como seus amigos do Facebook.


E eu, ao ler tão insólita notícia, só me ocorre que estamos a bater no fundo. O mundo parece que está a andar ao contrário, parece que estamos a caminhar para o fim dos tempos. Isto não pode acabar bem.

Veja-se para se acreditar.


Bruno de Carvalho anuncia o seu terceiro filho, desta feita com Joana Ornelas, a sua actual mulher



Eu admitiria que, face a tão ridículo desconchavo, os sportinguistas dariam um murro na mesa e que alguém iria ter com a criatura, pegá-la-ia pelos colarinhos, dar-lhe-ia um pontapé no traseiro e diria simplesmente xô! para que tão desclassificado animal tão cedo não voltasse a aparecer-lhes à porta.
Não que eu ache que se deva usar violência física com animais. Não. Nem pensar. Poderia, pois, o pontapé ser metafórico, tão metafórico como aquele fumo que ele deitou para a cara do senhor do Arouca.
Mas não. Parece que a maioria das pessoas acha isto normal. Vê-se uma nescidade destas e a malta assobia para o lado. Quando o mundo estiver nas mãos de láparos, portas, trumps, brunos de carvalhos, durões barrosos, cavacos, relvas, cristas, burros, estúpidos, populistas, lambe-botas, psicopatas, palermas encartados, exibicionistas, galinhas carecas, trogloditas e outros animais que tais... sempre quero ver...

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É que não é por nada mas eu não gostaria de viver num país entregue a porcos


Mas, enfim, isto se calhar não passou de uma macacada que não tem nada a ver, capaz de ter sido só coisa de um tal Orwell que parece que embirrava com o Estaline e assim

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quarta-feira, setembro 20, 2017

Sobre coisas de nada





Passa da meia-noite e meia a acabo de chegar à sala. Dia longo, longo. Depois de um dia normal, atravessar a cidade à hora de ponta, sair de Lisboa entre um mar de carros.

Quando chegamos já é noitinha. Um lusco-fusco, quase noite. Entro em casa e logo saio. Ando quase às escuras. Entre o escuro e as silhuetas dos arbustos, procuro o banco do canto. Espreito para baixo. Não o vejo. Aproximo-me. Não. Não está lá. Ao entrar em casa, vinha o meu marido a procurar-me: 'Onde fostes?'. Confesso: 'Fui ver se o gatinho estava debaixo do banco. Não estava'. Comenta: 'És maluca'. 

Entretanto, chega o vizinho da ponta da rua. Combinamos com ele. Entregamos-lhe o molho de chaves da casa. A ver se amanhã lá vai o canalizador. Provavelmente temos mesmo que avançar para uma canalização nova. Quando ele se vai embora, arrumo umas coisas, esvazio os armários das casas de banho. Não sei se vão mexer lá, ainda não percebi o que é que tem que ser novo. Não sei se é mesmo tudo, se apenas os tubos principais mas, pelo sim, pelo não, tiro tudo de dentro dos armários. O meu marido não acha bem. Diz que, se calhar, não vai ser preciso, não quer estar a ter este trabalho e, por isso, acabo por ser eu a tirar quase tudo. Diz que está com fome, que vai às uvas. Eu abasteci-me antes, comi umas amêndoas mas, se ele trouxer umas uvinhas, também irão bem. Penso que sem uma lanterna não o conseguirá. Mas se calhar levou-a. Apareceu com um grande cacho de uvas negras. E diz: 'Então não o viste? Está em cima do banco'. Pois. De facto sou um bocado míope e quase não se vê nada, apesar do céu estar estrelado. Mas a questão é que olhei para baixo, onde ele costuma pôr-se. Toda contente, fui logo lá. E lá estava. Ele, num cantinho. E então vejo um vulto mexer-se no outro canto, junto à rama do pinheiro. Era a mamã gata. Levanta-se, fica de pé em cima do banco, a olhar. O gatinho também se levanta, fica expectante. Aproximo-me, digo baixinho: 'Gatinhos lindos, gatinhos lindos, bschhhh, bschhhh'. Os dois vultos brancos, um grande e um pequeno, sossegam, aninham-se, cada um em seu canto.

Depois volto para casa. Penso. Não poderia separá-los e trazer o gatinho para longe da mãe, privá-lo daquela liberdade boa.


Venho para casa e penso como são felizes eles, ali, tranquilos, livres. Não o quero igual a Luhu, o gato que dizem parecer o mais triste do mundo.

Pelo caminho, paramos num restaurante. Um restaurante de aldeia. Pouca gente, o dono muito atencioso. Comida boa, caseirinha, apuradinha, cheirosa. Como à vontade, sem me lembrar da dieta, feliz da vida. Depois, já cheia, cheia, ainda uma fatia de bolo de chocolate. Mal me distraio, esqueço-me de me portar bem. Uma maçada isto do bom comportamento ser em mim uma coisa pouco natural.

Agora, chegada de novo à cidade, fiz um chá de lúcia-lima. Sabe-me bem. Não é chá. É infusão. Não interessa. É bom. Nunca ponho açúcar. Nem nos chás ou infusões nem no café. O sabor puro. A ver se me acelera a digestão. E pode ser que consiga derreter as calorias a mais. Para perder o quilo a mais que ainda tenho a enfeitar-me a figura é um castigo. Em contrapartida, ganhar mais um ou dois é piece of cake. Não é justo.


Praticamente não tive férias e, no entanto, parece que sinto saudades delas. Gostaria de lá ter podido ficar. Lembro-me agora. Quando estava a aproximar-me do banco, da primeira vez, quando não vi os gatos, ao passar ao pé da azinheira, um pesado bater de asas. Um pássaro grande. Já não me assusto. Antes sim, cada susto... Agora sinto-me cada vez mais bicho. Na nossa ausência, devem estar na maior paz, lá entre eles, gatos, pássaros, usando todo o espaço. Ao ouvirem-nos durante a semana, chegando à noite sem aviso, devem sentir uma grande estranheza.

Depois, no carro, ouvimos do violento sismo no México. Nova tragédia. Depois as beligerantes palavras de Trump em resposta ao outro maluco, ao rocket man. Depois ameaças ao Irão. O Irão nuclear, outra ameaça. E eu penso que esta gente é tão desesperantemente doida. Não basta deus estar pelos cabelos, deixando que aconteçam tufões, vendavais, monções carregadas de água, seca extrema, tremores de terra, ameaças de tsunamis, também agora dois perigosos malucos com o dedo quente para carregarem no respectivo botão fatal. Tento dormir, não quero saber deste mundo desorbitado. Mas não consegui.

Sabendo que tinha a viagem, à hora de almoço fui numa fugida, coisa apressada, ver se arranjava leitura breve para ler no carro. Tinha-me esquecido que os dias estão pequenos. Tão pequenos. Não tarda muda a hora e, então, os dias, à hora do lanche, vão ficar ainda mais tímidos, toldando-se ainda antes de ser noite. Mas o livrinho parece tão bom, tão feito com carinho e cuidado: 'O caçador de histórias ' de Eduado Galeano. Gosto de saber que os escritores se deixam estar a preparar com desvelo a sua obra até que alguém os impeça que continuem ou até que morram. Sinto que tenho nas minhas mãos a preciosidade que alguém fez chegar até mim.

Só folheei. Não faz mal. Tenho tempo.




O pior é que não tenho tempo. E, além disso, hoje tenho uma dor de garganta, aqui num dos lados. Algum dos miúdos me deve ter pegado. Esta segunda-feira estive com eles todos ao fim do dia. Andei a distribuir uvas, cuecas e meias. E beijinhos. Na volta devo ter recebido um dos seus variados vírus.

E estou cansada e com sono. Já adormeci algumas vezes. Daqui a nada são duas da manhã e, que eu tenha dado por isso, ainda não escrevi nada. Pelo menos que se aproveite.

Daqui a nada é outro dia. Começo o dia com uma reunião. Não posso ir para lá dormir até porque fui eu que convoquei. Há que ter o sentido das responsabilidades

Se virem mais gralhas do que o usual, por favor, relevem. Ou avisem-me. Please.

E nada mais. Só isto. E vontade de estar bem, tranquila, a pensar em coisas boas, a recordar aqueles todos de quem gosto. Não consigo estar tão perto de todos quanto devia, ouço queixas, sei que falto muito a quem me quer bem. Mas não sei como. A minha vida é isto. Não dá para mais. Só mesmo para o que vai dando.

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As duas últimas fotos provêm do National Geographic
Os poemas de Fernando Pessoa (respectivamente Gato que brincas na rua e Não sei quantas almas tenho) são lidos por José-António Moreira


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Kristina Hammarström e Emanuela Galli com a Orchestra of Patras interpretam 
Caro! Bella! Più amabile beltà  de Handel


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Um dia muito feliz a todos quantos estão aí, desse lado, a ouvir como respiro.

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terça-feira, setembro 19, 2017

Casais improváveis
[Com um número extra em pós post: o casal maravilha cuja missão seria, nada mais, nada menos, que a procriação]


(diz-se ter fixação em ou fixação com? -- volta e meia tenho destas ocorrências, fico sem saber; e é que a gente a falar é mais ou menos na base do 'olha, já foi' e bola para a frente, a asneira fica para trás. Aqui não, aqui, se a gente diz um disparate, fica escrito saecula saeculorum, uma responsabilidade), 
lembrei-me, dizia eu, que, se tivesse um meio televisivo à minha disposição, inventava um programa daqueles em que se colocam pessoas em situações que induzem o romance. Podia ser daqueles em que fazem perguntinhas pessoais, e eles tête a tête, e às tantas a coisa já começa a ficar morninha, depois quentinha, e a gente a ver que a intimidade já se abeira e que, a bem dizer, já estão capazes de sair dali e ir fazer um cafuné um no outro, beijinho aqui, beijinho acolá e, pumba, truca-truca, coisinha mai boa.


E até aí tudo bem. Déjà-vu. A net cheia disso. O picante da coisa estaria nos parzinhos que eu ia arranjar. 

E é aí que entra a conversa do Valupi. 

Dois que eu poria numa de a ver se rola seriam o Sócrates e a Helena Matos. Haveriam de começar numa de arrogância para aqui, arrogância para acolá, chispas a tordo e a direito, desprezo, cada um mil vezes superior ao outro, cada um a cuspir para o chão, ódio e mais ódio. Mas depois, não sei cá porquê, a ver se não saíam de lá os dois com sorrisinhos cúmplices, tímidos e malandros e a gente a ver onde é que aquilo ia dar. Até um livro a meias haveriam de publicar. E a ver se ele não fazia um restyling naquele ar pingão dela. Haveria de ficar uma giraça, toda bué produzida, toda ela chameguinhos bons no Zé.



Outro casalinho: o Láparo e a Catarina Martins. Ele armado em superior, sensaborão, boca retorcida, a fazer perguntas parvas. Ela, ao princípio, sem ter jeito, furiosa, incapaz de se articular com aquele coiso. Depois, lembrando-se do objectivo do programa, artista, olhinho sorridente, boquinha marota, a dar-lhe a volta. Daqueles apanha-os ela à mão. No fim, quando ele estivesse a piar fininho e a vir , de facto, já comer-lhe à mão, aposto que ela desatava a rir pela ratoeira que lhe tinha armado. Querias, não querias, ó láparo...? Pois é, querias... Mas não vais ter. E a ver se desta não vais, no futuro, aparecer a gabares-te de que, se quisesses, tinhas feito e acontecido... Tinhas uma ova, ó láparo. Como diz a Constança Cunha e Sá, 'se cá nevasse, fazia-se cá ski'. Ahahahaha. Ganda asinino, este láparo. Haveria até de chamar as manas Mortágua para, as três, rebolarem a rir da partida que ela tinha pregado ao láparo.

Mais um: o Centeno e a Pinóquia Albuquerka. 

Ela a começar feita cagona e ele todo pacholas, com uma paciência danada, ela toda peixeira e ele professor, ela a dizer cavaladas e ele, didáctico, a explicar-lhe que não, nada disso, ora pense lá melhor. E, no fim, ela já toda derretida, já até esquecida do sarrafeiro que lá tem em casa. E o Centeno, apesar de tímido e com aquela carinha de anjolas, a lembrar-se da macaca que é ela -- e a mandá-la bugiar. Olhe, Drª, porque não vai antes dar banho ao cão do Schäuble?


Mais um casaleco: João Miguel Tavares e Fernanda Câncio. Bem. O que haveria de ser. Faíscas, raios e coriscos. Cá para mim, aqui não havia química possível, a coisa haveria de acabar ao estalo. Ela nele, claro. E ele, feito parvo, a tentar fazer trocadilhos. Trocadilhos pirosos, de mau gosto, a ver se se fazia engraçado. E ela, furibunda, a começar por lhe atirar água a cara para acabar a tentar agredi-lo, a produção do programa a agarrá-la, a chamá-la à razão. E o outro, todo totó, cheio de medo, a inventar desculpas, todo tantã, o tatibitate do costume.


E ainda mais um: o Mexia, Pedro Mexia, com a Cristina Ferreira. Ela a querer pô-lo a dançar, ele a querer falar de literatura, ela a rir escaganifada e ele, atrapalhado, sem saber se rir, se chorar, ela a fazer-lhe perguntas inconvenientes e ele sem saber como limpar tal nódoa do seu exemplar cv sem ser rude, e ela a piscar-lhe o olho, depois a descalçar-se e a enviar o pé pela perna das calças e ele, a fazer de conta que não estava a dar por nada, e a perguntar-lhe qual o autor preferido. No fim...? Pois, neste caso, não arrisco palpites.


E, para terminar, o casal que se impõe: Valter Hugo Mãe e Cátia Palhinha. Sabido é que o Valtinho tem um problema: não consegue ter um filho. Presumo que tenha tentado. Contudo, como penso que o seu clube de fãs seja constituído maioritariamente por senhoras menopáusicas, a coisa não lhe tem corrido de feição. Vai daí, mandaria vir uma fogosa mulher, e até a poria vestida de agente da Cruz Vermelha que o tema é de cariz quase social tantos os lancinantes apelos que o nosso bardo tem lançado. Diria mesmo que aconselharia a que a célebre Palhinha fizesse uso do seu golpe de magia que, como se sabe, se traduz em, do nada, mostrar uma passarinha. Penso também que é o tipo de mulher que deixaria o Valtinho inspirado em todos os sentidos, incluindo no bíblico. Cá para mim nem seriam precisas as trinta e tal perguntinhas da praxe nem os olhos nos olhos do costume. Capaz até da coisa pintar e rolar logo ali. Um pico de audiências nesse dia.



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Podia continuar. Bloggers. Também arranjava uns casalinhos improváveis. Estou aqui danadinha para lançar uns quantos à liça. Mas pronto, fico-me por aqui. Um dia que me reforme e que crie um canal de youtube logo ponho as minhas ideias em prática.


A imagem de abertura do programa -- que se chamaria Love is the air -- poderia ser, por exemplo, qualquer coisa romântica deste género:


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segunda-feira, setembro 18, 2017

Outros luxos



Há alturas em que vagueio por entre leituras, sentido-me bem, apreciando o sabor das palavras, a elegância da escrita, contente por ter a sorte de gostar de livros.

Mas há outras em que, talvez porque mais predisposta, talvez por afortunadas coincidências, a experiência de ler é mais do que isso: é sinónimo de pura felicidade. Leio e sinto um envolvimento profundo que me transporta para aquele espaço indefinível em que a nossa matéria se dilui na felicidade de viver o momento.

De vez em quando, se o meu destino inclui a Gulbenkian no percurso, arranjo maneira de fazer coincidir um almoço rápido com uma ida à livraria. Mil vezes que pelo parque ou pela livraria eu ande, mil vezes me encanto como se fosse prazer inaugural. Desta vez o que trouxe de lá, para além da serenidade que o passeio por aqueles recantos frondosos sempre me proporciona, foi o Colóquio de Letras, Setembro/Dezembro 2017. 

Esta do Colóquio de Letras foi tema durante anos. Eu vinha de um namoro erudito. O meu namorado era todo artes e letras e eu, sendo naturalmente interessada por estes domínios, vivia imersa em informação, em revistas, livros, discos. Sendo ele pessoa muito dada à literatura, o Colóquio de Letras era uma lufada de arte, saber e ar fresco que consumia com avidez e do qual também me tornei devota. Ao começar a namorar o que viria a ser meu marido, todo ele de áreas mais exactas e concretas, falei-lhe uma vez no Colóquio e, para meu espanto, descobri que era coisa que ele desconhecia. Fiquei escandalizada. E ele deve ter achado o meu escândalo uma coisa disparatada pois, quando queria ridicularizar algum intelectual de pacotilha, acrescentava logo, 'ah... e não deve perder um Colóquio de Letras...'. Não me deixei abalar. Troquei de namorado, nada de mais, mas ao Colóquio de Letras mantive-me fiel.
No Colóquio gosto de tudo. A começar é o objecto em si. Agrada-me o design, a paginação, a qualidade do papel, o peso (é pesado, um compacto de luxo), o cheiro a tintas quando é novo. E gosto da selecção de temas, gosto do que lá se escreve, gosto do cuidado da feitura, gosto das imagens.

Mas este número é, de facto, especial: é um luxo. 


António Ramos Rosa e Herberto Helder. A poesia de ambos, a amizade que os unia, a correspondência trocada. A imagem das cartas, a letra deles, a insegurança de HH, o conforto que procurava junto do amigo, a palavra certa de ARR -- tão bom ler, ver, ter a poesia deles assim materializada.


E os poemas de ambos, poemas maiores, vozes a um tempo vindas das entranhas da terra, das entranhas da alma, da seiva das árvores, dos cavalos quando correm na noite, da seda das pétalas das rosas, do sangue das mulheres, da luz, das trevas, da imaterialidade do amor... O prazer de ter uma edição destas nas mãos, folheá-la, palpá-la, fechar os olhos e, ao voltar a abri-los, aquelas palavras ainda ali estarem, disponíveis, belíssimas.

Para acescentar ainda mais espessura à 'alquimia verbal da escrita de Herberto e à voz inicial de Ramos Rosa', as imagens de 'algumas peças da obra ao negro de Rui Chafes -- tal como Nuno Júdice o refere no Editorial.


Entretanto, este domingo, dia muito tranquilo: caminhada à beira rio, fotografias, almoço no cantonês, a aragem que faz dançar suavemente o arvoredo, as gaivotas, os veleiros, as cores doces deste fim de verão que já sabe a outono.


E, de tarde, um outro livro. Estou no princípio. Mesmo no princípio. E, no entanto, já lá estou dentro. Daqueles livros, pura literatura, em que as palavras nos levam pela mão. Bem sei, como no outro dia li a Javier Marias, que uma tradução é uma reescrita, a toada é outra porque a língua é outra, as subtilezas das palavras são, certamente, outras. Uma reinterpretação do original. Mas é uma tradução o que estou a ler (a cargo de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues). Se calhar, se estivesse a ler o original, o meu maravilhamento seria ainda maior. Mas é em português que leio e é em português que falo do prazer que o livro, desde já, está a trazer-me. Chama-se Pedro Páramo e é de Juan Rulfo que o publicou em 1955.


Ler sentindo o toque das palavras

E estou aqui a escrever e com vontade de parar já para ir ler o livro. E há livros em que retomo no exacto ponto em que os deixei porque cada palavra conta -- e não são muitos autores com quem isso acontece. Neste sim. Neste livro não poderei perder palavra. Se calhar, quando a ele voltar, vou até reler a última página para ter a certeza que a cerzidura na leitura fica perfeita porque este livro não é um livro qualquer. Vou no princípio mas já sinto que é raro. Um luxo.

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Excertos de Pedro Páramo lidos por Juan Rulfo



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E, porque este post é também deles, poemas de António Ramos Rosa e de Herberto Helder 
(lidos por José-António Moreira)

O teu rosto



O amor em visita


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Fotografias feitas este domingo


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Abaixo fala-se de uma pessoa pouco recomendável pelo que deverão avaliar bem se é de vossa conveniência perturbar a alegria que as gaivotas vos estão a enviar

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Passos Coelho surtou? Ou está em estado de negação? Ou é assim de nascença?


Acabei de vê-lo. Estava aí numa qualquer acção de campanha e o que ele dizia, com aquele seu incomodativo sorriso amarelo, era de dar dó. O homem parece não estar bem. Não é apenas ressabiamento. É mais do que isso. É doença. Doença ou deformação severa.

Aliás, desde que o vejo, acho sempre que não está bem. A criatura nunca percebe o que se passa, revela uma ignorância assustadora, uma distorção mental que o leva a tirar conclusões sempre erradas. Mesmo quando a evidência dos factos prova à saciedade que todas as suas ideias e acções foram erradas ele não percebe. E, também como é apanágio dele, continua a usar argumentação falaciosa e a dar o dito por não dito, denunciando um arrevesamento mental que deve preocupar a sua família, em especial a família política. Como, mistura a falta de inteligência e ignorância com demagogia e embrulha tudo isto com uma voz bem colocada, ainda consegue andar aí pelas feiras a vender o peixe dele. Beneficia, claro, do apoio das televisões que, na incessante procura de casos e tricas, gostam de divulgar as suas parvoíces. 

Tivesse ele alguma vergonha na cara ou algum tino e já há muito teria metido a viola no saco, dado o lugar a outro. Assim não. É vê-lo a dizer disparates como se estivesse coberto de razão. Incomoda ver alguém a fazer números destes. Mesmo os habituais fiéis eleitores começam a afastar-se. Um dia virá em que vão fazer de conta que não o conhecem, em que vão negar que algum dia o apoiaram. Ficará apenas com um apoiante: Cavaco.

Olho-o e penso: isto é uma tristeza. Uma pessoa não se enxergar e andar por aí a fazer estas figuras tristes... 

Não haverá pelas hostes laranjas quem faça a caridade de lhe dizer claramente que deve retirar-se, ir tratar-se, dedicar-se ao canto, treinar a ver se o La Féria finalmente o contrata?

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domingo, setembro 17, 2017

O gatinho branco que habita in heaven provou que o Prémio Ig Nobel 2017 da Física foi bem atribuído


Estava num cantinho, como que aconchegado, debaixo de um banco. Nós por ali, tão perto, conversando, e ele sossegadinho a olhar para nós.


Mal o vi, fui a correr buscar a máquina. Deixou-se fotografar. No outro dia, quando não o víamos, miava baixinho como se estivesse a chamar-nos. Parece apreciar a nossa companhia. Aos irmãos e à mãe não os vemos. Mas ele, fofinho, parece é sentir-se bem aqui, perto de nós.

Mas, então, hoje, ao fim da tarde. 

Olha-me tranquilo, deixa que me aproxime, não tira os olhos de mim. Digo: 'Gatinho lindo, gatinho lindo...', 'Bschhhhh, bschhhhh', e ele olha-me. 

Depois, aproximo-me ainda mais, puxo um ramo seco que ali está. Assusta-se com o som do ramo a arrastar-se, levanta-se, sai do seu abrigo. Depois vira-se para trás para me olhar. Tranquilo. 


A seguir, devagar, muito calmo, chega-se à vedação que naquele sítio impede os meninos de caírem para o caminho mais abaixo. E passa serenamente por um espaço em que eu juraria, juraria mesmo!, que ele jamais poderia passar. Mas passou nas calmas.


Como é que, com aquela elegância natural, ele conseguiu encolher-se para caber ali, não consigo perceber.

Mas, enfim, provou que o Prémio Ig Nobel 2017 da Física foi bem atribuído. Segundo leio, Marc-Antoine Fardin foi o feliz galardoado por se servir da dinâmica dos fluidos para resolver a questão "Poderá um gato ser sólido e líquido ao mesmo tempo?". É que só isso explicaria a capacidade dos gatos para adaptarem o corpo de modo a serem capazes de se enfiar em qualquer espaço, por exíguo que seja.




Passado um bocado voltou. Veio devagar, com confiança. Acolheu-se ao mesmo lugar, olhou para mim.

Não sei se devo aproximar-me mais. Não sei se os gatos gostam de festas ou se preferem ser ariscos.


Perguntei ao meu marido: 'Será que devíamos levá-lo connosco?'. Para a cidade, quero eu dizer. O meu marido deu a resposta habitual: 'És maluca'. Não insisti. Presumo que à solta, no campo, ele seja mais feliz. Fechado em casa não teria com que se entreter. Ali é o que não lhe falta.

Mas à noite, frio, tanto frio que se pôs... Preocupo-me com ele: 'Tão pequenino, exposto ao frio.' O meu marido disse: 'Frio, agora? Frio vai estar no inverno.'. Estas coisas não o comovem. Tive uma ideia: 'Vamos arranjar uma casinha para ele, vamos ver se descobrimos uma casinha. Ponho uma mantinha lá dentro.'. O meu marido respondeu: 'Porque é que o gato vai achar que deve ir para uma casa?'. Pois não sei. Mas preocupa-me o gatinho, tão pequenino, ali ao frio. Deixei-lhe lá um recipiente com água. Também me preocupo com isso: onde é que ele arranja água para beber? E de que será que se alimenta? Parece-me tão frágil e indefeso. Gatinho lindo.

Mas fico sempre neste dilema: para a felicidade do gatinho, qual será a melhor atitude a ter em relação a ele?

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Plúvio desvendou a assinatura de Fernando Medina e eu, inexperiente grafóloga amadora, vou fazer de conta que não vi tão apetitoso pitéu


Aprendi com o meu saudoso Mestre que não se fazem análises grafológicas à pressa, descontextualizadas, olhando só para um aspecto e não observando os elementos no seu contexto. A assinatura deve ser vista em confronto com a escrita em geral, em papel sem linhas, percebendo a localização, a inclinação, o tamanho face ao tamanho da letra no texto que se assina e, de preferência, não analisando uma única ocorrência.

Portanto, apesar de ser pitéu, pitéu -- e, confesso, apesar de me ter surpreendido -- não vou ceder à tentação. Facilitismos, reacções imediatas, descontextualizações podem ser rasteiras numa análise ponderada. 

Portanto, vou fazer de contas que não vi a assinatura de Fernando Medina que Plúvio -- castigador inveterado que não perde oportunidade de soltar o chicote sobre o lombo de quem se põe a jeito -- nos mostrou, comprovando que o seu arquivo deve concorrer em variedade e dimensão com o do Tombo.

Agora uma coisa é certa: ele há coisas.

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sábado, setembro 16, 2017

Alô, alô António Guerreiro! Se o Henrique Raposo é fascista, olhe lá que ele deve é ter um certo défice a nível dos ditos 'colhões'.
O meu marido e a Passadeira Vermelha.
Roupa unisexo para mulheres que gostavam de ser homens
Os cuidados a ter quando se ouve miar no telhado.
Jorge Jesus e a Pley-Steichão.
E, para terminar, um exemplo de publicidade racista

1.

O Henrique Raposo segundo o António Guerreiro





Nos tempos em que eu devia estar parva e que contrariava o meu marido, comprando o Expresso -- ele a achar que aquilo se tinha tornado um pasquim e eu, por inércia, ainda a manter o hábito de comprar o saco -- não conseguia ler aquele sujeitinho que gosta de se armar em MEC do subúrbio, escrevendo porcarias como se estivesse a escrever coisas engraçadas. Pensava: 'Este Expresso, de facto, só pode estar a virar um pasquim, para descer ao ponto de dar coluna em página de relevo a uma coisa como este Raposo'. E não lia. Por vezes tentava, forçava-me, aferia se não seria preconceito meu. Não era.

Nada do que escreve se aproveita: é um palerma encartado que, cá para mim, apenas agrada às sopeiras mentais que, para se armarem em pafiosas, se devotam a ler o Expresso.

No outro fim de semana, para ler a entrevista com a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, voltei a arreliar o meu marido. Ele nem lhe toca (refiro-me ao jornal). Eu não, vou de cabo a raso. Contudo, por higiene intelectual, saltei algumas coisas. E, lá está, deitei o olho à coluna do dito Henrique Raposo. Mas a indigência argumentativa, o desinteresse daquela prosa rasteira, a estupidez metodológica de trazer as teorias para o beco em que a sua mente se move, avacalhando todas as ideias em que toca, tudo isso me faz fugir a sete pés. Aquela prosa agonia.

Foi, pois, com gáudio que hoje vi nos blogs que aqui tenho ao lado referência ao belo artigo de António Guerreiro no Público que, com a sua arte e acutilância, deu o nome aos bois. Como se reconhece um fascista, ensina ele.


A partir de agora não deve haver quem se dê ao trabalho de ler aquelas porcarias que o Raposo babuja sem que, de imediato, se recorde: 'Olha, cá está o fascistazinho'.

Só uma observação. Segundo António Guerreiro, os fascistas gostam de mostrar que têm -- e passo a citar -- colhões. Diz ele: O fascista “tem colhões” e gosta de os mostrar. Isto é suficiente para definir um pequeno fascista. Pois, lamento que aí António Guerreiro tenha sido um pouco ligeiro. Eles gostam de exibir o que, de facto, não têm. Pelo menos no plural. Explico. Sabe-se que, por exemplo, Hitler só tinha um testículo (para além de um pequeno pénis retorcido). Franco também só tinha um, embora aí não fosse de nascença, parece que o perdeu. Por rigor taxonómico não devo incluir o Napoleão neste naipe mas também só tinha um. Portanto, isto de se pensar que todos os que gostam de se armar em machos-alfas são muito bem fornecidos pode ser mero empolamento auto-publicitário.

-----  2.  ----

Passadeira Vermelha na SIC Caras



Estávamos aqui num desentendimento. Nada de jeito na televisão, eu a cirandar na net, ele a ouvir comentários de futebol. Mas a dormir. Subrepticiamente, eu esticava o braço e sacava-lhe o comando. Mal sentia, acordava e agarrava o comando. E ali ficava ele a dormir e eu a ouvir os comentários de futebol. E, meus Caros, aqueles comentários são do mais surreal que se possa imaginar. Riem, zangam-se, insinuam, repetem-se. Uma coisa do além. Até que impus a minha vontade. Pus-me a fazer zapping e deixei ficar no debate. E ele, instantaneamente acordado, todo mandão, que isso é que não. E eu também sem vontade de debate mas a não querer sair derrotada. Pus-me, então, a fazer mais zapping. Se lhe parecia ver o Láparo, a Cristas ou qualquer outro desses, logo: 'Eh pá, isso é que não'. Até que passei pela SIC Caras e estava a dar um programa chamado Passadeira Vermelha. Decretei: 'Pronto. Fica aqui.'. Ele não reagiu. Pensei: 'Agora vais ver a pastilha que eu tenho que gramar...' Ficou mesmo ali. Estava o Cláudio Ramos, uma Liliana qualquer coisa, uma de quem não me lembro o nome mas que tem uma voz meio abrutalhada e cabelo cor-de-laranja e a Luisa Castel-Branco. Pelo cartaz que aqui coloquei, vejo que faltava a Ana Marques, apresentadora por quem tenho simpatia, até pela sua querida mãe. Falavam nem se sabe bem de quê. Pois bem. Dei por mim a olhar para aquilo, estupefacta. E, para meu espanto, o meu marido também acordadinho e a olhar atentamente para aquilo. Gozei: 'Olha, olha... Quem havia de dizer... Olha a atenção dele...'. Assentiu: 'Eh pá, ainda não percebi o que é isto'. Fui eu que não percebi: 'Não percebeste o quê?'. E ele: 'Eh pá, não percebo nada: não sei de que é que elas estão a falar, não percebo nada do que dizem'. E eu: 'Mas olha, vi-te todo acordado a olhar para elas. E ele: 'Eh pá, a ver se consigo perceber alguma coisa'.

De facto. Uma maluqueira sem explicação. Não se aproveita nada.


----  3.  ----

Momento publicitário: Moda unisexo. 

Roupa cor de rosa para meninas que gostam de ser meninas e roupa azul para meninas que gostavam de ser meninos


Models walk the runway at the Pam Hogg show during London Fashion Week
(The Guardian)

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Um gato no telhado


📞 - Alô, é dos Bombeiros?
         🚒 - É sim!
📞  - Ouço um miar debaixo do telhado. O que devo fazer?
        🚒  - É só você tirar a telha que o bichano sai.
📞  - Tá bom, obrigadinho.

(E olha o que aconteceu...)


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Jorge Jesus, the only and only, explica que isso de ganhar sempre ou de haver sempre goleadas (não percebi bem) não existe, só na PlayStation. E não se preocupa em dizê-lo com sotaque shakespeareano




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Publicidade politicamente incorrecta

Van Heusen, 1952. ‘The world’s smartest shirts’ -- Life

(Hoje completamente impensável)

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Brinde

Hit the road, Jack --  pelas pouco convencionais Sweet Sisters




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E, para já, é isto.

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sexta-feira, setembro 15, 2017

Joana Amaral Dias, a arrogante pespineta com vocação para Inquiridora-Mor, foi ao debate das Autárquicas em Lisboa (na RTP) fazer com que ninguém vote nela


A sério. Nada contra. Não é pessoa das minhas simpatias mas não é por isso. Não a conheço de lado nenhum. Só do que ela se mostra. E se ela se tem mostrado. Politicamente nunca percebi qual era a dela mas isso nunca me afligiu porque não me sobra tempo para desnecessidades.

Nem agora estou numa de macacadas entre candidatos que não interessam nem ao menino jesus. 
Como pode ver-se nos dois posts abaixo, estou mais numa de cavalos montados em cotonetes ou de olhares muito humanos

Mas, ainda há bocado, ao ligar a televisão, na RTP, apareceu-me o debate entre os candidatos a Lisboa e, logo a abrir, aquela Joana Amaral Dias que parece que engoliu um garfo. Muito direita, empertigada e, tal o espevitanço, como se tivesse os dentes do dito garfo espetados no céu da boca. Insuportável. 

Convencida estava eu que, para pessoas como aquela Joana, os adversários seriam os da direita. Na minha ingenuidade, admiti: vai atirar-se às outras duas como se tivesse vontade de as devorar vivas, mal lhe dêem a palavra vai saltar a pés juntos sobre a Cristas e sobre a Leal ao Coelho. Mas, para meu espanto, vejo-a é a atirar-se com inaudita agressividade ao Fernando Medina. 

E também não conheço Fernando Medina senão do que se lhe conhece. Mas tenho para mim que é daquelas pessoas por quem se pode pôr as mãos no fogo. Quase apostaria às cegas que não é desonesto, não é oportunista, não é mal formado. E, sobre isto da compra da casa, nem é uma questão de fé. É a evidência dos factos que são públicos e muito claros. 

Ora a que propósito vem uma maria-flausina daquelas, que nem sei por que partido anda ela agora, atirar-se ao pobre do homem com aquele ar acusador e de agastada superioridade moral? A que propósito, senhores? Mas quem é ela para vir armar-se em agente da polícia de costumes?

Juro: não se atura uma coisa destas.

Em vez de se insurgir com a estúpida campanha de difamação de que Medina está a ser alvo (campanha que julguei lançada pelos apoiantes das duas madamas pafiosas), não senhor. Fez parecer que a campanha partiu dela e que é isso e nada mais que isso o que verdadeiramente a move.

Bem melhor esteve Teresa Leal Coelho que se demarcou da peixeirada que a dita menina estava a querer armar. Francamente. Há pessoas que transformam a sua vida pública num projecto falhado e esta Amaral Dias é exemplo disso. 


Tenho para mim que, nas eleições, vai levar uma corrida em osso já que ninguém aguenta uma pespenica destas, sorrisinho arrogante, metida a besta, toda empertigada, arzinho de menina malcriada, antipática, daquelas a quem a gente tem vontade de mandar ir dar uma volta ou dar banho ao cão.

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E agora aceitem, por favor, o meu convite e desçam até onde a conversa e as imagens são mais simpáticas.

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Um olhar tão humano


Glimpse Of A Lynx by Laura Albiac Vilas, Spain



Ando há anos, e nem sei dizer já há quantos, a pensar que um dia hei-de arranjar coragem para aqui falar da minha cãzinha querida sem desatar a chorar. Ainda não será hoje. Só um breve apontamento e, de resto, já não novidade aqui.

Como já o contei, veio viver connosco com cerca de dois meses e aqui se manteve, menina querida e muito amada, até quase fazer treze anos. 

Era uma boxer cor de mel, olhos doces, doces. O que me afeiçoei a ela não saberei jamais traduzir em palavras. Da alegria dela quando me via e do afecto que trocávamos, eu abraçada a ela e ela a mim, dificilmente eu poderei falar. Do que ela me entendia, da forma como inclinava a cabeça para melhor perceber o que eu lhe pedia, da forma como também se exprimia e que eu tão bem compreendia, não conseguirei transmitir a verdadeira dimensão. Inteligente, assertiva, compreensiva, meiga. 

O mundo devia ser perfeito e deixar que estivessem junto de nós aqueles que mais amamos. Não bastam palavras, não bastam as memórias e a doçura da saudade. Não. Para sermos verdadeiramente completos, devia ser possível que, sem molestar o equilíbrio restante, tivessemos fisicamente junto de nós aqueles que sabem olhar-nos com amor, aqueles a quem queremos olhar com amor, aqueles que nos percebem mesmo sem palavras, aqueles que sempre nos acompanhariam amorosamente, incondicionalmente. Mas é sabido: o mundo em que vivemos é imperfeito. 

Saved But Caged by Steve Winter, US

O olhar, tão humano, da minha cãzinha existe ainda na minha memória. E o último olhar que me dirigiu, tão humano, ainda hoje me entristece. Tão cobarde, eu. Tão humana, ela.

O nome dela, registado na caderneta era um, o nome que lhe chamávamos era outro e eu, nos meus arroubos de ternura, tratava-a por Nhu-Nhu. Podia também, por vezes, tratá-la por Nhunhucas. Mas, tratasse-a eu como tratasse, ela sabia sempre quando era com ela que eu falava. Quando existe tão genuíno afecto, as palavras pouco importam.
Não. Não é verdade. As palavras importam. Muito. São o elo de ligação, são a parte do nosso coração que entregamos aos outros.
Não sei se era porque tanto nos gostávamos, se era porque sim, porque não podia ser de outra forma, o que sei é que entre mim e ela sempre houve uma compreensão mútua muito humana. Ou muito animal -- não o sei dizer. Uma sobre-humana gentileza mútua. Não sei explicar. Faltam-me as palavras. Sobra-me a saudade e o amor.

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Apeteceu-me escrever isto ao ver o olhar dos três animais selvagens que aqui mostro, um olhar não 'humano' no sentido em que me referi ao falar do olhar doce da minha Nhunhucas, mas, ainda assim, humano.

São, tal como no post abaixo, algumas das fotografias escolhidas pelo Natural History Museum of London


Bold Eagle by Klaus Nigge, Germany


Lá em cima Ute Lemper interpreta Les feuilles mortes

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A cavalo numa cotonete


Com este título, poderia estar aqui a tentar ser engraçadinha. Ou poderia estar a dar-me para a metáfora. Ou podia estar a fazer marketing, inventando novas funções para a cotonete, esse controverso objecto. Mas não. Estou apenas a dar um nome à coisa. 

Seahorses hitch rides on the currents by grabbing floating objects such as seaweed with their delicate prehensile tails. Justin watched with delight as this tiny estuary seahorse ‘almost hopped’ from one bit of bouncing natural debris to the next, bobbing around near the surface on a reef near Sumbawa Island, Indonesia. But as the tide started to come in, the mood changed. The water contained more and more decidedly unnatural objects – mainly bits of plastic – and a film of sewage sludge covered the surface, all sluicing towards the shore.

Cavalo marinho montado numa cotonete 

Sewage Surfer By Justin Hofman, US

Uma das 13 melhores fotografias de vida selvagem -- Selecção do Natural History Museum of London