quinta-feira, agosto 09, 2012

Homens, mulheres, piropos, seduções, ambiguidades


Like a man


Adam Cohen - (o filho de seu pai) em Like a Man

*

Nesta fase pós-operatória em que me encontro, tenho que fazer recuperação e, de preferência, em piscina. Assim, fui à procura de uma nesta cidade abrasada, nestes dias de um calor que nos desfaz. Mas, por esta altura, as piscinas fecham para manutenção pelo que não foi fácil descobrir uma que me conviesse.

Finalmente lá a descobri e foi um prazer voltar a poder nadar. Sou bicho de água e se há coisa de que gosto é de estar dentro de água, mergulhar, flutuar, passear-me dentro de água. No entanto, dada a escassez, a piscina estava lotada demais para o meu gosto.




Mergulhei e quando abri os olhos ao meu lado, mas mesmo ao meu lado, estava uma outra mulher. Nadava junto a mim e, não fosse eu saber que não estava numa piscina a fazer natação sincronizada, quase julgaria que os céus tinham despejado ali uma mana gémea para nadar quase colada a mim, repetindo os meus movimentos. Só lhe faltava a mola no nariz. Impudica, quase inconveniente, por pouco não se enlaçava em mim.

Maçada com aquela insólita situação, saí da água e fui-me embora, decidindo que a recuperação, a partir de agora, será feita em seco.

Mas fiquei aguada. Tinha-me mentalizado para uma boa hora de molho, para sentir o meu corpo envolto em água. Não há carícia mais suave do que a da água num corpo nu.

Então, antes de, à tardinha, me dirigir directamente a uma vernissage para a qual tinha sido convidada, vernissage seguida de jantar e soirée dançante, meti-me no carro e, com esforço, conduzi até uma praia praticamente desconhecida. Ninguém. É certo que a noite quase caía mas tanto calor e aquela praia vazia. Tive vontade de me despir toda, de ir nadar nua naquele mar tão convidativo. No entanto, manda a mais elementar prudência que alguns cuidados sejam mantidos. E assim limitei-me a despir a saia.




De resto, mantive tudo e ainda acrescentei uma capeline que, para um just in case, trago sempre no carro e que bem jeito já me tem dado. A minha pele é branca e com este sol, apesar da hora tardia, há que não expor muita superfície de corpo. Aliás, não estando a prever este desvio de rota, nem protector solar tinha levado. E, assim, com as minhas meias de seda preta, cinto de ligas, luvas altas e capeline (noir aussi, what else?) lá passeei pela beira de água, aspirando a maresia que tanto me inspira. 

A quem nunca tenha experimentado a extraordinária sensação de passear numa quase noite de verão, numa praia deserta, quando a aragem se torna suave, quando o ar que se aspira não é salgado mas sim estranhamente doce, digo que é coisa que não se deve perder.

Mas tão encantada estava que acabei por me molhar mais do que devia e, assim, dali acabei por não ir directamente para a festa. A noite podia esperar. Voltei a casa, sentindo-me purificada, baptizada de novo.

Despi-me, tomei um duche para não ir com areia ou salpicos de mar. E, claro, com esse estado de espírito já não fazia sentido ir vestida in black. Tinha que ser branco, virgem.

Quando estou com pressa e não tenho uma ideia bem definida, é um saltar de vestidos do roupeiro que não vos digo nada. A chaise longue que tenho no meio do quarto de vestir fica pejada, pejada de roupa.

Até que lá me acertei com um Dior. Acho que era excessivo para a ocasião mas tenho dias assim, toda eu um excesso. Sabia, claro que sabia, que ia ser olhada de viés, mas quero lá eu saber disso. Até porque se os olhares de viés forem masculinos são (geralmente) muito bem vindos. Discretos, educados, mas, por favor, que existam. E, se acompanhados por um piropo, e se o piropo for dito com inteligência, charme, aparente contenção, tanto melhor. E, se o homem for inteligente e saudavelmente sedutor e, se a mulher estiver para aí virada, até se perdoará algum instante de indiscrição, algum inteligentemente disfarçado toque de mal contido desejo. Tudo dentro dos limites da decência, bien sûr. A menos que a mulher permita e aprecie algum laivo de indecência. Tudo depende das circunstâncias e dos actores. Mas mulher que se dress to impress sentir-se-á magoada se não notar, nos outros, o efeito da produção. Homens apáticos, indiferentes, que - perante uma mulher que notoriamente gosta de seduzir e ser seduzida - se mantenham estupidamente inalterados, continuando a conversar assepticamente e seguindo no seu universo paralelo (isto é, sem qualquer intersecção com o universo da mulher, nem sequer a intersecção do olhar), fazem a mulher sentir-se invisível, desinteressante, nula. E isso é imperdoável.




E, portanto, blanche, vestida com um suavíssimo Dior, lá me apresentei. Bem, não, o vestido não é bem branco, talvez um pérola, mas um pérola muito claro, luminoso. Poderá parecer-vos quente para a noite que esteve mas não. É levíssimo, poroso, e o ar circula livremente em volta do corpo. 

O meu amor, que já estava apreensivo com a demora (... não sei o que é feito do telemóvel pelo que nem o avisei de que ia chegar mais tarde), quando me viu, mal disfarçou a vontade de rir. 

Ia fazer-lhe um ar ameaçador para que nem ousasse dizer qualquer coisa de depreciativo mas corrigi a intenção e dirigi-lhe, antes, um olhar de desafio, de convite.

Viémos de cisne branco...?, sentindo-se incentivado, não resistiu, com aquele ar gozão que me tira do sério.  Não lhe respondi. Entre dentes, continuou, sussurrando, Mais logo tenho que ter o trabalho de te depenar antes de te ... Mas, aí, atalhei, Olha lá! ...E não é cisne nenhum, que ideia! Estava a sentir-me virginal a apeteceu-me vir com este vestido multi-usos. Assim, com ele completo, quase podia ser uma noiva mas, daqui a nada, quando for para dançar, tiro a parte de baixo e fica um vestidinho curto e, mais logo, quando sairmos, se estiver frio, como maravilhoso cavalheiro que és, colocar-me-ás essa mesma parte sobre os ombros, pois funciona também como capa. 

E afastei-me rapidamente antes que ele continuasse. As inconveniências ficariam para mais tarde e, inspirada como estava, já estava a imaginar os piropos que lhe iria arrancar.

Cumprimentei os anfitriões, os restantes convidados, fiz a usual small talk, ouvi elogios, uns sinceros outros nem tanto e senti sobre a minha toilette olhares surpreendidos, censores, incrédulos. 

Decorrido algum tempo, dirigi-me aos aposentos privados para retirar a parte de baixo do vestido que já me estava a aquecer demasiado, especialmente as pernas. 

Quando estava naquela manobra, dobrada, ouço uma inesperada voz, uma voz quase murmurada,  Precisa de ajuda? Estou habituada a lidar com toilettes complicadas, posso ajudá-la a ver-se livre disso. Quer? ... Posso?

Olhei e nem queria acreditar. Entre portas, uma mulher que já tinha visto de longe, também num inconfundível Dior, com uma venda que usava quase como uma máscara, dirigia-se a mim numa pose e num tom de voz muito dúbios, ou melhor, nada dúbios.




Fiquei sem palavras. Mas que era aquilo, senhores...? Ela ali, armada em femme fatale, boquinha de rosa, certamente um Rouge Dior. Pensei, mas querem lá ver...? Só me faltava agora uma destas...

E, então, ouço-a dizer, em voz baixa, insinuante, toda ela sinuosa: Que calor. Hoje, na piscina, sem roupa, estávamos bem melhor, não estávamos...?

Saí de lá quase a correr, com a parte de baixo do vestido meia solta, toda eu ofegante, quase assustada. O meu amor, quando me viu, percebeu que qualquer coisa de extraordinário se tinha passado mas, por mais que insistisse, não lhe contei. Por um lado, havia de gozar até ao fim da vida, nunca mais se havia de calar, e, por outro, a situação ainda era capaz de lhe despertar alguma ideia peregrina.

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As fotografias são de Patrick Demarchelier (nascido em França em 1943), fotógrafo de excepção com trabalhos fantásticos para as principais marcas e revistas de moda. As duas últimas aqui publicadas pertencem, efectivamente, a campanhas Dior.


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E tenham, Caros Leitores, uma quinta-feira em grande estilo. Na piscina, na praia ou no campo, sozinhos ou acompanhados, o que vos desejo é que se sintam bem e se divirtam.

quarta-feira, agosto 08, 2012

Onde está o amor


Um amor, se faz favor


Bob Marley (o amor com alegria) - One love



Hoje, na rua, deparei com uma imagem numa parede que despertou a minha atenção. Felizmente estava com a máquina fotográfica e registei. Colado na parede, um papel com duas criaturas com o ar mais desolado do mundo, braços pendurados, todos eles um luto, com um coração rasgado entre  os dois e as palavras ONDE ESTÁ O AMOR. Penso que faltará o ponto de interrogação mas, no meio da desolação que a imagem representa, talvez isso seja pormenor.



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Mais à frente, no vidro de uma loja, outra surpreendente inscrição, agora uma citação de Eleanor Roosevelt. A loja devia estar em redecoração pois a montra estava coberta por um papel cinzento. E então a inscrição, a branco, projectava-se, a cinza mais escuro, sobre o papel por baixo. Fiquei encantada. Tenho ideia que aquela loja vende bugigangas, bijuterias, vestidos de algodão indiano, sandálias, sacos de pano, coisas assim. E os donos lembraram-se de serigrafar aquela frase no vidro...? Tem graça, não tem?



'O Futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos', Eleanor Roosevelt


Como, por estes dias, não consigo interessar-me por nada de desagradável ou de profundo, ocupei a minha mente com um pensamento estival (ou superficial?): poder-se-á estabelecer alguma relação entre aquelas duas inscrições? O amor ou o desaparecimento do amor terá que ver com cada um  querer continuar a acreditar na beleza dos seus sonhos?

Não sou, em geral, dada a dissertações académicas nem a raciocínios muito aprofundados e, agora, nesta altura do ano, ainda menos. Por isso, não vou tentar rebater ou confirmar, muito menos elaborar cientificamente sobre o tema.

Direi apenas que penso que o amor é algo de fundamental na vida; e, quando me refiro ao amor, penso no amor entre duas pessoas, sejam ou não de sexos diferentes. Claro que há amores ainda mais fortes e incondicionais como o amor a filhos, netos, pais, mas não é a essas formas de amor consanguíneo que me refiro. 

Claro que há pessoas que vivem muito bem sozinhas, sem amores, ou que encontram formas de amor que as realizam e que são igualmente compensadoras: o amor a um deus, o amor a causas humanitárias, o amor por animais, etc. 

Mas eu disso não tenho uma experiência muito forte pelo que não vou aventurar-me por aí. 

Contudo tenho uma experiência razoável no que se refere a sentir amor por uma pessoa de outro sexo.

Desde que me lembro sempre me senti atraída por pessoas do sexo masculino. As minhas primeiras memórias estão ligadas ao meu primeiro amor. Eu abraçava-me a ele e dava-lhe beijinhos e dizia que estava 'rapaixonada', o que divertia quem assistia àqueles arroubos. Diziam-me que era apaixonada que se dizia mas eu não acreditava, não me soava bem, a palavra parece que ficava mais fraca sem aquele motor de arranque do 'r' no início da palavra. Isso foi muito antes dos 4 anos, antes de entrar para a escola infantil.

Grande parte das minhas memórias estão muito ligadas aos meninos de quem eu gostava ou que gostavam de mim. Acho que até hoje não houve um dia em que o meu coração não estivesse ocupado, por vezes apenas por um amor, algumas vezes por mais do que um.

Amores a sério tive talvez esse primeiro menino e esse amor infantil durou até ao final da primária (embora, pelo meio, eu tivesse acumulado com vários amores passageiros), depois um outro que era filho de colegas da minha mãe, um muito doido, que fazia maluqueiras para mostrar que gostava de mim e que fazia rir os nossos pais por tamanhas demonstrações de amor (esse, infelizmente, muitos anos mais tarde e já casado, pôr termo à vida, o que muito me impressionou pois não consegui reconhecer nessa pessoa que deixou de amar a vida o meu apaixonado e acalorado namorado dos primeiros anos de liceu).

A seguir veio o meu primeiro grande amor.

Esse meu grande amor aconteceu aos 12 anos e veio avassalador. Tudo o que se prenunciava nos meus infantis amores anteriores, aqui revelou-se em toda a sua força. Era uma paixão tremenda e era mútua. O meu coração disparava quando ele se aproximava. Aos 13 anos o meu corpo revelou-me que, nisto do amor, o corpo é parte interessada. As festas de ano em que podíamos dançar agarradinhos eram uma festa.

Era um rebelde. Já aqui falei dele algumas vezes. Era inteligentíssimo mas era um rebelde, desafiava pelo gosto de desafiar, metia-se em trabalhos, jogava muito bem futebol mas volta e meia andava à pancada, no recreio também andava por vezes na tareia e depois era chamado para repreensões, andava de motoreta e fazia arriscados cavalinhos, até na bicicleta ele fazia piruetas malucas e partiu parte dos dentes da frente; e eu vibrava com tudo isso. Até gostava ainda mais do ar irreverente que os dentes partidos lhe davam e defendia-o permanentemente junto dos professores que davam em doidos com o que ele fazia, tanto mais que era um aluno brilhante. Mas sendo os dois temperamentais, o nosso amor era uma montanha russa. Todos os dias nos zangávamos, todos os dias fazíamos as pazes. Até que entrámos num registo zen, um amor tranquilo e amigo, cúmplice. Era como se tivéssemos atingido uma certa maturidade. Tínhamos, então, 15 anos. Eu estava perdidamente apaixonada e ele por mim. Uma professora nossa chamava-lhe o Romeu e a mim a Julieta e isso pegou, volta e meia chamavam-nos assim. Era mal comportado, metia-se com a polícia e passou algumas noites na esquadra, era um verdadeiro enfant terrible mas, se lhe punham um poema à frente, lia com paixão e entrega e punha-nos, a todos, arrepiados e transidos de emoção.

Até que apareceu outro que se perdeu de amores por mim, que me fez poemas e canções, que demonstrava publicamente o seu amor, que desafiava o meu relacionamento 'oficial'.

Isso gerou tantos incómodos e tantos ciúmes que, estupidamente, por um daqueles acessos de orgulho imaturo, deixei que aquele grande amor fosse afectado.

Comecei então a namorar este novo apaixonado. Nos primeiros tempos o meu coração estava ainda cativo do meu outro amor mas, por orgulho, nunca o demonstrei. E esse meu grande amor, vendo a minha reacção e vendo-me a namorar com o seu rival, afastou-se debaixo de grande sofrimento. Os amigos comuns vendo o que se passava tentavam que cada um cedesse mas nenhum de nós o fez. Deixou de ir às aulas, perdeu o ano por faltas, arranjou amigos de hábitos duvidosos e toda a gente temeu pelo seu futuro. Depois de um período muito complicado lá conseguiu reencontrar o seu caminho e há tempos vi a sua fotografia, grisalho, com um pouco de barriga, um homem que eu não reconheço. Apenas me parece ver, no sorriso de boca entreaberta, os dentes da frente meio partidos.

O meu namorado era, então, um jovem mais velho um ano que eu. Eu tinha 16, ele 17. Ele gostava tanto mas tanto de mim que eu, durante bastante tempo, confundi o gosto de ser gostada de uma forma tão arrebatada e tão brilhantemente cantada, com o gosto de gostar. Eu era a sua musa e que belos poemas ele fazia, e que belas canções ele fazia, e que bela voz ele tinha ao cantar aquelas belas canções. Era alto, tinha uns olhos azuis violeta, umas pestanas grandes e um vozeirão. E toda a gente se encantava com aquele amor enorme que ele tinha por mim. Mas, com o tempo, tanto amor a mim começou a pesar-me. Eu era a vida dele. Eu era o seu futuro, a sua inspiração, a sua razão de viver. E isso era demais para mim. Na altura ainda não o sabia mas soube-o mais tarde: não gosto nem aceito ser a vida de alguém que não eu. Mas, apesar disso, eu gostava muito dele. Éramos grandes companheiros.

Fomos então para a Universidade, cada um para a sua. Eu tive, nessa altura, outros pretendentes. Achava graça, gostava de ser cortejada; mas nenhum me fez mudar de rumo.


Dance me to the end of love, if you please


Madeleine Peyroux
(Não consegui incluir aqui a versão original do Leonard Cohen)



Até ao dia em que, do nada, saíu o homem mais bonito que eu tinha alguma vez visto. Já aqui descrevi esse momento, acho eu. Ele tinha um físico fantástico, andava como se fosse um modelo ou um desportista (e mais tarde soube que tinha sido convidado para desfilar e que era, de facto, desportista federado), tinha um rosto fantástico e vestia-se de uma forma que me agradava muito.  No meio de uma multidão de gente, eu vi-o e fiquei presa a ele e ele, no meio da multidão, rodou a cabeça e fixou em mim o seu olhar. Nesse momento, só por aquele olhar e por ele ser fisicamente como era, senti, sem qualquer dúvida, que aquele era o homem da minha vida.

Mas perdi-o de vista, não sabia quem era. Por mais de um ano, andei desencontrada dele. Se calhava, de muito vez em quando, cruzar-me com ele eram sempre aqueles longos e carnais olhares. Nada sabia dele mas aquele corpo, aquele rosto, aquele olhar estavam reservados para mim, e isso eu sabia. Contou-me ele depois e só porque insistentemente lhe perguntei que, nessas alturas, os pensamentos dele em relação a mim eram muito prosaicos (e não os posso aqui revelar).

Eu continuava a namorar com o poeta cantor mas o meu coração estava pouco convicto, e continuava a ter pretendentes e continuava a pensar no belo desconhecido e a vida continuava.

Até que, um dia, já o meu namorado poeta-cantor fazia planos de casamento para o curto prazo, planos que eu ouvia com um crescente pesar no coração, me voltei a cruzar de novo com aquele jovem mais bonito que nenhum outro e de quem eu ainda nada sabia, excepto suspeitar que era ele o namorado muito louvado de uma antiga colega minha de liceu. E, então, sem querer saber de mais nada, fartei-me daqueles olhares e, porque a ocasião se proporcionou, comecei a falar com ele. Logo nesse dia foi levar-me a casa e até hoje nunca mais nos separámos.

Durante uns meses ainda vacilei. Contra a certeza jurada de um amor eterno, contra as outras belas palavras de amor, este nada me oferecia ou garantia. Nada. Poucas palavras, palavras apenas relativas ao momento presente. Estava pouco habituada a isto mas, nestas poucas palavras, eu sentia uma intensidade maior que qualquer outra antes.

E então, uns meses depois, e sendo-me cada vez mais difícil gerir a agenda já que os dois sabiam da situação e queriam exclusividade, finalmente rompi o namoro com o namorado que antes se recusava a aceitar que aquele amor eterno, ideal, idealizado, tinha chegado ao fim. Acabei da pior maneira, um bocado à bruta porque não consegui fazê-lo por consenso, a bem. Foi um fim doloroso e sei o sofrimento que causei.

Vejo-o por vezes em fotografias nos jornais ou em acontecimentos públicos. É um homem maduro, grisalho, com pouco cabelo, engordou um pouco mas mantém o garbo e a pose e o tom de voz é o mesmo. Foram anos difíceis para ele e durante muito tempo senti que a sua presença era uma sombra na minha vida, aparecia-me onde menos eu esperava, parecia que adivinhava os meus passos.

Algum tempo depois desse dia em que ouvi pela primeira vez a sua voz, apaixonada, mas mesmo muito apaixonada pelo jovem de poucas palavras, casei. Era uma miúda, tal como ele. Casámo-nos apaixonadíssimos, ainda estudávamos.

Já lá vão muitos anos mas o amor é o mesmo, talvez ainda maior. Mais de metade da minha vida foi passada ao seu lado. Desde o primeiro dia tornámo-nos inseparáveis e, em conjunto, temos construído a nossa vida. Não abdiquei de nenhum sonho, continuo a acreditar no futuro, continuo a ser quem sou. Connosco a porta está sempre aberta e ninguém prende ninguém. E as janelas estão também sempre abertas e por elas vejo o mundo e traço os meus próprios sonhos.

Onde está o amor? Para mim o amor está no carinho, no respeito, no companheirismo, no desejo, na atracção física que não se explica, na compreensão, na dádiva, na empatia e na sintonia, na comunhão de objectivos, na indispensabilidade da presença do outro - mas também no amor próprio, na defesa intransigente da própria vontade, no prosseguimento activo dos próprios sonhos.

Não sou nada de achar que um amor para se prolongar no tempo tem que ser discutido, conversado, que tem que se saber tudo um do outro, ou que um deve abdicar da sua vida pela vida do outro, ou coisas dessas que tantas vezes leio e ouço por aí.

Pelo contrário, acho que abdicar dos sonhos para fazer a vontade ao outro ou afogar uma relação em palavras, em esgaravatar até doer, em querer saber tudo até à minúcia, é contraproducente. Cada um tem que ter direito aos seus silêncios, aos seus segredos, à sua vida própria. Só isso dará a cada um a necessária liberdade para, a cada dia, estar com o outro por livre vontade e não por obrigação.


E vou calar-me porque já escrevi demais, é sempre isto, começo a escrever e perco a noção que posso maçar os meus leitores com textos tão longos.

*

Hoje estivemos todos juntos, pais, filhos, netos. Vocês haviam de ver as fotografias que me tiraram. Como sou sempre eu que fotografo, tenho poucas fotografias com eles. Então, pedi para a minha filha me tirar uma fotografia com os 4 pequeninos. Como os meus não são da realeza nem modelos da Anne Geddes, não se consegue uma fotografia em que estejam todos muito arranjados, sossegados e a olhar para a câmara. Pelo contrário, com excepção do recém-nascido, cada um quer fugir para seu lado. Então aparece o braço do meu filho, atravessado ou a tentar agarrar os que se querem esgueirar. Mas, noutras fotografias, o meu filho achou que era melhor também aparecer já o meu bisneto e então, no meio daquela confusão, apareço eu com um Nenuco ao ombro e, noutras, com o Nenuco a espreitar por cima da minha cabeça e eu, perdida de riso, enquanto tento endireitar o bebé para ele se ver melhor e os outros em completa debandada. Há pouco, ao rever as fotografias, já aqui me fartei de rir.

*

E, por hoje, nada mais (e já não foi pouco, não é...?)

Tenham, meus Caros Leitores, um belo dia! 

terça-feira, agosto 07, 2012

Museu de Arte Antiga em Lisboa - um lugar privilegiado que merece ser visitado uma e outra e outra e outra e sempre mais uma outra vez


Música, por favor, para vos acompanhar


"Oh! Quand je dors", Liszt - Teresa Cardoso Menezes (soprano) and Andreia Marques (harpa) 



No Expresso do sábado passado, havia um apontamento sobre um passeio de Maria José Morgado por Lisboa que incluía uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga.

Isso fez-me lembrar que, durante alguns anos, muitos e bons, trabalhei mesmo junto ao Tejo e que, à hora de almoço, um dos meus locais preferidos era o restaurante e o jardim do Museu de Arte Antiga, museu de que gosto particularmente.




Tentações de Sto Antão - de tudo o que se pode ver no MNAA esta é, de longe, a obra de que eu mais gosto
Jheronymus Bosch (Hertogenbosch, 1450/60-1516)
Assinado (canto inferior esquerdo do painel central)
c.1500
Óleo sobre madeira de carvalho


Como já muitas vezes aqui o referi, a arte de que mais gosto é a arte abstracta, quanto mais abstracta mais eu gosto. Acho que é (demasiado) fácil retratar. Difícil é abstrairmo-nos do que conhecemos, tal e qual vemos, e conseguir conceber imagens, figuras, objectos que não são meras representações da realidade. Por isso me emociono muito mais com as manchas cromáticas de Rothko do que com as representações quase fotográficas de tantos pintores. Por isso, de tudo o que de tão belo se pode ver no MNAA, é das Tentações de Sto. Antão que eu mais gosto. Há ali um fantástico rasgo, uma loucura visionária, um desprendimento da moral e costumes da época; e, portanto, pela intemporalidade, esta é uma obra que atravessará todos os tempos mantendo-se, sempre, uma obra moderna.

De resto, gosto muito do MNAA não tanto pelo tipo de arte exposta mas pelo museu em si, pela arquitectura do espaço (um espaço que é um lugar de contemplação e de meditação, um lugar de serenidade), pela distribuição das obras pelo espaço, pelas cores quentes, pela forma harmoniosa como as peças se integram no conjunto - e como nos convocam.



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Gosto de me passear pelas salas e de olhar as obras, nomeadamente as pinturas, embora, como disse, não seja o tipo de arte que mais cativa a minha atenção. Olho e é como se olhasse com indiferença mas, sem que eu perceba, gosto de lá voltar uma e outra e outra vez. Deve ser o meu lado difícil, gosto que me seduzam persistentemente e gosto de me armar em esquisita até que, finalmente, caio rendida, perdida.



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Não tem conta o número de vezes que já lá fui. Quando os meus filhos eram pequenos (até entrarem na adolescência, isto é, até à idade em que começaram a recusar-se a ir a este museu e a outros que tais), arrastávamo-los connosco e, assim, foram lá muitas vezes. Gostavam sobretudo de subir a escadaria e andar de sala em sala, mais na perspectiva de exploração do espaço do que de apreciar o exposto.

Na altura, achavam uma seca andar quase todos os fins de semana a visitar museus e exposições. Detestavam arte antiga, gozavam com a arte moderna. Tirando o Museu do Brinquedo e, no caso do meu filho, o da Marinha e o do Exército, e isto quando eram mesmo pequenos, tenho ideia que não iam de gosto a nenhum. Achavam também alguma graça ao Palácio de Queluz ou ao da Ajuda ou de ao de Sintra mas, como eram espaços grandes, ao fim de algum tempo já andavam completamente impacientes. À Gulbenkian também íamos quase todas as semanas pois, mesmo que fossemos primeiro a outros, era normal lá irmos almoçar e, claro, aproveitávamos para ver o que havia de novo.

No entanto, apesar de, na altura, protestarem consideravelmente, agora têm grande gosto por arte, visitam e apreciam bastante e têm uma mente aberta e um espírito crítico - e eu penso que, muito disso, se deve à desformatação mental a que foram sujeitos quando eram pequenos.

Mas, voltando ao MNAA, quando lá ia almoçar (e todas as semanas ia, pelo menos uma ou duas vezes), a maior parte das vezes não ia, obviamente, visitar o museu: ficava-me pelo restaurante, pela esplanada, pelo jardim.



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O jardim é um jardim romântico, maravilhoso, e de lá tem-se uma luminosa vista sobre o Tejo, sobre os cais, sobre a outra banda. Almoçar ou lanchar ou simplesmente estar naquele jardim é das boas experiências desta vida. É um jardim abrigado, fresco, onde, querendo, se apanham bons banhos de sol enquanto se lê um livro, se namora, se conversa, se olha sem preocupação de ver. (Estou a escrever isto e já cheia de saudades de lá voltar).

Também já lá estive em eventos fechados, ou seja, eventos organizados por empresas que contratam o espaço do restaurante para encontros e o jardim para almoços volantes ou cocktails. É sempre uma maravilha pois o espaço cria, automaticamente, um ambiente de excepção.


Mas a minha ligação a este museu vai um pouco para além do que referi. A irmã de uma grande amiga minha e com quem eu, na altura, também me relacionava é historiadora de arte, pessoa com ligação a museus (e com filhos ligados, de várias formas, às artes); e, em especial, tinha uma colaboração regular com o MNAA. Uma das coisas que também fazia (tenho ideia que, por vezes, com o apoio de algum dos filhos) era desenhar jóias a partir de motivos pertencentes a obras expostas. Podia ser um pendente para um fio que reproduzia o desenho de um bordado de uma figura que integrava um certo quadro, podia ser um pregador que tinha o desenho de um pormenor de uma peça em prata exposta, etc. Muitas vezes, quando fazia as provas, levava-as e eu via-as e ela gostava de saber a minha opinião. Tenho várias peças dela em prata, peças que eram, depois, vendidas na loja do museu. Durante esses anos, eu geralmente usava gargantilhas ou fios com pendentes em prata branca ou dourada ou pregadores feitos por ela. 

Com ela aprendi a reconhecer nas obras os motivos que a inspiravam, com ela aprendi a ver com uma atenção especial tudo o que estava exposto. 



Custódia de Belém
Gil Vicente (ourives com actividade conhecida entre 1503 e 1517)




Com ela aprendi a não me deixar impressionar apenas pelo conjunto mas a reparar também em cada pequeno pormenor.

Cada pessoa tem a sua forma particular de reagir à arte. Há quem tenha uma abordagem académica, racional, sistemática. 



Painéis de S. Vicente
Atribuído a Nuno Gonçalves (activo 1450-antes de 1491) 

E há os que, como eu, se regem pela reacção quase sensorial, uma reacção emocional às coisas.

Gosto e não sei porque é que gosto, nem me interessa saber, nem sei nem me interessa descrever o que vejo porque não sei nem me interessa decompor o todo nas suas partes. O que registo é o conjunto, a cor, o movimento, a luz, é o qualquer coisa de indefinido - e é esta abordagem holística que eu, aos poucos, vou aprendendo a domesticar, tentando pixelizar o todo e analisar cada pequeno fragmento.



Tapete do século XVII.
Este é um dos tapetes que fiz mas, neste caso em particular, e é o único caso em que isso acontece,
com cores diferentes destas


Foi também lá, no MNAA, que me deixei tentar pelos motivos originais dos Tapetes de Arraiolos e, por isso, com excepção dos que faço à mão livre com desenhos que se vão formando enquanto bordo, todos os outros são desenhos originais do século XVII, alguns deles expostos no MNAA.

Para quem não conheça o Museu e não tenha possibilidade de vir conhecer, aqui deixo a ligação para uma visita virtual. Clique aqui e depois vá escolhento com a setinha o que quer ver e, uma vez lá estando, (ex: escultura portuguesa), use as setas laterais para ir vendo à volta o espaço em que está.

Finalmente uma referência à Loja do Museu. Nesses tempos em que lá ia assiduamente, ao ir para o restaurante ou para o jardim, passava inevitavelmente pela loja. Era uma tentação. Adquiri lá uma série de peças mas aquela de que mais gosto é a que vos mostro aqui abaixo.



Peça de madeira maciça, de razoável dimensão, pesadíssima
(andei à procura do certificado porque agora tive uma branca e não me lembro
qual a figura representada mas também não o encontrei.
Quando me lembrar ou encontrar o certificado, venho aqui e rectifico a legenda).

[À esquerda uma peça pela qual tenho particular carinho, oferecida quando nos casámos]


Resumindo: agora que é (para muitos) altura de férias e de dolce fare niente, se não souberem onde hão-de ir de passeio, se vos apetecer uma tarde bem passada, se vos apetecer o contacto com uma beleza intemporal que se entranha, com um silêncio que suaviza as almas, com uma cor envolvente e íntima, e com uma emoção tranquila, se vos apetecer elevar (ou aligeirar?) o espírito no ambiente de um museu muito especial, então não deixem de vir ao Museu Nacional de Arte Antiga.

Eu, de certezinha absoluta, lá irei, de novo, um dia destes. E sempre lá hei-de voltar uma e outra e outra e outra e outra e sempre ainda mais uma outra vez.

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Amanhã é outra vez um dia de festa na minha família. Não tenho aqui referido todos os dias de celebração para não me tornar maçadora mas, como há tempos vos disse, por estes meses de Verão, é semana sim, semana sim e, pelo meio, por um ou outro motivo, os dias são quase sempre de festa e alegria também. 

E o que vos desejo a vós, meus Caros Leitores, é que tenham também um belo dia. Mesmo que sintam que não têm razões para festejar, por favor pensem que estar vivos é uma bênção. E, havendo saúde, a bênção é ainda maior. E se, em cima disso, houver trabalho ou o dinheiro da pensão ou do subsídio pago no fim do mês, melhor ainda. E se, em cima disso, houver família ou amigos (mesmo que apenas virtuais), melhor ainda. E, porque vivemos em paz, a bênção é ainda maior.

Cada dia merece ser vivido com agradecimento - é o que eu penso. E, por isso, muito sinceramente vos desejo, um dia bem vivido, sejam quais forem as vossas circunstâncias. Há que honrar a vida.

segunda-feira, agosto 06, 2012

Fotografar crianças. Fantasia e realidade: o mundo de Anne Geddes e o meu.





Andava à procura de fotografias de bebés a ver se encontrava algumas ideias engraçadas e fui, inevitavelmente, parar a Anne Geddes, uma australiana de 56 anos. A Wikipedia dá conta que é fotógrafa, estilista e mulher de negócios mas eu conhecia-a por ser talvez a fotógrafa de bebés mais conhecida em todo o mundo. Vende livros e calendários como pipocas, ou seja, aos milhões. Vive actualmente na Nova Zelândia e os seus trabalhos são conhecidos internacionalmente, tendo livros publicados em mais de 80 países. Os seus trabalhos têm uma forte componente de fantasia, de magia infantil, de ilustrações da natureza para crianças e são classificados frequentemente como arte.




Para não ter que ver uma a uma, lembrei-me de ver no YouTube se havia alguma montagem de best of e claro que há. Uma ternurinha.




Mas, intrigada sobre que processo usaria ela  para conseguir estas proezas, já que as crianças desta idade, isto é, geralmente recém-nascidos ou bebés de poucos meses, choram, têm frio, têm fome, têm cólicas, procurei um making of e, claro, encontrei vários. Li que fotografa de manhã, que é quando as crianças estão mais tranquilas, e que as sessões duram cerca de meia hora. O estúdio está previamente preparado e os pais costumam estar por perto. 

Aqui abaixo poderemos ver a sessão que deu origem a uma das suas mais conhecidas fotografias.





Encontrei também a muito conhecida sessão com a Celine Dion. As fotografias ficam fantásticas, não há duvida.




Seja como for, depois disto, e dado que não estou a ver o meu filho e a minha nora deixarem-me andar com o nosso babyzinho em bolandas, em cima da mesa no meio de smarties, pendurado num pano na corda da roupa ou no meio da hortaliça com folhas de repolho na cabeça, nem eu me quero arriscar a que a criança se constipe por andar toda nuazinha na mão deles ou encavalitada num ombro ou, ainda, em cima de abóboras,  acho que me vou limitar ao tradicional: ao colo dos pais, talvez até ao colo da maninha (quando ela se habituar a que um bebé também é 'aquilo'), no berço, no banhinho. E, para introduzir colorido, coloco brinquedos à sua volta. O básico - mas que vai ficar bem porque ele é um bebé lindo e porque, mesmo que alguém achasse que não, eu acharia na mesma porque os nossos bebés são sempre lindos, lindos, queridos, umas coisinhas fofas e amorosas. 

E se há coisa boa de rever são as fotografias dos nossos bebés. Era parecido com quem? ou Modificou-se tanto, ou Já tinha os mesmos olhos ou Já tinha o mesmo jeito de rir.

Agora a seguir ainda vou rever as fotografias dos meus filhos a ver se noto parecenças com os filhos deles. Tenho tantas fotografias deles; na altura era tudo em papel e, assim, é muito mais fácil e agradável de consultar. 

Em papel ou em slides, temos também caixas e caixas de slides (acho que se chamavam slides - pequenas películas que se colocavam num projector). Mandávamos fazer em França, já nem sei porquê. Se calhar, cá não se faziam.

Apesar de tradicionalista, o que eu gosto de fotografar os meus meninos...! O tempo passa e o meu gosto por fotografar as minhas crianças mantém-se, as crianças é que se vão renovando.

*

E, por hoje, é isto. Um dia destes a ver se fico menos zen e volto a pôr os pés 'na vida real' (como o meu mais crescidinho, agora que já percebeu que há uma diferença entre fantasia e realidade, costuma dizer).

Tenham, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira!

sexta-feira, agosto 03, 2012

Uma vez mais, as boas vindas a este mundo


Música, com muita ternura, hoje

Mozart - Larghetto (Concerto nº26 para piano)




Picasso - Mãe amamentando o seu filho 


Ontem à noite estivemos todos na rua a ver a lua. Estava cheia, muito cheia, absolutamente luminosa. 

A noite foi espantosamente calma. Todos dormiram como umas pedras, até o bebé. A minha filha acordou admirada por ter dormido tão bem.

E, de manhã, depois de uma lua daquelas, recebemos a indicação que esperávamos: o processo estava em marcha. 

Foi uma azáfama: arrumar coisas, recolher brinquedos por todo o lado, fazer uma busca a meias caídas, a blusinhas que se tinham molhado, a casaquinhos tresmalhados, guardar o leite, os biberons, medicamentos, guardar os computadores, os telemóveis, a máquina fotográfica - na tentativa de ter tudo pronto para a largada. 

Mais tarde, as notícias davam ideia que a novidade talvez acontecesse mais cedo do que se poderia pensar, talvez lá para o meio da tarde.

Tudo a almoçar rapidamente para nos pormos a caminho! E um que ainda não tem fome e outro que fica com rabugice e adormece, e toda a difícil logística em marcha, vá, vá, vá...!

Mas as notícias chegam e percebemos que ainda estamos mais que a tempo e alvitramos se for como na outra vez é só amanhã à hora de almoço, fomos para lá a meio da noite e nada e voltámos a casa e fomos, de novo, de manhã e nada e só à hora de almoço.

E mais um chichi e mais onde estão os meus óculos?, e onde está o carregador?, e onde estão os sapatos do bebé que se molharam e foram postos a secar? e volta um atrás e já é preciso ficar a olhar para o outro e lá nos atrasamos outra vez e onde é que está a água?, e afinal onde é que meteram os sapatos do bebé?, e agora onde é que estará o boné? querem ver que está no meio da roupa, lá atrás no meio da confusão - ... e depois de muito esforço, e de várias falsas partidas, eis que nos pomos a caminho.

Eu no carro a fazer companhia à mãe e aos meninos e outro carro atrás. O mais crescidinho, cansado de tanto trabalho, foi logo: a dormir, a sono solto. Mas o bebé, que estava a dormir antes de entrar no carro, acordou rabugento. A meio caminho desatou a chorar, caíu a chucha e eu do banco da frente não via a chucha em lado nenhum e fazia ginástica lá para trás, procurando-a no cadeirinha, no banco, procurando no chão,  mas qual quê? em lado nenhum, e ele vá de chorar a plenos pulmões, uma birra das antigas. Para ver se o calava a mãe cantava uma cantiga sobre locomotivas amarelas, vezes sem conta e, de cada vez que se calava, já de garganta seca, lá desatava ele a berrar. 

Às tantas, no meio daquela confusão, ela lembra: não houve mais notícias? E eu que não, que não tinha ouvido chegar nenhuma mensagem. Mas, com o chinfrim da birra e das locomotivas amarelas também podia não se ter ouvido e, então, pego no telemóvel e vejo uma mensagem. Abro. 

Nem quero acreditar. Sem palavras, apenas uma fotografia: a jovem mãe sorrindo com um bebé ao colo. Fico perplexa. Mas já aqui está com o bebé ao colo... digo, quase sem perceber, e logo a seguir chega outra mensagem, também do meu filho: Nasceu de repente. Está tudo bem. E acrescentava o peso do bebé (grandinho, pesadinho). Repito para a minha filha, sem perceber o que aconteceu: Diz que nasceu de repente. Ela, numa excitação, quer ver a fotografia mas eu quero é que ela se concentre na condução.

A seguir ligo ao meu filho, quero detalhes, mas, dado o berreiro do ex-bebé - que nesse momento cedeu o estatuto de bebé ao priminho - não ouço palavra.

Ligo ao meu marido que ia no carro atrás, ligo à minha mãe, dou a notícia e só lhes sei dizer que já nasceu, que nasceu de repente.

Pouco depois, já lá chegados, conta-nos o meu filho que lhe disseram que podia ir almoçar e que, quando voltou, já estavam a médica e as enfermeiras aflitas à espera dele, que entrasse rapidamente, que estava mesmo já a nascer. E disseram à feliz mãe, Vá, faça força, Boa, a cabeça já está cá fora, Vá, mais uma vez, Boa, já está todo cá fora. Assim. Um instante, uma maravilha, tal como eu lhe tinha desejado, uma horinha pequenina. O meu filho contou que, a seguir, cortou o cordão umbilical. Pai pela segunda vez em menos de dois anos, o meu querido filho.

Um pai feliz - e eu fico tão feliz quando o vejo feliz, a ele e à irmã, tão felizes na sua missão de pais responsáveis e dedicados.

Depois chegaram os outros avós com a maninha do bebé, a minha princesinha linda, ficamos uma família emocionada no meio da algazarra das crianças e todos vamos conhecer o menino lindo que vem do recobro com a sua mãe, feliz, sorridente.

E é assim que, pela terceira vez desde que tenho o Um Jeito Manso (há cerca de 2 anos) e pela quarta vez no espaço de cerca de 4 anos, dou as boas vindas a este mundo a uma criança muito querida. Uma vez mais é um menino. São, portanto, (para já...), três meninos e uma menina.

A este menininho lindo desejo que tenha uma vida longa e muito feliz, e que tenha muita sorte, e que tenha saúde, e que venha a ser uma pessoa motivada, realizada, de bem com a vida. Cá estaremos para o acolher, amparar enquanto disso precisar, para o guiar no que faça sentido, para o amar sempre, muito, para o apoiar sempre, incondicionalmente.

Aos queridos pais deste menino desejo que o acompanhem o melhor que saibam e possam, sempre com muita felicidade, com muita sorte, sempre sabendo transmitir a alegria do prazer maior que é a aprendizagem permanente, da satisfação maior que é a descoberta do que está por fazer, e tudo sempre no respeito absoluto pelos outros mesmo que sejam diferentes e, sobretudo, transmitindo a imensa alegria do amor, da construção conjunta, da bênção suprema que é a vida. 

Nasce, este meu querido menino, tal como a irmãzinha e os priminhos, numa época conturbada. Mas todas as épocas o são e é em períodos de indefinição que mais precisas são as pessoas que se envolvem activamente, generosamente, entusiasticamente, na construção do futuro.

E é também isso que eu desejo do mais fundo do meu coração aos meus quatro meninos (e aos mais que vierem) e aos pais destes meninos: que nunca desistam de lutar por um mundo melhor, um mundo mais justo, mais livre, melhor para as pessoas, e que o façam sempre com alegria e convicção, que o façam sem descurar o carinho pelos que lhes são mais próximos, que nunca esqueçam que o amor é um sentimento que deverá estar sempre presente nas suas vidas.

*

E é assim, neste clima de ternura sem limites, que vos desejo também a vós, meus Caros Leitores, um sábado muito feliz.

Diário de bordo: ancinho, regador, balde e mangueira, entrecosto, sorrisos e pauladas. Mais um dia feliz in heaven. Mas antes: devem ou não as camisas de homem ter vinco nas mangas?


Música de festa, por favor

Rodrigo Leão - La fête

*

Aqui afastada do palavreio citadino e de assuntos enervantes, com um regime adequado aos horários das crianças (que bela sesta hoje dormi, todos a dormirmos ao mesmo tempo), chego aqui  a esta hora da noite e só me apetece falar deles.

No entanto, sou uma pessoa conscienciosa e, antes, sinto-me no dever de tentar elucidar quem hoje entrou no Um Jeito Manso escrevendo no Google "as camisas de homem devem ou não ter vinco nas mangas". Gosto de ver nas estatísticas quais as palavras de pesquisa que levam as pessoas a entrar aqui. Muitas vezes não percebo como, escrevendo aquilo, conseguem dar comigo. 

Mas, enfim, entram cá e muitas vezes receio que se desiludam.

Nomeadamente, acho que nunca escrevi nada sobre as mangas das camisas dos homens e, provavelmente, quem entrou no UJM deu com uma coisa totalmente diferente daquela que esperava. Mas não seja por isso. Se nunca antes o fiz, faço-o agora. 

Meus amigos e minhas amigas, então, devo dizer-vos que a coisa bem feita e segundo o preceito é não fazer vinco nas mangas das camisas dos homens. Devo, no entanto, dizer que é mais fácil passar fazendo o vinco. Eu, quando passo, faço-o sabendo bem que o não deveria fazer. Aliás, há coisas em que reparo quando estou em frente de um homem. Algumas não vou aqui confessar para não me desfocar do tema principal mas há outras que posso referir. Esta do vinco na manga é uma das que merecem o meu olhar clínico. Posso afirmar, contudo, que a larga, larguíssima maioria usa vinco; presumo até que, quem lhes passa roupa a ferro, até fará gala em fazer um vinco bem definido, quase como se fosse um vinco numas calças clássicas. No entanto, se observo isto é apenas para arranjar uma boa estatística que me defenda já que, como vos confessei, sou igualmente infractora.

Outro erro e esse, sim, já me parece mais grave: calças desportivas (de sarja beige, por exemplo)  - mesmo que acompanhadas por um perfeitamente admissível blaser clássico azul escuro - não deverão ter vinco. A coisa mais despropositada, pirosa mesmo, é ver um homem de calças desportivas e todo vincado, como se alguém se tivesse enganado ao passar a ferro. Nem nas de bombazina eu gosto de ver vinco, mas aí já depende mais da toilette no seu conjunto e de quem as veste. 

Outro pormenor: as meias de homem devem ser discretas, é sabido. Mas não é forçoso que tenham que ser pretas. A maior parte dos homens defende-se, usando meias pretas mas, com um conjunto que puxe para o grenat, por exemplo se houver um pullover dessa cor, são admissíveis e até revelam um gosto atento, umas meias grenat escuro. No entanto, tal também pode querer dizer que o homem liga demasiado a pormenores relativos a moda e isso, nos homens, é insuportável. Por isso, caro Leitor do sexo masculino, se usar meias (escuras, por favor) a condizer com o tom dominante, por favor, não apareça com mais nada que comprove que é quase tão vaidoso como uma menina. Por exemplo, os homens que usam meia a condizer, sapato de berloque, alfinete de gravata, pulseirinha e outras coisas do género, cá para mim são de a gente ficar logo de pé atrás. Os homens querem-se de uma sobriedade a toda a prova. Elegantes, com bom gosto, mas nada de muito evidente.

E pronto, sobre este tema não me ocorre dizer mais nada.

*

Passo então ao meu diário de bordo.

O bebé, grande parte da noite rabeou, como é seu timbre. Ou cai a chucha, ou tem calor, ou qualquer outra coisa e quer logo levantar-se. Acho que gosta demasiado de brincar e, para ele, estar na cama é uma seca. Por isso, a noite passada não consegui ter um sono tão de seguida como é meu costume (a mãe, coitada, habituada a não dormir capazmente desde que ele nasceu, nem se queixou, tem tido noites bem piores; o irmão também não assinalou o facto dado que está habituado a estes desacatos nocturnos). 

De manhã acordaram cedo e tudo querendo ir brincar. O mais velhinho, então, vem com a preocupação de vir trabalhar. 



O ano passado o tio ensinou o mais crescido a dizer que era vítima de
exploração de trabalho infantil.
Ele não decorava a expressão até que, um dia, exclamou:
'Já sei como é: vítima de parque infantil!'


Foi logo pedir ao avô o ancinho e andou toda a manhã a apanhar caruma e folhas secas que transportava, num contentor, até à terra onde o despejava. Tem um jeito que só visto.



Caída no chão, uma esfregona, coisa que faz as delícias do bebé.
O mais crescido, até há pouco, chamava-lhe a 'fisgona' e nós agora também a designamos assim

O pequenino andava com uma pázinha de praia e ali andava de volta, com ar compenetrado, como se estivesse também a cumprir uma missão.

Depois, de tarde, passou-se ao número da brincadeira com água. Começámos por tentar a via soft. Regador, balde para abastecer o regador, etc. A coisa funcionou bem até certo ponto.



Claro que o balde é o de lavar o chão e o bom e o bonito será depois
encontrar a parte de escorrer a 'fisgona' pois, quando cá estão, tudo desaparece
e muda de sítio (mas, depois, vá lá..., aos poucos, tudo volta a aparecer)


Mas depois o mais crescido sentiu que tinha outra incumbência: a rega. De mangueira, responsável, regou tudo, mas regou mesmo bem. A seguir perguntei-lhe se não quereria também dar uma mangueirada no carro, coisa a que a mãe também se candidatou e que ele também cumpriu na perfeição.



'Já está muito bem lavado, não está, Tá? Estava mesmo a precisar, não estava?'


O mais crescido na operação e o mais pequeno no comando do instrumento. Olhando para mim, com ar feliz de quem está a ocupar-se da parte mais crítica da tarefa, mexia no manípulo da torneira, provocando valentes esguichos de água, coisa que não incomodava nada o irmão. Claro que acabaram os dois todos molhados.



Não me perguntem de onde apareceu este chapéu verde.
Herdou de alguém, certamente... alguém com uma cabeça maior que a dele.
O mais provável é que os dele tenham levado sumiço ou andem perdidos no carro da mãe...


E, assim, chegámos à hora de jantar. Fiz entrecosto grelhado, com acompanhamento de legumes e massa (sei que a massa aqui não combina muito bem mas foi a pedido da minha filha, que disse que já tinham comido batatas ao almoço e que ontem já tinha sido arroz). Mas o bebé tinha a sua sopinha e, a seguir, peixinho pois ainda nunca tinha comido carne de porco, nem a mãe achava que fosse comida adequada. No entanto, quem sai aos seus não degenera, tudo bons garfos, e o bebé deu-lhe o cheiro a petisco. Recusou-se, pura e simplesmente, a comer o seu peixe e fez fita, apontando e fazendo os seus sons a pedir entrecosto. Provou e não quis outra coisa. Teria comido como se não houvesse amanhã se o têm deixado mas, ainda assim, comeu a bom comer. O irmão também se 'pelou', pois adora carne com osso e, além do mais, foi autorizado a pegar nela à mão. 

A seguir, brincaram um com o outro com carrinhos, depois de novo tiraram do cesto os restos de lenha que sobraram do inverno. No meio da confusão, o bebé pegou num pau e, com toda a força, deu na cabeça do irmão, ferindo-o e fazendo-o chorar. Lá se fez o curativo e a coisa prosseguiu como se nada se tivesse passado. De novo, já perto da hora do sono, enquanto o pequenino mudava a fralda e a mãe o tentava adormecer, o mais crescido quis de novo ver o livro dos planetas, falar de estrelas, e lembrou-se da Babirucha que tem uma canção dos planetas e lá a procurou (e encontrou sozinho!) no YouTube. Depois seguiu-se ainda a cena de andar de 'fisgona' na mão a ver se havia algumas melgas e, quase à meia-noite, caminha, hora a que o bebé, já a dormir, bebeu o seu último leite.

E agora sou eu que me vou deitar que amanhã, meus Caros, pois este dia promete.

*
Resta-me desejar-vos, a vós, Caros Leitores, um dia bem passado. Saúde e boa disposição!

quinta-feira, agosto 02, 2012

In heaven com a minha menina grande e dois dos meus meninos pequeninos


Música, por favor

José Afonso - Menino d'Oiro
(A canção de embalar que eu cantava para os meus filhos adormecerem)



Ouço perto de mim a respiração franca de uma criança. Antes de adormecer estive ao lado da sua cama e contei-lhe, baixinho, devagarinho, o que sempre conto para ele adormecer. Estava a mãe coelhinha a contar os filhotes coelhinhos que entravam na toca para ver se não faltava nenhum. Um coelhinho... dois coelhinhos... três coelhinhos... quatro coelhinhos... cinco coelhinhos... [e aí a respiração começa a ficar muito regular]... seis coelhinhos... sete coelhinhos... oito coelhinhos... [e aqui a respiração é quase profunda e os olhos quase se fecham. Por prudência continuo, apesar de perceber que o sono já o venceu, ... dezanove coelhinhos... vinte coelhinhos. Depois paro.

Noutra divisão há pouco ouvia um bebé a beber o seu leite da noite. Já a dormir, ao colo da mãe, fazia aqueles barulhinhos agradáveis de um bebé a beber o seu leite.

Mas antes, como sempre, pintaram a macaca. Chegam e desatam a mexer em tudo o que encontram à mão. Em menos de um minuto a confusão instala-se. O poder de desarrumação destes dois rapazinhos é uma coisa inacreditável. A minha filha diz-lhes, para os defender: A casa da Tá é um autêntico parque de diversões, não é?

Abrem armários, aparecem-me com peças de vidro na mão, tiram a lenha do cesto, pegam em tudo o que alcançam, é uma coisa... O pior, de longe, é o bebé. Como ainda é muito novinho, fez agora dezasseis meses, não tem bem a noção. De vez em quando, quando o vejo a mexer no que não deve, dou-lhe um grito e de tal forma o grito me sai, que o assusto. Nessas alturas, quase dá um salto, detém-se e vira-se, muito admirado, especado a olhar para mim. Geralmente, ao ver o susto que lhe preguei, desato a rir e ele, a seguir, ri-se também.

O mais velhinho, quatro anos acabados de fazer, já faz coisas mais elaboradas e quer perceber tudo. A minha mãe ofereceu-lhe um livro (para crianças) sobre o sistema solar, que ele quis que eu lhe lesse, tendo ouvido com imensa atenção e, a seguir, fez-me perguntas do caneco, Planeta gasoso? O que é que lá acontece?, etc. Depois estivemos na rua a olhar o céu. A lua hoje está cheia, luminosa. Por isso, não tarda o bebé vai ganhar outro estatuto.

De tarde, houve um fogo enorme e relativamente perto. Havia um cheiro a queimado que me intimida e, por um bocado, o céu toldou-se.



Em primeiro plano o meu cedro e, um pouco mais abaixo, o meu pinheiro. A seguir, os campos
dos vizinhos e, por trás da aldeia que não se vê daqui, o fogo.
O cabo que se vê é o do telefone que vai para a casa do meu vizinho lá de baixo.


Tenho imenso medo. Confio nos bombeiros, agora no verão têm um helicóptero mas o fogo, especialmente quando há vento, é muito assustador. Quando vejo as imagens na televisão com as pessoas desesperadas a apagarem os fogos a balde, ou, pior, quando perdem a casa e tudo o que têm, parte-se-me o coração.

Felizmente, o de hoje foi rapidamente circunscrito e, passado um bocado, já se percebia que estava no rescaldo.

Quando o mais crescido era bebé, ficava muito admirado com a salamandra, com o tubo preto que leva o fumo para a chaminé. Mal aqui chegava queria ir ver a 'né' e apontava para o tubo.

Quando os pais estacionavam o carro num parque de estacionamento, apontava, deliciado, para os tubos de circulação de ar e dizia 'né'.

Depois, foi crescendo e querendo ver o funcionamento, vendo o fogo, indo lá fora para ver o fumo a sair da chaminé. 



Em cima de um micro-mini-tapetinho de Arraiolos, desenho inventado por mim,
e junto a um outro que aqui mal se vê, enquanto inspeccionava,
uma vez mais, o funcionamento da salamandra
(Ao fundo, o meu carrinho das tintas)


Mas mexer naquela porta, ver a gaveta da cinza, a grelha, olhar por dentro para o sítio de tiragem dos fumos, ainda é um desafio.

O irmão, por seu lado, especialmente quando está na rua, fica doido com tanto chão para varrer (nisto sai à Tá que também adora varrer).



O baby em acção: quando cá vêm é para trabalhar...! Não param nem um segundo...!

Caíu não sei quantas vezes porque depois descobriu a vassoura a sério e, então, andava com uma em cada mão, como se fosse quase um esquiador. Só que as vassouras fazem três dele... Mas levantava-se e seguia em frente - está tão habituado aos 'encostos' do irmão que o fazem estar sempre a ir parar ao chão que já acha normal cair. 

E vou mas é dormir que já passa da uma e meia da manhã e esta gente costuma acordar cedo (e a ver se o pequenino não acorda de noite)...

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E vocês, meus Caros leitores, tenham também uma quinta-feira muito agradável! 

quarta-feira, agosto 01, 2012

Uma tarde no hospital, um fim de tarde à beira Tejo


Música, por favor
(e logo perceberão porquê esta)

Música Celta para harpa, flauta, oboé, violino e orquestra
Natalia Antonova na harpa, Venera Porfirieva na flauta,Eugene Sidorov no oboé, Lilya Akhmetova no violino

*

Esta terça feira podia ter sido um dia maçador já que tive que voltar ao hospital e, desta vez, não para ser vista por um médico mas, sim, por dois. Uma tarde quase toda nisto e, claro, entre as idas e vindas a Lisboa e o que se aproveita para fazer já que lá se está, vai um dia quase inteiro. 

Mas estas idas aos médicos têm sido uma constante desde há umas semanas para cá e esta terça feira lá foi mais outro desses dias. Nada de especial, felizmente, mas agora tenho que andar nisto. E exames e depois ir buscar os exames, e depois mostrar os exames e depois voltar lá para isto, para aquilo e para o outro. Para quem antes raramente ia a um médico, esta fase pela qual estou a passar não é especialmente entusiasmante.

Chegam muitos de muletas, coxos, braços ao peito, outros apoiados em familiares e estou a referir-me aos que vão para ortopedia. E eu vejo alguns que vi há umas três semanas e que iam de canadianas como eu e eu já vou sem canadianas e a andar sozinha. E, se ainda os vejo, agora, de canadianas fico a pensar se o mal deles seria pior que o meu ou se serei eu já a abusar da minha sorte e a arriscar-me a alguma recaída. 

Depois há os que vêm carregados de exames, há os que vêm magros e mal encarados. Também eu, na primeira ida lá depois da cirurgia, me senti mal e tiveram que me pôr numa cadeira de rodas que eu nem andar conseguia. E, quando me estavam a levar, à pressa, corredor fora, pensava que as pessoas deviam reparar no meu mau estado e, no entanto, nem conseguia fingir que estava bem, eu que odeio estar mal e mostrar que estou mal. 

No outro dia era uma senhora muito direita que não se podia encostar porque as cadeiras eram curvas. Disse a uma funcionária que tinha sido operada uma semana antes pelo Dr. Lobo Antunes e, quando ele passou, notei que ficou orgulhosa por ele a ter reconhecido. Estava ao meu lado e parecia que queria meter conversa comigo, com uma mão apalpava o pescoço junto à nuca e depois olhava para mim e eu sorria mas não muito porque nesse dia estava eu com uma dor que me incomodava e, pouco depois, fui chamada. Depois havia outra senhora que estava com uma irmã e a irmã ia lá para fora fumar e parecia mais agitada que a que estava doente. E havia um homem ainda relativamente novo mas que estava preocupado e que estava acompanhado pela filha adolescente que estava com um iPad e tão absorta que era como se estivesse noutro sítio e não ali, ao pé de um pai preocupado, no meio de uma sala de espera de um hospital e eu invejei a sua despreocupação.

E chegou um casal, muito beautiful people, altos, bronzeados, bem vestidos, e ele vinha com um daqueles colares cervicais, e tinha que estar com a cabeça muito espetada. E a mulher tinha umas calças justas e um rabo quase tão espetado quanto a cabeça do marido. Passado um bocado saíram do gabinete do médico e ele já vinha com aquilo no braço como se fosse um capacete e vinha feliz e leve e a mulher, com uns sapatos de salto altíssimo, quase nem lhe conseguia acompanhar o passo.

É um outro lado da existência, este em que os corpos sofrem acidentes ou dão sinais de mau funcionamento e em que os seus donos têm que procurar ajuda, juntando-se pois nestas grandes oficinas.

*

Mas nem tudo foi chato neste dia. Por um lado estive com os meus meninos quase todos (com os restantes, estarei amanhã) e isso adoça-me a alma (que, de resto, já de si não é amarga) e, por outro, fui levada até à beira do rio, até ao local que faz as minhas delícias.

Mal lá cheguei, um som maravilhoso no ar. Era um homem jovem que tocava flauta. Sentado na relva, junto ao rio, tocava flauta.

Já não é a primeira vez que sons assim cruzam os ares aqui neste romântico jardim junto ao rio. É uma sonoridade celta que parece habitar este lugar onde o rio vem rebentar nas rochas cobertas por limos e das quais se desprende uma maresia fresca e luminosa.



Flauta no Ginjal


Um som maravilhoso. Um fim de tarde muito suave, a relva muito macia, o rio fresco, aquele cheiro a mar que eu adoro e a música ali, a dançar no meio de nós.

Mais à frente, num rio esplendorosamente azul, dois barquinhos. Mas dois barquinhos tão barquinhos que quase nem dava para acreditar. Pareciam barquinhos desenhados à mão por meninos e não barquinhos de verdade, para levar pessoas dentro.



Dois barquinhos que parecem barquinhos inventados, ancorados no Tejo à beira do Ginjal


Fotografei-os, encantada. Como eu gostava de poder ir passear dentro daqueles barquinhos, especialmente naquele que tem uma cabine que parece uma casinha com cortinas nas janelinhas. Que bom deve ser navegar lá dentro, uma pessoa deve sentir-se tão pequenina face à largueza deste rio que é quase um mar, um rio que ali já tem mistura de oceano. E que azul ele estava, o Tejo, e que vontade de me meter dentro dele, que fresco devia estar.

Entretanto, na relva que é fofa como uma cama macia, uns quantos casais namoravam, alheados de quem circulava. E eu que me encanto com o amor, porque acho que não há nada que dê mais sentido à vida que o amor, e que, por isso, gosto de o registar, tive que escolher os ângulos mais adequados para não perturbar a sua intimidade, encobrindo-os por árvores, como se estas árvores fossem cortinados de renda verde que protegessem os seus momentos de apaixonada cumplicidade.



Amar à beira Tejo


Quando regressei vinha feliz da vida e, se não fosse ainda não poder andar como deve ser, nem me lembrava que, momentos antes, tinha vindo de um ambiente hospitalar.

A vida, meus Caros, é um daqueles poliedros com muitas faces. A gente vê uma ou duas mas não deve esquecer as outras, as que estão do lado de lá.

Mais uma vez, isto pode parecer conversa da treta, auto-ajuda de meia tigela. Se calhar é, se calhar não é - não sei.

Mas o que quero dizer é que está nas nossas mãos espreitar para o lado de lá, especialmente quando o lado de cá não é extraordinário. E, se o lado de cá é fantástico, também não nos devemos esquecer dos que estão do outro lado pois o facto de agora não sermos nós a estarmos lá, não significa que nós (ou alguns dos que nos são queridos) não venhamos, um dia, a estar. A vida é múltipla e deve ser valorizada em toda a sua variedade - é o que eu acho, em suma.

Ou seja, para abreviar: o dia afinal não foi chato de todo, até teve momentos bem agradáveis.


*

E que a vossa quarta feira não tenha aspectos chatos e seja apenas agradável é o que muito sinceramente vos desejo, meus Caros Leitores!