sábado, março 07, 2015

Presidenciais 2016: Em busca do candidato perfeito


Transcrevo o que recebi por mail lamentando não conhecer o autor. Se alguém me souber informar, aqui o referirei. Posso não concordar com uma ou outra observação mas, em nome da isenção e a favor do serviço público de bem informar, aqui me faço eco desta lista comparativa de potenciais candidatos a próximo presidente da República.

A formatação está estranha e, ao copiar, arrastei o fundo branco do mail. As minhas desculpas, pois, pelo look mas, enfim, dá para perceber que é um copy paste e não de minha lavra.


Marcelo Rebelo de Sousa
Description: marcelo-rebelo-de-sousa13546e80_400x225
A favor: Popular e erudito. Audiências televisivas garantidas.
Contra: Oitocentas leituras recomendadas por semana. Exames obrigatórios. Ter Judite de Sousa como chefe da casa civil.

António Guterres
Description: 465887-guterres
A favor: Amigo da Angelina Jolie. Aqueles lábios prometem beijos inesquecíveis (os dele, não os da Angelina).
Contra: Desistir rapidamente quando as coisas se complicam. Facilmente nos trocaria por meia dúzia de sudaneses famintos.

Santana Lopes
Description: santana_lopes_pagina
A favor: É a alegria de qualquer festa.
Contra: Ser o Santana Lopes.


António Vitorino
Description: Antonio_Vitorino_de_l_association_Notre_Europe_-_Institut_Jacques_Delors
A favor: Arruma-se facilmente em qualquer sítio.
Contra: Apreciar tanto o som da própria voz que correríamos o risco de ter comunicações presidenciais diárias de oito horas à boa maneira latino-americana.

Rui Rio
Description: rui_rio


A favor: Alguém que parece não se importar de ser odiado. Terá de ser muito competente para compensar. (Ou não.)
Contra: Instituição de regime presidencialista. Transformar o país inteiro num circuito para corridas de carros antigos. Transferir a capital para o Porto e rebaixar todas as outras cidades do país à categoria de aldeia. Criação da Região Autónoma do Norte (com fronteira meridional em Portalegre).

Marinho e Pinto
Description: Entrevista de João Marcelino para o Gente que Conta com o Bastonário da Ordem dos Advogados Marinho Pinto
A favor: Ser uma pessoa que diz o que o povo gosta de ouvir.
Contra: Tudo.

Maria de Belém Roseira
Description: 550
A favor: Poderia ser a primeira mulher a ocupar o cargo. 
Contra: Ser possível perdê-la durante ações de rua na campanha eleitoral.

Alberto João Jardim
Description: f8d940848218c8f02ee7af5799c2283515eb57ea
A favor: NÃO!
Contra: NÃONÃONÃONÃONÃONÃO! Por favor…

Mário Soares
Description: mario-soares
A favor: Na sua cabeça, ainda é presidente.
Contra: Faria a campanha toda contra Álvaro Cunhal.


Carvalho da Silva
Description: carvalhosilva-cgtp-04031169632461_400x225
A favor: Possibilidade apelativa de ter um presidente de pulôver e a primeira greve presidencial da história.
Contra: O nome demasiado parecido com Cavaco Silva traria problemas com o voto míope.


Sampaio da Nóvoa
Description: 821930




A favor: Quem?
Contra: A sério. Quem?


Fernando Mendes
Description: Fernando_Mendes_Preco_Certo


A favor: Não se queixaria de não conseguir viver com reforma elevada por conhecer o preço certo de inúmeros bens de consumo.
Contra: Proximidade entre a residência oficial e os Pastéis de Belém.

Bruno de Carvalho
Description: bruno_de_carvalho_4_77313a03_400x225




A favor: Esforço, dedicação, devoção e glória. O estandarte presidencial é a bandeira portuguesa sem o vermelho.
Contra: Comunicados seis vezes por dia no facebook. Cortes de relações e blackouts semanais.

Iannis Varoufakis
Description: Newly appointed Greek Finance Minister Varoufakis attends a hand over ceremony in Athens




A favor: Imagem descontraída. Querer bater o pé a quem manda.
Contra: Ser grego.

Maomé
Description: load-error


A favor: Bons contactos em esferas de decisão superiores.
Contra: Retrato presidencial problemático.

Cavaco Silva
Description: cavaco
A favor: O facto de estar constitucionalmente impedido de se candidatar.
Contra: Os dez anos anteriores.


sexta-feira, março 06, 2015

A Madre Superiora estava a finar-se. Os advogados usam todos preservativo. Depende. Fliz anvers.


Hoje fico-me por palavras alheias. No post abaixo tenho um suculento naco de prosa, a história da Menina Otília que foi às Finanças, que me foi enviada pelo estimado e inspirado Leitor P. Rufino. Não é história inocente, digo eu - mas isso é porque, provavelmente, tenho uma imaginação muito fértil. Condimentei-a com umas imagens à maneira que já foram devidamente aprovadas pelo autor.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, continuo a dar a palavra aos Leitores. Daqui a nada tenho que estar a pé e, quando o sol nascer, já eu estarei a caminho. Por isso, tenho mesmo que encurtar razões.

E, para começar tenho que me desculpar por uma dupla heresia. Vou colocar aqui, no meio, canto gregoriano. Ora eu gosto, mas gosto muito, de canto gregoriano. Mas, como a primeira história mete freiras e como estou com pressa, não tenho tempo para puxar pela cabeça e lembrar-me de coisa mais apropriada e, portanto, vai mesmo.






A Madre Superiora de uma congregação irlandesa, com os seus 98 anos, estava no seu leito de morte.

As monjinhas rodeavam-na, tentando tornar cómoda a sua última viagem.

Deram-lhe leite quentinho. Bebeu um gole e não quis mais.

Uma monjinha levou à cozinha o copo de leite. Nesse momento, recordou que havia na despensa uma garrafa de whisky irlandês que lhes tinham dado para o Natal, e pôs uma boa dose no leite.

Voltou ao leito da superiora e aproximou o copo da sua boca.

A superiora bebeu um golinho, depois outro e antes de que se dessem conta, bebeu até a última gota.

As monjinhas disseram-lhe, então: "Madre, dê-nos uma última palavra de sabedoria antes de morrer"

Com um último esforço, levantou-se um pouco e disse-lhes: "Não vendam essa vaca".

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Manuel estava na aula quando a professora pergunta:

- Manuel, quantos são dois e dois?

- Depende professora, se os números estão na horizontal são 22, se estão na vertical são 4.

- Muito giro, você parece que é mesmo do contra! Diga lá agora: quem descobriu o Brasil?

- Depende, se se refere a 1500 foi Pedro Álvares Cabral, se refere antes de 1500, foi o Índio que já lá estava.

- Ah!... Você se julga muito inteligente, não é Manuel? Você se acha um superdotado, certo? Agora diga-me, quantos são os mandamentos da Lei de Deus? Os mandamentos são?

- Bem... depende professora!

- Como é que é depende...?

- Depende porque se são para homens são dez, mas se são para mulheres são nove, porque as mulheres não podem desejar a mulher do próximo!

- Depende.., sussurra a professora.
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A minha filha completou quinze anos e organizámos a festa num salão para que convidasse todos os seus amigos.

Nessa noite, à medida que iam chegando, se acomodavam no lugar designado e em seguida abriam os seus smartphones e começavam a conversar por meio de mensagens de texto

Era muito comovente vê-los concentrados, cada um no ecrã dos seus sóbrios e negros telemóveis.

Que grandes estão todos! E pensar que os conheço desde que falavam entre eles... Todavia me recordo da voz deles, alguns não acreditam que quando eram crianças falavam e se olhavam nos olhos. Eu não os corrigia, claro; “vão crescer e vão aprender sozinhos a não falar”, pensava.

Quando chegou o momento do baile, cada um conectou os auriculares ao seu celular, escolheu a lista de músicas que mais gostava e entrou na pista de dança. Dava a sensação de que todos estavam bailando ao som da mesma música.

A entrada de minha filha foi apoteótica, exultante de emoção. Os seus amigos desesperavam por serem os primeiros em fazer-lhe chegar o seu texto de felicitações, movendo a toda velocidade seus dedos.

Alguns, os mais precavidos, já tinham a mensagem preparada e o único que deviam fazer era carregar no “ok”.

O telefone da minha filha não parava de vibrar e como era impossível lê-los todos, guardou alguns para mais tarde.

Aproximei-me dela e, sem me dar conta, disse-lhe: "Feliz aniversário, filhinha".

Ela olhou-me horrorizada e afastou-se de mim. Preocupado, fui atrás dela e perguntei -lhe se havia algum problema, se eu tinha feito algo que a incomodasse. Agarrou no telemóvel  e enviou-me uma mensagem de texto:

- Qres m envrgonr frnte ms amgs? Fzme o fvor, pra q exst os tlfnes?

Não tive outro remédio senão abrir o meu telemóvel e mandar-lhe as minhas felicitações.

- Prdao. Fliz anvers, filnha. T am. Papa.

Foi um aniversário perfeito!

Como passa o tempo e que "velho" estou. Pensar que quase lhe dei um beijo!

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A música é Inviolata integra et casta es Maria por Chant Group Psallentes

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E não deixem de saber a fantástica história da menina Otília. Digo-vos que é das boas (a história, claro).

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.

A menina Otília foi às Finanças







A menina Otília foi às Finanças. Queria um esclarecimento e foi lá informar-se. Não deixando nada ao acaso, produziu-se toda: minissaia justa, decote fundo, meia preta, maquilhou-se cuidadosamente e pintou as unhas de vermelho. E, do alto dos seus maravilhosos 29 anos, bem vividos, lá entrou, triunfante. Tirou a senha e sentou-se, enquanto desfrutava do olhar baboso de uns tantos cotas e menos cotas a olhar para ela, como que a quererem dizer-lhe, “comia-te toda”. 

Quando o seu número surgiu no ecrã, levantou-se e apresentou-se ao manga-de-alpaca da Autoridade Aduaneira (“que raio de nome”, pensou). O “manga”, com um fio de baba a escorrer-lhe pelo canto da boca, com voz trémula de desejo, perguntou-lhe: “então menina, o que temos, enfim, em que lhe posso ser útil?” Otília explicou-se: “Era puta, profissão que exercia desde que começara a crise, visto ter ficado desempregada. Ou seja, há já cerca de 5 anos. Por vezes, recebia a sua clientela em casa, outras ir ao encontro da clientela. E como não era esquisita, muito pelo contrário, tanto satisfazia homens, como mulheres, novos ou jovens. O importante era realizar dinheiro.

Ser puta era um bom investimento, razoavelmente duradouro, mais do que um atleta de alta competição, ou futebolista, por exemplo. Tinha despesas, é certo, porque isto de se ser puta implicava cuidados com a sua forma física nos fitness-centers, bem como na compra de vestuário adequado às circunstâncias. Ao contrário do que muita gente imagina, é uma profissão algo cansativa. Por exemplo, ter de aturar gente, muita das vezes, com gostos e desejos bizarros, etc. 

Mas, agora o que seriamente a preocupava era o seguinte, daí ter vindo aconselhar-se às Finanças: desde que iniciara aquela sua actividade liberal, nunca tinha emitido uma factura, nunca descontara para o IRS, nem tão pouco para a Segurança Social. Ora, depois de ver a perseguição de tinha sido alvo, recentemente, um dos seus mais ilustres clientes, por essa imprensa sem vergonha, ficou apreensiva”. 

Aqui, o “mangas”, já com a camisa húmida de baba, interrompeu-a, muito atencioso: “mas, apreensiva porquê, menina?” 

Otília lá esclareceu: “É que, fui convidada para exercer uma função governamental e tenho medo de que venham a descobrir que, não estando inscrita no Fundo de Desemprego desde que fiquei sem trabalho, o que seria normal, não tendo declarado rendimentos, como poderei justificar o pagamento da renda de casa, da água, gaz e electricidade, como me sustento, como me transporto e de onde me vem a choruda conta bancária que já possuo, embora conseguida com muito esforço, dedicação e entrega? Não queria ter rabos-de-palha, já basta o meu, tão cobiçado pela clientela masculina!”

O Sr. Honorato, o manga-de-alpaca, com um largo e babado sorriso solícito, sossegou-a: “Oh menina, não se preocupe com isso. A menina não faça nada. Vá por mim, salvo seja. Como não tinha que passar facturas, nem estava a recibos verdes, não tem que descontar nada. A menina é uma decentíssima puta e ninguém tem nada com isso. Nunca roubou ninguém, muito menos o Estado, já que essa sua versátil profissão não consta da lista das actividades profissionais reconhecidas oficialmente. Assim sendo, não está obrigada perante a lei e o fisco, quer a descontar para o IRS, quer para a Segurança Social. Se conseguiu viver e sustentar-se razoavelmente bem, furando a crise, até aos dias de hoje, a si lhe diz respeito e a mais ninguém. Olhe, sabe a menina, pode ter essa profissão de puta, como diz, mas puta de profissão é a minha, que não tenho dinheiro para ir às putas, sofro cortes no meu salário, desconto cada vez mais, tenho menos férias, vou ter uma reforma de merda e ainda me obrigam a trabalhar mais horas! Vá com Deus e a Nossa Senhora, aceite o lugarzinho político que lhe vão oferecer, aproveite-o para futuros contactos e influências, que a vida é curta. Tenha uma boa tarde!” 

Otília, de tão contente, até deu um beijo na calva testa do Honorato manga-de-alpaca e, baixinho, ainda lhe disse, ao ouvido: “a si faço-lhe um precinho especial, de amiga!” 

Uns dias depois tomava posse.

E alguns meses após, era capa do CM: “na cama com Otília!” E lá vinham os nomes de vários dos seus clientes. Quase tudo gente fina, banca, empresas, políticos, advogados, um mundo profissional “imaculado”. Como aquilo tinha surgido não sabia.

Mas, aquilo que mais receara não fez parte do tablóides, ou seja, se tinha feito descontos para a Segurança Social, se tinha pago o IRS, nada. Feito o desmentido oficial, Otília por lá continuou. 


Quando o governo cessou funções, era célebre e tinha uma carteira de clientes, do melhor, até ao ano 3 mil! Era puta, mas puta de vida é que ela não tinha. Bem pelo contrário!


Autor: P. Rufino


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Transcrevi a suculenta história que o Leitor P. Rufino me enviou por mail. As imagens, a música (Roberta Sá interpretando A Vizinha do Lado) e o destaque são de minha responsabilidade.

Se a menina Otília é arraçada de láparo ou tem qualquer coisa a ver com as 50 sombras fiscais e contributivas de Passos Coelho isso não sei.


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quinta-feira, março 05, 2015

Love me like a river does


Há coisas que cansam, que desgastam, que causam asco. Parece uma peçonha que se cola a nós. Isto do Passos Coelho tal como a desfaçatez da Albuquerque e a incompetência de todos, e a alforrequice dos que os apoiam, tudo isso me enjoa, mas enjoa mesmo, quase enoja. Temos que os convencer que já chega, que têm que sair de cena. Urgentemente. A bem da higiene pública.

Mas isso é a seguir. Aqui, a conversa é outra.

Hoje vou ter que abreviar a minha veia porque sinto que preciso de dormir mais.



Love me like the earth itself





Temo o fogo que me incendeia. Sei que, quando a fúria ou a paixão se apoderam de mim, pouco mais sou do que um instrumento nas suas mãos.

Leio: Primeiro, o viandante pensa que o mais importante é enfrentar o tigre, caçá-lo e assim domar a natureza. Depois, convence-se de que o tigre não está fora mas dentro de si, que é aí, na natureza íntima, que é preciso matá-lo. Por fim, descobre que a única coisa a fazer é cavalgar o tigre, dançar com aquilo que o envolve e esquecer a caça, pois o tigre e o caçador são um e o mesmo.

Tigre e caçadora, talvez pudesse ser uma boa imagem de mim, mas isso seria eu a ficcionar-me. Uma vez um poeta descreveu-me como Artemis, chamou-me Artemis. Mas isso era porque também ele me ficcionava e, por causa disso, afastei-me dele. Só gosto de quem não me idealiza e adora, de quem me vê como uma mulher, uma pecadora.

Mas talvez por ser toda eu fogo e destempero, precise tanto de quem me traga moderação, paz, reflexão, de quem deslize na vida como um rio, mesmo que, por vezes, ganhe sal, força e nervo como um oceano embravecido.

Quando ando a caminhar rente ao rio, digo muitas vezes que vou abrir as asas e deixar-me levar, voar. Outras vezes, digo que vou descer as escadas da muralha e entrar nas águas e, no fundo, continuar a descer, a nadar em direcção ao centro da terra, o corpo enleado na frescura das algas, nos limos, nas rochas.

Mas isso sou eu a falar coisas sem explicação enquanto caminho junto ao rio pensando que queria que o rio me amasse como eu o amo a ele.

Love me like a river does
Cross the sea
Love me like a river does
Endlessly

Mas como pode um rio amar uma mulher?

Então, percebendo isso, imagino-me a caminhar em direcção ao campo, a recolher-me ao ventre da terra. Gosto de passear no campo, atravessar aldeias, olhar as serras, o céu. 




Sabes que os montes ficam dourados quando o sol desce sobre eles, mergulhando na terra ao fim do dia? Sabes como os rostos ficam também dourados e suaves quando banhados pelo afecto mais puro que é aquele que não tem nome?

Queres, um dia, caminhar comigo pelos montes, tu com um braço sobre os meus ombros, eu com um braço a envolver-te a cintura? Sentarmo-nos na terra coberta de verde, olharmos o horizonte que se desdobra em vales e montes, e cada vez mais azuis à medida que se vão perdendo para longe de nós?

Queres um dia, caminhar comigo ao longo de um arvoredo dourado? Quererás então contar-me contos que vêm do início dos tempos, falar-me de cavalos que atravessam a noite, de cavaleiros corajosos, de tigres azuis que não são tigres mas apenas sonhos? Quererás surpreender-me e dizer, fecha os olhos, sente apenas? 
E eu fecharia os meus olhos e sentiria os teus lábios quentes sobre os meus e tu dirias que os não abrisse e depois eu sentiria uma seda macia sobre os meus lábios e tu dirias que eu já podia abri-los e eu retiraria a seda e não seria, afinal uma seda, seria uma rosa azul, carregada de noite, e tu sorririas porque me provarias que sabes mistérios e adivinhas os meus sonhos. E eu sorriria tal como sorrio agora, porque afinal não existes, és um sonho que saíu do meu corpo, uma parte de mim, talvez o meu coração, talvez as minhas mãos que escrevem palavras assim.



Mas tu dir-me-ias que existes, dirias, põe a mão sobre o meu peito, sente como o meu coração bate. E, em vez de fazer o que me pedias, eu encostaria o ouvido ao teu peito e ouviria um bater de asas, a batida do oceano, o murmúrio de um tigre azul. E dir-te-ia, ninguém é assim, tu não és gente de verdade, tu és um sopro, uma mão cheia de palavras, um castelo longínquo, um anjo que atravessa a noite. Tu não és aquele que caminha ao meu lado, tu és o caminho, tu és as palavras que eu digo, tu és aquele que adivinha o que eu penso, tu és a noite que cai, tu és o adeus em cada dia.

E a noite cairia. E procuraríamos abrigo. E encontraríamos um refúgio à nossa medida. E ali estaríamos protegidos dos ventos, do frio, do medo.

Durante parte da noite, eu pedir-te-ia que me falasses de ti, que me dissesses de livros, que me contasses desejos, sonhos, viagens, longes, e eu falar-te-ia de mistérios, de coisas que acontecem sem explicação, de palavras que digo enquanto os outros as pensam e tu pensarias que eu sou mesmo uma mulher da floresta, daquelas que vivem no meio das árvores e dos bichos. e eu adivinharia que era isso que estavas a pensar.




E depois adormeceríamos abraçados mas não nos sentíriamos amantes abraçados contra a morte porque a nós é a vida que nos corre nas veias, a vida cheia de desconhecimento, a vida toda feita de segredos e mistérios.

E, de manhã, quando eu acordasse, tu não estarias lá porque, como sempre, te vais embora sem me dizer nada, nem adeus, sais, desapareces, esfumas-te na noite.

E eu levantar-me-ia e olharia o dia a amanhecer. E veria, como vejo todas as manhãs, que a floresta cheia de magia e palavras tinha desaparecido, que à minha frente teria um dia inóspito e que falar de beleza perante ramos mortos é pura rendição, que a aridez estava nua como nu o meu coração, e que uma neblina triste chorava sobre o meu corpo ainda quente dos teus abraços.




Caminharia, pois, sozinha, em direcção à cidade. Mas, sobre mim, e ao meu lado, voariam palavras, sonhos, segredos, sorrisos, rosas cor de noite. E, ao longo de todo o dia, eu esperaria que a tarde viesse para eu voltar a caminhar contigo pelos montes dourados, em direcção ao sol posto, em direcção à noite, sabendo que talvez aparecesses para me levar pelo braço até onde somos só nós dois, seres inventados, sem corpo, sem rosto, sem nome, sem futuro. Intangíveis e imateriais como mistérios azuis.

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Melody Gardot interpreta Love me like a river does.

As primeiras fotografias são de Alex Robciuc. As duas últimas são de Ellie Davies. Descobri-as todas no Bored Panda.
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Caso estejam outra vez numa de banho turco, é descerem até ao post seguinte: é a minha maneira de mostrar que acho que devemos correr com o láparo.

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E, sem rever e perdida de sono (e, pior, com a sensação de que os tempos verbais são muito bem capazes de não estarem consonantes), despeço-me.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.


Passos Coelho demita-se, se faz favor. Está a ver-se que pagar a contribuição para a segurança social e os impostos devidos e a tempo e horas não é coisa que lhe assista. Entretanto, o Fisco penhorou** os bens alimentares à Associação de apoio social "Coração do Porto". Perante isto, Passos Coelho, com a sua prática de cidadão relapso, consegue olhar-se ao espelho? Consegue andar de cabeça erguida? Consegue encarar os deputados? Consegue encarar os seus pares na UE? Não tem um pingo de vergonha? E eu pergunto: está encontrado o Bibi da política tuga?


Tudo o que se vai sabendo sobre a vida de cidadão de Passos Coelho leva a que qualquer cidadão honesto, cumpridor, respeitador, se sinta ofendido. Sentem-se aqueles que, como eu, nunca tiveram qualquer processo relativo quer a IRS quer a Segurança Social, sentem-se aqueles que, como eu, trabalham mais de metade do ano para entregar o seu rendimento ao fisco e à segurança social, sentem-se os que, sofrendo com situações difíceis da vida, não conseguem cumprir com as suas obrigações e se vêem, ainda por cima, aprisionados pelo garrote de penhoras. Perante qualquer cidadão que se encontre nas situações como as que enunciei, Passos Coelho nunca mais na vida deveria conseguir apresentar-se. Ele é um mau exemplo, o fruto podre. De facto, ele já é mais do que isso: ele já é motivo de chacota. Ele não se soube dar ao respeito pelo que já ninguém o respeita. O anedotário nacional está ao rubro.


do 77 Colinas


Talvez quem não pague os impostos que deve, talvez quem seja especialista em pagar tarde e más horas, talvez quem viva nas franjas do mundo paralelo (o mundo da fuga às obrigações legais e fiscais), consiga dar algum desconto ao comportamento de Passos Coelho, talvez consiga desculpá-lo.

Ou outros, tais como Ricardo Costa, Helena Garrido, Carlos Abreu Amorim e outras criaturas que por aí andam (e que vi há pouco na televisão em intervenções lamentáveis), consigam arranjar argumentos para o desculpabilizar: que não é o único, que isto é baixa política, que se se começa a falar de impostos nunca se sabe onde é que isto vai pagar.
Falam e eu entristeço-me: será que Portugal é mesmo um covil de relapsos, preguiçosos, gente de fraca moral, corruptos, frouxos, bananas, papagaios? 
Não posso aceitar esse argumentário, mas é que não posso mesmo. Seria o mesmo que ter vergonha de ser portuguesa e eu não tenho. Gostava era de ter orgulho e isso, face a estas elites que nos representam, já não consigo ter.

Mas, mesmo os que ainda condescendem por serem como ele, talvez tivessem razão para não o fazer pois, se calhar, não lhes passa pela cabeça terem cargos como o de Primeiro-Ministro, infligir sofrimento (desnecessário!) aos outros, falar cabotinamente como se tivessem o direito de passar atestados de incumprimento aos outros.

Pedro Santos Guerreiro começa o seu artigo de hoje no Expresso dizendo: Passos foi um contribuinte relapso, um deputado incompetente e um político medroso.


Já é nestes termos que se fala publicamente e em órgãos de referência sobre o Primeiro-Ministro.

E não é caso para menos. Esta quarta-feira veio a público: mais 5 (cinco!) processos no fisco. 

De novo do Expresso: 

Nova polémica envolve Passos. Primeiro-ministro teve 5 processos no fisco.



Depois das dívidas à Segurança Social, nova polémica. Documentos a que o Expresso teve acesso indicam cinco processos instruídos entre 2003 e 2007 pelo fisco. Total ascende a quase seis mil euros. Expresso colocou oito perguntas ao gabinete do primeiro-ministro, que se recusou a responder.


Uma vergonha. E, no entanto, até à data em que escrevo, Passos Coelho ainda não se demitiu. Compare-se a gravidade dos actos de Passos Coelho (sendo que, mais do que certo, o pior nem seja isto destes processos, pior talvez ainda seja a sua actuação quando ligado à Tecnoforma ou à pseudo-ONG) com a de pessoas com vergonha na cara:
Por dizer uma piada de mau gosto demitiu-se, em tempos, Carlos Borrego, Ministro do Ambiente. 
Por ter feito corninhos com os dedos na Assembleia, demitiu-se um ministro da Economia, Manuel Pinho. 
Por o terem questionado por um imposto chamado sisa, demitiu-se o ministro da Defesa, António Vitorino, quando nem tinha nada em dívida. 
Por ter ocorrido um acidente numa ponte, demitiu-se o Ministro das Obras Públicas.
E há certamente mais pessoas que, perante uma situação incómoda, desagradável ou de dúvida, se portaram de forma digna, saindo do Governo para que no Governo continuem apenas pessoas acima de qualquer suspeita e de moral íntegra.

Ora como conseguir continuar a aceitar uma pessoa como Passos Coelho como Primeiro-Ministro? Como não ter vontade de correr com ele quando nos aparecer pela frente? Como suportar o cinismo, a hipocrisia, as habilidades verbais próprias de um farsante?



É mau demais.
Como pode alguém falar assim quando carrega sobre si tantas sombras, tantas nódoas, tantos processos?

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Havia um tal Bibi que parece que fazia casas e que era do Benfica que, tão depressa falava de milhões nos seus negócios,  como se gabava de apenas declarar o ordenado mínimo para não pagar impostos. Dizia que não estava para isso porque não sabia se o aplicariam bem. Vivia à grande a à francesa e, alto e bom som, aos microfones da rádio se necessário fosse, gabava-se de caguar* de muito alto para os impostos e contribuições.

Ou seja, cá para mim e face ao que se está a saber, o Passos Coelho não passa, afinal, do Bibi da política nacional.


[* Caguar com 'u', como disse no outro dia, é para soar mais fino.]

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[** Entretanto, leio que a penhora  que referi em epígrafe foi levantada. O ministério explica que o levantamento da penhora foi feito pelo serviço "após ter confirmado com a respetiva Associação que a mercadoria em causa se destina à realização do fim de utilidade pública que aquela entidade prossegue", De facto, era vergonhoso demais, mesmo no meio da maior pouca-vergonha tem que haver limites!]
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E hoje Juncker afirmou que Portugal esteve entre os países mais duros com a Grécia. 


Uma vergonha a actuação e uma vergonha o que disseram depois disso: Passos Coelho e a sua Pinokia novamente com a palavra na lama.

Dizem, com a maior desfaçatez, coisas que logo meio mundo vem desmentir.

Alguém consegue respeitar pessoas assim? Línguas de trapos, é o que a minha avó chamava a gente destas.
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Mas ainda pior que isto, que a dissolução moral, que a ausência de moral, de dignidade, de inteireza, é o que esta gente tem feito a Portugal:

Do Expresso: 

Cinco gráficos que destroem o otimismo do Governo. O relatório da Comissão Europeia, que serve de base à colocação de Portugal sob vigilância, revela alguns sinais positivos mas, no essencial, traça um retrato assustador da economia portuguesa.


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Por tudo isto, Passos Coelho ri de quê?


Vá-se embora, Passos Coelho, vá-se embora rapidamente. 
Vá para bem longe. 
Desapareça da nossa vista. 
Desampare a loja, vá chatear outros.
Xô!!!!
Demita-se.

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