quinta-feira, julho 23, 2026

Da próxima vez

 

No acelerar dos dias, entre toda a espuma da infinita torrente informativa que nos submerge, grande parte do que é importante passa desapercebido. Por experiência própria, agora que tenho conta de instagram, sei que se queremos acompanhar tudo o que o algoritmo tem para nos mostrar, não paramos de escorregar o dedo pelo ecran para ver a notícia seguinte e a outra e a outra e a outra. E tantas vezes, aquilo que não compreendemos bem acaba por se esvair entre tudo o que é sugado pela máquina trituradora do que já foi visto.

No outro dia li uma notícia. E como me tem acontecido com alguma frequência, sempre que é uma aberração, a minha reacção é a de pensar que talvez não seja credível. Faço mal. O inteligente seria ir investigar. Mas continuo a deslizar, penso que depois logo vejo se é mesmo verdade, e o que acontece é que nunca mais me lembro.

E, tal como tem acontecido com todas as aberrações, venho a verificar, depois, que, afinal, era mesmo verdade.

Quando um assunto é nebuloso, fora do nosso controlo, coisa complexa, há quem tenda a não querer saber. Uma reacção do tipo 'entrega para deus'. Só que, neste caso, não é bem a deus que se entrega. É à Open Ai, à Anthropic, à Gemini, sabe-se lá a quem.

Transcrevo: "Modelo de IA da OpenAI age por conta própria e lança ciberataque durante testes de segurança"

"(...) A OpenAI afirmou que o que aconteceu foi um incidente "sem precedentes" e está a conduzir uma investigação em conjunto com a Hugging Face, cujo diretor, Clement Delangue, afirmou numa publicação no X que é "impressionante que tudo isto aconteceu de forma autónoma".

Só que não é apenas impressionante: é a prova provada dos reais riscos que todos corremos com a corrida desenfreada nos domínios da Inteligência Artificial. O mercado bolsista pressiona mais e mais ganhos e as empresas são pressionadas a entregar mais e mais, a chegar mais e mais longe. 

Enquanto houver quem descubra o que vai acontecendo ou enquanto houver quem vá denunciado as linhas vermelhas que, aos poucos, vão sendo pisadas, talvez os riscos vão sendo amortecidos. Mas pode acontecer que um dia algo de muito mau aconteça sem que ninguém vá a tempo de travar.

Não é alarmismo. É a realidade. Os riscos começam a apertar o cerco. Como será da próxima vez?

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Ao acordar e ao dar uma vista de olhos pelas notícias vi o que também não queria ver: Luís Represas saiu de cena. Não devia. A sua voz parecia eterna. A sua voz mobilizava e emocionava multidões. Ficam os vídeos, os discos. É certo. E é também certo que ninguém cá fica. Mas ele foi cedo demais.

Como sempre acontece, quando sei destas notícias, tento compreender. Tento ver nas imagens que agora nos vão aparecendo se já havia indícios. Em Março esteve no concerto e, que se tivesse percebido, parecia bem, não parecia debilitado, cantava, não arfava nem tossia. 

Dois familiares muito próximos morreram com cancro no pulmão. Foram anos de sofrimento com tratamentos horríveis. E tinham tosse, falta de ar, custava-lhes a respirar, tudo lhes doía. Um calvário. Mas, no caso da minha mãe, não foi assim. Não soubémos de nada até que já estava às portas da morte. Será que com o Luís Represas foi também assim? Saberia ele, no concerto de Março, que estava a escassos três ou quatro meses de se despedir deste mundo? Faz-me isso muita impressão. Ao ver agora as suas imagens, penso que estava mal encarado. Aliás, já o tinha achado envelhecido, enrugado. Na altura pensava apenas que a idade não perdoa, que era normal que, quase aos 70, não tivesse a mesma carinha de menino que sempre teve. Mas, agora que sei, penso que, se calhar, era já a morte, inclemente, a galope dentro dele. Se calhar é mórbido eu querer perceber o que talvez não tenha nada que perceber. Mas faz-me isto muita impressão. Ele e o João Gil e os outros ali em palco, todos reunidos. Saberiam que o fim dele estava para breve? Fico triste. Nem todas as perdas são assim, mas esta é. A morte não deveria ter levado já o Luís Represas. 

Não haverá próxima vez.


Desejo-vos um dia feliz

6 comentários:

Daniel Marques disse...

Esse seu sobressalto em relação à marcha da inteligência artificial contrasta, de forma dolorosa e profunda, com a fragilidade humana com que encerra o texto a propósito do Luís Represas. Essa sua tentativa de procurar sinais nas imagens e a perplexidade perante a finitude são de uma sensibilidade imensa.

Confesso que, sobre essa notícia da OpenAI, fico sempre com uma réstia de ceticismo. Muitas vezes estas narrativas apocalípticas de que a "criatura fugiu ao controlo" parecem-me autênticas campanhas de marketing encapotadas para gerar publicidade gratuita. No fundo, ao venderem a ideia de um risco quase de ficção científica, vendem também a ilusão de um poder absoluto da tecnologia, desviando a atenção de questões bem mais terrenas.

Aproveito esta visita ao seu espaço para lhe deixar uma breve nota sobre a sua secção "Frescos e bons": o blogue A Minha Honda renasceu com o nome Entre Curvas (embora o link continue a dar ao sítio certo – www.entrecurvas.pt). Quando tiver um tempinho para ajustar o nome na lista, fica a nota para continuarmos a acompanhar este seu ritmo e as suas leituras atentas.

Um abraço, Vera!

UJM disse...

Pois é, Daniel, o caso é que se as virtudes são imensas, os riscos são reais e não sei se conseguiremos sempre controlá-los. O caso relatado esta semana é assustador e estou convencida que passa ao lado de meio mundo. Ou seja, o terreno é fértil para a desregulação.
Vou, então, colocá-lo entre curvas... Mas, veja lá, não derrape...
Um abraço

UJM disse...

Daniel.
Comecei por acrescentar o Entre Curvas mas o que aparecia ali ao lado continuava a dar pelo nome da 'sua' Honda. Então apaguei esse endereço da Honda. Mas não consegui juntar o Entre Curvas, deve ter algum problema com o feed, quando vou a fazer Save, não tenho essa opção, só a de cancelar. Amanhã voltarei a tentar, mas estou em crer que o problema deve estar nas configurações do seu lado.

Daniel Marques disse...

Vera, você está a fazer tudo certo (tenho a certeza). O que tem a fazer é após o preenchimento do formulário dar um clique no "vazio" numa zona vazia do formulário. Depois, como por magia a opção "save" fica disponível. É um bug do Blogger.

UJM disse...

Lamento mas não... A opção SAVE está lá mas sumida, inactiva. A única disponível é Cancelar. Mas, mesmo que eu não cancele, e Save a seguir, não fica guardado.

Daniel Marques disse...

​Vera, não se preocupe minimamente com isto, agradeço-lhe desde já todo o carinho e o esforço para fazer a atualização!
​Esse comportamento do Blogger é mesmo um clássico e costuma ser teimoso. O botão "Save" fica sumido porque a plataforma só o ativa quando deteta formalmente que a digitação no campo do URL terminou.
​Se um dia quiser tentar de novo, o truque mais infalível para "despertar" o botão costuma ser este:
​Ao colar ou escrever o endereço (https://www.entrecurvas.pt), carregue na tecla Enter do seu teclado (ou na tecla Tab para saltar para o campo seguinte).
​Se o botão continuar inativo, dê um Espaço no fim do link e apague-o de seguida (Backspace). Isso força a plataforma a "acordar" e a validar o endereço.

​Um abraço,
Daniel