Quando comecei a trabalhar no mundo empresarial, vinda do meio escolar, entrei num mundo que me parecia quase infinito: muitas pessoas, muitos edifícios, muitas actividades. Estava sempre a descobrir coisas. E mesmo o que era banal para quem já lá trabalhava há muito tempo para mim era uma coisa que me enchia de interesse.
Por exemplo, soube que havia um encadernador. Para mim foi um espanto tão grande como se tivesse sabido que havia petróleo no pátio de um dos edifícios. Por isso, não descansei enquanto não fui lá ver. E foi um fascínio. Por acaso tinha reuniões de trabalho frequentes nesse edifício. E aí era um espanto mas em sentido oposto: deparei-me com uma estrutura pesada, muito heirarquizada, ineficiente até dizer chega. Tinha vinte e poucos anos e muita energia, muita criatividade. Deparava-me com um assunto para resolver e, na minha cabeça, em meia dúzia de dias, resolvia aquilo. Mas, em vez disso, tinha que ter reuniões extensas, das quais se faziam actas que eram enviadas para circularem por todos, só depois alguém começava a esquematizar o que se pretendia, faziam dossiers, depois reuniões para passar para a fase seguinte, e mais actas, e mais dossiers. Anos mais tarde, numa profunda reestruturação, viria a estar incumbida de acabar com aquilo tudo. As pessoas, em si, nem teriam culpa por aquele marcar passo, era mesmo assim.
Mas, portanto, vinha passada daquelas reuniões, porque sempre odiei desperdiçar tempo a fazer coisas inúteis, e ia visitar o meu amigo encadernador. As guilhotinas, as prensas, as peles, os dourados, tudo aquilo me encantava. Uma vez inventei uma história em que me inspirei nele. Ele gostava que eu lá estivesse, mostrava-me a sua arte. Lembrei-me, então, de uma coisa. Uma das outras coisas extraordinárias que havia era uma biblioteca infinita, uma coisa que não se imagina. Sei que foi tudo doado. Encontrei lá livros que nunca poderia imaginar. Acabada de sair da faculdade, tive um segundo período de grande aprendizagem. O mundo abriu-se-me através daquela extraordinária biblioteca. Os livros franceses eram especialmente do meu agrado. Pensei, então, que poderia pedir para fotocopiar alguns desses livros e, depois, encadernar. Devo ter uns pedido uns seis ou sete livros. A capa em pele verde, letras em dourado. Lindos.
Quando saí de lá, perguntei se os poderia levar comigo. O meu chefe da altura achou muita piada à minha pergunta, disse que claro que sim, quem é que ali ia precisar daqueles livros tão técnicos, em língua francesa ou inglesa, dizia que era mais que chinês, além disso eram fotocópias. Não ligavam patavina à capa. E, para mim, o mais especial de tudo era a capa.
Lembrei-me disto ao ver um dos pequenos apontamentos do canal Conta Lá: um senhor que, em Lisboa, ainda trabalha em encadernação. Trabalhar em livros, dar-lhes uma vida digna através de uma encadernação cuidada, requintada, deve ser uma maravilha.
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Aqui há algum tempo ouvi que este canal Conta lá estava em apuros. Tomara que tenham resolvido pois é muito interessante. Por aqui consegue conhecer-se o país, conhecer mesmo, conhecer as pessoas, a vida normal. Não se fala de crimes, de desgraças, de misérias, de assaltos, de vinganças, de traições. Não. Uns falam de como restauraram uma casa de família, outro fala do vinho e do azeite que produz, uma senhora fala de como, apesar de lhe faltarem muitas peças, consegue manter-se activa e feliz na sua comunidade, outro fala de como ainda produz o chamado tijolo burro, a seguir falam do que é o jogo do pau, e, a seguir, uma jovem mulher orgulhosa de trabalhar na higene urbana de Lisboa, a conduzir um carro do lixo. Tudo muito interessante. E mesmo a forma como filmam é uma forma próxima, parece que as pessoas estão a conversar connosco, no seu ambiente. Muito bom. Por aqui, está no canal 123.
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Quanto ao móvel da cozinha, já está. Deu luta. O meu marido, de óculos, que lhe ficam muito bem, ali esteve a montar aquele puzzle complicado. Como é meticuloso, lá foi avançando. Só numa das partes é que a coisa esteve mal parada, não encaixava nem por mais uma. Por fim, já estava à martelada com aquilo ou, como a martelada não resolveu, com a chave de fendas e com martelo, já desbastava a ranhura, para a tornar mais funda e ver se a tábua entrava. Afinal verificou-se aquilo de que o material tem sempre razão: era um parafuso que não estava bem apertado e oferecia resistência ao encaixe de uma das partes.
Nunca vi um tal processo: se tivessem mandado três tábuas grandes, duas laterais e uma para as ccostas, e mais as prateleiras e as portas, teria sido incrivelmente mais fácil. Agora mandarem dezenas de tábuas a tabuinhas e mil parafusos de diferentes espécies e porcas e pernes ou lá como se chama aquilo, parece um teste à paciência. Eu jamais teria dado conta de tal berbicacho.
Mas ele deu e reconheço que a cozinha fica melhor assim.
Não gosto é dos puxadores, são pretos, não têm a ver com os outros. Temos que ver se arranjamos uns com a mesma furação mas mais compatíveis com os dos demais móveis da cozinha.
Agora temos que ver onde colocar o suporte das pegas e o das chaves pois estavam por cima do mal-amado móvel baixo que lá estava. A parede agora está tapada com o móvel que tem 1,90 de altura. Mas há tempo.
Eu, entretanto, andei a lavar cortinados, tapetes, pegas e o que mais me apeteceu deitar a mão. O tempo está bom para secar roupa ao ar livre, há que aproveitar para as limpezas pós-verão. Quando começar o tempo de chuva já não dá tanto jeito fazer estas barrelas.
E, claro, ida ao supermercado para compras semanais e fim-de-semanais, quatro sacos gigantes a deitar por fora, com ida e volta de uber. E refiro isto porque para nós é um salto quântico nos nossos hábitos, desde sempre habituados a andar de carro conduzido por nós. Aquele receio e transtorno que sentíamos afinal eram desnecessários. Claro que subsiste o tema do cão que, obviamente, não pode vir connosco. Ao supermercado não é assunto que se ponha mas, se quisermos ir a algum lado com ele, de uber não poderá ser. Não é de fiar com estranhos, nunca se sabe como se portaria e não dá para arriscar. Claro que, em caso de necessidade extrema, lhe poríamos o açaime e o meu marido ia a garrá-lo, no banco de trás, a fazer-lhe uma gravata o tempo todo. Mas, deixando-o em casa, para nós dois o uber é uma boa solução, lá isso é. Bem que os meus filhso nos chateavam por não usarmos. Tinham mais do que razão.
E este domingo já vou experimentar o meu forno novo. Estou desejando de ver se me ajeito com ele. Um forno bom é meio caminho andado para a gente se sentir bem na cozinha.



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