domingo, dezembro 16, 2012

Em dia de más recordações






Recordo ou fantasio? Aqui nesta casa fria, escura, habitada por sombras e lamentos, sentada com um casaco sobre os ombros, sozinha, falando para ninguém, recordo ou imagino coisas que nunca se passaram?

Por vezes não sei. Tudo tão distante.

Outras vezes sei, sei muito bem, e tomara não o soubesse, tomara que fosse devaneio, lembranças inventadas.

Ouço por vezes algumas pessoas cheias de auto-confiança dizerem que não lamentam nada, ou que lamentam apenas o que não fizeram. Infelizmente não posso dizer o mesmo.

Prefiro recordar os sorrisos escondidos, os segredos partilhados, a malícia excitante, os telefonemas disfarçados, os beijos roubados, os abraços cheios de promessas, o amor feito à pressa, ou o amor feito sem limites, os passeios de barco longe dos olhares e dos medos, os jantares cúmplices. Prefiro, claro que prefiro. Porque haveria de me atormentar com as decepções, as mentiras, os desgostos? De que serviria isso agora? 

Não guardo rancores. De nada servem. Distanciei-me de tudo e de todos. Ninguém sabe onde vivo, ninguém sabe como me contactar. Sei que isso foi uma forma que arranjei para atenuar a tristeza que sinto por esta solidão. Assim, penso que talvez alguém ainda se lembre de mim, que não me procuram apenas porque perderam o meu rasto. Iludo-me. Iludo-me uma vez mais, não fiz outra coisa a vida inteira.

Uma das pessoas que mais marcou a minha vida foi um homem muito mais velho que eu, um dos homens mais poderosos deste país. Com ele aprendi grande parte do que sei. Fez-me voltar a estudar, fez-me sentir muito especial. Tão meigo, tão atencioso. Amava-me de verdade. Casado, com filhos, com netos. Vivia separado mas não divorciado da mulher mas a vida dele fazia-se muito através dos filhos, das empresas, tudo preparado em termos de sucessão, uma vida pública e social muito activa. Jamais poderia assumir a relação comigo, seria um escândalo.

Compreendi perfeitamente. Eu também não o poderia assumir e, ao mesmo tempo, continuar a trabalhar perto dele. E deixar de trabalhar estava fora de questão, não quereria ser a concubina, a mulher 'por conta', sempre fiz questão de manter a minha independência. Pode agora não parecer, mas sempre me achei uma mulher orgulhosa, muito ciosa da minha dignidade.

Através dos seus relatos, pelo que me contava quando à noite jantávamos juntos, conheci ministros, empresários, banqueiros. O que eu gostava de saber aquelas peripécias, o que eu aprendia.

Comprou e pôs em meu nome um andar enorme que mobilou a seu gosto, móveis bons, sofás largos, confortáveis, quadros valiosos. Era lá que eu vivia e era lá que ele, tantas vezes, jantava e dormia comigo.

Em público, éramos quase uns estranhos, uma relação formal. À noite, algumas noites, éramos marido e mulher. Partilhávamos confidências, conversávamos.

Foi ele que me ensinou a arte de amar. A sua memória era surpreendente e, de cor, enquanto galantemente me cortejava, dizia com a sua voz quente e baixa:


Se não for meiga quanto baste nem corresponder ao teu amor,
    porfia e persiste. Acabará por tornar-se carinhosa.
Dobra-se, quando vergado com jeito, o ramo da árvore;
    vais parti-lo se puseres à prova a tua força;
com jeito, a nado se passam as águas; mas não serás capaz de vencer
    o rio, se nadares contra a corrente que com as águas se arrasta


E depois, no fim, ria e dizia, aprende, miúda, que eu não vivo para sempre; e é bom que domines a arte de amar, e depois, já viste? vais surpreender os teus namorados, quando eles menos esperarem, começas a dizer Ovídio, ninguém resistirá a tal coisa.

Eu ria. Na altura pensava lá eu em ter outra pessoa?

No entanto, tantas vezes depois eu usei os seus ensinamentos, tornou-se um vício, talvez o meu único vício.

Era feliz, nessa altura. Se alguém nos visse juntos, talvez nos censurasse: tem idade para ser pai dela, pai ou, mesmo, avô.

Mas eu gostava muito dele, abriu-me as portas para o mundo, para a vida. Vivia na sombra, uma vida cheia de jardins proibidos, mas eu achava isso natural, não me passava pela cabeça censurá-lo. E era-lhe agradecida. Questionava-me mas que vê ele em mim? Não me ocorria que talvez gostasse do meu corpo ágil e jovem, que talvez gostasse da minha alegria espontânea, da minha inocência.

Até que um dia, não sei como, apesar das mil precauções, engravidei. Que alegria senti, que alegria, que alegria. 

Mas não durou muito essa alegria. Quando lhe disse, ficou muito sério, que aquilo não deveria ter acontecido, que era impossível. Assustei-me, não contava com a secura da sua reacção.




Chorei, implorei, mas ele foi implacável. Um dia pareceu-me vê-lo também a chorar mas disfarçou (e pode até não ter sido isso, nunca percebi bem o que sentia a esse propósito). Levou-me a Espanha, fomos de carro e, durante a viagem, quase não falámos. De vez em quando fazia-me uma festa. Chorei quase todo o caminho. Por fim já só soluçava.

Ele foi muito carinhoso, esteve sempre comigo e também estava triste. 




A sua tristezae foi, na altura, o meu único consolo. No regresso eu vinha vazia, de repente a minha vida tinha sido esvaziada de sentido.

Lembro-me de me olhar ao espelho e não conseguir encarar-me.




Matei o meu filho, pensava enquanto os meus olhos acusadores me olhavam. Não era filho que eu pensava, era filha. Pensava que era uma menina. Ainda hoje penso nisso, penso no nome que lhe daria. Penso que o não deveria ter feito.

Arrependo-me tanto, tanto, tanto. Porque fiz eu aquilo? A troco de quê? 

Algum tempo depois deixou-me, que tinha conhecido uma outra. Mentira. O que se passava é que o que acontecera lhe era insuportável. A minha tristeza era para ele uma acusação muito forte. Não pensas nunca na tua filha pequenina? Não pensas que poderíamos ter uma menina que por aqui andasse, que te chamasse oh meu paizinho querido, não pensas? Zangava-se quando eu dizia isto. Dizia que eu o martirizava. 

Mas não fora só a nossa filha que tinha morrido. O afecto entre nós tinha também morrido. 

Fez questão que eu ficasse com a casa.

Fiquei sozinha numa casa grande, cara. Quem soubesse diria que eu era uma oportunista. Ninguém saberia que eu abdicara de mim e que tirara a vida à minha filha.

Não voltei a engravidar. Não calhou. Não aconteceu. O meu grande sonho, o maior de todos, também ficou pelo caminho.

*

Este texto é continuação de três textos anteriores e eu prometo que quando perceber melhor que história é esta lhe dou um título, para mais facilmente me poder referir a ela. 

A música é O mio babbino caro de Puccini e aqui é interpretado por Elisabeth Schwarzkopf. 

Não sei quem fez estas fotografias de Catherine Deneuve. 

O trecho em itálico foi escrito por Ovídio e faz parte do capítulo dedicado à Persistência no livro II na Arte de Amar (mistério desvendado pela Leitora Fantástica conforme refiro no post abaixo).

*

Resta-me, por hoje, desejar-vos um belo domingo. 

A Leitora Fantástica descobriu: é Ovídio e a sua Arte de Amar (Ars Amatoria)


Está desvendado o mistério!



A autora de A Matéria dos Livros na sua fase de Leitora Fantástica


A Leitora Fantástica, autora d' A Matéria dos Livros que sempre visito, voltou a acertar. O autor dos poemas em itálico nos últimos textos que publiquei é, de facto, Ovídio e os excertos pertencem à obra Arte de Amar



Ovídio e a Ars Amatoria


Ovídio, poeta romano, nascido 43 anos antes de Cristo e que viveu 63 anos, escreveu Ars Amatoria sobre o qual transcrevo da Wikipedia:

A Arte de Amar ("Ars Amatoria", em latim) é uma série de três livros do poeta romano Ovídio.

Escrita em versos, tem como tema a arte da sedução. 

Os primeiros dois volumes da série, escritos entre 1 a.C. e 1 d.C., falam 'sobre conquistar os corações das mulheres' e 'como manter a amada', respectivamente. 

O terceiro livro, dirigido às mulheres e ensinando-as como atrair os homens, foi escrito depois. 

A publicação da Arte de Amar pode ter sido ao menos em parte responsável por Ovídio ter sido banido de Roma pelo imperador Augusto. A celebração do amor extraconjugal pode ter sido tomada como uma afronta intolerável a um regime que promovia os 'valores da família'. Para o leitor moderno, parte do interesse no poema está nos vívidos registos da vida quotidiana da Roma Antiga.


O livro, que recomendo, do qual extraí aqueles excertos é uma edição da Biblioteca Editores Independentes, com tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André e custa a módica quantia de 6€ - ou seja, o preço, neste caso, não pode ser considerado factor dissuasório.

Começa assim:


Se alguém das nossas gentes não conhece a arte de amar,
    leia este canto; e, depois de o ter lido, entregue-se com sabedoria ao amor.


e é assim que acaba (antes da conclusão):


E não permitas que a luz invada o quarto a toda a largura da janela;
   é melhor que no teu corpo muita coisa fique às escuras.


Parabéns, Leitora, e muito obrigada pelas suas leituras sempre tão atentas.

sábado, dezembro 15, 2012

Como é bom o amor em Paris (e como pode ser triste o regresso a Lisboa)






Lembro-me de um dia, lembro-me tão bem como se fosse hoje, em que aquele que o meu coração mais amou tinha uma reunião numa segunda feira. Arranjou maneira de ir logo ao fim da tarde de sexta feira e levou-me com ele. Nunca eu tinha estado em Paris. Que emoção. No aeroporto fingimos que não nos conhecíamos não fosse o diabo tecê-las. Mas depois, ah que deslumbramento, namorados clandestinos, só nós dois contra o resto do mundo, um amor tão doce.




Protegidos da rotina, protegidos do lado aborrecido da vida - a mulher teria o lado oficial, o papel passado, mas eu e ele tínhamos o namoro, a paixão nunca totalmente concretizada, a que clamava sempre por uma próxima vez - vivemos Paris, a cidade do amor, como se vivêssemos um sonho. Passeámos, fizemos compras, foi lá que ele me ofereceu aquele caso de pele, eu não queria, tão caro, tão caro, uma fortuna, não, não, mas ele fez questão, foi lá também que ele me ofereceu este relógio, mas tanto dinheiro, levo-te à ruína, não quero, mas para que é tanto luxo? Mas ele dizia que eu merecia isso e muito mais, andámos de mão dada, andámos de braço dado como um casal, e isso foi, talvez, o melhor, tanto que eu desejava isso, andar na rua como se fossemos um casal, que felicidade. Fomos à ópera, conheci a biblioteca, fomos a museus. Tanta coisa em tão pouco tempo.

E, de noite, eu era a sua modelo, a sua boneca, a sua dócil criatura.

Tinha-me também oferecido uma lingerie, uma loja que só visto ali para os lados da Pigalle, e quis que eu a experimentasse. Experimentei. Quis que eu deixasse que me fotografasse. Deixei. Podia lá eu negar-lhe algum pedido?




Mas não vou agora fingir que o fiz contrariada. Fiz porque quis. Acedi sempre a tudo porque quis. 

Quando ele apontava a máquina fotográfica na minha direcção parece que eu ficava outra, parece que me desinibia, que me inspirava. De lingerie preta, a fumar, exalando sensualmente o fumo, sentindo-me apetecível, uma irresistível sedutora, oferecendo-me sobre a cama, sobre o sofá, eu tinha um enorme prazer em vê-lo excitado enquanto me fotografava.




Quanto mais ele se descontrolava, doido de excitação, mais eu provocava, oferecendo-me languidamente à objectiva.

Foram noites de grande prazer, não o escondo - porque haveria de esconder?

Enquanto me fotografava costumava pedir-me, ensina-me a arte de amar, ensina-me como só tu sabes.

E eu, de olhos semicerrados - enquanto fazia deslizar vagarosamente a alça do corpete, enquanto deixava antever, devagar, devagar, o seio, aos poucos, aos poucos até ao mamilo - com voz baixa, quase rouca, ia ciciando,


Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas
    podem ser conquistadas; e vais conquistá-las; basta que estendas as redes
Tal como Vénus furtiva é grata ao homem, assim o é também à mulher;
    o homem disfarça mal; ela é com mais recato que alimenta o desejo.
Se aos homens der mais jeito não serem os primeiros a pedir,
    logo a mulher, vencida, há-de assumir o papel de quem pede.
Na mansidão do prado, é a fêmea que solta mugidos ao touro,
    é a fêmea sempre que relincha ao cavalo de rijos cascos.


E ele, o meu amado, o meu devoto fotógrafo, disparava, disparava, quase sem ver, enlouquecido pela minha voz, pelo meu corpo, pela minha sensualidade.

Pelo menos uma vez por dia, geralmente de manhã e antes de sairmos para jantar, ele colocava-se junto à janela, de pé, e falava com a mulher. Relatava reuniões intermináveis, negociações complicadas, falava das saudades que tinha, pedia para falar com os miúdos, prometia presentes, enviava beijinhos. Eu ouvia com indiferença, e pensava é um filme, mente à mulher para poder estar comigo, prefere estar aqui comigo do que a aturar a vaidosa, a fútil, a palerma da mulher, e sorria, superior, agradecida por ele ser o amante querido que eu tanto amava.




O relógio é este, uso-o sempre, é lindo. Olho as fotografias, estava bonita eu, sentia-me tão irresistível, achava que ia ser tão feliz. Achava que ia voltar muitas vezes para ser feliz outras tantas. Paris. Paris. Que saudades.

Não voltei.

Regressámos a Lisboa na terça feira. Antes de abandonarmos o hotel, quando íamos a sair do quarto, ele puxou-me por um braço. Abraçou-me, beijou-me. Temos que fazer as despedidas agora porque no aeroporto ou no avião não dá, não vá alguém que me conheça ver-me. Aceitei. Beijos apaixonados e abraços apertados e quentes não se podem rejeitar. E feliz como estava, porque haveria eu de rejeitar?

Quando o avião aterrou ele disse-me que a mulher e os filhos o iam buscar e que era melhor não sairmos juntos. Foi uma decepção que tive, porque é que não me avisaste antes?, mas ele encolheu os ombros como se fosse coisa sem importância. Aceitei, estava habituada a aceitar, estava já tão habituada a viver na sombra. 

Penso agora nisto e vejo que toda a minha vida arrastei as sombras como se fossem pesados mantos que me cobrissem.

Ele saíu, não tinha que esperar pela bagagem, levava apenas uma mala que cabia nos compartimentos da bagagem de mão. Eu não, eu tinha uma mala maior, carregada.

Quando me vi no aeroporto sozinha, arrastando uma mala pesada senti-me insignificante, senti uma tristeza. Mas mais triste fiquei quando, indo eu a arrastar a mala, sem ninguém que me ajudasse, o vi abraçado à mulher, de mão dada com um dos filhos, sorridentes, felizes, uma família feliz. Iam a sair do edifício, não me viram e eu fiquei ali parada, sentindo-me um nada.

Fui para a fila dos táxis, já era de noite, e eu ali sozinha. A bela mulher que eu era, tão desejada, tão amada, de repente ali sozinha. Que pena tive, então, de mim.




Cheguei a casa e tão desfeita me sentia que, nesse dia,  nem tive coragem de desfazer a mala. Tinha-me chocado o ar de família feliz, tinha-me chocado a forma como ele se tinha livrado da minha presença, como se eu não tivesse sentimentos. Eu era a outra, a que tinha que se sujeitar a tudo, a que recebia presentes, beijos, noites de amor num hotel e ponto final. Claro que eu sabia que era a outra mas a outra é tão mulher, tão humana, tão frágil, como qualquer outra pessoa, como a mulher legítima. 

Mas nunca lhe falei nisto. Prosseguimos a nossa relação como antes. Sempre consegui disfarçar muito bem o que sinto, sempre calei as minhas mágoas, sempre me contentei com o que me davam, sempre esperançada em que um dia teria tudo aquilo que desejava. Nunca tive.


*

Este texto é a continuação do penúltimo e do antepenúltimo textos. Ainda não dei um nome a esta história nem a esta mulher porque ainda não sei se vai ter continuação. Se vier a ser uma história talvez lhe fique bem o nome Casta Diva e talvez a mulher possa vir a chamar-se Maria Beatriz.

A música é, justamente, Casta Diva de Bellini, aqui interpretada por Cecilia Bartoli.

Catherine Deneuve aqui é retratada por Helmut Newton. Contudo, desconheço a autoria da última fotografia.

Continuo a não identificar o texto em itálico e isso é deliberado.

*

Hoje no Ginjal encerro o ciclo que dediquei a Ernesto Lecuona com dança. O Grupo Corpo dança Te he visto pasar e a música, a voz e os corpos são uma maravilha. Não quererão ir até lá, deitar uma espreitadela?


*

Chove que é uma maravilha. Os campos e as barragens agradecem a chuva que cai com vigor. Vejo-a lá em baixo, contra um fundo escuro, iluminada sob a luz do candeeiro. 

Aproveitem, meus caros leitores, o encanto de um fim de semana chuvoso e frio. 
Desejo-vos um belo sábado!

sexta-feira, dezembro 14, 2012

'Quem operou Alexandra Lencastre?', 'Novo visual de Alexandra Lencastre', 'Alexandra Lencastre faz uma plástica à cara', 'Alexandra Lencastre irreconhecível', 'Alexandra Lencastre dá show na gala da TVI' - estas são algumas das várias questões que levaram o google a trazer uma série de Leitores até mim. E eu acrescento: e a Ana Salazar? Também apareceu com um novo visual e, imagino eu, também não será consensual. Para terminar, comparo com Carolina de Mónaco.


No outro dia vi referência a este assunto, que a Alexandra Lencastre tinha surpreendido os amigos ao aparecer com nova cara, mas não prestei atenção. Não sabia de nada nem é tema que me motive muito.

Mas hoje, nas estatísticas do Um Jeito Manso, tinha diversas variações sobre o tema. As pessoas andam intrigadas com isto e o Google, naqueles seus encaminhamentos misteriosos, enviou-os até mim. Resolvi, pois, ir investigar.

E, tenho que confessar, também fiquei admirada com o que vi. Não parece ela. Deve ter posto tanto botox e feito tal enchimento labial que ficou estranha, parece que ficou esbeiçada. Os olhos parece que também estão um pouco assimétricos.



Alexandra Lencastre com o rosto modificado - na Gala das Estrelas da TVI 


Ao princípio, quando ela apareceu, novinha, simpatizava com ela. Era bonita e, por algum motivo, achava-a frágil. Sempre achei que, provavelmente, padecia do síndroma da mulher bonita. Os programas de televisão em que aparecia queriam valorizar, sobretudo, o seu aspecto físico. De certa forma, a sua inteligência e a sua sensibilidade frequentemente tendiam a ser relegadas para plano secundário e isso, imagino eu, deixa marcas.



Alexandra Lencastre quando era mais nova


Quando nos apareceu era morena, olhos escuros. Depois fez madeixas, o cabelo aclarou, depois ficou loura, depois colocou lentes de contacto azuis. E, à medida que os anos têm vindo a passar, tem sido um carrossel de engorda, emagrece, engorda, emagrece. A sua vida amorosa, sempre nas capas das revistas, tem sido outro carrossel. Não tem dado certo. E pode uma mulher ficar incólume perante uma turbulência emocional constante? Não sei, não sou especialista na matéria mas, intuitivamente, sou levada a crer que isso levará, certamente, a algum desequilíbrio.

Há pouco vi na capa de uma revista que andava com acompanhamento psicológico e as imagens mostravam-na com peso a mais, pouco arranjada. Mas é uma pessoa como qualquer outra, e as pessoas normais aumentam de peso e nem sempre andam nos trinques. Contudo, para uma pessoa que vive sob os holofotes, que alimentou o mito da mulher sensual, não deve ser fácil ver-se com rugas, com papos sobre os olhos, com papos sob os olhos, com peso a mais. Nem deve ser fácil ver-se num escaparate, sujeita à crueldade dos jornalistas que a mostram em posições que desfavorecem, gorda, e com o título 'Estará Alexandra Lencastre grávida'?. Não deve ser nada fácil.

Fazer plásticas também não deve ser fácil, deve ser doloroso, deve haver o medo de não ficar bem. Por isso, confesso que me causa alguma angústia vê-la agora assim, como as fotografias da Gala de Estrelas da TVI a mostram. Podia ser diferente, não se preocupar tanto com o aspecto exterior, limitar-se a ser como é, estabilizar, aceitar-se, não querer parecer o que, se calhar, não é. Talvez pudesse ser mais feliz.

Também vi no outro dia, numa das revistas que devoro enquanto estou na fisioterapia (na parte da massagem ou dos eléctrodos), que a Ana Salazar diz que não se pode prolongar a juventude mas que se pode atenuar os seus sinais. Aparecia ao lado do amigo Nuno Reis, que as revistas dizem que é especial, e sorria, satisfeita com o seu aspecto. E deve ter razão para estar contente pois tem 71 anos e uma vitalidade e uma disposição que são de invejar.



Ana Salazar depois de rejuvenescer


De qualquer forma, parece que está com as sobrancelhas mais grossas, os lábios mais cheios e maiores, os olhos um bocado inexpressivos. Está estranha. Acho que não deve ser fácil estar ao pé dela e não estar a tentar reconstituir mentalmente as feições originais.

No reverso desta atitude, também numa dessas revistas, vi há dias umas fotografias de Carolina de Mónaco. Também uma bela mulher, capas e capas de revistas, também sempre sob os holofotes e, no entanto, tem deixado que o tempo passe por ela sem mudar de cara, sem se transformar.



Carolina de Mónaco aqui com a filha mais nova, Alexandra de Hanôver


Prestes a fazer 56 anos, a Princesa Carolina, que tem tido uma vida atribulada e não muito feliz, tem no rosto as marcas do tempo e da vida. Pode ser que um dia ainda a venhamos a ver de lábios inflamados, olhos arregalados, nariz arrebitado, quase parecida com o José Castelo Branco. Mas, por enquanto, é apenas uma mulher normal. 

A beleza é subjectiva, é certo. Mas eu acho mais bonita uma mulher que assume, com orgulho e dignidade, aquilo que é intrinsecamente do que a que se submete a tais transformações que acaba por perder a identidade. Mas, enfim, gostos não se discutem.

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Hoje era para ter continuado a história da diva solitária (mas, afinal, ao falar de Alexandra Lencastre, não falei também de uma diva solitária?) mas comecei por este texto - que era para ser uma coisa ligeira, um amuse bouche para o que viria a seguir -, a seguir respondi aos comentários, e a verdade é que, agora que iria, então, para a outra empreitada, estou a ficar sem pilhas. Não me refiro ao computador mas a mim mesma: estou sem pingo de energia. Por isso, hoje fico por aqui, já não consigo escrever mais nada, tenho mesmo que ir dormir. 

No entanto, antes de vir aqui para o Um Jeito Manso, estive a fazer o meu exercício de relaxamento no Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje escolhi um poema de Maria do Rosário Pedreira e as minhas palavras, voando em volta das dela, antecipam o calor, o calor sobre os corpos. A música puxa para esse lado sensual da vida e é ainda Ernesto Lecuona quem nos traz esses belos sons (Mota Amaral, se lhe aparecesse este nome pela frente, certamente diria: 'curioso nome este'. Eu, que sou moça discreta, faço de conta que nem dou por isso).

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Tenham, meus Caros, uma bela sexta feira, está bem?
Mas cuidado para não irem pelos ares com a ventania nem ficarem que nem uns pintos molhados com a chuva que está.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

De que serve a beleza? De que serve a juventude? De que serve a inocência perante o fingimento e a lisonja? (E deixo uma adivinha, a ver se alguém descobre)







E, no entanto, fui, ah se fui, tão requisitada, tão admirada. A minha pele, os meus olhos, a minha boca. Toda eu. O meu corpo.

Deixa-me ver as tuas pernas e eu ria, fazia de conta que me envergonhava e, depois, como se estivesse distraída, mostrava-as. Mas havia em mim sempre um pudor que, de tão bonita que eu era, quase parecia artificial.

Deixa-me fotografar-te. E eu deixava. Não sorrias. E eu não sorria. Sorri apenas com os olhos e eu sorria só com os olhos. Ah que bonita que és. E, tantas vezes o ouvi, que imaginei que assim o seria para sempre.




Senta-te nessa cadeira, ao contrário, apoia os braços nas costas, espreita. Espreita como se me quisesses seduzir. E eu espreitava, sedutora.

Veste agora outra blusa que essa é muito fechada. E eu vestia. Deixa ver os ombros, deixa ver as pernas, deixa antever os seios. E eu, submissa, deslumbrada, a vida inteira pela frente e ainda tantos elogios por vir, tão bons, tanta ternura para receber, tão boa a ternura. 

Cada sorriso que recebia, cada pequena palavra, cada sugestão de prazer era sempre uma promessa de amor eterno, tão ingénua eu. Era uma dádiva, um presente que recebia agradecida.

Ficava triste, desiludida quando percebia que, afinal, era um plano secundário o que me estava reservado mas acreditava que, um dia, iria passar para primeiro plano. Queria tanto, tanto, tanto. Merecia tanto, esforçava-me tanto, fazia tudo o que me pediam.

Vamos ao cinema, e eu toda feliz. Depois do cinema podíamos ir jantar fora e eu agradecida, sim, sim, vamos, mas e se nos vêem? sempre eu com medo. Não vêem porque vamos para um sítio onde ninguém nos vê. E eu ria, sempre agradecida, sempre crédula, sempre submissa.

És a mulher mais bonita que já conheci, apetecia-me ficar a vida toda a olhar para ti, tão linda, tão linda, e eu lisonjeada, inocente, a alma acariciada. E essas palavras valiam por mil alianças, por mil papéis passados. As outras têm o resto, eu tenho o amor verdadeiro, a paixão, pensava eu.  Elas não são exigentes, contentam-se com tudo. Eu não, eu tenho a melhor parte. E iludia-me, iludia-me sempre.




Eu tinha, então, vinte anos e a minha pele era luminosa, os meus olhos sorriam, o meu corpo resplandecia.




Depois, eu tinha trinta anos um corpo firme, um ventre liso, uns seios firmes, uns lábios sorridentes, um cabelo brilhante. E tantos sonhos. Um grande amor, uma casa, uma família, sonhava eu. Mãe, vais ver, vou ter tudo, viagens, um jardim, uma laranjeira. E filhos também, mãe. Tantos sonhos.




Depois, eu tinha quarenta, uma pele mais espessa mas ainda macia, uns seios cheios, umas curvas mais pronunciadas, o cabelo ainda sedoso, com um suave ondulado, uns olhos que às vezes já se assustavam. Tão bonita que és, as mulheres mais maduras são melhores. E eu acrescentava, e tolerantes, e pacientes e o telefone tantas vezes sem tocar e o sofá tão frio e o espelho a começar a revelar as marcas do tempo. Vamos passar o fim de semana fora, tenho que ir em serviço. Clandestinos sempre, mas tão excitante isso, e tenho o melhor, tenho a vitalidade, o arrojo, o grão de loucura e um dia terá coragem e um dia será meu. E depois que já não podia ser, que aquilo não estava certo, que a mulher e os filhos e a família e tudo. E outra despedida. Tantas despedidas, tantas desilusões.




E depois eu já tinha cinquenta e quase já não conseguia sonhar e o cabelo tão sem vida e o olhar tão sem brilho e os lábios tão já sem sorrisos e os seios já tão inúteis e as pernas tão já sem graça. Tens um charme especial, não há outra como tu, e eu ainda a tentar acreditar, e, depois, nova desilusão, e tanto cansaço já, tanta descrença. E a casa tão vazia, sempre tão vazia, e os meus ombros tão abandonados, e eu tão já afastada de tudo, de todos. 

Passaram os anos. E o tempo, como um mar forte e desatento, foi deixando as suas terríveis marcas. Onde está aquela que fui, tão bela, tão desejada? Onde estão os que me cortejaram, agraciaram, amaram, os que percorreram o meu corpo? Onde estão? Onde estão que me deixaram aqui sozinha?

Desloco-me até à janela, escondo-me atrás da cortina, espreito a rua. Protegida da luz fria, coberta pela penumbra que me acolhe, digo em voz baixa as palavras que, antes, a brincar, dizia como se ensinasse aqueles que diziam amar-me:


Tens de fazer o papel de quem ama e aparentar, por palavras, que estás ferido;
    procura ser convincente, seja de que modo for;
não é custoso acreditar em ti; qualquer uma se julga merecedora de amor;
    por má que seja, não há nenhuma a quem não agrade a sua beleza.
Muitas vezes começa, porém, o fingidor a amar de verdade;
     muitas vezes, aquilo que no começo, simulara ser, veio a sê-lo mesmo.
Mais ainda por isso, ó mulheres, tornai-vos fáceis àqueles que fingem!
    Há-de transformar-se em amor autêntico o que era, ainda agora, simulação.
É, então, hora de cativar o coração, sorrateiramente, com palavras meigas,
    tal como galga a água corrente a ladeira da margem;
não hesites em louvar-lhe o rosto, os cabelos
    e os dedos esguios e o pé delicado;
dá deleite, mesmo às mais castas, o pregão da sua beleza;
    as donzelas cuidam da figura e ela dá-lhes prazer.


Sei bem de cor estas palavras, sei bem, tantas vezes as disse. Ensinava a arte de amar, eu, eu que julgava saber a arte de amar, eu tão ingénua, tão afinal sem nada saber, sem nada ter. De que vale a beleza do corpo quando ela é tanta que ofusca tudo o resto? De que vale a juventude quando é tão efémera? De que vale a esperança quando é tão perecível?

Quase sem querer, como um autómato demente, continuo em surdina,


Se me perguntas quanto tempo deve ela queixar-se, magoada, pois que seja curto,
    não vá a raiva reunir forças, à custa da demora excessiva;
que os teus braços lhe envolvam, de pronto, a alvura do colo,
    e acolhe o seu pranto no teu regaço;
dá-lhe beijos enquanto chora, dá-lhe a experimentar os prazeres...


Mas interrompo-me, ninguém me ouve, nenhuns braços virão para me envolver, nenhuns beijos virão afastar os meus prantos. Tanta a demora, tão excessiva a demora.

Já não tenho a quem ensinar, eu que nada sei. Vazia. Vazia eu numa casa vazia, tão fria, tão escura. Vazia. 

Olho-me no espelho enevoado. Procuro uma companhia nem que seja a companhia daquela que me olha no espelho. 




Choro. E a mulher que me olha chora também. Tem vinte, trinta, quarenta anos, não sei, mas chora como eu. Trazia já a solidão no olhar. A minha vida perdeu-se algures por aí e eu não dei por nada.


*

Este texto é a continuação do que escrevi ontem (e, aos que me preferem num registo mais animado, não sei o que dizer, talvez apenas que isto tem dias...). 

A música é Baby, I'm a fool e é, uma vez mais no Um Jeito Manso, Melody Gardot.

Catherine Deneuve aqui é fotografada por Jeanloup Sieff, Richard Avedon (a antepenúltima) e Helmut Newton (a penúltima). Não conheço a autoria da última.

Não identifico o texto transcrito, a itálico. Deixo para que adivinhem.

*

Como escrevi nos comentários de ontem não me foi possível hoje nem responder aos comentários - e tanto que o queria fazer, tão interessantes e generosos eles são - nem escrever no Ginjal, facto pelo qual me penitencio. Aceitem, por favor, as minhas desculpas. Tentarei fazê-lo amanhã.

E, por hoje, nada mais. Apenas, ainda, desejar-vos um dia muito feliz.

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Silêncio e tanta gente. Troco a minha vida por um dia de ilusão. (Catherine Deneuve por Bettina Rheims ao som de Maria Guinot)






Aqui sozinha em casa. Todos os dias sozinha. Em tempos fui bonita. Se calhar ainda sou mas já não o vejo nos olhos de quem me olha. Já ninguém me olha. Sempre aqui sozinha, perdida de mim.

Vestir-me para quem? Pintar os lábios para quem? Ver-me ao espelho para quê? Para ver o que mais ninguém vê? Uma mulher sozinha, que ninguém ama, que ninguém beija?

Mas hoje estou tão vazia que preciso da minha própria companhia, talvez assome alguma ilusão, talvez essa ilusão me sirva de companhia. 

Vou vestir-me hoje, vou pentear-me, vou ver-me ao espelho. 




Aqui estou. Roupas de há anos atrás. Já não se usa nada disto. Também eu já estou fora de moda, gasta. Era tão bonita, eu, quando me sentia desejada. 

Vejo-me ao espelho, saia curta, rosto triste, deixo descair uma manga, deixo que a alça do soutien se veja no ombro que se descobre, faço uma expressão que tenta sensual mas que é apenas triste.

Arqueio um joelho, faço uma pose que podia ser de sedução; mas não é. Para seduzir teria que me sentir confiante e não sinto, sinto-me sempre tão frágil, tão à beira do desmoronamento.

Há pouco escrevi uma carta. Dizia que estava farta, cansada, que ia partir para uma vida nova, que tinha um outro amor à minha espera, despedia-me, lamentava que tudo estivesse a acabar assim. Despedia-me em lágrimas e deixei que as lágrimas tombassem sobre as últimas palavras. 

Agora já me secaram essas lágrimas, agora tento pensar apenas no meu amor que lá fora me espera.




Pego na carteira que levarei. Não levarei mais nada comigo. Guardo o telemóvel, o pente, o baton, a chave do carro, os cartões. Nada mais. Deixo o passado para trás, quero esquecê-lo para sempre. Saio de mãos vazias.

Deito-me uma outra vez na cama, nas nossas camas unidas, desunidas, distantes. Olho-me no espelho que está em frente da cama, deixo que o decote descaia, os seios adivinhando-se, desenhando-se, eu ainda uma bela mulher, eu apetecível, sei que sou. Olho-me com um sorriso que apenas se insinuará, ao de leve, muito ao de leve, um olhar transversal, era assim que costumava seduzir, infalível.

Se fosses homem, aparecias agora aqui, sentavas-te à minha frente, olhar-me-ias com um olhar longo e desafiador, depois deixarias que a tua mão descesse pelo meu decote, puxarias a saia para cima, tudo farias e eu tudo consentiria.

A tua mão espreitaria o meu corpo e seria macia, e o meu corpo iluminar-se-ia para ti. Tu sabes isso, tantas vezes o soubeste.

Vou despir-me. Já que não o fazes, faço eu. 

Olho-me, sorrio-me. Em silêncio. E as tuas mãos não vêm. Já percebi que não virão nunca.

Daqui a nada sairei, e será para sempre. Não me peças que recue, que volte, que te perdoe. Não me peças. Não vale a pena. A minha decisão está tomada. Tantos anos este meu corpo aqui desperdiçado, abandonado, sozinho. Não perdoo, não perdoo.





Está frio. Enrolo-me num casaco macio, o casaco que usava quando vínhamos da ópera, dos concertos, o casaco que vestia sobre a pele nua quando chegávamos a casa e festejávamos o nosso amor eterno. Não foi eterno, afinal.

Envolvo-me agora nele e olho-me ao espelho. Um corpo que foi feito para ser amado, como todos os corpos. Como todos. Olho-me. Bela. Dizem que sou bela. O espelho devolve-me a imagem de uma mulher que se olha sem esperança. Olho-me e o meu coração grita a história do que eu sou. Grito. Mas do meu peito não sai um único som. Tanto silêncio. Tantas palavras por dizer.

Vou despir esta capa. Vou vestir um pijama infeliz, um casaco baço, sem história, sem graça. Vou apanhar o cabelo. Vou fechar o rosto.

Vou rasgar a carta. De qualquer maneira, ninguém a leria. Aqui não vive mais ninguém. Só eu e os fantasmas que habitam as minhas recordações. Há muito tempo que não existe amor na minha vida. Nem dentro de casa nem lá fora. Escrevo cartas para ninguém. Rasgo-as e sou eu que me despedaço ao rasgá-las.

Nem consigo já imaginar nada, nada, nem uma pequena ilusão. Vou enfiar-me na cama, luzes apagadas, ainda é de dia mas a noite já entrou dentro desta casa sombria, tão fria, tão fria. A solidão às vezes é tão triste.

E eu troco a minha vida por um dia de ilusão.


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Catherine Deneuve aqui é retratada por Bettina Rheims, fotógrafa francesa agora com sessenta anos.

A canção, que é tão bonita, é Silêncio e tanta gente, de Maria Guinot.


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Se me permitem o abuso, deixem que vos convide ainda para permanecerem um pouco mais na minha companhia. Hoje as minhas palavras estão assim, tristes, e no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, não estão muito melhores. Uma fotografia que me custou a fazer fez-me escrever o que escrevi. Nem é que fosse o poema de Manuel António Pina e ditar-me o que escrevi, acho que foi mesmo a situação que retratei. Para ver se espanto tristezas, fui buscar Los Romeros para interpretarem La Malagueña de ernesto Lecuona.


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E, por hoje, nada mais. 
Apenas quero desejar-vos ainda uma bela quarta feira. 
As quartas feiras têm sempre tudo para serem uns bons dias.

terça-feira, dezembro 11, 2012

Podia ser o 'momento Jonet' do Um Jeito Manso: comer cascas de fruta é o tema de hoje. Melhor isso do que falar do apoio de Miguel Relvas a Fernando Seara! (Seria por isso que a Judite de Sousa hoje estava tão triste no Olhos nos Olhos com Medina Carreira? Estava mesmo em baixo, coitada. Mas talvez fosse o penteado de risco ao meio que lhe dava um ar caidinho). E também é melhor comer cascas do que ver o Durão Barroso com o Nobel da Paz nas mãos, não acham?



Sou devota de dióspiros. Costumo comer maioritariamente dos meus, que são certificadamente biológicos, mas, este ano, o meu diospireiro não deu um único. Por isso, este ano tive que me render à sua compra. Como é sabido, é fruta cara e nem sempre de garantido bom sabor. Se não está bem maduro, pode ser desagradavelmente adstringente, se está bem maduro, pode ficar tão mole que não se aguente inteiro até chegar a casa.

Agora há uns grandes, rijos, caros, vindos sabe-se lá de onde, que nunca me cativaram.

Mas isto é o meu natural conservadorismo a funcionar, pois nada como a necessidade para fazer cair por terra os preconceitos.

Acontece que o local onde vivo, tal como tantos outros locais, imagino eu, está pejado de lojas chinesas. Eram bazares, restaurantes; depois passaram também para lojas de roupas, depois restaurantes pretensamente japoneses e, agora, são frutarias. Nunca lá ia, achava que fruta vendida por chineses só poderia ser fruta de qualidade duvidosa. 

Eis senão quando vejo na montra diospiros, dos grandes, claro, vendidos a menos de um euro o quilo.

Aí, a minha tal costela mista (atenção que eu disse mista, não mística), a que tem também o gosto pelas pechinchas, não resistiu. Se fosse um quilo eram 90 cêntimos, se fossem mais de dois, seria a 80 cêntimos o quilo. Trouxe quase dois quilos e meio. 



Aqui estão apenas quatro dióspiros para caberem na fotografia

E agora legenda do tipo Caras Decoração:
Taça Atlantis sobre mesa da cada de jantar em raiz de nogueira,
com pesados cortinados em fundo.
(E esta, heim...?)



Rijos que só visto. Grandalhões, um exagero. O meu marido olhou-os com suspeição, devem ser de quinta escolha. 

Eu própria vinha um pouco desconfiada, parecia-me muita fruta. Experimentei então comê-los descascados, imaginando já a casca áspera, deixando a boca encortiçada.

Depois cortei uma rodela e, sabido que é que me maravilho com pouco (faço parte, certamente, daquele insuportável grupo da população que prefere a doçura ao azedume), fiquei deliciada com a beleza fresca e suavemente colorida da flor que ali se descobriu. 


Rodelas de dióspiro, sumarentas, doces, óptimas

De novo legenda de tipo Caras Decoração:
saboroso fruto sobre prato de porcelana debruado a dourado,
comprado no século passado n' Os Artesãos do C. C. Castil.
Toalha feita à mão com aplicações de tecido


Dei-lhe uma dentada. Doce, macia, agradável. Não é aquela polpa quase sumarenta, quase músculo macio, dos dióspiros tradicionais. Não, nada disso. É consistente, homogénea, floral, doce, coisa apropriada para se digerir em sociedade. Nada daquela gula desenfreada com sumo e polpa a escorrer por entre os dedos, a esvair-se na boca, com os meus dióspiros caseiros, rústicos, mal educados.

Depois - não vos quero esconder nada - experimentei comer a casca. Uma delícia. É certo que tinha um pouco de polpa agarrada, já que eu, temendo a sua adstringência, tinha-os descascado bastamente. Mas que bom. A consistência quase crocante da casca, o sabor mais acentuado do fruto, que bom.

O meu marido fica chocado com estes meus comportamentos. A comeres cascas… lamenta-se, ar de censura, para que é isso? Mas eu digo que gosto e que, além disso, é sob a casca da fruta que residem as vitaminas. Não se convence, acha mal que eu coma cascas de fruta, ainda por cima à mesa.

No sábado, também, ao fim da tarde, apeteceu-me uma infusão de lúcia-lima. Mas como tenho dificuldade em cingir-me às coisas tal e qual, juntei ao saquinho umas quantas cascas de tangerina. Que bom que ficou.

Pois bem, nem de propósito, este fim de semana a secção alimentar da BBC publicou um artigo justamente relativo à utilização alimentar das cascas de fruta. 




Convido-vos a entrar aqui para verem. Verão que afinal não sou assim tão doida varrida.

Sei também que a sogra do meu filho fez no outro dia um bolo com cascas de fruta, maçã, pêra e manga ou papaia, não sei bem, e que estava muito bom.

Assim, e parafraseando o Bruno Nogueira, poderia agora ter o meu 'momento Isabel Jonet' e recomendar-vos que, em vez de fruta, passem antes a comer as respectivas cascas. Mas, como sou uma perdulária, digo de outra maneira, isto é, recomendo antes que se deliciem com a fruta inteira, tentando não desperdiçar a casca.


&


Aqui chegada deverei, talvez, desculpar-me pelo baixo valor deste texto (baixo valor em originalidade do tema ou em qualidade literária, sim, mas, terão que condescender, muito valioso em termos de vitaminas e anti-oxidantes e, ainda, em termos económicos).

Deveria talvez pronunciar-me sobre temas divertidos como, por exemplo, o apoio explícito e entusiástico, publicamente divulgado, do Vai-Estudar-ó-Relvas ao pobre (pobre salvo seja) do Seara na sua candidatura a Lisboa. 



Coitado do Fernando Seara... Com o Relvas ao lado, olhe, azarinho: lá se foi Lisboa.



O desgraçado do Seara não deve estar a viver tempos fáceis. Por um lado, deve ter a Judite de Sousa à perna.  Sendo uma mulher informada e inteligente, é notório que não vai nem um bocadinho à bola com a turminha do ex-Doce. Deve moer, e muito justamente, a paciência do marido. Por outro lado, este apoio do Relvas, deve ter sido para ele como atirarem-no ao Tejo com os bolsos cheios de pedras, tantas quantas as palavras de apoio do outro. Faço ideia o que a Judite o deve ter xingado e faço ideia o desespero dele, mas… mas ó Judi…dite… o que… que que…rias tu que eu fi…fi…zesse?

E que triste e murcha ela estava hoje. Vi-a na TVI 24 com o Dr. Medina Carreira e estava aborrecida, impaciente, triste, não sei. Mas, enfim, toda a gente tem direito aos seus momentos de apreensão ou tristeza e sabe Deus o que tantas vezes estas pessoas que se expõem publicamente têm que se esforçar para aparecer de cara alegre.



Judite de Sousa, hoje
(nos' Olhos nos Olhos', com Paulo Rangel e Medina Carreira),
na versão Menina dos Olhos Tristes


Medina Carreira também não estava muito animado. Foi curto e grosso (mais ainda do que é habitual) e, se tudo aquilo que se passou com ele foi mesmo um desvario da nossa Justiça (como parece que foi), tem razões de sobra para estar farto desta gente toda.

Mas não me apetece escrever sobre nada destes assuntos, alguns dos quais, como o que mete o Relvas, umas verdadeiras as pepineiras.

Até terem dado o Nobel da Paz à UE e ser o Durão, esse cherne de água doce, ou o candidato a poeta oriental Von Rompuy, ou o alemão de quem, apesar de tudo, gosto um pouco mais, o Martin Schulz, a receberem o prémio, me parece uma piada de mau gosto. 



Prémio Nobel da Paz:
com estes três à frente dos destinos da UE estamos bem entregues, estamos...

O engraçado é que Durão Barroso, sem nunca ter feito nada que se visse,
por aqui anda, agora até com um Prémio Nobel nas mãos. Só visto.


Parece que o mundo anda meio doido, não é? Não vos parece que grande parte das coisas a que se assiste são parvoíces? 

Ou então, sei lá, mais do que certo é que sou eu que estou a ficar velha. Parece que o que me desperta mais interesse são as coisas simples, mas mesmo muito simples. Uma receita de culinária, o olhar de um gato, uma capa de um livro, o toque de um tecido macio, o som de um violoncelo ou o silêncio, uma cor ardente, o branco da neblina, o cheiro das castanhas assadas, um sorriso, coisas assim. Nada de teorias, nada de conversas muito elaboradas, nada de azedumes, nada de barulho.

*

E, já agora, por coisas simples e por gatos: não quererão fazer-me uma visita também na minha outra casa, o Ginjal e Lisboa? Hoje as minhas palavras esperam um amor clandestino, na companhia de um gato e de um poema de Maria do Rosário Pedreira. A música é um encanto, Ernesto Lecuona, claro.

*

E nada mais. Apenas vos quero desejar um dia muito bom. 

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Anna, a mulher adúltera. Keira Knightley, Sophie Marceau, Vivien Leigh, Nicola Pagett: qual a Karenina mais credível?


As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira


Assim escreveu Leo Tolstoi (ou Tolstoy) quando criou Anna Karenina há bem mais de cem anos.

Independentemente do contexto específico em que decorre a história, tão intemporal, tão realista é a situação que o interesse que desperta atravessa o tempo. Várias adaptações ao cinema tiveram já lugar.

A última é a que está em cena com Keira Knightley, Jude Law e Aaron Taylor-Johnson. Ao ver o trailer, admito que talvez Keira seja credível mas, ainda assim, parece conter em si a exuberância ou o excesso de beleza que, à partida, a predisporiam para o adultério.

Anna Karenina, tal como a recordo, é uma mulher bela sim, mas uma mulher casada, feliz e acomodada no seu casamento, talvez com algum tédio, talvez com alguma insatisfação mas nada de mais, nada que não fosse o normal nos casamentos tal como eram aceites naqueles tempos (e ainda hoje).

Anna é uma aristocrata rica, bela, tem tudo. Até que conhece o Conde Vronsky.

A partir daí a vida de Anna muda. Passa a ser a mulher perdidamente apaixonada, a mulher adúltera, a que tudo arrisca, a que, por fim, não consegue suportar o ilícito ou , simplesmente, não consegue viver com tão grande amor.

Tinha vontade de ver esta nova adaptação pois os pormenores da história desapareceram da minha memória e talvez nem seja bem como sumariamente a acabo de descrever. Mas não vou: a figura escolhida para o Conde Vronsky não me parece minimamente credível. Não consigo imaginar ali um temperamental, impetuoso apaixonado, capaz de levar Anna a desistir de tudo, até de viver. E Jude Law, o marido, caracterizado da maneira como ali o vejo, parece-me um desperdício injustificável.





Antes tinha havido uma outra adptação, dessa vez com Sophie Marceau e Sean Bean. Mas, aqui, também Sean Bean não me pareceu ter aquele toque que faz uma mulher desligar-se da racionalidade e entregar-se, perdidamente, à paixão.





Parece que houve uma outra adaptação com Vivien leigh mas nunca a vi. 

Na minha cabeça, quando penso em Anna Karenina é em Nicola Pagett que penso, um misto de inocência, de irreverência, de impaciência à beira da loucura, e um fogo desmedido. 




Quando penso no Conde de Vronsky é em Stuart Wilson que penso. Leviano, apaixonado, terno, belo, sedutor.




Trata-se da mini-série da BBC. Acho que nunca, como naquela altura, o casting foi tão credível. Não encontrei o trailer mas encontrei uma das cenas decisivas.





Anna Karenina, a mulher adúltera, uma das personagens mais credíveis, mais pungentes, mais duradouras  da literatura.

*

Antes de me despedir, não quero deixar de vos convidar a visitarem o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras perdem-se na névoa, perto de um poema de Vasco Graça Moura. Na escolha de música, houve mudança de tercio. Hoje abro a semana que vou dedicar a Ernesto Lecuona. E é o calor cubano que vai começar a aparecer.

*

E é isto. Tenham, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira.


domingo, dezembro 09, 2012

Isabel Millet, a mulher que, de novo, deu vida a Guilhermina Suggia, que está no céu a tocar violoncelo aos pés de Deus. Uma Imagem no Espelho.


Ontem saí mais cedo. Mas agora anoitece muito cedo. Trânsito, noite, falta de lugares para estacionar. Depois de um dia de trabalho, reuniões, avaliações, contratos para rever, telefonemas, eis que me afasto da torre de vidro para procurar um outro mundo.

Venho em contra corrente. 

Chego já perto das seis e meia e logo eu que gosto de ser pontual. Conheço o prédio mas não sabia que ali funciona uma escola de música.

Isabel Millet tinha-me enviado o convite de que aqui também vos dei conta.







Quanto entrei estava a ter início a sessão. Ouvia-se Guilhermina tocando violoncelo. O palco iluminado e, na  mesa principal, ao centro, uma mulher luminosa, sorridente, Isabel Millet. De um dos lados, o Maestro Leonardo de Barros. Do outro, a representante da Chiado Editora, uma mulher jovem e bonita de que não registei o nome, italiana, visualmente toda ela italiana.

O Maestro falou da sua relação com a autora do livro, falou do livro, mostrou fotografias e o seu sorriso e a sua afabilidade revelavam a ternura por Isabel Millet. A editora italiana falou do prazer em editar tão belo livro.

Depois Isabel falou da sua relação com Guilhermina.  A sua mãe foi Isabel Cerqueira, aluna, discípula e amiga de Guilhermina. Não tendo filhos, Guilhermina deixou a casa (justamente na Rua da Alegria, nº 665) em herança a Isabel Cerqueira. Foi, pois, na casa que tinha sido de Suggia que Isabel Millet, filha de Isabel Cerqueira,  cresceu. Quadros, móveis, cortinados, tudo naquela casa lembrava Guilhermina. A mesa onde comia, a cama onde dormia tinham sido as de Guilhermina. Até a empregada Clarinda continuou ao serviço dos Millet.

E foi de sua mãe, uma mulher reservada, algo triste, que Isabel também falou, de como lhe era difícil arrancar recordações sobre Suggia. Mas como ela as evocava, espontaneamente, e como se foram gravando na memória de Isabel que, agora, com este terceiro volume termina a escrita que dedicou à grande violoncelista e à sua casa. E foi assim, dando a voz a sua Mãe, que Isabel escreveu o livro. E dando também a voz a Guilhermina. E mostrando-nos cartas, fotografias, a agenda que, conta, é como uma ampulheta, o registo até ao fim.

A seguir Isabel Millet leu trechos do livro bem como Rute Cardoso, actriz na Casa Conveniente, vestida com peças de roupa de Guilhermina, um belo vestido longo e um casaco quente.



Rute (ou Ruth?) Cardoso lê excertos do livro, e quase parece Guilhermina Suggia


Com uma voz agradável, muito convincente, vestida de Suggia, Rute Cardoso trouxe as palavras da diva que, na penumbra, ouvimos encantados.

Isabel tinha também, para partilhar connosco, duas gravações em que se podia ouvir distintamente a voz de Guilhermina, em duas entrevistas.

Depois leu uma carta de Guilhermina dirigida a Pablo Casals, seu grande amor, pedindo-lhe, em tom humilde, que arranjasse maneira de ir assistir a um último concerto dele. Não chegou a ir, morreu dois meses depois.



Carta de Guilhermina suggia a Pablo Casals
A letra de uma mulher aberta ao mundo, ao futuro
(apesar de escrita a dois meses da sua morte)


je voudrais pas mourir avant de vous entendre, cher Maitre et de vous revoir.

Começa assim a carta, escrita em francês. Para mais fácil compreensão, Isabel Millet leu a carta em português.

Estive bastante doente ultimamente e apesar de me sentir um pouco melhor, não sei se continuarei por muito tempo a minha carreira.

(...)

Espero que compreenda a alegria que me dará ao dizer-me que poderei ir e que terei lugar em qualquer parte para ficar 10 dias perto de sua casa.

(...)

Creia-me sempre sua admiradora dedicada - lembra-se da menina de 11 anos que ia a Espinho para ter lições consigo?

Até breve, espero

Guilhermina Suggia


Seguidamente Isabel Millet leu a parte do livro relativa à morte da diva e, enquanto lia, com voz emocionada, interrompia de vez em quando para, sorrindo, referir particularidades relativas a Guilhermina.

Quando Suggia sentiu que a morte podia chegar a qualquer momento,mandou chamar a grande amiga inglesa, Mrs.Melville:

'Venha depressa', mandou dizer por telegrama.

Mandou chamar a manicura, para que lhe arranjasse e pintasse as unhas; mandou arranjar o cabelo e pediu que lhe passassem bâton nos lábios: já tinha mandado pôr de parte o vestido com que queria que a vestissem. Recomendou que lhe cobrissem as pernas, pois tinha-a por demais inchadas.

Preocupava-se com a cerimónia da sua morte, como se fosse, este, o último espectáculo que dava.

Aconteceu no dia 30 de Julho do ano de 1950, pelas onze horas da noite.

Um pouco antes, havia pedido que lhe deitassem o violoncelo, o Montagnana, a seu lado; pois não era, ele, o prolongamento do seu corpo e da sua alma?

O espírito de Constantino elevar-se-ia, unindo-se ao seu no último momento, pois todos os violoncelos possuem uma alma física e uma alma etérea.

Constantino era o cavaleiro das altas planícies, aquele que trespassava as montanhas e a levava à profundidade das águas.

Pediu, em seguida, a Clarinda que trouxesse uma garrafa de champanhe e servisse todos quantos estavam presentes. E que se servisse também a si própria, e a ela, Guilhermina Suggia.

E celebrou, assim, este grande acontecimento.


Isabel Millet leu, por fim, uma notícia saída tempos antes e que, naquele contexto, vinham muito a propósito:

A violoncelista, a divina, a única, a incomparável, criou para seu uso uma constelação e também uma janela aberta para a terra inteira. Só lhe faltam as asas de anjo para poder subir ao Céu e tocar violoncelo aos pés de Deus.



A seguir, Isabel Millet fez servir champanhe.

Apresentei-me, claro, conversámos um pouco, e pedi que me autografasse este novo livro, o terceiro da trilogia Imagem no Espelho, o 'Rua da Alegria Nº 665', a casa de Guilhermina Suggia.



Isabel Millet autografa o livro para mim


Isabel Millet contou-me que a mãe ainda leu o primeiro livro e que gostou, ela que gostava de tão poucas coisas, tinha gostado do livro da filha e Isabel Millet sorria, enternecida, por ter sentido o reconhecimento da parte da mãe, Isabel Cerqueira. 'Já não viu os seguintes. Mas está aqui...' e eu disse que sim. Sabe bem ter a mãe por perto nos momentos importantes da nossa vida.



Os dois livros anteriores da triologia Imagem no Espelho e o último,
autografado para mim, com a dedicatória escrita ao lado da fotografia de Isabel Cerqueira


Ao pegar no livro para autografar para mim, Isabel folheou-o e escolheu a página onde iria descrever a sua dedicatória. Escolheu a página em branco ao lado da fotografia da mãe, Isabel Cerqueira, uma mulher também muito bonita. Sensibilizou-me que o tivesse feito.

Quando saí de lá vinha emocionada. Aquela sala, aquele ambiente, que diferença para o mundo cá fora. Ali tudo era afabilidade, doçura, a ternura dos amigos de Isabel Millet, a sua filha, uma cultura tão interiorizada, um amor à música, à escrita. Tudo tão em contra corrente.

Ali nada era espuma, artificialidade. Se todo o mundo fosse assim, tudo seria tão melhor.


*

Aos que não viram ainda o post abaixo, permito-me sugerir que o visitem para ouvirem uma gravação com a grande Suggia no violoncelo.

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.

sábado, dezembro 08, 2012

Imagem no Espelho. Rua da Alegria Nº 665, a casa de Guilhermina Suggia. O terceiro livro de Isabel Millet sobre a vida da violoncelista. E o Kol Nidrei interpretado pela grande Suggia. (Momentos de prazer em tempos de guerra)




(...)

A voz de Guilhermina é o seu violoncelo. Os seus dedos - cinco inciados dos mitos gregos - são os portadores da revelação. E o grande auto da vida interior executa-se ritualmente prendendo os homens ao mundo virtual da sua consciência, dos seus símbolos de magua e de extaseamento arrebatador.

Maga, pitonisa ou musa, imagem mediumnica das eternizações orquestrais, cálice branco de sons vagos, errantes que se ocultam sob uma lágrima ou um crepúsculo de amor; evocadora de todas as queixas, de todos os gritos e de todos os extases que a alma das coisas guarda em si no seu segredo musical, Guilhermina Suggia é toda a música do mundo num corpo fragil de mulher.

João de Meira
Diario da manhã
26 de outubro de 1926

Extraído do livro 'Imagem no Espelho III - Rua da Alegria, nº 665', a casa de Guilhermina Suggia, da autoria de Isabel Millet.

A Isabel Millet e ao seu novo livro, voltarei amanhã.

*

A vós, Caros Leitores, desejo um belo sábado.