Só tomei contacto com o sistema de pensões, no caso o da Segurança Social, quando me reformei. Quando vi o valor calculado, pensei que se tinham enganado. Depois recebi uma carta com várias folhas preenchidas dos dois lados, salvo erro ao todo seis páginas, em que apresentavam os cálculos.
Reproduzi, por mim, os cálculos e, no fim, não cheguei ao mesmo valor. Apresentei uma reclamação.
Ao fim de meses, recebi uma explicação que me deixou perplexa: a lei contempla alçapões que eu desconhecia e que não estavam visíveis ou, sequer, perceptíveis naquela calculatória que se estendia ao longo de 6 páginas.
E esse alcapão era (e é) ainda mais injusto (e absurdo) do que várias das regras explícitas. Fui ver a lei em todas as suas alíneas e adendas e confirmei: no meio daquele labirinto, lá estava ele, o alçappão em que se escondia mais uma guilhotina.
Apresentei reclamação para a Provedoria da Justiça. Confirmaram que, de facto, a lei contém aspectos duvidosos, conforme livro branco que tinham elaborado. Mas, em termos práticos, batatas.
Quando, meses depois (nem sei se quase um ano), integraram a parcela resultante do tempo em que dei aulas, voltei a achar que se tinham enganado. Voltei a reclamar. Meses (ou mais de um ano) depois, recebi a resposta. Não concordei, não percebi. Voltei a reclamar. Disseram que já tinham respondido.
Desisti.
E a conclusão que retirei é que um sistema que é um emaranhado, com alçapões e regras absurdas e injustas, é um sistema que deve ser feito de novo, de raiz.
Trata-se de um modelo matemático, baseado em cálculo actuarial. E um sistema bem feito é um sistema simples, com regras simples -- não uma manta de mil retalhos em que ninguém se entende.
Pode, em qualquer modelo, querer introduzir-se distorções partidárias, enviesamentos. Mas tudo isso se traduzirá em trapalhices, remendos. Tudo desnecessário.
Matematicamente, um modelo destes tem pouco que saber: há dinheiro a entrar, via contribuições, e há dinheiro a sair, via pagamento de pensões. Pelo meio, há cenários, que se vão ajustando, relativos ao desenvolvimento económico para estimar o ritmo do crescimento do 'bolo', ano a ano, e há a esperança de vida que estima durante quanto tempo, em média, cada pessoa vai ficar a receber a pensão (até morrer). E, pelo meio, há regras que assegurem a justiça nos pagamentos e a regras para acudir aos que não têm carreira contributiva que assegurem pensões suficientes para a sobrevivência dos beneficiários.
Li as notícias sobre o estudo levado a cabo pelo Professor Jorge Bravo. Logicamente não li o estudo completo mas li quais os pontos abordados, algumas conclusões e recomendações. De tudo o que li, houve uma única que preciso de perceber em pormenor. Tudo o resto pareceu-me bem.
Haver sistemas complementares, voluntários, parece-me bem. Eu recomendaria o mesmo. Simplificar todo o sistema parece-me bem. Analisar conjuntamente o sistema da Segurança Social e o da Caixa de Aposentações parece-me bem, aliás, parece-me indispensável. Sensibilizar a população para a necessidade de preparar e acautelar a sua reforma, parece-me muito bem; sensibilizar toda a gente, desde a mais tenra idade, para a necessidade de compreender como estas 'coisas' funcionam parece-me elementar.
Diria, mesmo, que só por conservadorismo e espírito imobilista e retrógrado pode não se querer encarar a necessidade de reformular, repensar e simplificar o sistema de pensões.
Entretanto, vi na televisão, creio que na CNN, o Prof. Jorge Bravo, coordenador da equipa que realizou o estudo, e o Prof. Manuel Caldeira Cabral que fez o estudo anterior e que, do que já tinha aprendido, concordou com o trabalho agora apresentado.
E vi uma notícia que a esquerda já estava a cair a pés juntos sobre o estudo. Presumo que seja o PCP e o Bloco. Não admira. É gente velha, do contra, avessos a qualquer mudança.
Só espero que o PS tenha maturidade e honestidade intelectual para impulsionar e dinamizar a análise construtiva do estudo e para querer avançar rapidamente para uma implementação ágil, transparente, justa e sustentável de um novo sistema de pensões.
Já sei que meio mundo vai opinar e acantonar-se em trincheiras ideológicas -- mesmo não tendo lido o estudo e, sobretudo, não percebendo patavina de cálculo actuarial. Vivemos num mundo e num tempo em que as bocas de um ignorante têm o mesmo peso que a opinião informada de quem estuda a fundo um assunto. É o que é. E é de seguir adiante, a carruagem passa apesar dos cães que ladram na berma.
Se há tema em que Seguro deve deixar-de de tozezices e chamar o PSD e o PS para que se entendam e avancem com o que é preciso este é, sem dúvida, um deles.
14 comentários:
Esqueceu a professora Carla Castro.
Não sei se é bem se é mal. Sei apenas que não confio em nenhum deles. Gente dos seguros e dos mercados de capitais a querer pôr o dinheiro dos outros a mexer.
E acrescente aquela que não está no documento mas que prepara os documentos em Bruxelas: Maria Luis Albuquerque.
É bem possível que haja mudanças a fazer e até significativas. Mas não é com gente desta.
Do que duvido é que Montenegro queira embarcar nesta aventura - pelo menos para já. A mulher de António Ramalho adoraria. Mas depois das penas cortadas na reforma laboral veremos até onde pode ou quer ir.
Mas os planos complementares voluntários não existem já, os PPR? O que são os "incentivos comportamentais" à adesão "voluntária", mencionados por Jorge Bravo? Confesso que senti um arrepio na espinha. E se são voluntários e complementares, em que é que melhoram a sustentabilidade da SS? Vi a mesma entrevista que menciona e Caldeira Cabral.pareceu-me bem menos catastrofista do que o colega que quer dar um mealheiro às criancinhas para as ensinar a poupar, coisa de que nunca ninguém se lembrou..Para mim, não é assim tão evidente que um sistema autonómo, para o bem e para o mal, como.a CGA, e que se irá resolver pela ordem natural das coisas como explicou Caldeira Cabral deva entrar nestas contas, Alteram substancialmente todo o quadro, de uma forma que acaba por ser artificial e claramente servir um propósito. Mas veremos, que a procissão ainda vai no adro e o andor já não se mostra tão afeito como com o código do trabalho.
Misturar nas contas da S.Social, as da C.G.A., não é justo, ou seja depois da primeira apresentar um excedente, mas como a segunda tem um deficit, ambas apresentam um deficit de +- 2 milhões.. Mas já alguém perguntou porque o deficit da C.G.A. ?
O deficit da C.G.A. resulta do facto de o ESTADO nunca ter contribuído, na sua qualidade de entidade patronal. Quem contribuía eram apenas os trabalhadores e o Estado apenas entrava quando o valor das quotas era insuficiente.
E...?
O q adianta isso?
Não confio na Ms Albuquerque, aka, Ms Swapps. Mas não diabólico as seguradoras. Mutualizar o risco e cálculo actuarial são matérias que me são caras
Concordo que há que criar uma doutrina, uma habituação de acautelar o futuro. Com incentivos fiscais ou ensinamento concordo que as pessoas, individualmente, devem constituir um pé de meia. O que não falta são artistas que pregam a liberdade de ir atrás dos seus sonhos e depois, quando chegam a velhos, sem reforma de jeito e sem terem onde cair mortos, por aí andam ó tio, ó tio. Ou as novas se horinhas, esposas ideais, que acham que devem ficar em casa a cuidar da casa, dos filhos e do marido, sem descontarem para a Segurança Social. Sempre quero ver quando chegarem a velhas... Vão pendurar-se nos filhos?
Sim, mas é senso comum, não ideia apresentável pelo economista llíder do grupo de trabalho encarregado para analisar a sustentabilidade da segurança social para a qual todos os trabalhadores e empresas "amealham" obrigatoriamente. Se falasse em combater a economia informal ainda faria sentido, agora em que é que apontar para o mealheiro se relaciona com essa missão? Só se for humor negro.
Não diabolizo as seguradoras. Fazem o seu negócio, legítimo. Só que estamos a falar de políticas públicas e, citando Milton Friedman (julgo que era ele), the business of business is business. Têm natureza distinta e objectivos distintos.
Fico com a ideia de que o que essa gente quer não é nem opções tipo Países Baixos ou Suécia - num deles os sindicatos até têm um grande peso na governação - mas antes à americana: uma pensão mínima da segurança social para tapar a fome e o resto segue o caminho de um tal modelo 401, tipo porquinho das moedas a pagar individualmente e pela empresa para comer a pouco e pouco durante a reforma até sobrar pouco mais que os ossos no dia do enterro.
E...?
O mínimo a dizer é que o estudo não é sério.
E ... ?
os argumentos apresentados pelo economista e seus sequazes, estão truncados, não lhe faz impressão Jeito Manso ?
https://www.eugeniorosa.com/Articles/Download/633?handler=Signup
Amanhã vou ler. Obrigada.
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