quinta-feira, novembro 08, 2012

Barack Obama, um presidente na Casa Branca com uma 'boa pegada' (= que sabe agarrar bem numa mulher), cheio de swing e com uma excelente capacidade de comunicação... Good luck Mr. President! (e só espero é que desta vez não se rodeie dos mesmos conselheiros financeiros que causaram a crise financeira internacional - tal como o fez no primeiro mandato).


Tem muita pinta, tem um bom balanceio, é sexy, é um inegável sedutor*, tem ar de ser meiguinho, dança bem, tem um andar entre o desengonçado e o malandreco, tem um sorriso cativante e uma gargalhada franca. Tem uma invejável capacidade de improviso, tem uma voz quente e poderosa. Tem um projecto democrático, humanista. [Não sei se diga que a ordem pela qual enunciei os atributos de Obama é arbitrária, se diga que está pela ordem inversa ou se deixe no ar para que, quem quiser, tire as suas conclusões. Mas, uma coisa vos digo: não é à toa que se diz que foram as mulheres que o elegeram.]

No primeiro mandato titubeou e condescendeu em alguns aspectos em que o não deveria ter feito, teve medo de arriscar ou teve medo de enfrentar a fúria dos 'mercados'. Seja como for, tenho esperança que neste seu segundo mandato se sinta mais livre para mostrar ao mundo como é o seu verdadeiro projecto.

E, para o caso, isto é, para as eleições, o que interessa é que entre ele e Mitt Romney, conservador e antiquado, inculto, de um moralismo obsoleto, assustadoramente tacanho e retrógrado, não podia haver dúvida. Os EUA e o mundo em geral precisam de governantes modernos, que pensem o futuro com a mente aberta e com o genuíno intuito de progresso.




* Bem, talvez ainda não tão sedutor quanto o charmoso, ultra-sedutor e ultra-convincente Bill Clinton mas, enfim, também ainda é mais novo (agora uma coisa é verdade: a Casa Branca tem tido uns presidentes democratas que faz favor, olá se tem).

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Provas documentais de alguns dos atributos acima referidos


A dança abaixo não é de agora mas vale na mesma. 

And be happy Mr. President!



A primeira dança com a Primeira Dama



Dançando no programa de Ellen Degeneres



O último discurso de Obama na campanha eleitoral


*

Em dia de festejos por Obama (porque, como europeia, tenho mesmo que festejar), quero, no entanto, convidar-vos. Não sou especialmente original nos meus convites mas, por favor, não se prendam com isso pois gostava mesmo que viessem daí, até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras perdem-se entre o mar e o céu em volta dos espaços verdes e silenciosos de Herberto Helder. A música é uma maravilha, e é, claro, ainda de Jean-Baptiste Lully.

*

E tenham, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira. 
Se me permitem o conselho, gozem muito bem a vida que ela é efémera, preciosa.


quarta-feira, novembro 07, 2012

Cavaco provou que está vivo, disse umas coisas aos jornalistas, nomeadamente que teve um encontro frutuoso com o Seguro; Gaspar diz que não garante nada, nem dívida nem coisa nenhuma; e um admirador de Relvas ia encontrar-se com ele num quarto de hotel nos Açores (mas não o deixaram). Ainda não sei se o Obama ganhou e os socialistas europeus ameaçam Durão Barroso com uma moção de censura, estão fartos dele ser o passivo neste affair da crise. Face a tudo isto, não digo grande coisa e prefiro mostrar-vos os meus últimos livros (Al Berto, António Osório, Ian McEwan, Milan Kundera, Poetas para Vasco Graça Moura, Gina Picart, Clara Sánchez, David Dinis e Hugo Filipe Coelho)






Num dia em que já se levantavam vozes pedindo uma prova de vida de Cavaco Silva ou, então, que fosse declarado incapacitado, eis que, inesperadamente, o senhor saíu do recato a que se tinha votado e disse umas coisas aos jornalistas. Ia inaugurar um hotel, fizeram a gentileza de o convidar e ele fez a gentileza de se mostrar vivo. Pareceu-me um bocado parado, por momentos pensei que a minha televisão estivesse com um desfasamento entre a imagem e o som, o senhor abria a boca e não saía nenhum som. Mas depois, quando arrancava, a imagem estava sincronizada com a fala; talvez fosse apenas que estava destreinado de falar.

Tirando isso, nada de especial aconteceu. 

Seguro foi a Belém e Cavaco diz que o encontro foi muito frutuoso (ou seria frutado...? - desculpem, esta foi influência de ter visto uma reportagem sobre um perfumista, um nez português). 

O Tozé, por seu lado, diz que está pronto para governar. Ora bem, temos homem. 

Vítor Gaspar, por seu lado, para não o acusarem de não acertar uma, agora, logo à partida, diz ele próprio que não acredita em nada. Diz que não garante que nada disto corra bem, que o regresso aos famosos mercados vai ser quando tiver que ser, que não precisa da Constituição para escaqueirar o Estado Social e que controlar a dívida não é para já, nem sabe para quando será, talvez dentro de algumas décadas. Porreiro, pá, diria o outro.

O melhor do dia foi para o homem que parece que foi de propósito aos Açores para se meter com o Relvas. Parece que foi de véspera, instalou-se no mesmo hotel, num quarto mesmo ao pé do de Relvas e, imagine-se, terá tentado entrar no quartinho do senhor doutor ministro. Para lhe fazer uma visitinha? Apenas para lhe deixar uma lembrancinha? Gastou o dinheiro do avião e do hotel só para ir visitar o Relvas ao quarto?! Querem lá ver que o Relvas arranjou um amigo especial? Um amigo colorido, será?! As fotografias mostram um homem com as calças um bocado descaídas e, como o estavam a agarrar e, na fotografia está de costas, vê-se o início do rabiosque. Foi preso, tenho pena. Dizem que insultou o senhor doutor, coisa mais chata. E é tudo o que tenho a dizer sobre o caso.

Lá por fora, o que retive é que os socialistas europeus se preparam para apresentar uma moção de censura a Durão Barroso. Não percebem o que tem o homem lá andado a fazer. A UE a desfazer-se, a Alemanha a pôr e dispor, e ele ali, cherne de águas profundas, na moita, caladão. Não percebem qual é a dele. Ninguém percebe.

*



E, como não sei ainda quem é que vai ganhar as eleições nos EUA (seria possível que pudesse  ganhar um sujeito como o Romney?!), vou antes mostrar-vos os meus últimos livros.

Estive aqui a fazer uma instalação para os fotografar. Sabem que sou dada a coisas artísticas e, por isso, instalei-os em cima de peças de roupa que hoje vesti. Juntei ao conjunto, para a fotografia, uma pequena estola de pseudo pele tigreza para dar um certo toque selvagem. Tenho destas coisas.



Os tons de Outono e os meus últimos livros 


Passo então a reportar, dando uma de professor Marcelo - a ordem é a dos ponteiros do relógio e a escolha de um pequeno excerto de cada um dos livros é totalmente aleatória.


Óleo sobre tela de Gina Picart

Aqui passo os meus dias e as minhas noites. Não espero nada, não espero ninguém. Habito esta casa sem saber até quando; já não me pergunto, limito-me a permanecer. Pinto o céu, as rochas, o mar e as vastas extensões de areia até onde chega a minha vista. Pinto para mim.


Mel de Ian McEwan

Chamo-me Serena Frome (rima com plume) e há quase quarenta anos fui enviada numa missão secreta para os serviços de segurança britânicos. Não regressei incólume. Dezoito meses depois de ingressar fui despedida, tendo caído em desgraça e destruído o meu amante, embora não reste dúvida de que ele teve um papel activo na sua ruína.


Os monstros também amam de Clara Sánchez

A minha filha achava que eu era um velho louco e sem remédio, obcecado por aquele passado que já não interessava a ninguém e do qual não era capaz de esquecer nem um dia, nem um pormenor, nem um rosto, nem um nome, mesmo que fosse um nome alemão comprido e difícil, e no entanto era frequente ter de fazer um grande esforço para me recordar do título de um filme.


Diários de Al Berto

Perturbam-me estes versos que avançam, as sombras das mãos, suaves como o perfume das ilhas. E não consigo dormir. Fumo cigarro atrás de cigarro, conto e reconto os nós da madeira das portas, e não consigo dormir. Nada me pertence aqui, no entanto tenho medo destes móveis, destes objectos, como se fossem meus e não soubesse que destino dar-lhes.


O concerto interior, evocações de um poeta de António Osório

Começo por lembrar Beppa, como lhe chamava meu Pai, e era invenção sua, corruptela amorosa de Giuseppina. Entre as minhas figuras femininas, ocupa o primeiro lugar. Sem nunca ter vindo a Portugal, antes de se casar em Florença na Basílica di S. Lorenzo, tirou um curso de puericultura num instituto dessa cidade - tenho ali o diploma. Por isso, depois de eu nascer em Setúbal, fui tratado como exigiam essas imperiosas normas (alimentação rica em cálcio, verdura e fruta, pouco sal e mínima gordura).


A arte do romance de Milan Kundera

CS: Mas os romances não são todos necessariamente psicológicos? Isto é, debruçados sobre o enigma da psique?

MK: Sejamos mais precisos: todos os romances de todos os tempos se debruçam sobre o enigma do eu.


Resgatados, os bastidores da ajuda financeira a Portugal de David Dinis e Hugo Filipe Coelho

6 de janeiro de 2011, quinta-feira

Impaciente, José Sócrates saíu do seu gabinete para a sala lateral. Aproximou-se do computador que estava em cima do móvel e carregou no teclado. O ecrã negro encheu-se de números e letras, dados financeiros quase encriptados. Em baixo, um cursor piscava, pedindo um comando que ele nunca tinha de memória. Entre as suas qualidades não se contava a de lidar com computadores. Chamou a secretária e pediu-lhe que o pusesse a funcionar.


A vista desarmada, o tempo largo - Antologia, Poetas em homenagem a Vasco Graça Moura

                      Que porque Vasco

                      Vai um abraço e a consoante muda
                       e espero que me acuse a recepção
                       com p e pau e uma vogal mamuda
                       e até um til com barbas e brasão.
                       E se alguém perguntar
                       tu lhe dirás
                       que porque como ele contra acordo
                       estás
                       até o ver no chão
                       que nem
                       um tordo.
                       E mais dirás canção
                       que porque Vasco e porque tem
                       a língua de Camões no coração

                                                                Manuel Alegre


*

O primeiro clip é de bailado e mostra-nos O Lago dos Cisnes interpretado pelos divertidos Trocks, isto é, pelo grupo Les Ballets Trockadero de Monte Carlo.

O segundo é uma animação representando auma das músicas da banda sonora de O piano.

*

Pronto, fico-me por aqui - passa da 1:30 da manhã e continuo sem perceber se as tendências apontam no sentido do Obama ou se há verdadeiro risco de ganhar o outro. Ficava giro o mundo, com uma esperteza como o Mitt à frente dos EUA, ficava, ficava...

Mas, antes de me ir deitar, vou ainda convidar-vos a virem comigo até ali ao meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras brincam com palavras, em volta de um poema de Maria Teresa Horta dedicado a Vasco Graça Moura. A música é uma maravilha, Isis de Jean-Baptiste de Lully.

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um dia muito feliz (apesar do vendaval que se anuncia e que já se passeia aqui na minha janela). 

terça-feira, novembro 06, 2012

Sobre a estúpida 'refundação', sobre os 4 mil milhões que o Governo quer cortar e sobre a cobardia e o desvario deste Governo, sobre esta gente que nos (des)governa e nos trata como se fossemos completamente estúpidos (...e, se calhar, até somos), sobre Passos Coelho, Paulo Portas e todos os outros que desprezam os que os elegeram e pensam apenas na sua própria pele. Sobre o descalabro absoluto da política do actual PSD e CDS. Sobre a urgência de renegociar a dívida e inverter estas políticas económico-financeiras (aliás, como o diz o parecer do CES que arrasa o OE 2013). Sobre a necessidade de nos vermos livres deste incompetente Governo. E, para aliviar o espírito, pela primeira vez dentro da Chanel com o Nº5, claro.



Nos últimos tempos, tenho andado arredada do comentário sobre a actualidade política ou económica. É muito mais do mesmo e, cada vez mais, as coisas caminham no sentido da rarefacção. A indigência vai ganhando terreno e eu tenho andado com pouca paciência para me juntar ao coro que fala sobre temas estafados.

Mas hoje apeteceu-me fazer aqui o meu ponto de situação.

Também andava saturada das manipulações semânticas do Prof. Marcelo; mas agora tenho que admitir que até ele já se fartou de disfarçar ou aligeirar e tenho apreciado a contundência das críticas que tem feito. Neste domingo referiu a vacuidade da conversa de Passos Coelho ao lançar o tema da ‘refundação’ e a estranheza que lhe causa ver toda a gente ir a correr atrás de uma palavra oca. Já Pacheco Pereira, na Quadratura do Círculo, tinha dito o mesmo. É exactamente isso que penso. Daí não me apetecer falar disso.

Face ao estrondoso e incontornável desaire das políticas seguidas, e confrontado com a necessidade de um novo orçamento rectificativo ainda para 2012, e confrontado também com um orçamento calamitoso e inexequível para 2013, Passos Coelho resolveu atirar poeira para os olhos dos incautos com uma conversa nova: a refundação não se sabe bem do quê. Arregimentou Paulo Portas para vir fazer uma nova rábula, agora interpretando este o papel de mano bonzinho, fazendo de conta que estava a dar bons conselhos ao candidato a primeiro ministro Seguro e pedindo ao PS para se juntar ao Governo nessa refundação (que começou por ser refundação do memorando e, depois, já era do Estado Social ou, apenas das contas públicas). Sabe lá ele o que diz. E Paulo Portas, uma vez mais, prestou-se a isso. Triste figura.

E, por mais estranho que possa parecer, parte significativa dos deputados da oposição, quase todos os jornalistas e a blogosfera quase em peso foram atrás disso como cães a quem se lança um osso.  Refundação, refundação, rebéubéu, rebéubéu, pardais ao ninho.

Como é tal possível, é o que me dá vontade de perguntar (mas não pergunto pois agora, também eu, rebéubéu, estou aqui a falar da mesma coisa). Adiante.

Na minha opinião, com esta macacada da refundação, o que está em causa é tão só:

1. Apesar da carga de austeridade a que o país, passivamente, está sujeito, o orçamento de 2012 tem falhado em toda a linha e a situação do país está a agravar-se (como outra coisa não seria de esperar). Ou seja, a política deste governo é estúpida e perigosa e agora já se ouve por todo lado aquilo que antes poucos diziam: a dívida está a crescer assustadoramente e, a manterem-se as coisas como estão, não vai ser possível pagá-la em tempo algum, pelo que a dívida não fará outra coisa senão crescer. Ou seja, a austeridade sem lei a que o país está sujeito conduz ao agravamento da situação económica e financeira do País e ou é interrompida de vez ou o País é declarado insolvente em três tempos. 

2. O orçamento para 2013 segue a mesma política e os mesmos pressupostos que o anterior que já provou à saciedade (vidé o orçamente rectificativo aprovado pela calada) que é contraproducente e que conduz ao desastre. Mais: o orçamento para 2013 usa pressupostos irrealistas, ainda mais irrealistas do que os de 2012. Ou seja, o orçamento para 2013 já seria um horror se fosse exequível. Muito, mas muito, pior vai ser na realidade dado que, tal como está, causará miséria para nada, pois é inexequível e, a não ser rapidamente demitido este governo, conduzirá a novos rectificativos, cada vez piores, mais dolorosos e mais inúteis.

3. O governo não conseguiu ainda levar a cabo o que estava estabelecido no memorando no que se refere a medidas do lado da despesa. Não conseguiu fazer nada. Apenas consegue fazer o que é fácil, ou seja, roubar os cidadãos indefesos. Agora que está de calças na mão, ó tio, ó tio, sem saber o que fazer, resolve atirar poeira para os olhos da populaça que, assim, deixa passar o rectificativo para 2012 e o aborto para 2013, entretendo-se, em vez disso, a discutir a refundação, a carta de Passos Coelho a Seguro sobre a refundação, a resposta de Seguro a Passos Coelho sobre a refundação... e assim andamos.

4. Parece agora claro que a dita refundação não passa afinal da necessidade de cortar 4.000.000.000 euros na despesa do Estado. Ainda não ouvi dizer se são em acréscimo ao apocalíptico OE 2013 mas pressuponho que sim. Ou seja, o OE 2013 vai matar e esfolar e a parcela dos 4.000.000.000 euros relativa a 2013 vai ser para enterrar de vez. E como é que chegaram àquele cabalístico número? Com o jeito que se lhes conhece para contas tanto pode ser aquilo, como metade daquilo, como o dobro daquilo... como coisa nenhuma. Além disso, para chegar a um resultado tanto se pode aumentar o aditivo como diminuir o subtractivo. Ou seja, este tema atirado assim, sem fundamentação alguma, numa altura em que se deveria estar a analisar seriamente o desaire das políticas seguidas e a impedir, mas a impedir a sério, a sua continuação, é apenas poeira, poeira, poeira. 

5. Está ainda em causa um outro aspecto: a indigência (política? ética? moral?) dos deputados que, estando convencidos da desgraça a que está a ser sujeito o País, e não acreditando no OE 2013, o votaram favoravelmente. Optaram por defender a própria pele, de modo a não se sujeitarem a chatices dentro do partido, em vez de optarem por honrar os compromissos assumidos com quem os elegeu, ou honrarem o dever de defender o país. Uns cobardes. Uns frouxos. Uns zeros à esquerda. Uns inúteis.


Dito isto, que não se pense que não concordo com necessidade de racionalizar a máquina do Estado e com a necessidade de racionalizar as prestações e deveres do estado. Concordo. Há muito que pode ser feito. Jorge Miranda, Teodora Cardoso e muitas outras vozes insuspeitas têm-no também referido, identificando mordomias de toda a espécie e feitio. Mas mordomias não são direitos básicos.

Um ano e meio era tempo mais que suficiente para ter olhado para tudo isso e ter procedido a uma análise séria, honesta. Mas claro isso não é compaginável com ter ministros incompetentes, assessorados por putos inexperientes acabados de sair da universidade, ou gente especialista em ‘bocas’, gente arregimentada a trouxe-mouxe na blogosfera. Dizem agora estas luminárias que pediram a técnicos do FMI ou Banco Mundial para os ajudarem a ver onde cortar. Que tristeza. Que gente incompetente esta que, para arrumar a casa, ao fim de ano e meio de nada ter feito, tem que ir buscar técnicos estrangeiros. E que não se pense que esses técnicos vêm trabalhar à borla. Claro que não. Faço até ideia do custo dessa brincadeira.

Hoje ouvi Silva Peneda, em nome do CES, desancar à bruta neste Governo e nas suas estúpidas políticas, nomeadamente fazendo em pó o OE 2013 e aconselhando o Governo a apressar-se é a renegociar a dívida (nomeadamente, revendo os juros agiotas e alargando o prazo de amortização). Podem vir alguns idiotas de serviço dizer, uma vez mais, que não queremos nada disso. Gente estúpida que não é capaz de fazer operações aritméticas simples. Sem crescimento e com estes juros é impossível pagar a dívida. Impossível. Pelo contrário, a dívida vai continuar a crescer. E, quando isso for assumido publicamente (porque já o é, de facto, nos meios financeiros internacionais), a renegociação vem para cima da mesa mas, aí, já noutros moldes, ou seja, provavelmente aí através dos chamados hair cuts tal como já aconteceu na Grécia, ou seja, através do perdão de parte da dívida por parte dos credores. Só que, quando isso acontecer, é também parte das poupanças dos portugueses que vai à vida, nomeadamente a que é suportada em dívida pública (certificados de aforro ou de poupança, por exemplo).

Por isso, o que é indispensável fazer é renegociar já a dívida (revendo juros e prazos) por forma a deixar respirar a economia e, ao mesmo tempo, desencadear um programa de desenvolvimento do País e um programa de inversão de tendência demográfica. Se isto não for feito, o País desaparece enquanto nação soberana, passará a ser uma coutada de angolanos, brasileiros, russos, chineses.

**

Falar disto deixa-me piursa. Custa-me admitir que vivo num País governado por gente incompetente, ignorante, perigosa. Custa-me admitir que, perante um descalabro tão evidente e tão brutal, não haja quem interrompa este descaminho. Não temos um Presidente da República capaz, não temos uma Assembleia da República constituída na íntegra por gente honrada. 

No entanto, acredito que alguma coisa irá acontecer porque uma coisa assim não se aguenta por muito mais tempo. Alguma maria da fonte ou padeira de aljubarrota há-de aparecer. Mas, até lá, é uma chatice isto.

Por isso, se me permitem, e chamem-me nomes à vontade - que eu me estou nas tintas, vou pensar em coisas agradáveis. Venham comigo, vamos em busca de assuntos que cheirem melhor.




Contra o ex-Doce-Pasteleiro-Passos-de-Massamá, 
contra o Artista-de-Vaudeville-e-se-me-perguntam-Portas, 
contra o Vai-estudar-ó-Relvas, 
contra o Gaspar-não-acerta-Uma, 
contra o Borges-que-as-despacha-pela-Calada, 
contra o Completamente-Cínico-Crato, 
contra o Cavaco-ainda-estará-Vivo?, 
contra essa tropa fandanga toda,
 marchar, marchar. 
Pum. 
Abaixo o Governo.
Pum.

E viva o Chanel Nº5!
Viva! 
Viva! 
Pim.


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Bom, isto hoje foi uma seca para vocês, não foi...? Ainda estão aí, meus Caros Leitores...? Obrigada! E posso ainda convidar-vos para virem comigo até ao meu Ginjal e Lisboa? Venham, venham conhecer as minhas memórias que hoje voam em volta das palavras de Helder Moura Pereira. A música é uma fantástica interpretação de parte de uma ópera de Jean-Baptiste Lully.

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PS: Pela qualidade e genuinidade do comentário, permito-me convidar-vos a ler o que o Leitor Nuno Conceição escreveu sobre o post que pode ser visto clicando aqui. Discorda de mim e di-lo abertamente mas di-lo de uma forma que, verão, torna a leitura estimulante.

*

E, sobretudo, meus Caros Leitores, animemo-nos que tristezas não pagam dívidas.

Desejo-vos uma bela terça feira. 
E, mulheres da minha terra, vamos mas é vendo se as pás de virar pães estão em ordem.


segunda-feira, novembro 05, 2012

Retrato de um dia: manhã no Ginjal, com gaivotas, um pato, um pombo e muito Tejo e tarde com os meus meninos no Riso: uma exposição a sério; depois visita por dentro das fantásticas maquinetas eléctricas do Museu da Electricidade e, para terminar em beleza, lanche na maravilhosa Livraria Ler Devagar na LxFactory


Ontem à noite chovia torrencialmente quando me fui deitar. Hoje de manhã a sala estava cheia de água. A varanda entupiu e a água entrou. Por isso, o dia começou bem.

Na sexta feira o meu marido tinha-me prevenido que eu não arranjasse programas, que queria ter um fim de semana descansado, de pura ociosidade.

Mas se o sábado já foi bem repleto de afazeres e reuniões familiares, o domingo foi ainda melhor.

Não que vos interesse muito mas, talvez por um certo gosto diarístico que apenas com o blogue comecei a descobrir, vou contar-vos.

A começar o dia, caminhada junto ao rio. Um Tejo sombrio, carregado de canas, ramos partidos. Apenas duas gaivotas, voando baixo, como que ainda assustadas da invernia que se abatera de noite, como se assustadas por serem as únicas, como que querendo companhia.




As ruas, ali junto ao rio, ainda cheias de água. E, vindo não sei de onde, um pato, ou um ganso, nem sei. Junto a ele, um pombo. Ali andavam passeando, na maior amizade, passo certo, como se o pombo quisesse imitar o pato.




Mais à frente, em terra, longe do rio, num jardim, o relvado estava repleto de gaivotas. Gaivotas em terra, sinal de vendaval. Por isso, não as vi no rio. Vieram abrigar-se aqui.




Ali andavam, domésticas, outonais. Vendo-as assim, quem as diria capazes de soltar grandes asas e vogar pelos grandes espaços, sobre as águas?

O almoço foi em casa e constou de bacalhau cozido com batatas, feijão verde, grão e ovo cozido. Sabe sempre bem.

Depois, logo a seguir ao almoço, eis que rumamos ao belo Museu da Electricidade. 



Museu da Electricidade - O Riso: uma Exposição a Sério


A minha filha tinha sugerido 'O riso: uma exposição a sério' e, se o tema é o riso, não havia como lhe fugir. A Fundação EDP e as Produções Fictícias organizaram e José Manuel dos Santos, João Pinharanda, Nuno Artur Silva e Nuno Crespo comissariaram. Gente inteligente, culta, gente que prometia.

Ou seja, portanto lá fomos todos. Uma festa.


Música, por favor: um dueto improvável


Manuel João Vieira e Mónica Ferraz



Visitar exposições assim com três crianças pequenas, irrequietas e muito bem dispostas é uma alegria e o riso já está presente mesmo quando a exposição não é sobre o riso. A quarta criança também é pequena, ainda mais pequena que os restantes, mas ainda não corre de um lado para o outro.



Entrada da Exposição do Riso: um grande careto encarnado à esquerda


Repare-se logo à entrada os três homens a rir, esculturas de Juan Muñoz. E repare-se também na instalação à direita. entramos e percebemos logo o que nos espera. As crianças ficaram logo agarradas.



A Passerelle de Joana de Vasconcelos


Trata-se daqueles cães de louça que algumas pessoas de apurado gosto decorativo gostam de colocar no jardim. Aqui encontram-se suspensos pela coleira. Accionando um pedal, aquilo começa a andar à volta e os cães, batendo uns nos outros, acabam por se ir escaqueirando e, vendo o que acontecia, só se pode elogiar o sentido de justiça da autora. 

Os miúdos estavam doidos com aquilo. Por vontade deles, ficavam só ali. Foi um castigo para os arrancar de lá.

Ouvi agora no Câmara Clara o José Manuel dos Santos dizer que têm um stock de cães para reposição. 

Como poderão imaginar, apesar de sermos vários adultos, tomar conta de três perdigotos pequenos que voltam atrás para ver o que lhes despertou atenção ou que vão a correr para ver alguma coisa mais à frente,  no meio da muita gente que estava a ver a exposição, não é fácil. Se a isso somar o tirar fotografias, perceberão que não consegui ver a exposição com o sossego devido nem fixei a autoria de muitas peças. Por isso, desculpem-me, por favor, a falta de rigor nestes apontamentos.



Senhora pirosa armada em madama e a sua casa a condizer,
cadeiras e sofás repletos de almofadinhas de cetim
com pompons, rendinhas,
em azul cueca, rosa bebé, verdinho, amarelinho,
jarrinhas com flores artificiais,  vitrines com pecinhas e arrebiques -
uma casa igual a tantas que há por aí, kitch, kitch 


A exposição tem inúmeras peças, pintura, escultura, gravura, instalação, cartoon, ilustração, etc, tudo de grande qualidade, tudo revelando a inteligência da escolha. Está organizada por secções e, todas elas, merecedoras de atenção e mente aberta.



Estupidamente não fixei a autoria desta fantástica peça que tanto me fez rir
e que tanta  atenção desperta: uma mulher  de gatas com o vestido (de noiva?),
com os folhos pela cabeça e nestes lindos preparos por baixo 


Logo a seguir uma peça extraordinária, deliciosa, revelando o extraordinário sentido de humor da autora.



Da autoria de Paula Rego esta obra de que não sei o nome
mas que é, toda ela, uma graça.
Os olhos são aquelas molas de plástico com que se prende o cabelo.
Os dentes das molas, fazem de pestanas.
Paula Rego tem nesta exposição mais uma série de obras,
nomeadamente as suas fantásticas histórias em gravuras


E se é divertido e estimulante ver uma exposição destas, imaginem o que é vê-la, vendo a reacção das crianças. Divertimento, descoberta, surpresa, irreverência - tudo em estado puro.

Há também a secção dos espelhos deformantes e, aí,  foi outra festa. Todos gordos, largos, multiplicados. Não vos mostro para não ficarem a achar que na minha família somos todos quadrados, gigantes, obesos. Mas, ao ver as fotografias, já me fartei de rir.



Também não sei a autoria mas é do mais insólito que há


E depois há os inúmeros objectos que nos fazem rir, como este (que tem o seu quê de misógino).



A esposa ideal, instantânea, liofilizada.
Coisa de um homem claro: que grande lata...!


Manuel João Vieira, pessoa por quem nutro grande admiração e de quem já aqui falei várias vezes e que hoje assegura, por estas bandas, o acompanhamento musical, tem peças memoráveis como, por exemplo, este cão.



O dálmata salazarento
Manuel João Vieira no seu melhor


E acabo por aqui a conversa sobre a exposição para não me tornar maçadora. Mas não pensem que me vou já embora... Qual quê...? A tarde ainda ia a meio.

É que, estando nós no Museu da Electricidade, era uma pena irmo-nos embora sem o visitarmos e sem vermos a maravilhosa vista que dali se alcança.




E não é só a vista e os geradores e turbinas e outros gingarelhos. É que, depois, há aquelas maravilhosas maquinetas de cores vivas que as crianças operam sem precisarem de ajuda ou explicações e que, dando à manivela ou carregando nos botões, se iluminam ou fazem andar comboios, ou mexem, ou fazem tantas coisas.




E há aquelas em que a realidade e a imaginação se entrepenetram e que fazem os meninos ter vontade de entrar por elas adentro.








E depois o bebé teve fome e já não achava graça a nada e só rabujava e teve que mamar ali mesmo.

E depois estávamos todos com fome e com vontade de ir lanchar.

E, sobretudo, face ao comportamento dos três pestinhas, corríamos sérios riscos de ser expulsos de lá.

Então, o meu filho lembrou-se de irmos lanchar à Ler Devagar na LxFactory. Lá fomos, portanto.

Maravilhosa livraria. Maravilhoso espaço. Amplo, livros por toda a parte, máquinas voadoras, objectos improváveis, escadas, estantes infinitas, recantos, mesas, espaços de leitura, um labirinto que dá vontade descobrir.



Ler Devagar - Livraria na LxFactory


Ainda assistimos ao final de um concerto que também lá decorria, lanchámos, os miúdos maravilharam-se e eu, a contragosto, fui de lá arrancada.



A Ler Devagar fica na Lxfactory  que fica em Alcântara, tem sítio para estacionar  e muito que ver
especialmente nos dias de feira de rua



A Ler Devagar tem uma Agenda Cultural  variada e interessante


Saímos de lá já era de noite. Escusado será dizer que alguns, mal os carros se puseram em andamento, ferraram imediatamente a dormir. 

Para finalizar (e que o Gaspar não me ouça): o único gasto foi o do lanche. A exposição é gratuita, o museu hoje também o foi (não sei se é sempre ou se foi hoje, por ser domingo). 

Ou seja, ainda é possível passar uma tarde muito bem passada e não apenas não ficarmos mais pobres mas,  ainda, ficarmos mais ricos, mais felizes, mais bem dispostos. 

Terei que lá voltar, ao Riso, com mais sossego. À Ler Devagar também, claro, uma e outra e outra vez.

E a ver se o próximo fim de semana é, então, de descanso. Porque este.... ufffffffffffffffff....


*

E, se ainda não estiverem fartos de me aturar, confesso que muito gostaria de poder continuar na vossa companhia por mais um bocadinho, agora ali ao lado, no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras andam sobre as águas em volta de um poema de Luís Filipe Castro Mendes, Poeta e Embaixador, Prémio António Quadros 2012. A música por lá é de Jean-Baptiste Lully.

*

E é isto.
Desejo-vos, meus Caros leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda feira.
Muito riso e pouco siso é o que vos desejo.

domingo, novembro 04, 2012

Numa noite de chuva, palavras de amor (Cet amour e Pour toi, mon amour de Jacques Prévert) para acompanhar uma mulher nocturna. Jeanloup Sieff fotografa.




Passa das duas da manhã, chove vertiginosamente, a chuva enche de brilhos a vista nocturna a partir da minha janela, mas - vendo bem - as luzes que avisto são as luzes da sala misturadas com as da cidade adormecida. Mundos misturados. Estou aqui sozinha na minha sala, escolho as imagens e as palavras que vos vou mostrar e o meu pensamento mistura-se com o pensamento de quem escreveu as palavras que estou a ouvir..

Estas são as horas mais íntimas, as horas cheias de noite, silêncio, as horas em que as ideias e as palavras voam sem obstáculos, sem lógica, estas são as horas de todas as liberdades.




Não tenho motivo nem pretensão, nem explicação. Nem propósito. Nem malícia ou pudor. Nada.

Só tenho palavras soltas, perdidas. Pura vagabundagem nocturna. 





E, depois, as palavras de amor, o som das palavras, palavras caindo como água numa janela iluminada. Os pássaros ausentes, os sorrisos adormecidos, os barcos recolhidos, apenas silêncio. E eu, aqui, delirando numa sala embalada pela chuva forte na janela, o rio enegrecido, o farol sem luz, a cidade longínqua, dormente. E eu aqui.




Chamaram-me Artemes. Artemisa. Escreveu-me o poeta poemas de amor em que eu era Artemes. Deusa eu, inacessível.

Natália também escreveu sobre ela, assim.

Quando a lua se envolve em túnica ligeira
e um alado segredo no ar fragrante ondeia,
de Artemisa é a noite virgem e alta. Suave.
serenamente cheia de intacta novidade.

...

Alta e branca Artemisa entra no mar e desata
a trança. Boiam na água seus cabelos de prata;
e a sombra num odor branco por jasmins a brotar
escorre para os brilhos silenciosos do mar.


Mergulho, pois, na noite, nesta noite que escorre doida de chuva. O silêncio que me envolve escorre na janela. E uma pequena luz aqui ao meu lado, companhia suave, um calor muito doce. E vocês aí.




E eu, meus Caros Leitores - nesta noite sonhada e leve, cheia de chuva, a alma lavada, as flores esmagadas que perfumam o ar que respiro - penso em vós, aí desse lado sem que eu vos possa ver os olhos ou sentir o calor das vossas mãos. E eu aqui, secreta, nocturna, escrevendo-vos palavras soltas, sem tino ou preceito, tão perto de vós, quase vos tocando com a minha respiração, com os meus dedos vadios que escrevem palavras que voam sem dono, que vão sair daqui voando até vós.


*

As fotografias a preto e branco são de Jeanloup Sieff.  

O poema de Jacques Prévert Cet Amour é dito por Jeanne Moreau. 

O poema Pour Toi mon amour, também de Jacques Prévert, é dito por Gilles-Claude Thériault, ouvindo-se Chopin interpretado por John Michel, violoncelista, e Lisa Bergman, pianista.

*

E penso em vós, agora, para vos desejar, meus Caros leitores, um domingo muito bom. 
Saúde, afecto e alguma loucura é o que hoje vos desejo.

sábado, novembro 03, 2012

Sobre o amor, seja ele do puro, do impuro, do sonhado, do desejado, do proibido. A voz a quem o sabe cantar, dizer, dançar, viver. Vasco Graça Moura, Billy Paul, Melody Gardot, Edith Warthon, Michelle Pfeiffer, Daniel Day-Lewis, Shakespeare, Alan Rickman, Grupo Corpo e Lecuona. Até porque 'é mais doce no outono a tua pele'


                                             despi-la dos reflexos nervosos da seda moirée lilás.
                                             desapertar-lhe as rendas devagar. deixar-lhe
                                             as pérolas apenas sobre o peito. ver-lhe a pele
                                             luminescente e branca na semiobscuridade.
                                             descalçá-la e afagar-lhe os pés.
                                             beber riesling de olhos nos olhos, incandescentes.
                                             aspirar o seu perfume de água de rosas.
                                             desatar-lhe as cascatas negras do cabelo.
                                             tocar a macieza do seu colo, sentir pétalas.
                                             e ousar percorrer-lhe as sombras.
                                             estremecer sem poder ainda acreditar.
                                             ver a luz das velas a reflectir-se nos espelhos
                                             como estrelas a transformarem-se em música e gemidos.






                                                falo às vezes do amor, dos seus dilemas,
                                                e das noites de insónia em que me viro
                                                para um e outro lado, mas prefiro
                                                que o próprio amor escreva os meus poemas.

                                                se o faz, à própria vida é que retiro
                                                casos por mim passados e outros temas,
                                                para depois usar estratagemas
                                                de mentira e verdade e lhes adiro.

                                                e então digo e desdigo e contradigo
                                                o dito e o não dito, e deixo o gosto
                                                das entrelinhas do que não consigo

                                                dizer de outra maneira e é suposto
                                                andar a vida toda em mim, comigo:
                                                e assim falo do amor e do teu rosto.






                                                ela guardava os sentimentos
                                                como um animal ferido que se agarra
                                                à vida por de dentro

                                                e a vai perdendo devagar
                                                enquanto sangra e sofre
                                                emudecendo.

                                                então beijavas-lhe
                                                os seus próprios gemidos, a sua
                                                desolada liberdade, o que no seu

                                                olhar se enevoava,
                                                não lhe peças mais nada,
                                                não lhe digas

                                                mais nada, mas não deixes
                                                que a noite toma conta dela e
                                                dite as suas leis.






                                                  como sentir a tua cara rente
                                                  à minha e as tuas mãos nas minhas, ou
                                                  como se a dança amarguradamente
                                                  nos desse nesta noite ainda um slow

                                                  levado a medo, apenas a ternura
                                                  a conduzir de leve os nossos passos
                                                  e o corpo estremecendo-te à procura
                                                  do seu lugar na grade dos meus braços,

                                                  e a luz, fina película de vidros
                                                  por entre a frialdade de janeiro,
                                                  a trespassar os corações partidos
                                                  estranhamente, e o meu sendo o primeiro,

                                                  como se não doesse o que doía
                                                  na própria dor tingida de alegria.






devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele.







                                                    My mistress' eyes are nothing like the sun;
                                                    Coral is far more red than her lips' red;
                                                    If snow be white, why then her breasts are dun;
                                                    If hairs be wires, black wires grow on her head.
                                                    I have seen roses damask'd, red and white,
                                                    But no such roses see I in her cheeks;
                                                    And in some perfumes is there more delight
                                                    Than in the breath that from my mistress reeks.
                                                    I love to hear her speak, yet well I know
                                                    That music hath a far more pleasing sound;
                                                    I grant I never saw a goddess go;
                                                    My mistress, when she walks, treads on the ground:
                                                    And yet, by heaven, I think my love as rare
                                                    As any she belied with false compare.


*

Este último poema, em inglês, dito encantatoriamente por Alan Rickman, é o Soneto 130 de Shakespeare.

Todos os outros são de Vasco Graça Moura, podem ser lidos no seu novo livro, 'Poesia Reunida', e chamam-se respectivamente: 

                                                        o rei e lola montez: infinitos
                                                        soneto de companhia
                                                        o fim da noite
                                                        como a sentir a tua cara rente
                                                        setembro - o último verso

A primeira canção é Me and Mrs Jones e prefiro esta versão de Billy Paul à do Michel Bublé. Este tem voz de veludo mas, para esta canção, pede-se mais que isso, pede-se um tom imperfeito, com um certo sabor a a pecado, e a voz de Billy Paul, em minha opinião, sugere isso. As imagens que acompanham são consideravelmente kitch mas, enfim, foi o que se arranjou.

A canção seguinte é Love me like a river does e é de Melody Gardot que, como é sabido, tem uma voz que apela à sedução, à intimidade. Neste caso as imagens são mais do meu agrado.

O filme é a Idade da Inocência, baseado na obra de Edith Warthon e é interpretado por Michelle Pfeiffer, Daniel Day-Lewis e Winona Ryder.

Finalmente o Grupo Corpo, que tem assento cativo no Um Jeito Manso e que, somo é sabido, eu adoro, interpreta (maravilhosamente) mais uma composição de Lecuona.

*

Desejo-vos um sábado (chuvoso e ventoso) bem aconchegado e feliz. 
E, se possível, cheio de amor ou de vontade de o encontrar.

*

PS: Volto às entradas no Um Jeito Manso através de palavras que se escrevem nos motores de busca. Gosto sempre de ver estas estatísticas. É o meu momento Monty Python. Farto-me de rir e, frequentemente, acho que não faz sentido pois não percebo como, escrevendo aquilo no google, se vem parar aqui. 

Hoje para além de algumas mais 'normais' como 'Kandinsky', 'Chirico', 'alfarrabistas na guarda', 'antiquários', 'grandes cavalos azuis', 'Ana Drago', etc, lá voltou a aparecer, e mais do que uma vez, 'mulher de vítor gaspar' (pessoa de que nunca falei nem imagino quem seja), e, reparem bem, estas duas que me deram que pensar: 'Preferência dos portugueses nas relações sexuais' e, imagine-se, 'susana desdentada'.

Alguém escreveu 'susana desdentada' (quem será ela?) e veio cá parar. Tentei reproduzir o facto para ver a que mensagem ia ter mas não descobri.  Só espero que não fosse parar à mesma mensagem a que se vai ter quando se quer saber qual a preferência dos portugueses nas relações sexuais. 

sexta-feira, novembro 02, 2012

Lídia, a mulher que era triste e que agora se descobre uma mulher bem diferente, tem a sua primeira noite de amor (e faz de Paulo um homem muito feliz) - The End





O coração de Lídia quase saltava do peito. Mesmo que lhe ocorresse tentar controlar-se não o conseguiria. Enervada, enervada. Mas, apesar disso, uma determinação inesperada batia mais forte. Não recuar, não recuar, pensava surdamente. O que fazer, como fazer, seriam perguntas a que, se as formulasse, não saberia responder. Reparou que Paulo também não estava tranquilo como habitualmente. Não conseguia abrir a porta do quarto, virava o cartão em todas as direcções e a porta não abria. Depois respirou fundo, endireitou-se, e tentou de novo. A porta abriu-se mas ele não se riu como se teria rido noutras circunstâncias.

Lídia pensou vagamente que não devia fazer sexo inseguro mas não conseguiu pensar muito mais do que isto. Não saberia como o evitar, não estava prevenida para nada. Sentia-se a tremer e já nem se lembrava da dor nos pés. Paulo disse, Se quiser, pode descalçar-se. E dê-me o casaco que eu penduro aqui no roupeiro. Lídia tremia, não disse nada, não se descalçou e quase não conseguia despir o casaco. 

Paulo disse, Quer aqui vir ver a vista do quarto? 




Lídia foi mas sem acção, É bonita, disse sem qualquer convicção e só pensava E agora? E agora o que faço? Que medo, que nervos.

Paulo perguntou-lhe, Quer que ligue a televisão?, mas sabia lá ela se queria, se não. Encolheu os ombros. Paulo ligou a televisão.

Depois durante um instante os seu olhares cruzaram-se mas logo o desviaram. Lídia pensou, Se não fosse a vergonha de fazer figura de parva, ia-me já embora. 

O quarto era pequeno e estavam os dois de pé, notoriamente atrapalhados, desconfortáveis.

Paulo disse, O quarto é pequeno, se houvesse uns sofás, eu dizia para a gente se sentar, assim só posso oferecer a cama. Mas Lídia continuou de pé. Depois pensou, Mas que situação mais ridícula, aqui de pé, especada no meio do quarto. Paulo tinha-se sentado na cama, de lado. Permaneciam em silêncio. Depois, sentindo que não seria possível prolongar por muito tempo a situação, Lídia também se sentou mas do lado contrário. E ali ficou, de lado, a olhar para o chão. Até que, olhando num relance para Paulo, lhe deu vontade de rir. Que situação, que figura. Talvez fosse dos nervos, um escape, qualquer coisa; o certo é que nem se reconhecia na incontrolável vontade de rir. Ria, ria. Paulo também se desatou a rir e, às tantas, já riam os dois à gargalhada, Lídia chorando de riso como nunca antes lhe tinha acontecido. E, então, Paulo aproximou-se e abraçou-a e, como se nem mais nem menos, beijaram-se.

Depois Paulo baixou-se e disse, Vou tirar-lhe os sapatos, vou pôr água a correr na casa de banho, senta-se na beira da banheira e põe os pés de molho que eu a seguir dou-lhe uma massagem nos pés. Pode ser? Lídia pensou, Se me sento com os pés dentro de água, na banheira, vou ficar com as calças encharcadas e então disse, Já agora tire-me também as calças.

Paulo quase caíu para trás. Sério...!?, perguntou, duvidando do que tinha ouvido. Lídia disse, As calças são justas em baixo, não dá para as pôr para cima, se me ponho de calças na banheira, molho-os todas. Paulo riu, É o sentido prático das mulheres… Mas eu tiro-lhe as calças com todo o gosto. Baixou-se e tirou-lhe os sapatos. Lídia pensou que ia ficar ridícula sem calças e de meias pelo joelho e, por isso, disse, Tire-me também já as meias. Paulo obedeceu.

Lídia, então, levantou-se e deixou que Paulo lhe tirasse as calças. E pensou, Felizmente comprei lingerie de jeito antes de vir. Quando a viu, Paulo quase ficou fulminado. As pernas de Lídia eram bonitas e as cuecas eram inesperadas, muito cavadas, de seda muito fina, cor de pele, debruadas a renda um pouco mais escura. Paulo quase instintivamente ia tocar mas Lídia não o deixou, Não senhor, não permito tais ousadias a um massagista e, alguém de fora que a visse, não a reconheceria, decidida e maliciosa. Foram então para a casa de banho.

Lídia disse então, Não sei, parece que me estou a sentir desenquadrada, assim despida. Vou fazer uma coisa. Descalce-se também. Paulo obedeceu. As meias também. Paulo obedeceu. Depois Lídia desabotoou-lhe o botão das calças. Paulo estava quase em ponto de rebuçado. Lídia lentamente pôs-lhe as calças para baixo. Paulo nem se mexia. Na verdade, quase nem respirava. Lídia disse, Tem que ajudar, levante um pé, agora o outro. E Paulo ficou assim, também sem calças, o desejo exposto. Lídia, se parasse para pensar, não se reconheceria. Mas pensar era coisa de que ela não iria ser capaz naquele momento.

Sentaram-se, então, os dois na borda da banheira, os pés lá dentro, sentindo a água quente que corria. Que bom, que bom...  E ficaram assim, por um momento, em silêncio.

Mas depois Lídia disse, Há uma coisa, Paulo.

Paulo sorriu, Sim... diga, estou preparado para tudo.

Mas Lídia atalhou, Não, não é mais nenhuma revelação. Não é isso. É que, se vai acontecer alguma coisa, acho que deveríamos ter cuidados...

Paulo abraçou-a, brincando, Oh minha senhora, esteja descansada, está tudo previsto...

Lídia ficou surpreendida, aborrecida, Mas então já veio para cá a pensar nisto...? Já estava a contar com isto?! É muito convencimento da sua parte. Ou isso não tem a ver comigo? Anda sempre prevenido para o que der e vier?

Paulo foi muito directo, Não Lídia, não ando sempre prevenido, não ando por aí à caça. Mas é verdade que admiti que, aqui, poderia acontecer qualquer coisa. Somos adultos, livres, gostamos um do outro.  Não tem mal, é normal, é saudável. O sexo é uma coisa boa, faz parte da vida, não é pecado, não deve ser encarado com culpa. Eu quero, Lídia. A si não lhe apetece?

Depois abraçou-a. Lídia suspirou. Depois disse, Vou fazer uma coisa que há muito tempo ando com vontade de fazer. Desabotoou-lhe, então, a camisa e com as duas mãos sentiu a pele de Paulo, o peito peludo, o tronco, mexeu, sentiu, acariciou. Paulo estava imóvel, deixava que ela fizesse o que queria, quase em transe com as inesperadas carícias. Lídia nunca tinha experimentado uma sensação tão boa. A pele quente de Paulo, o corpo tão desejado de Paulo. Depois, olhando-o nos olhos, disse-lhe, E eu? Não tenho direito a nada…? Paulo nem percebeu. Lídia esclareceu, Quero eu dizer: não tenho direito ao mesmo tratamento? Paulo apressou-se, Claro! e, desajeitadamente, tirou-lhe a blusa. E ficou quase de boca aberta, de olhos fixos, sem pestanejar. Lídia tinha um soutien igual às cuecas, um soutien gorge, muito decotado, muito sensual. Parecia estar quase sem lingerie, não fora a renda ligeiramente mais escura que debruava as pequenas peças. Tão bonita, Lídia, tão bonita…

Lídia sentiu-se desejada e isso ainda ateou mais o desejo nela. Numa fracção de segundo passou-lhe pela cabeça o que a sua amiga Mary costumava dizer na brincadeira, que umas gotinhas de Chanel nº 5 vinham sempre a calhar. Devia ter pensado nisso. Mas, agora, paciência, logo compraria no aeroporto.

Quando saíram da casa de banho a caminho do quarto, Lídia disse, Já anoiteceu. E foi até à janela. Andando pelo quarto apenas em lingerie, sentia-se livre, sensual, sentia-se desejada. Olhou a rua. 




Numa curva da rua, um andar iluminado de azul, uma festa, gente animada.  Chovia. E o som suave da chuva, as luzes que iluminavam a noite, tudo, tudo convidava ao aconchego, à proximidade, ao abraço quente e bom, ao calor dos corpos que se querem. 

Lídia deixou-se ficar assim, quase nua, à janela. Paulo estava quase sem reacção, tão bela e desejável a via, recortada contra a janela, impúdica, imprevisível, outra.

Depois virou-se, feminina, sedutora, e perguntou-lhe, Posso despir-me ou ainda me quer ver mais um pouco? e o sorriso era de pura malícia. 

Paulo sorriu vagamente, rendido, seduzido. Não, não dispa ainda, deixe-me ver melhor. Vire-se. E Lídia virou-se, sensual, provocante. Depois, passado um pouco, disse, Agora já chega, e, então, lentamente, começou a despir uma alça, outra alça, devagar, e depois, uma perna, e depois, muito, muito lentamente, outra perna e os movimentos eram quase felinos, provocantes. E ficou nua, disponível, olhando um Paulo extasiado, e o olhar dos dois era de desejo, puro desejo. A seguir disse, e a voz era quase um sussurro, rouco e quente, Então prepare-se para eu ver como é, que de futuro faço eu. Paulo, quase tímido, obedeceu. Lídia disse, Agora deite-se, Paulo. E Paulo deitou-se.




E, então, Lídia sentou-se em cima dele e, com cuidado, com deleite, inaugurou o prazer de ser mulher.

Depois abraçaram-se, beijaram-se, felizes, saciados, e o carinho era tanto, mas tanto, que os olhos de Lídia estavam molhados mas as lágrimas eram lágrimas de felicidade e Paulo disse-lhe, Que amor tão grande que eu sinto, Lídia, há tanto tempo que eu não me sentia assim, Lídia, gosto tanto de si, tanto, tanto. 




E Lídia, abraçou-o ainda mais, enlaçada nele, com vontade de partilhar a mesma pele, com vontade de lhe beijar o coração, E eu nunca antes tinha sido tão feliz, Paulo, meu amor mais querido. 


FIM


*
Chega assim ao fim a minha história de Lídia, a mulher que era tão triste e que, aos poucos, foi aprendendo a viver.

Começa agora a história de Lídia e Paulo. Se eles fossem de verdade, desejar-lhes ia toda a sorte do mundo. Assim, desejo apenas que permaneçam algum tempo na memória de quem, aqui, os conheceu.

Gostava muito que esta  história servisse para iluminar um pouco a vida de alguém. Ou, pelo menos, o dia de alguém. Ou, pelo menos, este momento do dia de alguém.

*

A música é de Chopin, Nocturnos 20 e 2, e é interpretada por Adam Harasiewicz.

Relembro que, caso queiram ler a história desde o início, deverão procurar nas etiquetas aí ao lado direito, lá mais para baixo, 'Lídia, uma mulher muito triste'

*

E a vocês, meus Caros Leitores, desejo que também festejem a vida e o amor e que procurem conquistar momentos que fiquem, para sempre, gravados no vosso coração.

Tenham uma bela sexta feira!