sábado, março 31, 2018

Tempestade e bonança in heaven





Muito vento. Tanto, tanto. Tive que abrir a porta e ir lá fora, à chuva, pôr um tronco a travar a portada senão ela soltar-se-ia, talvez se partisse contra a parede. 

O tronco está coberto por líquenes e, de dentro de casa, fotografo-o. 


Mas rapidamente me recolho. Um rugido no ar, as árvores possuídas pela ventania, uma onda louca de vento agitando o arvoredo.

Poderia ser assustador tamanha a tempestade, tamanha a fúria dos elementos. Mas a natureza não me assusta mesmo quando enlouquecida. Talvez seja porque sei que a loucura passa, a beleza não.

Fotografei a chuva que caía, o vento fazendo rodopiar as cores da primavera, o som das águas caindo intensamente, os pássaros ocultos.


Depois os céus escureceram, o rugido do vento abafou o som da chuva, pareceu que uma noite precoce se tinha abatido sobre os campos. Coloquei madeira e pinhas na salamandra, deixei que o calor suave me envolvesse, adormeci embalada pelo bem estar do aconchego da casa.

Quando acordei era outra vez dia. O sol entrava na casa e vi que o céu estava quase azul e que a luz primaveril estava de volta.

Saí.

Arabescos floridos, hastes douradas, sombras e luzes nas paredes. Da tempestade nem vestígios.

Apenas a terra ensopada, o musgo macio completamente embebido, as árvores pingando e luzindo à luz doce do fim de tarde diziam que a chuva tinha passado por ali. 


Da azinheira soltaram-se, num sobressalto, uns grandes pássaros de plumagem clara. Mais à frente, o gato branco saltou de dentro do abrigo e desatou a correr. 

Caminho. Caminho em silêncio, agradecida por me se ser dada a graça de assistir às mudanças, sempre extraordinárias, da natureza.

Os verdes diluem-se uns nos outros, as árvores dançam com uma leveza apaziguada, os pássaros cantam e há agora uma alegria serena no ar. 

E as flores já despontam e há-as de todas as cores, florzinhas sempre delicadas e perfeitas. E todo o peso sai de cima de mim e pudesse eu voar e voaria.


O mundo pode ser um lugar perfeito e eu alimento-me de momentos assim para melhor atravessar os dias por vezes cinzentos e pesados que se cruzam nos meus caminhos. 

Tudo é passageiro e nós mais passageiros ainda. E depois dos dias vêm dias. E nada disto é novo porque a vida é este permanente e gracioso devir.

E penso que pouco mais de verdadeiramente importante  há a saber sobre o que quer que seja.