Não li a proposta do governo nem tenho prestado atenção a todo o cacarejar que se levantou em torno do assunto. Cansam-me as vozes que falam de tudo, mostrando desconhecer a realidade.
Como não conheço a proposta não vou pronunciar-me sobre ela. O que quer que venha a fazer-se deve ser bem pensado. E quando digo 'bem pensado' é isso mesmo: avaliado sob todas as perspectivas e apenas decidido depois de muito conscientemente se ter sopesado prós e contras.
O que posso dizer é a experiência de casos de que, em tempos não muito longínquos, ouvi falar.
Um caso diz respeito a uma empregada doméstica. Trabalhava num registo completamente informal e não queria de outra maneira pois estava a receber subsídio de desemprego e, portanto, não podia ter uma actividade remunerada 'oficial'. E assim, recebia 'limpo' mais do que se trabalhasse a descontar. E, segundo me contaram, ela dizia isto com a maior naturalidade.
Outro caso diz respeito a uma pessoa que uma empresa quis contratar. Ofereciam um bom ordenado, um bom subsídio de almoço, seguro de saúde. Pois bem, essa pessoa não aceitou pois disse que 'não lhe compensava'. Estava a receber o subsídio de desemprego e a trabalhar num lugar em que recebia 'por baixo da mesa', enquanto no bom ordenado que lhe estavam a propor, como era todo legal, isto é, sujeito a IRS e TSU, o líquido era inferior ao que recebia de subsídio mais o outro que vinha pela porta do cavalo. Na altura, contaram-me que não era caso único, muito pelo contrário.
Relembro ainda as várias vezes em que a senhora que nos ajudava, primeiro com o meu pai e, depois, embora de forma mais ligeira, com a minha mãe, me dizia que outras pessoas de idade lhe pediam também apoio e ela dizia que já não podia aceitar mais compromissos, mas que andavam sempre atrás dela. Quando eu perguntava se ela não arranjava alguém que a ajudasse e a quem, de certa forma, desse ormação, respondia-me que não, pois, segundo ela, 'o café ali em cima está cheio de mulheres que não fazem nada, passam o dia todo ali na conversa e a fumar, umas que vivem dos subsídios de inserção e subsídio disto e daquilo, e não estão para se maçarem a trabalhar, já se habituaram a receber o dinheiro sem fazerem nenhum'. Eu, na brincadeira, dizia para ela não ser má língua. Ficava brava comigo, dizia que jurava por tudo o que havia de mais sagrado que era a mais pura das verdades, que eu podia ir lá ver com os meus olhos.
E poderia enunciar outras situações do mesmo género, pessoas que dizem que trabalhar a descontar 'não lhes compensa' face aos subsídios qu erecebem mais o que fazem 'por fora'.
E agora até me fez lembrar uma outra situação que não tem a ver com isto dos subsídios mas que, no fundo, tem a ver com a mesma mentalidade. O filho de um conhecido foi um aluno muito bom, tenho ideia que o melhor do curso, depois fez o mestrado numa universidade do exterior, depois começou a doutorar-se, e tudo em temas ligados à cultura, à sociologia da arte, coisas assim. Durante a frequência universitária ligou-se mais ou menos a um partido. E um dia escreveu um artigo crítico no jornal da faculdade, dizendo mal das políticas culturais do governo da altura e, já não me lembro como, esse artigo depois foi citado num jornal dito de referência. Curiosamente, a seguir, foi contactado pelo secretário de estado no sentido de lá ir ter uma conversa. Foi e, lá, foi-lhe oferecido um cargo de assessoria a troco de uns euros valentes. Apesar de ser crítico do governo e de este ser de uma cor diferente da do partido em que mais ou menos militava, aceitou. Algum tempo depois, viu um anúncio para ir organizar e dinamizar o acervo cultural de uma importante institução financeira. Foi à entrevista. Dias depois, o pai, todo revoltado com essa instituição, contava-me que lhe tinham oferecido um ordenado da treta, que nem chegava aos dois mil euros, que mais que isso ganhava ele na Secretaria de Estado 'para não fazer nada', e que, portanto, obviamente tinha recusado. Fiquei estupefacta. Ele e o filho achavam normal que o rapaz ganhasse uma avença para não fazer nada. No fundo é a mesma lógica: a de que possa fazer sentido receber-se dinheiro só porque sim, sem ter que dar nada em troca.
Como disse, não conheço a proposta da Prestação Social Única e do trabalho voluntário 'à força'. Mas, independentemente disso, acho que as virgens ofendidas que batem no peito por dá cá esta palha deveriam conhecer melhor o mundo da economia paralela antes de pregarem com tanta veemência.
E também acho que o que houver a fazer para moralizar minimamente esta sensação de que algumas pessoas têm de que podem receber subsídios, acumular com trabalho feito à candonga, sem pagar impostos ou contribuições sociais, porque lhes 'compensa mais' do que fazer trabalho normal, legítimo e declarado, deve ser feito.
14 comentários:
Olá Ujm, toda a gente conhece casos desses. Espero sinceramente que quem está a legislar acautele os casos particulares que deve acautelar, e concordo que não há melhor altura que está, em que há quase pleno emprego, para se acabar coma subsídio-dependência.
Pensei que tinha aberto a página do Folha Nacional.
Foi...? Pois olhe que tive que pesquisar para saber o que é isso do Folha Nacional. Mas, pelos vistos, não é o seu caso, pelos vistos é 'literatura' que frequenta com alguma regularidade. Cuidado, olhe que há 'literaturas' que destroem os neurónios.
Exacto. Concordo!
Devo dizer que concordo com esta medida se acautelar as pessoas idosas, e aquelas que, comprovadamente não podem trabalhar. Todos conhecemos muitos casos de pessoas que, podendo trabalhar, não trabalham porque não querem, e outros recebem subsídios e fazem trabalhos pela porta do cavalo acumulando dois salários. É frequente ouvir eletricistas, carpinteiros, canalizadores, pessoal de limpeza, jardineiros, pintores, pedreiros e até restauração todos eles queixam-se de falta de jovens para aprender as profissões acima descritas e outras como também agricultura…
Estou altamente expectante de ver os Ciganos a fazer trabalho social. Ou me engano muito, ou os centros de saúde vão encher com consultas de atestado médico por” doença” conveniente.
Enganei-me, não é o Folha Nacional, é o Mais Liberdade.
Trabalhei com miúdos ciganos que frequentavam cursos com certificação escolar. Era uma das condições para que as famílias recebessem rsi. Mas os cursos incluiam períodos de formação em posto de trabalho e era muito difícil colocá-los, por serem ciganos. Ninguém os queria e estamos a falar de adolescentes que nem conheciam. Mas quando se apercebiam que eram ciganos, às vezes só pelo apelido (com esse nome... é cigano?), recusavam-nos. É por isso que qd oiço que o cigano "não quer trabalhar" me pergunto se será de facto assim. A experiência que tive foi de forte discriminação que naturalmente os empurra para outras formas de sobrevivência. É um ciclo vicioso. E agora pergunto-me: trabalho social? E quem os quer acolher?
Também eu !
Também eu
Tal como o outro anónimo, sei o que é a folha nacional porque sei quem a distribui. Nunca a li e quando me é estendida rejeito com todo o desprezo que consigo expressar! Acho a sua resposta lamentável
Agora com um canal aberto específico para a "bufaria" é que o país recupera a sua ética fascista. Há que delatar, senhores, há que delatar! Enfim
A UJM, por vezes, levanta lebres de difícil argumentação e, muitas vezes contrariada por outras vivências. Prefiro outro campo, o da matemática. Por alerta seu, falou várias vezes sobre IA. Curioso fui indagar, sobre IA. Fiquei estupefacto ao ver a nossa argumentação e contra-argumentação escrita, tal qual. Abordou- se a questão dos CEO é fuga aos impostos, em contexto de profs. De forma polida, CCastanho levanta outras lebresreconhecerá.Então @í vai mais outra achega. Em terras de xisto e granito, havia cerimónia religiosa, missa com caridade. Gente pobre(e eram quase todos) enviavam as suas crianças para o mísero óbulo de 1 escudo. De ciganos, recordo gente cigana, sedentária, que solicitava professoras primárias para madrinha da sua prole. Destas ainda conheci duas Ficou toda a plebe cigana eternamente grata, sempre respeitosa. Esta uma versão. A segunda versão(daria para um trabalho enciclopédia resultaria do nosso percurso transversal no eixo lisboeta R. Artilharia Um-Rato, e a nossa vivencia(em tempos distintos) pelas mesmas grades do portão das missivas.Conheço uma ínfima parte da vivência de certas gentes(Fui cuscar pela Folha) . Ironia, um empregado do trabalho, referiu, preto no banco, que havia uma entidade do grupo citado, que trabalhava, regularmente e com afinco, no mesmo loca. Em tempos de estudante recorri à candidatura de uma bolsa. Da lembrança passada da missa com caridade, fiquei com o mesmo sabor Amargo. Conclusão, directa e honesta, há casos e casos, leve humilhação é simplesmente execrável. Felismente que a UJM, tal como eu, não estámos na pele do RSI.E os VENTURINOX e a aparentada família não merece um milisésimo de segundo de neurónios. Como matemática, inteligente,e simultaneamente patusca e divertida, sabe(talvés melhor que eu, que a IA regista tudo. Mas como seres. humanos sabemos contornar a IA. Diverti-me com as nossas letras e a IA. Tudo de bom para si, e com todo o respeito baralhava o portão com números decimais, aumentava a confusão com números binários, aplicava códigos variados. Veja só, podia interpretar-se uma missiva combinatória com elevada sofisticação, com O público mirante sem qualquer pista. Estranho, vossa mercê escreve bem, mas cai em leis sociais discutíveis. Experiência fundamental. BOM fim de semana. Os granitos é xistos vão facilmente aos 40 grau, só esperam pela mãe natureza.
Primeiro queria dizer que não são apenas os ciganos que recebem rsi. Serão uma percentagem reduzida dos beneficiários. E não são eles que maoritariamente juntam um ordenado e um subsídio. Quanto ao estigma ele existe e na minha opinião é maior do que há uns anos atrás porque as feiras estão a acabar, os ciganos estão a ficar sem ocupação, e muita gente se sente incomodada com os subsidios que só eles recebem. Às vezes as boas intenções para acabar com a discriminação acabam por criar ainda mais discriminação. O problema é de dificil resolução. Se fosse eu dava incentivos às empresas para os contratar. Não sei se resultaria, mas dar-lhes mais dinheiro também não resolve.
É hábito meu ler os comentários.Por vezes traduzem simplesmente o pulsar dos anónimos. Outros usam o sinal de soma .+ Liberdade foi para mim o despertar de uma bomba de relógio. Afinal,simples número,em território hostil. Dois mundos desencontrados ,onde a ordem dos cristais contrasta com a desordem dos minerais, calhaus e outros coisas que a mãe natureza produz. Qual o valor do diamante? Não é senão um punhado de átomos de carbono,nada vale diria eu.Quando o sinal + se coloca vale milhões.A cigana que me leu a sina no jardim da Estrela não me avisou? Não recordo.Que dirão antigos colegas dos tostões que a profissional cigana sacava com mestria? Também não sei a resposta.
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