Dias de labuta, apetece-me dizer. Mas não digo, não gosto de exagerar. Nem gosto de apresentar como obra feita o que é, sobretudo, um desejo. Para onde olhe, vejo coisas que precisam de ser feitas.
Longe vão os tempos em que, ao contrário da maioria das pessoas e, em particular, a minha família, eu estava bem era com obras. Adorava idealizar, ter cá o senhor das obras, mostrar-lhe as minhas ideias, os meus desenhos que ele não percebia e fazia-os ele, à sua maneira, com um bocado de tijolo riscando o cimento ou um pau riscando a terra. E depois ver a evolução, montes de areia e brita, sacos de cimento, pilhas de tijolos. Era a minha praia.
E chegávamos ao fim de semana, depois de uma intensa semana de trabalho, e depois de um bocado a dormir (a bateria descarregava, ia abaixo, mas dormia um par de horas a mais e, num instante estava recarregada), varrer, lavar, sacudir tapetes e cobertas e colchas, e, à noite, pintar ou fazer de arraiolos até ser quase de manhã.
Agora está bem, está... Olho para o muito que há para fazer e penso que não tenho energia nem para um décimo. É que, ainda por cima, dantes a natureza ainda estava a desenvolver-se, era vê-la a crescer. Agora desenvolveu-se, avança, cresce, e há que arranjar, abrir espaço, cortar, limpar. Tudo muito mais que antes. Ou seja, é um misto disso e da minha genica que já não é a mesma que antes.
Fomos almoçar fora. Descobrimos uma tasquinha simpática numa aldeia não muito longe. Come-se bem. Para começar, havia uma tacinha de azeitonas temperadas e uma cesta de pão variado. Num ápice voou tudo. Adoro pão com azeitonas. Depois pedimos uma entrada de ovos com farinheira. Óptima. Ovos macios, cremosos, pouca farinheira, salsa picadinha. A seguir mandámos vir bochechas assadas, uma dose para cada. Mas, nessa altura já apenas consegui comer duas, e eram pequenas, com salada, um arroz soltinho e umas batatas estaladiças. O meu marido, salvo erro, ficou-se por três. Pedi que pusessem o remanescente numa caixinha. Ainda dá uma refeição para um, nas calmas. Depois um petit gateau de chocolate do Dubai, quentinho, com gelado de pistaccio. Bem bom.
Resultado: ao jantar apenas comi um pouco de iogurte grego natural, a que misturei sementes e um kiwi com um pouco de burrata. Mas, ainda assim, sinto que engordei cinco quilos. No mínimo.
Quando chegámos do almoço, fomos estender a roupa que eu tinha deixado a lavar.
A seguir, deitei-me debaixo da meia sombra da figueira e quase adormeci. Um dos lençóis estava estendido na corda que vai de um ramo da figueira até a um gancho no telheiro e, por isso, a aragem trazia-me o perfume bom do lençol lavado.
Mas foi sol de pouca dura pois sabia que havia muito trabalhinho à minha espera. Não apenas estava só a ouvir chegar mensagens como não queria deixar passar a tarde.
Varri, varri, varri. Bolotas secas, folhinhas secas de azinheira, caruma, pinhas roídas e secas. Mais a terra que se junta. Não sei quantos carrinhos de mão enchi e transportei e despejei.
Parei já era quase de noite, e parei não porque já estivesse tudo feito mas porque receei que amanhã não conseguisse mexer-me.
Mas olho e vejo árvores que precisam de ser desbastadas, arbustos que rebentam demais, caminhos a precisarem de ser limpos. E dentro de casa há rodapés que, em algumas zonas, deveriam ser retocados. Sei lá. Sempre coisas para fazer.
Ontem, quando se ligou a luz da cozinha, disparou o quadro elétrico. Percebemos, depois, que a lâmpada do candeeiro que está sobre a mesa, se tinha fundido. Mas pior, o casquilho parece que derreteu e não se conseguia tirar de lá. De cada vez que se ligava, o disjuntor disparava. Eu com uma lanterna e o meu marido em cima de uma cadeira a ver se conseguia sacar aquilo. Não conseguiu. Teve que tirar o candeeiro do tecto. Provavelmente com as humidades dos dias de muita chuva aconteceu alguma coisa. Agora, à noite, estamos à meia luz. Teremos que ir ver se encontramos uma peça que sirva de casquilho e se adapte àquele candeeiro. Ou seja, insignificâncias -- mas o pior é que, insignificâncias ou não, há sempre qualquer coisa mais para fazer.
E este domingo, logo de manhã, vem cá um senhor para dar um orçamento para tirar os cedros gigantes que tombaram ou caíram ou estão em vias disso e mais os pinheiros e mais roçar o tojo e etc. Não dá muito jeito, na manhã de domingo de páscoa, mas parece que é quando lhe dá jeito; por isso, muito bem, que venha.
Nem quero pensar que me vou despedir de árvores que plantei, mínimas, e que agora têm muitos metros de altura e que não têm salvação possível. Uma dor de alma.
E não sei se o excesso de água não continua a fazer estrago pois há mais um cedro e dois pinheiros completamente secos. Imagine-se: água como nunca se viu e as árvores secas. E mesmo um eucalipto gigante está com ar stressado, meio ressequido. A natureza tem coisas... Há que compreender e respeitar, bem sei. Mas o problema é que há coisas que custam a compreender.
De qualquer forma, talvez para me consolar, penso que outras árvores crescerão, que a vida continuará como sempre continua, renascendo todos os dias.
E, enfim, é o que é. Os pássaros estão em festa, cantam, cantam. Esquilos é que nem sinais deles. Sempre gostava de saber onde é que, de vez em quando, se metem.
E eu chego a esta hora com sono. Mais uma vez não vou agradecer os comentários, um a um. Agradeço aqui colectivamente. É uma e tal da manhã e amanhã tenho que pôr a carne no forno cedo, para assar de vagar. E estar pronta quando vier o senhor. E o que me custa já levantar-me cedo...
O meu marido, há bocado, esteve a falar-me de umas coisas interessantes da Arte da Guerra, de Sun Tsu. Perguntou-me se eu sabia há quantos anos foi escrita. Respondi que talvez para aí há uns mil e tal anos. Não, foi escrita há mais de 2500 anos. Estava a fazer um paralelismo, por contraste, com os idiotas que agora não sabem causar outra coisa senão destruição e morte. Perguntei-lhe se não queria escrever um post sobre isso pois parecia-me bastante interessante (e eu, confesso, estava com preguiça de escrever, apetecia-me continuar a reler o Louvor da Terra de Byung-Chul Han).
Mas ele também teve preguiça, também estava com sono, já foi dormir... E, por isso, aqui estou eu. Não tenho nada de interessante a reportar, só isto mesmo, mas a vida no campo também é um bocado isto, as pequenas coisas que vão surgindo todos os dias ou as pequenas conversas que se vão tendo.
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Desejo-vos um belo domingo
Que renasça a esperança em melhores dias, que renasça a paz onde hoje há guerra
Que a vida nos sorria a todos






4 comentários:
Olá, Vera. Que belas e honestas palavras sobre a passagem do tempo e a azáfama da vida na natureza.
Sobre esse mistério das árvores estarem a secar num ano de tanta água, arrisco aqui um palpite de quem gosta de observar: muito provavelmente o excesso de água acumulada no solo está a melar as raízes por falta de escoamento.
É um contrassenso biológico terrível, mas as raízes precisam de respirar oxigénio na terra. Quando o solo fica encharcado demasiado tempo, acontece uma asfixia radicular. Sem ar, as raízes apodrecem e a árvore perde a capacidade de absorver líquidos. É o chamado paradoxo da seca: a planta acaba por morrer de sede no meio de um lamaçal. Para ajudar à festa, esse ambiente húmido atrai doenças fúngicas que destroem o resto das raízes (e os cedros e pinheiros detestam "pés molhados").
Uma verdadeira dor de alma ver partir árvores que plantámos…
Um abraço e um excelente domingo de Páscoa!
Não sabia que se chamava Vera. Quando eu por aqui andava a Vera era UJM. Tanta coisa aconteceu desde esse tempo...
Compreendo-a perfeitamente, quando diz dessa falta de energia; com o avançar da idade esse é um sinal de que já não temos 20 anos (nem,como brincamos entre irmãs, 30, nem 40 ,nem 50, nem 60...).
Gostei de vir até aqui. Vou espreitar mais um pouco, os posts anteriores (que não sejam sobre política).
Beijinhos e continuação de boa semana.
Olá Daniel, muito obrigada. Talvez seja isso, faz sentido. A natureza tem sempre as suas razões. E há que aceitar e seguir em frente, não é?
Uma boa semana para si.
Olá Chabeli,
Bom vê-la por aqui. Tem razão, tanta coisa aconteceu. Vi, no outro dia, que também perdeu a sua mãe. Lamento. É a tal passadeira rolante, uns vão saindo (e, felizmente, outros entrando...). Há que dar valor ao que temos porque é tudo muito efémero.
Olhe, escrevi um post que não tem a ver com política... A ver se não se vai embora... :)
Um beijinho. E uma bela semana!
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