segunda-feira, abril 06, 2015

Pedro Santos Guerreiro em 'Os Imortais, os Imortais' empareda, ou melhor, encosta à parede Miguel Macedo, Luís Montenegro e Marques Mendes. (Os Imortais a que ele se referia eram obviamente outros: Herberto Helder e Manoel de Oliveira). E um PS sobre as presidenciais.


Diz Pedro Santos Guerreiro na sua crónica 'Os imortais, os Imorais' no Expresso deste sábado:





(...) Os casos são todos desta semana. Miguel Macedo, segundo o jornal 'i', foi investigado pelo Ministério Público, que encontrou indícios do crime de prevaricação no caso dos vistos gold. Prevaricação não é corrupção nem tráfico de influências, é agir de modo contrário ao interesse público (foi por este crime que Maria de Lurdes Rodrigues foi condenada). Macedo não é sequer arguido, no que parece ser uma nova política do Ministério Público de deixar os suspeitos à torreira do sol enquanto constrói o caso. Mas o acórdão fala de encontros, telefonemas, jantares, presentes que destroem a carapaça que Miguel Macedo construíu para si mesmo quando se demitiu do Governo. Uma demissão é um acto honrado, mas não de imunidade; é uma consequência política, não um saneamento da responsabilidade.



Prevaricação é ser amigo do seu amigo, dando uma mão, abrindo uma porta, fazendo um telefonema para a pessoa certa. São os 'facilitadores', nome detestável para um detestável modo de ser que se infiltrou na política como minhocas nas maçãs. Facilitam negócios, contactos ou cursos na Lusófona (Miguel Relvas foi um de 153 que o terão feito, segundo o Ministério da Educação). o escritório de advogados do deputado* Luís Montenegro, segundo a TVI, ganhou contratos de 70 mil euros por ajuste directo da Câmara de Espinho, de cuja Assembleia Municipal o próprio Luís Montenegro foi presidente. Outro escritório de advogados, o de Aguiar Branco, promove negócios nos países que o ministro visita.





Este é o mesmo país onde há funcionários do Fisco a aceder a dados de contribuintes de forma ilegal e descontrolada, alguns por curiosidade, outros porque talvez os queiram vender. Os vistos gold encheram cofres em Portugal, por venda de cidadania europeia, mas encheram também bolsos de intermediários.


Na semana passada, o Expresso entrevistou um empresário do Porto, Ricardo Costa, que ganhou um prémio da Christie's pelo desempenho na venda de imóveis de luxo, sobretudo a estrangeiros. Quando lhe perguntámos se o negócio vinha dos vistos gold, ele respondeu: 'Isso é um fenómeno de Lisboa, suportado pelos escritórios de advogados'. Ele lá sabe. Nós também. Qual foi o escritório que mais negócio fez nos vistos gold? O de Marques Mendes, um prodigioso 'fazedor de chuva'.

(...)


E eu, se fosse qualquer um dos visados, preparava-me já para o pior porque, como é sabido, alvo para que, com aquele seu ar de menino bem comportado, Pedro Santos Guerreiro aponte é, mais cedo ou mais tarde, alvo abatido. 


* Por lapso, no texto do Expresso está escrito 'do agora ministro' quando Luís Montenegro é deputado - coisa que o Mestre Plúvio (que regressou depois de uma longa e notada ausência) fez questão de não deixar passar em branco. E fez muito bem: nenhuma argolada ali passa despercebida (e o responsável não se escapa de uma valente palmatoada que, lá nisso, Mestre Plúvio tem a mão bem pesada).

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As imagens provêm do blogue We Have Kaos in the Garden

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PS: Sobre as presidenciais ainda não me apetece falar porque nada é certo, porque é cedo, porque a coisa está meia pantanosa. De todo os que se perfilam acho que o prof. Marcelo da TVI é um psico-tretas do qual nada de bom o país poderia esperar, seria uma intrigalhada permanente, do Henrique Neto só se fosse para me rir mas, a sério, vontade de me rir não me dá, do Sampaio da Nóvoa ou do Carvalho da Silva acho que há boas razões para estarmos favoravelmente expectantes mas um exclui o outro. E não sei se há mais. Não inclui aqui o Santana porque acho que, se ele se chegasse à frente, teríamos o país transformado numa gargalhada geral e isso também não me parece grande ideia.





Da reacção do Sérgio Sousa Pinto à eventual candidatura de Sampaio da Nóvoa também não gostei, parece-me coisa de fedelho birrento, e assusta-me pensar que o PS de hoje é isto.


Portanto, um dia destes pode ser que me apeteça dizer qualquer coisa sobre as presidenciais. Até lá a ver se me vão aparecendo melhores assuntos.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, abril 05, 2015

Renascer. A maravilha da natureza.








Estavam 30º e um sol de verão. As glicínias estão a rebentar com aquela energia própria deste tempo de ressurreição. Os cachos lilases já estão quase formados e eu, quando os vejo, sinto sempre aquela alegria enorme de quando se reencontra alguém que julgávamos perdido. Esgueiram-se pela azinheira, envolvem-se com o loendro, enroscam-se nos portões. O seu perfume é discreto mas, ao entardecer, nestes dias de calor, o ar fica mais doce, com aquela suavidade que vem dos seres requintadamente delicados.

À porta da casa, os lírios do campo também já apareceram. Apetece-me tocar-lhes, sentir a sua pele macia, quase transparente, uma transparência azul, irisada. Gostava de os poder tornar eternos mas depois penso que, se fossem eternos, talvez perdessem este seu lado etéreo, efémero, e talvez a sua graciosidade venha também disso, de a todo o momento sabermos que podem desaparecer.




Vendo-os de perto, percebemos que são de uma beleza quase insuportável. Fotografo-os rendida, como se não conseguisse compreender como é possível que da terra nasça um ser vivo tão incrivelmente perfeito.

Por todo o lado as flores despontam, azuis, amarelas, cor de rosa. Não sei o nome de muitas delas.




A minha mãe sabe, estas plantas são-lhe familiares, diz muitas vezes que a vegetação aqui é parecida com a da Arrábida. A ver se amanhã lhe pergunto qual o nome desta. Pensava que fosse sálvia mas fiz uma pesquisa e não me parece.

Aparecem por todo o lado, pés isolados junto ao tronco dos pinheiros ou em tufos no meio do tojo ou do alecrim ou, ainda, junto às figueiras.




E eu capto-as, como se fossem elegantes bailarinas, perfeitas, em frente de um cenário que se anula para as deixar brilhar.

Os pinheiros estão também numa euforia, lançam despudorados espigões dourados ao céu. Alegro-me, sei que isso corresponde à altura que vão ganhar, é de dar gosto ver como se desenvolvem de forma tão festiva.




Nestes dias de calor, o perfume dos pinheiros torna-se quase intenso mas é um intenso não agressivo, é suave, e, mais à frente, junto aos eucaliptos, o ar fica ainda mais perfumado, um cheiro tão bom a campo, a pureza, a bondade.

Quando aqui estou, tudo em mim é leveza, é disponibilidade para o encantamento. Maravilho-me com os caminhos cobertos de caruma, maravilho-me com as abelhas numa azáfama sobre o alecrim que é, por estes dias, uma manta florida, maravilho-me com o tom ocre das rochas, maravilho-me com o tomilho rasteiro e delicado, com o rosmaninho, com o ouro feérico das flores do tojo, maravilho-me com a luz dourada e com o desenho das sombras.

Peguei numa toalha turca macia e numa almofada e fui ler para um dos bancos de pedra que está sob o enorme pinheiro. Levei um livro. E senti-me imensamente feliz.




O chão está coberto de caruma, o muro tem desenhados os arabescos de sombra dos ramos do pinheiro, o calor aqui é suave, abrigado. Gosto tanto de aqui estar deitada, sentir o sol na minha pele. Dormir aqui é tão bom. Dormi. De facto, apenas li sobre a Biblioteca de Alexandria e Zenódoto, depois adormeci.

Sobre mim, lá bem alto, as ramagens do pinheiro. É como um tecto feito de céu e véus feitos de ramos de pinheiro. E pássaros. E como cantam...




Gosto de ali estar a ouvir os sons do campo: os pássaros, as abelhas, um cão que ladra ao longe, um sino que toca algures na serra ao fundo. Eu podia viver assim grande parte da minha vida, no campo, a ouvir os sons da natureza, a contemplar a beleza intocada.

Mas porque este domingo há outros afazeres, e vamos estar com os meus pais e a minha mãe vai poder estar outra vez divertida com as crianças, viemo-nos embora ao entardecer.

Na casa ao fundo da rua, os cavalos dourados passeavam devagar, felizes também.




São dóceis os cavalos, belos e dignos. Por vezes, à noite, ouço-os correndo na estrada e esse som arrepia-me, há qualquer coisa de misterioso no som de cavalos correndo na noite.

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Agora, ao escrever, lembrei-me da magnífica entrevista que Sebastião Salgado concedeu a Jorge Calado e que apareceu na revista E (do Expresso) da semana passada a propósito da exposição Génesis que vai abrir a 10 de Abril na Cordoaria Nacional em Lisboa - e que, como ali se diz, é uma 'declaração de amor à natureza'.


Transcrevo um pouco:

Somos uma espécie que não merece viver. Destruímos muitas outras espécies, estamos a estragar o planeta. A nossa espécie será aniquilada pelos próprios actos que provocou. Mas descobri que as outras espécies são tão importantes como a minha, que as formigas são tão ou mais importantes no planeta que o ser humano; as baleias e os gaviões também. Estou dentro de uma escala de espécies, pertenço ao grupo dos animais. Que a minha espécie desapareça, não provoca nenhuma mudança má no planeta; pelo contrário, o planeta será reconstruído de uma outra forma, provavelmente melhor. Os dinossauros – outra espécie dominante e agressiva – durante 150 milhões de anos e desapareceram. (…) o planeta é muito sábio e é capaz de se refazer. Eu não acredito em Deus, sou ateu. Mas acredito numa ordem geral das coisas. Acredito que a inteligência que se desenvolveu nestes biliões de anos de evolução é uma inteligência maior e que a evolução é uma coisa fabulosa. (…)

Ao concentrarmo-nos nos centros urbanos, ao vivermos nas cidades, já nos retirámos do planeta. Não conhecemos mais os pássaros ou as árvores, não sabemos distinguir uma ave macho de uma ave fêmea, ignoramos o ciclo da vida.


Gaivota sobre o Tejo, Lisboa logo ali

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Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas


[excerto de 'Estilo' de Herberto Helder e que faz parte do belo artigo de Ana Cristina Leonardo também da revista do Expresso da semana passada]


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As fotografias foram feitas este sábado - de tarde as do campo in heaven; de manhãzinha, a última no Ginjal.

A música é Veni Creator Spiritus - Hildegard von Bingen

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Permitam que vos diga que, descendo, encontrarão coelhões da páscoa, avozinhas maltratadas, religiões e humor à mistura.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.
E que seja o início de um período de ressurreição, de esperança, de vida nova.

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sábado, abril 04, 2015

O Coelho da Páscoa. E, a propósito de coelhos, a avozinha e o coelho. E, já agora, a favor da tolerância e da compreensão, uma outra forma de humor.


Depois da útil invenção vinícola que mostro no post abaixo, e uma vez mais enviado por um Leitor, cá está o que não pode faltar nestas alturas: um coelhinho da Páscoa. Mas, ó senhores, o que o leitor me enviou foi um coelhinho que não é coelhinho, muito menos comestível, é um coelhão intragável, mal educado, antipático, mau, fora de prazo, um láparo da pior espécie. Brrrrr.....



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Já agora, uma nova versão do lobo mau e da avozinha.



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Vinho à escolha directamente do computador


Para quem seja exigente na escolha dos vinhos e não se contente com qualquer coisa, aqui está a invenção que já tardava: com ligação directa à porta USB do computador, escolhe-se, abre-se a torneira e já está.

Hip hip... urra!





E obrigada ao Leitor que me deu a conhecer tão precioso engenho. 

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The cinnamon peeler


No post abaixo partilhei convosco a voz de um magnífico diseur de poesia, dizendo a magnífica poesia de um poeta magnífico sobre o ofício de escrever.

Aqui, agora, continuo com Tom O'Bedlam (que presumo que não seja o seu nome verdadeiro) mas, desta vez, dizendo uma poesia de Michael Ondaatje (autor, entre outros, de O Paciente Inglês). 




Esta voz dizendo poesia tem qualquer coisa de encantatório e eu ouço-a com um prazer imenso, como se a poesia dita ganhasse cheiro, sabor, como se as palavras tivessem pele e calor.






If I were a cinnamon peeler
I would ride your bed
And leave the yellow bark dust
On your pillow.

Your breasts and shoulders would reek
You could never walk through markets
without the profession of my fingers
floating over you. The blind would
stumble certain of whom they approached
though you might bathe
under rain gutters, monsoon.

Here on the upper thigh
at this smooth pasture
neighbour to you hair
or the crease
that cuts your back. This ankle.
You will be known among strangers
as the cinnamon peeler's wife.

I could hardly glance at you
before marriage
never touch you
--your keen nosed mother, your rough brothers.
I buried my hands
in saffron, disguised them
over smoking tar,
helped the honey gatherers...

When we swam once
I touched you in the water
and our bodies remained free,
you could hold me and be blind of smell.
you climbed the bank and said

this is how you touch other women
the grass cutter's wife, the lime burner's daughter.
And you searched your arms
Dorothy Gardner Award,
Ashlyn Fenton - Edmonton "The Cinnamon Peeler" 
for the missing perfume

and knew

what good is it
to be the lime burner's daughter
left with no trace
as if not spoken to in the act of love
as if wounded without the pleasure of a scar.

You touched
your belly to my hands
in the dry air and said
I am the cinnamon
Peeler's wife. Smell me. 




O abraço  -  Egon Schiele



Poderão ouvir a mesma poesia dita pelo autor e é uma maravilha também mas, ainda assim, prefiro a versão Tom O'Bedlam.

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Já agora, para quem não se lembre ou não tenha visto O Paciente Inglês, aqui fica um apontamento, e a sugestão de que (re)visitem este belíssimo filme.


The English Patient

"I promise, I'll come back for you. I promise, I'll never leave you."



Realização de Anthony Minghella

com: 
Ralph Fiennes, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Kristin Scott Thomas., etc

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Relembro: já a seguir há mais dois poemas ditos, maravilhosos, sobre a escrita e o ser-se escritor.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.


Escrever. Ser um escritor.


Nomes, mensagens, palavras escavadas na pedra
(fotografia feita esta sexta-feira)




Writing por Charles Bukowski (lido por Tom O'Bedlam)




often it is the only
thing
between you and
impossibility.
no drink,
no woman’s love,
no wealth
can
match it.
nothing can save
you
except
writing.
it keeps the walls
from
failing.
the hordes from
closing in.
it blasts the
darkness.
writing is the
ultimate
psychiatrist,
the kindliest
god of all the
gods.
writing stalks
death.
it knows no
quit.
and writing
laughs
at itself,
at pain.
it is the last
expectation,
the last
explanation.
that’s
what it
is.




So You Want to Be a Writer? de Charles Bukowski (lido por Tom O'Bedlam)



if it doesn’t come bursting out of you
in spite of everything,
don’t do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don’t do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don’t do it.
if you’re doing it for money or
fame,
don’t do it.
if you’re doing it because you want
women in your bed,
don’t do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don’t do it.
if it’s hard work just thinking about doing it,
don’t do it.
if you’re trying to write like somebody
else,
forget about it.


if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.

if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you’re not ready.

don’t be like so many writers,
don’t be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don’t be dull and boring and
pretentious, don’t be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don’t add to that.
don’t do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don’t do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don’t do it.

when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.

there is no other way.

and there never was.

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sexta-feira, abril 03, 2015

Os que partem. Os que ficam. Os que chegam. A vida, a morte, as memórias, os sonhos.


Está uma noite de verão. Da rua sobe até mim o calor, o cheiro a flores. E vejo o rio espelhado e escuro lá em baixo, as luzinhas brilhando em volta. Haverá pessoas passeando pelas margens mas da minha janela não as vejo. Lá em baixo, na entrada do prédio, está um casal de namorados que se abraça e beija. A vida corre morna, macia.






Chego a esta altura da minha vida, depois de tanto museu, livro ou música e, cada vez mais, o que mais me surpreende ou comove é a convivência entre o efeito do tempo nas coisas e a marca que, quem passa, vai deixando nas coisas e em nós.

Recuo no tempo em busca do silêncio, da harmonia graciosa, dos sons que parecem descer dos céus, das paredes gastas, de restos de objectos que, em tempos, alguém amorosamente escolheu, e detenho-me perante a beleza do acaso, do encontro inesperado, da magia da simbiose perfeita, do pequeno desenho deixado como uma oferenda, da elegância de um pequeno ser azul sobre uma superfície de ferro que o tempo esculpiu, de gestos que se cristalizaram, de palavras que ficaram.




A vida é diversa, entram e saem pessoas na nossa vida, e ficam memórias, afectos intemporais, e entram outras, com leveza, e logo se cravam na nossa mente ou invadem o nosso coração, e aquilo de que gostávamos abre espaço para quem chega. 

Nos últimos dias partiram um grande poeta, um grande realizador, um grande economista. Os jornais e televisões não conseguem ter sossego: retrospectivas, evocações, tributos. As redes sociais enchem-se com os rostos de quem parte. Ainda nos estávamos a refazer da partida de Herberto Helder e já Manoel de Oliveira partia também e agora eis que Silva Lopes também se foi.


Mas eu, que não gosto de me deter nas partidas e que detesto despedir-me, permito-me pensar não só na marca que deixam mas também naqueles que, entretanto, chegam. E chegam novos músicos, novos poetas, novos bailarinos, novos pensadores, e logo nos encantam e, de entre os novos, alguns se haverão de destacar, de deixar as suas marcas e encher também os nossos corações. E depois descobrimos também outros que pensávamos presos ao passado, longínquos como se os tivéssemos conhecido noutras encarnações e é como se tivessem nascido de novo. E com memórias, com descobertas e com os que vivem à nossa beira, vamos avançando na vida. Assim somos nós, como uma parede que se vai erodindo, ganhando novas texturas, e na qual se inscrevem os ecos do passado e onde, quem passa, os poetas, os pintores, os músicos, vão deixando os seus sonhos azuis e onde também se inscrevem os afectos todos, os abraços, os olhares, as palavras.

Até que um dia partiremos também. Efémera é a vida.




Não tenho medo de doenças e, para falar verdade, não penso na minha morte. Um dia deixarei de existir mas, enquanto cá estou, penso é em viver.
Quando um dia, como já aqui o contei, o carro que conduzia perdeu os travões e, sendo um carro todo dado às electrónicas, não tinha um travão de mão de que eu pudesse socorrer-me, avancei com o carro desgovernado por uma estrada que descia ingrememente em direcção a uma rotunda em volta da qual circulavam camiões. Naquela fracção de segundos, pensei que o melhor a fazer, para não me ir desfazer contra os camiões, seria galgar o passeio e entrar pela rotunda acima. E assim fiz. Mas, quando olhei, vi o carro desgovernado em direcção a uma enorme peça metálica, de chapa, no centro da rotunda. Naquele instante, pensei que a chapa iria entrar pelo vidro e decapitar-me. Pensei: se calhar estou a viver os últimos momentos da minha vida. E, por estranho que possa parecer, não tive medo. 
Entretanto, com o impacto, houve um estrondo, o carro ficou cheio de fumo, quase virado no ar, e eu fiquei sem ver nada. Percebi que o carro se tinha imobilizado. Sem perceber bem o que tinha acontecido, sem saber se estava ferida, experimentei abrir a porta do carro, abriu, com alguma dificuldade saí do carro, e pensei: olha, não morri.
Entretanto, começaram a aparecer pessoas que saíram dos outros carros a dizerem-me para fugir porque o carro podia explodir porque estava cheio de fumo. Não me afastei, acho que percebi que eram os airbags que tinham rebentado e tinham deitado toda aquela fumarada. Tive muita sorte, podia mesmo ter ido desta para melhor. Mas teria ido sem medo.



Efémera e bela é a vida. Breves e misteriosos os instantes. Eterno o tempo que nos traz vidas de antes e as mistura com as de hoje e de amanhã. Festivos os afectos. Doces as memórias. Ternos os sonhos.

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Esta mão que escreve a ardente melancolia da
idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra a
sua queimadura desde os recessos negros
onde
se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se. O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, a lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça : essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços, a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a carne. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce : eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

.....



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  • A música lá em cima é Ave generosa - Hildegard von Bingen - de Heavenly Revelations (Naxos); Maestro: Jeremy Summerly; Coro: Oxford Camerata
  • O poema é a carta da paixão de Herberto Helder in Photomaton & Vox
  • O bailado está a cargo de Hubbard Street Dance Chicago: One Thousand Pieces; coreografia de Alejandro Cerrudo; música de Philip Glass
  • As fotografias foram feitas no Ginjal
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira com muito amor à vida.

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quinta-feira, abril 02, 2015

A casa da sedutora Lauren Bacall


No post abaixo já falei da bandalheira que vai para os lados da AT e arredores. Parece que uma maltosa desclassificada se alapou por tudo o que é sítio, desgraçando o funcionamento de todos os serviços. Mas, para evitar sujar-me na licharada em que a vida política deste País se está a tornar, desviei-me e falei de uma senhora admirável: Helen Mirren, talentosa, elegante, divertida. Ela é outra vez a Rainha e, por onde passa, dá show - e foi isso que aconteceu quando foi ao The Tonight Show com o Jimmy Fallon..

Mais abaixo ainda, mostrei um vídeo divertido com uma campanha a favor do sexo seguro, contra a Sida.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


Mas vamos com a voz de Lauren Bacall: How little we know





Lauren Bacall ficará para sempre como a grande sedutora do cinema. A forma como olhava, aquele seu olhar líquido e transversal, a forma como os seus lábios se expressavam sem ter que pronunciar qualquer palavra, ou a forma provocante como, com poucas palavras, derrubava qualquer resistência, o tom de voz que parecia prometer secretos prazeres, a forma como o seu corpo se meneava de forma subtil mas irresistível, tudo permanecerá como a sua indelével imagem de marca.




Lauren Bacall (que nasceu Betty Joan Perske em 1924) morreu em Agosto de 2014.

O recheio da sua casa, onde se contam inúmeras obras de arte (incluindo oito esculturas de Henry Moore) e peças de decoração inesperadas e valiosas, mostra que Lauren Bacall foi uma mulher de bom gosto e uma coleccionadora. São algumas peças da sua casa e dos seus pertences que agora estão a ser leiloados.


Lauren Bacall with Sophie, her papillon, in her apartment at the Dakota, in New York City.
Photographed by Annie Leibovitz


A chamada Bacall Collection vale para cima de uma pipa de massa e terá começado a ser vendida há poucos dias, no final de Março.

de Robert Graham

Transcrevo:

Everyone knows Lauren Bacall the famous actress,” says Jon King, vice president and director of Bonhams in New York (and longtime friend to the actress, who passed away in August). “But they don’t know her as the serious collector.”
The charming display of fat, comfy sofas, warm-patina wood tables, African masks and figurines, John James Audubon pelican paintings, and cases and cases of knickknacks that spill through the galleries of Bonhams indicates that Bacall was indeed a serious collector. 
During the inventory process, King found a considerable paper trail testifying to her ability to hoard with style.
“I found receipts from all over London, all over Los Angeles, all over New York, Paris, Rome, Australia—wherever she went,” he says. “That’s the sign of a real collector. They just can’t stop looking.”
Bacall’s auction, which commences on Tuesday, March 31, at 10 A.M., is just the latest in a recent series of estate auctions of women of great taste.
But it wasn’t simply Bacall’s eye that made her vision so spectacular. It was her ability to assemble objects in a room that really seems to be romancing potential buyers. (The auction catalog, good enough to plop on your coffee table, is punctuated with fabulous photographs of her home.) King points to a large photograph of Bacall’s apartment, showing a walnut bombe commode, the legs of which curl like smoke from a cigarette taking direction from Howard Hawks.
“She was combining French 18th century with Burmese rain drums, with Henry Moore prints, with David Hockney, Victoria Staffordshire [in the lamp],” King says. “No rhyme or reason.”




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E não resisto a aqui partilhar um tributo a esta mulher que destilava sedução



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Relembro: para outra grande artista (e, até como forma de fugir aos mal-cheirosos do governo) e para uma eficaz campanha a favor do sexo seguro, é descerem, por favor, até aos dois posts já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira. 
Se possível, com muito amor.

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A base de dados dos contribuintes está escancarada? A Autoridade Tributária é a casa da mãe Joana, entra quem quer e faz o que quer? Pois. Mas eu prefiro falar da Dame Helen Mirren, de novo brilhante como Queen Elizabeth II em The Audience. E na paródia com Jimmy Fallon.


No post abaixo divulguei uma curiosa e sugestiva campanha publicitária alertando para os riscos do sexo inseguro. Tem graça, alguma malícia e é muito útil.

Agora, aqui, estava com vontade de falar da bandalheira que para ali vai pela Autoridade Tributária que, de resto, é a imagem de marca deste governo indigente. Parece que ninguém sabe o que se passa em lado nenhum, mais parece que não passam todos de uma cambada que se abancou sem fazer ideia de a quantas anda, os serviços aparentemente sem rei nem roque, uma vergonha (ou melhor, uma falta de vergonha). Funcionários da Novabase, da Accenture, tarefeiros, estagiários, todo o mundo e mais alguém com via verde para acesso franco aos dados dos contribuintes. E ninguém consegue perceber se tudo se passa à revelia do Secretário de Estado, da Ministra e do Primeiro-Ministro ou se é tudo também uma cambada de mentirosos. 


Mas já nada disto me interessa, é tudo já demasiado pífio, um clima de fim de festa sem honra.

O desemprego está a aumentar e o Láparo diz que isso não o embaraça. Só tontices em que uma pessoa não sabe se são as palavras que ele usa que são mal escolhidas ou se é mesmo aquilo que ele quer dizer. 


E depois também a bandalheira do que se passou nas eleições da Madeira: parece que nada funciona e que ninguém é responsável, nem sequer consegue explicar o que se passa.


Por isso, vou dizer o quê? Pôr-me a remexer nesta bagunça? Não me apetece. Não gosto de mexer no lixo. 

Portanto, se não se importam, dou antes o palco a uma mulher de muito talento, Dame Helen Mirren.




No âmbito da promoção de The Audience na Broadway foi ao programa de Jimmy Fallon, The Tonight Show. E foi um show. O sentido de humor, a malandrice desempoeirada, o sotaque so posh (acentuado pelo hélio que aspirou), a capacidade de improviso são uma delícia, chegando a simular um discurso de aceitação do Oscar. 




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Já agora:


Helen Mirren em The Audience


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A campanha do pirilau graffitado é já aqui abaixo.

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Uma campanha em forma de graffiti a favor da protecção contra a SIDA. Protejam-se.


Não sei se no seguimento dos pénis de aviário, Leitor a quem agradeço enviou-me um vídeo pedindo-me desculpa se eu achasse forte mas que lhe parecia importante em termos de mensagem. Estou de acordo. No outro dia li que um número impressionante de jovens desconhece os riscos de contágio e nem pensa sequer em usar preservativo. É, pois, de Sida que se fala.




Portanto, é com todo o gosto que aqui divulgo este vídeo que é criativo e bastante sugestivo, o tipo de mensagem que chega aos jovens..




Campanha  da TBWA France

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quarta-feira, abril 01, 2015

Pénis de aviário - um negócio promissor (digo eu)


No post abaixo falei de decoração, da minha casa, de preparar a casa para receber a primavera, mostrei fotografias que podem dar boas ideias, etc. Mas, enfim, isso é a seguir.

Aqui, agora, dado ser o dia que é, deveria ser capaz de dizer uma mentira. Mas não me ocorre nenhuma pelo que vou antes falar de uma notícia verdadeira que achei muito interessante. Não é de hoje mas achei que dada a natureza da coisa não deveria deixá-la passar em branco.





Há pénis a serem criados em laboratórios



Algures em 2008, Anthony Atala e a sua equipa encontravam-se num dos muitos gabinetes do Wake Forest Institute for Regenerative Medicine em Carolina do Norte, nos Estados Unidos. 

O motivo? Comprovar que um coelho macho conseguia, com sucesso, acasalar com um coelho fêmea. Quando Anthony Atala percebeu que o coelho macho conseguiu cumprir com a sua tarefa, ficou feliz. 

Não por um qualquer fetiche, mas porque tinha acabado de provar que o conceito no qual estava a trabalhar desde 1992, o de que se podem desenvolver pénis em laboratórios para posteriormente serem utilizados em transplantes, era teoricamente possível. Aquele coelho foi um dos 12 para quem Anthony criou um pénis, através de bioengenharia. Todos os coelhos tentaram acasalar: oito conseguiram ejacular, quatro engravidaram a parceira.

(...)

Parece que por enquanto ainda só se conseguem tamanhos pequeninos, coisa para coelhos ou ratos. Mas já estão a experimentar para  humanos e, portanto, é porque têm esperança de conseguir que os ditos cresçam para tamanhos um pouco maiores.

(...) Anthony explica que, como é frequente nestes casos, a ampliação é um processo complicado. “Mesmo que possamos criar pénis para pequenos mamíferos, temos de ajustar a tecnologia, os processos, a proporção de células e assim por diante, para obter estruturas cada vez maiores. É basicamente isso que temos vindo a fazer desde a experiência com os coelhos.

A coisa tem a sua complexidade mas parece estar a correr muito bem.

Não vou aqui descrever o processo pois pode impressionar os mais sensíveis mas fiquei especialmente bem impressionada com o rigor que estão a pôr na coisa:

(...) já se fizeram progressos extraordinários. Anthony conseguiu criar meia dúzia de pénis humanos, ainda que não se encontrem preparados para serem transplantados. Anthony e a sua equipa estão a testar as estruturas para garantir segurança e efetividade. Existe uma máquina que esmaga, estica e torce os órgãos para se certificar que podem enfrentar o desgaste do dia-a-dia. Outra máquina que bomba fluidos para testar a capacidade de conseguir uma ereção.

Ou seja, quando estiverem prontos para o uso a que se destinam estão prontos para todas as vicissitudes: serem esmagados, esticados e torcidos, coisa para que, no dia a dia, obviamente, qualquer pénis deve estar preparado.


Não encontrei nenhuma fotografia dos bichinhos
 tal como se encontram no laboratório
pelo que optei por uma visão mais futurista:
como serão no futuro, às cores e de todos os tamanhos e feitios.


Claro que isto destinar-se-á, pelo menos na fase inicial, a casos graves de doença ou acidente mas já há quem esteja a esfregar as mãos de contente antevendo aqui um promissor nicho de mercado. 

Por enquanto são mais as mulheres que se insuflam, esticam, desbastam, enxertam, etc, tudo para ficarem nas dimensões e nas configurações que acham perfeitas. Contudo, é sabido que a cirurgia estética e os tratamentos de beleza estão a crescer estupidamente junto do público masculino. 

Portanto, é de antever que, no futuro, quando os homens não estiverem satisfeitos com essa parte da sua anatomia, lhes baste ir ao viveiro e escolher, de entre os que tiverem a medida ou feitio pretendidos, qual o que gostam mais ou qual é que está com melhor preço. Provavelmente algum funcionário deitará a mão, como se estivesse a pescar um lagostim num aquário, pesará e colocará num recipiente devidamente bem acondicionado para o cavalheiro levar ao cirurgião da esquina.

Boas notícias, portanto. 

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E por agora, fico-me por aqui não sem antes relembrar que, para assuntos mais imediatos, tais como decoração de casas, é só descer um pouco mais.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira. E nada de dizerem mentiras, ok?

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Pôr a casa pronta para a primavera, decorar com leveza e alegria. E mesas de café que não chateiam muito.







Como muito bem sabem as pessoas que por aqui passam de visita, faço parte da minoria privilegiada deste país. Não o digo com vaidade mas quase como uma justificação para falar no que vou falar quando sei que há tantas pessoas com dificuldade em manter a sua única casa. Mas tenho tido sorte e por isso me sinto agradecida, não sentindo que tenha que me envergonhar ou esconder a minha situação. 




Ou seja, tenho duas casas, uma na cidade e outra no campo. Claro que também não é nada de estonteante já que há quem tenha também casa de praia, um flat no Rio, um ninho em Paris, um iate não sei onde e talvez até um hotel inteiro noutro sítio qualquer. Enfim, tudo uma questão de escala. Adiante.

Vem isto a propósito de eu gostar de decoração e de ter por onde praticar. 




Não gosto de mobílias escuras, uniformes, pesadas, não gosto de ambientes convencionais. Se algum móvel é mais tradicional, logo o conjugo com outras coisas mais leves. Gosto de cores alegres, de peças variadas, de sítios onde nos possamos sentar no chão ou de ter banquinhos para que uma pessoa pegue neles e se sente onde quer. E gosto de almofadas e de as mudar de sítio. Quando se mudam as almofadas de sítio, é a cor delas que muda de sítio e a decoração já parece renovada.




A mesma coisa com as cobertas, os panos que se põem em cima dos sofás (quando se põem, claro) ou as colchas da cama. É fácil a casa parecer ter um ar rejuvenescido, fazendo pouco. Uma peça colorida, uma nova disposição das coisas, um bibelot inesperado, alegre, um espelho com uma pequena jarra com flores à frente, tudo ajuda. Enquanto escrevo, tenho suspensas no tecto, mesmo sobre mim, uma bailarina, uma fadinha e uma outra menina extravagante e só isso, acho eu, já dá um toque pessoal e divertido à sala. 




Vem isto a propósito do artigo da Harpar’s Bazaar dedicado ao rejuvenescimento primaveril das casas através de poucas mudanças e do qual fazem parte as fotografias que usei para ilustrar este post.



Em qualquer das duas casas tenho duas salas: a que é usada usualmente, onde está a televisão, os livros, o sítio para escrever, e outra que é usada quando se trata de convívio entre um grupo mais alargado de pessoas e que está perto da zona das refeições. 

Em qualquer dos espaços a lógica é sempre a mesma: sofás ou cadeirões em volta, mesas de apoio ao lado dos sofás, e nenhuma mesa a meio. 




Acho que uma mesa ao meio estorva, temos que andar em volta, acanha o espaço. Apenas na casa in heaven, na sala da lareira, pela própria configuração da sala e porque quero que tudo fique mais aconchegado em volta do calor, tenho uma mesa baixa de madeira e tampo de vidro que comprei uma vez num antiquário. Em cima tinha umas peças bonitas que, depois de uma ter sido partida por um dos pimentinhas, já desandaram quase todas para a madeira de cima da lareira (acho que aquela madeira que serve de prateleira deve ter um nome mas agora não me lembro). Quando tinha um sofá em frente da lareira, a mesa, sem nada em cima, passou a servir essencialmente para quando lá estávamos,  o meu marido pôr os pés em cima.




Depois reformulámos a decoração e agora há uma banqueta larga forrada a tapeçaria em frente, e um par de bergères de cada lado.

Mas, de facto, nas casas onde vou, a maioria talvez tenha sempre uma mesa baixa em frente ao sofá principal da sala. 




Vem isto a propósito de outro artigo da Harper’s Bazaar sobre mesas de café e que, por achar algumas soluções interessantes, aqui coloco algumas fotografias pois podem dar boas ideias a quem esteja com vontade de dar um novo ar à sua casa.


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Quem canta é Maria Bethânia & Omara Portuondo  interpretando Só vendo que beleza (Marambaia)

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E, já que de coisas da cas, aqui se fala, sigam, por favor, até à última invenção em termos de copo de vinho

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Até que enfim, inventaram um copo de vinho como deve ser...!


À vossa!


E à do Leitor que me enviou este copo com tão fantástico design!

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