quarta-feira, agosto 26, 2026

Se um ministro pode usar um Golf apreendido não poderá outro, ou o mesmo, usar um Rolex apreendido? É só uma pergunta.
--- A palavra ao meu marido ---

 

Tenho dificuldade em perceber como é que comentadores que me parecem razoavelmente honestos defendem de forma obstinada o Luís Neves. 

Já percebemos, como o próprio admitiu, que não cumpre os procedimentos, actua provavelmente de forma ilegal e as notícias vão dando conta de que mente com quantos dentes tem na boca. Temos, portanto, um conjunto de valências de excelência para se ser ministro -- e, no entanto, gente como o Fernando Medina, o Nuno Artur Silva, o Miguel Sousa Tavares, o Miguel Roque e outros que tais acham que é coisa menor um ministro actuar segundo uma lei própria, de forma opaca e, quando escrutinado, pelo que à posteriori é divulgado, descobre-se que que mentiu descaradamente. 

De facto, o nível exigido a um político baixou drasticamente desde a Spinumviva, mas não pensei que fosse possível chegarmos a este ponto. Já tinha ouvido o Sousa Tavares dizer que tinha aprendido a nadar num tanque como se isso justificasse a construção da piscina pelo ministro. Ouvi o Medina referir que provavelmente só havia uma empresa a construir para a PJ por questões de segurança como se fosse a única bolacha no pacote e o Miguel Roque mencionar que não interessa nada essa história do Neves ter um Mercedes de luxo e justificar o Golf por questões de poupança com qual é o problema? 

Argumentos mais cretinos são difíceis. E, no entanto, ainda é possível pior. O Santana Lopes disse que situaçoes destas são mais de 100 e que até conheceu ministros que conduziam Porsches. Pelos vistos é tipo self service. Cada um vai aos depósitos de apreendidos e escolhe o carro que quer. Inacreditável! 

Ocorreu-me se farão o mesmo com os Rolex ou com colares de diamantes. Mandam buscar, usam e, depois, devolvem? Será de escrutinar? É que isto é cada cavadela, sua minhoca.

E, com isto, o Ventura vai cantando e rindo.

8 comentários:

Daniel Marques disse...

A metáfora do self-service de luxo no depósito de apreendidos é perfeita para ilustrar o anestesiamento a que fomos chegando.

O problema nem é apenas a ligeireza com que se encara a legalidade ou a transparência — é a ginástica mental de quem comenta para justificar o injustificável. Quando a defesa de um responsável público passa por "sempre se fez assim" ou "havia quem andasse de Porsche", o debate institucional morre e passa a ser apenas complacência.

Se o critério para a conduta ética passou a ser a comparação por baixo, a fasquia já não está no chão: está enterrada. E sim, quem ganha com este espetáculo de desenvoltura institucional e argumentos empoeirados já todos sabemos quem é.

Anónimo disse...

Ao que li há procedimentos que permitem tal coisa. Apreendido não é confiscado. Até decisão do tribunal o proprietário continua a ser o mesmo.

Mais estranho são os 150 mil para a destruição do material que a PJ não tinha dinheiro para pagar. Afinal de contas talvez não chegasse a 10 mil e quem pagava não era a PJ mas o Ministério da Justiça.

Fora o que foi dito sobre a galera. Afinal não era uma mas sim quatro e só uma foi parar ao Minho. Com a agravante de ter lido que teriam mexido no que lá estava sem se saber o que estava efectivamente lá, pudicamente sob o véu químicos.

Em todo o caso o PR já deu sinal de que era tempo de o homem se pôr a andar. Tarde ou cedo vai ter guia de marcha.

ccastanho disse...

A questão Luís Neves, é um caso interessante que permite interpretações diferentes em pessoas politicamente muito próximas, e ainda bem que assim é. Ainda que levianamente, quando há um interesse do Chega, eu, sem o conhecer minimamente, digo logo, estou contra. O caso Luís Neves, é daqueles casos que do ponto de vista lógico, todos dizemos: o Luís não devia ter feito ainda que não seja crime de lesa-pátria. Só que, e aqui é que está a porra da controvérsia, este caso é sobretudo político, repito, político e até arruaceiro.

Considerar, e defender a saída de Luís Neves de ministro, é preocupante para a democracia quando a pretexto de lana-caprina, se permite que forças reacionárias, fascistas diria mesmo, utilizem o pelourinho para esmagar pessoas independentemente de culpadas ou não.

Considerar e defender a saída do ministro, é permitir que a judicialização com claro apoio dos média destituam políticos legitimamente eleitos independentemente da ideologia assumida desde que respeite as regras constitucionais.

Considerar, que o ministro tem de sair antes da inspeção ao sucedido, é dar razão ao mundo jornalístico assalariado, e avençado –mulas do tráfego politico e económica neste país--dos grandes interesses económicos valendo tudo, desde a arruaça, a intriga, a vil acusação de coisas efetivamente não correspondidas na realidade, a perseguição com apanhados da vida real feito por essa casta de mal feitores jornaleiros profissionais do crime de intromissão na vida privada com o apoio das forças que os devia punir e não usar. Enfim…

Os democratas deste país, deviam estar avisados para o ataque mais vil, e soez que com esta direita está a ser feito a todos os níveis na sociedade portuguesa ás conquistas democráticas há muito assumidas e agora postas em causa com esta direita revanchista e retrógrada no burgo.

Alinhar, independentemente do que venha a ser conhecido do caso Luís Neves, com a armadilha da direita, é pactuar com o ataque á democracia feito por forças que convivem mal com direitos humanos.
Agora, o direito há diferença opinativa é indispensável no convívio democrático. Cada um com o seu, ninguém fica enganado.

UJM disse...

Ccastanho, respondo eu que, a esta hora, o meu marido já dorme. De qualquer forma ele leu o seu comentário e, de certa forma, a 2ª parte do post que ele escreveu e que acabei de publicar, mostra o que ele pensa. E eu penso o mesmo. Há uma coisa que é ética, em particular a ética republicana. Há que respeitar a lei, há que mostrar que se está ao serviço do povo, há que mostrar que se respeita a lei, que que honrar a verdade. E o Luís Neves, ele próprio, tem mostrado que tem alguma dificuldade em seguir a lei, os procedimentos legais, em ser verdadeiro. Não estamos a falar de crimes, não estamos a falar por aguardar julgamentos. Estamos apenas a falar do comportamento assumido pelo Neves. Um chico-esperto, um desenrascado, pode ser assim. Um ministro não pode, Tão simples quanto isto. Estar a defender isto é mostrar que se tem dois pesos e duas medidas. Um democrata verdadeiro, alguém que honre a ética republicana, não pode ter dois pesos e duas medidas. Eu não tenho. O meu marido não tem.
Quem é capaz de umas vezes criticar comportamentos dúbos e noutros casos fechar os olhos está a servir de bandeja um belo pratinho ao Ventura.

UJM disse...

Totalmente de acordo, Daniel. Muito bem dito.

UJM disse...

À medida que se vai destapando, mais inconsistêncas se vão detectando, mais irregularidades e coisas mal explicadas vão aparecendo. Que tem que zela pelo cumprimento da lei não pode ser o primeiro a fazer leituras liberais, não pode dizer que passa por cima de regras e que faz o que lhe dá na gana. Que exemplo é esse?

ccastanho disse...

Caríssima UJM.
Ponto de ordem à mesa. As duas perspetivas sobre o caso Luís Neves, têm sustentabilidade retórica, e ambas, respeitáveis, evidentemente. Ponto.
Falar de ética republicana para o caso Luís Neves, claro que é uma exigência democrática, como nos parece, evidente. O problema é que se está a exigir “ética” ao ministro, e não se exige a Montenegro.

Não se exige ética republicana ao povo português que vota maioritariamente direita e extrema-direita, branqueando “essa ética agora exigida a Neves, quando a mesma não aplica ao primeiro-ministro. E aqui, incluo o PR Seguro de que tem duas medidas de exigência.

Não se pode exigir ética a quem tem umas nuances- volto a dizer: de lana-caprina—e aos banqueiros deste país, que nomeiam e controlam os governos desde há imensos anos com seus quadros como ministros colocados estrategicamente para benefícios próprios.

Não se pode exigir ética para um ministro, e não denunciar” fundações de grandes grupos económicos “que pagam a assalariados ditos jornalistas de topo nas várias gestões dos média, e como assalariados desses grupos formatarem os seus interesses de grupo a troco de alvissaras.

Já sou velho, e a velhice, mostrou-me quanto estava enganado ao longo da minha irreverência na utopia do homem novo. Não há homens novos.

Albino Sampaio disse...

Foi essa mesma “ética republicana “ que permitiu a Sócrates viver à custa do cofre do vulfrâmio que a mãe tinha em casa!